2013 – Passeando pelos Balcãs – Rumo à Roménia

Cucu!

Há coisas inevitáveis, não adianta lutar contra elas!

A gente junta dinheiro, ele é pouco, pensa em não ir a lado nenhum, em ficar e poupar… mas a realidade é que se eu não for, ele acaba por se ir! Porque estou insatisfeita, porque estou irrequieta, e vou andar para um lado e para o outro, e porque estou de férias, que se lixe, até vou almoçar aqui ou ali, e dou mais uma voltinha… e no fim não fui a lado nenhum para poupar e nada poupei…

Vivo rodeada de gente que não pode mais ir mas viajou antes, de gente que nunca foi a lado nenhum e não poderá mais ir, de gente que esperava melhores dias para fazer coisas… e vieram dias piores…

Vou partir de novo sim, poderá ser a última ver que viajo por muito tempo, por isso eu vou!

A MotoTrofa apoia esta viagem e os seus autocolantes ficaram muito bem, a motita está pronta e linda!

A pouco mais de uma semana de partir deixo aqui o mapa “liso” do que pretendo fazer!

Foi feito apenas com os pontos de dormida por isso não está ainda “floreado” com as voltinhas que pretendo dar, mas já dá para ver por onde vou andar!

Espero ir dando noticias!

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Cucu!

Cheguei em paz, depois de mais de 17.000 km de estrada e de prazer!

Muitas foram as vozes que se levantaram para me avisar, prevenir ou desencorajar de ir até à Roménia… mas muitas mais foram aquelas que me desejaram boa viagem e torceram por mim e me acompanharam virtualmente! A estes eu quero agradecer, aos outros quero dizer… se não conseguem ajudar não tentem prejudicar!

Há muito que o medo dos outros deixou de me enfraquecer e eu irei onde quero ir ainda que pareça que vou morrer por lá! E se um dia isso acontecer, paciência, terei sido feliz até ali e isso é que conta!

Todos os anos há algo de problemático para resolver e algo de doloroso para me acompanhar!
Este ano não foi exceção, o “problemático” foi com a máquina fotográfica que partiu uma peça e a assistência do seguro não foi célere o suficiente, por isso tive de comprar outra!

O “doloroso” foi com o meu polegar direito que está a precisar de ajuda cirúrgica com algo como uma Tenossinovite Estenosante, que durante a viagem parecia ir espalhar-se um pouco por todos os dedos da mão! Mas não houve problema, dói mas não me impede de conduzir, por isso tudo bem!

Assim aproveitei e comprei uma máquina fotográfica maior, para me permitir pega-la com a mão toda e não com a ponta dos dedos, já que o polegar não tem força nem agilidade! E tudo correu bem a partir daí, foi só andar e fotografar!

Como em todas as viagens que fiz até hoje, 3 ou 4 coisas direcionaram a minha atenção e me fizeram ir naquela direção, apenas 1 não realizei, por isso seguramente que voltarei!

Passei em 20 países, alguns (3) bem pequeninos, mas todos encantadores, cheios de gente boa, de paisagens deslumbrantes, de costumes curiosos e religiões diferentes. Cada país tem o seu encanto e sua simpatia e, quem viaja, não pode julgar um povo por uma experiência, mas tenho de concordar que ser-se bem recebido por alguém num país faz com que a disposição de lá voltar se afirme! Assim aconteceu com a Bósnia, onde parece que todos os polícias (e foram alguns) me mandavam parar, só para confirmar que eu era uma senhora e saber de onde vinha! Ou em Montenegro quando um jovem policia insistiu tanto para trocar a sua pequena scooter pela minha Ninfa… ou na Albânia que, não tendo dinheiro deles para comprar agua ia pedir para “negociar em euros” e uma senhora veio do bar, direta a mim, com uma garrafa de agua gelada, para me oferecer!

A Roménia foi aquele encanto esperado! Não podemos medir um povo pelos ciganos que tem, temos de o apreciar pela gente comum, pelas cidades e aldeias, limpas e bonitas, pela forma como nos recebem e falam para nós, o esforço que fazem para se fazerem entender!

20 países de prazer e descoberta, mas também de observação e meditação, para poder entender se posso e devo voltar! E sim, ficou marcada na minha mente uma viagem pelos novos países “descobertos”!

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Como todos os anos a viagem foi antecedida pelo já tradicional ritual do partir do porco! Eu sabia que ele não estaria muito gordo, mas todo o dinheiro é bem-vindo!

Tinha ainda menos do que eu esperava… 610€…

Mas tudo bem, de qualquer forma eu nunca programo uma viagem contando com o dinheiro do porquinho! Planeio-a com o dinheiro que vou guardando mês após mês na minha conta e o porquinho apenas vai levando uma notinha de vez em quando e será para extras e ajuda na gasolina!

Este ano tive a sorte de ter o apoio da Mototrofa, que foi de grande ajuda e acabou por compensar o que não consegui juntar já que a moto ficou muito menos dispendiosa! Claro que toda a ajuda merece os seus autocolantes!

E ficou pronta e ficou linda!
Gosto da minha moto que tem corpo para se encher de autocolantes!

E pronto, fiz o saco e estava pronta para sair no dia seguinte!
Sim, o meu saco é aquela mochilinha, não se riam mas ali dentro cabe tudo o que preciso para vestir e cuidar de mim durante um mês e ainda por cima o pequeno portátil e os carregadores também!

O meu moçoilo ainda não estava familiarizado com a máquina nova e as fotos da partida ficaram um bocado tremidas! Mas aqui estou eu na hora de partir!

E parti para a primeira etapa que seria Saragoça!

Beijucas

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É curiosa a sensação de ter relembrado recentemente toda a viagem numa “fugida” e só agora ir falar/escrever sobre ela! Normalmente eu vou relembrando tudo o que vi e vivi a cada dia que volto a tentar escrever mais um pouco do que fiz! Desta vez há uma série de coisas que voltaram à minha mente, em catadupa, e a panorâmica total da aventura é de “que coisa gira eu fiz”!

30 de julho de 2013

– de Penafiel até Saragoça –

O tempo, que nunca mais passava, de repente escoou-se e foi na hora de partir, apenas, que eu fui imprimir o meu livrinho de viagem, para que nada me faltasse de informação no caminho, que eu não gosto de trabalhar durante as férias a procurar o que há para ver. Levo a pesquisa base e por lá é um “faço só o que quero” e vou alegremente atrás do que me apetece! Se descubro coisas novas, tanto melhor, mas não sofro para saber se elas existem. Viajar é um ato de prazer, nunca uma obrigação ou um esforço indesejado!

Na hora de partir demora sempre um pouco até eu processar que estou em viagem, desta vez não foi diferente, lá fui andando e cantarolando por aí acima, mas só alguns quilómetros depois é que a sensação se entranhou mesmo!

Eu não sabia mas iria mostrar aquele mapa geral da viagem, na capa do livrinho, dezenas de vezes durante esta viagem, a polícias, velhotes, senhoras curiosas, rececionistas, taxistas e por aí fora até aos controladores das fronteiras!

Uma das coisas que faço sempre é “despedir-me” do meu país e paro sempre na fronteira, como quem acena com a mão para trás, para casa!

Consegui fotografar a minha motita à entrada de cada país, o que torna a sua primeira longa aventura um acontecimento bem documentado!

Atravessar a Espanha foi só o início do que eu já esperava: um enorme calor!

Mas todo o sofrimento é suportado quando o que se vê e se vive vale a pena e este país proporciona enquadramentos fotográficos muito bonitos, com cores intensas e saturadas, sem que as fotos sejam manipuladas com efeitos pirosos de máquina ou programa de computador e é assim que gosto que seja! Fotografia pura!

Castelinhos em colinas que se elevam sobre longas planícies amarelas… Peñafiel, cidade geminada com a cidade em que vivo, Penafiel!

«Ontem, parei eu para abastecer algures perto de Sória, quando o senhor da bomba, numa de meter conversa, me perguntou onde eu ia,
“Eu, vou para Zaragoza!” respondi eu
“Tão longe?!” exclamou ele.
Perante o seu ar de espanto, quando eu ía para tão perto, corrigi
“Não é longe, eu vou para muito mais longe, vou para a Roménia!”
Então diz ele muito intrigado:
“Onde fica Roménia? Eu conheço bem a Espanha e não conheço essa terra?” …
“A Roménia não é uma terra espanhola!” corrigi espantada “É um país!”
Fez-se silêncio…
“Tu vais à Roménia, Roménia, mesmo?! Mas isso é no fim do mundo!!!!!”
O homem não cabia em si de espanto.
“Não, senhor, o fim do mundo é muito mais além!” eheheheh»

Eu tento parar em cidades diferentes a cada viagem, e desta vez a primeira noite seria em Saragoça, dado que já lá não ia há algum tempo. Aquela cidade é linda, simpática e acolhedora!

A Catedral-Basílica de Nuestra Señora del Pilar é um dos seus grandes orgulhos e entende-se bem porquê, é o maior templo barroco de Espanha!

E domina toda a Plaza de Nuestra Señora del Pilar, com a enorme catedral ali ao lado a praça tinha de ter o mesmo nome!

Estava um calor infernal, (achava eu, que não sabia ainda que haveria muito pior mais à frente!) qualquer sombra era deliciosa para se estar!

E os homens vendiam leques nas beiras das ruas pedonais junto à plaza!

Pus-me a fazer cálculos de ângulos e distâncias para entender de que ponto a minha máquina apanharia toda a catedral e não foi fácil!

Então ali na sombra, por trás do posto de turismo, deparei com uma frase que dizia tanto do que penso…

Ainda não foi desta que visitei a Catedral del Salvador de Zaragoza, uma das duas catedrais da cidade! Passeei um pouco por ali, mas a vontade era tirar as botas e pôr os pés na água! Mas como ninguém o estava a fazer não tive coragem… até porque dava muito trabalho descalçar-me!

Claro que fui ver a Puente de Piedra, gótica, e a mais antiga sobre o rio Ebro.

Dali a perspetiva sobre o rio e a Catedral del Pilar é sempre deslumbrante!

Naquela noite nem me apeteceu andar pela cidade, o primeiro dia de viagem é sempre de adaptação à moto e ao caminho e o calor não me inspirava para caminhar muito! Meti a moto no quintal da pousada de juventude e passei o serão entre o computador e umas cervejas frescas que me serenaram o coração acelerado pelo calor!

Fim do primeiro dia de viagem!

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31 de julho de 2013

– de Saragoça até Albi –

A cada vez que atravesso os Pirenéus faço-o por caminhos e direções diferentes, porque aquilo é imenso, é lindo e tem muito o que ver, não há necessidade de fazer eternamente os mesmos caminhos com tantas hipóteses de combinação diferentes!

Em Saragoça havia algo que eu queria visitar há tempos, o Palácio de la Aljaferia!

Trata-se de uma construção única do séc. XI que vem desde o tempo dos califas!

O edifício é extraordinário, com uma história infinita e ali funcionam hoje também as cortes de Aragão. É imponente olhar para ele, parece diretamente saído do passado!

As histórias que se sabe ali, com um guia simpático e bem-humorado que nos desafiava a repetir o nome do califa a cada momento! Claro que ninguém conseguia por isso marquei como trabalho de casa procura-lo e regista-lo na crónica que fizesse.

E então o homem chamava-se: Abu Jafar Ahmad ibn Sulayman al-Muqtadir Billah…

Se preferirem em árabe é: أبو جعفر أحمد “المقتدر بالله” بن سليمان

O palácio é lindo, apesar de se terem perdido os seus adornos originais, já que foi sendo alterado e acrescentado por cada rei proprietário e por fim pelos usos menos apropriados que lhe foram sendo reservados, como quartel de guerra!

Felizmente acabaram por restaura-lo e poupa-lo a mais danos e perdas…

Aquele que foi chamado pelo seu criador o Palácio da Alegria!

O palácio era fresco, mas o calor apertava já cá fora! Segui para norte, o destino era França, porque a Espanha é para se ver na Páscoa nas minhas voltinhas peninsuleiras!

Passei por Barbastro, uma terra que ficava no meu caminho e prometia uma boa esplanada para eu comer qualquer coisa!

Eu já tinha passado ali noutra viagem qualquer, por isso sabia que comeria bem e fresca!

A cidadezinha é simpática, fica na província de Huesca, uma zona que adoro! Cada vez que lá passo apetece catar mais um pouco! Mas isso seria se não tivesse uma imensa viagem pela frente para fazer, por isso comi, dei uma volta e segui!

O que eu gosto de conduzir pela montanha!
Não importa se a estrada está em bom estado, ou se as curvas são muito apertadas! O que eu gosto numa moto é de a conduzir e na montanha é aquela “aventura” que me apaixona e a minha moto adora também, parece que nem tem peso e que o seu corpo se molda à estrada!

Uma constante nesta viagem foi o parar para comprar água, beber meia garrafa e depois voltar a parar antes que ela aquecesse para beber o resto e assim se ia uma garrafa de 1.5l!
Ao menos a parar que fosse em sítios bonitos!

Porque assim poderia aproveitar para esticar as pernas e ver algo de interessante no entretanto!

E cheguei a França “pronto minha querida, já vais conhecer um pouco do 3º país da tua vida” dizia eu à minha Ninfa!

E o passeio continuava por estradas serpenteantes, daquelas que nunca se sabe quando acabam de subir e começam a descer porque olha-se e estão por todo o lado!

Ora se sobe, ora se desce, e volta-se quase ao mesmo sítio no fim, só que noutro nível! A D O R O!

E com esta brincadeira cheguei a Albi ao entardecer! O que eu me tinha divertido apesar do calor!

Albi era uma cidade que eu andava para visitar há uma série de viagens atrás, mas há tempo, e acabou por ser desta! A sua catedral de tijolo é impressionante! Acabei por não a visitar por dentro, nesta viagem não vi muitas igrejas, eram outras coisas que eu procurava por isso vi mais mesquitas e igrejas ortodoxas! Manias que eu crio assim de repente!

Mas certamente que um dia lá passarei e lhe dedicarei mais atenção, afinal a Cathédrale Sainte-Cécile d’Albi é um edifício gótico extraordinário, do séc. XII, que merece ser visitado!

Ali, enquanto me passeava pela zona mais antiga da cidade, um tipo passou por mim e cumprimentou-me por 4 vezes até eu ter um ataque de mau feitio e o mandar à me***!

Quando me voltei de repente para ele e lhe perguntei o que queria ele até deu um passo atrás! Afinal eu consigo intimidar um homem, heim? Porque terei de ter medo deles, pensei eu, no caso de num país qualquer ter de me descartar de um emplastro que me tente chatear! Fui-me embora a rir sozinha e alto o suficiente para ele ouvir! Desapareceu!

Aquelas ruelas são encantadoras, passeia-se por ali como numa historinha dos Irmãos Grimm !

Comi muito bem naquela noite! O senhor do hostel aconselhou-me um restaurante típico que foi uma deliciosa surpresa, Le Loup Sicret e era mesmo secreto! Se o homem não me tivesse falado dele nunca o encontraria pois fica bem escondido!

Entra-se por uma espécie de centro comercial e lá dentro, inesperadamente, tem um jardim lindíssimo onde eu jantei!

Uma versão deliciosa e sofisticada de hambúrguer de pato que mais parecia um prato de grande culinária, acompanhado de um delicioso vinho, ou não estivéssemos na terra do precioso néctar!

Naquela noite eu andava mascarada de turista “normal” de calções e tal, mas nem assim passei despercebida pois levava o chapéu! Manias!

Cá fora na praça o mundo parecia outro, feito de gente em esplanadas longe do recolhimento romântico do restaurante!

Foi um belíssimo serão, que serviu para retemperar energias e relaxar, como eu estava a precisar.

Fim do 2º dia de viagem!

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1 de agosto de 2013

– Albi, Cordes, Rocamadour –

Aquela zona de Albi é para se catar com calma, mas desta vez apenas fiquei o tempo de dar uma volta mais!

Quando se trata de zonas onde passo com muita frequência tento não as esgotar para continuar a ter assunto a cada vez que lá volte a passar!

Por isso são zonas que nunca cato a fundo, apenas vejo coisas! Então andei por ali a ver coisas e a curtir estrada, como se não tivesse estrada com fartura para fazer nos dias seguintes!

O sul de França é encantador (como todo o país, diga-se) há ruínhas deliciosas com castelinhos em qualquer colina ou planície!

Logo ali a seguir descobri Cordes-sur-Ciel, que tinha visto numa placa no dia anterior e me pareceu digna de visita. E era!

Uma terrinha medieval encantadora e fortificada, com ruínhas ingremes que sobem por ali acima ladeadas de casinhas deliciosas!

É uma das terras medievais agrupadas nos Grands Sites de Midi-Pirénées que reúne uma série de aldeias lindas. Eu passei por algumas mas não iria visita-las todas! Vou lá voltar e pronto!

Albert Camus, depois de visitar a cidade nos anos 1950, dizia «À Cordes, tout est beau, même le regret». (Em Cordes tudo é belo, até o lamento)

Cordes foi um reduto cátaro e pagou caro por isso à perseguição da inquisição! Ando há tanto tempo a pensar percorrer todas as terras e castelos cátaros e estou sempre a cruzar-me com eles!

O aspeto fortificado não se perdeu e as ruelas e casas mantêm hoje aquele ar medieval de castelo protetor! Tudo é lindo por ali!

Curioso que, ao contrário de outros sítios, aquilo estava meio vazio! Não havia enchentes de turistas por todo o lado a fazer barulho e a perturbar todo e qualquer enquadramento que se quisesse fazer! A beleza estava toda por minha conta! Delicioso!

Ainda me voltei para trás ao afastar-me! Que paisagem mais bonita! Fiquei rendida, está na hora de pensar em voltar e fazer a rota Cátara de uma vez por todas!

Mais à frente fica Cabrerets, que nem me atrevi a tentar ver de perto, ou nunca mais sairia dali! É outra cidade medieval dos Grands Sites de Midi-Pirénées que ficou na minha agenda…

E depois Labastide-Murat e por aí fora! Tudo é a visitar por ali!

Mas era a Rocamadour que eu queria ir! Estive lá no ano passado mas não deu para entrar, apenas vi a cidade por fora e apetecia-me vê-la de perto!

Fica encrostada na encosta de um longo penhasco sobre o vale do Alzou, num enquadramento espetacular!

Dei por ali meia dúzia de voltas, não me apetecia nada deixar a moto a quilómetros e aproximar-me no comboio turístico, como me sugeriam por lá! Eu vi motards fazerem isso mas tentei de novo a aproximação ao centro histórico e, surpresa, fui desembocar mesmo no meio da vila!

Bem, depois de estar ali não iria voltar para o fundo do penhasco para ficar a olhar para ele de longe! Então arranjei um cantinho entre carros de residentes e meti lá a minha motita muito escondidinha!

Ora, sem me ter cansado nada a caminhar até ali, já pude escalar o penhasco calmamente!

Foi aqui que eu comecei a levar o lenço motard vermelho comigo para limpar a cara, é que o calor fazia transpirar para caramba! E foi a partir dali que as pessoas começaram a identificar-me facilmente como motard, pelo lenço vermelho diziam, mesmo quando estava longe da moto e nada levava nas mãos, tipo capacete, que me identificasse como tal!

E aquilo sobe para caramba! A multidão de turistas que não estava em Cordes… estava toda ali, acho!

Lá em cima fica a basílica de Saint-Saveur

Onde não se podem tirar fotografias! Eles contam que as máquinas fazem barulho ao fotografar, por isso não tomam conta… das máquinas silenciosas como a minha! Por isso lhe tirei o pio e por isso fotografei em paz!

Rocamadour e os seus santuários cheios de lendas e histórias desenvolveu-se no caminho de Santiago por isso está nos locais de grande peregrinação, antes dos locais de grande turismo, com putos a correr e a gritar e adultos a tirar fotos patetas, com as suas caras em primeiro plano e as igrejas e penhascos em segundo ou ultimo….

O local é extraordinário, com as construções encravadas nas rochas e fazendo delas as suas paredes!

Cá em baixo, onde a moto estava estacionada, ficam as lojas de tudo e a multidão que se acotovela!

Eu gosto que os locais tenham gente, para só já basto eu em cima da moto, mas detesto tudo aquilo repleto de gente que anda por ali sem apreciar realmente o que há, e que grita, e que corre e dá gargalhadas histéricas, e devia mas era estar na praia e pronto!

Ainda passei em Le Puy-en-Velay mas a confusão era bem pior, porque ali é mesmo uma cidade cheia de gente e de transito e que esta em obras…

Os seus montes famosos sobressaem no meio do movimento da cidade, onde nem um espaço arranjava para estacionar a moto!

Raios! Um calor infernal, um trânsito terrível, uma multidão desencorajadora… amuei e fui embora!

Puxa, de longe aquilo tinha muito mais piada, com uma brisa fresca a arrefecer-me as ideias e a convidar-me para conduzir até casa, que naquele dia era ainda em Albi!

Fim do 3º dia de viagem!

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2 de agosto de 2013

– Albi, Saint Montan, Gordes, Sisteron –

A Provença é aquela zona perfumada que eu queria visitar!

É só escrevinhar o nome no Google e a cor da lavanda aparece por entre imensas imagens encantadoras de aldeias medievais lindíssimas, construções de pedra e imensas planícies de perder de vista, entre montes, e rios, e penhascos…

Desde a minha primeira viagem que por ali passo cheia de encanto e vontade de explorar mais um pouco. O perfume paira no ar vindo de todo o lado sem se saber de onde, porque o traz a brisa e o levamos na memória!

No ano passado os pequenos problemas com a gasolina fizeram a minha moto ressentir-se e preocuparam-me ao ponto de não me deixarem passear descontraidamente por ali, e trazia comigo a vontade de voltar. Este ano voltei e, de novo, me maravilhei!

Eu sabia que implicaria fazer uma série de quilómetros para passar onde queria, sabia que o calor seria um empecilho, mas não resisti!

Dei a minha volta por Albi, em tom de despedida e panorâmica geral.

O rio Tarn dá-lhe um encanto antigo e romântico! Aquele rio é, aliás, cheio de encantos no seu percurso!

Estava fresquinho por ali, àquela hora da manhã, eu parei a moto em cima do passeio junto à ponte e apeteceu ficar mais um pouco. Três velhotes pararam junto à moto e esperaram que eu me aproximasse.

“É você que conduz esta moto?” – perguntou um deles.

“Sim.”- Respondi

“Vês? Eu bem te disse que ela vinha sozinha, não havia nenhum homem com ela!” – dizia um deles para os outros.

“Bem! Mas esta moto é muito grande e pesada! Como consegue pegar nela?!” – perguntou outro visivelmente impressionado.

“Não há problema, senhor, é ela que pega em mim e não eu que pego nela! Por isso ela pode bem comigo!” – respondi rindo-me.

“Pois, mas você é tão magrinha e ela tão gorda!” – espantava-se um – “não leve a mal eu dizer que a menina é magrinha!”

“Uma senhora nunca se ofende se a chamam de magrinha!” – eles riram-se. Perguntaram de onde eu vinha e arregalaram os olhos quando perceberam que (para eles) eu vinha de muito longe.

“Pois, é magrinha mas aaaalta! Nem parece portuguesa!” – e olhavam para mim com uma admiração enternecedora.

Peguei na moto e acenei-lhes adeus, os 3 levantaram logo as mãos e acenaram também. Acho que fui o assunto de conversa para todo o dia!

Ainda passei no centro da cidade, estava deserta, o calor começava a chegar, e eu parti.

As distâncias nem parecem muito longas quando as paisagens são encantadoras!

E a Provença era logo ali, sentia-se pelo perfume que começava a pairar no ar. Os campos de lavanda apareceram nas bermas das ruelas mais à frente, primeiro ainda pálidos, ao chegar a Larnes.

O calor já era muito, sentia-me suada e com vontade de me meter na água e, de repente, era a frescura no meio do calorão e o perfume suave no ar fazia com que me sentisse de alguma forma, fresca!

Parei um pouco junto à Eglise de St Pierre, uma construção românica deliciosa do séc. XII, no meio do perfume e da cor púrpura!

Mas eu ia a caminho de Saint Montant, “Le plus beau site médiéval de l’Ardèche”! E era mesmo!

Uma aldeia na encosta, feita de cantos e recantos empedrados, com arcos, escadas e passagens encantadores!

Não havia por lá ninguém! Que maravilha, quase entrava na casa das pessoas nas infinitas voltas que dei lá por dentro!

Cada recanto e passagem era uma promessa de frescura e sombra que eu não conseguia deixar de apreciar!

O tempo que eu andei por ali, sem ninguém para me perturbar! Pude sentar e desenhar, fotografar e apenas estar!

Sem turistas por perto nem tive de esperar para poder “apanhar” espaços sem ninguém! Eu era a única pessoa a visitar aquilo tudo!

Escusado será dizer que tirei um milhão de fotos…

Uma pérola de silêncio e paz no meu caminho!

Os caminhos que segui eram igualmente feitos de paz e encanto…

Até chegar a Gordes… onde estava toda a multidão que não estava em St Montant!

Nem me apeteceu parar, pousar a moto e embrenhar-me na confusão! Preferi ver de longe, onde o barulho e a trapalhada do turismo nem se fazia ouvir!

Porque o meu destino era um pouco mais à frente! Podia ver lá em baixo, uns quilómetros à frente, o que eu procurava!

A Abadia de Senanque, do séc. XII, rodeada de campos de lavanda é quase um ex-libris da Provença, e é linda!

Então pude passear por entre a lavanda e pôr a mão e tudo! Por aquela altura eu já achava que tinha mesmo tomado banho e todo o meu corpo emanava aquele leve perfume delicioso!

Sentei-me e, por entre longos exercícios respiratórios, que não eram mais do que absorver todo aquele aroma, voltei a desenhar e nem quis saber se teria tempo de visitar a abadia!
“Quero lá saber, quero é curtir este êxtase!”

Quando eu pensava que nada podia haver de melhor para viver por ali, entrei na igreja e fui recebida pelos cânticos gregorianos de um grupo de monges! Que coisa extraordinária!

Quando lá voltar tenho de ir visitar os claustros que são lindos, naquele momento nada disso me apetecia!

E fui passeando pelos campos de alfazema, cada vez mais frequentes e cada vez mais perfumados e coloridos!!

Não sei quantas vezes parei para ver de perto e para pôr as mãos! Dois carros me seguiam e nunca me ultrapassaram, paravam sempre que eu parava e as pessoas saiam e faziam o mesmo que eu! Parecíamos todos tolinhos, parávamos, e íamos passear pelos carreiros entre a lavanda, voltávamos a seguir e a parar mais à frente!

Há mesmo miradouros para se poder apreciar os imensos tapetes purpura na planície lá em baixo!

Acho que ali ninguém planta batatas ou cebolas, ou flores de nenhum tipo para além da lavanda!

E quando a lavanda pareceria nunca mais ter fim, entrara já nos Alpes Provençais e Sisteron apareceu ao fundo!

E anoiteceu num espetáculo digno de toda a beleza que me acompanhara até ali!

A “minha casa” naquele dia era ali perto, numa montanha, em Authon.

Comecei a subir e os quilómetros a escoarem-se até que, 25km depois o GPS me diz “chegada ao destino à direita!”

Era noite fechada já e, à direita havia apenas o precipício, porque à esquerda nada havia!

“Raios, queres que eu durma em cima da pedra a 2.000 metros de altitude?”

Nada havia em redor e eu não sabia o que fazer, andei um pouco para a frente e nada havia também, via as luzes de uma casinha ao longe, mas o caminho era isso mesmo, um caminho manhoso! Fui até lá e nada mais faria, ou era ali ou iria para Sisteron arranjar onde dormir!

No escuro puder perceber um senhor que passeava o cão! Aproximei-me e perguntei-lhe se sabia onde era o sítio onde eu deveria dormir. O homem ficou aparvalhado a olhar para mim quando falei!

“Você é uma senhora!” – exclamou!

“Valha-me Deus, queres ver que se vai pôr com conversas sobre mim e sobre a moto, e de onde eu venho ou para onde vou, e eu estou aqui no meio do monte na conversa em vez de ir procurar a minha cama?!”

Mas não, passada a surpresa inicial, ele sabia onde era sim, só tinha de andar mais uns 4 ou 5 quilómetros e estaria lá!

Explicou-me então que ficou em pânico quando viu uma moto tão grande vir na direção dele, pelo carreiro onde nem os carros cabiam, e o quanto lhe soube bem ouvir uma voz de menina e não de um homem enorme e barbudo!

Ficou a ver-me dar meia volta, com as rodas a caírem para os campos mais baixos nas bermas do caminho e disse-me adeus quando parti, cheia de “mercis” e “bonnes nuits”.

O sítio onde dormi era um refugio para esquiadores e caminhantes e receberam-me cozinhando para mim, com direito a vinho e café e aquecimento no quarto pois por ali o frio chega cedo!

Que bem que eu dormi!

Fim do 4º dia de viagem!

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3 de agosto de 2013

– Sisteron, La Spézia –

Naquele dia… tirei o dia para andar de moto!

Eu tinha dias destes nos meus planos, em que o que eu queria ver a seguir seria longe, por isso estava preparada para passear, para curtir a paisagem e as curvas da estrada de montanha, mas também para correr um pouco!

São estes dias, e tive alguns nesta viagem, que desentorpecem os meus sentidos e os da motita, depois de voltinhas a baixa velocidade por aqui e por ali.

Mesmo assim faço tudo sem stress, não há-de ser porque o meu destino é mais distante que eu desatarei a correr sem olhar para os lados. Cada dia é percorrido como se fosse o único da viagem, com todo o interesse e prazer de condução e passeio, parando sempre que me apetecer, para ver, fotografar, desenhar ou comer. Se se fizer tarde e chegar ao meu destino durante a noite, tanto pior, o meu Patrick GPS que faça o seu trabalho e me leve à porta de “casa” e se não o souber fazer… logo se verá!

Por isso ainda me dei ao luxo de andar para cima e para baixo no mapa e de tirar algumas fotos de montanha, quando o prazer foi em altitude e curvas alucinantes!

Para mim passear pela montanha, neste caso pelos Alpes, é, só por si, um delicioso encanto! Não precisa de ter nada mais para eu ser feliz!

À luz da manhã é que pude ver direito onde dormira, rodeada por montanhas extraordinárias!

E descobri também que ficava na “Route du Temps”, um nome bem sugestivo para um percurso perto do céu e a tocar o paraíso!

E mais à frente já se via o imenso vale onde se situa o penhasco de Sisteron.

Sisteron, entre a rota da grande produção de fruta e a rota da lavanda!

A cidadezinha não é tão encantadora como eu pensava! Quando a vemos de longe, com o penhasco encimado pela cidadela, temos a sensação de que é toda construída em pedra, com ruelas estreitas e onde os carros não podem entrar… e em parte é!

Mas tem também estradas cheias de carros e movimento e confusão, e as casas são cinzentas e o chão alcatroado ou de cimento!

Não me apeteceu subir até à cidadela, estava muito calor e tinha de subir ainda muito…

A perspetiva da cidade era muito interessante lá de cima. Sisteron, uma cidade cheia de história antiga que se estende desde os romanos, testemunhando todos os grandes momentos históricos do país, por se situar em ponto tão estratégico e de passagem obrigatória para tantos destinos!

Preferi passear-me pelo mercado de rua e deixar explorações mais profundas para uma visita posterior!

Eu queria ir a Castellane e à Gorge de Verdon, mas aquilo estava impossível de povo irrequieto por todo o lado! Tive de me obrigar a deixar para outra vez, quando eu programar passar ali a noite e visitar a garganta de manhã, porque naquele momento era impossível! Por isso amuei e segui até Rougon.

Subi até à aldeiazinha e, ao menos lá, não havia ninguém para além dos locais! Foi um alívio e uma pausa na paz!

Com os montes “rachados” como paisagem, os mesmos que se abrem para Verdon!

Eu tenho mesmo de ir explorar aquilo direito, pois se o rio Verdon é deslumbrante no seu percurso mais banal, nas gargantas deverá ser realmente extraordinário, com as águas turquesa e os penhascos a pique em seu redor!

E seguindo percursos de água logo a seguir fica o Lac de Castillon, provocado por uma barragem e cheio de beleza, com as suas águas turquesa com barquinhos a passear em cima!

E tinha de tratar de atravessar os Alpes para descer para Itália.

Estava numa zona cheia de passos de montanha interessantes, lá fui andando de curva em curva pelo Col d’Allos até aos 2.250m de altitude.

Há momentos em que a gente olha para o caminho percorrido e ele parece que está por todo o lado!

Entrei em Itália por uma das minhas fronteiras preferidas!

Pertinho de Barcelonnette, onde a seguir ao lago muito bonito fica a estrada extraordinária com este aspeto!

Depois vem mais montanha, estamos em Argetera.

E começa a confusão dos vilarejos e aldeolas, sem muito o que ver mas com muito transito e camiões à mistura!

É este ponto um dos únicos nas minhas viagens em que eu gosto de apanhar a autoestrada, pois é uma alucinação! Sempre que vou por aqueles lados passo ali da estrada nacional aborrecida para a autoestrada mais louca que se pode desejar! As velocidades variam entre os 80km, nos troços mais lentos e sinuosos, para os 130km/h nos mais rápidos e a gente parece que anda num carrocel, ladeado de paredes, repleto de curvas e com os carros a competir connosco! Adrenalina pura!

E cheguei a La Spézia, onde ficava a minha casa naqueles dias!

E foi o fim do 5º dia de viagem!

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4 de agosto de 2013
– Les Cinque Terre –
A minha ida a La Spézia tinha uma única finalidade… que afinal eram cinco!

Fui para ali para visitar as Cinque Terre! Dizem que aquelas terras se visitam de barco, porque se tem perspetivas únicas sobre elas mas, como eu costumo dizer, quem decretou isso, provavelmente nunca as fez de moto senão mudaria um pouco o seu discurso, do tipo “As Cinque Terre visitam-se de barco ou de moto!” e aí sim, eu assinaria por baixo!

Estas cinco aldeias piscatórias, estão encravadas na encosta rochosa e ingreme da costa, com poucos acessos e as praias sem areia! Tudo é pedra e água por ali! As ruelas que levam a cada uma, e de umas para as outras, é ziguezagueante, deformada, como eles avisam, e por vezes em muito mau estado já que as intempéries mais invernosas as vão destruindo com enxurradas de água que corre violentamente pela encosta até ao mar.

Decidi começar pela mais longínqua em relação a La Spezia. Entenda-se que este “longínqua” se refere a apenas 32km de distancia! E fui até Monterosso Al Mare, depois viria de terra em terra até chegar de novo a La Spézia!

Os enquadramentos encantadores não se fizeram esperar! O mar ao fundo e as montanhas logo a seguir, sem dar tempo a procurarmos pelas praias pois elas não existem!

A vantagem de se ir por terra e de moto é que a qualquer momento a gente encosta um pouco e apanha perspetivas espantosas da costa!

Por isso bem antes de chegar ao destino eu já conseguia vislumbrar a cada curva do caminho a aldeia que queria visitar!

Ao chegar-se lá, pousa-se a moto no meio da multidão de scooters e toca a caminhar por entre o casario vertiginoso e colorido! Aquilo é mesmo bonito porque não é feito para turista ver, é como as pessoas fizeram que fosse ao longo dos tempos e agora a gente vai lá ver!

Uma das coisas que me encantou por ali foram as cores vivas, quase berrantes por vezes, e o ar de “normalidade” que tudo tinha, desde pessoas que lavam e esfregam na rua até barcos “estacionados” na berma do caminho, encostados às casas, com toda a naturalidade!

Gente muito religiosa, as igrejas às risquinhas estavam cheias àquela hora, com povo devoto a enche-las, apesar do calorão que se fazia sentir lá dentro! Estava bem mais fresco cá fora!

Então chega-se à Piazza Garibaldi e logo a seguir fica o mar e aquele é o único areal nas cinque Terre! Ainda estava vazio, nem todo o turista e banhista se levanta cedo como eu!

Andei por ali de nariz no ar, pois muito do encanto está nas casinhas encavalitadas que quase se tocam lá no alto!

A aldeia seguinte seria Vernazza.
Segui o seu caminho e a dada altura conseguia já vê-la e tudo mas, de repente a estrada estava cortada! Andei por ali a experimentar pois por vezes até dá para uma moto passar, mas a dada altura não havia mais estrada! Tinha desaparecido de todo e restava apenas um caminho muito manhoso e extenso, cheio de buracos, cascalho e descidas ingremes!

Não meti ali a moto! O meu problema não era só o ir por ali abaixo, era também o regressar e subir aquilo a pique com uma moto de 320 kg a resvalar! Por isso tentei uma outra ruela, que também anunciava que estava cortada mais à frente! Estava melhor que a anterior mas nada fácil de fazer com a minha Ninfa, por ser muito extensa, irregular e esburacada para além do cascalho, por isso fiquei ali a decidir se devia ou não arriscar.

Então apareceu um fulano numa maxi-scooter, ficou um bocado a olhar e propôs, eu ajudava-o a passar e depois ele ajudava-me a mim! Boa, assim já arrisco, disse eu!

Ora o homem mete-se por ali fora, eu a segurar a moto pela traseira e nem assim ele a segurou e pimba, no meio do chão!

“Mas então você não sabe andar fora de estrada?” – perguntei eu
“ Nunca andei pois tenho um medo de morte!”

Oh valha-me Deus, e vem-me com propostas de ajude-me ai que eu passo? E o pior de tudo, não tinha força para levantar a moto do chão, fui eu quem fez o maior esforço senão ele ainda lá estaria hoje a puxar por ela!

Bem, se nem com a tua podes como poderás com a minha?
Peguei na minha motita e fui mas é dar a volta a todo o circuito e tentar chegar a Vernazza vinda de Lá Spézia. Se desse veria a terrinha, se não desse veria as outras todas e pronto!

E ainda me dizem que eu não devo viajar sozinha, e seria melhor levar alguém assim, que em vez me ajudar teria de ser ajudado por mim?

Voltei aos bons caminhos porque por ali as ruínhas são muito bonitas… quando não estão todas lixadas!

Voltei a la Spézia e, quem vai dali pode fazer a via panorâmica que nos permite ver toda a cidade com o porto e a montanha ao fundo!

Julgo que é o ângulo mais bonito para se apreciar a cidade!

E lá estava a primeira aldeia para quem vem da cidade: Riomaggiore

Tão visível lá de cima que fiquei ali debruçada sobre a berma a aprecia-la!

Mais uma vez a gente deixa a moto junto à multidão de motos e scooters e vai por ali abaixo, pelas ruelas estreitas, apreciando perspetivas deliciosas do conjunto!

A casa do Município estava toda pintada com murais de mar e mitologia muito bonitos! Espero que estejam a pensar restaura-los pois a tinta começava a estalar!

E as ruínhas e caminhos por entre as casas, com degraus e passagens cobertas por elas, mais pareciam entradas particulares!

Quando o calor era já insuportável e o sol ameaçava torrar-me a mioleira… o mar apareceu ao fundo de um caminho estreitinho por entre casa! Oh visão do paraíso!

Meio como quem se precavém para o que não vai acontecer e se prepara para o que não vai fazer, eu pusera o fato de banho na bolsa de cinta, muito enroladinho… e agora ele berrava por mim lá dentro!

A frescura das águas berrava também por mim! Mas como fazer? Não havia condições de vestir o fato ali perto e ir para a água!

Então uma senhora provocou-me “vá nadar!” ao ver-me ali tão sôfrega a olhar para o mar “não tem fato?” sim tenho, tirei-o da bolsa e mostrei-o, mas como o visto por aqui?

Italiano é desenrascado como português! Então ela chamou a filha (acho eu) e, depois de catarem nos sacos, deram-me um vestido de alças, daqueles que eu nunca usei na vida, tipo franzido no peito e solto e comprido até aos pés, e disse-me para eu me trocar dentro dele!

Oh santinha, vou pôr uma velinha por ti em algum lado!

Deixei-lhes as minhas coisas a guardar e fui nadar! Saltei direta do penhasco para a água como os miúdos estavam a fazer! Huuuuuum delicia!

No fim nem precisei me limpar, vesti a roupa por cima do fato molhado e fui passear pela aldeia com o rabo molhado ainda! Que bem que soube!

A senhora ficou minha fan, falamos um bom bocado de onde eu vinha, para onde eu ia e, no fim, deu-me o vestido, para que eu não morresse de calor onde houvesse mar, porque a Itália estava sob uma vaga de calor muito forte! Mas não era só a Itália, era toda a Europa e o vestido veio a revelar-se útil noutras situações semelhantes!

É nestes momentos que eu acho que deveria comer um gelado, que era o que toda a gente fazia por ali… mas tive de me reduzir a muita água e alguma cerveja já que não gosto de gelados…

Estavam 39/40, tudo irradiava calor e um pormenor me enterneceu! A cada fonte, a cada chafariz, uma taça estava disponível para dar de beber aos animais! A princípio pensei que era da loja ao lado, para o seu cão, mas depois percebi que era para toda a gente pois existiam em todos os pontos de água! Um gesto tão simples e tão grandioso! Quanto cão e gato vi ser saciado e quantos ficavam ali à espera que alguém lhe enchesse a pia! Lindo!

E segui para Manarola que é logo à frente!

O mesmo clima, o mesmo ambiente, o mesmo calor, o mesmo mar e um novo mergulho!

Ali eu já fui direta à água! Tinha o fato vestido, foi só tirar a roupa, meter tudo dentro do chapéu e entregar a uma velhota para cuidar!

Lá de baixo eu via a velhota a espreitar, pensando com os seus botões que eu devia bater muito mal!

Só não tinha levado a toalha comigo, tinha ficado na mota, mas também não fazia falta, com todo o sol e calor que estava até sabia bem secar o corpo ao ar!

Aquela vidinha já estava a fazer fome e fui comer um peixinho aos pacotes ali perto, que me tinha chamado tanto a atenção! Uma fritada deliciosa!

Podia passar por ali todas umas férias! Que perfeito ambiente!

E segui pela costa apreciando as terrinhas encavalitadas nos extremos dos penhascos com vista privilegiada para o mar!

Vi Corniglia ao fundo, para mim a menos interessante das 5 terras!

Ali foi só para beber mais qualquer coisinha que o calor estava a sacar toda a água de mim e eu tinha de repor o stock!

As ruelas estavam cheias de gente a lambuzar-se de gelados!

E a minha motita a espantar toda a gente no meio das colegas mais pequenas!

Finalmente voltei a aproximar-me de Vernazza, aquela que estava inacessível pelos caminhos lá de cima, deixou-me aproximar pelo caminho que vinha de Corniglia! Maravilha!

Ao aproximar-me da aldeia pude perceber a dimensão do estrago nas ruas de acesso! Entendi então que se tivesse persistido em desce-las poderia mesmo ter-me virado de pernas para o ar, porque o estrago era muito grande e muito extenso e as obras estavam a decorrer até à entrada da aldeia, com direito a terra, pó e buracos com fartura!

Entrando na aldeia, era a paz e a alegria!

E mais multidões a comer gelados por todos os lados!

Oh mar bendito, depois da caminhada, da poeirada e do calorão… claro, voltei a tirar a roupa, a meter tudo dentro do chapéu, a dar a uma velhota para guardar e pimba, mar!

Eu já nem me preocupava se me iriam roubar a maquina fotográfica ou a bolsa, eu só pensava no fresquinho da água!

Pela aldeia as pessoas faziam filas para encher as garrafas de água nas fontes! Eu sentia-me fresca, com o rabo ainda molhado do banho e uma cerveja fresquíssima a acompanhar!

E fui passear um pouco, que não sou pessoa de ficar horas num lugar a apanhar sol e calor!

La Spézia lá estava com o pessoal simpático do hotel que se fartava de falar comigo e achava graça à pronúncia portuguesa e se punha a encontrar semelhanças entre as duas línguas!

E foi o fim do 6º dia de viagem!

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5 de agosto de 2013
– La Spézia, San Gimignano, Siena, Rimini –

Haveria muita coisa que eu gostaria de ver no meu caminho… há sempre!

Mas não voltei a Florença, nem a Pisa, apenas segui por onde tinha traçado o meu caminho. Por vezes dá jeito ter um percurso pensado para que não fique ali, como o tolo no meio da ponte a querer seguir todas as placas.

Afinal, se tudo correr bem, não faltarão oportunidades para voltar a Itália e catar mais um pouco ou voltar a sítios já antes visitados! Por vezes perguntam-me como giro o que quero ver quando afinal queria era ver tudo! Giro assim, com a promessa dentro de mim de que vou voltar!

Quando a gente faz uma viagem de vez em quando poderá ter essa dificuldade, de saber o que ver, porque não sabe quando voltará, mas Itália começa a ser uma daquelas terras que eu nunca visitei de fio-a-pavio mas onde passo tão frequentemente e por tantos trajetos diferentes, que já é um dos países que mais visitei e de que conheço mais!

Não havia nada de especial que eu quisesse ver em La Spézia, mas não resisti a ir ver uma construção religiosa muito interessante e bizarra que me apareceu na berma da estrada!

Uma igreja redonda, no meio dos prédios, ou mesmo em cima deles!

Descobri que é a Cattedrale di Cristo Re, (não sabia que eles diziam Re e não Rei!) que foi projetada nos anos 20 mas apenas consagrada nos anos 70, depois de muita lavoura, de guerras, atrasos, reestruturações do projeto inicial, e vários arquitetos se debruçarem sobre ela!

A construção é redonda e sem janelas visíveis, o que provoca uma luminosidade curiosa e inspiradora!

Há dois tipos de igrejas/catedrais que me fascinam, as muito antigas, desde o início da cristandade até ao final do gótico, e as muito modernas, para a frente do final do séc. XIX início do séc. XX! No entretanto, entre umas e outras, as renascentistas, barrocas e tal, são interessantes mas não me provocam as mesmas sensações… manias!

Tem no meio do teto, aquilo a que eles chamam um olho, extraordinário! E a sensação que provoca é única!

E siga para San Gimignano!

Há muita coisa que eu ainda quero visitar na Toscana e uma delas era esta terrinha medieval, com as suas torres que lhe dão o nome de Cidade das Belas Torres!

A cidadezinha estava cheia de gente, o calor era insuportável e havia momentos em que eu não tinha mais a certeza se queria visitar a cidade, ou andar de moto ou deixar-me cair para o lado! Acho que parei em todas as esplanadas para beber mais qualquer coisa, a cada vez que os meus miolos pareciam ir começar a fumegar!

Realmente as torres são muitas por ali, a gente pode vê-las em todas as praças a espreitar lá de cima!

A Praça Cisterna tem o poço no meio e os turistas entretêm-se a atirar moedas lá para dentro!

Fez-me lembrar o guia do Palácio de la Aljaferia em Saragoça que, junto ao poço Da Torre do Trovador, dizia que os turistas adoram atirar moedas para todos os poços que encontram, por isso se alguém o quisesse fazer e não tivesse moedas ele aceitava cartão de crédito! Eheheheh

E é verdade e quase patético, encontram-se moedas em tudo o que é poço, lago, ou pocinha de água por essa Europa fora!

Tinha de seguir o meu caminho porque, apesar de tudo, era menos penoso conduzir moto do que caminhar debaixo de 40 tórridos graus de temperatura! Ao longe podiam-se ver as torres irregulares da cidade!

Ainda parei em Siena!

Estava a precisar demais de voltar a beber qualquer coisa!

Por aqueles dias eu já quase não comia durante o dia, apenas bebia, bebia e voltava a beber! A sensação de que a água aquecia rápido demais fazia-me parar a cada momento para a beber antes que ela aquecesse, lá trás na mala, que mais parecia um forno.

Siena, aquela cidade tão antiga que a sua história quase se perde na história! Fiz amizade com um pintor de rua que estava a pintar uma imagem religiosa no chão.

O sol ajudava a valorizar as cores e a tornar a obra mais viva e interessante, mas estava a torrar os miolos ao homem!

Depois é caminhar pelas ruas antigas e estreitas, com praças que se abrem rodeada de construções que são autênticos monumentos grandiosos e que estão por todos os lados. Aliás, a cidade é conhecida por isso mesmo, pela harmonia e magnificência da sua arquitetura que faz do seu centro histórico um autêntico museu ao ar livre!

E de repente, por umas “portas” aparentemente pequenas, entra-se na grande e ampla Piazza del Campo, com o Palazzo Pubblico e a sua enorme torre ao fundo.

Parei logo ali a tomar uma grande cerveja gelada à sombra! A paisagem e a possibilidade de apreciar detalhadamente o que me envolvia justifica perfeitamente a fortuna que uma cerveja custa por ali!

A Torre dei Mangia tem 88 metros de altura e as suas paredes têm 3 metros de espessura mas, o que me fascinou mais foi a história do seu nome! Dizem que ela deve o seu nome à alcunha do seu primeiro guarda “Mangiaguadagni” que gastava tudo o que tinha em comida!

Como eu entendo o senhor!

Isso fez-me lembrar quando há uns tempos eu dizia que gastava tanto para comer sozinha como uma família de 3 ou 4 pessoas e que, se eu engordasse na proporção do que como, já não caberia nas portas! Eheheheh

Fui ver aquilo de perto mas estava decidida a não entrar para ver interiores!

Por isso pus-me a apreciar o pátio interior e a brincar com perspetivas vertiginosas!

Uma guia giríssima, vestida como uma princesa, com uma sombrinha rendada prendia mais a minha atenção que a do grupo que lhe pagava os serviços!

Diz a lenda e a mitologia romana que Siena foi fundada por Sénio, filho de Remo, e isso é visível pela cidade já que há estátuas, gravuras e relevos representando os irmãos Romulo e Remo a serem amamentados pela loba, por todo o lado, como acontece em Roma.

A catedral estava cheia de gente, à fila e ao sol para a visita! Eu, ao sol, para visitar o quê? Nem pensar! Estão 40 graus e eu não morro por visitar coisa nenhuma! Por isso olhei-a por fora, debaixo de uma sombra, e mais nada!

A catedral é lindíssima, em gótico italiano, com os mármores policromados e tal, mas terei de a visitar noutra altura…

Bebi mais uma garrafa de água gelada por ali, a minha barriga já chocalhava com tanta coisa que eu já bebera, e segui pelas sombras nas ruelas estreitinhas da cidade.

Claro que ao chegar perto da moto já estava a morrer de calor e de sede de novo! Fui a uma lojita comprar mais uma garrafa de água. Não consegui abri-la, agarrei com a mão direita e torci com a esquerda e não consegui… voltei lá dentro e pedi ao senhor que ma abrisse! Ele ficou estupefacto “Então você conduz aquela moto grande e não abre uma garrafa de água?” – exclamou!
“Pois é, tenho a minha mão direita doente!” – expliquei eu e mostrei o meu dedo polegar inchado e paralisado. O homem ainda ficou mais escandalizado “E vem de tão longe com a mão assim naquela moto?!” – e arregalava os olhos incrédulo. “Não tem problema, eu consigo conduzir assim só não consigo abrir uma garrafa de água, mas isso não falta quem faça por mim!”

Segui viagem rezando dentro do meu capacete, que mais parecia um forno, por um pouco de ar fresco!

“Valha-me Deus oh S. Pedro, manda-me um pouco de ar fresco antes que eu morra esturricada!” – cantarolava eu dentro do capacete, quando estava mais fresco lá dentro, com a viseira fechada, do que cá fora!

Estranhei o céu azul, que parecia meio basso mais ao longe. Será nevoeiro? Isso é que era fixe desde que fosse fresco! Mas claro que não devia ser nevoeiro, afinal o céu mantinha-se azul, apenas basso, fosse pelo que fosse.

Mas qualquer dúvida foi imediatamente esclarecida à medida que fui andando! Grossas pingas começaram a cair, como torpedos em cima de mim! “Chuva?” sim cada vez mais forte, pingas que “enchiam baldes”!

De repente entendi que, ou parava para guardar a maquina fotográfica, ou iria expô-la a um banho. E assim foi, parei na berma da estrada e, tão depressa guardei a máquina, começou o diluvio! Chuva tão intensa que em breves momentos me molhou toda, enquanto eu vestia o blusão. Oh que bem que soube, a temperatura desceu vertiginosamente e a rua virou um pequeno rio. Eu quis dançar no meio da rua!

O céu não deixou de ser azul, a nuvem mijona não era negra, a temperatura desceu para os 23 graus e eu segui caminho naquele temporal surrealista!

Uns 10 ou 15 km à frente tudo era sol e calor, voltei aos 40 graus e tudo secou em mim, como se nada tivesse acontecido!

“Oh S. Pedro, se realizas assim os sonhos de quem te pede vou recorrer mais vezes a ti!”

Cheguei a Rimini ao entardecer, onde um ambiente noturno de praia me esperava, numa festa constante. O hotel era gerido e assistido por pessoal russo muito simpático que me tratou muito bem e acomodou a minha motita nas traseiras do edifício, longe de olhos curiosos.

E fui-me encher de comida pois começava a ter receio de ficar fraca de apenas beber e pouco comer!

Aquela terra é uma animação de música nas ruas e esplanadas e montes de movimento! A noite estava bem mais fresca e agradável que o tórrido dia, por isso deixei-me estar por ali a curtir o ambiente e a falar com uns e com outros!

E foi o fim do 7º dia de viagem.

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e 2013

– San Marino, Imola, Bled –

Este foi um dia para percorrer mais uma grande distância. Queria ver uma ou duas coisas por ali perto mas o destino era outro país.

San Marino era uma daquelas terras que eu queria visitar. Sempre me despertou a curiosidade conhecer um dos países mais pequenos do mundo!

Dizem que é o 5º mais pequeno do mundo com apenas 61 km² de área e o 3º mais pequeno da Europa, depois do Vaticano com 0,44 km², e do Mónaco com 1,95 km²!

Adorei a designação completa de San Marino: Serenissima Repubblica di San Marino! E na realidade é mesmo sereníssima! Um enclave que é como uma ilha rodeada por Itália, é a população mais pequenita do Concelho da Europa! Olha-se de longe e vê-se o penhasco em que fica empoleirada e apetece mesmo lá ir!

Não se pode circular pelas ruas ingremes que sobem a encosta do monte, mas pode-se ir até bem perto e depois não custa nada caminhar por ali acima e por ali abaixo! As pessoas são simpáticas e, aquela hora da manhã, quando lá andei, não estava ainda inundada de turistas, por isso foi um passeio pelo topo do morro, que sobressai na imensa planície em paisagens deslumbrantes! Um elevado recanto encantador!

A ignorância é grande e eu não conseguia entender onde poderia estar o circuito de San Marino!

Aquilo é tudo tão justinho e ingreme que não caberia ali um circuito de Formula 1!

Claro que me pus a imaginar como seria uma alucinação uma corrida de moto por aquelas ruelas, um espanto, seguramente!

Lá de cima pode-se ver um mar que rodeia o penhasco, mas um mar de casas e paisagem, como se San Marino fosse uma ilha rodeada de Itália por todos os lados!

Ali ao lado fica o posto de turismo, onde perguntei onde ficava o autódromo onde se realiza o Grande Prêmio de San Marino. Fiquei a saber que nem é ali perto sequer, como eu imaginara! Na realidade realiza-se em Imola, no autódromo de Enzo e Dino Ferrari, perto de Bolonha.

Ok, Bolonha até ficava no meu caminho, vou lá passar e ver como aquilo é!

Entretanto continuei a explorar as ruelas encantadoras.

E no meio do intrincado trajeto de ruelas estreitas chega-se à basílica, numa praça empoleirada na encosta.

A Basilica di San Marino é naturalmente dedicada a São Marino, o fundador da republica!

É neoclássica, um estilo sóbrio que me fascina, pois foi construída no séc. XIX, quando a anterior construção, muito antiga com cerca de 15 séculos, entrava em colapso!

A sensação é de que estamos a passear por uma cidade e não por um país!

As torres são 3 e serviram para defender a república de ataques dos povos vizinhos, entre eles os que vinham de onde eu vinha: Rimini!

O calor era já tanto que comecei a não querer andar muito mais! O que me valia era o meu lenço que eu molhava em todas as fontes para limpar e refrescar o rosto já febril!

Peguei na moto e pus-me a andar, ao conduzir o calor suporta-se melhor!

Queria passar em Imola, por isso no caminho passei pela terra de uma amiga do Facebook! Não a encontrei, mas passei perto.

O calor não me deixava sequer raciocinar, não havia ninguém na rua para eu perguntar e descobri, só depois, que era mais à frente um bocado…

Não foi desta que vi a terra da minha amiga Franca Bagnari!

Fui embora frustrada mas agradecendo o vento que a moto provocava em mim ao andar, já que não corria a menor aragem e a temperatura passava os 42º….

Mais à frente cruzei com um castelinho encantador todo em tijolo! Aquele país é cheio de surpresas!

O castelinho na realidade é considerado uma joia de entre as fortificações do séc. XV em Itália!
Chamam-lhe La Rocca di Bagnara e é lindo!

E tem um jardim com sobras deliciosas para eu parar e refrescar-me com uma deliciosa e gelada garrafa de água de um litro e meio!

Imola fica logo à frente!

Tal como eu imaginava, não faltam indicações que falam do autódromo! E lá estava ele!

Coisas de carros não são o que mais me apaixona, por isso pouco ou nada sabia do autódromo! Nem sabia que ele não era perto de San Marino!

Mas as histórias e os mitos desses locais atraem-me por isso fui juntando as que descobri por lá e as que catei naqueles dias… Afinal tratava-se do autódromo com o nome do fundador da grande marca italiana e onde morreu Ayrton Sena em 1994…

Estava tudo deserto por ali, mas podia-se andar à vontade pelas bancadas… pena não se poder ir até à pista…

Enzo, o criador da marca Ferrari, e Dino, Alfredino Ferrari, o seu filho que deu o nome a um modelo da marca, sofria de uma doença muito complicada e que o vitimou, distrofia muscular…

Na entrada principal tem uma escultura curiosa com uma série de carros que saem de dentro uns dos outros.

Pus a moto a beira e fui tirar fotografias para o meu moçoilo ver e para os meus amigos que me pediram fotos do circuito!

Fotos a acrescentar à minha pequena coleção de grandes circuitos:

Estoril – Portugal
Portimão – Portugal
Silverstone – Reio Unido
Nurburring – Alemanha
Enzo e Dino Ferrari – Italia

Não está mal para quem nem aprecia carros!

O calor estava infernal! Dei-me conta de repente de que as mãos suadas não entravam nas luvas, a roupa estava colada às costas e a moto escaldava. Era o suplício total.

Tinha de conduzir ou morreria naquele ar escaldante e parado que parecia estar a sacar toda a água do meu corpo. Se não partisse rapidamente acho que cairia para o lado inanimada!

E foi o que vi uns quilómetros à frente, quando o termómetro da minha moto oscilava entre os 42 e os 43 graus! O trânsito estava lento e em fila de pára-arranca, eu fui furando até que vi um pequeno aparato policial. Pensei que era uma operação stop, por isso deixei-me ficar muito educadamente na fila dos carros. Mas ao passar perto é que vi que não era nada disso!

Um grupo de polícias estava realmente parado na entrada de uma rotunda, mas não era operação stop nenhum! Um deles tinha simplesmente desmaiado na moto! Um frio percorreu a minha coluna!

As motos estavam paradas na berma da estrada e eles estavam em volta do colega estendido na relva da berma da estrada. Um segurava um guarda-chuva que protegia o desfalecido e os outros abanavam-no. A sua moto estava meio reclinada na rua…

Comecei a temer pela minha segurança, afinal eu tenho a tensão arterial muito baixa e aquilo não podia acontecer comigo!

Segui para a Eslovénia rezando para que o calor não me fizesse mal.

O entardecer e a montanha sossegaram o calor que me afligia tanto! Apenas olhar para a paisagem verde e cheia de sombras me refrescava a mente!

Como eu gosto daquele país!

Cheguei a Bled cheia de fome e obcecada com a comida! Eu não podia continuar a encher apenas a barriga de líquidos e arriscar-me a enfraquecer por não ter vontade de comer, porque o calor derrubar-me ia!

Fiquei ali, no meu restaurante de eleição na cidade, sobre o lago e com direito a musica ao vivo. A comida é sempre ótima e a cerveja deliciosa!

E foi o fim do 8º dia de viagem!

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7 de agosto de 2013

– A bela Bled… –

Desde que passei por Bled a primeira vez que eu tenho vontade de voltar! Há algo de irreal na sua beleza que nos faz sentir a viver num conto de fadas ou num postal ilustrado de agência de viagens, daqueles que a gente sabe que são apenas para turista ver, pois beleza tal só pode ser falsa…

Mas tudo é real por ali e tudo é encantador também! Depois a acrescentar a toda a beleza havia uma brisa fresca e o lago que parece nunca aquecer seja qual for a temperatura ambiente no seu exterior!

Naquele dia acordei obcecada com a vontade de mergulhar no lago, por isso sai de casa já com o fato de banho vestido. À primeira oportunidade eu iria meter-me na água, isso era certinho!

Tinha pensado em casa num percurso a fazer pelas montanhas ali perto mas, ao sair para a rua a ideia não me inspirou minimamente! Tinha sofrido bastante com o calor dos últimos dias e aquele prometia aquecer também, logo ir para longe da água estava fora de questão. Parece que quando a gente anda perto de um rio ou de um lago o calor não é tão agressivo, por isso não sairia dali de perto e fui passear para o lago!

Chegar ao lago pela manhã, foi a imagem da frescura e do paraíso para a minha mente!

Pousei a moto e fui passear pela fresca, apreciar o castelinho de longe. Não iria visita-lo, embora ele seja muito bonito e o mais antigo do país, porque já o visitei noutra altura e queria apenas aprecia-lo no enquadramento lindíssimo em que fica!

Encontrei um pintor que tinha o seu estaminé montado à sombra das árvores e pintava uns postaizinhos muito coloridos em aguarela para vender. Ainda me pus ali no paleio com ele e desenhei e pintei um pouco também. As minhas aguarelas são bem menos coloridas que as dele, por isso mais próximas das cores reais e houve quem passasse e me quisesse comprar duas das que fiz ali! Eheheh

“Não, não são para vender!” repetia eu enquanto as pessoas insistiam que as minhas eram mais bonitas que as do homem.

“Fique aqui hoje comigo a pintar para eu ver como faz!” insistia ele.

“Nem pensar, estou a passear e desenho pelo prazer, não para ensinar ou por obrigação!”

Deixei-o tirar fotos aos meus desenhos e fui embora, que tinha muita coisa para ver por ali!

Não se pode ficar indiferente, a paisagem é mesmo inspiradora! A ilha natural vê-se muito bem dali com a Igreja e Santuário da Assunção de Maria, do séc. XV a encima-la.

Pus-me a olhar bem para a ilha e para a sua escadaria até ao santuário. Dizem que tem 99 degraus… pode-se ir até lá de barco, mas eu não tinha a certeza se queria subir todos aqueles degraus debaixo do calor que se preparava para chegar…

Passear pela borda do lago é tão agradável e encantador que só apetece continuar calmamente e fotografar a cada 2 passos que se dá! E nunca se dá conta se está muito ou pouco calor pois a sobra é sempre fresca!

Só ao voltar à moto, e ao sair debaixo das árvores, é que me apercebi que o calor já tinha voltado! O termómetro da moto, que estava ao sol, apontava já 38º!!!

Eu bem tinha razão que não era coisa boa ir passear para a montanha! Por isso fui mas é visitar as Vintgar Gorge ou Soteska Vintgar, um desfiladeiro deslumbrante ali mesmo perto da cidade, com as águas mais puras e frescas que se possa imaginar!

Este desfiladeiro foi descoberto no final do séc. XIX e desde então que foram criadas condições para que ele possa ser visitado, com passadiços de madeira, renovados ao longo dos tempos, até hoje!

Dizem que aquelas águas são das mais puras da Europa!

São 1600m desta paisagem e desta frescura! Se fosse 3 vezes maior a distancia, ninguém se queixaria, pois é simplesmente delicioso passear por ali!

Então chega-se à outra ponta e tem lá um bar com gelados e cerveja para a completar todo o prazer do caminho!

É em momentos destes que eu sinto que o paraíso existe e é cá na terra mesmo!

Então volta-se para trás pelo mesmo caminho, que visto ao contrario e com o sol noutro angulo, parece renovado!

Há uma represa que torna o quadro mais perfeito e doseia o curso das águas!

E mesmo ali “dentro” com toda aquela sombra, o calor começava a querer entrar! A água chamava mesmo para lhe enfiar os pés dentro, e foi o que fiz! Mergulhei os pés e o corpo todo!
A água era incrivelmente fria!

Dizem que aquela agua é tão fresca e pura, que se pode beber direta do rio! O banho, na realidade não foi refrescante, foi gelado mesmo! Que sensação de contacto com o coração da terra mais inesquecível! Quando voltei ao trilho continuei gelada por muito tempo, agradavelmente fresca e cheia de vida…

Mal saí da sombra do desfiladeiro o calor estava todo à minha espera cá fora!

Peguei na moto e fui passear um pouco, mas à medida que o efeito refrescante do banho ia passando, eu ia recuperando a vontade de me voltar a enfiar na água! E foi o que fiz, fui pousar a moto junto ao lago e ali passei o resto da tarde, entre sombra e sol, mergulhos e longas braçadas a nado! Que bela é a vida assim!

A gente chegava-se um pouco para o sol e o calor era escaldante, chegava-se um pouco para a sombra e quase tinha frio! Curiosa a diferença de temperatura entre sombra e sol!

Acho que aquele foi o recanto do mundo onde eu nadei com melhor paisagem!

A água é límpida e tão fria que parecia impossível que todo aquele calorão existisse mesmo, quando a gente estava enfiada nela!

Eu bem digo que o paraíso existe!

Terminei a tarde acompanhada de uma belíssima cerveja, a apreciar os encantos do lago, com o castelinho medieval lá em cima do penhasco a completar o quadro irreal!

Depois fui passear um pouco, descalça pela relva e pelos passadiços de madeira, porque há vontades que não posso negar a mim própria e porque o momento assim me inspirava, para viver um pôr-do-sol lindíssimo digno das mais belas sombras chinesas do conto de fadas mais encantador!

E foi o fim do 9º dia de viagem!

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8 de agosto de 2013

– de Bled até Zagreb…

Estava na hora de enfrentar o calor de novo, mas eu não imaginava o quanto ele seria forte naquele dia! A vontade de ficar mais um pouco desaparece quando penso em tudo o que ainda há para visitar e nos grandes destinos que me esperam e naquele momento a partida sabia não a despedida mas a continuação do prazer da descoberta!

Percorri o caminho até ao centro da cidade, com casinhas fofinhas que apetecia habitar

E fui fazer um último picnic junto ao lago, porque eu tenho sempre tempo para mais um momento de paz nas minhas viagens! Nada é frenético nos caminhos que faço, por isso apesar do café da manhã que me deram na pousada onde dormi, fui comer a minha fruta com toda a calma, num banco de jardim à sombra e com uma paisagem que sempre me deixa saudades!

E ao pegar na moto ainda dei um belo passeio em torno do lago, num último olhar sobre a beleza pura!

E só depois segui viagem, com a vontade de não parar muito no meu caminho para Zagreb. O calor apertava já e rapidamente decidi que não iria andar de um lado para o outro a morrer, pois não tenho qualquer vocação para sofrer!

Por isso desviei-me apenas para visitar Predjama e o seu castelo!

O castelo é um espanto, construído literalmente na boca de uma caverna, foi sendo aumentado e adaptado à rocha que o acolhia ao longo dos séculos.

Inicialmente ele foi gótico, uma construção pequena do séc. XIII que se abrigava quase totalmente dentro da gruta, mas depois foi crescendo para fora dela.

E a gruta faz parte dele, com recantos inspiradores!

Sobe-se, desce-se, passa-se por corredores estreitos, passagens mais amplas e volta-se quase ao mesmo sítio!

E o pedregulho que forma a encosta e a gruta está por todo o lado!

Do castelo a paisagem sobre a aldeia e os campos inclinados, onde se fazem jogos de época, é linda!

Então volta-se a encontrar escadas escavadas na rocha, ingremes e sombrias que levam mais para o interior da gruta!

Há uma lenda sobre o castelo que conta que um cavaleiro, conhecido por Barão Ladrão, se fechou no castelo por muito tempo ao ser perseguido pela morte de um nobre.

Do castelo ele atirava cerejas para os soldados que o cercavam, levando-os ao desespero por não saberem nem entenderem como podia ele ter cerejas frescas depois de tanto tempo fechado no castelo cercado.

Na realidade o castelo tinha um túnel secreto, que ligava a uma aldeia mais longe, de onde vinham os mantimentos e as cerejas.

Os inimigos acabaram por subornar um criado do Barão que denunciou a sua presença na retrete, que era o único ponto frágil do castelo, e o nobre foi apanhado, literalmente, com as calças na mão por uma bala de canhão!

O castelo foi destruído e mais tarde reconstruido pelos novos proprietários e hoje lá está, com as suas galerias em pedra a complementar a construção.

Por baixo dele há uma série de grutas que podem ser visitadas, mas a fila de pessoas com capacetes de lampadinhas na testa era grande e não me apeteceu esperar para ir ver!

É curiosa a sensação de olhar para um castelo real enfiado numa gruta!

O calor era insuportável e eu só conseguia sentar e beber a todo o momento enquanto apreciava tão extraordinária paisagem!

Constatei que o termómetro da moto, por tudo e por nada, subia a valores fora do comum, até fixar-se regularmente nos 44º, por vezes ía mesmo aos 45º…

Estas temperaturas são de tal ordem fortes que conseguia estar mais fresco dentro do capacete fechado do que cá fora!

Eu parava a cada oportunidade, já por vício, já por desespero! Comprava uma garrafa de agua com gas gelada, bebia um bom pedaço e partia, pois apesar de tudo era menos penoso rolar do que parar, mas a garrafa fresca na mala chamava por mim e a urgência de parar antes que ela aquecesse era obsessiva! Quando encontrava trânsito lento o desespero começava a ameaçar instalar-se, volta a parar, bebe mais um pouco, segue mais um pouco!

Então, a dada altura, quando o trânsito voltava a ser mais lento, porque os automobilistas reduzem a velocidade com o calor e deixam o carro deslizar suavemente… porque têm ar condicionado e deslizar pelo calor infernal é natural, 5 motos desportivas seguiam na minha frente, a passinho de caracol, tentando passar. Eu ia mais atrás, a cismar mais uma vez com a água fresca que acabara de comprar, quando um dos motards vai abrandando o ritmo até que caiu para o lado!

Cruzes! O homem desmaiou!!!

Parei na berma da estrada tentando encolher a moto sob uma pequena sombra de árvore.

Os colegas acorreram a ajudar o rapaz, tentando a todo o custo senta-lo. Valha-me Deus, nunca se levanta um desmaiado!

Fui ajudar. Eles falavam alemão, mas a linguagem gestual e o inglês serviram muito bem para lhes dizer “parem com isso!”. Fui buscar a minha toalha de banho, que é enorme, e pus dois a segura-la pelas pontas para fazer uma tenda de sombra sobre o rapaz, que estava ardente, parecia que tinha febre!

Tirei-lhe as botas, tirei-lhe o capacete, abri-lhe o blusão. Estava de fato de couro completo com camisolas por dentro! Só de ver aquilo eu própria quis desmaiar de calor! Então molhei-lhe a cabeça e os pulsos com a minha água ainda bem fresca e frisante. Lentamente ele voltou à vida.

O dilema ali era, se andasse sem casaco podia cair e magoar-se, se andasse com o casaco cairia de novo de certeza! “siga sem o casaco ou vai voltar a cair mais à frente!”

Ele assim fez, prendeu o casaco com a aranha no banco da moto e preparou-se para seguir caminho.

Quando voltei à minha moto ela apontava 42º, ao andar deveria ir descendo… mas não desceu, subiu mais e mais até aos 44º…

Depois da minha boa ação, fiquei de novo sem água! E a sede não era muita… era demais! Comecei a temer pela minha própria segurança, apesar de tudo eu também tenho a tensão arterial baixa…

Parei em Novo Mestro para me reabastecer de água, porque condições para visitar não era nenhuma!

Mais uma cerveja. Mais uma garrafa de água XL e o meu lenço vermelho a ficar todo molhado de eu limpar o rosto a todo o momento!

Tudo era escaldante por ali, pensar em caminhar só por si era um suplício! Oh céus, eu quero um lago para me meter dentro!

A terrinha era simpática mas o calor não deixou apreciar nada! Dei um banho à moto com a água gelada que pedi no café, pois agora eu já pensava também em refrescar a moto para poder sentar-me sem ter de levar com o calorão do assento!

Cada sombra da estrada sem trânsito servia para beber mais e mais água. Não me lembro de ter sofrido nunca tanto calor seguido, por tanto tempo, numa viagem!

Eu sentia que estava a perder paisagens lindas e recantos encantadores do país, mas só tinha uma coisa em mente… encontrar frescura no meio do inferno!

Passei pelo Grad Mokrice que eu queria ver mais de perto mas a vontade passou-me! O castelo do séc. XV já me chamou a atenção há uns anos atras, mas ainda não foi desta que fui vê-lo mais de perto! Terá de ficar para outra vez com menos calor!

A fronteira da Croácia é logo ali e eu só pensava em ir a correr esconder-me em Zagreb na pousada!

E foi o que fiz!

Que me importava se era cedo ou tarde? Entrei em desespero pela receção e… estava tãããão fresquinho lá dentro! Huuuuuum
O gatito da rececionista ficou em pânico com a minha entrada desesperada! eheheheh

Enfiei-me no bar, estiquei-me num sofá, pedi uma cerveja e morri de prazer e frio!

Então foram chegando outros hóspedes mochileiros, aflitos como eu, que se foram enfiando lá dentro refugiados e esbaforidos do calor. Um grupo de rapazes trazia garrafões de água de 5 litros, em vez de garrafas, num grupo de raparigas 2 apresentavam queimaduras solares graves nos ombros nus e toda a gente ali sofria atrozmente com o calor!

A tarde foi avançando e ninguém tinha vontade de voltar ao calor, então o céu desabou em fortes chuvadas intermitentes que fizeram tudo cheirar a terra e a pó, como se o chão estivesse são sedento de água e frescura como nós!

Não saí mais, jantei e fiquei por ali

e foi o fim do 10º dia de viagem!

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9 de agosto de 2013

– pelas memórias da Ex-Jugoslávia…

De manhã eu até tinha medo de sair de casa! Não fazia a menor ideia do que iria encontrar, depois de uma noite de chuva, o mesmo calorão ou um dia cinzento?

Fui agradavelmente recebida por uma manhã solarenga e fresca, se comparasse com os 44º do dia anterior! Mas ainda era muito cedo e eu estava decidida a não sofrer muito, por isso fui passear para a cidade a ver em que se tornaria aquela frescura suspeita!

Logo ao pegar na moto percebi que a frescura não era tanta assim, eu é que comparava com o calor do dia anterior e assim tudo era fresco! Na realidade estavam 36º!

Fui passeando pelas colinas da cidade até à zona antiga chamada Cidade Alta ou Gornji Grad, já que a cidade moderna é chamada de Cidade Baixa ou Donji Grad. Ali fica a Igreja de S. Marcos com o seu telhado lindíssimo com os brasões da Croácia à esquerda e de Zagreb à direita feitos no século XIX.

A Igreja originalmente de estilo românico, foi sendo alterada e adaptada em estilos posteriores e hoje é um dos edifícios mais antigos (séc. XIII) de Zagreb e um dos seus símbolos.

Em redor da praça, que tomou o nome da igreja, ficam edifícios do estado, como o Parlamento e o Tribunal Constitucional. Um guarda que estava por ali fez tão má cara quando passei, resmungando comigo que nem tentei parar ali. Detesto ter de enfrentar ranhosos, por isso embora o outro fosse mais simpático, dei meia volta e fui embora!

Fui até à catedral que continua em obras, embora desta vez já só tivesse uma das torres embrulhada, há 3 anos estavam as duas de chapéu!

“A catedral de Zagreb é um edifício extraordinário com uma longa e sofrida história que quase a vitimou por diversas vezes. É dedicada à Assunção da Virgem e a Santo Estevão e São Ladislau e, na sua origem, é gótica, mas por duas vezes na sua história foi incendiada (no séc. XIII e no séc. XIV) e, mais tarde, quase totalmente destruída por um terramoto. Assim hoje a catedral que vemos é uma mistura do estilo original, gótico, e o estilo posterior que a trouxe à vida, neogótico, muitos séculos depois já no séc. XIX.

Tem estado em obras de restauro desde há uma série de anos e, desta vez, pude já ver toda a sua fachada e uma das fantásticas torres descoberta. Está a ficar linda e a voltar à plenitude da sua beleza, quando lá voltar espero já vê-la toda descoberta!”

Cá fora pode-se entender o porquê da demora no restauro da catedral, dois pináculos, um antes e outro depois do restauro, mostram como tudo se estava a deteriorar no edifício! O pilar da esquerda estava novo em 1901, aquando da conclusão da reconstrução do edifício depois do terramoto que o vitimou, a erosão provocada pelas adversidades atmosféricas corroeu-a daquela maneira até hoje!

Na parede atrás o relógio da catedral que, como uma série de outros relógios na cidade, parou no momento do grande terramoto de 1880, que danificou profundamente o edifício! Parou às 7 horas 3 minutos e 3 segundos do dia 9 de novembro de 1880.

Em frente à catedral fica um dos monumentos mais conceituados da cidade, o Pilar de Maria com os anjos dourados e a fonte, do séc. XVIII.

Fui até ao mercado ali em frente, todo colorido e cheio de movimento! Comprei um pacote de amendoins salgados, a ver se não me faltava o equilíbrio e se a tensão arterial não caia por si abaixo com o calor!

Mas eu não iria ficar ali a passear todo o dia! Eu poderia faze-lo no dia seguinte, já que continuaria na cidade por mais um dia, mas naquele momento apetecia-me ver mais, talvez porque no dia anterior me fechara na pousada até à noite!

E foi o que fiz! Consultei o meu livrinho “o que há para ver por aqui?” é para isso que eu faço trabalho de casa, para poder escolher o que ver a cada vez que me apeteça!

E decidi ir visitar alguns recantos da ex-Jugoslávia…

Há muito que eu queria ver aqueles enormes monumentos de perto, construções que parecem saídas de filmes de ficção científica!

Foi mandado construir, pelo presidente do país (Josip Broz Tito), uma infinidade de monumentos gigantescos, nos anos 60 do séc. passado, em memória de batalhas travadas durante a II Grande Guerra.

Pretendia-se provocar um grande impacto visual, para enaltecer o povo Jugoslavo, e isso foi visivelmente conseguido por muito tempo, até que a República se desintegrou e tudo aquilo foi sendo abandonado e perdendo o sentido. Hoje são chamados de Monumentos Abandonados na ex-Jugoslávia…

Muitos anos depois um fotógrafo belga (Jan Kempenaers) pegou num mapa de 1975 e foi fotografando esses enormes monumentos com ar alienígena entre 2006 a 2009.

Então eles voltaram a dar nas vistas e podem ser vistos na internet, mas eu queria ver os que pudesse ao vivo… naquele dia vi 2, terei de voltar para ver mais alguns!

O Primeiro foi o de Podgaric…

Fica-se um bocado confuso! O monumento está no meio de lado nenhum, por trás de quintas e quintais, sobre um morro, em que o caminho nem é muito visível!

O Monumento à Revolução do Povo de Moslavina, uma obra de um grande escultor croata em honra do povo daquela zona, que não lhe parece dar muita importância, embora aquela continue a ser a obra mais conhecida do escultor!

Parece que atravessamos uma “star-gate” para chegarmos à enorme escultura!

Há quem corte a relva/palha e há quem ponha flores… que são de papel…

Não sei explicar, acho que cada um gosta do que gosta, e eu ali senti-me pequena, junto de um monumento que guardava dentro do meu imaginário há demasiados anos. Encontra-lo finalmente, apenas com o som do vento como companhia, teve um efeito forte sobre mim.

Lá de cima, dos “pés” do monumento, pode-se ver a pequena localidade onde ele foi erigido, com o lago ao fundo e muito poucas casas! Dá que pensar, como se decidiu colocar ali uma obra daquela dimensão?! Eu imaginei-a sempre junto a um centro urbano, pela sua espetacularidade.

Mas não, está ali só…e hoje, abandonado!

Mais à frente, a uns cento e tal quilómetros, junto à fronteira com a Bósnia, fica Jasenovac… ali não é apenas um monumento, é toda uma história que há para sentir.

O tempo estava já bastante mais quente, pousei a moto à sombra de uma árvore, não fosse ela esturricar e depois queimar-me o rabo ao montar!

E fui caminhar por aquele que foi o campo do terror…

Jasenovac – O mais cruel campo de extermínio de todos os tempos, como lhe chamam…

Ali morreram entre 600 e 700.000 pessoas, sérvios, ciganos e judeus.

O campo funcionou num pântano, hoje uma enorme área relvada, com árvores e lagos com patos e tudo. Ninguém pressente o que ali se viveu…

O monumento é uma obra de um grande arquiteto sérvio (Bogdan Bogdanovic ) em memória das vítimas, muitas delas sérvias também! Este arquiteto fez ao todo 20 memoriais por todo o território jugoslavo, e há uns 3 ou 4 mais que eu gostava de ver…

Também ali há flores… de papel!

E um excerto de um poema que fala de morte e sangue e punhais que matam, tal como se fazia naquele campo de concentração!

Estou a falar de um sítio onde os guardas e carrascos faziam apostas a ver quem matava mais gente e houve quem contasse 1300 gargantas cortadas! A personagem foi cumprimentada e galardoada com diversos prémios pela sua façanha, com objetos de ouro e festa e tudo!

Mais uma vez o som do vento foi a minha única companhia…

Todas as provas foram destruídas com a libertação do campo

E no lugar onde estavam os pavilhões com as diversas funções, hoje existem saliências e reentrâncias no imenso relvado!

Pode-se ler a legenda esculpida em metal junto ao caminho feito de toros de madeira dos carris de comboio. Fotografei o relevo e traduzi as suas inscrições na net e pude entender onde estava cada coisa…

E fui embora, com uma vontade imensa de passear um pouco pela Bósnia ali ao lado!

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9 de agosto de 2013 – continuação

– Uma espreitadela pela Bósnia e o seu lindíssimo rio Una!

A Bósnia sempre me despertou o interesse, desde que eu estava em Genève e acompanhava diariamente a guerra que por lá andava! Desde essa época que eu quis visitar o país e, sobretudo ir a Sarajevo! Mas como eu digo, e às vezes as pessoas não acreditam, sou medrosa e receava pelo que pudesse ser circular pelo país, por causa de informações do Portal do Governo que refere que as condições de segurança são razoáveis e que há que ter cuidado com as ruas de pouco uso pois existem ainda minas…

Por isso fui dar uma vista de olhos para perceber qual o ambiente e decidir se devia seguir mais para o interior do país!

O calor apertava tanto que ao circular mesmo ao lado do rio Una não resisti! Saquei do vestido que me fora oferecido na Itália, vesti o fato de banho, guardei tudo na mala da moto e fui mas é passear para o meio do rio, como toda a gente estava a fazer por ali!

Estava perto de Bosanska Krupa e as pessoas eram simpáticas e sorriam para mim, ao verem-me meio encolhida, é que a água estava tão fresca que o contraste com a temperatura do ar era brutal e eu estava muito quente de vir exposta ao sol, na moto!

“Entrei na Bósnia em paz, uma carimbadela no passaporte e um país simpático à minha espera! Como era de imaginar não difere muito da Croácia, a paisagem verde, um rio magnífico sempre ao meu lado, o rio Una, limpo que desde a estrada se lhe podia ver o fundo e mais á frente Bosanaska Krupa. As pessoas olhavam para mim quando eu passava e o ambiente era acolhedor. Ninguém falava inglês quando eu tentava comunicar ou perguntar algo mas sempre os entendi e eles sempre se fizeram entender! Vou descer a Croácia e voltar a entrar no país, deixou uma enorme curiosidade em mim!”

Os restaurantes têm à porta assadores, com cordeiros a assar no espeto, como nós fazemos com o porco. Por ali ninguém come porco porque são islâmicos, mas o cordeiro serve bem! É simplesmente delicioso!

Com o rio logo ali atrás, é só vestir qualquer coisinha e sentar à mesa!

E foi o que fiz! Isto de conduzir, e nadar, e apanhar calor e tal, dá cá uma fome!

Por esta altura o termómetro da minha motita acusava 50º com demasiada facilidade! É claro que não estaria exatamente esta temperatura, estariam uns 48º ou 49º, mas bastava abrandar um pouco o andamento que aquilo subia logo para 50 e depois começava a piscar, julgo que porque a maquineta não tem capacidade para medir mais acima do que isso!

Aproximava-se chuva! Só podia ser, com temperaturas tão elevadas!

Fui beber mais qualquer coisa fresca enquanto a chuva começava a cair! Nada demais, apenas uns pingos!

Percebi pelo cuidado que o rapaz estava ter em recolher tudo o que estava na esplanada que se calhar não seria “apenas” chuva!

E não era!

Era o diluvio, a tempestade e a barulheira total que se aproximava e que caiu sobre mim!

Cheguei à fronteira e ao ir buscar o passaporte ao tablier da moto, a água que me corria pelo braço era tanta que mais parecia uma cascata. Tive de fazer uma ginástica para não molhar tudo… ou antes, para molhar o menos possível!

Estava tudo certo e eu preparava-me para seguir, quando o polícia me diz “espere!” e disse aquilo com uma urgência que eu pensei que havia algo de errado “não vá já, espere um bocado que está a chover muito!” explicou ele!

E eu esperei! Parei a moto junto de outros carros, abrigada por uma cobertura, ali ao lado, mas o tempo não iria melhorar! Podia-se ver que era muito extensa a área de céu carregado que nos envolvia! Eu tinha de seguir, depois Zagreb era suficientemente longe para eu ter a esperança de sair da tempestade ao ir para lá!

E foi um filme de terror completo sobre duas rodas! Ele era vento, chuva e trovões a toda a minha volta! Eu nem sabia se devia seguir ou se devia parar! Logo à frente a tromba de água foi tão forte que parei, eu e todos os carros, porque a rua era já um rio cuja água me chegava aos pés!

Um senhor quis-me abrigar na sua casa e como eu recusei, foi chamar a mulher, para eu ver que ele não estava sozinho! Como eu mesmo assim não fui, vieram eles para cá para fora, para o alpendre onde eu me abrigara, fazerem-me companhia! Gente boa!

Houve momentos ao atravessar a zona mais montanhosa, mais à frente, em que nem via mais a estrada. Anoitecera, trovejava intensamente muito perto e as pingas da chuva pareciam rajadas de metralhadora sobre mim! “valha-me Deus, se essas flashadas me acertam não ficará ninguém para contar como foi!” pensava eu enquanto cantarolava ao som da musica e me sentia feliz por não ter qualquer medo de trovoadas!

Quando cheguei a Zagreb, pus tudo a secar no estendal e fui-me encher de comida, sob o olhar atónito dos hóspedes que não acreditavam que eu tinha chegado de moto no meio de tal vendaval!

E foi o fim do 11º dia de viagem!

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10 de agosto de 2013

– Uma pausa em Zagreb! –

E foi este mais um dia de pausa no meu caminho.

Depois de tanto calor, de uma série de quilómetros já percorridos e de muita coisa já visitada, era hora de parar, como um tomar balanço para entrar definitivamente em terras mais desconhecidas, pois afinal, a partir da Croácia iria percorrer uma série de países nunca antes visitados por mim!

Estava de novo muito calor, definitivamente ainda não passara o inferno dos quarenta e muitos graus!

A cidade é muito bonita, voltei a passear pela Cidade Alta ou Gornji Grad, porque não iria andar de moto naquele dia. Tinha de descansar as mãos!

Perguntam-me frequentemente se eu não fico arrasada das costas numa viagem tão longa, ou se não me dói demasiado o rabo, de conduzir tanto tempo por tantos dias! Não, as costas nunca me doem! Não sofro da coluna e conduzo muito direitinha o que, com a ajuda da cinta que uso sempre, me faz sentir sempre confortável mesmo depois de todos os 17.000 km que fiz! O rabo de vez em quando começa a querer doer, mas basta mudar um pouco a posição no banco e passa, para isso é que serve o banco de gel afinal!

É das mãos que eu sofro mais! Tenho as mãos muito frágeis e conduzir, eternamente agarrada a um guiador, chega a ser doloroso! E não há forma de conduzir sem mãos, ou apenas pousando-as levemente do guiador, como se faz num carro, por isso há que aguentar, trocar de luvas regularmente e descansar de vez em quando!

Desta vez, ainda por cima, levava o dedo polegar direito incapacitado o que dificultava, não só a condução, como o desenho! Mas mesmo assim fiz alguns desenhos muito bonitos! A minha teoria é que, se eu ficar sem um dedo não deixarei de ser quem sou, por isso fiz tudo o que gosto de fazer, apesar da dor, apesar da dificuldade!

E foi o que andei a fazer por Zagreb, a passear, a petiscar e a desenhar! Um dia para prazeres sem moto!

A Trg bana Jelacica é a praça central da cidade onde tudo parece ir dar, autocarros, táxis, metro de superfície! Testemunha de grandes episódios da história da cidade e do país! Lá estava a estátua equestre de Ban Jelacic o libertador da Croácia do poder da Hungria!

A fonte Mandusevac esteve subterrada por muito tempo, desde que ao pavimentarem a praça no séc. XIX a cobriram. Há apenas 20 ou 30 anos descobriu-se que ela estava lá, debaixo do chão, enterrada e voltaram a traze-la à superfície!

Está ligada à fundação da cidade e a sua água é potável! Há várias lendas sobre ela, uma diz que se atirarmos uma moeda para as suas águas os nossos desejos serão realizados, outra diz que se bebermos da sua água nunca mais esqueceremos Zagreb, até ao fim da nossa vida!

Ali ao lado encontrei uma livraria com uma publicidade que me despertou a atenção! A Gabriela chegou à Croácia! E a publicidade dizia:

“Gabriela, klincic i cimet
uzbudljiva knjiga najpopularnijeg brazilskog klasika
slavi zivotnu radost i neobuzdanu senzualnost”

Que é o mesmo que dizer:

“Gabriela, cravo e canela
Um livro emocionante dos mais populares clássicos brasileiros
celebra a alegria da vida e da sensualidade desenfreada”

Aprendi croata num instante! eheheheh

E dali embrenhei-me pelas ruínhas pitorescas e frescas, sobretudo frescas, que o calor era impiedoso!

Que coisa linda as ruelas cheias de esplanadas e guarda-sóis e gente simpática e sorridente!

E cerveja fresquinha a acompanhar uma série de desenhitos simples, sobre pessoas e ambientes!

Há recantos por ali que mais parecem de brincar de tão “mimis”!

A torre da Igreja de Stª Maria, (Crkva Sv Marije) que fica acima, junto ao Mercado Dolac, podia-se ver por cima dos telhados das casinhas!

E pelas nesgas, que eram as ruelas transversais, a catedral impõe-se, com a torre já restaurada e destapada bem visível cá de baixo.

Subi até ao Mercado de Dolac. Afinal eu nunca o tinha visto sem atividade! Fui recebida pela estátua em bronze de uma feirante a quem tinham acrescentado um ramo de flores à sua carga!

Voltei à catedral, já que no dia anterior estava em missa quando lá tentei ir.

E estava de novo em missa! Valha-me Deus, são muito misseiros os croatas! Valeu pelo fresquinho que se fazia sentir lá dentro!

Ok, ok, já sei que não posso tirar fotos quando as igrejas estão em oração, mas pelo amor de Deus, eu só vou voltar cá daqui a não sei quantos anos, deixem-me pelo menos tirar uma ou duas! Pronto, umazinha só, tá?

Voltei para a rua onde se pode tirar todas as fotos do mundo às ruelas encantadoras e aproveitei para ir às compras, já que as minhas calças pretas tinham perdido tanta cor quanta eu tinha ganho! Elas estavam a ficar tão castanhas quanto eu! Estavam completamente castanhas na zona dos joelhos! Comprei umas novas em napa, assim o sol não deveria ter potencia para lhes comer a cor!

E não fiz mais nada naquele dia para alem de passear, comer, beber, desenhar e, à noite, conviver com os hospedes da pousada que se fartaram de me fazer perguntas sobre quem eu era, de onde vinha, para onde ia e se escandalizavam ao perceber que eu nem a meio da viagem ia e já tinha visto muito mais que eles, mesmo alguns que andavam na estrada há mais de um mês, mas de mochila às costas, de comboio em comboio!

E foi o fim do 12º dia de viagem!

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11 de agosto de 2013

– Até Split, passando pelo Nacionalni park Plitvička jezera –

11 de agosto de 2013

Os meus planos eram seguir a rota dos turistas todos, pela costa do Adriático mas, de repente deu-me na telha de ir pelo interior!

Lembrava-me da última vez em que parte do prazer de conduzir junto ao mar se foi com a quantidade de turistas que por ali andava a pastar e decidi explorar caminhos interiores que me fascinaram bastante na época. O calor não era o meu maior amigo, pois estava forte de novo, mas nada a que eu já não estivesse habituada!

A minha ideia era ir a Krka, seguir para Split e por lá dar umas voltas pela costa mas, de repente, não resisti e decidi voltar a visitar o Nacionalni park Plitvicka jezera.

“E voltei ao Parque Nacionalni park Plitvicka jezera… é incontornável! A gente passa perto e não pode deixar de ir visitar de novo! O parque é grande e encantador o suficiente para que o visitemos de novo e de novo, sem nos cansarmos nem termos a sensação de que já está tudo visto! São quilómetros de caminhos e passadiços que nos levam de lago em lago e desta vez escolhi um dos vários percursos bem diferente do que fiz há 3 anos. O deslumbramento é tão surpreendente quanto a frescura que se sente por aqueles trilhos cheios de beleza! A água corre por entre as árvores e a vegetação e o seu restolhar acentua a sensação de prazer de caminhar à fresca! Uma tarde de caminhada serena que retemperou energias para voltar ao enorme calor que se fazia sentir fora daquele paraíso feito de sombra, água e encanto!”

Subi no comboio do parque até ao ponto mais alto e estudei o mapa para fazer um percurso diferente do que fizera na última visita, depois foi só caminhar calmamente por entre paisagens e lagos deslumbrantes!

O parque é composto por 16 lagos visitáveis, situados em desníveis sucessivos que fazem com que eles descarreguem uns sobre os outros, como em degraus!

A água corre por todo o lado, por baixo dos nossos pés muitas das vezes, límpida e transparente, que apetece enfia-los dentro dela a todo o momento!

Depois as águas são muito calcáricas e os sedimentos formaram, e vão continuando a formar, barreiras que fazem as águas empossarem e correrem por entre a vegetação frondosa, provocando ou acentuando as cascatas incomuns porque a água parece furar de qualquer maneira o seu caminho de formas inesperadas e deslumbrantes! Estes lagos são por isso dos poucos locais no planeta onde aparecem novas cascatas a cada ano, o que quer dizer que daqui a uns tempos, ao voltar lá, posso descobrir mudanças na paisagem aquática!

Os lagos são conhecidos pelas suas cores variadas, desde o verde intenso, ao azul profundo ou ao cinzento mesclado!

Há por ali uma série de animais raros em vida selvagem, como ursos, lobos, águias e tigres! Não vi nenhum dos simpáticos bichinhos de 4 patas, apenas de 2, como águias e patos muito atarefados, a pescar o seu almoço!

Há 3 anos eu percorri o parque pelo outro lado destes grandes lagos, lá ao fundo!

Desta vez fiz um passeio mais relaxado e pude apreciar as coisas de ângulo diferente pois o meu tempo era outro!

Em 1991, incidentes entre a polícia croata e sérvio croata, pela disputa do local, marcou aqui o início da desintegração da Jugoslávia, naquele que ficou conhecido como o Incidente dos Lagos Plitvice.

E cheguei ao lago final, onde se pode apanhar o barco para chegar até à entrada P1, dado que eu tinha entrado pela entrada P2, que fica mais acima e mais perto do topo dos lagos.

O povo do barco pôs-se a atirar pedacinhos de pão aos patos, mas os pobres não conseguiam levar a melhor aos peixes que chegavam rápido por baixo e lhes roubavam tudo! Foi uma risota, pois a dada altura eles ficavam tão desorientados com a comida que desaparecia em frentes aos seus olhos que parecia que iam começar às bicadas à peixaria toda! Mas não, impotentes abandonaram o local e foram para longe!

Entretanto passou por nós um barco com um nome sugestivo: Medo!

No desembarque estava o meu almoço! Com toda a multidão a comer por toda uma infinidade de mesas! Era mesmo isso que eu estava a precisar!

Franguinho bem cheiroso e apetitoso!

A entrada P2 era perto por isso caminhei até lá, a minha motita estava placidamente à minha espera, do lado de fora da frescura do parque, onde tinha sido fotografada por um motociclista português do Facebook que publicou há dias uma foto dela ali mesmo! O mundo é pequeno, heim?

E voltei a seguir pelo interior, por serras e montes e vales! O calor era intenso mas a montanha é sempre uma tentação para mim!

O vidro no mínimo, o capacete aberto, o blusão na mala e mesmo assim era insuportável todo o calor!

Eu queria ir até Krka, mas terá de ficar para a próxima vez que ali passe pois naquele dia já só me apetecia ir refugiar-me em Split!

O sítio onde fiquei hospedada era muito bonito, bem na zona mais típica da cidade o que permitiu passear a pé por lá, calmamente, até à hora de jantar!

O movimento nas ruas era muito, as pessoas passeavam e conversavam por todos os lados em clima de descontração. A noite estava bem mais fresca que o dia abrasador e era um descanso para a alma!

Estabelecimentos muito “mimis” e esplanadas muito acolhedoras!

No meio do património que está por todo o lado!

Uns deliciosos 26º eram anunciados como temperatura! Que bom!

E junto ao teatro ficava o Wine Garden, onde eu me fui refugiar e onde ficava a minha hospedaria!

O local é um recanto muito interessante e bonito, que à noite, iluminado, fica com um ar muito romântico!

Conforme o nome indica, era mesmo o Jardim do Vinho, onde se faziam provas de vinho com uma lista interessante de vinho da Dalmacia.

Com 6 copos de vinhos diferentes mais comidinha de petiscar, tudo acompanhado de música ao vivo!

Um belo serão, com gente simpática e alguma conversa também!

E fui dormir que o calor esgota a gente e o corpo precisa se recompor!

E foi o fim do 13º dia de viagem!

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12 de agosto de 2013

– de Split até Dubrovnik , passando por Mostar –

O calor começou cedo em Split! Logo pela manhã começava a prometer torrar-me de novo os miolos, mas mesmo assim eu ainda me aventurei a passear um pouco!

Subi ao Monte Marjan de onde se pode ver toda a cidade.

Apenas no trajeto do Monte Marjan até à marina vi 2 carros serem rebocados! Bem, não diria rebocados, pois na realidade foram guindados na frente dos meus olhos! Um policia punha aquelas coisas de metal nas jantes e um guincho prendia nelas, erguia o carro no ar e pimba com ele em cima do reboque! Uma operação de meia dúzia de minutos que a gente quase nem sentia, na fila do trânsito!

Fiquei meio traumatizada pois nunca vira fazer tal coisa! Será que aquilo também funciona assim com as motos?

Depois vi que as motos têm tratamento vip e há sempre uns corredores para os parques por onde apenas elas podem passar sem pagar! Muito simpático! Por isso eu não seria rebocada!

E fui passear um pouco pelo centro da cidade, onde andara no dia anterior. Eu queria visitar a catedral!

A Catedral de St. Svetog Dujma é a catedral mais antiga do mundo! Inicialmente era o mausoléu do imperador Diocleciano, mas foi convertida em catedral no séc. VIII fazendo parte do palácio de Dioclesiano.

Não se podia fotografar lá dentro, por isso lá tive de roubar uns quantos enquadramentos à socapa com a minha máquina silenciosa!

A torre sineira fica ao lado da catedral e é espantosa!

Mais espantoso é vê-la por dentro e subi-la! Para minha surpresa estava um grupo de pessoas amontoadas a alguns degraus do chão, na escada que sobe em caracol, junto ao interior das paredes da torre.

Esperei, pensando que havia fila por qualquer motivo. Talvez a escada em metal não suportasse toda aquela gente de uma vez e tivéssemos de subir aos poucos, mas então aquela gente encostou-se fazendo um esforço para me deixar passar. Só então, ao subir, percebi! As pessoas tinham medo!

A torre é “esquelética” cheia de aberturas e nada que isole o interior, isto é, ao subirmos podemos ver tanto o vazio para o interior da torre, como o vazio para o exterior! Faz um efeito curioso subir assim uma aparente frágil escada no vazio! A paisagem lá de cima é deslumbrante e vale bem a subida àquele que é o símbolo da cidade! Split aos nossos pés!

Vai-se subindo e acompanhando as perspetivas da paisagem pelas inúmeras aberturas

Aberturas ao nosso lado e no ado oposto da torre.

De lá de cima temos uma imagem espantosa de 360º sobre a cidade!

Split é a segunda maior cidade da Croácia e a capital da Dalmacia. Por momentos perguntei-me se os cachorritos dálmatas não viriam de lá, afinal em francês chamam-se “dalacians”!

Então voltei a descer a torre, onde andei sozinha, apenas na descida cruzei com algumas pessoas começavam a subir, o resto permanecia lá em baixo ou desistira!

A meio da descida eu podia ver as pessoas sentadas nas beiras das janelas lá em baixo! Eheheheh

Mas ao olhar para cima era compreensível o medo e a sensação de vertigem que aquelas pessoas deviam sentir!

Uma torre muito bonita!

Depois são as ruínhas estreitas, com esplanadas por todos os cantos

até à Praça do Povo com a Torre Marina, medieval, e o monumento a Marko Marulic, o fundador da literatura croata.

Por esta altura o calor estava mesmo infernal, eu já tinha bebido uma garrafa de 1.5l de água e estava a tratar da segunda!

Saí da cidade e, antes de seguir para sul, passei por Trogir, uma cidadezinha ali ao lado muralhada e muito bonita! Um mimo criado por gregos antes de Cristo e que hoje é uma grande atração turística!

A Katedrala Lovre Sv é encantadora, numa mistura de românico e gótico com a torre a lembrar a torre da catedral de Split!

Como diz a literatura “Trogir possui 2.300 anos de tradição urbana contínua”

A lente da máquina continuava a embaciar com o calor, uma pena pois captava pormenores curiosos de uma cidade que parece de brincar!

Como o recanto dos hippies pintores. Não tenho muita vocação para hippie, mas acabo sempre por meter conversa com quem desenha ou pinta, e ali não foi exceção!

Então segui viagem, não sem parar um pouco para ver de longe a torre sineira da catedral, que sobressai do aglomerado de casinhas, por trás das muralhas!

Eu sei que o caminho pela costa é muito bonito e sei também que é o caminho mais lógico para quem vem de Split para Dubrovnik … mas nem sempre eu vou por lógicas e voltei a fazer o caminho pelo interior!

De novo a Bósnia a despertar a minha curiosidade, mesmo ali ao lado, e foi por lá que eu fui!

Aquilo quer dizer: “Rota do Vinho Herzegovina”. Deu para ver que os Bósnios são muçulmanos mas produzem bons vinhos!

É curioso passar por cemitérios nas bermas das estradas como jardins comuns, sem qualquer resguardo! Dá para ver que não são muito preocupados com isolamentos para os mortos!

E cheguei a Mostar!

Os sinais de destruição provocada pela guerra da Bósnia ainda são um pouco visíveis em edifícios na cidade moderna, mas o centro histórico está lindo, com a sua ponte e ex-libris da cidade perfeitamente reconstruida!

O centro histórico de Mostar é encantador, com as ruelas empedradas com seixos redondos a fazerem-nos cocegas nos pés, e a sua extraordinária Stari Most – a ponte velha, do séc. XVI, sobre o rio Neretva, de águas profundamente esmeralda!

Entrei na Mesquita Koski Mehmed Pasha, que fica mesmo ao lado do rio e tem uma perspetiva extraordinária sobre o rio e o centro histórico!

Para isso tive de subir ao minarete. De novo ainda bem que não sofro de vertigens nem de claustrofobia, porque aquela escadinha não é em caracol, é encaracoladíssima, de tão estreito que é o minarete!

Mas vale a pena subir!

Oh p’rá minha sombra lá em baixo na abobada da mesquita!

E lá estava o rio e a ponte!

E o casario antigo, com telhados de pedra…

Mas os meus olhos não descolavam da ponte, aquela joia lindíssima, sobre o rio esmeralda!

Tirei um milhão de fotos parecidas, simplesmente porque não se consegue evitar de olhar e captar toda aquela beleza!

E por fim lá desci. O minarete era verdadeiramente estreito, podia-se apreciar a sua elegância delgada cá de baixo!

E do jardim da mesquita ainda tirei mais uma série de fotos ao rio e à ponte, era inevitável!

E lá fui ver a ponte de perto.

Ao longe a mesquita de onde eu vira a ponte pela primeira vez!

Agora já cheia de gente, naquele espaço minúsculo, a fotografar em todas as direções como eu fizera!

Há uma tradição na cidade, em que rapazes mergulham desde a ponte para o rio, o que não é coisa fácil já que as águas do Neretva são gélidas e apenas pessoas experientes o devem fazer. Diz-se que esta tradição vem desde o séc. XVII!

Fiquei ali a olhar para a ponte um bom tempo, pensando em quem morreu ali, em quem tudo perdeu e em como tudo parece tão normal, tão pouco tempo depois da catástrofe!

A ponte foi destruída em 1993 e reconstruida por uma série de anos, inaugurada em 2004 e classificado, junto com o centro histórico, como Património Mundial da UNESCO em 2005.

Claro que fiquei ali á fresca muito bem acompanhada por uma cervejinha da terra! E sim, a cerveja Bósnia é muito boa!

Continuei a minha caminhada, com o meu lenço vermelho como apoio, pois o calor era impiedoso e eu transpirava!

A ponte estava agora cheia de mulheres sexies e eu lembrei-me do meu amigo Elísio e tirei uma foto a apanhar algumas!

Nas lojas adjacentes à ponte podem-se ver vídeos da sua destruição em 1993… a gente sabe que aquilo foi tudo abaixo, sabe que toda a zona foi arrasada e, mesmo assim, não consegue deixar de estremecer a cada investida da artilharia de fogo Sérvia e desejar intimamente “parem com isso que a ponte vai cair!” então ela cai e tudo é um monte de escombros em seu redor. É terrível esta sensação de impotência perante a estupidez humana que destrói deliberadamente uma parte da história do seu povo, uma ponte com mais de 400 anos. Hoje ela está lá, perfeita e reconstruida e olho-a com toda a admiração como símbolo de uma cidade martirizada!

 

E fui embora, pelas ruelas às pedrinhas, cheias de lojas de tudo, em que tudo parecia custar um euro!

A Mesquita Nesuh-aga Vucjakovic fica na berma da estrada com o seu cemitério cheio de “mecos” brancos de mármore, em memória de muita gente que morreu na guerra da Bósnia…

A minha motita tinha feito uma amiga italiana carregada de tralhas! Até almofadas ela tinha amarradas ao assento!

Segui em direção a Dubrovnik, por paisagens cheias de curiosidades!

Voltei a encantar-me com a Bósnia!

Até chegar aos seus 8km de praia!

Dubrovnik à vista!

Não fiz muito mais naquela noite, para alem de tomar um bom banho e me esticar de pernas para o ar, depois de um jantar feito mais de bebida do que de comida, pois o calor fora muito e estava visto que o dia seguinte me reservaria ainda muito mais…

E foi o fim do 14º dia de viagem!

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13 de agosto de 2013

– Miss Sarajevo…

Eu não conseguiria evitar de ir a Sarajevo…

Que me importava a praia e o mar e os sítios onde toda a gente vai? Iria estar calor, iria andar pelo interior e até pela montanha, mas eu iria lá!

Logo a seguir à saída da cidade de Dubrovnik fica a fronteira com a Bósnia e começa a paisagem serena e verde com terrinhas pequenas a pontear o meu caminho.

Não foi complicada a passagem da fronteira, apenas mostrar o passaporte e seguir viagem! O mar podia-se ver ainda, lá da fronteira!

Mais à frente fica Trebinje, a cidade mais a sul da Bósnia e, quem vem de Dubrovnik, passa por ela, estendida no seu imenso vale e atravessada pelo Rio Trebišnjica.

Não a visitei a pormenor, tinha outra grande cidade em mente, mas terei de voltar ali para vê-la porque sei que é uma belíssima cidade. Desta vez parei na berma da estrada e apreciei-a de longe, no ponto em que a estrada iria voltar-se para o outro lado do monte e eu deixaria de a ver. Por isso parei e gravei aquela paisagem na memória, como quem pede desculpa por seguir sem parar e dar a devida atenção a tão bonito recanto de um país.

Prometi “eu voltarei para te ver!” e segui o meu caminho…

Para mim é sempre reconfortante encontrar pastores num país estranho, transmite-me a sensação de gente que tem do que viver, gente que vive como a minha gente!

Contornei o Bilecko jezero, um lago artificial enorme, o segundo maior lago dos Balcãs, encantador àquela hora da manhã! E foi ali que vi o que devia ser o único incêndio de toda esta viagem, e nem tenho a certeza se não seria apenas uma fogueira, pois a coluna de fogo era pequena e, ao fim da tarde, quando eu regressava, não existia mais!

Por baixo daquele lago existe uma vila evacuada e inundada aquando da sua construção, como acontece em tantos lagos deste mundo. Curioso o efeito refrescante que a visão da água teve sobre mim num momento encantador, mas de calor já muito intenso!

O Parque Nacional de Sutjeska veio a seguir, tornando o caminho muito bonito.

Eu esperava encontrar o memorial que me tinha enchido os olhos, de entre os muitos memoriais jugoslavos, hoje chamados de Monumentos Esquecidos da Ex-Jugoslávia e, depois de caminhos lindíssimos que atravessam o Parque Nacional de Sutjeska, ele estava ali, imponente no topo de uma colina arredondada, o Tjentište Memorial, no vale dos heróis!

O monumento é tão grandioso como surrealista naquela envolvência natural, rodeada de montanha e verde.

Dois blocos de cimento armado de dimensões descomunais que desafiam os nossos sentidos…

Ele relembra a Batalha do Sutjeska, em 1943, que pretendeu capturar Josip Broz Tito, o mesmo que mandou construir este e outros memoriais, uns anos após o fim da II Grande Guerra.

Por trás dele uma série de degraus levam a um pequeno recinto onde são lembrados os batalhões que ali lutaram e pereceram…

Totalizando cerca de 300 degraus desde a base da colina e o início do percurso…

Lá de cima tem-se uma perspetiva deslumbrante do monumento!

Hoje ele está ali, como um elefante branco que faz as pessoas pararem ao avistarem-no da estrada, mas falta-lhe o protagonismo que mereceu durante muitos anos, enquanto a Jugoslávia ainda era um país e as pessoas buscavam ali essa força nacionalista que compensaria, talvez, a falta de determinação de cada um dos seus verdadeiros países!

Estava lá um carro e eu pensei em levar até lá a minha moto, mas acabei por não o fazer, o caminho era um carreiro serpenteante e não valia a pena dar tão grande volta. O carro serviu para fazer de escala e tornar mais fácil a perceção da dimensão do monumento!

E o altar, visto de cima, parece um altar druida, no meio da natureza!

A imagem do local prende a atenção, custava-me ir embora!

Sarajevo fica logo a seguir!

Sarajevo era aquela cidade que eu queria visitar desde a guerra que a cercou, sitiou e destruiu, há 17 anos atrás. Uma cidade cheia de história onde se cruzam culturas, hábitos, costumes e religiões. A cidade é praticamente plana, no vale com o seu nome, rodeado de colinas, mas tem uma colina que a domina, ali, onde fica o Cemitério Alifakovac…

Visitar aquele cemitério, onde tanta gente foi sepultada após a guerra, em que morreram mais de 12.000 pessoas, recolhidas de todos os sítios onde haviam sido enterradas às pressas durante o cerco… teve um efeito muito profundo!

É tudo tão recente, todas aquelas sepulturas são de gente que morreu entre 1992 e 1996, que choca muito mais que cemitérios das duas guerras mundiais! Como se afinal tudo possa voltar a acontecer…

A cidade renascida ao fundo…

“Descobrir Sarajevo foi um encanto tão desejado quanto inesperado! A cidade que se recompôs tão rapidamente de imensos e graves ferimentos, está de pé, cheia de contrastes e belezas diferentes! Edifícios modernos coexistem com ruelas estreitinhas ladeadas de lojas e barezinhos, cujos toldos quase se tocam de um lado para o outro do caminho. As cicatrizes da guerra e do longo cerco à cidade ainda são visíveis, em furos cimentados pelas fachadas dos edifícios mais altos, mas a zona pitoresca está perfeita e encantadora. Todos os receios se revelaram infundados, Sarajevo é aquela cidade simpática a revisitar com calma, mais dia menos dia!”

A Gazi husrev-bey mosque, considerada a mais importante construção Islâmica do país e um dos melhores exemplos do mundo da arquitetura otomana.

As ruínhas são encantadoras e intrincadas, cheias de lojinhas e esplanadas com bancos baixinhos e gente a tomar chá!

Os cemitérios otomanos estão um pouco por todo o lado, como jardins!

Mas havia algo que eu queria muito visitar na cidade, do outro lado, perto do aeroporto!

O túnel da esperança!

A cidade esteve cercada durante 3 anos e sobreviveu graças à criatividade do exército bósnio, que construiu um túnel por onde passou tudo o que foi necessário para garantir o mínimo a uma população sacrificada!

O túnel foi escavado por baixo do aeroporto, em condições muito difíceis, dado que o túnel se inundava frequentemente e não havia materiais adequados nem para expelir a água. Os soldados trabalharam 24 horas sobre 24, por turnos durante 5 meses até chegarem ao lado de lá!

Foi escavado à mão, com pá e picareta e a terra transportada em carrinhos de mão!

Por ali passou ajuda e materiais de todo o tipo para a população e soldados, numa cidade onde nada havia, nem luz, nem combustível, nem material medico suficiente….

Durante um bloqueio de mil dias, o túnel foi de esperança e de salvação. Através dele milhares de toneladas de alimentos, dispositivos técnicos militares, combustível e materiais médicos entraram na cidade!

Feridos graves foram evacuados e soldados, funcionários e superiores militares entraram e saíram.

“O túnel tornou-se um símbolo da resistência do povo desarmado, a um dos exércitos mais poderosos da Europa!”

Ele parte de uma casa insuspeita, de uma família comum, que permitiu que o exercito a usasse como ponto de partida. É comovente ver fotos da velhota, dona da casa, a dar água aos soldados!

Hoje a casa é um museu que guarda os “comboiinhos” que faziam o transporte de tudo…

Ali houve mesmo uma luz ao fundo do túnel…

A casa está lá, cheia de buracos de balas, como ficou depois do cerco acabar!

Depois continuam os cemitérios! Depois dos islâmicos e dos otomanos, que se podem encontrar em qualquer canto na cidade, os cristãos, cheios de cruzes e gravuras curiosas!

Voltei à estrada com a cabeça cheia de sensações e ligações a momentos vividos muitos anos antes, quando a guerra da Bósnia e o cerco de Sarajevo preocuparam os meus dias.

Os polícias Bósnios eram uns risonhos! Mandaram-me parar vezes sem conta, apenas para saber de onde eu vinha e se era mesmo uma mulher! Aqueles que não me mandaram parar à ida, mandaram-me parar à vinda!

Num momento em que eu vinha completamente distraída pelo meio dos montes, um jovem e muito interessante polícia mandou-me parar. Quase derrapei para o fazer pois não contava encontrar polícia numa curva da montanha!

“Sabe que o limite de velocidade aqui é de 40km/h?” – perguntou ele.

“Oh, mas aqui o meu amigo diz que são 60km/h!” – exclamei eu apontando o sinal redondo de 60 no meu GPS.

Ele espreitou – “Pois, mas o seu amigo está enganado.” – disse. Fiquei a olhar para ele como quem fez uma asneira esperando o que viesse! – “Pode seguir.” – disse ele então, com um sorriso, e piscou-me o olho!

Puxa, que menino giro e simpático! Se eu pudesse tinha-lhe tirado uma foto!

Depois vieram as vacas! Detesto cruzar com vacas que me olham fixamente! Fico sempre com a sensação que se ela vem e se encosta, não haverá nada que me salve debaixo dela! Como eu desejei que o polícia simpático estivesse mais perto um pouco para me salvar!

As ovelhas são muito menos assustadoras, correm para todos os lados e são mais pequenas do que a moto!

O lago Bilecko estava encantador ao entardecer!

Trebinje estava quase invisível!

E Dubrovnik estava linda!

Fui jantar à cidade, que é muito bonita à noite, com as suas ruelas estreitinhas de pedra polida e brilhante!

Ali é terra de peixe, e que bom peixe! Comi mexilhões porque não resisti ao seu aspeto! Tive de apontar para o prato dos vizinhos pois descobri que não sabia o seu nome em inglês! Tão cedo não me vou esquecer, chamam-se: Mussels

A Stradun, aquela rua que é quase uma praça, de tão larga, é pavimentada a calcário o que a faz brilhar. Mas naquela noite estava cheia de gente e pouco se via do seu chão. Ela é a rua principal de cidade desde o séc. XIII.

A Igreja de São Brás estava aberta àquela hora!

E tudo era uma animação! Parecia que estava em Espanha, onde o jantar se prolonga até à ceia e a festa até às tantas!

Um grupo de rapazes queria trocar o meu chapéu por um chapéu todo colorido! Diziam eles que eu, toda de preto, iria ficar um espanto com um chapéu azul turquesa ou vermelho!

E o porto velho com a Fortaleza de São João logo ao lado!

Aquela população viveu sempre do mar, até chegar o turismo, e dizia a tradição que cada homem devia plantar 100 ciprestes durante a sua vida, para poder um dia construir o seu próprio barco. Dizem que por isso hoje há tantos ciprestes em torno da cidade!

E fui-me despedir da Stradun e da torre do relógio e fui dormir!

E foi o fim do 15º dia de viagem!

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14 de agosto de 2013

– De Dubrovnik até Kotor… –

Este seria o dia de explorar um pouco de um novo país na minha história: Montenegro!

Mas antes de seguir para qualquer lado fui visitar Dubrovnik de dia! O mesmo lugar de estacionamento da noite anterior estava à minha espera, foi só parar e seguir caminhando!

Gostei particularmente das ruínhas que descem quase a pique, com escadinhas e lampiões em todo o seu cumprimento, até ao centro da cidade, até à Stradun.

Apetece mesmo capta-las em ambos os sentidos a todo o momento!

A igreja de São Brás estava de novo aberta… ou estaria ainda aberta?
Esta igreja barroca, do séc. XVIII, é muito importante e muito visitada, pois é dedicada ao padroeiro da cidade!

O porto estava tão bonito àquela hora da manhã!

Pensar que a cidade foi profundamente afetada pelo conflito da separação da ex-Jugoslávia! Foi cercada e bombardeada pelo exército da Sérvia & Montenegro, uma calamidade que foi muito bem recuperada e apagadas as suas feridas!

Na realidade os montenegrinos não queriam que a cidade ficasse com a Croácia, já que a consideravam historicamente sua, mesmo sendo a sua população maioritariamente croata e nem sequer ter muitos montenegrinos residentes! Coisa de sonhos de impérios grandiosos, mesmo que à força, e contra tudo e contra todos!

Estava muito calor já e eu não resisti aos meus desejos de momento e, tirando as botas, sentei-me num degrau do cais com os pés dentro da água transparente e fresquinha! Os turistas que se amontoavam para entrar nos barcos que fazem visitas na zona, ficaram a olhar para mim, com vontade de fazer o mesmo. Um velhote ainda fez menção de tirar os sapatos mas o piloto do barco veio busca-lo para partirem! Eheheh

Depois foi passear por ali, apreciando pormenores de uma cidade pavimentada e construída em pedra calcárica!

Como será caminhar por ali em tempo de chuva? Não será demasiado escorregadio?

A torre do relógio, medieval, parecia iluminada pelos céus!

E dava gosto apreciar a longa avenida sem os magotes de turista do dia anterior!

As ruínhas laterais pareciam chinocas de tanto lampião por ali acima!

As perspetivas lá de cima da estrada são fantásticas! Ficou marcada uma nova visita mas, da próxima vez, para demorar-me por ali, ficar, dormir e visitar em pormenor!

E experimentar aquelas praias de águas transparentes e deslumbrantes!

Este era o 3º mar que eu visitava naquela viagem, embora fossem todos Mediterrâneo, para além dele passara pelo Mar Lígure, na ribiera italiana, e agora no mar Adriático! Ao todo, certamente fiz 7 mares, digo eu!

Dubrovnik ficava para trás à medida que eu me aproximava de Montenegro.

A entrada em Montenegro foi rodeada por ciprestes! Será que os marinheiros croatas foram plantando os tais 100 ciprestes por cada um, até Montenegro?

Não houve qualquer dificuldade em passar a fronteira, apenas havia fila! Os habitantes de ambos os países cruzam a fronteira facilmente, mas havia também muitos alemães e italianos.

Então cheguei a um ferry! Eu sabia que havia caminho por terra mas apetecia-me tanto atravessar o mar! Dava a sensação que seria tão fresco andar por cima da água que eu fui perguntar a um dos policias controladores do trafego para o cais, como devia fazer para atravessar sem dinheiro!

“Não tens nenhum dinheiro?” – perguntou ele.

“Não tenho dinheiro do vosso!” – respondi

“Então que dinheiro tens?” – ele punha as mãos nas ancas e olhava para mim à espera que eu dissesse uma moeda qualquer esquisita, afinal eu vinha a Croácia e eles conhecem a sua moeda!

“Eu tenho euros!” – enfiei as mãos nos bolsos e mostrei 20€

“Mas aqui é euros!!” – exclamou ele espantado.

Bolas senti-me mesmo burra! Então eu fiz o trabalho de casa e não me lembrava mais que Montenegro, embora não faça parte da zona euro adotou a nossa moeda!

Siga para bingo e a minha motita fez sensação entre carros e bicicletas. Uma senhora de alguma idade veio pedir-me para tirar me uma foto junto da moto, depois a nós as duas mais a moto. Quando dei por mim toda a gente no barco olhava para mim e para a moto!

A baía de Kotor é um espanto que eu queria apreciar de todos os ângulos!

Kotor é encantadora, com um porto natural e toda uma baia em seu redor, como uma imensa piscina de tão calmas e belas são as suas águas!

Fui visitar a vila que é muralhada e é património da Humanidade!

Na realidade parece uma terrinha de brincar, com ruínhas estreitas e praças encantadoras que parecem ter sido decoradas para turista ver!

A igreja de São Lucas, fica ali no meio e, curiosamente, já foi de culto compartilhado entre ortodoxos e católicos, embora atualmente só se realizem ali celebrações ortodoxas.

Logo à frente fica a Igreja Ortodoxa Servia de São Nicolau.

Almocei ali, ao lado da catedral, umas lulas grelhadas deliciosas, com cerveja montenegrina 5 estrelas!

Para depois continuar as minhas explorações dos recantos e ruelas que eu tanto aprecio!

Achei um piadão à corda de estender a roupa, com roupa gigante pendurada com molas igualmente gigantes, na torre sineira da igreja de Santa Maria!

E ali ao lado fica uma das portas da cidadela, a Porta do Rio, ou Porta do Norte, do séc. XVI, com o rio a parecer falso de tão intensa que é a sua cor!

Passei por uma “estrela” de gato que posava placidamente para uma série de turistas que se aplicavam a sério para lhe apanhar o melhor ângulo!

A catedral de São Trifon é um edifício românico do séc. XII muito curioso! As suas torres são diferentes porque ela foi muito danificada por um terramoto no séc. XVII e, não havendo dinheiro para a restaurar completamente, foi feito o possível. Mais tarde voltou a passar por um outro terramoto, nos anos 70 do século passado, mas desta vez foi recuperada tal e qual era!

Por dentro ela é em tons de vermelho e salmão, em efeitos muito curiosos!

Pode-se visitar o tesouro que fica no andar de cima com acesso à varanda, de onde se vê toda a praça!

E fui deambulando por ruelas onde os turistas não se metiam, gosto de ver tudo o que puder sozinha!

E voltei à Trg od Oruzia, a Praça das Armas onde tudo se passa e de onde muita gente parecia não querer sair!

Aquele relógio tem 4 séculos!

E fui passear pela baía…

A Baia de Kotor é um deslumbramento em todos os ângulos que a observemos! Chamam-lhe Bocas de Cattaro ou Bocas de Kotor, ou ainda a Baía de Cátaro. Curioso como há nomes por ali que se assemelham aos daqui! Claro que me lembrei logo do país dos Cátaros, no sul de França! Será que tem algo a ver? Certamente que não, mas não deixa de ser curiosa a semelhança.

Ao contrario das paisagens que estamos habituados por aqui, em que depois do mar vem a praia, onde ele rebenta estendendo-se pela areia, ali há o mar e os fiordes por vezes profundamente vertiginosos, criando paisagens de extraordinária beleza!

Passeei-me em seu redor deslumbrando-me a todo o momento com o que os meus olhos viam, segura de que fotografia alguma conseguiria captar toda a aquela beleza. Montenegro, onde os montes são realmente muitos, mas de negro nada têm!

Simplesmente eu não conseguia seguir caminho! Parava a cada passo para ver e para me deslumbrar!

Depois lá me embrenhei pelo Parque Natural de Lovcen, por uma ruínha única que, embora estreitinha, era de 2 sentidos e era uma estrada nacional!

Por ali encontram-se os mais variados memoriais ao mortos da II Guerra, mas nada que se compare com os grandes monumentos que já visitara. Apenas lembretes, quando comparados com os outros, monumentais!

A partir de Cetinje comecei a subir para o Lovcen, onde fica o Mausoléu de Njegoš, o Shakespeare de Montenegro!

À medida que se vai subindo vai-se tendo uma perspetiva cada vez mais espantosa de toda a área do parque!

E pimba, o mausoléu estava em obras! Lá tive eu e muita gente de deixar a moto cá em baixo e subir o resto a pé!

Na realidade se não estivesse em obras o percurso também seria feito a pé, a única diferença é que subira por escadas civilizadas e não por escadas escavadas na rocha e cheias de cascalho solto!

Ao chegar ao mausoléu propriamente dito cruzei com um casal de motards, ambos carecas! Não posso negar que é prático usar o cabelo rapado… mas a mulher era tão feia que assustava!

E lá estava o Njegoš, todo coberto de pó!
O homem que foi politico, filosofo e poeta, entre tanta coisa que deu a Montenegro, como a secularização do estado, não é por acaso que ainda hoje tem a importância que tem!

Ele nasceu perto de Cetinje, numa pequena aldeia e quis ser sepultado lá, mas com a destruição do templo onde esteve, acabaram por lhe construir um mausoléu no “topo do mundo” o que foi controverso já que era sua vontade permanecer num local modesto!

Na verdade a construção é magnífica e fica num ponto incrivelmente espantoso!

Vale a pena subir ali só pela paisagem e pela serenidade fresca que ela nos transmite!

Cetinje lá ao fundo, aquela que ainda hoje é recordada como a capital do reino de Montenegro no início do século passado, entre 1910 e 1918.

Claro que não vim embora sem me despedir do homem, tinha de ser, a passagem passa por ele! Lá continuava coberto de pó, esculpido num bloco único de granito verde-escuro de quase quatro metros de altura e com 28 toneladas de peso! Garantido que nunca sairá dali!

O senhor da entrada ofereceu-se para me tirar uma foto, para me compensar, já que eu reclamei ter de pagar bilhete para ver o homem todo porco, e tudo cheio de pó! Eheheh

Na descida pude ver melhor o caminho e a paisagem com Cetinje sempre no horizonte!

Muita gente faz montinhos de pedrinhas por ali, fica muito giro e pedrinhas é o que não falta!

E fiz eu mesma o meu montinho de pedras! Ficou giro!

O caminho faz-se por cima da gruta onde fica a escadaria que leva ao mausoléu, enquanto a estão a renovar e não se pode passar. Não entendi muito bem porquê, pois se o mausoléu foi inaugurado nos anos 70, precisamente em 1974, já estava assim estragada a escadaria em pedra? Será que as pessoas que lá foram todos estes anos tinham cascos em vez de pés?

O que vale é que para baixo todos os santos ajudam!

Cá de baixo, de uma curva no caminho, podia-se ver a entrada da escadaria, como um buraco no monte!

E mais á frente o mausoléu parece uma pedrinha lá em cima!

E segui para Podgorica, avistando ao longe o lago Escútare ou Skadarsko jezero, surrealista!

E foi o fim do 16º dia de viagem!

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15 de agosto de 2013

– Budva, Sveti Stefan e o Canon do Moraca! –

Eu estava alojada junto ao Canon do Moraca, aquele rio fantástico de águas turquesa que fura por entre penhascos! Mas a noite foi de tempestade, eu pude ouvir o vento que soprava muito forte e a chuva a bater-me na janela… uma pena, porque eu fora até Podgorica para visitar a zona e o rio, e o tempo parecia não estar para ajudar, nem sequer me apetecia sair da cama para ir para aquela luta! Bolas…

Mas saí! Esperava-me um pequeno-almoço muito variado e interessante “bem, se não passear, pelo menos como!”

O temporal estava precisamente a montante do rio, onde eu queria ir! Fiquei ali a olhar para o céu e a ver para que lado soprava o vento, pois levaria o temporal consigo, já que era bem forte. E sim, levava as nuvens negras para o lado onde já estava negro e que, por acaso, era para onde eu queria ir!

No problem, mudança de planos, peguei na motita, tirei-lhe a top-case e segui para o lado inverso!

Uma pena o céu estar cinzento, Podgorica ficou com um ar mais triste por causa disso!

Podgorica, a capital do Montenegro, já se chamou Titogrado em honra do marechal Josip Broz Tito, o tal que manteve a Jugoslávia unida, contra tudo e contra todos, governando “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido”.

A cidade é literalmente fendida pelo rio. Curioso o estado natural em que ele se conserva, com as bermas em escarpas terrosas e pedregosas!

E lá fui seguindo para a costa, onde o tempo não estava nenhuma beleza, mas pelo menos não chovia!

Se aquele céu estivesse azul, a paisagem seria um deslumbramento, com Budva cheia de gente e movimento lá em baixo!

Estava bastante calor, o tempo encoberto apenas acrescentou humidade ao ar!

A Budvanska rivijera é muito procurada pelas praias, restaurante, hotéis e vidinha noturna! Eu pela vida noturna não me esforço muito mas pela praia, estava mesmo a apetecer!

Por isso fui ver se arranjava um pedaço de areia para me pôr! Para minha surpresa fui muito bem recebida por quem estava, e uma senhora velhota indicou-me a sua “espreguiçadeira” para eu me estender! Depois entendi que ela tinha duas reservadas como suas e como o marido andava a passear junto à água, ela ofereceu-me o seu lugar para eu me estender! Tão simpática!

Mesmo atrás fica uma fileira de restaurantes, cafés e tendas de todas as tretas!
Passei ali boa parte do meu dia, em conversa complicada com as pessoas que falavam pouco inglês, mas que se faziam entender! Um senhor aproximou-se cheio de curiosidade e ao saber que eu era portuguesa exclamou “Big Figo and Eusébio! Ronaldo is for girls!”

Depois de um tempo simpático e um almoço mais universal que regional voltei para a minha motita. Estava acompanhada. As pessoas ficaram atrapalhadas quando perceberam que ela era minha! Fiz-lhes sinal de que não havia problema e lá tiraram as fotos que quiseram com a criancinha e a moto, agradecendo-me muito!

Logo ali à frente, apenas a 6 ou 7 km de Budva, fica Sveti Stefan, uma ilhota ligada a terra por um istmo, que é um resort que vale a pena ver, mesmo de longe! Fui até lá!

Na sua origem foi uma fortificação do séc. XV, construída para defender a linha costeira, posteriormente uma aldeia que foi completamente adquirida pelo major Tito, que a transformou num resort de luxo.

Tentei aproximar-me. Lá em baixo à um “torniquete” com um guardião que o abre a quem quer!

Tentei entrar, estava uma motinha pequena estacionada num parque sem nada mais do que ela. O homem não me deixou ficar, disse-me que não havia lugar!!

Fiquei a olhar para ele, com ar de quem não vai reclamar mas o acha anormal de todo!

Voltei para cima, pela ruela onde é proibido estacionar! Raios, eu não iria deixar a moto a quilómetros para caminhar até ali! Parei junto a um jovem policia que vira a meio da subida. Ele estava do outro lado da rua a mandar os carros voltarem para cima, chamei-o sem desmontar da minha moto.

Perguntei-lhe onde podia parar a moto por uns minutos enquanto ia até à ilha, “no parque lá em baixo!” – respondeu ele como se fosse óbvio. “o homem diz que não há lugar para a minha moto lá!”- expliquei eu. Ele fez um gesto com o dedo como se aparafusasse a cabeça, do tipo, o homem é mas é tolo e mandou-me pô-la junto da dele e, enquanto eu a encostava bem à berma da estrada ele aproximou-se com outro rapaz. Perguntou-me de onde eu vinha.

Quando me fazem esta pergunta numa viagem nunca sei muito bem o que querem saber!

De onde venho quando? Agora, venho de Budva; hoje venho de Podogrica; neste ponto da viagem venho da Croácia; de origem, venho de Portugal! Complicado de responder, não é?

Ficou impressionado por eu vir de tão longe e, ao perceber que eu não tinha vindo de ferry ficou mudo de espanto! Mostrei-lhe o mapa total da viagem, percebeu então que ainda tinha muita estrada para fazer!

Adorou a minha moto, propôs trocar a minha pela sua, que eu era muito pequena e magrinha para ela e ele era muito maior e mais forte do que eu!

Lá o deixei mais o amigo a apreciar a minha Ninfa e fui passear pela zona.

Acho sempre piada quando encontro palavras que parecem nossas!

As praias ali têm a areia meio rosada que lhes dá um ar quase artificial!

Bolas, mas eu queria era ir até à ilha dar uma voltinha e ver como aquilo é por dentro! E não se pode! É só para hóspedes!

Fiquei meio desiludida! Por outro lado que se lixe, não teria muita piada ir passear para o meio de uma série de hotéis com gente chique… digo eu, que não pude lá ir!

Segue-se pela beira da praia, a do lado direito estava vazia, e vai-se tendo perspetivas interessantes da ilha e da praia.

Mais à frente estava montes de gente quase a fazer fila para fotografar ou ser fotografado com a ilha como cenário!
Coisa de pobre que não pode entrar como eu, mas pode fazer de conta!

E, como eu também sou pobre, aproveitei a deixa de me pedirem para tirar fotos para ser fotografada também!

Foi ao ver a foto que me apercebi como o sol me tinha marcado tanto dos últimos dias! A marca da fita da máquina fotográfica era tão forte no meu pescoço e a parte de baixo do rosto estava visivelmente mais escura que a de cima! Mas eu estava feliz, e isso é que me importava mesmo!

Quando voltei de novo à minha moto o policia veio ter comigo, pensei que me iria dizer algo porque eu demorara bem mais do que os 10, minutos que prometera! Chegou perto de mim e estendeu-me a mão com uma chave, a chave da sua scooter: “Então, é neste momento que trocamos de moto?” – perguntou com um grande sorriso.

“Não poderia trocar, tenho uma viagem para continuar!” – respondi.
“Com a minha scooter não teria qualquer problema, seguramente ninguém te incomodaria até chegares a casa!”

Seguramente que não! Ela tinha “Policija” escrito na frente e o pirilampo azul atrás! eheheh

Ainda fiquei ali um bocado na conversa e na risota com ele e parti dizendo, como sempre faço, “Bye and, your country is very, very beautiful!” porque, além de ser verdade, as pessoas merecem sabe-lo!

Na costa os hotéis continuam e a zona de passagem é meio privada. Fiz uma foto-caricatura de nós as duas, eu e a Ninfa, num dos muitos espelhos de auxílio à condução que há em todos os cruzamentos por ali!

Parei para ver a coisa de longe e segui pela costa para sul, para seguir de volta para Podgorica.

Mais abaixo entra-se em ângulo reto em relação à costa e atravessa-se uma ponta do lago Escútare ou Skadarsko jezero, que vira no dia anterior de longe. Infelizmente a linha do comboio não permite aproximar dele naquele ponto!

O calor voltava a estar meio infernal e eu só pensava em abastecer-me de água fresca!

Passei em Podgorica, no meio de uma planície que parece nunca mais acabar, rodeada de ciprestes

Há infinidades de bancadas de venda de fruta pela berma da estrada, mesmo no centro da cidade! Repuxos improvisados de mangueiras que deitam água sobre as melancias, garantem que a fruta não estará quente se a compramos! Os figos são uma das minhas frutas preferidas e não resisti a experimenta-los: eram simplesmente D E L I C I O S O S!

E logo a seguir ficava o meu hostel e começava o deslumbramento do Canon do Moraca!

São quilómetros de frescura e beleza que acompanhei com pausas refrescantes e figos doces e suculentos!

Há momentos em que parece que a estrada é apenas um rasgão no rochedo onde nada cabe, mas na realidade a estrada é larga e passa por ela todo o tipo de veiculo, até ao maior camião!

Um carro com 5 jovens caíra ali havia pouco tempo, naquele ponto da estrada, estava lá montado todo um altar, com flores e as fotos deles! Eu tinha parado para ver o rio lá em baixo e fiquei chocada ao imaginar alguém cair ali de carro!

Preparava-me para seguir quando apareceu um tipo sei lá de onde, pois aquilo é longe de tudo, não há sequer uma cabana perto. Dizia ele para eu lhe dar a máquina fotográfica que ele me tirava uma foto a conduzir na rua! Apenas fez um gesto na direção da maquina que eu trazia pendurada ao peito e eu passei-me, fiz um ar de má e atirei-lhe com um “What??” tão convincente e autoritário que o homem desapareceu na natureza!

Se tinha má intensão era burro o suficiente para não perceber que bastava dar-me um empurrão e eu cairia mais a moto, pois estava em posição bem instável! Mas o meu ar deve ser mais intimidatório do que eu podia imaginar! Eheheh

E passeei o resto da minha tarde por aquelas paisagens, voltando para o hostel onde me esperava um belo e baratinho jantar. Os hotéis e hostels têm visível prazer em assinalar que são “biker friendly”

Naquela noite fiz serão no bar, um pequeno pavilhão construído em madeira, onde a net era forte e me permitia fazer uma série de pesquisas. O patrão, que estava numa mesa perto com um grupo de amigos, achou-me muita graça e ofereceu-me toda a cerveja que eu quis beber! Ele falava pouco inglês, mas o filho foi traduzindo o que ele me queria dizer, tinha-me visto em Budva e ficara espantado com o conjunto que fazíamos, a moto e eu e, sem imaginar que eu estava hospedada no seu hostel! Quando me viu chegar ali ficou todo vaidoso, até tirou fotos à moto para mostrar aos amigos! Foi muito engraçado o serão!

E foi o fim do meu 17º dia de viagem!

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16 de agosto de 2013

– 4 países num dia… de Montenegro até à Grécia! –

E chegava o momento de seguir para um dos grandes destinos desta viagem!
Há sempre um ou dois destinos que me direcionam numa viagem, esses que ditam para que lado ir, e este era na Grécia, o que me faria atravessar 2 países para lá chegar! Por isso naquele dia eu faria quase 700 km por 4 países: Montenegro, Albânia, Macedónia e Grécia!

Embora tivesse uma longa distância para percorrer não me sentia nada preocupada nem pressionada! Há dias assim, em que o calor é mais aflitivo do que os quilómetros e aquele dia prometia ser quente de novo. Lembro-me que durante a noite molhei diversas vezes o meu lenço para limpar o rosto e o pôr sobre a cabeça, como se faz quando as pessoas têm febre, porque o calor era muito e eu sentia-me febril, mesmo com o ar condicionado ligado!

Começava a achar que nunca me livraria do sofrimento do calor e tratava mas era de me mentalizar para ele, como um tropa se prepara mentalmente para uma missão dura!

À hora que me levantei ainda apetecia andar por ali a passear, em redor do hostel, enquanto o pequeno-almoço era preparado!

O edifício é voltado para o rio, que fica do outro lado do caminho que é privado do hostel.

Constatei que andava a passear “pelo quarto de dormir” de uma série de caminhantes que dormiam ao relento, no relvado da berma do caminho do hostel! Constatei também que ali se dá guarida a todo o tipo de viajantes, entre mochileiros que dormiam ali na relva, caravanistas parqueados logo a seguir e gente como eu, muito mais comodista que preferi pagar 20€ e dormir duas noites numa cama de casal fofa, num quarto enorme, com televisão e ar condicionado!

E segui o curso do rio Moraca na direção do Skadarsko jezero, pois a fronteira com a Albânia fica lá pelo meio do lago!

Ao passear-me por ali ficava fascinada com o estado natural em que o rio se conserva, ninguém diria que estamos na capital de um país com uma paisagem destas!

E lá estava o lago Escútare ou Skadarsko jezero, o maior dos Balcãs, que é alimentado pelas águas rio Moraca e desagua no mar Adriático através de um outro rio.

A ruínha que escolhi para ir até ele era, no mínimo, original! Irregular, cheia de altos e baixos, areias e cascalho, de quando em quando, mas cheia de encanto também!

As perspetivas que ia tendo do lago eram encantadoras àquela hora da manhã, ainda com as brumas matinais a encher tudo de encanto!

A estrada nacional parecia uma autoestrada em comparação com a estradinha ziguezagueante que eu fizera!

Cheguei à fronteira da Albânia já a circular num autêntico inferno! O termómetro da moto não deixava de piscar nos 50º, o que queria dizer que não conseguia contar mais do que isso!
Eu já levava o lenço enfiado no vão do vidro para poder limpar a cara, no arranca e pára para passar a fronteira.

E o lago continua pela Albânia!

O lixo pelo chão começa logo ali, a 50 metros da fronteira, veja-se quando parei para ler o mapa do país na berma da estrada!

A estrada parecia uma reta sem fim com construções isoladas, muitas em mau estado e uma série de bombas de gasolina abandonadas, até chegar a uma cidade… uma população… um lugar, sei lá! Sei que era cheio de lixo, confusão…

A fazer lembrar uma cidade marroquina, com burros estacionadas na berma da estrada e tudo!
Nem parei, o calor era infernal, o ambiente cheio de pó e trânsito, de tal maneira que nem parei e poucas fotos tirei.

Segui para Shkodër que, apesar de ter uma “entrada” igualmente desordenada e desarranjada, tem um centro bem fofinho, perto da mesquita!

Eu estava a precisar muito de beber algo fresco e aquele ambiente foi o meu oásis!

Oh, quase me deixei desfalecer numa esplanada tão confortável, agarrada a uma enorme copada de sumo de laranja fresquíssimo!

A mesquita fica num jardim entre a zona trapalhona e a zona turística!

Foi esta cidade que deu o nome ao Lago Escútare que também é
“Skadar” “Shkodër” “Shkodra” dependendo da língua em que é pronunciado!

E segui pelos montes com o rio como paisagem!

Uma pena o lixo por todos os lados, mesmo quando não há casas por perto, ele está lá! O que destoa profundamente com a beleza das paisagens!

Parece que por aquelas terras a água tem sempre cores extraordinárias e quase irreais!

A minha ideia não era propriamente “catar” o país e sim ver como ele é, como são as paisagens, as pessoas, o ambiente! Porque se trata de um dos países mais pobres da Europa, onde grande parte da população é camponesa, e não existe muita informação sobre ele!

Encontrei ciganos, que me acenaram adeus quando parei para fotografar os seus cavalos a pastar selados, como se fossem partir a qualquer momento!

E recantos decrépitos, abandonados e cheios de lixo também…

Na berma das estradas viam-se tendinhas montadas com telhado de folhas de milho, onde miúdos assavam massaroca para vender aos transeuntes e, sobretudo, aos turistas.

Por aquela altura eu já estava morta de sede há umas horas, mas não havia nada onde comprar o que quer que fosse. Até que vi um larguinho na berma da estrada com uma fonte, onde uma série de pessoas lavava as mãos. Não resisti, dei meia volta e fui até lá, peguei na minha garrafa de água, há muito vazia e fui enche-la na fonte. Aquelas mulheres ficaram todas a olhar para mim, lavavam as mãos e a cara com sabonete que estava pousado na berma da fonte, que tinha a forma de dois golfinhos entrelaçados.
Quando olhei para a água dentro da garrafa, que desilusão, era turba!

Voltei-me para as senhoras e perguntei mais por gestos do que por palavras, se aquela água não se podia beber!
Responderam-me todas em coro “no, no, Bar, Bar!” apontando para o bar que ficava logo ali ao lado. Bolas, eu não tinha lekë, como iria pagar a água?

Fui até à moto, tratar de tirar o capacete e buscar euros a ver se conseguia comprar água! Estava eu nessa operação quando uma senhora vem do bar com uma garrafa de água gelada e ma oferece! Fiquei espantada! Fiz o gesto de quem pergunta quanto é, ela respondeu-me com um gesto amplo, com as mãos abertas, significando “nada”.

As pessoas em redor olhavam com satisfação, pelo menos sorriam para mim e para ela! Abri ali mesmo a garrafa e bebi quase metade, a água era deliciosa!

Agradeci mais uma vez, disse adeus àquelas pessoas tão simpáticas e segui o meu caminho tão satisfeita e enternecida “há gente tão boa por este mundo!”

As ruas que fiz eram pavimentadas mas parecia que tinham aluído, olhava-se de repente e não havia buraco algum, mas ao passar era necessário contornar pedaços literalmente engelhados de alcatrão!

Tal como na Bósnia vêm-se pequenos altares na berma das estradas, em honra de mortos em acidentes de viação!

Já andava atenta às estações de serviço há um bom pedaço, tentando encontrar alguma com o sinal de cartão de crédito, quando encontrei uma mandei abastecer e… quando fui pagar não aceitava cartão nenhum! Oh raios partam o azar! Claro que acabei por pagar em euros ou não sei como seria! O homem deu-me o troco em lekë, e eu que estava a sair do país fiquei com um nota para gastar!

Mais uns quantos quilómetros e estava a chegar à fronteira com a Macedónia. Bem, agora que tinha dinheiro fui mas é beber qualquer coisa antes de sair do país.

Pedi cerveja e água e ainda bem que não pedi mais nada porque um senhor que estava lá sentado numa mesa pagou tudo o que pedi! Puxa, aqueles albaneses são todos boas pessoas? Fui-me sentar numa mesa enquanto toda a gente olhava para mim com uma curiosidade simpática, já que sorriam para mim!

Ao despedir-me disse adeus a toda a gente e recebi um caloroso adeus com direito a acenos e tudo, enquanto alguns vinham até à porta ver-me partir!

Tenho de voltar à Albânia!

Logo a seguir à fronteira acaba o lixo por todos os lados!

A Macedónia foi também um país que apenas atravessei, estava demasiado calor para eu parar aqui e ali, mas deu para ver que é um país lindo que terei que visitar mais demoradamente um dia que volte àqueles lados.

Desta vez parei apenas em Ohrid, com o seu lago que prometia alguma frescura no inferno de calor que eu vinha a atravessar há horas!

Ohrid é a cidade maior na borda do lago com o seu nome. Ohrid, que em português é Ácrida, é uma cidade turística e simpática que só consegui visitar depois de parar junto ao lago e molhar os pés e as mãos e quase enfiar a cabeça dentro dele! Por momentos até a visão da água me pareceu quente, por momentos pensei que não seria capaz de me afastar dali para seguir para a Grécia. Fiquei ajoelhada na berma do cais, como os islâmicos fazem quando rezam, as mãos na água e a cabeça mais baixa que o corpo. A tensão arterial equilibrou e só então fui ver o povo, passear pelas ruas e beber algo bem fresco.

A cidade estava cheia de gente que se passeava com todo aquele calor! Nos jardins tem estátuas de tipos cabeçudos com ar de filósofos. Não consegui perceber quem eram porque a escrita deles não é inteligível para mim! Nem o abecedário é parecido com o nosso!

As pessoas comiam gelados sofregamente, eu limitava-me a carregar comigo uma garrafa de água… tenho sempre a sensação de que o gelado por ser doce me deixará ainda mais cheia de cede!

Achei curiosos os altares deles, ortodoxos, cheios de imagens e velinhas!

Quando voltei ao lago estava cheio de ondulação! Be diferente de quando eu chegara!

E voltei a enfiar os pés na água…

e deitei-me um pouco no jardim à sombra, com as pernas das calças todas molhadas e com uma enorme vontade de não me mexer nem mais um passo…

Mas o tempo iria começar a arrefecer um pouco e, animada por essa ideia, lá arranjei coragem para seguir o meu caminho até Trikala na Grécia, que ficava ainda a uma infinidade de quilómetros!

Se eu fico preocupada quando vejo uma vaca a olhar fixamente para mim, imagine-se o que sinto quando vejo uma manada a correr na minha direção!

A minha aventura com as vacas gregas apenas estava a começar! Elas lá passaram a trote por mim, o que não me impediu de parar e pôr o descanso à moto! Nunca confiar em bichos que são maiores que eu e a minha motita!

Cheguei tarde a Trikala mas, só lá é que entendi o quanto era tarde! É que eu não tinha reparado que a hora da Grécia é igual à de Istambul, o que quer dizer 2 horas mais tarde que aqui, e eu pensava que era só uma hora a mais!

Fui comer a um restaurante logo acima do hostel e fui tão bem recebida e servida que iria lá voltar nas noites seguintes.

Fui dormir, pressentindo os montes gigantescos em torno de mim. de repente a vontade que a manhã chegasse rápido era muita, mesmo sabendo que iria sofrer de novo com o calor, eu queria muito ver o que me envolvia naquele que foi um dos destinos impulsionadores desta viagem!

E foi o fim do 18º dia de viagem!

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17 de agosto de 2013

– Meteora… what a beautiful day! –

Foi por Meteora que fui ali!

Foi por ela que eu reservei 3 noites em Trikala!

“Μετέωρα, ou Meteora,, foi um dos destinos impulsionadores desta viagem! Uma sequência de mosteiros ortodoxos “pendurados” no ar, em grandes blocos de pedra que parecem sair verticalmente do chão, simplesmente deslumbrante! Desde a primeira vez que deparei com uma imagem de Meteora que eu quis cá vir. A princípio pensei que eram apenas imagens manipuladas, arte digital, daquela que faz cenários fantásticos para filmes, mas não, é mesmo real! Hoje visitei 2 mosteiros já, amanhã continuarei a explorar… acho que nunca me cansarei de fotografar isto tudo de todos os ângulos!”

Lembro-me de estar a escolher o hostel para pernoitar e encontrar aquele em que fiquei e ficar deslumbrada pelas fotos que apresentava no site. “Certamente que isto é tudo mentira, devem ter ido tirar as fotos mais abaixo para pôr aqui e só quando lá chegar é que vou ver o que aquilo é mesmo!”. O preço era demasiado baixo para me darem tanto, pensava eu!

Mas a verdade é que, mesmo de noite, quando ali cheguei, eu pressentia a presença dos enormes blocos, no escuro, logo ali! Mesmo sendo muito grandes tinham de estar suficientemente próximos para eu lhes sentir o perfil tão acima do horizonte!

O meu quarto, como todos os do hostel, não dava para um corredor interno como seria previsível, e sim para um terraço que contornava a casa. E, especialmente o meu, ficava voltado para o lado mais bonito da cidade e para o lado mais largo do terraço também, onde havia flores e cadeiras e tudo!

Quando sai a porta… Meteora encheu o meu horizonte de espanto!

A minha motita tinha-se instalado junto de uma amiga que lhe fez companhia durante as 2 noites seguintes.

Curiosamente os donos da moto não saiam nela! Diz-se de Mateora, como de outras cidades no mundo, que ela deve ser visitada a pé mas, mesmo eu andando muito a pé para visitar uma cidade, continuo a dizer que há distancias que se fazem muito melhor de moto!

É o caso ali, as estradas são boas, as paisagens são deslumbrantes, toda a montanha parece envolver-nos em qualquer ponto do percurso, depois é só parar a moto e caminhar!

E os mosteiros começam a aparecer no topo de qualquer penedo gigantesco!

Meteora, dizem que quer dizer “no meio do céu” e eu acrescentaria e “brotado da terra”!

Ali se pode encontrar o maior complexo de mosteiros cristãos, apenas superado por outro complexo religioso, também na Grécia, no Monte Atos, onde eu terei de ir um dia destes!

Na realidade, reza a história que os primeiros mosteiros se foram instalando em cavernas e reentrâncias nas rochas, lá pelo séc XI. Os monges eremitas queriam mesmo ficar longe do mundo e conseguiram-no! Na realidade eles queriam defender-se da ocupação otomana e ali ninguém os poderia alcançar!

Foram construídos posteriormente mais de 20 mosteiros e hoje 6 deles são visitáveis:

1- Megálos Metéoros (Grande Meteoro ou Mosteiro da Transfiguração),
2- Varlaam,
3- Ágios Stéphanos (Santo Estêvão),
4- Ágia Tríada (Santíssima Trindade),
5- São Nicolau Anapausas
6- Roussanou.

Destes 6 visitei 3… que aquilo de escalar escadas dá cabo das pernas à gente e no fim eles acabam por ser meio semelhantes!

Fui visitar o Grande Meteoro, fica mesmo no fim da rua e pareceu-me que não tinha de escalar muitos degraus!

Claro que me enganei, pois o facto de haver uma entrada direta da rua, não impede que se tenha de descer o monte onde estamos, para escalar aquele em que o mosteiro está!

Os monges têm “elevador moderníssimo” para entrarem diretos no mosteiro, mas é só para eles e para todas as mercadorias e tralhas que um mosteiro precisa para se manter! Nós, povo comum curioso, temos de penar para lá chegar! É justo, afinal ninguém nos chamou lá!

Antigamente este acesso direto era feito por redes grossíssimas de corda que eram içadas por roldanas desde a torre dos mosteiros, e por ali subia e descia tudo, inclusive pessoas!

É que os pilares de rocha chegam a ter quase 600 metros de atura a pique!

O mais encantador da subida é a perspetiva que se vai tendo sobre outros mosteiros, que vão aparecendo por entre as escarpas, revelando-se como visões extraordinárias! Só por isso já vale a subida!

Ao lado do Grande Meteoro fica o Varlaam, que não visitei mas que fotografei e desenhei até à exaustão!

À entrada de cada mosteiro existem saias, tipo avental, daquelas que se amarram à cintura, para as mulheres vestirem. A principio não entendi, pois se eu nem de calções estava, o que teria de tapar com as saias?

Um monge simpático só me dizia “ponha-a, é melhor!” e repetia aquilo talvez porque não sabia dizer mais! As saias até eram bonitas e frescas, nem a sentia mais depois de vestida! Eram de seda preta com bolinhas brancas! Não perdi a oportunidade de pedir a alguém que me tirasse uma foto, tinha de registar o momento “griff” da minha visita!

Lá de cima a paisagem é sempre deslumbrante, com o vale contornado pelos blocos de pedra e Trikala lá em baixo!

O mosteiro vizinho perfeitamente visível, mais abaixo, por entre pedras a pique!

Os mosteiros não são completamente visitáveis, porque estão em funcionamento, por isso há ali gente a viver, como num condomínio fechado, onde tudo se faz e muita coisa se produz!

O único sítio onde não se pode tirar fotos é nas igrejas mas, claro, a gente quando tem oportunidade sempre capta uma ou outra perspetiva da coisa, porque são muito bonitas e totalmente pintadas no interior!

Se fizessem um hotel ali o ambiente seria muito agradável e, seguramente, teria muitos hospedes!

Há no Metoron um museu com coisas militares, incluindo imagens das grandes guerras e fardas da época.

Acho sempre curioso ver fardas militares com saias! Não sei como eles se arranjavam a manobrar uma saia plissada daquelas em tempo de guerra!

O mosteiro é grande e cheio de recantos com representações religiosas em que as caras dos santos parecem todas iguais! Deviam estar sempre mal dispostos quando posavam para o mosaico!

Ali havia tudo o necessário para se viver, desde campo cultivado até cozinha perfeitamente apetrechada para cozinhar!

Com direito a ossário e tudo!
Quando vi a placa não entendi o que iria ver! Um cemitério ali?

“O Mosteiro do Grande Meteoron foi o primeiro mosteiro que visitei em Meteora! Uma construção do séc. XIV e um dos poucos que se podem visitar hoje. Desce-se do nível da rua, onde eu deixei ficar a moto, e começa-se a subir a escada encravada na rocha até ao mosteiro que fica no penhasco em frente. Foi uma sensação extraordinária entrar ali, como quem entra numa imagem há muito idealizada na cabeça! Num recanto encontrei uma placa que dizia “ossuary”! Então espreita-se pela abertura, numa porta antiga e robusta de madeira, e lá estão eles! Ossos e crânios arrumados, como livros, em estantes! Curiosa sensação estar perante tal vestígio do passado!”

Na torre pode-se visitar o local de carga e descarga, quando tudo isso se fazia por roldanas e redes de corda que tudo transportavam!

A operação tinha este aspeto vista de fora, naquele “saco” de rede subia e descia gente também!

Tudo muito bonito ali em cima, podia passar ali uns tempos sem sair, apenas a relaxar, numa estadia muito “zen”, fotografando em todas as direções e desenhando todo o tempo!

Aquele padre era ortodoxo e vinha da Roménia! Toda uma camioneta de romenos andava a passear por ali comigo. Quando saímos fizeram uma festa ao encontrarem o meu meio de transporte e ainda ficaram mais contentes quando disse que iria seguir a minha viagem até à terra deles!

Até palmas bateram!

“Vais-te apaixonar pela Roménia!” diziam todos “After seeing Romania with your own eyes you will be in love with my country forever!” dizia o monge… e tinha razão!

E segui pela rua que liga todos os mosteiros visitáveis, parando aqui e ali para ver cada um nos seus melhores ângulos!

Lá de cima podem-se ver mais do que os 6 em visita, estão por todos os lados, encavalitados nas rochas que chegam a parecer dedos apontados para o céu!

Cá mais abaixo podia ver o Grand Meteoron, que acabara de visitar e o Varlaam, que fotografara vezes sem conta!

E a estrada lá em baixo, que passa por todo o lado! Pensar que quem visita os mosteiros a pé tem de a fazer subindo, indo de mosteiro em mosteiro, subir degraus e mais degraus e depois voltar caminhando, por uma infinidade de quilómetros de caminho!

Há rochas estrategicamente posicionadas onde toda a gente vai e onde toda a gente pede que lhe tirem fotos, com aquela paisagem como fundo! Tirei fotos a uma infinidade de pessoas que me pediam e, claro, aproveitei e também me tiraram a mim!

Ao fundo, por entre o limite dos rochedos, vê-se Kalabáka, a cidade mais próxima, com o Mosteiro de Agia Tríada, que serviu de cenário ao filme de James Bond, sobre a grande pedra da esquerda!

Só de olhar para ele foi-se a vontade de o visitar! Nem a fama e a história me fazia querer subir todo aquele enorme rochedo para ir lá acima… mas acabaria por me render e não partir sem lá ir, não naquele dia… mais tarde!

Naquele dia fui visitar o único mosteiro de mulheres de entre os 6, o Ágios Stéphanos.

Vestiam de negro, embrulhadas quase até aos olhos, pareciam islâmicas e eram antipáticas! Não pude evitar o sentimento de que eram mulheres “ressabiadas” mas se calhar fui injusta! Repetiram-me vezes sem conta que tinha de vestir uma saia, e eu a vesti-la! “já entendi! abre os olhos, estou a vesti-la não vês?”

O bilhete para visitar qualquer dos mosteiros é de 3€ e vale o dinheiro, se bem que devia ser descontado o esforço da subida no preço do dito!

Como as meninas eram antipáticas e nos tratavam como se fossemos usurpadores do que era seu, como se algum visitante fosse invadir o seu espaço, que afinal elas tinham posto ao dispor da nossa visita, não tive qualquer preconceito em “roubar” as fotos que quis! Elas bem berravam para toda a gente “No photo, no photo!” mas eram burras demais para perceberem que há maquinas que não usam flash e não fazem barulho, como a minha, e só chateavam os inocentes que nem faziam menção de tentar fotografar, deixando-me em paz, mais à frente!

O calor era imenso ali em cima! Cheguei a ter pena das “monjas” porque eu desmaiaria se andasse toda embrulhada em panos pretos! Até dei um desconto ao seu mau-feitio, pois se até os gatos se enfiavam dentro das fontes!

Kalabáka lá em baixo!

E foi onde fui a seguir, visitar a Igreja Bizantina da Assunção da Virgem, do séc. XI!

Sempre tive curiosidade de visitar estas igrejas e aquela estava ali, encostada à montanha, sem ninguém a enche-la de confusão!

Mais uma vez não era permitido fotografar, mas a senhora confiou que se eu tentasse fotografar ouviria a máquina…

De longe a visão de Kalabáka com Meteora sobre si é deslumbrante!

E fui para casa, que tinha todos os atrativos num dia de mais de 40º graus de calor, a começar pela paisagem e seguindo pela simpatia das pessoas!

O meu terraço tinha esta paisagem incrível!


Por isso comprei uma garrafa de vinho e uma série de bugigangas de que gosto muito e fui-me instalar no maior conforto a saborear o paraíso!

Para minha surpresa a dona do hostel “adotou-me” e trouxe-me um belo prato de fruta fresca, entre figos, melão e pêssego! Que coisa deliciosa acompanhada com um vinho da zona delicioso!

Naquele dia eu pesei-me!

Descobri uma balança no quarto e… tinha perdido 7 quilos!

Aquela viagem estava a retirar de mim mais do que devia! Eu simplesmente não podia continuar a perder tanto peso porque, naturalmente, não era gordura o que eu estava a perder! Estava no 19º dia de viagem e ninguém perde 7 quilos em 19 dias! Eu estava a perder tudo e com isso acabaria por perder também massa muscular!

Relembrei a minha alimentação nos últimos tempos e percebi que, mesmo comendo bem, não o fazia com a regularidade necessária, tinha passado dias a beber de tudo e a comer menos do que devia, porque o calor faz isso à gente!

Ficou decidido que iria comer para a mundial naquela noite, pois então!

Entardecia e eu fui subir de novo a montanha para ver aquilo tudo ao pôr-do-sol!

Os rochedos estratégicos estão sempre cheios de gente ao entardecer, não era só eu que queria ver o sol pôr-se!

Um grego, emigrante na França, andava por ali com a sua motinha e encontrava-o a cada vez que parava para ver mais um ângulo da paisagem! Falávamos em francês e voltávamos a encontrar-nos no mosteiro seguinte! Dizia ele que o português e o grego eram povos muito parecidos e que nunca vira uma moto portuguesa por ali! Voltaria a estar com ele no dia seguinte, a ver o pôr–do-sol de todos os ângulos e a partir de todos os mosteiros!

Com uma estrada daquelas quem quer andar por ali a pé?

E fui-me encher de comida, como tinha prometido a mim própria!
Voltei ao restaurante simpático onde jantara no dia anterior. Comi divinalmente com direito a tudo incluindo um ambiente supersimpático de esplanada,

e a Ninfa à porta! Que mais se pode querer da vida?

E foi o fim do 19º dia de viagem!

**** ****

18 de agosto de 2013

– Fui brincar para a montanha!

Naquele segundo dia por Meteora eu decidi passear pela montanha ali perto!

Estava muito calor mas, mesmo assim, eu decidi ir! Apenas cometi um pequeno erro, fui passear de calções e o sol escaldante foi desenhando zonas vermelhas nas minhas pernas, ao mesmo tempo que toda a moto parecia escaldar, ao ponto de eu escaldar um tornozelo na carenagem! Dizem que a Pan European aquece, eu nunca dei por ela, o que aqueceu foi mesmo o sol, ao ponto de os plásticos se tornarem perigosos para as minhas pernas brancas e frágeis, que não viam o sol há vários anos!

Comecei por dar uma volta pela redondeza porque simplesmente não me podia impedir de ir sempre ver mais um pouco! Trikala fica ali aninhada junto dos grandes rochedos de Meteora e as casas vão até eles subindo por ruelas íngremes que vão até eles!

Rochedos que parecem paredes enormes, por vezes!

Fui-me afastando, com vontade de ir e de ficar, com aquele paraíso a afastar-se de mim no horizonte! “tenho de voltar cedo para passear por ali logo!” prometi a mim própria!

Logo a seguir comecei a subir, podia ver no GPS uma estrada convidativa e segui por ela! Tudo era tão bonito em meu redor que tive a certeza de que escolhera algo de bonito para fazer!

E começou ali mais uma epopeia com as benditas vacas! Detesto cruzar com bichos que são maiores e mais pesados do que eu mais a minha moto juntas!

A rua era um espanto! Retorcia-se como uma linha num bolso, subindo em curvas espirais encantadoras!

Se aquilo fosse na França ou na Suíça, teria por todo o lado placas a dizer “coll de qualquer coisa” e se fosse na Itália teria também em cada curva uma placa com o número da curva! Como era na Grécia não tinha nada e estava cheia de surpresas! Nem eu imaginava quantas até elas começarem a aparecer!

Ficava como fico em cada passo de montanha que faço, entre o sigo curtindo a estrada ou paro para tirar umas fotos?!

Mas rapidamente percebi que parar a cada curva seria o mais aconselhado, à medida que as tais surpresas foram começando a aparecer!

É que o aspeto irrepreensível da estrada era tão enganador, que ninguém podia prever que a cada passo ela simplesmente tivesse desaparecido e fosse substituída por grandes buracos, ou longos pedaços de terra batida, sempre posicionados em curvas estratégicas e insuspeitas!

Estava em grande altitude e algo destruíra parte da estrada! Ele como que caíra pelo monte abaixo em algumas zonas e outras preparavam-se para cair também!

A minha motita está longe de ser uma trail, mas lá se vai desenrascando se o piso não for terrível e, como a paisagem era deslumbrante, eu lá fui seguindo, esperando que os buracos não fossem tão grandes que me fizessem ter de voltar para trás!

Havia demasiados pedaços de estrada a ameaçar resvalar pelo monte abaixo a qualquer momento!

“Sem problema! Um carro pesa muito mais do que a minha moto e, se eles passam aqui, não há-se ser comigo que a estrava vai cair!” – este deve ser o pensamento dos que arriscam e caem pelos buracos, mas eu lá segui animada por ele!

Enquanto eu fui tirando fotos é porque a coisa não estava nada má!

Mas a verdade é que ia olhando para as curvas em cotovelo cá de cima a ver em que estado estavam! E, claro, foi-se o encanto de curvar “à matador” com o panorama!

Podia ver a linha desenhada pela estrada pelos montes fora, numa paisagem deslumbrante e só desejava que ela fosse transitável para mim!

Muitas curvas desfeitas e manhosos depois, entre ambientes lindíssimos, apareceu lá em baixo uma povoação! Quando vejo uma aldeia penso sempre que a estrada estará melhor a partir dali, afinal serve quem lá mora! Essa ideia animou-me “Boa, vão se acabar os pedaços de estrada ruins e será sempre boa estrada depois!”, mas claro que estava enganada!

A povoação era servida por ruas que mais pareciam caminhos privados, calcetados com pedaços de mármore e eu nem sabia por onde ir, temendo dar comigo a entrar pela porta de uma casa qualquer!

Então acabaram as fotos! O que quer dizer que a coisa ficou bem mais negra!

Dei comigo a passar numa rua muito a pique no meio do povoado! Não sabia se devia seguir ou voltar! Perguntei a uns senhores se podia seguir por ali abaixo! Acenaram-me que sim apontando o caminho com as mãos! E foi horrível!

A rua era tão íngreme que tinha uma espécie de degraus 15cm, tudo em mármore, e fazia curvas e tudo! Não havia como inverter a marcha, só me restava descer aquilo tudo! A moto saltitava de degrau em degrau e eu apenas agarrava o guiador com toda a força para que a roda da frente não abanasse! Se eu caísse ali tenho a certeza que a moto continuaria a deslizar por ali abaixo até bater numa curva ou noutra mais abaixo! Foi então que eu me levantei seguindo de pé para que a moto saltitasse livre do meu peso, para que não batesse com nada no chão!

Então quando eu pensava que estava a chegar ao fim da aventura e que nada de pior podia aparecer, a ruela desapareceu e deu lugar à maior buracada, com direito a terra solta, com cascalho à mistura e tudo!

“valha-me Deus, que eu tenho de seguir para a frente custe o que custar!”

Na realidade naquele momento não poderia voltar para trás pois não me meteria a subir os degraus com a moto, isso era certo! Cheguei ao fim do povoado e o caminho piorava a cada curva, descendo a pique. Estava tão cansada de dominar uma moto de 320kg, debaixo de um sol escaldante, que arranjei maneira de parar um pouco, mesmo com a moto a deslizar pelo cascalho. Uma série de pedrinhas rolaram por ali abaixo empurradas pela travagem da moto!

E tirei uma foto ao fundo do penhasco!

Já se via o alcatrão lá em baixo! Oh maravilhosa visão!

Eu entendi que estava num parque natural perto de Pramanta, mas não consegui entender mais nada! Não há forma de entender grego!

E passei o rio Aqueloo, aquele que já foi venerado como espirito do deus Aqueloo!

A beleza continuava e a estrada não melhorava!

Com quilómetros de estrada em cascalho solto!

E pontes de metal que pareciam autoestradas no meio de tanto pó, escorregadelas e derrapagens na areia!

Cheguei a Arta sem qualquer vontade de visitar o que quer que fosse! A cidade estava deserta e eu morta de cansaço! Meti-me na única esplanada a funcionar e quase desfaleci de prazer ao saborear uma cerveja tão gelada que quase me partia os dentes!

Eu sei que a cidade tem os seus encantos e a redondeza é digna de visita, mas naquele momento eu só queria voltar para Meteora e arrefecer os miolos!

E foi o que fiz, mandei o meu Patrick (GPS) pensar por mim e levar-me rapidamente para Trikala pela autoestrada mais próxima!

Só ao voltar avistar os grandes penedos no fim da rua despertei de uma condução em piloto automático, estava a chegar de novo ao meu paraíso!

A senhora de casa voltou a trazer-me um belíssimo prato de frutos variados, frescos e descascados, que me souberam pela vida, acompanhados pelo resto do vinho gelado que sobrara do dia anterior!
OH, as energias voltaram-me logo, à medida que o tempo arrefecia finalmente um pouco!

E voltei a sair! Tinha de ir ver uma última vez os penhascos ao pôr-do-sol!

Desta vez ainda vi o mosteiro de St George ”Mandelas” encrustado na parede de rocha

É destes mosteiros que os monges não saem facilmente! Alguns não sairão mais até ao fim dos seus dias, pois nem têm mais condições de escalar aquilo!

Era tão reconfortante passear por ali, e voltar a fotografar tudo de novo, pois não se consegue andar por ali sem se tirar um milhão de fotos!

Andavam por ali uma série de “navetes” a passear turistas que paravam nos pontos estratégicos para as pessoas poderem ver o pôr-do-sol! Algumas pessoas pareciam fazer mais festa à minha moto do que à paisagem!

Voltei a encontrar o senhor do dia anterior! Andava de novo na sua motoreta a passar por ali, parava a cada mosteiro, fumava um cigarro, falava um bocado comigo e voltava a encontra-lo no seguinte!

Há brincadeira giras que se fazem por ali, como estacionar a motita num local especial!

Ou apanhar-me a mim e a ela num enquadramento curioso!

E o sol pôs-se e eu fui embora! Tinha sido um dia lindo mas difícil, tinha de comer para repor energias!

No restaurante já me recebiam como se fosse da casa, afinal era a 3ª noite que eu lá ia jantar!

O patrão até me levou a visitar o espaço

Porque estava muito calor e ele estava no assador! Só de olhar para o fogo até me sentir mal!

E foi o fim do 20º dia de viagem…

**** ****

19 de agosto de 2013

– No coração da antiguidade – a deusa Atenas –

Aquela era a minha última oportunidade de passear mais um pouco por Meteora… eu nunca consigo deixar um local que me fascina sem voltar a passear um pouco por ele! E foi o que fiz, em tom de despedida, voltar a conferir todo o encanto dos últimos dias!

A minha cinta estava a apertar muito longe do velcro já, ao ponto de não “agarrar” e abrir-se facilmente! Bem, dali a nada estaria com as medidas das modelos esqueléticas, se não me aplicasse mais um pouco a tentar recuperar o meu peso! Estava a beirar os 66kg, que era pouco para mim e o meu 1.75m de altura, que não queria saber de magrezas para nada e tinha uma moto que pesava quase 5 vezes mais do que eu, para comandar!

Na realidade o efeito do excesso de calor, que me acompanhava há demasiado tempo desta viagem, estava a fazer-se sentir há alguns dias, com a tensão arterial a ficar baixa e os músculos a ressentirem-se, em cãibras e brecas que me atacavam até os dedos das mãos! Nada que um pouco de magnésio não resolvesse e siga para a luta!

A minha Ninfa lá estava em despedidas com a sua amiga dos últimos dias! Aquela moto não saiu dali durante os 3 dias que lá estive! Não pude deixar de pensar que “quem tem burro e anda a pé, mais burro é!” eheheh

E fui passeando, muito devagar, apreciando pela ultima vez aquele cenário envolvente de irrealidade!

Fiquei a olhar para o Mosteiro de Agia Tríada, ou Mosteiro da Santíssima Trindade.

Sem dúvida o mais impressionante pela sua localização, sempre usado como ex-libris do complexo… eu não o visitara e, de repente pensava “irei embora sem o ver?”

Eu tinha de descer da rua até ao funco para depois começar a subir o enorme penedo! O calor já estava a apertar mas, mesmo assim, eu fui! “Nah, não vou embora sem lá ir, que se lixe!”

Ali foi rodado o filme de James Bond “For your eyes only” e ninguém vai a Meteora sem o ir visitar!

Reza a história que os monges não acharam muita graça a todo o aparato das filmagens e tentaram boicotar os trabalhos fechando-se dentro dos mosteiros e pondo as suas roupas a secar penduradas no exterior, para “enriquecer” o panorama! Este mosteiro é um dos mais difíceis de alcançar com os seus 150 degraus, que sobem de forma ingreme, por um caminho escavado na parede de pedra do enorme rochedo isolado.

O caminho é “roubado” ao penedo, num meio túnel que sobe até lá acima e as perspetivas da redondeza que se vão vislumbrando valem bem o esforço!

A entrada neste mosteiro foi a mais “desinteressada”, o guardião não era monge, era um rapaz vestido como todos nós e não stressou nada em verificar o que eu fazia, “vista uma saia e boa visita” mais nada!

Por isso foi na maior descontração que visitei aquilo tudo e tirei fotos e tudo, “na boa”!

Aproveitei para pôr uma série de velinhas pelos meus amigos, pela minha família, pela minha viagem, por todos os viajantes e por aí fora, que eu adoro brincar com velinhas e aquelas eram particularmente interessantes, fininhas e giras, era só acender e espeta-las na areia!

Claro que fui pondo uma moeda por cada vela! Não tinham preço, mas tive o cuidade de pôr apenas moedas brancas! 😀

Assim como de Kalampaka se pode ver claramente o penedo do mosteiro, lá de cima a cidade é a paisagem!

Achei curioso que na ponta do penedo há uma cruz branca com um montinho de moedas aos pés! Acho que quando não há fontes ou lagos, as pessoas poem as moedas onde puderem!

Para o outro lado, apenas com uma olhadela 4 ou 5 mosteiros eram visíveis!

Desta vez custou-me ir embora! Eu ficaria ali mesmo, no mosteiro, por uns dias, de boa vontade!

Na torre do mosteiro podia-se ver o sistema de elevador de tempos idos! Imaginei-me a ser descida dentro da rede de corda e a ideia animou-me! Não me importaria nada, só para não ter de fazer todo o esforço para voltar para moto!

E era hora de sair dali! Oh valha-me Deus, a perspetiva era linda mas desmotivante! Estava tanto calor para descer e voltar a subir montes e degraus!

Quando finalmente cheguei à moto, depois de uma transpiradela que me fez ter vontade de voltar ao hostel e tomar um belo banho, tinha uma surpresa à minha espera!

Embora eu tivesse estacionada a moto numa nesga, entre a guia da rua e o muro, num sitio onde ninguém mais poderia estacionar, pois ficaria meio no meio da rua… um carro tinha-se posto na frente dela, tão perto que eu não conseguiria sair, pois a rua era inclinada e eu não tinha força para a puxar para trás! M%&$$#da!

Não havia vivalma por ali! Será que eu teria de esperar que sua excelência acabasse a visita para vir tirar o carro para eu sair? Que desânimo!

Então um carro aproximou-se, um carro todo velho e amassado com um fulano que cantava aos berros lá dentro, e parou! Fui-lhe bater ao vidro! “please, help me!”

O homem ficou a olhar para mim, estava a desfolhar papeis, parece que ía ao mosteiro tratar de negócios! Expliquei-lhe que precisava que me empurrasse! Saiu do carro e olhou para ver o que é que eu queria que ele empurrasse!

“Me??? No!!!” exclamou escandalizado com a moto! “too big, too big!”

Oh homem, um carro é mais big que a minha moto e qualquer homem o empurra! Peguei-o pelo braço e puxei-o até à moto “come on, you can do it!”

Só depois entendi o seu pânico! Ele pensava que eu era a dona do carro e queria que ele tirasse a moto para eu sair! Quando eu montei e expliquei onde ele devia pôr as mãos, na frente da moto para empurrar e a moto recuar, ficou paralisado a olhar para mim “Too big for you! You are too slim for it!”

Oh homem empurra que eu posso com ela, não te preocupes, raios!

E finalmente ele lá empurrou, puxa parece que não havia maneira de o convencer! Agradeci muito e fui embora, podia vê-lo pelo retrovisor, no meio da rua a olhar! Ele iria superar o choque e o espanto e voltar à sua vida normal, certamente!

Meteora ficou no meu coração e eu vou lá voltar um dia, para percorrer caminhos e trilhos e ver os mosteiros mais rudimentares e primitivos que estão longe dos turistas e das pessoas que não conhecem a zona. Há muito mistério e beleza única para desvendar por ali!

Parei em Trikala para tomar qualquer coisa fresca, junto ao rio, onde parece que toda a gente vai!

Também não apetecia afastar dali, como se apenas a visão da agua refrescasse um pouco os miolos!

A estátua de Asclepius, o deus da medicina, está ali no meio do rio, tão feiinha!

Fiz ali um belíssimo pic-nic, enquanto apreciava quem ia e vinha! Muita gente olhava para mim, como se eu fosse um ser bizarro! E não era por eu estar a fazer nada que eles não estivessem a fazer também! Acho que era o meu aspeto que lhes atraia a atenção, o chapéu espantava muitas pessoas por ali! Então eu sorria e dizia “hello!” e as pessoas sorriam também!

E ainda fiz amizade com uns polícias giros que vieram falar comigo, queriam saber se eu era inglesa! Não, sou portuguesa mesmo!

Consegui tirar-lhes uma foto quando se afastaram! Estavam sempre rodeados de gente o que me fez sentir que eram queridos de toda a gente, ou então era por serem giros mesmo! eheheh

E segui pelo mapa abaixo, por caminhos longe de autoestradas ou vias rápidas, trilhando estradinhas deliciosas, não fosse a altíssima temperatura que insistia em acompanhar os meus dias!

Eu sabia que ir a Atenas por uma curta passagem seria penoso para mim, porque é um destino e toda uma envolvência que quero visitar há demasiado tempo para apenas passar e seguir, mas não pude evitar faze-lo, levando em mente o que queria ver e fazer desta vez e planear depois o que fazer numa futura visita organizada já para tudo explorar!

É a minha forma de não lamentar o que eu não puder ver sem ficar por lá perdida tentando ver tudo!

Encontrei na Grécia os ciganos que estava à espera de encontrar na Roménia, não é irónico?

E, diga-se de passagem estragavam muito da paisagem que os rodeava com toda a imundice que espalhavam em seu redor!

Fui sempre andando por ruelas, conhecendo o aspeto menos “civilizado” do país, como eu gosto de fazer!

E cheguei à capital sem parar em lado nenhum, que o calor era pouco inspirador para paragens!

Fui recebida num hostel tão simpático e acolhedor que o ar fresco lá dentro apenas me inspirava a não sair mais.

Fiz amizade com o cachorro de serviço e tudo, entre cervejas frescas deliciosas e muita conversa com a rececionista, que me deu todas as indicações que eu queria, sobre como organizar uma visita ao país, indo também de ilha em ilha e onde deixar a moto para o fazer, que era uma das coisas que eu procurava saber em Atenas!

Quando o tempo arrefecia um pouco, saí para a cidade. Era tarde para visitar a Acrópole, por isso andei por ali, de esplanada em esplanada, apreciando o espetáculo e saboreando o delicioso café daquelas gentes, que é tão bom como o nosso!

Atenas está cheia de vestígios do seu passado grandioso, como o Estádio Panathinaiko, uma coisa com capacidade para 80.000 pessoas!!! Aqueles gregos eram loucos! Foi construído mais de 500 anos antes de Cristo, totalmente em mármore branco!

Já esteve em ruinas e foi restaurado no final séc. XIX aquando da realização dos primeiros jogos olímpicos da era moderna. Voltou a ser usado nos últimos jogos olímpicos em Atenas em 2004.

E andei por ali a vaguear, por solo sagrado para quem aprecia história e mito…

Ao tempo que eu sonhava ir a Atenas… e continuo a sonhar!

Subi ao Monte Lycabettus.
As voltas que eu dei para lhe encontrar a estrada, porque as ruas são íngremes, fazendo como que prateleiras quando se chega à rua de cima, e parecia que a moto bateria com a “barriga” no chão ao passar da ruela que subia para aquela a que ia dar! Tudo isto de noite, sem GPS a conduzir-me e sem ter a certeza de estar a fazer sentidos proibidos!

Lá em cima há um enorme espaço que estava cheio de carros, com famílias inteiras a curtir a paisagem, e jovens com música e tudo, num ambiente simpático, mas onde apena eu estava sozinha!

Senti todos os olhos pousados em mim, quando eu pensei que passaria ali despercebida, momentos de paz e contemplação!

Então comprei umas bugigangas para comer e beber numa roulotte que há ali e fui subir até ao ponto mais alto do monte onde há uma capelinha do séc. XIX e uma paisagem deslumbrante sobre a cidade!

Passa-se por um restaurante/café muito interessante e chega-se à capelinha, estava por ali muita gente também, num ambiente simpático.

Em que as pessoas tentavam desesperadamente tirar fotografias umas às outras com a cidade como cenário de fundo, sem entenderem que não era possível com os equipamentos básicos que tinham, já que com flash apanhavam as pessoas e o fundo negro, sem flash ficava tudo tremido, sem gente nem fundo que se aproveite! Eheheh

Ao lado da capela há uma descida, que é também a outra saída do monte, se a descermos um pouco, com cuidado pois os gregos adoram pavimentos em mármore e aquela treta escorrega para caramba, mesmo com o chão seco, chega-se a um patamar onde Atenas nos enche os sentidos…

Oh a Acrópole ali no meio provocou uma sensação…

Ali sim, fiquei em silêncio, não estava mais ninguém além de mim e soube tão bem….

E fui para casa, era o fim do meu 21º dia de viagem…

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20 de agosto de 2013

– Atenas e Micenas e o passado da nossa civilização! –

Acrópole é a parte alta de uma cidade, uma zona elevada e importante mas, “A” Acrópole é obviamente a de Atenas!

Fica no centro da cidade, elevada e cheia de construções extraordinárias e cheia de gente a toda a hora! Vai-se subindo e apreciando o que fica para baixo e para os lados como o teatro de Odeão de Herodes Ático

Chega-se à entrada e o povo é aos magotes pelo escadório à espera dos guias!

Estar ali para mim não tem nada a ver com turismo ou curiosidade por pedras famosas e antigas organizadas de forma curiosa… estar ali era como estar num templo, muito para lá do religioso! O templo da nossa antiguidade, da civilização ocidental…

Furei por ali acima, por entre gente que mostrava todo o tipo de interesses menos pelo que nos rodeava a todos… quase uma blasfémia… e ele estava ali à frente, o templo de Erecteion!

E as suas cariátides espantosas a quem dediquei tanto tempo de estudo muitos anos antes, estavam ali tão perto! Se eu pudesse tê-las-ia tocado…

E à direita o imenso Partenon…

O Partenon é aquele símbolo do passado, da cultura, da democracia e da civilização grega que tem de ser visitado… O monumento a Atena e que a ela deve o seu nome, já que albergava em si uma estatua em marfim e ouro da deusa Atena Partenos. Tudo o que eu queria era estar ali sozinha, não foi possível… nunca é! Pois é também um dos monumentos mais visitados no mundo!

Mas por momentos foi como se a multidão se evaporasse, o calor amansasse e o silêncio se sobrepusesse a todo e qualquer ruido! Um passo no passado que tocou fundo as minhas memórias e sonhos de jovem estudante de artes, quando sonhei pela primeira vez ali estar…

é uma sensação estar perante tal obra, onde ainda se pode ver uma pequena parte do frontão, já que o resto foi retirado e está no museu

De repente ninguém mais importava, era como se fosse apenas eu e aquela obra fantástica! Sentei-me no meio das pedras, ali onde ninguém passava por ser mais íngreme e mal jeitoso e desenhei…

Lá em baixo, mais a sul, outro teatro, o Teatro de Dionísio, diz-se que ele foi o berço da tragédia grega!

Do outro lado, ao longe fica o Monte Lycabettus, no meio da cidade, aquele onde eu subira na noite anterior e onde prometera voltar!

E eu queria ficar ali uma eternidade, rodeada de tudo aquilo que me fizera ir ali!

Olhava para os monumentos em todos os ângulos e voltava a dar-lhes a volta, e voltava a sentar-me, e voltava a desenhar…

As cariátides são aquelas colunas em forma de gente que suportam todo o peso do “alpendre” que as alberga! Elas são o expoente máximo da técnica arquitetónica grega e por isso são tão fascinantes!

De repente sentia-me completamente desorientada, como se tivesse caído no mundo real! O calor estava insuportável e as pessoas falavam alto… e eu nem dera quase por ela!

Tinha de ir embora, não havia mais nada a fazer ali

O povo continuava a chegar aos magotes e a escadaria de entrada estava intransitável!

Uma ultima espreitadela lá para cima e segui o meu caminho!

Atenas estava aos meus pés, mas o mais bonito de se ver era o ponto onde eu estava, por isso fui procurar outra perspetiva do quadro geral da cidade!

«E no dia seguinte voltei a subir ao Monte Lycabettus! A visita noturna, no dia anterior, tinha-me fascinado tanto que eu queria ver tudo de novo à luz do dia! E lá estava a Acrópole, no meio de um oceano de casas! O monte é o ponto mais alto da cidade, por isso tudo se passa lá em baixo em seu redor de uma forma fascinante! Fiquei ali em silêncio, pensando na pessoa privilegiada que sou por poder ir indo a cada sítio que sonho e neles viver momentos de paz que tocam a euforia do “eu estou mesmo aqui!”»

Atenas parece não ter fim, nem espaço algum entre todas aquelas casinhas brancas!

O monte Lycabettus é o ponto mais alto da cidade e tem no seu topo uma capelinha do séc. XIX dedicada a S. Jorge.

Ao lado há a tal passagem que eu descera no dia anterior, que é também uma saída do monte e que nos leva a um patamar livre de elementos perturbadores e onde a paisagem é soberba!

E fiz uma foto que seria um postal Maravilhou-me tanto ver a bela Atenas aos meus pés, cheia de vida e encanto que a fotografei e desenhei até à exaustão! Simplesmente não queria sair dali e só vou sossegar quando lá voltar! Foi como estar perante uma personalidade, uma estrela, daquelas que não se encontram sempre e por isso provocam um efeito de contemplação muda… momentos de paz e espanto…

Lá em cima do monte, para alem do restaurante e da capelinha, há um anfiteatro moderno onde se fazem festas!

E desci o morro na direção da Plaka, uma das zonas comerciais e pitorescas da cidade, onde se pode comprar de tudo!

Fui recebida por gente supersimpática que me tratou como uma heroína, na loja onde fui ver bugigangas! Uma loja familiar onde trabalhavam pai, mãe e filho. O filho também tem moto e queria dar a volta à Grécia comigo, pois ainda não tivera coragem de o fazer sozinho!

Acharam que eu era de outro mundo por andar ali de moto, vinda de tão longe sozinha, por isso, segundo eles, se estivéssemos na Grécia antiga dar-me-iam uma coroa de louros pelos meus feitos tão inscriveis e fantásticos (segundo eles), como estamos na atualidade, deram-me uma pulseira em turquesa e um olhito da sorte que me puseram ao peito, para me acompanhar na minha viagem até ao fim, e que nada de mal me acontecesse!

Momentos giros de muita risota e brincadeira!

Ainda embalada pelo bom ambiente na loja assisti a um episódio deplorável que me deixou estupefacta! Mais à frente fica uma igreja muito antiga, dizia uma placa colocada na sua fachada que era a igreja ortodoxa de Santa Catarina e que era do século XI.

Entrei para a ver por dentro, tinha uma fila de bancos a impedir a passagem para a zona dos altares e eu pus-me ali a olhar e ia tirar uma ou duas fotos quando uma fulana abriu a fila dos bancos e foi até ao altar! Um padre veio e tentou expulsa-la.

Os ortodoxos rezam tocando nas figuras, beijam-nas, põem-lhe as mãos, tornam a beijar, beijam de novo as mãos e tocam mais uma vez ou duas as figuras, num ritual repetitivo de beijos e toques. Entendi que não queriam que se fizesse aquilo ali, numa igreja tão antiga, por isso estava bloqueado o acesso aos altares.

Mas o que se passou a seguir ultrapassou os limites do bom senso e da religiosidade! O padre tentou expulsar a mulher e ela não acatou as suas ordens, por isso “pegaram-se” ela insistindo que queria rezar, ele insistindo que ela tinha de sair. Agarrou-a e tentou puxa-la para fora, ela insistiu, começaram a berrar um com o outro e, ele não conseguindo tira-la dali, pôs-se em frente do altar onde ela queria rezar, e ficaram ali os dois a ralhar um com o outro, enquanto ele se encostava às figuras de braços cruzados!

Eu nunca vira tal coisa e desagradou-me demais o ambiente! Que coisa feia, ainda por cima estando por ali turistas e gente estrangeira, como eu, de boca aberta a assistir àquela cena deplorável, dentro de um espaço religioso!

Tirei uma foto de fugida e fui-me embora dali, com uma enorme vontade de dar um par de chapadas a cada um por não se saberem comportar numa igreja…

O ar estava a aquecer rapidamente e eu tinha de decidir onde ia a seguir!

Não consegui resistir, estava tão perto de um local extraordinário (para mim) e eu iria lá, mesmo sofrendo com o enorme calor que se avizinhava… fiz-me à estrada, afinal já estava tão habituada a ele que era mais quilómetro menos quilómetro, certamente não me mataria mais uma escaldadela!

Fiz uma boa parte do trajeto sem luvas só para poder apreciar o presente que recebera! Gosto da cor turquesa e achei muita piada à pulseira! Gente boa, aqueles gregos!

Parei numa terra, lá no estreito braço de terra que une a zona continental àquela espécie de ilha, sem conseguir entender muito bem em que terra estava! Aquela letra grega põe-me grega de todo!

Estava um calor infernal e eu só queria beber água, muita água gelada, por isso parei junto a uma esplanada, sob o olhar atento de uma série de pessoas, pois a moto ficou quase dentro da esplanada! Era o lugar mais fresco na sombra!

Sentei-me numa mesa e o empregado veio atender-me com um imenso copo de água cheio de gelo! Bolas, era o que eu queria, água! Nem sabia mais o que pedir! Acabei por pedir um café, contando que fosse uma bosta qualquer mas sempre ajudaria a manter-me reguila!

Engano meu! O café era delicioso, diria que era mesmo muito parecido com o nosso! Puxa, cada vez gostava mais dos gregos!

Dei uma volta pela terra e percebi que por ali não era só eu que apreciava um bom café!

Por entre esplanadas cheias de gente, havia lojas de tudo, peixarias com um ótimo aspeto e floristas muito bem apresentadas e casas de café com os seus enormes moinhos à porta!

Fiquei ali a apreciar os diversos moinhos nas entradas das lojas de café, uma fulana meteu conversa comigo, tinha-me visto chegar e ficara impressionada porque me achava muito magrinha para poder com a minha moto tão grande! Puxa, e não é que de repente toda a gente me achava magrinha! Eu até já começava a creditar que se calhar até era verdade!

E ela insistia, como é que eu podia com a minha moto com um corpinho assim! Valha-me Deus, eu fui sempre imponente e toda a gente me achava magra de repente?

Então entendi que ela também tinha moto e, como era tão alta como eu mas o dobro de mim, achava que eu não tinha corpo para poder com a moto! Outras pessoas pareciam concordar com ela, mesmo eu dizendo que vinha de Portugal e que era a moto que me trazia às costas e não eu a ela!

A dada altura rematei a conversa com um “mas não seria por ter um cú grande que eu poderia melhor com a moto!”

A fulana pareceu não gostar muito da piada… ok, ela tinha um cú grande, aliás tudo era grande nela, e isso não queria dizer que ajudasse a poder melhor com a moto! Quando vi a sua moto percebi a sua duvida, ele era bem maior e volumosa do que eu e a sua moto era bem menos que a minha!

Segui o meu caminho como quem atravessa o deserto, que por ali é o que o clima e a paisagem lembram. As placas falavam cada vez mais grego e menos língua que se entendesse! Tive de parar junto a uma placa e copiar para o GPS aquela macacada usando o teclado grego (sim, que o meu Patrick é muito inteligente e fala grego!) antes que as placas fossem complicando e eu perdesse o tino ao meu destino! Μυκήνες, não é propriamente a coisa mais fácil de memorizar!

E lá estava ela… Micenas!

Comprei uma garrafa de água gelada e fui subir o morro, doseando a água como quem atravessa o deserto!

«Há coisas que eu preciso ver e que faço os quilómetros que tiver de fazer para lá ir… foi o caso de Micenas, aquele lugar quase sagrado que foi o centro da civilização grega lá pelo segundo milénio antes de cristo. Foi tão importante que deu o nome àquela época histórica: o período micénico. E a porta, o Portal do Leão, é aquela “coisa” imperdível e a construção mais famosa de Micenas. Uma construção fantástica composta por grandes blocos monolíticos, de mais de 3 metros, que suportam a pedra calcárica com duas leoas esculpidas! As horas que eu passei estudando esta “acrópole” na faculdade… e finalmente vi-a!»

Olha-se para ela como para um altar…

E eu fiquei ali, debaixo de um sol tórrido a olhar para o portal! Que coisa esplendida!

O túmulo circular, ou cemitério mais propriamente, tão perfeito e visível…

Aquilo é mesmo solo sagrado da nossa civilização, digno de ajoelhar e rezar como fazia o papa João Paulo II!

Há inclusive uma cisterna subterrânea ali! Não a pude ver porque não tinha luz comigo, uma falta imperdoável, e aquilo desce até 18 metros de profundidade, sem qualquer luz exterior portanto!

Não fui só eu que fiquei à porta!

Anda-se por ali, por entre pedras e caminhos com mais de 3.000 anos! Fez um efeito cá dentro!…

Chega-se à porta norte e ela é feita também de blocos monolíticos de toneladas! Como conseguiam eles erguer tais pedras?

Não conseguia sair dali! Sentava-me nas pedras e olhava em volta como quem vive um momento único e tudo quer gravar na memória!

Voltei finalmente para a porta, a minha água estava a acabar e o calor ameaçava esturricar-me os miolos, apesar do chapéu!

Ainda dei uma volta no museu, onde se podem encontrar imensos artefactos da época, descobertos por ali, bem como uma maqueta do local!

Fui comprar nova garrafa de água gelada e lá estava a minha motita à sombra, que bom, o sol não dera a volta suficiente para a deixar a descoberto, graças a Deus, senão teria sido um suplicio montar e andar!

Fiz-me à estrada a toda a velocidade, pois estava longe do sítio onde iria dormir. Apanhei a autoestrada, que aquele calor todo, mais toda a distância que queria fazer, não inspiravam a passeios demorados!

Passei por motociclistas que corriam para caramba sem capacete! Não consegui entender qual era o prazer de ir a 160km/h sem capacete, arriscando todo o tipo de imprevistos, desde mosquitos e poeiras a bater na cara, até a possibilidade de ser envolvido num acidente sem qualquer proteção para a cabeça! Mas eles lá andavam, com o capacete preso nas traseiras da moto e cabelos ao vento!!

Cheguei a Neos Panteleimonas ao entardecer. O GPS disse-me que chegava ao destino à direita e eu só via casas bonitas e particulares! “Valha-me Deus, lá estás tu desorientado!” Perguntei mais acima numa loja onde ficava o sitio que eu procurava… era exatamente onde o GPS dizia! “Pronto, ok, ganhaste, tu é que tinhas razão!”

Fui recebida por uma senhora supersimpática que se apressou a trazer-me uma cerveja gelada, que eu estava meio desidratada, embora tivesse passado o dia a beber de tudo!

Fui jantar ainda toda molhada do banho no restaurante mais acima! Ui e que bem eu comi!

Os senhores eram muito simpáticos, trouxeram-me imensas coisas boas para comer, pois eu deixei ao seu critério o que eu iria comer, já que não nos entendíamos! Eles perceberam que eu estava faminta e bastava! No fim posaram para uma foto e tudo! O jantar foi uma pechincha, por tudo o que comi, com vinho e café e tudo, paguei 12€! Que bem que soube!

A paisagem era o castelinho em frente, que eu podia ver da esplanada do restaurante onde me fui encher de comida!

E foi o fim do 22º dia de viagem… amanhã iria para Istambul, outro dos grandes destinos desta viagem!

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21 de agosto de 2013

– Istambul, cidade extraordinária! –

Eu estava hospedada muito perto do monte Olimpo, sim aquele onde viviam todos os deuses gregos! Eu sabia que ele estava logo ali por isso não me preocupei muito em procura-lo pois ele apareceria a qualquer momento ao alcance do meu olhar, certamente, pois se ele é a montanha mais alta da Grécia e uma das mais altas da Europa!

Do outro lado da rua ficava o castelinho que me tinha feito companhia ao jantar na noite anterior, podia vê-lo no topo do morro, mas era outro monte o que eu queria ver!

Logo a seguir podia ver o mar Egeu! Que sensação olhar para o mar e saber que aquele não era o meu mar do costume, era o mar que provavelmente deve o seu nome a Egeia, rainha das Amazonas! Um mar da antiguidade cheio de história e histórias, lendas e memórias… importante para alguém a quem chamam Amazona! 🙂

Foi ali, ao caminhar pela areia, que eu percebi que me entrava areia por uma bota e constatei que tinha gasto boa parte da sola de tanto caminhar!

E lá estava o monte ao longe, imponente e envolto em nuvens misteriosas!

Um velhote viu-me ali especada a olhar e foi-me informando que estava mau o tempo no monte!

Falei-lhe da vontade de lá ir dar uma volta e tal!

Disse-me que com aquela nuvem enorme no topo, não valeria a pena lá ir, pois nada se veria, seria passear pelas nuvens, frio e chuva!

Logo à frente cruzei coma placa que indicava o caminho para lá…

Não sabia o que fazer!

Pus-me a comer amoras enquanto pensava, ao tempo que eu não via amoras na berma da estrada!

Se fosse arriscava-me a nada ver, apanhar uma molha e perder muito tempo no frio e mau tempo! Se não fosse, teria de escrever na minha agenda “Monte olimpos, um destino a visitar!” e seguiria para Istambul que ficava a uma infinidade de quilómetros dali!

Ora aquela infinidade de quilómetros eram afinal 737km, que foi o total percorrido por mim nesse dia…

Paciência, o Monte Olimpo e toda a sua mitologia teriam de ficar para outra vez, que Istambul estava a chamar-me e eu iria mas é para lá.

O caminho que eu faria a seguir seria uma tentação, eu sabia! Afinal estaria a percorrer o estreito caminho entre dois países, com o mar do lado direito e um terceiro pais da esquerda!

As placas a dizer Bulgária eram frequentes, como eu imaginava, e eu tive de as ignorar ou nunca mais chegaria ao meu destino!

Quando eu traço o meu caminho em casa, eu imagino o que vai acontecer e o que me vai passar pela cabeça e deixo para o momento as decisões que vou tomar do tipo, se me apetecer ir passear para a Bulgária, logo se vê, mas traço o caminho para Istambul!

O mar Egeu acompanhava-me sempre mais ou menos ao meu lado direito e a Bulgária do lado esquerdo!

E eu consegui resistir até começarem a aparecer as placas a dizer Turquia. Era melhor assim eu tinha de ter em conta a passagem da fronteira que podia ser demorada e não havia necessidade de a deixar para passar à noite! Depois a Bulgária continuará lá para eu visitar noutra viagem qualquer.

E passar a fronteira foi um momento único que me chegou mesmo a divertir!

Considerando que eu já tinha passado uma série de fronteiras, fiz como sempre faço, parei no primeiro guiché que me apareceu. Fui recebida por um “bom dia, o seu passaporte!” mostrei-o, perguntaram-me onde estavam os meus colegas, respondi que estava sozinha, o senhor ergueu-se de repente dentro da cabine e espreitou para moto “sozinha?!!!” arregalou os olhos “sim!” depois daquilo que pareceu uma eternidade de espanto, mandou-me seguir!

Só isto? Então e não quer ver mais nada para além do passaporte? Mas lá segui por uns 200 metros, outro guiché! Ah ok! Há mais um sítio para parar!

Mais um “bom dia” mas desta vez pediram-me a carta verde, perguntaram-me de novo pelos meus colegas, respondi de novo que estava sozinha “sozinha?” exclamou o homem, e desta vez ergueu-se ele e um colega que estava também dentro da cabine e olharam para a moto lá de dentro. “faça uma boa viagem!” disse ele finalmente entregando-me a carta verde!

Siga para a frente, parece que por ali toda a gente olhava para a minha moto como se ela fosse um veículo de outro planeta! Para ela e para mim! Mas sempre com simpatia e surpresa, nada que me assustasse ou sequer preocupasse.

Foi quando me começou a dar vontade de rir, porque logo à frente, pimba, mais um guiché, mais um “bom dia” e tal, desta vez estavam 3 homens dentro da cabine e pediram-me a carta de condução e o passaporte! “com quem viaja” perguntaram-me “sozinha” respondi! Levantam-se o três e olham para moto desde lá de cima da cabine cá para baixo. Não me contive e ri mesmo!

Conversavam entre eles e voltavam a espreitar para a moto. Valha-me Deus, que lhes estará a passar pela cabeça?

Bem, desta vez eu teria de ir a pé até ao guiché noutro lado, onde pagaria finalmente os 15€ para fazerem o visto. Aí o rapaz não espreitou para a moto porque a podia ver pela porta aberta da cabine, já que esta era num caminho lateral em relação àquele onde eu pousara a moto!

Recebeu-me com um “que grande moto!” e um sorriso, e foi o 4º guiché em que parei! Fiquei com o meu passaporte todo bonito, com um autocolante novo e tudo, para juntar aos diversos carimbos que vinha colecionando por aqueles países!

De volta à moto, encontrei-a toda vaidosa no meio de vários polícias aduaneiros que a admiravam de todos os ângulos. Ela ostentava já alguns autocolantes desta viagem o que, a somar aos da top-case, estava a entreter bastante aqueles homens! Quando me aproximei fizeram a pergunta da praxe, se fui a todos estes sítios de moto, e eu tive de me conter para não responder o que sempre respondo (Não, comprei os autocolantes pela internet!) e limitei-me a dizer que sim! Sim, sempre sozinha, sim mesmo à Escócia e à Polonia e à Holanda e tudo! Só a Marrocos é que fui com amigos!

E não tenho medo? Não, é tudo boa gente, não a Turquia não me metia medo pois é tudo boa gente também!

Lá me mandaram seguir e, como previsto, lá estava mais um guiché! Aí soltei uma gargalhada! Oh valha-me Deus será que vou ter guichés em filinha até chegar a Istambul? Que mais me vão pedir, onde mais me vão carimbar?

Ah, o passaporte para confirmar se lá estava o autocolante do visto? Ok! Com quem viajo? Sozinha e, adivinhe-se, lá se levantou o rapaz para olhar para mim e para a moto!

“wow, linda moto! Faça boa viagem e aprecie o nosso país!”

E isso quer dizer que há ou não mais guichés ali para frente? Não havia mais eu podia seguir à confiança! E assim foi, 30 minutos de guichés, admiração e espanto depois, lá estava eu a caminho de um dos pontos mais desejados desta minha viagem!

O Marmara aparecia ao meu lado, uma emoção… o 6º dos 7 mares que visitaria nesta viagem!

E comecei a sentir que estava perto de Istambul! A bem dizer eu estava já em Istambul mas pensava que não era possível, afinal faltavam tantos quilómetros para chegar ao meu destino!

Enquanto o trânsito foi fluído eu não pensei que já estava na cidade! Mas afinal tratava-se da cidade maior da Europa e uma das maiores do mundo e eu não processei logo o que isso quereria dizer, em termos de quilómetros, e estrada, e transito e tal… até tudo parar e eu ficar meio entalada muito direitinha na fila dos carros! “E agora o que faço? Furo ou sigo muito ordeira na fila?”

Havia policias no passeio por isso eu fiquei muito quietinha na fila! Então uma moto parou ao meu lado, o fulano abriu a viseira e falou-me em inglês “Tu não és um carro, anda para a frente!” “Mas está ali a policia!” disse eu “não importa, tu não és um carro e estás em Istambul, ou andas ou nunca mais sais daqui!” e seguiu fazendo gincana por entre os carros, mesmo por baixo do nariz dos policias.

Bem, se ele faz aquilo eu também faço! E foi a alucinação total, com a minha moto gigante a furar pelo meio das nesgas mais estreitas e variáveis, porque por ali o trânsito é caótico mas fluido e meio selvático em termos de rapidez! Uma alegria de condução que eu adoro e onde eu tinha de ter cuidado até com o sitio onde punha os pés, pois os carros circulam tão perto da gente que eu temia que me pisassem com alguma roda!

Eu sempre gostei de conduzir por entre os carros, torcer-me e retorcer a moto para passar aqui e ali, mesmo sendo ela grande e os espelhos demasiado ao nível dos dos carros, por isso foi um fartote de diversão e exercícios de pura agilidade!

O meu hostel era bem no centro da cidade, ali pertinho das mesquitas e tal, o que complicou a coisa pois o GPS mandava-me seguir para a esquerda e era sentido proibido, mais à frente a mesma coisa e eu a ver que estava mesmo no coração do turismo e da confusão. Parei junto a um polícia que estava na berma da estrada com a sua Crosstourer e, depois de um “Nice bike” mostrei-lhe no GPS onde queria ir e perguntei como fazer se as ruas eram todas de sentido proibido!

Ele apontou a rua ali ao lado e disse “Go!” mas é sentido proibido, insisti eu, “No problem!” insistiu ele! Ah ok, então bora lá!

Meti a moto pelos quelhos e na verdade ninguém pareceu importar-se que eu ali passasse, por esplanadas em que as pessoas arrumaram as cadeiras para eu passar, pisando tapetes e tocando nos vasos de flores, até chegar, meia dúzia de curvas depois, à porta que eu procurava!

O hostel ficava a escassos 200 ou 300 metros da praça onde para um lado fica a Mesquita Azul e para o outro a Basílica de Hagia Sophia, por isso o trânsito era tão condicionado!

Pousei a moto no parque do hostel e fui passear a pé, agradecendo a mim mesma a decisão que tomara de seguir direta para Istambul pois teria tempo para ver de imediato algo da cidade!

Istambul era uma cidade onde eu queria ir há muito tempo, já quando fiz o meu atual passaporte, há 3 anos, foi com a ideia de ir até lá, acabei na época por ir apenas até à Croácia e Hungria, deixando Turquia no baú do “tenho de lá ir”, por isso desta vez queria muito ali estar o máximo de tempo possível, sabendo que vou lá voltar mais tarde com todo o tempo!

Passeei-me um pouco junto à basílica de Hagia Sophia, aquela construção magnífica que já foi templo de 3 religiões, mas era a Mesquita Azul que eu queria ver naquele dia… e ela lá estava extraordinária do outro lado da praça!

Espanto, foi tudo o que consegui sentir ao olha-la…

Fui-me aproximando e o deslumbramento era crescente, porque a sua grandiosidade aumenta com a sua dimensão, a sua redondeza e os seus pormenores!

A Hagia Sophia fascina-me pela antiguidade e história, afinal é uma construção bizantina antiquíssima lá do séc. VI, mas a Mesquita azul, que é bem mais recente, do séc. XVII, foi construída para ser bela, surpreendente e superar a primeira e consegue-o pela harmonia de formas do seu estilo otomano em que a luz é bem aproveitada e joga para completar o quadro que ela é!

Em frente à Mesquita Azul há uma série de bancos fixos ao chão onde as pessoas se sentam, como numa plateia, onde o cenário é a basílica para um lado e a mesquita para o outro, num ambiente simpático, num entardecer de verão!

E fui à mesquita. À porta há placards a explicar como as pessoas devem estar vestidas para entrar.

Um fulano acercou-se de mim e esteve a ajudar-me e a explicar-me como devia fazer, pôr as botas num saco, tirar o chapéu e pôr um grande pano na cabeça, para poder entrar. Depois entrou comigo e só aí percebi que ele era uma melga a tentar cativar-me, porque os outros que estavam a ajudar as pessoas não entravam com elas! Oh valha-me Deus, lá vou ter de descartar esta melga da minha beira!

Fui tirando fotos daqui e dali e ele atras de mim com uma conversa de “vou-te levar a ver a mesquita do terraço de uma loja aqui ao lado e vamos tomar chá e mais bla, bla, bla!”

“Oh homem, desampara-me a loja!” mas não havia maneira, então disse-lhe que se fosse embora pois o meu marido estava a chegar e não seria bom que se encontrassem. “Eu não tenho medo do teu marido!” exclamou ele “Ai não? Mas devias ter! Olha que se eu sou assim grande, imagina como ele é, e tem mau feitio e é ciumento e tudo!” foi tão giro, o homem desapareceu imediatamente como o fumo! eheheheh

“E hoje cheguei a tempo de visitar a Mesquita Azul, antes das orações do fim do dia! Que bem me soube passear descalça pela alcatifa vermelha que reveste todo o seu espaço interior! Dão-nos sacos de plástico para pormos os sapatos e panos para as senhoras cobrirem a cabeça. Valha-me Deus, eu que não tenho jeito nenhum para segurar um pano tão rijo em cima de mim e ao mesmo tempo tirar fotos! Sentei-me no chão e fiquei ali a olhar o imenso espaço, sob a grande cúpula, onde apenas os homens podem entrar. Vou lá voltar amanhã, tenho muito o que ver numa construção tão fantástica como aquela!”

Sentei-me no chão e desenhei….

E fotografei e de alguma forma não me apetecia sair dali!

Tal como imaginara, apaixonei-me pelo edifício, e voltei a desenha-lo uma e outra vez, porque era uma das coisas que eu queria fazer ali, desenhar aquela mesquita!

A Mesquita Azul é a única na cidade que tem 6 minaretes e dizem que Istambul tem vinte e tal mesquitas! Dizem também que esta é a mais bela de todas!

E fui-me sentar nos tais bancos que estão na frente da mesquita, cheios de gente e miúdos e movimento, a comer melancia, que por ali se vende cortada aos cubos em latinhas de plástico com um garfo para a gente comer ali mesmo.

Duas crianças acercaram-se de mim, brinquei um pouco com elas tentando ver se me entendiam em francês ou em inglês. A mãe era uma daquelas fulanas todas cobertas com panos pretos apenas com uma frincha aberta nos olhos, que eram a única coisa que eu via do seu rosto. Cheia de lata dirigiu-se a mim

“És um cowboy?” perguntou “É que usas chapéu!”

Olha-me esta! Eu não podia acreditar que aquela coisa embrulhada em panos pretos me estivesse a querer gozar!

“És um ladrão?” perguntei eu em resposta “É que usas panos a tapar a cara!”

A menina, ou o que quer que fosse que estivesse dentro dos panos, parece que não gostou da resposta e foi-se juntar à amigas. Pelo sim pelo não pus-me de pé, para que ela e as outras entendessem que eu era muito mais alta que os seus 1.5m de altura e que não seria boa coisa virem meter-se comigo mais! Resultou, pude ver os seus olhos medirem dos pés à cabeça. Levantaram-se, recolheram os miúdos e foram embora! “Pindéricas!”

E eu fui passear pelo mercado ali ao lado!

Começava a hora da oração e estava tudo meio deserto por ali!

“Passear ao serão pelas ruas de Istambul foi a sensação tão esperada de liberdade, despreocupação e descanso de uma longa jornada! Tinha feito muitos quilómetros já, debaixo de temperaturas muito altas e uma noite fresca e agradável, com uma caixa de melancia fresca aos cubos para saborear, era tudo o que eu precisava para me sentir no paraíso! A Mesquita Azul brilhava por trás da fonte luminosa que mudava de cor a cada coreografia das águas, ouviam-se as vozes de quem, como eu, comia melancia às garfadas por ali e miúdos brincavam pelo relvado… Tenho de reviver isto de novo, um dia!”

E finalmente fui dormir, que este 23º dia de viagem fora longo!

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22 de agosto de 2013

– Istambul, Bizâncio, Constantinopla, capital de grandes impérios entre dois continentes! –

Desde o início que havia duas ou três coisas que eu queria ver e fazer em Istambul e, mesmo não tendo muito tempo para visitar a cidade, passei lá o tempo suficiente para cumprir essa vontade!

Eu sabia que aquela é apenas a cidade maior da Europa e uma das maiores do mundo com tanta coisa para ver que todo o tempo que eu tinha seria pouco, por isso procurei cumprir os meus principais objetivos deixando o resto para uma futura visita! É sempre mais fácil quando a cabeça se organiza antes em vez de ficar no meio da confusão tentando decidir o que fazer a seguir.

Ora uma das coisas que eu queria muito visitar ali era a Cisterna da Basílica, fica ali ao ladinho da Basilica de Hajia Sophia, onde há umas casinhas tão bonitas que nem parecem coisa de lá!

E lá estava ela, do outro lado da rua!

Aquilo quase passa despercebido, não fossem as várias pessoas que se vão enfileirando na berma da estrada para a visita e, contra o que se espera, anda-se um pouco, desce-se umas escadas e… lá está ela!

“Desde a primeira vez que eu vi uma foto da Cisterna de Istambul, que eu decidi que tinha de cá vir vê-la… hoje eu vi-a! Linda, misteriosa, antiga…. A “Yerebatan Sarnici” construída na época bizantina (séc. VI) tem qualquer coisa como 336 colunas e podia comportar 30 milhões de litros de água!! Esta água vinha desde a floresta de Belgrado e era armazenada aqui para fornecer a cidade o que lhe permitiria grande autonomia em caso de seca! Também aqui foi rodado um filme do James Bond! Maravilhei-me ali dentro, como dentro de uma catedral!”

Não consigo descrever o deslumbramento quando encontro o que procurava ver há tempo demais! É como se, de repente, estivesse perante uma personalidade, uma entidade!

Foi muito bom ser das primeiras pessoas a entrar, pois assim pude ver e parar e fotografar de todos os ângulos sem multidões na minha frente a encher-me as foto de “ruidos”!

Dei-lhe a volta, fotografei de todos os ângulos e a vontade era ficar mais um pouco, voltar a dar a volta, voltar a olhar de lá para cá e de cá para lá…

A água tem peixinhos que a gente pressente na escuridão!

O restauro e a iluminação foram perfeitos! Se tentarmos fotografar aquilo som flash percebemos que a iluminação lhe dá todo o encanto e mistério que vemos!

Aqui e ali uma coluna diferente chama a atenção. Afinal a cisterna foi construída rapidamente usando colunas já existentes, vindas de diversos templos da Asia Menor, por isso naturalmente, sendo mais de 300, não serão todas iguais!

E lá bem no fundo, depois de toda a “colunata” há 2 bem diferentes, com cabeças de Medusa na base, onde toda a gente quer ser fotografado. Na realidade são colunas romanas que exemplificam bem a mestria da escultura e arquitetura romana! O mistério permanece sobre as posições que as duas cabeças ocupam lá nas bases das colunas!

Uma de lado…

Outra ao contrário!

Lá em baixo há um café e tudo, mesmo por baixo da saída da Cisterna! Deve ser curioso trabalhar ali, isso é que se pode chamar viver na obscuridade, a servir copos de leite e sumos, nada de cerveja!

Simplesmente não conseguia tirar os olhos da beleza do espaço…

Do outro lado fica a Basílica de Hagia Sophia …

Hagia Sofia quer dizer Sagrada Sabedoria! A Basílica, que já foi catedral de Constantinopla, começou sendo Ortodoxa, depois foi Católica, depois Islâmica e, finalmente, hoje é um museu.
Foi consagrada no dia de Natal do ano 537, o que a faz ter quase 1500 anos! E é linda!

Entrei ali e deslumbrei-me, todo o piso é feito de enormes placas de mármore, gasto e estalado dos muitos séculos de uso, e tudo em volta me inspirava um enorme respeito…

O edifício mostra desgaste, uma pena imaginar se aquilo se perde!

O vão é enorme, por baixo da grande cúpula… quantos séculos de história ali se contam naquele espaço…

Sobe-se para o andar de cima por uma rampa empedrada e não por uma escada!

A Basílica está em recuperação e podem-se ver fotos do espaço coberto por ali.

É reconfortante ver que está tudo a ser restaurado, porque é urgente preservar tudo aquilo antes que seja tarde demais!

Sentia-me no coração da história de Istambul…

Pelas janelas podia ver o exterior e não queria sair dali mais!

Há mosaicos ali do séc. XI e XII!!! Uma coisa deslumbrante que não se encontra em qualquer lado!

E o chão de mármore, continua infinito pelo piso superior, em lajes imensas!

Numa das entradas há uma coluna com um buraco onde a gente mete o dedo e tem de dar a volta toda à mão com ele lá enfiado! Seguramente que eu teria conseguido a proeza pela agilidade de mãos e pulsos que tenho… não fosse ter de usar precisamente o polegar que tenho avariado!

O ambiente cá fora estava lindo, com aquele sol deslumbrante, mas muito calor já!

Apetecia que aquelas fontes estivessem a jorrar água com força e enfiar os pés lá dentro… mas aquilo é só para olhar, há muito que deixou as suas funções!

E pronto, tinha viajado ao passado e visitado algumas das coisas que tanto me chamavam e me levaram ali, parei e sentei cá fora, fiz mais um desenho ou dois da mesquita Azul do outro lado do jardim e da Hagia Sophia pertinho de mim.

Sentia-me tão feliz que de repente nem sabia mais o que me apetecia fazer!

Eu não queria de todo pegar na moto naquele dia, ela estava muito bem estacionada da pousada e precisava de paz, depois de tanto quilómetro, tanto calor e tanto esforço! Por isso apanhei um autocarro e fui dar uma volta pela cidade! Fixe, deixar a condução na mão de profissionais enquanto descansava as minhas mãos!

E com isso, eu, que nunca ando de 4 rodas, a primeira vez que passei a ponte do Bósforo, fi-lo de autocarro e não de moto! Eheheh

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– Constantinopla, capital de grandes impérios entre dois continentes! –

Era impossível eu não me apaixonar pela grande cidade de Istambul!

“A Cidade”, como lhe chamaram vários povos, como se mais nenhuma cidade houvesse para além dela!

Já foi chamada de Bizâncio, de Nova Roma, de Constantinopla, de Kostantiniyye e, finalmente, Istambul!
Já foi capital de tantos impérios como:
o Império Romano (durante o séc. IV),
o Império Bizantino (do séc. IV ao séc. XIII),
o Império Latino (durante o séc. XIII),
o Império Bizantino de novo (do séc. XIII ao séc. XV)
e finalmente o Império Otomano (do séc. XV ao séc. XX)

Fica ali, entre o Mar Negro e o Mar de Marmara, entre a Europa e a Asia, e é a única cidade do mundo que se divide entre dois continentes!

E eu fui para a beira do canal… o Bósforo, aquele que divide a cidade em 2 e liga o mar Negro ao Marmara! Passei ali o resto da manhã por entre mercados, restaurantes e povo pelas ruas aos montes! Pertinho fica a ponte Gálata, que atravessa o estuário do Corno de Ouro, onde fica o coração da cidade.

E fui visitar a mesquita Mesquita Yeni

O edifício é do séc. XVI, parece que tudo ali é de há muitos séculos atrás!

É muito bonito e vale a pena ser visitado! Cheguei-me à porta preparada para o ritual de tirar botas, tirar chapéu, embrulhar-me em panos e entrar. As botas eu tirei-as mas quando ia tirar o chapéu um dos senhores que estão à porta a ajudar os turistas disse-me que não precisava tirar o chapéu! “Mas eu quero entrar na mesquita!” expliquei eu “Claro, mas não precisa tirar o chapéu! Entre assim que lhe fica muito bem!” “sem véu?!” “Sim, o chapéu é como um véu!” explicou ele!

Fantástico, não precisei de andar por ali armada em nossa Senhora, a lutar com o pano que cai a cada movimento!

A mesquita é muito bonita por dentro, com o imenso tapete azul a cobrir totalmente o chão, com desenhos extraordinários! Aquilo terá sido feito ali dentro mesmo? É que todo ele é feito à medida do piso da mesquita!

Na realidade tem parecenças com a mesquita azul, mas tem pormenores que eu achei surpreendentes, como estar aberta ao público enquanto estavam em oração, ou reflecção ou algo do género!

Pelo menos estava lá o homem e falar e toda a gente a ouvir!

E o desenho do tapete era muito bonito!

Os homens entram na grande nave, os turistas ficam do lado de fora de uma barreira de madeira e as mulheres que rezam ficam à porta atrás daquelas grades bem fechadinhas de madeira! Uma fulana toda coberta por panos, que ia a entrar para ali, viu-me a espreitar e perguntou-me o que é que eu queria, que ali era o seu espaço de oração.

Não gostei muito dos seus modos e não resisti a perguntar “Ah, e rezam ai atrás das grades porquê? Vocês mordem é?”

Fui-me embora antes que ela me fulminasse completamente com o olhar! Eheheh

Cá fora as pessoas lavavam as mãos e os pés e a cabeça e mais o que pudessem, que estava muito calor. Aproveitei para fazer o mesmo, embora tenha ficado com a ideia de que não tinha direito a fazer tal, pelo menos era a única mulher a pôr mãos e pés na água. Ninguém me disse nada e eu pus também a cabeça!

Logo ali em frente ficam mercados e feiras de tudo, para onde eu fui pois estava fresquinho lá dentro! E o que eu me fartei de petiscar frutos secos e roer pequenos petiscos que me ofereciam!

Ali os doces são muito doces, frequentemente baseados em amêndoa ou noz, come-se um pouco e bebe-se uma grande golada de água e até sabe bem!

Escusado será dizer que bebi uma garrafa de água de 1.5 l enquanto andei por ali nas experiencias alimentares!

Os vendedores são divertidos e brincavam frequentemente comigo, eu ia-lhes respondendo à letra à medida que ia passando e explorando as novidades. Então encontrei numa mercearia um cartaz que me fez partir a rir!

Estava lá em cima, no meio das tralhas. O homem ao ver-me a rir perguntou-me se eu falava espanhol. Não falo mas entendo, por isso estive ali na cavaqueira com ele sobre sogras e venenos e, pimba, mais uns frutos secos para eu provar!

E eles têm aquilo tudo tão bem apresentado! Parece tudo artificial de tão perfeito!

O povo por ali era aos magotes, não só turistas mas também gente nas suas compras diárias!

Voltei à ponte, ao longe podia ver a famosa Torre Gálata, do séc. XIV, que eu não visitaria, não desta vez!

A trapalhada era muita ali junto à ponte Gálata.

Olha-se em volta e vêm-se diversas mesquitas, muita gente e imenso trânsito!

Junto a ela há vendedores de todo o tipo de bugigangas para comer e, por baixo dela, há restaurantes onde me fui encher de comida!

Comi lulas grelhadas acompanhadas com uma enorme cerveja! Inesperado, não imaginei que me oferecessem uma cerveja tão deliciosa por aquelas paragens!

Voltei ao centro histórico da cidade onde fica a mesquita Azul e pensei em visitar o Palácio de Topkapi, o palácio dos soltões que hoje é um museu!

Mas aquilo estava tão cheio de gente e as filas para comprar o bilhete eram de perder de vista!

Foi das coisas que eu tive pena de não visitar… mas teve de ficar para outra vez! Passar horas ali na fila, sob um calor escaldante, estava completamente fora de questão!

Ainda estive ali pelo jardim um pouco, a apreciar cenas giras e a beber mais uma garrafa de água gelada. Estava a ver quando é que o gato esfarrapava o pássaro e o cão esfrangalhava o gato… mas afinal eles eram amigos!

E tinha o resto do dia todo para nada fazer, não é fantástico?

Ali mesmo pertinho da Hagia Sophia fica mais uma das 23 mesquitas da cidade, antiquíssima do séc. XV.

Que eu não visitei porque fiz amizade com um senhor que estava ali ao lado a desenhar. Os desenhos dele não eram geniais, mas ele era muito simpático!

A seguir percorri a Praça Sultanahmet onde se situava o Hipódromo de Constantinopla, uma longa praça ao lado da Mesquita Azul.

Ali encontram-se 3 obeliscos trazidos para embelezar a praça na época da sua construção.

O mais extraordinário para mim é o obelisco do Templo de Karnak em Luxor no Egito, datado de 1490a.c., que foi trazido para Istambul pelo Imperador Teodósio no ano de 390.

Oh, que sensação estar perante uma “peça” do templo de Luxor, onde se calhar eu nunca irei!

Outro é a coluna de Constantino do século X que originalmente era revestida com placas bronze dourado, mas que foi bastante danificado na época das cruzadas e hoje está com a pedra à vista.

E ainda há a Coluna Serpentina que veio da Grécia, onde tinha sido construída para celebrar a vitória dos Gregos sobre os Persas, durante as Guerras Médicas.

E fui visitar de novo a Mesquita Azul que fica ali mesmo ao lado, aquilo não estava muito calmo mas eu queria acabar um ou dois desenhos que deixara a meio no dia anterior, por isso sentei-me no tapete fofinho e desenhei mais um pouco, que se lixasse quem olhasse!

As mesquitas até podem ser parecidas, mas aquela é um espanto! Aquelas abobadas são verdadeiramente vertiginosas!

Havia gente muito interessada no que eu estava a desenhar e eu muito interessada em quem estava por ali, de vez em quando também gosto de pôr pessoas nos meus desenhos!

Fiquei ali muito tempo em longos momentos de paz e serenidade, sem pressa de ir a lado nenhum, apenas estar! Quando sai dei a volta à mesquita, por ruelas encantadoras de casinhas muito giras.

Numa loja de tapetes uns homens meteram conversa comigo, queriam saber quem eu era, de onde eu vinha. Acharam curiosa a minha maneira de vestir e o facto de usar chapéu!

Um queria levar-me a ver a mesquita de cima da loja, a partir do terraço. Então veio o dono da loja e, espanto, falava português! Dizia ele que tinha negócios no Brasil, por isso falava português, sim senhor! Mais uma hora na cavaqueira, que culminou com uma visita à loja, onde ele me fez uma pequena pulseira em fio de seda turquesa, que tirou de um tear de tapetes!

“Isto será como uma pulseira de sorte que te vai acompanhar até ao fim da tua viagem, sem que nada de mal te aconteça! Depois não a tires, deixa que ela caia por si!” disse-me ele, e a verdade é que ela ainda cá anda no meu pulso!

A mesquita era logo ali atrás

E a minha pousada também! Fui até lá tomar um banho e fiz amizade com uma italiana que falava muito bem francês e foi com ela que passei o serão a comer melancia e a passear pelos jardins junto à mesquita e pela Praça Sultanahmet.

E foi o fim do 24º dia de viagem!

**** ****

23 de agosto de 2013

– Finalmente o mar Negro! –

Mais um dia de estrada, mais uma travessia alucinante de Istambul!

Eu gosto de despedidas, gosto de sentir que estou a ir embora, que me importo com isso! Gosto de olhar em volta e tentar reter na memória tudo o que os meus olhos conseguirem abarcar e o meu coração memorizar e depois partir, com esses momentos fugidios acumulados à minha história.

E quando deixo um sítio que gostei de conhecer, planeio como e onde fazer a despedida. Naquele dia, claro que estava determinada a levar a minha motita até ao outro lado do Bósforo, para que ela pusesse as rodas na Asia!

Ao pequeno-almoço vi-me rodeada de coreanos, que estavam muito curiosos a meu respeito! Diga-se de passagem que eu parecia um gigante perto deles, sobretudo das raparigas, pequeninas e miudinhas! Uma delas, que falava muito bem inglês, fartou-se de me fazer perguntas, sobre como era viajar de moto e maravilhava-se com as respostas que eu lhe dava “you inspire me!” repetia ela arregalando os olhos!

Dizia ela que de repente lhe apetecia também ter uma moto e viajar assim por conta própria como eu!

Fizeram-me uma festa quando me preparava para sair, o rapaz da receção estava maravilhado com o meu chapéu também! Mas lá fora é que era o espanto! Aquela gente nem se aproximava da minha moto, só a miúda que me fizera todas as perguntas se aproximou e me pediu para tirar uma foto junto da moto. Depois percebi que ela queria que eu ficasse também. Ela era mesmo miudinha junto de mim, quando me cumprimentou de mão, a sua mãozita era tão pequena e fina que me questionei se seria suficientemente grande para segurar o volante de uma moto!!

Aquilo foi mais uma sessão de fotografia de modelo. Acabei por tirar uma para mim também, pois então!

Ao fim da rua a gente voltava à esquerda e chegava ao meio do jardim onde de um lado se via a Mesquita Azul…

e do outro a Hagia Sophia! Claro que aproveitei para registar o momento em que a minha motita ficou ali no meio de tais cenários!

Desci até ao Bósforo… era por ali que eu queria passar os últimos momentos antes de partir, de um lado e do outro!

Ao longe podia ver a ponte do Bósforo. Aquela ponte tem um trânsito diário impressionante, por isso cerca de 2 meses depois de eu ir embora dali inaugurava o túnel ferroviário do Bósforo, à prova de terramoto, para reduzir a circulação sobre a ponte. Curioso que por lá não se via nenhuma lavoura de obras!

E atravessei a ponte! Wow, que momento! A minha Ninfa estava a entrar na Ásia! Eheheheh

O stop em turco é giro! Coisas que fui aprendendo pelo caminho!

Ora e lá estava a Europa vista da Ásia! Que satisfação infantil, afinal é tudo igual, mas cá dentro é aquela satisfação de “estou na Ásia!”

Despedi-me de Istambul do outro lado do Bósforo, ao longe a mesquita Azul com os seus 6 minaretes e a Hagia Sophia, imponente, acima de tudo… as águas azuis do canal encheram de encanto aqueles momentos que foto nenhuma, ou desenho algum, conseguiu reter… mais um momento histórico na minha história!

E voltei à estrada para seguir o meu caminho!

Conduzir por Istambul é a alucinação completa, as motos circulam pela faixa de segurança sem qualquer problema, ultrapassando tudo e todos!

Eu sempre gostei de conduzir no meio do trânsito, eu sei que é perigoso e tal, mas é tão revigorante! Acho que sinto tanto prazer em conduzir pelo meio de lado nenhum, por entre paisagens deslumbrantes e estradinhas sem ninguém, como pelo trânsito caótico de uma grande cidade. Sobretudo se essa grande cidade é Istambul, onde as motos têm liberdade de seguir por onde puderem.

Lembro-me de ter cuidado ao pôr os pés no chão, a cada vez que parava um pouco, não fosse algum carro passar-lhes por cima!

Depois de conduzir em Istambul, nenhuma outra cidade nesta viagem me deu tanto prazer de condução!

Ora eu queria parar no meio da ponte, fosse como fosse, nem que tivesse de simular uma pequena avaria na moto!

Mas não foi preciso, bastou encostar um pouco e pimba…

“Este foi o momento em que a Ninfa foi grande, parei no meio da ponte que atravessa o canal do Bósforo e ela ficou com uma roda em cada continente! Ao fundo fica o mar Negro, atrás de mim fica o mar de Mármara, do lado esquerdo fica a Europa, do lado direito a Ásia… momento para recordar, quando eu pus as rodas pela primeira vez na Asia!”

E pronto, adeus Istambul!

Uma coisa curiosa é que os polícias tinham sempre motos muito giras!

Segui para a Bulgária… iria ver finalmente o “meu” Mar Negro!

Depois de umas estradinhas giras, pelo meio de lado nenhum, eu estava a ficar cheia de sede! Encontrei uma pequena localidade e fui a um minimercado comprar algo para comer e beber. A senhora (a da bata azul) ficou visivelmente atrapalhada com a minha presença. Queria a todo o custo comunicar comigo.

Não me entendia, eu não a entendia a ela, e ela olha cá para cima, para mim, e ria-se nervosamente! Eu queria dizer-lhe que não era preciso falarmos, pois eu procuraria o que queria, mas não havia maneira de me fazer entender.

Então ela foi buscar uma miúda que, pelo que percebi, era suposto saber inglês! Mas só sabia dizer “yes” e “no”. Desataram a rir-se as duas!

E foi chamar outra… que ainda sabia menos inglês que a anterior. Eu já só me ria com a borga que elas faziam em redor de mim. Não faço ideia do que diziam, mas visivelmente estavam fascinadas com a minha dimensão perto delas, pois eram todas baixinhas!

Então chegou a mais gordinha e a maior de todas, mais risadas, mais brincadeira entre elas, quando esta ultima se pôs a medir-se por mim. Era mais baixa também.

Acabei por pegar no que queria e pagar pelos números que me mostraram na calculadora, que era o que bastava ter feito desde o início!

Mas giro foi quando eu me preparei para partir e montei na moto! Pareciam crianças em volta de mim a mexer em tudo! Então o GPS fascinou todas! Pelos seus gestos percebi que perguntavam o que era aquilo, “TV?” diziam elas! Eheheh

Mostrei o mapa e o sítio onde estávamos, não sei se todas entenderam mas a mais gordinha parecia radiante e fascinada, acho que entendeu o que era aquilo!

Quando dei por ela a rua estava cheia de gente, vários homens tinham-se aproximado um pouco, cheios de curiosidade, mas aquele era um momento feminino, nenhum chegou muito perto!

Pus a moto a funcionar e elas fugiram todas para o passeio, acenei-lhes com a mão, elas acenaram também e fizeram tanta festa que apontei-lhes a máquina fotográfica…

Achei que iriam tapar as caras, voltar-se de costas, sei lá, reclamar, mas para meu espanto, juntaram-se todas num montinho em pose para a foto! Liiindas! Adorei-as!

Eu diverti-me tanto que lhe atirei um beijo com a mão, entre a algazarra que faziam! Que momento giro com todas a atirar-me beijos também!

E logo a seguir comecei a ver placas a indicar… Bulgaristão!

Eu não fazia ideia que por ali a Bulgária se chamava Bulgaristão! Tive um súbito delírio de estar perto de países com Paquistão, Cazaquistão ou Afeganistão! eheheh

Estava o calor do costume quando cheguei à fronteira, e sair da Turquia não era tão simples como sair de um país qualquer! Voltei a andar de guiché em guiché, a preencher papeis sobre o que eu estive a fazer no país, onde estive, onde dormi, quanto paguei e o que gastei! Gente simpática que me ajudou a preencher tudo, pois os papéis eram complexos, até me pediram desculpa por não terem papeis na minha língua, “não se preocupem que Espanha que é ao lado de Portugal também não tem nada em português e eu lá me desenrasco!”. Preenchi os papeis espanhóis, pois então!

Segui para a fronteira búlgara, bolas, fiquei no fim de uma fila de carros, na seca e no calor!

Mas os búlgaros são gente boa, um polícia aduaneiro veio lá do fundo até mim. Pensei que já ía “levar nas orelhas” por estar a tirar fotos dentro da fronteira, que já se sabe é proibido! Mas não, veio-me buscar! Curioso que podia ter-me chamado lá do fundo com um gesto de mão e não o fez, veio à minha beira buscar-me, literalmente. Mandou-me seguir para a frente e mostrar o passaporte ao colega e seguir, que não me metesse de novo na fila!

E assim foi, parei, mostrei o passaporte, e segui com direito a continências e tudo, enquanto aqueles carros todos ficaram ali!!

Segui animada pela sensação agradável que ter sido bem tratada à partida da Turquia e bem recebida à chegada à Bulgária! Até senti uma pontinha de remorsos por não ter incluído uma visita mais detalhada ao país, por isso terei de lá voltar para compensar essa falha!

E lá estava o Mar Negro…. a completar os 7 mares que visitei nesta vieagem:

o Mar Mediterrâneo,
o Mar Lígure,
o Mar Adriático,
o Mar Jónico,
o Mar Egeu,
o Mar de Marmara
e agora o Mar Negro!

«Há ideias que me vêm à memória de vez em quando, a que eu chamo sonhos, mas são apenas vontades e eu tinha o “sonho” ou a vontade de ver o Mar Negro há muito tempo! Desde pequena que o nome me inspirou e me fez desejar lá ir. Não esperava nada mais que um mar, por isso nem sequer tinha receio de me desiludir, o que ele fosse seria fantástico para mim, apenas por pensar “estou no Mar Negro!”. E assim foi, depois do Mar de Marmara, depois da Turquia e do Bósforo, lá estava ele, às portas da Bulgária, a caminho da Roménia, sem nada de especial para além dele mesmo. Parei, aninhei-me na berma da estrada, senti o seu cheiro a maresia e, fechando os olhos, pensei “eu estou aqui!”…»

Todo o caminho a partir dali foi lindo e uma aventura também!

Uma estrada estreita e toda estragada, com depressões profundas, sem que o alcatrão estivesse esburacado, o que queria dizer que tinha de ir com toda a atenção pois podia nem ver as covas até cair nelas!

Cavalos selvagens atravessavam a rua placidamente a qualquer momento e eu já nem sabia se o pior já tinha passado ou estava para vir!

A dada altura passei por um jeep que vinha em sentido contrário, era Búlgaro. Vi pelo retrovisor que um senhor saía e me fazia sinal! “Queres ver que não posso passar e tenho de voltar para trás!?” Ele veio-me perguntar se o caminho de onde eu vinha estava bom, entendi pelos gestos pois ele não dizia uma palavra que eu entendesse!

Acenei com a cabeça que sim apontando com a mão, siga à vontade que, com um carro desses passa por todo o lado, pois se eu passei com esta moto!

Agradeceu-me muito e seguiu caminho. Achei no mínimo curioso que fosse eu, vinda de tão longe e acabada de chegar ao país, a dar indicações a gente de lá! Eheheh

Cheguei a Varna ao fim da tarde, mas não me apeteceu ver a cidade, queria comer e beber e nada fazer! E assim foi!

E foi o fim do 25º dia de viagem!

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23 de agosto de 2013

– E cheguei a Bucareste! –

Naquele serão eu estive a beber cerveja e a comer pizzas até às tantas. O hostel tinha a modalidade “faça você mesmo a sua piza” e estavam por lá uns malucos que se fartaram de as fazer para toda a gente. As cervejas eram enormes e deliciosas, por isso não me faltou nada para ser feliz, a considerar que estava a tratar de recuperar o peso que perdera!

O hostel ficava numa ruela sem transito e eu pensei que não haveria qualquer problema em deixar a moto na rua, mas fui vivamente aconselhada a mete-la no quintal ao lado, porque na rua nada era seguro! Oh valha-me Deus, afinal tudo aflito que eu ia à Roménia, que lá roubam e assaltam e afinal na Bulgária já não posso deixar a moto numa rua longe de tudo porque não é seguro?

Logo ao lado, depois da sebe, ficava a zona do forno e das mesas corridas onde a gente fazia e comia pizas! Ninguém ficou indiferente às manobras da moto e a conversa foi naturalmente para de onde vinha eu de moto! Havia lá muita gente da Austrália, um pequeno grupo de rapazes viajava por um mês pela Europa, pelo que percebi, para beber e participar em todo o tipo de festas! Dizia-me um que viajar de moto devia ser a coisa mais aborrecida do mundo porque, além de nos cansarmos, não podíamos beber! Mas eu estava a beber, respondi-lhe eu com a minha cerveja, que parecia quase de litro, na mão! “pois mas não te podes embebedar!”!

Oh rapaz eu para beber não venho tão longe! Não falta o que beber na minha terra, não tenho necessidade de correr a Europa de bebedeira em bebedeira! A verdade é que só falavam do que se bebia aqui e ali, e que em Sofia as bebidas são mais baratas que em Varna e, tarde da noite saíram, chamaram vários táxis, e foram todos para Varna enfrascar mais um pouco!

A verdade é que no dia seguinte de manhã ninguém acordava para vir servir o pequeno-almoço nem para abrir as portas para eu sair!

Estava farta de estar ali, um mundo de excessos nunca foi o meu mundo, sobretudo quando são excessos que me tiram a consciência e me privam de viver o dia! Quando me quiser embebedar fá-lo-ei na minha casa, pois assim vou para a cama e nem faço cenas, nem perco nada da vida… opinião minha, claro!

Este foi um dia grande para mim, de repente iria realizar dois dos grandes objetivos da minha viagem! Eu sei que podem parecer meio malucos esses meus objetivos, mas há coisas simples que significam muito para mim, mais do que estar em algum momento histórico em algum lugar! Vou só, e é nessa “solidão” que eu me realizo ao sentir-me onde desejei ir!

O primeiro objetivo era nadar no Mar Negro! Claro, com tanta vontade de o ver não podia deixar passar a vontade de o tocar!

Lá estava ele, deslumbrante e nada negro….

Ele chama-se negro porque é mais escuro do que outras águas de outros mares ou cursos de água, uma coloração escura provocada pela composição das suas águas e da vegetação submarina que existe nele. Dizem que as suas águas são menos salgadas que as do Mediterrâneo e outros mares! Ao mergulhar soube-me a água salgada na mesma, teria de ir num instante ao Mediterrâneo provar as suas águas para comparar!

Pousei a moto, rapei da toalha e fui nadar! Eheheh

As pessoas ficavam a olhar para mim e para ela com admiração, contei que ninguém lhe tocaria e assim foi! Ela impôs respeito pois então!

As praias eram deliciosas e a água fresca! Àquela hora da manhã já estava calor suficiente para a frescura das águas ser tão bem vinda!

Que bem que me soube! Num bar em frente à praia fizeram-me uma festa quando fui mudar-me, ninguém falava língua que eu entendesse mas fartaram-se de me dizer coisas, de me cumprimentar levantando o polegar no ar, presumi que eram gestos de admiração… (se fosse de desaprovação levantariam o dedo médio, não?)

E segui fresca e revigorada por terras com nomes muito curiosos, em percursos desorganizados! Fui por onde me apeteceu, dando voltas sem sentido, apenas para ver e espreitar um pouco do que houvesse no meu caminho, porque não queria parar muito, mas queria pôr o olho ao país pois quero lá voltar com mais tempo, um dia!

Fui ter a uma saliência no mapa sobre o mar em Kavarna, um sítio histórico num local deslumbrante!

Ao chegar lá havia uma cabine com um rapaz a cobrar bilhetes! Oh valha-me Deus que não tenho dinheiro do vosso para pagar! “Oh, I don’t have noney to pay you!” ele ficou a olhar para mim, sorriu e fez-me sinal “No problem, go on!” fiquei espantada a olhar, enquanto ele me mandava seguir! Gente boa!

E fui explorar ruínhas daquelas que eu gosto tanto! Kavarna foi fundada no séc. V aC pelos gregos e eu queria ir ver como era o que chegou até nós…

Dali a perspetiva sobre o mar é um espanto! Momentos espantosos!

Ali dentro há uma propriedade militar e as ruinas de séculos e séculos de história, mas foram as pessoas que me encantaram! Olhavam-me com espanto, eu ia toda vestida de preto e isso parecia atrair as atenções! Então eu sorria para elas e elas abriam grandes sorrisos também! Não há nada que um sorriso não derreta!

Nada podia comprar porque continuava a não ter dinheiro, o lev nunca chegou a entrar no meu bolso, ou acabaria por trazer mais moedas de sobra no fim do caminho! O que comprei e paguei na Bulgária foi sempre com cartão, mas ali não havia multibanco!

Então uma senhora ofereceu-me água! Genial! Gente tão simpática!

Estive por ali sentada a apreciar a paisagem e a curtir a companhia das pessoas, que estavam muito preocupadas porque eu estava tão perto do penhasco e o chapéu podia ser levado por ali abaixo pelo vento!

Mostrei-lhes que o meu chapéu tem um elástico que me permite prende-lo à cabeça quando está vento! Ah as caras das senhoras espantadas como quem diz “Claro! Por isso está ai em cima tão direitinho com este vento!” e riam-se!

Acabei por fazer um desenho no local, com elas a olhar! Eu nunca faço isso, normalmente desenho “em privado” mas ali apeteceu-me e elas adoraram, sacaram todas dos telemóveis e tiraram-lhe fotos!

Ainda tive direito a uma mão cheia de figos e uvas e tudo! E fui embora com um sorriso enorme porque encontrar gente boa faz tão bem ao coração!

Segui pela berma do mar, mas a minha finalidade era seguir para Bucareste sem parar mais! Há momentos em que só me apetece seguir caminho e a minha obrigação é atender aos meus próprios desejos, mais do que a roteiros ou planos pré-estabelecidos!

E começaram a aparecer as placas que eu esperava! Wow!

A fronteira passou-se na maior paz e serenidade! Cheguei, espantei e segui! Apenas mostrei a capa do meu passaporte e ninguém me incomodou mais, afinal estava na comunidade Europeia de novo!

Achei a operação tão simples que fiquei um pouco ali a olhar para uns e para outros, enquanto a fila dos carros não andava nem desandava. Dois polícias deram a volta à moto e fizeram-me sinal levantando o polegar! Adoraram a moto e parece que adoraram ter uma cliente feminina por ali. “Your friends?” perguntou um “My friends are in Portugal! I’m here alone!”

Adorei o seu “Alone?? Wow! Go on and enjoy our country!”

E o mar Negro era cada vez menos negro, e voltou a apetecer-me mergulhar nele!

Constanţa tem as placas de sinalização da cidade mais originais que encontrei! Enormes barcos marcam a entrada e a saída da cidade!

Apenas dei voltas pela cidade sem desmontar da moto. Ali era o ponto em que eu deixaria o mar Negro para trás e seguiria para o interior do país até Bucareste!

As capelinhas nas bermas das estradas fascinaram-me! Pequenas joias ali, abertas, onde toda a gente podia entrar e, mesmo assim, perfeitas e limpas! Isto mostra muito de um povo que pode entrar e estragar mas respeita! Lembrei-me de quantas capelinhas, bem menos interessantes, existem por cá e estão fechadas a 7 chaves contra o vandalismo!

Então, se calhar, aquele país não está assim tão entregue a gente duvidosa como se pensa frequentemente por cá…

A minha bonequinha em solo romeno! Fica tão bem!

Uma coisa que me despertava o interesse era a arquitetura daquele país e foi aparecendo um pouco do que desejava! Ah aqueles telhados!

De repente a vontade de chegar à capital era grande, queria lá chegar de dia e vê-la naquele dia ainda! Por isso corri!

E de repente deixei de me sentir uma perfeita analfabeta, que nada consegue ler, e consegui entender que havia ali uma autoestrada sem portagens! Boa, segui por ela!

O romeno é uma língua latina por isso consegue-se entender muitas coisas escritas, sobretudo!

E cheguei a Bucareste!

Cidade grande e grandiosa! Cidade espantosa, de trânsito ordeiro, motards simpáticos e estradas limpas! Afinal onde está a Roménia porca, decadente e cheia de ciganos? Certamente fora de Bucareste, porque ali eu sentia-me numa cidade demasiado ordeira!

Que falta me fez conduzir por aquelas avenidas como em Istambul! Ui, seria uma alucinação! Mas tive de seguir calmamente em fila e sem furar muito pelo meio do trânsito que ali parece que não se usa muito…

Uma cidade monumental sem buracos por todos os lados, ou sequer obras a perturbar a paisagem ou a condução!

Quando fui a um minimercado comprar comida para fazer um picnic encontrei gente conhecida no teatro em frente! Que bem que soube!

Como é possível passear por uma cidade daquelas sem encontrar obras por todo o lado? Eu nem sabia que isso existia!

E lá estava a grande avenida que leva até ao extraordinário parlamento! Linda!

Parei ali a moto e não havia ninguém parado fora do lugar! Não havia segundas filas nem transito embaraçoso por todos os lados!

Lá estava o parlamento! O famoso que eu não visitei mas terei de o fazer quando lá voltar! Afinal é o palácio maior do mundo depois do Pentágono, disseram-me lá e confirmei na net!

Está no Guinness, no entanto, como o maior, o mais caro e o mais pesado edifício administrativo do mundo!

Está decidido tenho de lá ir vê-lo por dentro um dia destes!

Acabei o dia junto de um bando de artistas de rua que faziam um grafiti na parede degradada de um edifico bem interessante! A solução de pintar aquela parede pareceu-me genial. Eles eram apoiados e tinham direito a grua e tintas e tudo! Ui, o que me apeteceu meter a mão na obra! Foi um serão agradável com direito a comidinha e cerveja e tudo, juntei o meu picnic ao deles e fizemos uma festa!

E foi o fim do 26º dia de viagem!

**** ****

24 de agosto de 2013

– A Roménia encantadora… –

Depois de tudo o que me foram dizendo sobre a Roménia, de como tinham sido assaltados por lá ou como me iriam roubar a moto e vende-la às peças e tal eu, por via das dúvidas, tratei de encontrar um hostel com parque para motos!

Curiosamente ao chegar ao local não vi sinais de garagem ou outro tipo de parque privado por perto, certamente seria noutro local próximo. Perguntei na receção onde era o parque privado para as motos. “A moto, mete-se cá dentro!” exclamou o rececionista.

“Cá dentro?” Eu entrara realmente por um pátio estreito e comprido, mas a minha moto não passaria sequer o portão! “Cá dentro? – exclamei – mas ela não cabe!”

“Cabe sim, já metemos cá dentro tanta moto!”

“Pois, mas a minha não cabe, não passa sequer na porta!”

O rapaz olhava para mim incrédulo, imagino que na sua cabeça pensaria que eu devia ser uma aselha para não conseguir meter a moto onde tantos motards haviam já metido as suas!

“Onde está a moto?” – quis saber ele como quem vai tirar as teimas e mostrar-me que eu estava enganada. Espreitou pela janela e viu a minha Ninfa bem de cima, acho que a perspetiva dali a tornou ainda mais imponente.

“Ah, não cabe não!” – exclamou espantado!

Claro que não cabia eu sei muito bem a moto que tenho! E ficou ali a olhar para a moto de boca aberta e olhos arregalados. “E veio até aqui sozinha numa moto tão grande?”

Então chegou-se o responsável pelo lugar para espreitar para a moto também.

“ Não há qualquer problema, a moto pode ficar na rua sem que corra perigo!” – disse ele.

“Olha que eu tenho de ter moto para voltar para casa!” – exclamei eu, ao mesmo tempo que pensava em todas as pessoas que me avisaram para nunca deixar a moto na rua pois acordaria sem ela!

A moto ficou na rua sim, mesmo por baixo da minha janela, e ninguém lhe tocou, nem naquela noite nem na seguinte…

**

De manhã eu só queria passear pelo país!

O tempo estava a mudar, já não estava tanto calor e o céu ameaçava encher-se de nuvens a todo o momento! Mas nada me impediria de ir dar uma bela volta de reconhecimento do local!

O país é grande e com clima variado, sai-se debaixo das nuvens e lá está o sol aberto de novo!

Só encontrei ruas limpas e paisagens bonitas! Será que o feio se afastou todo de mim?

Oh as igrejas! Coisas lindas e diferentes onde ninguém me impedia de entrar ou fotografar!

Achei um piadão àquelas torres torcidas!

As pessoas pareciam honradas pela minha visita, sorriam e faziam sinal para eu visitar à vontade!

Os símbolos religiosos deles são muito bonitos, peças de madeira muito bem trabalhadas, como totems!

Cheguei a Câmpina e encontrei outro santuário!

Eu não conseguia resistir a visitar aqueles santuários lindíssimos revestidos de pinturas extraordinárias!

A forma como tudo é pintado em cores vivas contando histórias, faz de cada local religioso um autêntico livro de histórias!

Depois a ruas são boas e, frequentemente, não têm passeios! Em vez disso têm as valetas relvadas com pontesinhas de cimento ou pedra nas passagens para as casas, que nunca têm a porta da entrada direta para a rua!

E as casinhas são mesmo diferentes, frequentemente com telhados de metal, recortados e trabalhados! Por vezes as construções parecem mesmo grandes casas de brincar, de tão queridinhas que são!

Cheguei a Sinaia, onde havia 2 ou 3 coisas que eu queria ver. As pessoas foram muito convincentes ao indicarem-me mais um mosteiro, o Mosteiro de Sinaia, como “a não perder”!

Na realidade há uma igreja nova e uma igreja velha ali, num mosteiro onde vive um grupo de 13 monges.

A igreja nova é do séc. XIX e é muito bonita!

É uma arquitetura diferente da que estamos habituados, olhe-se para aquelas colunas lindíssimas, todas trabalhadas que até parecem bordadas!

Lá estavam os fieis em filinha para rezarem ao seu santo predileto! E beijam-no, e tocam-lhe, e voltam beijar a imagem e as mãos, e por ali ficavamm neste ritual de beija e toca!

Sai-se da igreja e em frente, depois de uma passagem que atravessa o edifício, encontra-se a igreja velha, do séc. XVII.

Não posso deixar de admirar as pessoas que viajam de mochila às costas e catam tudo!

E era tão bonita! Fazia lembrar as igrejas dos mosteiros de Meteora!

Tudo era encantador naquela igreja!

Pormenores de encanto …

E as casinhas em redor? Eram um encanto, pareciam de brincar, por todo o lado!

Ali ao lado sobe-se ao monte até à Cota 1400

E lá de cima via-se toda a redondeza! O castelo de Bran fica ali para a frente uns quilómetros!

A rua que eu estava a fazer andava por todos os lados! Mais uma que, se fosse na Suiça ou na Itália, teria o nome de Col de qualquer coisa e uma tabuleta em cada curva a contabilizar quantas curvas há para fazer!

Fui até ao castelo de Peles.

Chega-se a um parque lindíssimo, com construções extraordinárias e o castelo fica ali dentro, um pouco mais à frente!

Ali há cafés e lojinhas de recordações e gente simpática que ficou a olhar para mim, como se eu fosse um ET que chegou! Nada que um sorriso e um ar simpático não quebrasse!

Ali fiz amizade com um grupo de motards que não conseguia disfarçar o espanto por me ver!

Estavam todos em motos de pista e a minha Ninfa parecia um autocarro perto das deles! Acho que eles não acreditaram muito que eu vinha de tão longe sozinha, alguns estavam sempre a olhar em volta e a perguntar se os meus amigos não viriam mesmo ali ter!

Com a conversa acabei por demorar muito tempo e optar por não visitar o castelo decidindo ir visitar antes o castelo de Bran… o que acabou por não ser a melhor escolha…

Afinal o Castelul Peles é aquele encanto que só se encontra em filmes e histórias de fadas e princesas! Dizem que é um dos mais belos castelos da Europa, eu acho-o um encanto! É um castelo “recente”, romântico lá pelos finais do séc. XIX e ali viveu o rei Carol I, o fundador da moderna Roménia.

Estava muita gente por ali em visita quer ao castelo quer ao parque.. e eu vou ter de lá voltar para o visitar por dentro!

Toda a envolvência é linda, com construções tão encantadoras como ele e gente simpática. Tinha pousado a moto num sítio ingreme e, quando ia sair, ela não recuava, pois enfiou a roda traseira numa reentrância provocada pelo ralo da água. Toda a gente ficou a olhar sem saber o que fazer, então veio um segurança e empurrou-me para trás, fazendo pressão na frente da moto! Agradeci-lhe tanto, ele apenas fez um gesto de adeus “you’re welcome!” respondeu com um largo sorriso! Toda a gente ficou satisfeita por eu sair sã e salva do “buraco”. As pessoas acenaram-me adeus quando parti!

Toda a zona estava cheia de gente e era compreensível, afinal tudo é lindo por ali, com castelinhos e construções lindas a espreitar aqui e ali!

Havia polícia por todos os lados a organizar o trânsito, agentes simpáticos que não prejudicavam as motos, embora os motards romenos (os que encontrei pelo menos por ali) não fossem muito aventureiros, e seguiam ordeiramente na fila dos carros! Eu não me contive a maior parte das vezes e fui furando e ninguém me impediu de o fazer!

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– A Transilvânia e a casa do amigo Drácula! –

A Transilvânia fica na zona central na Roménia e é mundialmente conhecida pelo seu habitante mais ilustre: o conde Vlad Tepes, que nasceu em 1431 e governou o território que corresponde à Roménia de hoje. Ele e o seu castelo inspiraram histórias e romances e hoje vai-se à Transilvânia por causa deles!

Depois de percorrer planícies ladeadas de montanhas deslumbrantes eu sabia que me estava a aproximar do castelo e imaginava-o por ali, no meio da bruma, sobre uma colina qualquer, por entre outros montes sombrios e inspiradores!

Mas os montes estavam longe demais para os 2km que o meu Patrick anunciava! “puxa, como posso estar apenas a 2 km de Bran se os montes estão tão longe?”

Mas os cartazes começavam a aparecer, anunciando o castelo assombrado “Castelul groazei”

É sempre uma sensação curiosa, por vezes um pouco hilariante mesmo, quando estou à espera de uma coisa e encontro outra! Pelas pesquisas que fizera na internet eu percebera que o castelo de Bran não era aquela construção tenebrosa e assustadora que se pode esperar e, quando lá cheguei, percebi logo que não seria também pela sua envolvência que ele seria assustador!

Para castelo do Conde Drácula, espera-se que ele esteja numa montanha ingreme qualquer, rodeado de paisagens sombrias ou, pelo menos, de difícil acesso! Quando chegamos lá, ele está pacificamente assente numa colina baixa, rodeado de comércio e recordações e artesanato local, com gente aos magotes por todos os lados e tem-se a sensação que “qualquer folha de couve” o tapa como eu comentava ainda em viagem. Um passo ao lado e ele desaparece atrás de uma árvore ou de uma série de telhados e o terror não é nenhum, mais parece um castelo digno de um conto de fadas! Mas é um castelinho bonito e pitoresco, isso é!

O movimento e o comércio é intenso por ali, lá se vai o restinho de terror que se podia ainda esperar! Eheheh

Entra-se na propriedade do castelo e os jardins são bonitos e verdes, a lembrar histórias de fadas e duendes!

E lá estava ele, talvez na única perspetiva em que é verdadeiramente imponente e assustador!

Mas foi ao entrar, para o visitar por dentro, que veio a vontade de sorrir!

O castelo é tão mimi que a sensação que eu tinha era que a qualquer momento passaria por mim tudo menos um vampiro! Uma Cinderela? Uma Rapunzel? Uma Bela adormecida? Qualquer uma, desde que fosse protagonista de uma história de encantar e nunca de uma história de terror!

O castelo é encantador, pitoresco e com passagens e balcões criativos que nos fazem percorrer todos os seus recantos! Ui a quantidade de desenhos que por ali fiz e o que eu me diverti no meio de uma multidão que o percorria permanentemente! A uns quilómetros da cidade ele é anunciado como castelo assombrado… mas na realidade deveria ser anunciado sim como um castelo assombroso!

Mas tem passagens secretas por dentro de paredes e tudo!

O castelo de Bran, apesar da sua rica história real, é conhecido pela sua história fictícia e romanceada! A sua lenda deve-se ao seu proprietário por muito tempo, o Príncipe Vlad Tepes, “o empalador”, conhecido pela sua bravura mas também pela sua crueldade para com os seus inimigos e prisioneiros, basta o apelido pelo qual era conhecido para se entender o terror que o envolvia! O castelo estava numa posição estratégica de grande controlo das rotas mercantis entre a Transilvânia e a Valáquia, mas a verdade é que, pelo menos hoje, não está no ambiente tenebroso que se espera!

Ah, aquele poço, que eu desenhei lá de cima, é tão diro! Fica no meio do pátio irregular

e está cheio de dinheiro!

Ninguém conseguia ficar indiferente a ele! Eheheh

Foi uma visita muito gira e, como o tempo estava a ficar uma bosta, deixei-me estar por ali a desenhar por horas!

E lá estava ele, imponente e assustador, por uns minutos, pois sai-se do ângulo e ele volta a ser mimi!

Cá fora encontra-se de tudo sobre o famoso conde e seu castelo!

Aproveitei para comer qualquer coisa e fiz amizade com 2 gregos que andavam por ali de moto. Tinham estacionado as motos junto à minha e ao perceberem que aquela Pan era minha ficaram muito impressionados!

Perguntaram-me de onde eu vinha, disse-lhes que também tinha estado na Grécia e eles pensaram que eu fora até lá de ferry. Ficaram escandalizados quando contei que viera por terra e que naquele momento já fizera cerca de 13.000km!

Mais uns que me perguntaram repetidamente onde estavam os meus amigos…

“Estão em Portugal, eu vim sozinha!”

Então um deles comentou com um ar de desilusão comicamente exagerado:

“E nós a acharmos que eramos uns heróis porque viemos da Grécia até aqui sozinhos… a Grécia é já ali comparando com Portugal, e tu és uma menina sozinha!”

E lá me fui embora, que ainda queria passear um pouco por Bucareste ao entardecer!

Adeus Drácula, gostei muito da tua casa!

E o caminho voltou a ser encantador, com pontes de madeira e tudo! Que coisa gira aquele país!

Ah, as paragens de autocarro eram lindíssimas! Mais pareciam bancos de jardim com telhado e tudo!

Logo ali a seguir fica uma cidade muralhada que eu tenho de visitar um dia. Descobri-a ao passar pois fica lá no topo do monte, como eu pensava que ficava o castelo de Bran, mas não se pode ir até lá de moto e já era tarde para eu apanhar o transporte próprio para ir lá acima. Por isso tirei fotos para guardar na memória para a minha próxima visita ao local! Pelo que investiguei deve ser lindíssimo aquilo ali em cima!

Quando vou a conduzir a máquina fotográfica é, frequentemente, a minha agenda! Registo em foto o que não quero esquecer!

e voltei para Bucareste

onde há momentos em que parece que estou em Paris!

Grandiosa cidade!

Com igrejas tão lindas por fora como por dentro

E avenidas de perder de vista!

Passear à noite por Bucareste, depois de tudo o que foi dito, prometido como perigo e anunciado como calamidade, foi a serenidade total!

Lá estava o parlamento a atrair a minha atenção… vou lá voltar, é certo!

A cidade é grandiosa com o Rio Dâmbovita a completar o seu encanto e a proporcionar reflexos de beleza pelo seu percurso! Se tudo não fosse tão calmo e ordenado, diria que se assemelha a passear por Paris ou Madrid, mas o ambiente é mais sereno e não me senti envolvida pela correria do trânsito!

Tal como eu imaginava, o medo por vezes agiganta as insignificâncias e faz ver monstros onde eles não estão. Adorável cidade, quando lá voltar será para ficar o tempo suficiente para a explorar com a calma e deslumbramento que ela merece!

E voltei para casa, onde a motita dormiria mais uma noite ao relento, na berma de uma rua qualquer no centro de Bucareste, sem que nada lhe acontecesse!

E foi o fim do 27º dia de viagem!

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25 de agosto de 2013

– Transfăgărășan – a estrada mais famosa do mundo! –

E tinha de me despedir de Bucareste e da Roménia, ainda que me apetecesse tanto lá ficar mais uma infinidade de tempo, ainda que houvesse tanta coisa que eu queria ver… Parti cheia de nostalgia e com a promessa a mim mesma de que voltaria com muito tempo para ver tudo o que pudesse!

Eu iria para tão longe naquele dia… É sempre assim, vou com toda a calma do mundo e volto em grandes “passadas”, longas estiradas! Ali eu iria de Bucareste até Budapeste, duas capitais com nomes parecidos em países vizinhos, que distaram entre si, para mim, cerca 1000 quilómetros.

Dei mais uma voltinha de moto pelas avenidas da capital em tom de despedida e fui visitar a igreja da Ascensão Princesa Balasa que é o mesmo que dizer Biserica Domnita Balasa

A Printesa Balasa, a princesa triste que diz a história sofreu muito e fez grandes coisas, está lá no jardim numa estátua em mármore de Carrara e o seu túmulo está no interior da igreja do séc. XVIII em estilo neorromânico! Eu tinha de ir ver por dentro, claro!

Aquelas igrejas sempre farão um grande efeito sobre mim, de tão diferentes que são das nossas!

Os interiores pintados são fantásticos!

Segui na direção de Sibiu, sabendo que iria passar pela estrada mais famosa do mundo no entretanto!

As paisagens continuavam a ser lindas e inspiradoras! Parece que para qualquer lado que eu me dirigisse nada mudaria, seria sempre tudo lindo!

As capelinhas na berma das estradas eram encantadoras, em ambientes deliciosos! Apetecia parar junto de todas para fazer fotos!

Quando dei por mim estava a precisar de gasolina e, como em todo o lado por onde andei por aquele país, não tardou a aparecer uma estação de serviço com multibanco e tudo para eu abastecer! Nem dava para stressar, há gasolina e multibanco por todo o lado e pronto!

Abasteci, 26 litros, depósito cheio, e fui pagar…

O multibanco “elétron” não pagou! Puxei do visa que uso sempre… não pagou! Valha-me Deus, eu já pagara tanta coisa com aquele cartão naquela viagem e de repente ele não dava sinal de vida?? Puxei do 2º visa, aquele que só uso em ultimo recurso, que isto de andar por países desconhecidos a toda a hora requer cuidados destes, sempre uma possibilidade de ultimo recurso… mas não pagou também!

Fiquei desnorteada, os funcionários da estação de serviço também! Chamaram o gerente, que nada pôde fazer, não havia maneira de pôr aquilo a funcionar! Perguntei onde ficava o multibanco mais próximo. Ficava a 3km de distância em Pitesti. Estava eu a pensar como fazer para me deixarem ir buscar dinheiro vivo para pagar, quando o gerente simplesmente me disse para eu ir! Nada me pediu como garantia, apenas me disse para eu ir!

Ficaram ali os três a ver-me ir embora, com ar de quem achava que eu certamente não voltaria…

Lembrei-me de uma vez não ter comigo a carteira na hora de pagar a gasolina, cá em portugal, numa estação de serviço onde eu ia frequentemente e ter deixado como garantia o meu Mp3 que na altura era um aparelho que valia 150€….

Ali nada me pediram, apenas me deixaram ir!

Ao fim dos 3km lá estava o multibanco, levantei dinheiro sem dificuldade e voltei. Quando entrei na estação de serviço o ar de alegria foi visível nos rostos dos funcionários, agradeceram várias vezes. Acho que voltaram a acreditar na humanidade naquele momento!

Eu não iria deixar que o português fosse visto na Roménia como os romenos são vistos por cá!

Mais à frente uns quilómetros encontrei a placa que procurava, depois de umas quantas pessoas me indicarem aqui e ali que eu estava a ir no bom caminho. Gente simpática!

A Transfăgărășan é considerada uma das melhores estradas do mundo, pelas suas extraordinárias curvas e paisagens, no entanto não foi construída com fins turísticos, desportivos ou paisagísticos! Na realidade ela teve desde o início fins militares, foi construída por Nicolae Ceaușescu em apenas 4 anos, tem 90 km de curvas e sobe a mais de 2000 metros de altitude!

É muito variado no seu percurso até chegar ao ponto mais famoso, passa por gargantas, planícies, lagos e sobe sobe sobe!

Contrariamente ao que eu esperava, não estava cheia de motos, nem de condutores malucos, como acontece nos passos de montanha italianos ou franceses! Havia gente, havia movimento, mas tudo na paz, com direito a espaço e tempo para paragens estratégicas para tirar fotos e tudo!

Parei junto a uma cascata para apreciar o caminho percorrido. Havia ali vários carros parados com pessoas a apreciar o mesmo que eu. Um miúdo foi sentar-se junto da moto, visivelmente fascinado por ela. Os familiares também ficaram a olhar mas ele não tirava os olhos da moto. Percebi que os pais queriam tirar fotos ao miúdo ali, mas quando me aproximei todos se afastaram.

Disse-lhe que ficasse, que montasse na moto para a fotografia. Foi giro ver o seu ar de assombro. Agradeceram-me tanto ter deixado o miúdo montar na moto, fizeram uma festa e muitas fotos!

A estrada é linda…

Encontrei todo o tipo de bichinhos por ela acima!

Passear por um Passo de montanha é sempre o deslumbramento total, depois há estradas míticas que enchem esse passeio de significado, porque é aquela estrada e não outra, a que estamos a fazer! É o caso da Transfăgărășan, famosa pela filmagem do Top Gear, que fez dela “a estrada mais fantástica do mundo”!

Não será a mais fantástica do meu mundo pois já fiz outras tão ou mais bonitas e com curvas tão ou mais fantásticas, mas é uma estrada muito bonita e interessante de fazer, sobretudo quando estamos a subir pelo seu lado menos famoso até ao topo onde começa a sensação de que a estrada anda por todo o lado, como uma linha num bolso. Nesta subida a paisagem é verdadeiramente inspiradora e por vezes quase perdemos a noção da dimensão do que os nossos olhos abarcam, não fosse uma pequena casa aqui ou ali, para servir de bitola de medida!

E chega-se ao topo!

E lá há comidinha e gente simpática e tudo! Nada do carnaval que é em Bormio no topo da Stelvio, que parece uma peregrinação religiosa, apenas um ambiente de montanha com produtos locais à venda!

Depois de comer uns queijinhos com pão e tal, fui ver uns autocolantes da estrada, toda contente, e… não tinha mais dinheiro para pagar! Oh valha-me Deus que isto do dinheiro estava a pôr-me maluca! Então o homem, muito simpático, ofereceu-mos! Que gente boa aquela! Trouxe uns 6 autocolantes oferecidos porque não tinha dinheiro para os pagar, e isso parece a Roménia de que se fala por cá?

Então começa a parte mais famosa da estrada com placas sugestivas que dizem, segundo o tradutor do Google: “Curvas particularmente perigosas circular com velocidade reduzida”

Ora vamos lá ver se a coisa é como nas fotos!

E lá estava ela toda encarquilhada sobre si própria pelo monte abaixo!

É uma estrada larga, que permite uma condução rápida e fluida, podem circular camiões por ela, ao contraria da Stelvio em que as curvas são muito apertadas e não terá ângulo para pesados muito grandes!

O meu Patrick mostrava-me um desenho muito criativo do percurso que eu estava a fazer!

E andava por lá um camião que ocupava toda a estrada a cada curva! Aproveitei para fazer umas fotos e uns desenhos até chegar a ele!

Curiosamente não se viam quase motos nenhumas por ali! E eu só via carros!

Então, de repente passei por… um porco???

O que anda um porco cor-de-rosinha a fazer a mais de 2000 metros de altitude?

E, pela primeira vez na vida, cruzei com uma vara de porcos a “pastar”! Já vi todo o tipo de animais no monte, cabras, vacas, cavalos, burros! Mas porcos? Foi a primeira vez!

Fiquei ali a olhar para eles, todos contentes a passear pela estrada!

E foi o fim da estrada fenomenal e o início da estrada comum!

Andei por ali muito tempo a brincar, desci, subi, mais lento mais rápido e quando segui… o tempo do relógio já era pouco e o tempo meteorológico traiu-me! O céu ficou carregado quando eu andava a curtir umas estradinhas no meio das aldeias e caminhos e o diluvio ameaçou cair sobre mim!

Estava de novo a precisar de gasolina, que isto de andar numa estrada daquelas a brincar, gasta!

E foi na hora que a estação de serviço apareceu no meu caminho… porque o diluvio caiu mesmo, por mais de 2 horas de chuva muito intensa! Os senhores da bomba só me diziam para esperar, quando eu fiz menção de continuar o meu caminho! E fiquei!

Uma RT se juntou à minha Ninfa e eu tive a companhia de um polaco na minha espera por melhor tempo!

Foi um pedaço giro em que trocamos experiencias e conhecimentos, fizemos perguntas e comparamos percursos. O seu trajeto fora muito menor que o meu, mas ele estava tão maravilhado quanto eu com a Roménia, iria voltar para ver mais do país.

Com o tempo que “perdi” ali, que não foi perdido porque trocar experiencias é tão importante para mim com acrescenta-las à minha vida, não pude ir a Sibiu, e isso foi uma pena…

A minha preocupação então era o facto de ter uma luz da frente fundida! Já vi que a sina se mantem, perder uma luz em viagem! Afinal não era mania da Magnífica, a Ninfa fez o mesmo!

O problema agora é que com aquele tempo e a noite a aproximar-se eu não veria nada da estrada para seguir para a Hungria! Por isso decidi que pararia num hotelzinho de beira de estrada a qualquer momento e passaria ali a noite. Budapeste ficaria para outra vez!

Mas então uma situação se criou que me aconchegou o coração e me fez ir até Budapeste por mais de 500km de condução, grande parte noturna! Fui adotada por camionistas que me ampararam e acompanharam, iluminando o meu caminho, fazendo sinais e cumprimentando-me pela janela dos seus castelos com rodas!

A sensação de ir integrada no meio de um comboio de camiões fascinou-me e eu não tive coragem de sair e quebrar aquele ambiente tão agradável! Falei com muitos a cada paragem, comi com eles, ri e brinquei e nunca me senti nem só, nem em perigo nem às escuras! Eu adoro camiões!

E cheguei à fronteira!

Comprei a vinheta para as autoestradas, pois aquela hora eu não iria fazer nacionais, e continuei no meio de uma série de camiões que iam precisamente para Budapeste!

Cheguei à capital à 1.30h da manhã e fui recebida por um motociclista muito simpático que me ajudou a contactar com o hostel que estava fechado àquela hora!

Uma viagem alucinante e diferente de tudo que eu estou habituada! ADOREI!

E foi o fim do 28º dia de viagem

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26 de agosto de 2013

– Uma corrida entre Budapeste e Innsbruck! –

Budapeste é, na realidade, a junção de 3 cidades: Buda e Obuda na margem direita do rio Danúbio, com Peste, do lado esquerdo.

A passagem por Budapeste era por um lado necessária, tinha de passar por algum lado para voltar para casa, e por outro, desejada! Eu queria muito voltar àquela cidade para visitar e desenhar o parlamento…

Lá percebi que não fizera bem as contas, teria precisado de ficar mais tempo para o conseguir visitar por dentro…

Atravessei a Ponte da Liberdade ou Szabadság híd, que eu desenhei há uns anos e não tinha mais a certeza de como ela era! Na realidade esta minha dúvida devia-se ao facto desta ponte, embora seja de metálica, imita uma ponte de correntes, o que me fez pensar que estava doida ao desenhar a ponte de correntes com aqueles pináculos no topo! Ao atravessa-la reconheci logo a ponte bizarra do meu desenho! É o que dá fazer muitos desenhos no mesmo sítio!

A ponte das correntes fica logo à frente! Sim, andei de um lado para o outro do Danúbio!

A Ponte Széchenyi Lánchíd é uma ponte pênsil, é um ex-libris da cidade e que liga Buda a Peste!

Esta ponte sempre me fascinou e já a desenhei vezes sem conta, daí a confusão com a Szabadság híd, pois os seus desenhos aparecem baralhados uns com os outros nos meus livrinhos!

São ambas do séc. XIX, com apenas alguns anos de distância entre elas, e são lindas, duas das 10 pontes da cidade!

E fui direitinha ao parlamento… aquele edifício é um espanto, mas por dentro é de cortar a respiração! Fui a Budapeste com a finalidade de o visitar… mas correu mal! Estava tudo em obras e a fila para entrar para a visita só era largamente ultrapassada pela fila para comprar os bilhetes!

Valha-me Deus… e eu que tinha uma longa viagem para fazer até à Áustria, de mais de 700km devia ficar ali mais de 1 hora à espera para entrar e demorar depois outra hora na visita? Não sabia o que fazer, fiquei na fila, ao menos “enquanto penso e decido não preciso deixar crescer a fila até ao infinito”!

O que raio se estava a passar na cidade que nunca a vi tão cheia de gente nem tanta fila para visitar o monumento?!

Ele lindo é, um dos mais belos edifícios legislativos e o segundo maior parlamento da Europa, com 700 salas e gabinetes! (porque o maior, passei por ele dias antes em Bucareste!)

Tive de desistir da ideia de o visitar naquele dia… eu não iria ficar ali por horas, no meio de toda a multidão, à espera da visita, ficar sem tempo para dar uma volta pela cidade e depois correr como uma louca até Innsbruck, de noite e sem luz!

Então resignei-me a ir ver o edifício da outra margem do rio, passear calmamente, desenhar e partir depois!

Vi o Palácio Real Húngaro pelas traseiras… Lá em cima, no topo da colina do lado de Buda, sobranceira à cidade, fica o castelo, que é mais um palácio, onde viveram os reis da Hungria.

É de origem medieval, foi remodelado, acrescentado, destruído e reconstruido pela história fora, apresentando hoje aquele ar imponente que nos prende a atenção.

O movimento era tanto que percebi que teria de deixar a moto no fim-do-mundo e caminhar até lá acima… puxa, também não me apeteceu!

Ainda passei na catedral, mas havia por ali uma infinidade de camionetas de turismo e povo aos magotes por todos os lados…

Desisti…

Fui até à margem do rio, o Danúbio que é mais verde do que azul!

Estava lindo naquele dia, sem ninguém por perto. Acho que a multidão estava toda junto dos monumentos, ali só estava eu! Que bom! Finalmente algo da cidade totalmente por minha conta!

E eu desenhei!

Era uma das coisas que eu queria fazer ali, desenhar o Parlamento, se desse tempo depois de o visitar, como não o visitei a ele e a nenhum monumento, perdi-me em desenhos por ali!

O raio do edifício é mesmo bonito e imponente!

Depois fui passeando até junto da Ponte Széchenyi Lánchíd! Parei debaixo dela, o único sítio onde eu podia estar a sós a aprecia-la, pois é uma rua cheia de movimento e os turistas não vão muito para ali e fiquei a olhar… fotografei, desenhei e nada mais fiz do que encher a minha memória de recordações, as passadas, de quando lá fui, e as futuras, que ficaram depois deste momento. A próxima vez vou dar-me todo o tempo por ali para ver e viver tudo com mais calma… tem de ser!

Perdi-me no tempo por ali e quando parti percebi que já iria chegar tarde ao meu destino! Este tarde queria dizer de noite e eu com uma luz da moto fundida….

Eu tinha a vinheta para as autoestradas, um papelito que me custara 7€ na noite anterior, por isso fui fazer uma corridinha!

E ao entrar na Áustria, por via das dúvidas comprei também a vinheta! Não haveria muitas condições para andar em passeio demorado, o tempo ameaçava chuva e tudo!

Por isso, mais uma corrida, mais uma viagem!

O meu destino era Innsbruck mas não resisti em atravessar Viena! Não pelo seu lado mais grandioso e sim pelas ruelas de grande comércio. Afinal eu tinha de comer!

Mas conduzir por Viena é o desespero, sobretudo para quem já conduziu em Istambul, onde tudo é permitido! Em Viena a ordem é absoluta, tudo anda devagar e ordeiramente! Mas a verdade é que apenas na travessia da cidade cruzei com 2 acidentes graves! Bolas o melhor é seguir caminho que é mais perigoso conduzir aqui que no transito caótico e aparentemente desorganizado de Istambul!

E foi a luta total!

Começou descendo a temperatura, como sempre acontece quando vou para Innsbruuck! Depois, também como de costume, desatou a chover! E para terminar, anoiteceu!

Eu não via nada, as estradas brilhavam com tudo e com nada, a minha luz não era suficiente e eu tinha de reduzir a cada curva para ter a certeza de que ia na trajetória correta, cada vez que apanhava um carro em sentido contrario e a rua parecia um espelho!

A distância em vez de diminuir parecia que aumentava a todo o momento e, só quando cheguei a Innsbruck é que me lembrei que a minha dormida era na montanha!

“Pronto, ok, o pesadelo não só não acabou como ainda vai piorar!”

Comecei a subir e só via luzes acima de mim, um espelho debaixo da moto e uma diluvio a lavar tudo!

A cada pequeno aglomerado de luzinhas eu suspirava para que fosse ali o meu hotel… mas nunca era, faltava sempre uma série de quilómetros!

E se ao chegar ao destino não houvesse nada à minha espera? E se eu tivesse de andar de um lado para outro à procura da casa e ela não aparecesse? Como faria, de noite, cheia de frio e a molhar-me?

Mas depois de uma longa distancia sem qualquer luz apareceu uma localidade e, logo à entrada, um hotel lindíssimo, cheio de luzinhas como se já fosse Natal, “oh, quem dera que fosse aquele mesmo, tão lindo!”… e era mesmo!

Que bom que era lindo pois eu iria ficar ali 2 noites!

Fui recebida com muita simpatia, um quarto quente, porque ali o frio começa bem cedo, e um jantar feito na hora para mim!

Afinal o paraíso existe sempre, depois do inferno!

E foi o fim do 29º dia de viagem…

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27 de agosto de 2013

– Um pequeno passeio até à Baviera! –

Innsbruck era uma cidade que despertava em mim todo o tipo de sentimentos!

A cada vez que a visitei, grandes temporais me acompanharam, chuva, vento, frio e visibilidade nula! Parece que tudo conspirou sempre para me ocultar os encantos de uma bela cidade, que se foi tornando misteriosa pelo clima que a envolvia!

E de manhã… lá estava tudo molhado e a chuvinha do costume à minha espera para me dar uma molha!

Apreciei com calma o hotelzinho tão bonitinho e simpático, e um pequeno-almoço monumental, como eu gosto!

Quando chove eu fico sempre sem saber muito bem o que fazer! Claro que posso sair e passear, a chuva nunca me assustou ou perturbou a condução, mas não posso fotografar!

Decidi dar uma voltinha por ali perto e depois ir para a cidade passar o resto do dia. Não valeria a pena andar de um lado para o outro com o céu tão baixo e tão húmido que nada deixava apreciar. Assim visitaria a cidade em pormenor, veria museus, exposições e tudo o que implicasse andar protegida da chuva e do frio, e pronto!

Eu estava na montanha a vinte e poucos quilómetros de Innsbruck, por isso não havia mau tempo que me impedisse de ver um pouco do sítio onde estava, que aquilo é bonito! Afinal é o Tirol! Por ali todos os hotéis dão as boas vindas aos motociclistas, incluindo o meu! Lindo!

Pus a máquina fotográfica ao bolso e subi a montanha. Logo ali acima ficava uma terra com um nome muito giro! Como eu não sei alemão pus-me a tentar traduções: “Alto da Peida”, ou “Alta Peida”

Escrevia eu no meu Face naquele dia: “Ontem cheguei aqui, perto de Innsbruck, de noite! Sem uma luz na moto, debaixo de chuva, por uma estrada que brilhava de água e serpenteava pelo monte acima, foi uma aventura! Hoje de manhã ainda chovia um pouco, mas fui “reconhecer” o local onde estou e descobri que estou perto de uma terrinha com um nome giríssimo! Como não sei alemão leio Alto da Peida! Eheheheh”

Mas a verdade é que por ali tudo é lindo, mesmo com chuva e nuvens baixas! Tive de arriscar e pôr de novo a maquina ao peito para ir captando todos os encantos possíveis!

Mesmo ao lado da estrada o riacho mais fofo! Estava a ver quando passava a Heidi por ali a correr!

E desci até Innsbruck, antes que a chuva e a humidade dessem cado da minha máquina fotográfica!

Lá estava ela como eu a conheci sempre: cheia de chuva!

“Rai’s-parta isto! Vou ter de cá voltar tantas vezes quantas as necessárias até apanhar um pouco de sol?”

Mas a cidade é sempre encantadora, mesmo cheia de chuva!

A Herzog-Friedrich-Straße, é o centro cidade antiga onde ficam construções muito bonitas, algumas autenticamente bordadas a cor e relevo, como a Helblinghaus!

E como o tempo estava uma bosta fui-me enfiar na casa dos licores! Que coisa linda, para além de saborosa!

Sim, aquilo bebe-se tudo!

Por esta altura eu já mudara de botas pois as outras tinham as solas gastas e metiam água!

E a dada altura lá estava a catedral da cidade, a Dom zu St Jakob do séc. XVIII! O barroco não é o estilo que eu mais aprecio, mas um magnífico teto pintado nunca me deixa indiferente e aquele é de me pôr definitivamente de nariz no ar! Não é por acaso que aquela catedral é um dos mais extraordinários e importantes edifícios de todo o Tirol!

Se por fora a igreja não é nada de especial, apenas mais uma construção barroca, por dentro os tetos são deslumbrantes!

Nem sei quanto tempo fiquei ali a olhar “para o balão”!

Quando finalmente saí o tempo parecia querer melhorar a qualquer momento! Que bom!

Voltei à Herzog-Friedrich-Straße, onde toda a gente começava a acreditar que o sol viria!

Eu acho que já vi esta fulana mais o seu cãozinho noutras cidades da Europa! Ou teria sido ali mesmo?

E subi à torre do relógio! Eu tinha de ver aquilo tudo lá de cima!

Que pena eu tive de não ver os Alpes dali, como seria suposto, não fossem as nuvens baixas…

Fui tratar de comer. Tinha de decidir o que fazer, porque afinal o sol viera e eu podia dar uma volta pela redondeza em vez de ficar ali todo o dia!

Decidi passear, fui buscar a moto, que ficara na margem do rio Inn, aquele que dá o nome à cidade e que tem uma paisagem muito bonita do outro lado, mas que nada se via, apenas as casinhas giras e coloridas!

A Alemanha é ali ao lado e foi para lá que fui passear, havia umas terrinhas que eu tinha muita curiosidade de visitar por ali.

No caminho da fronteira encontrei uma Motorrad Classica! Coisa fota!

Parei a minha motita na berma da estrada e fiquei ali no paleio com uns senhores que me fizeram uma festa! A assombração foi total quando me perguntaram de onde eu vinha e eu nem sabia responder: “Me? I’m coming from everywhere!” brinquei, então fiz uma rápida lista de onde eu vinha enquanto eles contavam pelos dedos os 17 países que eu acabava de visitar.

Tão engraçadas as suas expressões!
E segui para o 18º país da viagem: a Alemanha!

Mittenwald fica logo a seguir!

Eu sei que Garmich-Partenkirchen é muito mais conhecida pelas suas casas pintadas, mas Mittenwald, que pertence ao seu distrito, despertou-me muito o interesse e foi a ela que eu dediquei mais tempo e atenção! E foi a decisão certa pois é mais encantadora!

A cidadezinha é um encanto, com casinhas pequenas, jardins e flores em todos os caminhos e as pinturas em todas as fachadas!

Os pormenores das pinturas são espantosos! Não são nada obra de amadores ou simples habilidosos! Quem pinta daquela maneira sabe o que faz!

Perdi-me por ali em milhões de fotos!

As ruas estavam cheias de gente, mas num ambiente calmo, nada que se parecesse com o clima frenético dos turistas ruidosos!

E eu sentia-me a passear pelas folhas de um livro de histórias de encantar!

Ao fundo a igreja despertou a minha atenção, se se pintam as casas por fora daquela maneira, como se pintará a igreja por dentro? Claro que fui ver!

Aquele teto era um pequeno deslumbramento!

Não sei o tempo que fiquei por ali a passear, mas lá decidi ir visitar Garmich-Partenkirchen, que também fazia parte dos meus planos.

Aquelas ruínhas eram deliciosas, não pude impedir-me de passear mais um pouco com a moto por elas… pronto, ok, eu sei que é interdito ao trânsito, mas eu queria mostrar aquela beleza à minha Ninfa!

A paisagem envolvente é apenas a imagem do paraíso, mesmo com as nuvens a tapar boa parte dos seus encantos!

E chega-se a Garmisch-Partenkirchen que deve o seu nome à junção de duas cidades antigas Garmisch e Partenkirchen, hoje permanece uma cidade cheia de encanto, com as suas casas pintadas como telas de museu em cenas que contam histórias desde contos locais até cenas religiosas, de uma forma extraordinária!

Frequentemente existem inscrições, dizem que elas contam a origem da casa ou a sua função, eu não conseguiria ler para entender! Mas encantei-me com muitas delas, espreitei pelas suas portas e quis entrar. Tudo parece lindo por ali, numa zona de montanha e neve a desportos de inverno.

Tudo parece lindo por ali, numa zona de montanha e neve a desportos de inverno.

Gostava de poder estar lá em época de Natal e apreciar a atmosfera que aquele ambiente deverá proporcionar por esses dias…

Eu sei que por ali tudo é lindo, por isso estava na hora de seguir mais um pouco para outra localidade encantadora!

**** ****

– De regresso ao Tirol! –

Ainda teria tempo de ir mais longe um pouco. A vantagem do verão é que os dias nunca mais acabam e, embora parecesse já tarde, ainda nem 2.00 horas eram, apenas as nuvens estavam baixas, o que fazia parecer fim de tarde!

Por isso peguei na moto e fui até Füssen, uma terrinha muito bonita e famosa por ter em seus domínios vários castelos, entre eles um muito famoso!

A cidadezinha é encantadora e estava cheia de gente gira, calma e apreciadora dos encantos do local, como eu gosto!

A terra dos violinos, a maior da Baviera, com direito a castelinho seu, e basílica, e rio e tudo!
Wagner passou na cidade…

Direito a chocolates bonitos também, até apetecia provar… se eu gostasse!

Oh, e casinhas deliciosas, em cores inspiradoras!

O seu castelinho ficava logo ali acima…

Eu achei que ele deveria ser interessante por dentro… mas não me apeteceu visita-lo! Apenas o olhei cá de baixo, numa viagem grande a gente simplesmente não pode ambicionar visitar tudo!

Preferi sentar-me numa esplanada cheia de gente, com um sol inspirador a aquecer-me a alma, juntamente com um delicioso café com nome português! Sim, nesta viagem tomei diversos cafés deliciosos! Será que a Europa está, finalmente, a aprender a apreciar café de jeito?

Tudo se passava naquela praça e não apetecia sair dali!

Na outra ponta da rua que desembocava na praça, estava a minha motita estacionada, logo depois de uma fonte inspiradora, com miúdos de bronze a brincar com a água!

Logo à frente fica o castelo mais famoso do lugar: o Schloss Neuschwanstein.

Ali ao lado há outro, mas não tem o mesmo protagonismo, o Schloss Hohenschwangau. É um castelo do séc. XIX, onde viveu o Rei Ludwig II da Baviera, sim, o mesmo que construiu o Schloss Neuschwanstein!

Lá estava ele ao fundo, o Schloss Neuschwanstein por ele eu fora ali!

Uma pena não poder ir até lá acima na moto… tive de a deixar no parque junto das outras.

Não me apetecia nada subir aquilo tudo a pé até ao topo! A paisagem é bonita mas entrando nas zonas das árvores nada se vê, apenas se caminha subindo e isso não é de todo o que mais gosto de fazer!

Por isso apanhei uma tipoia e lá fui por ali acima ao som dos cascos dos cavalos!

O castelo é imponente de perto mas seguramente muito mais belo apreciado de longe!

As paisagens que o rodeiam são fascinantes e muito mais inspiradoras para um castelo do Drácula do que as do castelo de Bran!

E as perspetivas do castelo a partir dali também eram sugestivas!

Na entrada pode-se ver o enorme busto de Ludwig II, o louco que afinal trouxe tanta coisa à Baviera, entre arte e arquitetura e riqueza, embora houvesse tanto medo que ele levasse o pais à ruina quando o depuseram por insanidade e o mataram….

Pois… a fila para visitar o castelo estava para demorar mais de 2 horas, dizia a senhora da bilheteira… mas nem era preciso muitas explicações, bastava apreciar a feira de gente que se acumulava em filas infinitas junto dos torniquetes para entrar!

“Ao tempo que eu andava para visitar o Schloss Neuschwanstein! Hoje chego lá e tinha uma fila de 2 horas de espera! Valha-me Deus! A culpa toda foi das coisas lindas que fui explorando pelo caminho e que me fizeram chegar lá tão tarde! É que o Tirol sempre me “distrai” do meu caminho e não lamento nada o tempo que gastei a passear pelas suas montanhas deslumbrantes! Aquele castelo foi obra de um “louco”, Luís II da Baviera, e inspirou o castelo da Bela Adormecida da Disney. Claro que não o visitei, não iria esperar 2 horas para voltar para Innsbruck de noite com uma luz da moto fundida … vou ter de lá voltar com mais tempo um dia destes!”

Andei por ali a passear… claro que me sentia frustrada, deveria ter começado indo ali direta e no regresso ver o resto…

Claro que me vinguei e fiz uma pequena série de desenhos do exterior do castelo! “Já que não visito desenho!”

O “contraluz” dava um ar misterioso ao castelo e eu não conseguia para de brincar com isso!

E lá em baixo a planície inspiradora…

Decidi descer o monte a pé, dizem que para baixo todos os santos ajudam e depois poderia captar mais umas perspetivas da construção!

E por fim fui vê-lo lá de baixo. As vezes que eu parei a moto para o fotografar!

Atrás de mim ficava o Schloss Hohenschwangau ao longe.

E voltei para Innsbruck, por caminhos diferentes, regressando ao belo Tirol!

“O Tirol sempre me enche de espanto, com as suas montanhas extraordinárias e estradas serpenteantes e lagos quase artificialmente verdes!

Biberwier é um dos recantos encantadores daquelas montanhas, onde a gente pára um pouco para descansar o corpo e acaba por descansar também a vista e a mente, porque o mais insignificante recanto tem como paisagem a imagem do paraíso.”

Parei e fiquei ali, deslumbrada, com a máquina fotográfica na mão, consciente de que ela nunca captaria o que os meus olhos viam! Desenhei também, mas nada se aproxima do que senti!

E fui encontrar uma capela já minha conhecida!

As vezes que eu já passei por ela!

Desta vez parei a moto e fui vê-la de perto! É no mínimo original!

Tem um Cristo feiinho lá dentro mas está muita arranjadinha e é muito bonita!

Encostado a ela tem um banco corrido onde a gente se pode sentar e apreciar esta magnifica paisagem, com a minha Ninfa lá ao findo junto à estrada!

A forma da capela é mesmo curiosa!

E por trás tem um Santo António com o menino às costas! Ou será o São João?! São Francisco, não?

E fui para casa que naquele dia ainda seria em Innsbruk, mais propriamente me Gries, no meu hotelzinho tão mimi, onde me trataram como uma princesa, com direito a jantar caprichado e uma cervejola de litro (parecia pelo menos).

E foi o fim do 30º dia de viagem…

**** ****

29 de agosto de 2013

– Até Genève passando pelo Gottardpass! –

Mais um passo longo na minha viagem a caminho de casa! Naquele dia eu atravessaria a Suíça para ir até Genève…

Eu iria fazer estradas já tão conhecidas, algumas que já fizera no ano passado, mas mesmo assim sentia-me tão entusiasmada como se não passasse no país há tempos!

Já perdi a conta das vezes que visitei ou passei na Suíça, mas tento sempre fazer coisas diferentes, dedicar minha atenção a pormenores mais distantes e foi o que voltei a fazer este ano! E por isso, embora tenha dedicado boa parte da minha viagem do ano passado ao país, sentia-me impaciente por lá voltar…

Tracei o meu caminho no mapa e fiz-me à estrada!

Claro que tomei o caminho da montanha, embora por ali todos os caminhos sejam de montanha, mas antes ainda dei uma voltinha pela terra que me acolhera, aproveitando o sol para ter uma perspetiva diferente do que vira no dia anterior!

Com sol tudo consegue ser ainda mais encantador!

A igrejinha da aldeia parecia de brincar e até o pequeno cemitério ao lado parecia mais um jardim de bonecas…

As tabuletas a receber os motards estão por ali!

E seguindo a ruínha de montanha o deslumbramento começa logo a seguir, por paisagens que no dia anterior estavam meio encobertas pelas nuvens, mas que com sol eram um encanto!

Oh a vaquinha!

É sabido que eu stresso com vacas, sobretudo quando elas se põem a olhar para mim fixamente!

Mas perece que por ali é a terra das vacas! Estava em Silz, onde as pistas de ski estão por todos os lado e as vacas parecem ser rainhas!

Pelo menos elas estão por todos os lados também e em todas as cores!

Depois é a descida, com paisagens de cortar a respiração!

Os sinais que eu esperava começaram a aparecer no chão! Oh, aquele CH tornou-me impaciente!

Estava a entrar no Liechtenstein, o 4º país mais pequeno da Europa depois do Vaticano, do Mónaco e de San Marino! Cheguei à conclusão que, dos 10 países menores da Europa só me falta visitar Malta, Chipre e o Kososvo! E qualquer um deles está na minha mira faz tempo…

Entra-se no Liechtenstein como se fosse na Suíça e tem-se a sensação de que o país é o mesmo o tempo todo!

Eu já lá tinha estado, sempre na paz e sossego de um ambiente sereno, mas, desta vez, Vaduz estava cheio de turistas, de arranca-e-pára e de obras e sei lá mais o quê!

Ainda fui até perto do castelo, que ainda não visitei, mas estava tudo sob controle, com direito a estacionar a moto longe e caminhar para caramba para a visita. Não me apeteceu nada, por isso dei meia volta e pus-me a andar!

Deixei Vaduz para trás com toda a confusão e segui para Blazers, uma cidadezinha com um castelinho no topo de uma colina, porque o Liechtensterin não é só Vaduz!

„No sul de Liechtenstein fica a vila de Balzers, com o seu castelinho medieval do séc. XII empoleirado numa pequena colina que sobressai do longo vale que segue até Vaduz. O castelo de Gutenberg esteve em ruinas por muitos séculos até que foi restaurado no início do século passado e desde então permanece lindo e imponente, do alto do seu morro. O principado é muito pequeno, apenas com 160km², e habituamo-nos à ideia que se reduz apenas à sua capital, mas há outras vilazinhas e aldeias por ali, naquele que é um dos países mais ricos do mundo! Cada vez que atravesso o país fico com a sensação de que não sai da Suíça, ou que ainda estou na Áustria, de tão pequeno que é e tão parecido com os países que o rodeiam. Ainda não lhe descobri todos os recantos e encantos, que são alguns, dado que os Alpes estão por todos os lados e as paisagens são deslumbrantes em seu redor!“

Quem o vê ali em cima não imagina que está tão perto da rua e das casas, que o têm como paisagens privilegiada!

A igrejinha é logo ao lado, com uma torre sugestiva!

Estive por ali sentada. Há momentos em que dá uma nostalgia, quando páro e me apercebo que tudo estará a chegar ao fim em poucos dias e depois a vida será como sempre foi cada vez com menos margem de manobra. Então eu tento a todo o custo captar tudo o que me rodeia, desde paisagens até emoções e sensações, porque sei que elas ficarão por muito tempo alimentado o meu imaginário em dias mais nostálgicos!

e entrei na Suíça…

Há uma série de quilómetros que eu deixara de olhar para o meu pneu da frente… eu sabia que ele estava no fim e não queria, não podia pensar muito nele ou não conseguiria conduzir direito! Eu andava a poupa-lo há tempo demais, não o queria mudar num pais desconhecido e decidira que ele teria de chegar a Genève, onde há gente que eu conheço e trata bem as minhas motitas….

E parece que as estradas conspiravam contra mim! Obras e mais obras!

Fiz um amigo que me acompanhou por boa parte do percurso!

Aproveitei que andava pelos Alpes para gastar os pneus nas bordas, só faltou andar com a moto inclinada para não gastar mais no meio! 😀

Há tabuletas muito originais por ali! Dizia aquela que eu estava a passar pela Selva!

Voltei a passar pelo Oberalppass, que é aquele que fica sempre no caminho de quem vem da Áustria e atravessa o país! Acho que o faço quase todas as vezes que vou à Suíça!

Ele vai engrenar no Furkapass, ao fundo do vale, mas no meio há uma saida para um outro passo que eu não fazia há alguns anos….

o Gottardpass!

“ No ano passado, ao passear pela Suíça, não passei no Gotthardpass, mas falei nele como um dos Passos de montanha do meu coração e várias pessoas perguntaram porquê! Pois bem, porque é lindo, é antigo e o pavimento em paralelo! Não se corre por ali, desenha-se um bailado exigente, entre a condução equilibrada e segura e o movimento de rins! Ao lado está a nova estrada alcatroada, que permite fazer o caminho rapidamente e, sobretudo, permite ver toda a beleza do Passo. Passear por ali é sempre um prazer!”

E lá estava ele, lindo, serpenteante e a pedir para ser trilhado!

O GPS mostrava o seu desenho e era muito criativo!

Parei no topo com a mesma sensação de sempre, de que a rua andava por todo o lado! Aos anos que eu não passava ai!

Lá em cima fica a estrada nova, com vista panorâmica para o velho passo!

E comecei a descida. A meio estava uma série de motas paradas com os respetivos tripulantes em magotes por perto. Bateram-me palmas quando passei!

A dada altura olha-se para cima e a estrada desaparece em muros que são quase varandas, por ali acima!

Sim, andei ali para cima e para baixo porque da primeira descida parei tantas vezes para fotografar que voltei para fazer a coisa bem feita depois!

Quando me perguntam qual a diferença entre fazer um daqueles passos de montanha e fazer as nossas estradas cheias de curvas também… para além da quantidade de curvas alucinantes alinhadas num passo daqueles, uma das grandes diferenças é o deslumbramento da paisagem dos Alpes que é sempre exuberante!

Então voltei para trás pela estrada nova para poder apreciar o passo em toda a sua dimensão e encanto!

É sem dúvida um dos passos mais bonitos que conheço!

O topo do passo tem, como sempre, um ponto de acolhimento, o Hospice do Gotthard e o National St. Gotthard Museum

Mas eu já não visitaria mais nada, agora a minha pressa era chegar a Genève e a minha aflição… era conseguir chegar mesmo sem nenhum percalço no pneu….

E eu ainda tinha de fazer muita montanha, por isso fui aproveitando para queimar pneu nos lados!

Do Furkapass via-se o Grimselpass… como ele estava diferente este ano!

Ali ao lado a nascente do Ródano… que eu tenho de visitar numa próxima oportunidade!

E a famosa curva suspensa que carateriza o Furkapass!

A gente vai andando e vendo o que deixou para trás, estradas que sobem montanhas são visíveis de muito longe!

O Grimselpass visto cá de baixo, mais uma filinha de muros que encobre uma estrada muito interessante de fazer!

Nesta altura eu já não queria saber de mais nada senão chegar a casa…. Queria parar a moto e so voltar a pegar-lhe quando tivesse pneu novo!

E assim foi… cheguei em paz a casa, que naquele dia era em Genève!

E foi o fim do 31º dia de viagem

**** ****

– Genève, memórias do meu passado! –

30 de agosto de 2013

• Aviso: este relato é de interesse particular e pessoal… provavelmente nada de especial dirá a quem o ler, porque o escrevi para mim e apenas tornei público para seguir a sequência da viagem… em termos turísticos vale o que vale… Espero que não achem de todo aborrecido! 😀

*** ***

Decidi voltar a Genève com o espírito da comemoração!

Eu que não sou nada de datas, de comemorações especiais, de “hoje estou triste ou contente por que é o dia tal” decidi visitar Genève com o espirito de “faz agora 20 anos!”

Genève será sempre aquele recanto da minha vida que ditou o ponto de viragem, o ponto em que eu pude ser eu à minha maneira, sem ninguém para cuidar ou para agradar, apenas eu e os meus sonhos e descobertas!

Em 1992 eu concorrera com um projeto de trabalho, de continuidade da minha obra, e em 1993 ganhava uma bolsa de estudos artísticos para um ano na Escola Superior de Belas Artes de Genève, hoje chamada “Haute école d’art et de design – Genève”. Não conhecia ninguém, nem na cidade nem no país, a bem dizer nem sabia muito bem onde ficava Genève! Embora eu tivesse concorrido para uma bolsa de estudos na Suíça, pensei que Genève seria uma outra forma de dizer Génova! Quanta ignorância!

Na época meti os meus livros mais importantes, os meus pinceis, as minha toneladas de latas de tinta em grandes sacos de viagem, tudo misturado com roupas, cadernos, toneladas de lápis e bonecos de peluche, e fui embora, com uma carga de mais de 50kg e uma carta de uma pessoa importante da TAP, para me deixarem viajar com todo aquele peso, sem pagar excesso de carga.

A coisa correu bem, a bolsa acabou por ser renovada e eu fiquei por lá de 1993 até 1995, estudando, pintando, escrevendo e desenhando como nunca fizera antes, pois era a primeira vez em muitos anos que eu recebia dinheiro para estudar, sem ter de ter um emprego, como acontecera por cá, durante os meus estudos…

E também foi a primeira vez na minha vida que fui tratada como artista plástica e não como aluna de pintura! Que sensação e quanta responsabilidade!

E eu dediquei este dia a percorrer alguns dos meus caminhos mais queridos na cidade!

***

Comecei o dia observando finalmente o pneu da frente da minha motita…

Mal olhei para ele percebi que não olhar para ele antes foi a melhor coisa que podia ter feito, porque ele estava completamente liso e se eu tivesse constatado isso no dia anterior não teria conseguido conduzir decentemente até ali!

Bora lá visitar os meus amigos a ver se têm um sapatinho novo para a minha bonequinha!

Fui recebida com um “Olha, estou a conhecer esta moto! Quantos quilómetros já tem?”

“Olhe que não conhece!” – exclamei eu deixando o homem confuso.

“Claro que conheço a moto, já esteve aqui varias vezes com ela!” – é claro que ele lembrava-se da outra moto, a Magnífica, que foi ali varias vezes para ver pressão dos pneus e tal.

“Olhe que não foi esta! Esta é nova!”

Ficou muito surpreendido por eu ter comprado uma moto igualzinha à anterior, ficou encantado por saber que a Magnifica chegou à bonita quilometragem de 261.000km na minha mão e que continua vivendo feliz e mais tranquila na mão de outra pessoa e pediu-me meia hora para trocar o sapatinho da motita, não sem antes me dizer com ar de espanto “Diz que é nova e tem 36.000km?? Comprou usada?”

“Não, eu é que já fiz esses quilómetros todos com ela.”.

E fui passear para um recanto da cidade que fica logo ali, no ponto em que o Lago Leman se converte de novo no rio Rhone, em percursos de terra batida por entre árvores, como se estivéssemos longe da cidade, que está ali à porta.

Aquele rio sempre me fascinou, com todo o lago a descarregar nele, um lago imenso com mais de 500km² de área e diversas cidades e aldeias em seu redor e a água chega ali límpida e transparente, como se saísse da torneira naquele momento! É espantoso!

Ali ao lado há uns muros onde é permitido fazer grafitis e, no meu tempo, cheguei a fazer uns quantos a solo e com amigos! Fazer grandes pinturas sempre me apaixonou, ainda hoje não perco uma oportunidade de fazer um mural!

Como na época, hoje continua a haver por ali uma série de grafitis!

A montante fica a cidade e o lago…

E ao longe, pelo meio das casas pode-se ver o grande jato de água. Acho que ele é visível de quase todos os pontos da cidade!

E a meia hora passou, a moto devia estar pronta que aqueles homens não brincam em serviço!

E estava! Foi só pô-la na rua enquanto eu pagava e pronto!

Dá-se uma voltinha, atravessa-se a ponte e lá está o lago limpinho e transparente que até confunde!

E o jato de água!

Há números extraordinários ligados àquele jato: por aquele furinho são projetados 500 litros de água por segundo a uma velocidade de 200 km/h que a elevam a uma altitude de 140 metros, o que faz com que cheguem a estar no ar cerca de 7.000 litros para formar aquele imensa torre de água!

Quando a gente passa perto dele, se o vento mudar de direção, corremos o risco de apanhar um grande banho! Naquele dia estava pouco vento, por isso a água caia quase sobre si própria e a gente molhava-se um bocado ao passar para o outro lado, a ponta do cais! Claro que meti a máquina debaixo da blusa e passei! Eheheh

Passei muitas tardes ali sentada nos degraus do cais a estudar, a escrever e a desenhar, com aquela paisagem inspiradora como companhia…

Depois fui até Place Neuve, é ali que fica a Ópera de Genève e o Jardin des Bastions, onde fica a Universidade… onde fica tudo o que eu associo aos meus estudos e tempos de trabalho intelectual

Não era só eu que ia para ali “dar cabo da cabeça”, há sempre gente a jogar xadrez ou damas por ali e dão cabo da cabeça também!

Mas o sítio onde eu dava cabo da cabeça não era propriamente nos jogos à entrada do parque! Era mais à frente, onde me estendia no relvado e lia e escrevia por horas a fio! Pois é, quem diria que um pintor tem de ler e saber tanta coisa tão variada, como fazer uma tese sobre “Le sign et le signal visuel”?

Estamos no Jardin des Bastions, chama-se assim por ficar aos pés da muralha antiga da cidade. O jardim é lindíssimo e dá acesso ao edifício da universidade, a Uni Bastions, por isso os relvados, em tempo de primavera, estão frequentemente repletos de estudantes sentados a estudar… eu também ia para ali preparar-me para as apresentações dos meus temas em estudo….

No meio do parque, encostado à estrada que sobre na direção da zona alta da cidade, fica o muro dos reformadores, com as estátuas enormes dos 4 grandes fundadores do movimento da reforma protestante.

William Farel, João Calvino, Theodore Beza e John Knox. Os 3 primeiros diretamente ligados a Genève e sua universidade de e o ultimo ao protestantismo na Escócia.

Todo o muro está cheio de referências históricas e personagens ligadas à reforma.

No chão estão os brasões das partes envolvidas mas, pessoalmente sempre adorei o de Genève, com o seu galo e a chave! Lindo!

E mesmo em frente, lá está a universidade…

Um edifício extraordinário com 450 anos, onde eu passei alguns momentos memoráveis…

neste auditório!

A perspetiva desde o “púlpito” onde a gente fala é de respeito, sobretudo se imaginarmos todas aquelas cadeiras repletas de gente preparada para nos ouvir e pôr questões…

É uma sensação pisar o mesmo chão onde Calvino pisou, falar onde ele falou!

Quase em frente fica a Uni Dufour, um edifício em betão armado inspirado em Le Corbusier. Ali fica a parte administrativa e era lá que eu, e todos os bolseiros da Confederação, eramos recebidos e tratávamos de todos os assuntos relacionados com a nossa estadia, remuneração e pequenas coisas que surgissem. Era dali que partiam todas as iniciativas para nos levar a conhecer o país, convívios e outras ofertas dirigidas a nós!

Decidi pousar a moto e apanhar o autocarro ou o “tram” (metro, será?). Na pousada de Juventude dão-nos um passe para podermos usar todos os transportes públicos da cidade e eu quis dar uso au meu e fazer algumas linhas que eu usava quando lá vivi.

Ao contrario de cá, nada mudou! Os autocarros têm os mesmos números, fazem os mesmos trajetos e continuam a chegar exatamente à hora prevista!

A Rue de la Confederation fica logo a seguir e, quando passa a ser a Rue du Marché, lá estavam uns fulanos a desenhar no chão! Não resisti e desci ali mesmo!

Um dia saí para a rua com um grupo de alunos para pintarmos na rua e fomos precisamente para ali, com um grande rolo de papel cartonado e montes de caixas de pastel seco e fizemos uma coisa daquelas. Cada um tinha uma imagem de uma obra famosa que iria inserir numa imagem maior, ao vivo para a população ver.

A finalidade não era ganhar dinheiro, era apenas sentir a experiencia de pintar ao vivo e em conjunto. De repente as pessoas começaram a atirar moedas para cima do desenho! Aquilo era giro mas era uma chatice andar a catar moedas nas zonas onde o desenho já estava pronto pois o pastel não tinha fixador e estragavam-se pormenores ao tocar. Então eu tirei o chapéu, (sim, eu lá andava sempre de chapéu também) e pousei-o no chão, fora da zona do desenho e, espanto, as pessoas encheram-no de dinheiro por mais que uma vez! Tive de o esvaziar várias vezes! Acabamos por ir todos confraternizar com o lucro da obra e comemos bem pois, no final, o dinheiro era mesmo bastante!

Voltei a apanhar o autocarro… eu tinha de ir às Belas Artes, essa sim, a minha escola!

Aquele edifício é espantoso!

L’École des beaux-arts de Genève foi fundada em 1748, quando lá estive era chamada de École superieur d’art et design- ESAD e a partir de 2007 passou a ser a Haute école d’art et design – HEAD.

Entrei pela parte de trás… aquela escadaria sempre me fascinou!

Oh, entrar ali depois de tanto tempo teve o seu efeito…

Grandes portas de espelho, fascinaram-me! Quem teve a ideia é genial, pois a sensação que provoca é muito curiosa!

A escadaria… quantas vezes as subi carregada de tralhas, que o meu atelier era no 3º andar!

E lá estava o meu atelier… meu e de muita gente, claro!

Eu era assim na época, aqui junto com os meus meninos em dia de avaliações, uma foto que foi tirada para memória futura…

A tradição mantem-se, no final de cada semestre todos os ateliers são esvaziados do seu conteúdo, o chão limpo e as paredes pintadas de branco, para que sejam feitos os júris de avaliação.

Faz-se uma escala de todos os ateliers, de forma que cada aluno fique com uma sala para si, onde vai expor o seu trabalho para ser avaliado publicamente por um júri de 5 especialistas e toda a população que queria assistir!

Por isso o atelier estava tão limpinho e vazio naquele dia! Era agosto e os júris tinham sido no fim do ano letivo!

O mundo lá fora, olhando pela janela!

Oh aquelas portas de espelho! Lindas!

No andar de cima fica a maior parte dos ateliers, por isso os corredores estavam mais cheios das tralhas que tinham sido retiradas das salas!

Eu sentia que estava a ficar mais emocional… há coisas que tocam tão profundamente, não porque são particularmente belas, mas porque são particularmente amadas… eu podia ter ficado ali toda a minha vida… se não tivesse feito as escolhas menos acertadas…

Saí dali e fui caminhando pela redondeza. No meu caminho ficava a Igreja Russa.

Lembro-me que passava ali a cada passo, desenhei-a por diversas vezes…

Na outra ponta do quarteirão das belas Artes fica o Museu de Arte e História, com uma escultura do Henry Moore mesmo em frente!

Lembro-me que a primeira vez que a vi ali, fiquei escandalizada! Como podia uma escultura de Henry Moore estar ali “à mão” de qualquer um, onde as crianças brincam e sobem sobre ela? E ela lá continua..

em frente do imponente museu!

Dali também se vê o jato de água, lá em baixo no lago!

E a cidade velha fica logo ali

onde fica a catedral onde Calvino palestrou!

E de tantas catedrais que visitei pela minha vida fora, nunca referi uma das que mais profundamente ficou na minha memória: a Cathédrale Saint-Pierre de Genève ! Um edifício ligado à fundação da cidade, que vem do séc. IV, cheio de história até se tornar protestante no séc. XVI. Guilherme Farel pregou ali a reforma e a catedral foi despojada de tudo o que foi considerado supérfluo…

Hoje é também um edifício cívico onde tomam posse os corpos do governo cantonal.

Continua linda, lisa e limpa, com foi deixada depois de esvaziada…

É umas das catedrais que mais visitei, acho que mais do que a nossa Sé do Porto! Porque ía ali muitas vezes, passava ali algum tempo, desenhava, passeava, subia à torre, via Genève lá de cima e seguia para a escola….

Eu não sou uma pessoa religiosa mas sempre apreciei o ambiente gerado por uma catedral, sobretudo se for medieval, românica ou gótica! Eles sabiam como provocar sensações nas pessoas!

Ao fundo existe uma capela extraordinariamente bela, chamam-lhe “la chapelle des Macchabées” , porque dizem que os restos mortais dos Irmãos Macabeus estão lá. O estilo gótico num recanto de beleza que já foi usado como escola no tempo da reforma, que deixou por lá vestígios. Hoje está ali, recuperada e belíssima, onde apetece passar um bom momento de paz!

Na frente fica o largo que permite apreciar toda a imponência do edifício com a sua fachada neoclássica! Na realidade a catedral junta 3 estilos: românico, gótico e neoclássico!

Mais um passeiozinho e passei na Mairie, ou Hôtel-de-Ville, ou camara municipal da cidade. Sempre gostei muito daquele edifício, com origem no séc. XV e desenvolvido ao longo do século seguinte. Ali foi assinada a convenção de Genebra, que tem a ver com os direito humanitários em tempo de guerra!

Mas a torre em rampa é que sempre me fascinou! Aquela rampa foi construída no séc. XVI e permite chegar lá acima sem subir um único degrau!

O edifício é lindo, histórico e imponente!

Como não podia deixar de ser… passei na minha “casa”…

Não tive coragem de entrar, nem de pedir para subir até ao quarto 12.12, lá no 12º andar, de onde eu podia ver a planície até à fronteira de França, com o Mont Salève ao fundo…

Um dia eu vou faze-lo! Vou marcar uma ou duas dormidas na Cité Universitaire, para poder viver a sensação de estar ali!

Na época eu tinha uma motoreta pequenita de dar aos pedais, cá está ela estacionada em frente à Citè. É a do lado direito, tão fofinha com o capacete pendurado no guiador… (foto digitalizada)

Dei a volta ao edifício e a minha janela fica tão lá em cima! Afinal é um 12º andar, com vista panorâmica! Lá está ela na ponta da fecha…

O edifício é antigo mas muito bem conservado e situado! A cite é composta por 3 edifícios que albergam 600 estudantes de 70 nacionalidades diferentes! É uma verdadeira cidade, com direito a sala de cinema, restaurante, discoteca, lavandaria, supermercado e sei lá mais o quê!

Então subi ao Salève… aquele monte fantástico que eu via da minha janela e que visitei por diversas vezes subindo o teleférico. De moto, há muito tempo que não subia…

“Ao tempo que eu não subia ao Salève… chamam-lhe o Balcão de Genève, porque fica mesmo a seu lado, elevando-se a mais de 1.000 m de altitude, com uma perspetiva deslumbrante sobre a cidade. Eu via-o da janela do meu quarto, quando vivia na Citè Universitaire, e ele maravilhava-me a cada amanhecer, com o rio Arve a serpentear entre mim e ele, vindo dos Alpes. Quantas vezes por ali passeei, com neve e nevoa que tornava a perspetiva da cidade misteriosa e fantástica, quantas vezes eu senti que iria recordar aqueles momentos com nostalgia e uma vontade incontrolável de voltar para trás no tempo e reviver tudo de novo… e desta vez, 20 anos depois, revivi mesmo…”

Eu nunca me cansaria de olhar aquela cidade…

**** ****

– Annecy e o seu encantador lago…

Estava no Salève e decidi continuar o meu caminho rumo a uma cidade de encanto que eu visitei vezes sem conta, tanto quando estava em Genève, como a cada vez que passei por aqueles lados!

Segui pelo monte abaixo pelo lado oposto ao que subira, por ruas muito bonitas e deliciosas para fazer de moto,

por entre aldeias e pastos verdes com vaquinhas a pastar e tudo!

Sim, deixei a motita e fui ver as vacas! Eu só tenho medo delas quando estou em cima da moto! Quando estou no chão não tenho qualquer medo! eheheheh

E cheguei à ponte de la Caille… oh aquela ponte! Eu já passei ali com 5 das minhas 6 motos, este foi o momento em que a Ninfa lá passou!

Aquela ponte é pênsil e tem quase dois séculos. O seu piso é em ripas de madeira com pequenos espaços, o que faz com que quem tem vertigens não a consiga atravessar, pois fica suspensa sobre um abismo de 147 metros de profundidade!

As saudades que eu tenho de ver aquilo tudo cheio de neve…

Um dia terei de apanhar um avião qualquer, durante o inverno, e ir ver…

A seguir aparece o lindíssimo lago…

O Lago de Annecy é um dos amores que ficou até hoje no meu coração, juntamente com o Lago Leman! Tão lindo e misterioso, tão inesperado e surpreendente, como a cidade que lhe dá o nome!

Mas antes de ir visitar a cidade fui molhar os pés mas águas limpíssimas e apreciar os encantos da paisagem por caminhos bem inspiradores!

Rodeado de montanhas e paisagens deslumbrantes nunca se esgota em visita alguma, como se os seus encantos fossem infinitos!

Aquele lago e aquela paisagem sempre me transmitiram serenidade! É considerado um dos lagos mais bonitos do mundo e não é por acaso!

Depois do Lago Leman, é o lago que eu mais visito, sempre que posso, sempre que passo, porque a complementar a sua beleza, a cidadezinha é encantadora!

Há por ali diversos passos de montanha deslumbrantes, de onde ele é visível em toda a sua dimensão, mas neste momento apenas mostro o seu encanto próximo de mim, quando parei e molhei os pés nas suas águas!

É nestes momentos que eu tenho a certeza de que o paraíso existe…

A próxima vez que for ali tenho de ver aquilo tudo de cima, num voo em asa-delta ou parapente que será seguramente o deslumbramento total!

E estava na hora de descer até à cidade… descer de um paraíso natural para um paraíso urbano! Sim, é possível!

Até as estradas mais “banais” por ali são encantadoras!

E lá estava Annecy, a Veneza francesa, ou Veneza dos Alpes, com a sua arquitetura medieval e os seus límpidos e encantadores canais!

Annecy já pertenceu ao condado de Genève e encaixa totalmente no ambiente do país vizinho!

As perspetivas dos canais são sempre encantadoras em todos os momentos do ano!

Lembro-me de fazer os trinta e muitos quilómetros de Genève até lá, na minha motoreta, para passar ali o dia, naquele ambiente de beleza quase artificial!

Ora se eu fazia tal distância numa motoreta que não andava nada, como não poderia lá ir com motos tão grandes e potentes como as que vou tendo hoje?!

O “meu” restaurante fica ali, no lado direito, com o tolde vermelho…

Lá estava ele! É ali que eu janto de há uns anos para cá, a cada vez que visito a cidade!

É lindo por dentro!

Mas foi na esplanada que eu comi desta vez!

Claro que escolhi mexilhões! Eu lá podia passar por França sem comer dos seus deliciosos mexilhões?

Fim da visita, bora lá buscar a motita e voltar para casa… que naquela noite ainda seria em Genève…

O jato de água é lindíssimo de noite, com a iluminação a dar-lhe um toque sobrenatural de brancos translúcidos…

E fui até ao meu parque, o parque Lord Byron, onde eu passei tantos dos meus dias e dos meus serões em tempos… e de onde a cidade cintila ao longe!

Um cruzeiro apareceu na água negra e trouxe-me memórias antigas…
Na véspera da minha partida, o meu regresso a casa depois dos meus estudos acabarem, o departamento dos bolseiros organizou um jantar para a despedida. Esse jantar foi a bordo de um dos grandes cruzeiros no lago e, quando o barco passava perto do jato de água, já no regresso, era hora do jato ser desligado e, à medida que o barco passava, o véu branco da água foi recolhendo por muito tempo, cintilando na luz branca de forma verdadeiramente deslumbrante!

Essa foi a minha imagem da despedida que ficou até hoje…

E foi o fim do 32º dia de viagem…

**** ****

31 de agosto de 2013

– Andorra, a penúltima etapa… –

Logo pela manhã fiz bosta ao limpar as viseiras do capacete pela “enésima” vez!

O Schuberth c3 é um ótimo capacete e tal, mas tem fragilidades que me surpreendem, como aquela viseira interior que é tão flexível que me pareceu sempre que poderia partir a qualquer momento com a pressão ao ser limpa! E é verdade! Apesar de todo o cuidado com que sempre o faço… ela partiu mesmo no encaixe! Bolas, teria de procurar uma nova em Andorra!

Como em tantas outras viagens, desde a primeira vez que estive em Genève, chegou a hora de ir embora! De novo a cidade teve o ar de despedida e eu nem sabia mais do que me despedir pela última vez, desta vez!

De novo eu quis ficar e não voltar mais para casa, de novo tive a vontade de ir a todo o lado rever tudo pela última vez como da primeira vez….

E como em outras viagens, acabei por ir até ao “meu” parque… queria ver aquilo tudo de novo a partir de lá, depois da perspetiva noturna do dia anterior! Da próxima vez terei de ir ali captar um pôr-do-sol extraordinário como já captei tantos, por agora fiquei com a imagem da cidade ao sol da manhã…

Aquilo é lindo visto dali…

Há sempre uma imagem dali que me fica na memória, é inevitável!

Depois desce-se até ao lago e… hora de partir!

Oh aquele lago sempre me encanta!

E parti…

Apanhei a autoestrada, já que é para ir embora façamo-lo depressa…

Ao passar a portagem cruzei com 3 motos suíças, uma delas era uma Goldwing com sidecar e, para meu espanto, transportava algo com grandes rodas sobre ele!

Uma bicicleta?

Curioso, um casal a passear de moto com uma bicicleta amarrada ao sidecar! Atrasei a marcha para os deixar passar e apreciar o conjunto!

Então quando eles me passaram, espanto! Não era uma bicicleta, era uma cadeira de rodas mesmo!

De repente tudo fazia sentido! Nada nos impede de realizar o que sonhamos, desde que sejamos inteligentes! A Goldwing tem até marcha atrás, por isso não é preciso usar os pés para move-la, o sidecar não deixa a moto cair para o lado, e a pendura facilmente liberta a cadeira de rodas para que o condutor possa subir para ela!

Simplesmente não conseguia seguir o meu caminho e fui por muito tempo junto deles a apreciar aquela maravilha de gente!

Uma viagem por autoestrada nunca tem muito o que contar, até se sair dela e se começar a ver coisas bonitas, que é o caso dos Pirenéus!

E Andorra logo a seguir!

E começou a minha epopeia na procura de uma viseira interior para o meu capacete!

Acabei por visitar todas as casas de material para motos em Pas de la Casa, onde parece que toda a gente me conhece já! A verdade é que vou ali tanta vez que até a minha moto já é conhecida e dá sempre nas vistas!

Não havia viseiras para o meu capacete em lado nenhum, toca a subir o monte para ir para Andorra-la-Vella…

Ui, a quantidade de fotos que eu já tirei junto àquela tabuleta, acho que a cada vez que lá passo faço uma nova foto!

Não sei porquê, mas frequentemente sinto que fazer aquela estrada é como se já estivesse a passear em casa…

Parecia Natal em Andorra! Naquele restaurante parece sempre, nunca tiram as luzinhas!

A motita dormiu num parque onde uma Africa Twin ocupava mais espaço que uma Pan e uma FJR juntas! Ainda dizem que as mulheres não sabem estacionar! No que diz respeito a motos acho que poucos homens sabem estacionar a sua moto sem ocuparem todo o espaço possível!

Fiquei hospedada num hostel onde as pessoas eram muito simpáticas e comunicativas, quiseram saber muita coisa sobre mim e a minha viagem e eu aproveitei para saber informações precisas sobre Andorra e explorações que pretendo fazer por ali.

E foi o fim do 33º dia de viagem…

**** ****

1 de setembro de 2013

– Fim de uma bela história… regresso a casa… –

Andorra-la-Vella não é a cidade mais bonita que conheço, é mais aquela espécie de supermercado onde se aproveita para comprar umas coisitas, como o meu perfume, ou um radio para o carro do moçoilo. Dá-se umas voltitas por ali e está tudo visto… ou será que tenho essa sensação porque passo lá vezes sem conta, ano após anos de há muitos anos para cá?

De qualquer maneira as pessoas são simpáticas e até se torna agradável andar por ali a ver montras… de material motard! Pois, estava na hora de continuar à procura de uma viseira para o meu capacete!

A dada altura eu já nem tirava o capacete, simplesmente pousava a moto à porta da loja, entrava um pouco e perguntava “tem uma viseira interior para este capacete?” e apontava para a cabeça “Ah, não! Vá à loja XX»” e eu seguia para a tal loja!

E ía-me divertindo um pouco por aqui e por ali!

É inacreditável como um capacete tão bom, de uma marca tão importante, não tem em nenhum dos seus representantes uma porcaria de uma viseira para vender! É mais fácil comprar um capacete novo que uma viseira para o que tenho? Pois, parece que o que importa é vender, agora cuidar do que se vende, nem por isso!

Acabei por fazer amizade com gente boa, uns portugueses outros espanhóis, mas todos muito simpáticos e curiosos sobre a minha moto, os seus autocolantes e os sítios onde fui com ela!

E vim embora com a viseira colada com fita-cola e até hoje ainda ninguém me arranjou a porcaria da coisa! Está encomendada à Schuberth desde setembro e… nada ainda!

A viagem acabaria logo a seguir! É sempre a sensação que tenho quando passo os Pirenéus para o lado de Espanha, por isso não me interessaria ir a mais lado nenhum…

Uma coisa que eu aprendi recentemente, numa das últimas viagens que fiz, foi que não adianta alongar por Espanha o que terminou em França ou Andorra, porque o sentimento já é de saudade da viagem e tudo parece ter o sabor da despedida! Então, sendo assim, o melhor é atravessar o país e vir para casa! Saudade por saudade, mato as saudades da viagem com o regresso a casa para junto do meu moçoilo…

Entretanto, depois de combinações descombinadas eu, que deveria passar em Pedrola, na terra do Rui Vieira, para dizer um olá, recebo a mensagem de que o homem afinal combinara tudo mal e não estaria por lá!

Mas eu fui na mesma! Ora aí está uma boa maneira de não fazer sempre os mesmos caminhos e dar uma volta pela terrinha do rapaz!

É um pueblo pequeno e simpático com um canal “à porta”, onde a gente dá uma volta, ficam algumas pessoas a olhar, a gente segue caminho e tudo volta ao normal!

E segui para casa… há uma nostalgia em cada regresso e a Espanha potencia esse sentimento com as suas planícies de perder de vista…

Voltei a passar em Peñafiel, cujo castelo ainda não visitei mas está agendado para uma próxima passagem…

Mas tirei a dúvida: sim, é geminada com a nossa cidade de Penafiel, onde vivo, como eu imaginava! Está ali o brasão cá da terra estampado na placa! Adorei!

Ao longe começou a aparecer uma coluna de fumo muito intensa! Puxa, que grande incendio por ali haveria!

Foi quando entendi que as coisas que me diziam eram mesmo verdade: o país estava a arder!

Depois de mais de 17 mil quilómetros, em que apanhara temperaturas proibitivas, países pobres e com as matas cheias de lenha apetitosa para arder à toa, eu apenas vira os vestígios de um pequeno incendio na Bósnia! 20 países sem fogos nem vestígios de terra queimada!

E o meu país? Estava a arder!

Entrei por Chaves e, de lá até Penafiel vi 8 colunas de fumo, sem esquecer que para sul de Penafiel tudo era fumo, por isso os fogos continuavam às dezenas por aí abaixo. O ar cheirava a queimado, o céu era meio negro, meio castanho…

…e cheguei a casa!

Com direito a receção, com fotógrafo de serviço a registar a minha entrada…

… com a cara toda queimada, o nariz vermelho, depois de ter largado já a pele, mas muita satisfação pelo caminho percorrido na maior paz!

E foi o fim do último dia de viagem!

Cheguei a casa depois de:

34 dias
17.500 km
20 países
8.000 fotos
885 litros de gasolina
1.050.53 € em gasolina
649 € em dormidas
41 € em portagens
E resto foi mais em bebida do que em comida…

Despesa total: 2.215.48 €

O que me faltou?
Um pouco mais de tempo para explorar tanta beleza que tive de deixar para trás!

O que sobrou?
Encanto, beleza, surpresa e simpático acolhimento em todo o lado!

O que valeu a pena?
Seguramente que valeu a pena ignorar, mais do que nunca, todos os medos, e avisos, e temores, de uns e de outros, e ir onde queria ir!

O que teria dispensado?
Tanto calor, por tanto tempo, quase até ao esgotamento físico, porque a moral, nada a esgotaria!

O que me apetece dizer ainda?
Esta foi uma das viagens mais extraordinárias que fiz, por isso vai ter continuação!

O mapa das voltas que dei nesta viagem aparecerá mais tarde, pois está uma trapalhada que tenho de rever!

Adeus e até ao meu próximo regresso à estrada!

F I M

2 thoughts on “2013 – Passeando pelos Balcãs – Rumo à Roménia

  1. Como tenho inveja (da boa) não imagina como gosto de lêr as suas crónicas de viagem porque me dá também ideias.
    Obrigado pelos momentos de lazer que vou tendo enquanto trabalho.

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