1 . Passeando pelos Balcãs – Rumo à Roménia

Cucu!

Há coisas inevitáveis, não adianta lutar contra elas!

A gente junta dinheiro, ele é pouco, pensa em não ir a lado nenhum, em ficar e poupar… mas a realidade é que se eu não for, ele acaba por se ir! Porque estou insatisfeita, porque estou irrequieta, e vou andar para um lado e para o outro, e porque estou de férias, que se lixe, até vou almoçar aqui ou ali, e dou mais uma voltinha… e no fim não fui a lado nenhum para poupar e nada poupei…

Vivo rodeada de gente que não pode mais ir mas viajou antes, de gente que nunca foi a lado nenhum e não poderá mais ir, de gente que esperava melhores dias para fazer coisas… e vieram dias piores…

Vou partir de novo sim, poderá ser a última ver que viajo por muito tempo, por isso eu vou!

A MotoTrofa apoia esta viagem e os seus autocolantes ficaram muito bem, a motita está pronta e linda!

A pouco mais de uma semana de partir deixo aqui o mapa “liso” do que pretendo fazer!

Foi feito apenas com os pontos de dormida por isso não está ainda “floreado” com as voltinhas que pretendo dar, mas já dá para ver por onde vou andar!

Espero ir dando noticias!

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Cucu!

Cheguei em paz, depois de mais de 17.000 km de estrada e de prazer!

Muitas foram as vozes que se levantaram para me avisar, prevenir ou desencorajar de ir até à Roménia… mas muitas mais foram aquelas que me desejaram boa viagem e torceram por mim e me acompanharam virtualmente! A estes eu quero agradecer, aos outros quero dizer… se não conseguem ajudar não tentem prejudicar!

Há muito que o medo dos outros deixou de me enfraquecer e eu irei onde quero ir ainda que pareça que vou morrer por lá! E se um dia isso acontecer, paciência, terei sido feliz até ali e isso é que conta!

Todos os anos há algo de problemático para resolver e algo de doloroso para me acompanhar!
Este ano não foi exceção, o “problemático” foi com a máquina fotográfica que partiu uma peça e a assistência do seguro não foi célere o suficiente, por isso tive de comprar outra!

O “doloroso” foi com o meu polegar direito que está a precisar de ajuda cirúrgica com algo como uma Tenossinovite Estenosante, que durante a viagem parecia ir espalhar-se um pouco por todos os dedos da mão! Mas não houve problema, dói mas não me impede de conduzir, por isso tudo bem!

Assim aproveitei e comprei uma máquina fotográfica maior, para me permitir pega-la com a mão toda e não com a ponta dos dedos, já que o polegar não tem força nem agilidade! E tudo correu bem a partir daí, foi só andar e fotografar!

Como em todas as viagens que fiz até hoje, 3 ou 4 coisas direcionaram a minha atenção e me fizeram ir naquela direção, apenas 1 não realizei, por isso seguramente que voltarei!

Passei em 20 países, alguns (3) bem pequeninos, mas todos encantadores, cheios de gente boa, de paisagens deslumbrantes, de costumes curiosos e religiões diferentes. Cada país tem o seu encanto e sua simpatia e, quem viaja, não pode julgar um povo por uma experiência, mas tenho de concordar que ser-se bem recebido por alguém num país faz com que a disposição de lá voltar se afirme! Assim aconteceu com a Bósnia, onde parece que todos os polícias (e foram alguns) me mandavam parar, só para confirmar que eu era uma senhora e saber de onde vinha! Ou em Montenegro quando um jovem policia insistiu tanto para trocar a sua pequena scooter pela minha Ninfa… ou na Albânia que, não tendo dinheiro deles para comprar agua ia pedir para “negociar em euros” e uma senhora veio do bar, direta a mim, com uma garrafa de agua gelada, para me oferecer!

A Roménia foi aquele encanto esperado! Não podemos medir um povo pelos ciganos que tem, temos de o apreciar pela gente comum, pelas cidades e aldeias, limpas e bonitas, pela forma como nos recebem e falam para nós, o esforço que fazem para se fazerem entender!

20 países de prazer e descoberta, mas também de observação e meditação, para poder entender se posso e devo voltar! E sim, ficou marcada na minha mente uma viagem pelos novos países “descobertos”!

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Como todos os anos a viagem foi antecedida pelo já tradicional ritual do partir do porco! Eu sabia que ele não estaria muito gordo, mas todo o dinheiro é bem-vindo!

Tinha ainda menos do que eu esperava… 610€…

Mas tudo bem, de qualquer forma eu nunca programo uma viagem contando com o dinheiro do porquinho! Planeio-a com o dinheiro que vou guardando mês após mês na minha conta e o porquinho apenas vai levando uma notinha de vez em quando e será para extras e ajuda na gasolina!

Este ano tive a sorte de ter o apoio da Mototrofa, que foi de grande ajuda e acabou por compensar o que não consegui juntar já que a moto ficou muito menos dispendiosa! Claro que toda a ajuda merece os seus autocolantes!

E ficou pronta e ficou linda!
Gosto da minha moto que tem corpo para se encher de autocolantes!

E pronto, fiz o saco e estava pronta para sair no dia seguinte!
Sim, o meu saco é aquela mochilinha, não se riam mas ali dentro cabe tudo o que preciso para vestir e cuidar de mim durante um mês e ainda por cima o pequeno portátil e os carregadores também!

O meu moçoilo ainda não estava familiarizado com a máquina nova e as fotos da partida ficaram um bocado tremidas! Mas aqui estou eu na hora de partir!

E parti para a primeira etapa que seria Saragoça!

Beijucas

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É curiosa a sensação de ter relembrado recentemente toda a viagem numa “fugida” e só agora ir falar/escrever sobre ela! Normalmente eu vou relembrando tudo o que vi e vivi a cada dia que volto a tentar escrever mais um pouco do que fiz! Desta vez há uma série de coisas que voltaram à minha mente, em catadupa, e a panorâmica total da aventura é de “que coisa gira eu fiz”!

30 de julho de 2013

– de Penafiel até Saragoça –

O tempo, que nunca mais passava, de repente escoou-se e foi na hora de partir, apenas, que eu fui imprimir o meu livrinho de viagem, para que nada me faltasse de informação no caminho, que eu não gosto de trabalhar durante as férias a procurar o que há para ver. Levo a pesquisa base e por lá é um “faço só o que quero” e vou alegremente atrás do que me apetece! Se descubro coisas novas, tanto melhor, mas não sofro para saber se elas existem. Viajar é um ato de prazer, nunca uma obrigação ou um esforço indesejado!

Na hora de partir demora sempre um pouco até eu processar que estou em viagem, desta vez não foi diferente, lá fui andando e cantarolando por aí acima, mas só alguns quilómetros depois é que a sensação se entranhou mesmo!

Eu não sabia mas iria mostrar aquele mapa geral da viagem, na capa do livrinho, dezenas de vezes durante esta viagem, a polícias, velhotes, senhoras curiosas, rececionistas, taxistas e por aí fora até aos controladores das fronteiras!

Uma das coisas que faço sempre é “despedir-me” do meu país e paro sempre na fronteira, como quem acena com a mão para trás, para casa!

Consegui fotografar a minha motita à entrada de cada país, o que torna a sua primeira longa aventura um acontecimento bem documentado!

Atravessar a Espanha foi só o início do que eu já esperava: um enorme calor!

Mas todo o sofrimento é suportado quando o que se vê e se vive vale a pena e este país proporciona enquadramentos fotográficos muito bonitos, com cores intensas e saturadas, sem que as fotos sejam manipuladas com efeitos pirosos de máquina ou programa de computador e é assim que gosto que seja! Fotografia pura!

Castelinhos em colinas que se elevam sobre longas planícies amarelas… Peñafiel, cidade geminada com a cidade em que vivo, Penafiel!

«Ontem, parei eu para abastecer algures perto de Sória, quando o senhor da bomba, numa de meter conversa, me perguntou onde eu ia,
“Eu, vou para Zaragoza!” respondi eu
“Tão longe?!” exclamou ele.
Perante o seu ar de espanto, quando eu ía para tão perto, corrigi
“Não é longe, eu vou para muito mais longe, vou para a Roménia!”
Então diz ele muito intrigado:
“Onde fica Roménia? Eu conheço bem a Espanha e não conheço essa terra?” …
“A Roménia não é uma terra espanhola!” corrigi espantada “É um país!”
Fez-se silêncio…
“Tu vais à Roménia, Roménia, mesmo?! Mas isso é no fim do mundo!!!!!”
O homem não cabia em si de espanto.
“Não, senhor, o fim do mundo é muito mais além!” eheheheh»

Eu tento parar em cidades diferentes a cada viagem, e desta vez a primeira noite seria em Saragoça, dado que já lá não ia há algum tempo. Aquela cidade é linda, simpática e acolhedora!

A Catedral-Basílica de Nuestra Señora del Pilar é um dos seus grandes orgulhos e entende-se bem porquê, é o maior templo barroco de Espanha!

E domina toda a Plaza de Nuestra Señora del Pilar, com a enorme catedral ali ao lado a praça tinha de ter o mesmo nome!

Estava um calor infernal, (achava eu, que não sabia ainda que haveria muito pior mais à frente!) qualquer sombra era deliciosa para se estar!

E os homens vendiam leques nas beiras das ruas pedonais junto à plaza!

Pus-me a fazer cálculos de ângulos e distâncias para entender de que ponto a minha máquina apanharia toda a catedral e não foi fácil!

Então ali na sombra, por trás do posto de turismo, deparei com uma frase que dizia tanto do que penso…

Ainda não foi desta que visitei a Catedral del Salvador de Zaragoza, uma das duas catedrais da cidade! Passeei um pouco por ali, mas a vontade era tirar as botas e pôr os pés na água! Mas como ninguém o estava a fazer não tive coragem… até porque dava muito trabalho descalçar-me!

Claro que fui ver a Puente de Piedra, gótica, e a mais antiga sobre o rio Ebro.

Dali a perspetiva sobre o rio e a Catedral del Pilar é sempre deslumbrante!

Naquela noite nem me apeteceu andar pela cidade, o primeiro dia de viagem é sempre de adaptação à moto e ao caminho e o calor não me inspirava para caminhar muito! Meti a moto no quintal da pousada de juventude e passei o serão entre o computador e umas cervejas frescas que me serenaram o coração acelerado pelo calor!

Fim do primeiro dia de viagem!

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31 de julho de 2013

– de Saragoça até Albi –

A cada vez que atravesso os Pirenéus faço-o por caminhos e direções diferentes, porque aquilo é imenso, é lindo e tem muito o que ver, não há necessidade de fazer eternamente os mesmos caminhos com tantas hipóteses de combinação diferentes!

Em Saragoça havia algo que eu queria visitar há tempos, o Palácio de la Aljaferia!

Trata-se de uma construção única do séc. XI que vem desde o tempo dos califas!

O edifício é extraordinário, com uma história infinita e ali funcionam hoje também as cortes de Aragão. É imponente olhar para ele, parece diretamente saído do passado!

As histórias que se sabe ali, com um guia simpático e bem-humorado que nos desafiava a repetir o nome do califa a cada momento! Claro que ninguém conseguia por isso marquei como trabalho de casa procura-lo e regista-lo na crónica que fizesse.

E então o homem chamava-se: Abu Jafar Ahmad ibn Sulayman al-Muqtadir Billah…

Se preferirem em árabe é: أبو جعفر أحمد “المقتدر بالله” بن سليمان

O palácio é lindo, apesar de se terem perdido os seus adornos originais, já que foi sendo alterado e acrescentado por cada rei proprietário e por fim pelos usos menos apropriados que lhe foram sendo reservados, como quartel de guerra!

Felizmente acabaram por restaura-lo e poupa-lo a mais danos e perdas…

Aquele que foi chamado pelo seu criador o Palácio da Alegria!

O palácio era fresco, mas o calor apertava já cá fora! Segui para norte, o destino era França, porque a Espanha é para se ver na Páscoa nas minhas voltinhas peninsuleiras!

Passei por Barbastro, uma terra que ficava no meu caminho e prometia uma boa esplanada para eu comer qualquer coisa!

Eu já tinha passado ali noutra viagem qualquer, por isso sabia que comeria bem e fresca!

A cidadezinha é simpática, fica na província de Huesca, uma zona que adoro! Cada vez que lá passo apetece catar mais um pouco! Mas isso seria se não tivesse uma imensa viagem pela frente para fazer, por isso comi, dei uma volta e segui!

O que eu gosto de conduzir pela montanha!
Não importa se a estrada está em bom estado, ou se as curvas são muito apertadas! O que eu gosto numa moto é de a conduzir e na montanha é aquela “aventura” que me apaixona e a minha moto adora também, parece que nem tem peso e que o seu corpo se molda à estrada!

Uma constante nesta viagem foi o parar para comprar água, beber meia garrafa e depois voltar a parar antes que ela aquecesse para beber o resto e assim se ia uma garrafa de 1.5l!
Ao menos a parar que fosse em sítios bonitos!

Porque assim poderia aproveitar para esticar as pernas e ver algo de interessante no entretanto!

E cheguei a França “pronto minha querida, já vais conhecer um pouco do 3º país da tua vida” dizia eu à minha Ninfa!

E o passeio continuava por estradas serpenteantes, daquelas que nunca se sabe quando acabam de subir e começam a descer porque olha-se e estão por todo o lado!

Ora se sobe, ora se desce, e volta-se quase ao mesmo sítio no fim, só que noutro nível! A D O R O!

E com esta brincadeira cheguei a Albi ao entardecer! O que eu me tinha divertido apesar do calor!

Albi era uma cidade que eu andava para visitar há uma série de viagens atrás, mas há tempo, e acabou por ser desta! A sua catedral de tijolo é impressionante! Acabei por não a visitar por dentro, nesta viagem não vi muitas igrejas, eram outras coisas que eu procurava por isso vi mais mesquitas e igrejas ortodoxas! Manias que eu crio assim de repente!

Mas certamente que um dia lá passarei e lhe dedicarei mais atenção, afinal a Cathédrale Sainte-Cécile d’Albi é um edifício gótico extraordinário, do séc. XII, que merece ser visitado!

Ali, enquanto me passeava pela zona mais antiga da cidade, um tipo passou por mim e cumprimentou-me por 4 vezes até eu ter um ataque de mau feitio e o mandar à me***!

Quando me voltei de repente para ele e lhe perguntei o que queria ele até deu um passo atrás! Afinal eu consigo intimidar um homem, heim? Porque terei de ter medo deles, pensei eu, no caso de num país qualquer ter de me descartar de um emplastro que me tente chatear! Fui-me embora a rir sozinha e alto o suficiente para ele ouvir! Desapareceu!

Aquelas ruelas são encantadoras, passeia-se por ali como numa historinha dos Irmãos Grimm !

Comi muito bem naquela noite! O senhor do hostel aconselhou-me um restaurante típico que foi uma deliciosa surpresa, Le Loup Sicret e era mesmo secreto! Se o homem não me tivesse falado dele nunca o encontraria pois fica bem escondido!

Entra-se por uma espécie de centro comercial e lá dentro, inesperadamente, tem um jardim lindíssimo onde eu jantei!

Uma versão deliciosa e sofisticada de hambúrguer de pato que mais parecia um prato de grande culinária, acompanhado de um delicioso vinho, ou não estivéssemos na terra do precioso néctar!

Naquela noite eu andava mascarada de turista “normal” de calções e tal, mas nem assim passei despercebida pois levava o chapéu! Manias!

Cá fora na praça o mundo parecia outro, feito de gente em esplanadas longe do recolhimento romântico do restaurante!

Foi um belíssimo serão, que serviu para retemperar energias e relaxar, como eu estava a precisar.

Fim do 2º dia de viagem!

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1 de agosto de 2013

– Albi, Cordes, Rocamadour –

Aquela zona de Albi é para se catar com calma, mas desta vez apenas fiquei o tempo de dar uma volta mais!

Quando se trata de zonas onde passo com muita frequência tento não as esgotar para continuar a ter assunto a cada vez que lá volte a passar!

Por isso são zonas que nunca cato a fundo, apenas vejo coisas! Então andei por ali a ver coisas e a curtir estrada, como se não tivesse estrada com fartura para fazer nos dias seguintes!

O sul de França é encantador (como todo o país, diga-se) há ruínhas deliciosas com castelinhos em qualquer colina ou planície!

Logo ali a seguir descobri Cordes-sur-Ciel, que tinha visto numa placa no dia anterior e me pareceu digna de visita. E era!

Uma terrinha medieval encantadora e fortificada, com ruínhas ingremes que sobem por ali acima ladeadas de casinhas deliciosas!

É uma das terras medievais agrupadas nos Grands Sites de Midi-Pirénées que reúne uma série de aldeias lindas. Eu passei por algumas mas não iria visita-las todas! Vou lá voltar e pronto!

Albert Camus, depois de visitar a cidade nos anos 1950, dizia «À Cordes, tout est beau, même le regret». (Em Cordes tudo é belo, até o lamento)

Cordes foi um reduto cátaro e pagou caro por isso à perseguição da inquisição! Ando há tanto tempo a pensar percorrer todas as terras e castelos cátaros e estou sempre a cruzar-me com eles!

O aspeto fortificado não se perdeu e as ruelas e casas mantêm hoje aquele ar medieval de castelo protetor! Tudo é lindo por ali!

Curioso que, ao contrário de outros sítios, aquilo estava meio vazio! Não havia enchentes de turistas por todo o lado a fazer barulho e a perturbar todo e qualquer enquadramento que se quisesse fazer! A beleza estava toda por minha conta! Delicioso!

Ainda me voltei para trás ao afastar-me! Que paisagem mais bonita! Fiquei rendida, está na hora de pensar em voltar e fazer a rota Cátara de uma vez por todas!

Mais à frente fica Cabrerets, que nem me atrevi a tentar ver de perto, ou nunca mais sairia dali! É outra cidade medieval dos Grands Sites de Midi-Pirénées que ficou na minha agenda…

E depois Labastide-Murat e por aí fora! Tudo é a visitar por ali!

Mas era a Rocamadour que eu queria ir! Estive lá no ano passado mas não deu para entrar, apenas vi a cidade por fora e apetecia-me vê-la de perto!

Fica encrostada na encosta de um longo penhasco sobre o vale do Alzou, num enquadramento espetacular!

Dei por ali meia dúzia de voltas, não me apetecia nada deixar a moto a quilómetros e aproximar-me no comboio turístico, como me sugeriam por lá! Eu vi motards fazerem isso mas tentei de novo a aproximação ao centro histórico e, surpresa, fui desembocar mesmo no meio da vila!

Bem, depois de estar ali não iria voltar para o fundo do penhasco para ficar a olhar para ele de longe! Então arranjei um cantinho entre carros de residentes e meti lá a minha motita muito escondidinha!

Ora, sem me ter cansado nada a caminhar até ali, já pude escalar o penhasco calmamente!

Foi aqui que eu comecei a levar o lenço motard vermelho comigo para limpar a cara, é que o calor fazia transpirar para caramba! E foi a partir dali que as pessoas começaram a identificar-me facilmente como motard, pelo lenço vermelho diziam, mesmo quando estava longe da moto e nada levava nas mãos, tipo capacete, que me identificasse como tal!

E aquilo sobe para caramba! A multidão de turistas que não estava em Cordes… estava toda ali, acho!

Lá em cima fica a basílica de Saint-Saveur

Onde não se podem tirar fotografias! Eles contam que as máquinas fazem barulho ao fotografar, por isso não tomam conta… das máquinas silenciosas como a minha! Por isso lhe tirei o pio e por isso fotografei em paz!

Rocamadour e os seus santuários cheios de lendas e histórias desenvolveu-se no caminho de Santiago por isso está nos locais de grande peregrinação, antes dos locais de grande turismo, com putos a correr e a gritar e adultos a tirar fotos patetas, com as suas caras em primeiro plano e as igrejas e penhascos em segundo ou ultimo….

O local é extraordinário, com as construções encravadas nas rochas e fazendo delas as suas paredes!

Cá em baixo, onde a moto estava estacionada, ficam as lojas de tudo e a multidão que se acotovela!

Eu gosto que os locais tenham gente, para só já basto eu em cima da moto, mas detesto tudo aquilo repleto de gente que anda por ali sem apreciar realmente o que há, e que grita, e que corre e dá gargalhadas histéricas, e devia mas era estar na praia e pronto!

Ainda passei em Le Puy-en-Velay mas a confusão era bem pior, porque ali é mesmo uma cidade cheia de gente e de transito e que esta em obras…

Os seus montes famosos sobressaem no meio do movimento da cidade, onde nem um espaço arranjava para estacionar a moto!

Raios! Um calor infernal, um trânsito terrível, uma multidão desencorajadora… amuei e fui embora!

Puxa, de longe aquilo tinha muito mais piada, com uma brisa fresca a arrefecer-me as ideias e a convidar-me para conduzir até casa, que naquele dia era ainda em Albi!

Fim do 3º dia de viagem!

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2 de agosto de 2013

– Albi, Saint Montan, Gordes, Sisteron –

A Provença é aquela zona perfumada que eu queria visitar!

É só escrevinhar o nome no Google e a cor da lavanda aparece por entre imensas imagens encantadoras de aldeias medievais lindíssimas, construções de pedra e imensas planícies de perder de vista, entre montes, e rios, e penhascos…

Desde a minha primeira viagem que por ali passo cheia de encanto e vontade de explorar mais um pouco. O perfume paira no ar vindo de todo o lado sem se saber de onde, porque o traz a brisa e o levamos na memória!

No ano passado os pequenos problemas com a gasolina fizeram a minha moto ressentir-se e preocuparam-me ao ponto de não me deixarem passear descontraidamente por ali, e trazia comigo a vontade de voltar. Este ano voltei e, de novo, me maravilhei!

Eu sabia que implicaria fazer uma série de quilómetros para passar onde queria, sabia que o calor seria um empecilho, mas não resisti!

Dei a minha volta por Albi, em tom de despedida e panorâmica geral.

O rio Tarn dá-lhe um encanto antigo e romântico! Aquele rio é, aliás, cheio de encantos no seu percurso!

Estava fresquinho por ali, àquela hora da manhã, eu parei a moto em cima do passeio junto à ponte e apeteceu ficar mais um pouco. Três velhotes pararam junto à moto e esperaram que eu me aproximasse.

“É você que conduz esta moto?” – perguntou um deles.

“Sim.”- Respondi

“Vês? Eu bem te disse que ela vinha sozinha, não havia nenhum homem com ela!” – dizia um deles para os outros.

“Bem! Mas esta moto é muito grande e pesada! Como consegue pegar nela?!” – perguntou outro visivelmente impressionado.

“Não há problema, senhor, é ela que pega em mim e não eu que pego nela! Por isso ela pode bem comigo!” – respondi rindo-me.

“Pois, mas você é tão magrinha e ela tão gorda!” – espantava-se um – “não leve a mal eu dizer que a menina é magrinha!”

“Uma senhora nunca se ofende se a chamam de magrinha!” – eles riram-se. Perguntaram de onde eu vinha e arregalaram os olhos quando perceberam que (para eles) eu vinha de muito longe.

“Pois, é magrinha mas aaaalta! Nem parece portuguesa!” – e olhavam para mim com uma admiração enternecedora.

Peguei na moto e acenei-lhes adeus, os 3 levantaram logo as mãos e acenaram também. Acho que fui o assunto de conversa para todo o dia!

Ainda passei no centro da cidade, estava deserta, o calor começava a chegar, e eu parti.

As distâncias nem parecem muito longas quando as paisagens são encantadoras!

E a Provença era logo ali, sentia-se pelo perfume que começava a pairar no ar. Os campos de lavanda apareceram nas bermas das ruelas mais à frente, primeiro ainda pálidos, ao chegar a Larnes.

O calor já era muito, sentia-me suada e com vontade de me meter na água e, de repente, era a frescura no meio do calorão e o perfume suave no ar fazia com que me sentisse de alguma forma, fresca!

Parei um pouco junto à Eglise de St Pierre, uma construção românica deliciosa do séc. XII, no meio do perfume e da cor púrpura!

Mas eu ia a caminho de Saint Montant, “Le plus beau site médiéval de l’Ardèche”! E era mesmo!

Uma aldeia na encosta, feita de cantos e recantos empedrados, com arcos, escadas e passagens encantadores!

Não havia por lá ninguém! Que maravilha, quase entrava na casa das pessoas nas infinitas voltas que dei lá por dentro!

Cada recanto e passagem era uma promessa de frescura e sombra que eu não conseguia deixar de apreciar!

O tempo que eu andei por ali, sem ninguém para me perturbar! Pude sentar e desenhar, fotografar e apenas estar!

Sem turistas por perto nem tive de esperar para poder “apanhar” espaços sem ninguém! Eu era a única pessoa a visitar aquilo tudo!

Escusado será dizer que tirei um milhão de fotos…

Uma pérola de silêncio e paz no meu caminho!

Os caminhos que segui eram igualmente feitos de paz e encanto…

Até chegar a Gordes… onde estava toda a multidão que não estava em St Montant!

Nem me apeteceu parar, pousar a moto e embrenhar-me na confusão! Preferi ver de longe, onde o barulho e a trapalhada do turismo nem se fazia ouvir!

Porque o meu destino era um pouco mais à frente! Podia ver lá em baixo, uns quilómetros à frente, o que eu procurava!

A Abadia de Senanque, do séc. XII, rodeada de campos de lavanda é quase um ex-libris da Provença, e é linda!

Então pude passear por entre a lavanda e pôr a mão e tudo! Por aquela altura eu já achava que tinha mesmo tomado banho e todo o meu corpo emanava aquele leve perfume delicioso!

Sentei-me e, por entre longos exercícios respiratórios, que não eram mais do que absorver todo aquele aroma, voltei a desenhar e nem quis saber se teria tempo de visitar a abadia!
“Quero lá saber, quero é curtir este êxtase!”

Quando eu pensava que nada podia haver de melhor para viver por ali, entrei na igreja e fui recebida pelos cânticos gregorianos de um grupo de monges! Que coisa extraordinária!

Quando lá voltar tenho de ir visitar os claustros que são lindos, naquele momento nada disso me apetecia!

E fui passeando pelos campos de alfazema, cada vez mais frequentes e cada vez mais perfumados e coloridos!!

Não sei quantas vezes parei para ver de perto e para pôr as mãos! Dois carros me seguiam e nunca me ultrapassaram, paravam sempre que eu parava e as pessoas saiam e faziam o mesmo que eu! Parecíamos todos tolinhos, parávamos, e íamos passear pelos carreiros entre a lavanda, voltávamos a seguir e a parar mais à frente!

Há mesmo miradouros para se poder apreciar os imensos tapetes purpura na planície lá em baixo!

Acho que ali ninguém planta batatas ou cebolas, ou flores de nenhum tipo para além da lavanda!

E quando a lavanda pareceria nunca mais ter fim, entrara já nos Alpes Provençais e Sisteron apareceu ao fundo!

E anoiteceu num espetáculo digno de toda a beleza que me acompanhara até ali!

A “minha casa” naquele dia era ali perto, numa montanha, em Authon.

Comecei a subir e os quilómetros a escoarem-se até que, 25km depois o GPS me diz “chegada ao destino à direita!”

Era noite fechada já e, à direita havia apenas o precipício, porque à esquerda nada havia!

“Raios, queres que eu durma em cima da pedra a 2.000 metros de altitude?”

Nada havia em redor e eu não sabia o que fazer, andei um pouco para a frente e nada havia também, via as luzes de uma casinha ao longe, mas o caminho era isso mesmo, um caminho manhoso! Fui até lá e nada mais faria, ou era ali ou iria para Sisteron arranjar onde dormir!

No escuro puder perceber um senhor que passeava o cão! Aproximei-me e perguntei-lhe se sabia onde era o sítio onde eu deveria dormir. O homem ficou aparvalhado a olhar para mim quando falei!

“Você é uma senhora!” – exclamou!

“Valha-me Deus, queres ver que se vai pôr com conversas sobre mim e sobre a moto, e de onde eu venho ou para onde vou, e eu estou aqui no meio do monte na conversa em vez de ir procurar a minha cama?!”

Mas não, passada a surpresa inicial, ele sabia onde era sim, só tinha de andar mais uns 4 ou 5 quilómetros e estaria lá!

Explicou-me então que ficou em pânico quando viu uma moto tão grande vir na direção dele, pelo carreiro onde nem os carros cabiam, e o quanto lhe soube bem ouvir uma voz de menina e não de um homem enorme e barbudo!

Ficou a ver-me dar meia volta, com as rodas a caírem para os campos mais baixos nas bermas do caminho e disse-me adeus quando parti, cheia de “mercis” e “bonnes nuits”.

O sítio onde dormi era um refugio para esquiadores e caminhantes e receberam-me cozinhando para mim, com direito a vinho e café e aquecimento no quarto pois por ali o frio chega cedo!

Que bem que eu dormi!

Fim do 4º dia de viagem!

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3 de agosto de 2013

– Sisteron, La Spézia –

Naquele dia… tirei o dia para andar de moto!

Eu tinha dias destes nos meus planos, em que o que eu queria ver a seguir seria longe, por isso estava preparada para passear, para curtir a paisagem e as curvas da estrada de montanha, mas também para correr um pouco!

São estes dias, e tive alguns nesta viagem, que desentorpecem os meus sentidos e os da motita, depois de voltinhas a baixa velocidade por aqui e por ali.

Mesmo assim faço tudo sem stress, não há-de ser porque o meu destino é mais distante que eu desatarei a correr sem olhar para os lados. Cada dia é percorrido como se fosse o único da viagem, com todo o interesse e prazer de condução e passeio, parando sempre que me apetecer, para ver, fotografar, desenhar ou comer. Se se fizer tarde e chegar ao meu destino durante a noite, tanto pior, o meu Patrick GPS que faça o seu trabalho e me leve à porta de “casa” e se não o souber fazer… logo se verá!

Por isso ainda me dei ao luxo de andar para cima e para baixo no mapa e de tirar algumas fotos de montanha, quando o prazer foi em altitude e curvas alucinantes!

Para mim passear pela montanha, neste caso pelos Alpes, é, só por si, um delicioso encanto! Não precisa de ter nada mais para eu ser feliz!

À luz da manhã é que pude ver direito onde dormira, rodeada por montanhas extraordinárias!

E descobri também que ficava na “Route du Temps”, um nome bem sugestivo para um percurso perto do céu e a tocar o paraíso!

E mais à frente já se via o imenso vale onde se situa o penhasco de Sisteron.

Sisteron, entre a rota da grande produção de fruta e a rota da lavanda!

A cidadezinha não é tão encantadora como eu pensava! Quando a vemos de longe, com o penhasco encimado pela cidadela, temos a sensação de que é toda construída em pedra, com ruelas estreitas e onde os carros não podem entrar… e em parte é!

Mas tem também estradas cheias de carros e movimento e confusão, e as casas são cinzentas e o chão alcatroado ou de cimento!

Não me apeteceu subir até à cidadela, estava muito calor e tinha de subir ainda muito…

A perspetiva da cidade era muito interessante lá de cima. Sisteron, uma cidade cheia de história antiga que se estende desde os romanos, testemunhando todos os grandes momentos históricos do país, por se situar em ponto tão estratégico e de passagem obrigatória para tantos destinos!

Preferi passear-me pelo mercado de rua e deixar explorações mais profundas para uma visita posterior!

Eu queria ir a Castellane e à Gorge de Verdon, mas aquilo estava impossível de povo irrequieto por todo o lado! Tive de me obrigar a deixar para outra vez, quando eu programar passar ali a noite e visitar a garganta de manhã, porque naquele momento era impossível! Por isso amuei e segui até Rougon.

Subi até à aldeiazinha e, ao menos lá, não havia ninguém para além dos locais! Foi um alívio e uma pausa na paz!

Com os montes “rachados” como paisagem, os mesmos que se abrem para Verdon!

Eu tenho mesmo de ir explorar aquilo direito, pois se o rio Verdon é deslumbrante no seu percurso mais banal, nas gargantas deverá ser realmente extraordinário, com as águas turquesa e os penhascos a pique em seu redor!

E seguindo percursos de água logo a seguir fica o Lac de Castillon, provocado por uma barragem e cheio de beleza, com as suas águas turquesa com barquinhos a passear em cima!

E tinha de tratar de atravessar os Alpes para descer para Itália.

Estava numa zona cheia de passos de montanha interessantes, lá fui andando de curva em curva pelo Col d’Allos até aos 2.250m de altitude.

Há momentos em que a gente olha para o caminho percorrido e ele parece que está por todo o lado!

Entrei em Itália por uma das minhas fronteiras preferidas!

Pertinho de Barcelonnette, onde a seguir ao lago muito bonito fica a estrada extraordinária com este aspeto!

Depois vem mais montanha, estamos em Argetera.

E começa a confusão dos vilarejos e aldeolas, sem muito o que ver mas com muito transito e camiões à mistura!

É este ponto um dos únicos nas minhas viagens em que eu gosto de apanhar a autoestrada, pois é uma alucinação! Sempre que vou por aqueles lados passo ali da estrada nacional aborrecida para a autoestrada mais louca que se pode desejar! As velocidades variam entre os 80km, nos troços mais lentos e sinuosos, para os 130km/h nos mais rápidos e a gente parece que anda num carrocel, ladeado de paredes, repleto de curvas e com os carros a competir connosco! Adrenalina pura!

E cheguei a La Spézia, onde ficava a minha casa naqueles dias!

E foi o fim do 5º dia de viagem!

**** ****

4 de agosto de 2013
– Les Cinque Terre –
A minha ida a La Spézia tinha uma única finalidade… que afinal eram cinco!

Fui para ali para visitar as Cinque Terre! Dizem que aquelas terras se visitam de barco, porque se tem perspetivas únicas sobre elas mas, como eu costumo dizer, quem decretou isso, provavelmente nunca as fez de moto senão mudaria um pouco o seu discurso, do tipo “As Cinque Terre visitam-se de barco ou de moto!” e aí sim, eu assinaria por baixo!

Estas cinco aldeias piscatórias, estão encravadas na encosta rochosa e ingreme da costa, com poucos acessos e as praias sem areia! Tudo é pedra e água por ali! As ruelas que levam a cada uma, e de umas para as outras, é ziguezagueante, deformada, como eles avisam, e por vezes em muito mau estado já que as intempéries mais invernosas as vão destruindo com enxurradas de água que corre violentamente pela encosta até ao mar.

Decidi começar pela mais longínqua em relação a La Spezia. Entenda-se que este “longínqua” se refere a apenas 32km de distancia! E fui até Monterosso Al Mare, depois viria de terra em terra até chegar de novo a La Spézia!

Os enquadramentos encantadores não se fizeram esperar! O mar ao fundo e as montanhas logo a seguir, sem dar tempo a procurarmos pelas praias pois elas não existem!

A vantagem de se ir por terra e de moto é que a qualquer momento a gente encosta um pouco e apanha perspetivas espantosas da costa!

Por isso bem antes de chegar ao destino eu já conseguia vislumbrar a cada curva do caminho a aldeia que queria visitar!

Ao chegar-se lá, pousa-se a moto no meio da multidão de scooters e toca a caminhar por entre o casario vertiginoso e colorido! Aquilo é mesmo bonito porque não é feito para turista ver, é como as pessoas fizeram que fosse ao longo dos tempos e agora a gente vai lá ver!

Uma das coisas que me encantou por ali foram as cores vivas, quase berrantes por vezes, e o ar de “normalidade” que tudo tinha, desde pessoas que lavam e esfregam na rua até barcos “estacionados” na berma do caminho, encostados às casas, com toda a naturalidade!

Gente muito religiosa, as igrejas às risquinhas estavam cheias àquela hora, com povo devoto a enche-las, apesar do calorão que se fazia sentir lá dentro! Estava bem mais fresco cá fora!

Então chega-se à Piazza Garibaldi e logo a seguir fica o mar e aquele é o único areal nas cinque Terre! Ainda estava vazio, nem todo o turista e banhista se levanta cedo como eu!

Andei por ali de nariz no ar, pois muito do encanto está nas casinhas encavalitadas que quase se tocam lá no alto!

A aldeia seguinte seria Vernazza.
Segui o seu caminho e a dada altura conseguia já vê-la e tudo mas, de repente a estrada estava cortada! Andei por ali a experimentar pois por vezes até dá para uma moto passar, mas a dada altura não havia mais estrada! Tinha desaparecido de todo e restava apenas um caminho muito manhoso e extenso, cheio de buracos, cascalho e descidas ingremes!

Não meti ali a moto! O meu problema não era só o ir por ali abaixo, era também o regressar e subir aquilo a pique com uma moto de 320 kg a resvalar! Por isso tentei uma outra ruela, que também anunciava que estava cortada mais à frente! Estava melhor que a anterior mas nada fácil de fazer com a minha Ninfa, por ser muito extensa, irregular e esburacada para além do cascalho, por isso fiquei ali a decidir se devia ou não arriscar.

Então apareceu um fulano numa maxi-scooter, ficou um bocado a olhar e propôs, eu ajudava-o a passar e depois ele ajudava-me a mim! Boa, assim já arrisco, disse eu!

Ora o homem mete-se por ali fora, eu a segurar a moto pela traseira e nem assim ele a segurou e pimba, no meio do chão!

“Mas então você não sabe andar fora de estrada?” – perguntei eu
“ Nunca andei pois tenho um medo de morte!”

Oh valha-me Deus, e vem-me com propostas de ajude-me ai que eu passo? E o pior de tudo, não tinha força para levantar a moto do chão, fui eu quem fez o maior esforço senão ele ainda lá estaria hoje a puxar por ela!

Bem, se nem com a tua podes como poderás com a minha?
Peguei na minha motita e fui mas é dar a volta a todo o circuito e tentar chegar a Vernazza vinda de Lá Spézia. Se desse veria a terrinha, se não desse veria as outras todas e pronto!

E ainda me dizem que eu não devo viajar sozinha, e seria melhor levar alguém assim, que em vez me ajudar teria de ser ajudado por mim?

Voltei aos bons caminhos porque por ali as ruínhas são muito bonitas… quando não estão todas lixadas!

Voltei a la Spézia e, quem vai dali pode fazer a via panorâmica que nos permite ver toda a cidade com o porto e a montanha ao fundo!

Julgo que é o ângulo mais bonito para se apreciar a cidade!

E lá estava a primeira aldeia para quem vem da cidade: Riomaggiore

Tão visível lá de cima que fiquei ali debruçada sobre a berma a aprecia-la!

Mais uma vez a gente deixa a moto junto à multidão de motos e scooters e vai por ali abaixo, pelas ruelas estreitas, apreciando perspetivas deliciosas do conjunto!

A casa do Município estava toda pintada com murais de mar e mitologia muito bonitos! Espero que estejam a pensar restaura-los pois a tinta começava a estalar!

E as ruínhas e caminhos por entre as casas, com degraus e passagens cobertas por elas, mais pareciam entradas particulares!

Quando o calor era já insuportável e o sol ameaçava torrar-me a mioleira… o mar apareceu ao fundo de um caminho estreitinho por entre casa! Oh visão do paraíso!

Meio como quem se precavém para o que não vai acontecer e se prepara para o que não vai fazer, eu pusera o fato de banho na bolsa de cinta, muito enroladinho… e agora ele berrava por mim lá dentro!

A frescura das águas berrava também por mim! Mas como fazer? Não havia condições de vestir o fato ali perto e ir para a água!

Então uma senhora provocou-me “vá nadar!” ao ver-me ali tão sôfrega a olhar para o mar “não tem fato?” sim tenho, tirei-o da bolsa e mostrei-o, mas como o visto por aqui?

Italiano é desenrascado como português! Então ela chamou a filha (acho eu) e, depois de catarem nos sacos, deram-me um vestido de alças, daqueles que eu nunca usei na vida, tipo franzido no peito e solto e comprido até aos pés, e disse-me para eu me trocar dentro dele!

Oh santinha, vou pôr uma velinha por ti em algum lado!

Deixei-lhes as minhas coisas a guardar e fui nadar! Saltei direta do penhasco para a água como os miúdos estavam a fazer! Huuuuuum delicia!

No fim nem precisei me limpar, vesti a roupa por cima do fato molhado e fui passear pela aldeia com o rabo molhado ainda! Que bem que soube!

A senhora ficou minha fan, falamos um bom bocado de onde eu vinha, para onde eu ia e, no fim, deu-me o vestido, para que eu não morresse de calor onde houvesse mar, porque a Itália estava sob uma vaga de calor muito forte! Mas não era só a Itália, era toda a Europa e o vestido veio a revelar-se útil noutras situações semelhantes!

É nestes momentos que eu acho que deveria comer um gelado, que era o que toda a gente fazia por ali… mas tive de me reduzir a muita água e alguma cerveja já que não gosto de gelados…

Estavam 39/40, tudo irradiava calor e um pormenor me enterneceu! A cada fonte, a cada chafariz, uma taça estava disponível para dar de beber aos animais! A princípio pensei que era da loja ao lado, para o seu cão, mas depois percebi que era para toda a gente pois existiam em todos os pontos de água! Um gesto tão simples e tão grandioso! Quanto cão e gato vi ser saciado e quantos ficavam ali à espera que alguém lhe enchesse a pia! Lindo!

E segui para Manarola que é logo à frente!

O mesmo clima, o mesmo ambiente, o mesmo calor, o mesmo mar e um novo mergulho!

Ali eu já fui direta à água! Tinha o fato vestido, foi só tirar a roupa, meter tudo dentro do chapéu e entregar a uma velhota para cuidar!

Lá de baixo eu via a velhota a espreitar, pensando com os seus botões que eu devia bater muito mal!

Só não tinha levado a toalha comigo, tinha ficado na mota, mas também não fazia falta, com todo o sol e calor que estava até sabia bem secar o corpo ao ar!

Aquela vidinha já estava a fazer fome e fui comer um peixinho aos pacotes ali perto, que me tinha chamado tanto a atenção! Uma fritada deliciosa!

Podia passar por ali todas umas férias! Que perfeito ambiente!

E segui pela costa apreciando as terrinhas encavalitadas nos extremos dos penhascos com vista privilegiada para o mar!

Vi Corniglia ao fundo, para mim a menos interessante das 5 terras!

Ali foi só para beber mais qualquer coisinha que o calor estava a sacar toda a água de mim e eu tinha de repor o stock!

As ruelas estavam cheias de gente a lambuzar-se de gelados!

E a minha motita a espantar toda a gente no meio das colegas mais pequenas!

Finalmente voltei a aproximar-me de Vernazza, aquela que estava inacessível pelos caminhos lá de cima, deixou-me aproximar pelo caminho que vinha de Corniglia! Maravilha!

Ao aproximar-me da aldeia pude perceber a dimensão do estrago nas ruas de acesso! Entendi então que se tivesse persistido em desce-las poderia mesmo ter-me virado de pernas para o ar, porque o estrago era muito grande e muito extenso e as obras estavam a decorrer até à entrada da aldeia, com direito a terra, pó e buracos com fartura!

Entrando na aldeia, era a paz e a alegria!

E mais multidões a comer gelados por todos os lados!

Oh mar bendito, depois da caminhada, da poeirada e do calorão… claro, voltei a tirar a roupa, a meter tudo dentro do chapéu, a dar a uma velhota para guardar e pimba, mar!

Eu já nem me preocupava se me iriam roubar a maquina fotográfica ou a bolsa, eu só pensava no fresquinho da água!

Pela aldeia as pessoas faziam filas para encher as garrafas de água nas fontes! Eu sentia-me fresca, com o rabo ainda molhado do banho e uma cerveja fresquíssima a acompanhar!

E fui passear um pouco, que não sou pessoa de ficar horas num lugar a apanhar sol e calor!

La Spézia lá estava com o pessoal simpático do hotel que se fartava de falar comigo e achava graça à pronúncia portuguesa e se punha a encontrar semelhanças entre as duas línguas!

E foi o fim do 6º dia de viagem!

**** ****

5 de agosto de 2013
– La Spézia, San Gimignano, Siena, Rimini –

Haveria muita coisa que eu gostaria de ver no meu caminho… há sempre!

Mas não voltei a Florença, nem a Pisa, apenas segui por onde tinha traçado o meu caminho. Por vezes dá jeito ter um percurso pensado para que não fique ali, como o tolo no meio da ponte a querer seguir todas as placas.

Afinal, se tudo correr bem, não faltarão oportunidades para voltar a Itália e catar mais um pouco ou voltar a sítios já antes visitados! Por vezes perguntam-me como giro o que quero ver quando afinal queria era ver tudo! Giro assim, com a promessa dentro de mim de que vou voltar!

Quando a gente faz uma viagem de vez em quando poderá ter essa dificuldade, de saber o que ver, porque não sabe quando voltará, mas Itália começa a ser uma daquelas terras que eu nunca visitei de fio-a-pavio mas onde passo tão frequentemente e por tantos trajetos diferentes, que já é um dos países que mais visitei e de que conheço mais!

Não havia nada de especial que eu quisesse ver em La Spézia, mas não resisti a ir ver uma construção religiosa muito interessante e bizarra que me apareceu na berma da estrada!

Uma igreja redonda, no meio dos prédios, ou mesmo em cima deles!

Descobri que é a Cattedrale di Cristo Re, (não sabia que eles diziam Re e não Rei!) que foi projetada nos anos 20 mas apenas consagrada nos anos 70, depois de muita lavoura, de guerras, atrasos, reestruturações do projeto inicial, e vários arquitetos se debruçarem sobre ela!

A construção é redonda e sem janelas visíveis, o que provoca uma luminosidade curiosa e inspiradora!

Há dois tipos de igrejas/catedrais que me fascinam, as muito antigas, desde o início da cristandade até ao final do gótico, e as muito modernas, para a frente do final do séc. XIX início do séc. XX! No entretanto, entre umas e outras, as renascentistas, barrocas e tal, são interessantes mas não me provocam as mesmas sensações… manias!

Tem no meio do teto, aquilo a que eles chamam um olho, extraordinário! E a sensação que provoca é única!

E siga para San Gimignano!

Há muita coisa que eu ainda quero visitar na Toscana e uma delas era esta terrinha medieval, com as suas torres que lhe dão o nome de Cidade das Belas Torres!

A cidadezinha estava cheia de gente, o calor era insuportável e havia momentos em que eu não tinha mais a certeza se queria visitar a cidade, ou andar de moto ou deixar-me cair para o lado! Acho que parei em todas as esplanadas para beber mais qualquer coisa, a cada vez que os meus miolos pareciam ir começar a fumegar!

Realmente as torres são muitas por ali, a gente pode vê-las em todas as praças a espreitar lá de cima!

A Praça Cisterna tem o poço no meio e os turistas entretêm-se a atirar moedas lá para dentro!

Fez-me lembrar o guia do Palácio de la Aljaferia em Saragoça que, junto ao poço Da Torre do Trovador, dizia que os turistas adoram atirar moedas para todos os poços que encontram, por isso se alguém o quisesse fazer e não tivesse moedas ele aceitava cartão de crédito! Eheheheh

E é verdade e quase patético, encontram-se moedas em tudo o que é poço, lago, ou pocinha de água por essa Europa fora!

Tinha de seguir o meu caminho porque, apesar de tudo, era menos penoso conduzir moto do que caminhar debaixo de 40 tórridos graus de temperatura! Ao longe podiam-se ver as torres irregulares da cidade!

Ainda parei em Siena!

Estava a precisar demais de voltar a beber qualquer coisa!

Por aqueles dias eu já quase não comia durante o dia, apenas bebia, bebia e voltava a beber! A sensação de que a água aquecia rápido demais fazia-me parar a cada momento para a beber antes que ela aquecesse, lá trás na mala, que mais parecia um forno.

Siena, aquela cidade tão antiga que a sua história quase se perde na história! Fiz amizade com um pintor de rua que estava a pintar uma imagem religiosa no chão.

O sol ajudava a valorizar as cores e a tornar a obra mais viva e interessante, mas estava a torrar os miolos ao homem!

Depois é caminhar pelas ruas antigas e estreitas, com praças que se abrem rodeada de construções que são autênticos monumentos grandiosos e que estão por todos os lados. Aliás, a cidade é conhecida por isso mesmo, pela harmonia e magnificência da sua arquitetura que faz do seu centro histórico um autêntico museu ao ar livre!

E de repente, por umas “portas” aparentemente pequenas, entra-se na grande e ampla Piazza del Campo, com o Palazzo Pubblico e a sua enorme torre ao fundo.

Parei logo ali a tomar uma grande cerveja gelada à sombra! A paisagem e a possibilidade de apreciar detalhadamente o que me envolvia justifica perfeitamente a fortuna que uma cerveja custa por ali!

A Torre dei Mangia tem 88 metros de altura e as suas paredes têm 3 metros de espessura mas, o que me fascinou mais foi a história do seu nome! Dizem que ela deve o seu nome à alcunha do seu primeiro guarda “Mangiaguadagni” que gastava tudo o que tinha em comida!

Como eu entendo o senhor!

Isso fez-me lembrar quando há uns tempos eu dizia que gastava tanto para comer sozinha como uma família de 3 ou 4 pessoas e que, se eu engordasse na proporção do que como, já não caberia nas portas! Eheheheh

Fui ver aquilo de perto mas estava decidida a não entrar para ver interiores!

Por isso pus-me a apreciar o pátio interior e a brincar com perspetivas vertiginosas!

Uma guia giríssima, vestida como uma princesa, com uma sombrinha rendada prendia mais a minha atenção que a do grupo que lhe pagava os serviços!

Diz a lenda e a mitologia romana que Siena foi fundada por Sénio, filho de Remo, e isso é visível pela cidade já que há estátuas, gravuras e relevos representando os irmãos Romulo e Remo a serem amamentados pela loba, por todo o lado, como acontece em Roma.

A catedral estava cheia de gente, à fila e ao sol para a visita! Eu, ao sol, para visitar o quê? Nem pensar! Estão 40 graus e eu não morro por visitar coisa nenhuma! Por isso olhei-a por fora, debaixo de uma sombra, e mais nada!

A catedral é lindíssima, em gótico italiano, com os mármores policromados e tal, mas terei de a visitar noutra altura…

Bebi mais uma garrafa de água gelada por ali, a minha barriga já chocalhava com tanta coisa que eu já bebera, e segui pelas sombras nas ruelas estreitinhas da cidade.

Claro que ao chegar perto da moto já estava a morrer de calor e de sede de novo! Fui a uma lojita comprar mais uma garrafa de água. Não consegui abri-la, agarrei com a mão direita e torci com a esquerda e não consegui… voltei lá dentro e pedi ao senhor que ma abrisse! Ele ficou estupefacto “Então você conduz aquela moto grande e não abre uma garrafa de água?” – exclamou!
“Pois é, tenho a minha mão direita doente!” – expliquei eu e mostrei o meu dedo polegar inchado e paralisado. O homem ainda ficou mais escandalizado “E vem de tão longe com a mão assim naquela moto?!” – e arregalava os olhos incrédulo. “Não tem problema, eu consigo conduzir assim só não consigo abrir uma garrafa de água, mas isso não falta quem faça por mim!”

Segui viagem rezando dentro do meu capacete, que mais parecia um forno, por um pouco de ar fresco!

“Valha-me Deus oh S. Pedro, manda-me um pouco de ar fresco antes que eu morra esturricada!” – cantarolava eu dentro do capacete, quando estava mais fresco lá dentro, com a viseira fechada, do que cá fora!

Estranhei o céu azul, que parecia meio basso mais ao longe. Será nevoeiro? Isso é que era fixe desde que fosse fresco! Mas claro que não devia ser nevoeiro, afinal o céu mantinha-se azul, apenas basso, fosse pelo que fosse.

Mas qualquer dúvida foi imediatamente esclarecida à medida que fui andando! Grossas pingas começaram a cair, como torpedos em cima de mim! “Chuva?” sim cada vez mais forte, pingas que “enchiam baldes”!

De repente entendi que, ou parava para guardar a maquina fotográfica, ou iria expô-la a um banho. E assim foi, parei na berma da estrada e, tão depressa guardei a máquina, começou o diluvio! Chuva tão intensa que em breves momentos me molhou toda, enquanto eu vestia o blusão. Oh que bem que soube, a temperatura desceu vertiginosamente e a rua virou um pequeno rio. Eu quis dançar no meio da rua!

O céu não deixou de ser azul, a nuvem mijona não era negra, a temperatura desceu para os 23 graus e eu segui caminho naquele temporal surrealista!

Uns 10 ou 15 km à frente tudo era sol e calor, voltei aos 40 graus e tudo secou em mim, como se nada tivesse acontecido!

“Oh S. Pedro, se realizas assim os sonhos de quem te pede vou recorrer mais vezes a ti!”

Cheguei a Rimini ao entardecer, onde um ambiente noturno de praia me esperava, numa festa constante. O hotel era gerido e assistido por pessoal russo muito simpático que me tratou muito bem e acomodou a minha motita nas traseiras do edifício, longe de olhos curiosos.

E fui-me encher de comida pois começava a ter receio de ficar fraca de apenas beber e pouco comer!

Aquela terra é uma animação de música nas ruas e esplanadas e montes de movimento! A noite estava bem mais fresca e agradável que o tórrido dia, por isso deixei-me estar por ali a curtir o ambiente e a falar com uns e com outros!

E foi o fim do 7º dia de viagem.

**** ****

(continua)

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2 thoughts on “1 . Passeando pelos Balcãs – Rumo à Roménia

  1. Como tenho inveja (da boa) não imagina como gosto de lêr as suas crónicas de viagem porque me dá também ideias.
    Obrigado pelos momentos de lazer que vou tendo enquanto trabalho.

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