IV – Paseando até à Suiça 2012

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– Passo del Bernina e la Diavolleza! –

12 de Agosto de 2012

O dia amanhece sempre fresco por aquelas paragens, a gente sai de casa e esbarra com uns 10 ou 11 graus que nos fazem acordar de vez, se o pequeno-almoço não o conseguiu fazer definitivamente!

Havia meia dúzia de coisas a catar ainda por ali e, como os dias são ainda longos, fiz um desenho meio bizarro no mapa, de tanto vai e volta e torna a subir e a descer!

Pouco me importa se o desenho é lindo e ordenado, desde que eu faça o que me apetece e consiga ver o que me dá na telha!

Comecei por visitar um pouco mais de Monstein, que é como eu faço cada vez que estou vários dias no mesmo sítio: visito um pouco a cada dia!

No dia anterior tinha havido uma festa na aldeia e havia carros de cerveja estacionados pela rua. É sempre curioso fazer uma festa junto a uma fábrica de cerveja, adivinhem o que mais se bebeu por ali!

Há uma igrejinha logo a seguir ao hotel, muito bonita, com uma torre bem tradicional por ali. A Alte Kirche, (ou igreja velha) É uma igreja do séc. XVI ligada ao culto evangélico, que hoje é usada para reuniões e eventos na aldeia.

As flores são presença em todas as aldeias e cidades e na verdade conferem aos locais muito encanto e beleza!

As casas têm frequentemente bancos e cadeiras à porta porque, tal como algumas das nossas aldeias, dá-se muito valor ao sentar à porta a apreciar a tarde e a conversar!

E as paredes exteriores das casas mais antigas e típicas são revestidas com escamas de madeira. Era o caso do Hotel Ducan onde eu estava hospedada.

A igreja nova, Neue Kirche de finais do séc. XIX, fica logo ali à frente e é a que se vê de longe, quando nos aproximamos, pois fica na berma da encosta.


Ali deve morrer pouca gente, pois o cemitério é bem pequenino! Seria de pensar em ir viver para lá só por isso, não?

A água brota gelada das fontes, ao ponto de quando enchemos uma garrafa de agua, esta fica embaciada com a diferença de temperatura, tal como se a tivessemos tirado do frigorifico! Não é de admirar que se ponha tudo a refrescar nas fontes, como barris de cerveja!

E desci o monte… que aqui é um “descer para cima” já que Davos é também bastante alta.

Se Davos é a cidade mais alta da Europa com os seus 1.560m de altitude, Monstein não será a aldeia mais alta com os seus 1.620m?!

E fui até Davos para conhecer o meu amigo do Face, António da Silva, que me mandara mensagem no dia anterior a perguntar quando passaria por Davos!

“Davos? Eu estou aí à porta!”

Lá o conheci, a ele (o da esquerda) e ao Paulo Basilio (na foto) e o António Mendes (a tirar a foto).

Gente portuguesa, ainda por cima vindos de perto da terra onde vivo! E foi preciso ir tão longe conhece-los! Boa gente!

Lá estão os 3 junto da minha Magnífica, para memória futura de gente que conheci em viagem e conto encontrar por terras lusas, mais dia, menos dia!

Depois da conversa possível, pois eles não estavam por lá a passar férias, atravessei Davos, com os seus pormenores interessantes!

E fui passear. É curioso constatar que há quem tenha como trabalho conduzir autocarros nos Pass de montanha! É a coisa mais comum cruzar com autocarros a percorrer uma estrada toda “engelhada” de montanha!

Voltei a subir Flüelapass, que já era quase a avenida de minha casa, para ir para Bernina Pass e seu glaciar!

As neves eternas espreitam-nos por cima dos montes, por entre as arvores e eu queria vê-las de perto!

O Bernina Express passava por caminhos perto dos meus e acompanhei o comboio até a sua linha se afastar de mim.

“Não há praticamente nenhum topo de montanha na Suíça onde não se possa chegar facilmente de comboio. Cerca de 670 comboios e funiculares permitem o acesso aos mais maravilhosos recantos nas montanhas. Alguns em funcionamento há mais de 100 anos. O comboio é o meio de transporte mais utilizado para viajar pelo país e alguns fazem percursos considerados dos mais bonitos do mundo!”

E o Passo del Bernina não é exceção, mas chegar lá de moto é, sem dúvida, muito mais interessante!

O ponto alto do Pass é interessante, com o glaciar a espreitar logo ali em cima, o lago esbranquiçado e as vaquinhas a pastar. Encontrei uma vaca em stress que mordia tudo o que encontrava!

Acho que o seu grande boi a tinha abandonado ou lhe tinha posto um par de chifres e ela mastigada a frustração! Há as vacas loucas e as vacas passadas!

E o deslumbramento estava por todo o lado!

Logo ali fica Livigno e, para quem quer mais Stelvio, começa mais à frente a subida para Bormio.

Livigno é uma cidade que fica aninhada e isolada, em filinha, entre montes durante grande parte do ano o que a faz não se reger pelas leis nacionais e não ter iva! Dai o meu espanto ao ver os preços da gasolina! Ninguém acredita que num país onde os preços da gasolina 95 andam pelos 1.78 haja um recanto nos Alpes em que custa apenas 1.164! Mas é mesmo verdade! A pena que eu tive de não ter o depósito vazio!

A cidade é comprida pelo vale alongado.

Ainda fui passear um pouco para os montes para gastar gasolina… mas tive de voltar mesmo com o depósito a meio e enche-lo mesmo assim.

Encontram-se muitas motos e motociclistas pelas ruas e, de entre todos, cruzei com um casal giríssimo, que viajava em 2 motos, cada um transportando um filho à pendura! Adorei! Só não tirei fotos porque não tenho feitio para seguir as pessoas e eles seguiam em sentido contrario ao meu!

Mais tarde viria e cruzar com um outro casal semelhante, em que apenas as crianças eram mais novitas.

Os motards são bem-vindos por ali!

Passeei mais um pouco, porque a montanha é sempre fascinante para se conduzir uma moto

E voltei ao Passo del Bernina pois queria visitar o seu glaciar de perto!

Ali na redondeza há 2 ou 3 teleféricos, mas eu não iria subir mais do que um, por isso embarquei no que me levaria ao Diavolezza, que sobe dos 2.093 m (onde deixei a motita) até aos 2.978 m de altitude (onde fica o glaciar)

Sempre gostei muito de andar de teleférico, então quando aquelas paisagens estão todas brancas é uma sensação de verdadeiro êxtase, subir ao glaciar!

Lá em cima fica um restaurante simpático que apoia caminhantes, no verão e skiadores, no inverno!

Lá fora as pessoas comem e descansam ao sol, que é quente, embora a temperatura do ar seja fria. É uma sensação parecida com a do inverno, quando tudo é branco, o ar é gélido, o ar condensa-se quando falamos e no entanto o sol é quente e esturrica-nos a pele!

e depois do “patamar” em pedras soltas, onde a esplanada se instala… la Diavolleza espreita…

Caminhantes amontoam pedritas aqui e ali, em montículos maiores e menores e eles ficam ali, na berma do declive até a neve voltar a cair e tudo cobrir…

A sensação é que não há maquina que consiga registar toda a imensidão que é aquele mundo branco, com o seu rio estático, de neve que parece querer descer o monte…

Escrevia eu, ainda em viagem, na minha pagina “Passeando pela vida”:

“O glaciar de Bernina, la Diavolezza… numa foto panorâmica, pois não há outra forma de mostrar toda a sua grandiosidade!

Conheci diversos glaciares, sempre no inverno para fazer ski, mas ir até eles em pleno agosto é… avassalador! Há um pulsar por trás do silêncio das neves eternas, como se uma “alma aquosa” se mantivesse acordada, enquanto a grande entidade dorme! Ouve-se mesmo um leve restolhar de água longínquo vindo do mar de gelo e quase ficamos à espera que ele se mova…

Ele absorve todos os ruídos, como o deserto e uma paz absoluta se apodera de mim…”

Nenhum ruido chega até mim, desde a esplanada, como se não houvesse lá ninguém!

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas foi muito!

Até finalmente ganhar coragem para me afastar e descer ao mundo real…

Há lagos que se formam com o desaparecimento das neves e a gente quase perde a noção da sua dimensão, no meio de tanta imensidão!

Mas, se olharmos com mais cuidado, a setinha vermelha aponta uma tenda “igloo” na borda do lago, e a setinha branca aponta uma filinha de varias pessoas que percorrem o caminho.

Outro lago mais abaixo, o mesmo que já fotografara na subida…

“Quando os glaciares se sucedem e se tornam paisagem acessível, o paraíso parece que desceu à terra ou que nós ascendemos ao paraíso! Lá, no topo dos Alpes, com o glaciar de Bernina a encher-me os olhos e o coração, eu acreditei no paraíso mais uma vez!

Por aqueles dias eu li num blogue de um motociclista brasileiro, Lineu Vitale, a seguinte frase e, depois de um sorriso aberto, tive de concordar com ele:

“Se você se comportar e for um bom motociclista, cuidar bem da sua moto, trocar o óleo no tempo certo e ajudar seus companheiros de viagem, quando você morrer vai para os Alpes como recompensa.”

E voltei à estrada fantástica!

(continua)

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– Guarda, Tarasp e Nauders –

12 de Agosto de 2012 – continuação

Havia ali uma aldeia que eu tinha toda a curiosidade em visitar, uma aldeia tão bonita que já ganhou o Prémio Wakker, atribuído pelo Património Suíço à comunidade ou entidade suíça que fez mais e melhores esforços para preservar o património do país.

E claro, o nome “Guarda” também tem a sua piada, para um português!

Guarda, no Engadine Inferior, é uma aldeia tão bonita que recebeu a distinção “de importância nacional”.

Não se pode estacionar na aldeia, há um parque antes de chegar à entrada e depois temos de caminhar… mas aquilo sobe e não é tão perto como isso! Fui espreitar como era e reparei que não havia ninguém estacionado em lado nenhum, apenas nos parques privados…

Voltei ao estacionamento fora da aldeia…

Fiquei ali sem saber o que fazer, honestamente não me apetecia subir a estrada a pé e depois voltar a descê-la! Então vejo passar uma Pan igualzinha à minha e o tipo lá foi todo contente!

Claro que tratei de ir atrás, ver onde ele punha a moto! Entramos na aldeia e ele parou-a num larguito onde eu já estivera. Bem, se ele pode eu também posso, sempre sendo dois nos defendemos melhor!

“no problem“ disse ele, vendo-me olhar para a placa de “proibido estacionar”.

A verdade é que ninguém nos disse nada e foi muito melhor aproveitar o tempo para visitar a aldeia em vez de o gastar na caminhada desgastante até ao parque!

A vantagem de não ser permitido estacionar é que as casinhas estão completamente visíveis, sem carros monstruosos na frente e podemos ver bem as suas pinturas decorativas a fazer lembrar autênticos bordados!

Há ali casas com 500 e 600 anos, lindas!

Uma destas imponentes mansões inspirou Alois Carigiet um artista famoso que ilustrou uma história infantil de grande fama, ao projetar a casa de Schellenursli, numa história infantil criada por Selina Chönz, uma grande escritora suíça.

Cá está a casa da Guarda de Alois Carigiet:

E cá está a casa real que o inspirou:

Mas não faltam por ali casas espantosas e inspiradoras! Eu própria queria lá ficar a desenhar algumas!

É curioso que a maior parte das casas tem pintada na decoração das paredes a data em que foi construída e depois a data em que foi restaurada!

A língua oficial de Guarda é o Romanche, mas dá para entender o que diz na pintura:

«Fabricha – 1650» – deverá ser o ano de construção e
«Renova 1973 – 1979» – deverá ser o período de tempo que demorou o restauro!

E lá estava a minha Magnífica de namoro pegado com a Pan do austríaco! Curioso que a cor prata na Pan European é a mais banal por cá, mas não pela Europa! De tanta Pan que vi, apenas 2 eram da cor da minha e uma foi esta!

Dei mais uma voltinha pela zona mas a seguir fica uma outra aldeia muito menos interessante, Bos-Cha, com as ruas em terra batida, por isso só andei enquanto o alcatrão era bom, depois voltei para trás, pois não me apetecia andar em malabarismos!

E voltei a atravessar Guarda, com mais umas fotos tiradas em andamento, pois é impossível passar sem querer fotografar!

E lá estava ela, vista do topo do morro que lhe serve de encosta!

E a ruínha tão agradável de fazer de moto e tão desanimadora para fazer a pé! Eheheh

Mais à frente O Schloss Tarasp, um castelo encantador do séc. XII, no topo de um penhasco que, embora seja alto, fica aninhado entre as altas montanhas alpinas que o rodeiam.

O castelo é visível desde todo o lado, até que uma montanha se entreponha, e eu brinquei contornando todo o vale em seu redor para o apreciar de todos os ângulos possíveis, porque na envolvência, ele é ainda mais extraordinário!

Estamos no Baixo Engadine, um longo e belíssimo vale rodeado pelas montanhas de Engadine, ali nasce e passeia-se o rio Inn, que vai buscar a sua água ao Piz Bernina, lá acima dos 4.000 metros de altitude! Depois segue para a Áustria onde atravessa a famosa e bela cidade de Innsbruck, antes de seguir para Baviera, na Alemanha.

É uma sensação tão curiosa sentir-me no meio de tanta beleza e tão perto de mais e mais beleza!

E na minha volta ao vale o castelinho estava sempre na paisagem, deslumbrante!

Na encosta em frente fica Ftan, uma aldeia muito bonita também com mais casinhas bordadas com pinturas lindíssimas!

E segui para a Áustria de novo! Porque na Suíça a gente nunca sabe quando será melhor sair do país para chegar melhor ao país!

Mas ali eu queria mesmo dar uma vista de olhos a um caminho e a uma cidadezinha de ski!

Nauders e o seu castelinho!

A cidadezinha está muito próxima das fronteiras com a Italiana e com a Suíça e por isso foi o ponto de passagem em fuga de muitos oficiais nazis no fim da Segunda Guerra! A fuga dos “heróis”!

O Schloss Naudersberg, um castelinho do Sec XIII domina a povoação!

Eu adoro ver um castelo numa paisagem deslumbrante de montanha!

Não é o castelo em si que eu quero visitar, normalmente, quero apenas fotografa-lo no seu meio!

E para isso às vezes faço muitos quilómetros até encontrar o que procuro!

E voltei para a Suíça.

Fazendo o caminho do Festung de Nauders, um forte construído no séc. XIX para proteger a zona, já que se tratava de uma rota comercial e internacional de 3 países. Hoje funciona ali um museu militar que estava fechado!

O que me chamou a atenção ali foi a arquitetura bizarra! Ainda por cima a rua passa-lhe quase em cima, nem dá margem para muito estacionamento!

Este foi o dia dos motociclistas simpáticos, os viajantes, que andavam na estrada para ver e visitar e fiz boa parte do caminho de regresso a Monstein com estes dois casais como companhia!

Aquela foi a segunda Pan prata que vi na viagem! Por isso vi as 2 no mesmo dia, até ali e depois dali só as vi de todas as cores inimagináveis por cá, incluindo amarelo, vermelho, verde vivo e azul!

O céu estava a fechar-se prometendo chuva, na hora certa em que eu chegava a casa!

Fim do décimo quarto dia de viagem!

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(e vai continuar!)

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