36. Escandinávia 2017 – de Helsínquia até Turku…

24 de agosto de 2017

Havia uma ou duas coisas que eu queria ver na capital e dediquei-lhes toda a manhã. É pelo pequeno almoço que eu decido o que fazer em cada dia, não importa o que tenha planeado em casa.

Mas eu conheço-me bem e sei do que preciso quando estou há muitos dias na estrada: passear sem pressas! E foi o que fiz naquele dia, passeei por Helsínquia e deixei-me ir ao sabor do muito tempo eu tinha, até ao meu destino, que não era muito longe.

Terminara o dia anterior junto da Catedral Ortodoxa e começava o seguinte na Catedral Luterana! Como eu pareço religiosa em viagem, heim?

Eu sou fan do estilo Neoclássico e o edifício não me deixou indiferente, tenho de confessar! É lindo a meus olhos, com as suas linhas sóbrias e interior quase excessivamente simples. Mas a vantagem dos templos simples é que os pormenores mais elaborados brilham em toda a sua beleza, e eu gosto disso!

Aquela simetria perfeita, tão típica no estilo, era fascinante!

Ao fundo da escadaria a praça do Senado – a Senaatintori – ainda estava a despertar! Gosto das coisas assim, antes da multidão as inundar!

Mas a minha ronda religiosa não terminaria ali!

Havia mais uns templos que eu tinha de visitar e que me haviam chamado ali desde muito tempo atrás, como a Hiljaisuuden Kappeli – a Capela do Silêncio!

Por entre o movimento e as tralhas da praça Narinkka, a capela luterana parece uma escultura gigante!

O contraste com a envolvência faz brilhar a construção, tão simples quanto fantástica!

Não se percebe logo como se entra no edifício, mas a planta está disponível no vidro do centro de interpretação.

A entrada faz-se por lá, como por uma antecâmara do silêncio! E ele estava mesmo lá dentro, não havia multidões, nem turistas, nem curiosos. Apenas eu e o silêncio!

“A capela foi construída em 2012, como parte do programa “Helsínquia, Capital Mundial do Design”, a partir de um projeto de Kimmo Lintula, Niko Sirola e Mikko Summanen, vencedor dos Prémios Internacionais de Arquitetura de 2010. O projeto espetacular deste edifício tornou-o num dos lugares mais reconhecidos da arquitetura contemporânea.”

(Do site da capela)

As suas linhas fascinaram-me!

A ideia era que as pessoas se isolassem do movimento e confusão do dia-a-dia e se encontrassem consigo próprias naquele mundo de serenidade e o objetivo foi completamente alcançado!

Não sei quanto tempo estive lá dentro, mas foi muito! Simplesmente perde-se a noção do tempo e, quando se chega cá fora, é como se tivesse saído desta dimensão e tivesse dado um passinho até à eternidade e voltado!

Ainda envolta na sensação boa que a visita à Capela do Silêncio tinha deixado em mim fui até à Temppeliaukio kirkko. A Igreja fica no meio de uma zona residencial, onde as motos ainda dormiam de pijama, mas o movimento à porta da igreja era bastante e eu percebi que não sentiria o encanto que desejava.

Construída no final dos anos 60 do século passado, fica meio subterrânea, escavada num imenso rochedo, em forma circular, e de fora quase nada se vê. O que se vê não deixa imaginar que estamos à porta de uma igreja!

Uma pena que estivesse cheia de gente que não arredava pé das suas selfies, porque quebravam o seu encanto!

A pedra em bruto contrasta com os materiais utilizados de uma forma harmoniosa e surpreendente.

Até a água benta tem direito ao seu pedaço de espanto!

O teto é elevado do limite da rocha em redor, por uma infinidade de janelas que permitem uma iluminação perfeita do imenso espaço.

As cores são garridas o suficiente para darem cor a um ambiente que tenderia a ser apenas cinzento.

Claro que tive de ir explorar o exterior e entender onde aquilo estava enfiado! E, do lado de fora, apenas a cúpula é visível.

Pode-se subir e passear em redor, conscientes de que estamos a passear em cima do corpo da igreja!

Depois de umas horas de passeio pelo mundo da arquitetura religiosa da zona, parti finalmente na direção de Espoo. Claro que eu sabia que o momento religioso apenas terminada em Helsínquia, pois havia mais igrejas no meu caminho que eu não poderia deixar de visitar!

Que fazer, com coisinhas tão lindinhas a aparecerem no meu caminho?

A catedral de Espoo parece-se mais com uma igreja apenas, é luterana, medieval e é linda!

Fica numa pequena colina, junto ao centro da cidade, com o cemitério a ladeá-la, como um imenso jardim.

Depois seguiu-se um percurso cheio de pequenos momentos de beleza, afinal estava no pais dos mil lagos e outros tantos rios!

Espreitando como vivem as pessoas

Em terras cujo nome não lembra ao menino Jesus!

Mas com pequenos encantos dignos de uma paragem para picnicar!

Até chegar a Turku, onde estacionar a minha motita no meio das bicicletas não pareceu perturbar ninguém!

Porque o rio Aura era logo ali e valia pena passear em redor!

E sim, ainda havia mais uma igreja para ver por dentro! A catedral de Turku, a igreja mais importante da Finlândia. Afinal Turku é a cidade mais antiga do país, por isso naturalmente as coisas são antigas e importantes por lá!

Muita coisa se passava em torno da igreja e foi curioso descobrir que ela funciona um pouco como o Big Ben, dando horas para o país!

Naquele dia havia vários grupos de jovens preparando alguma apresentação. Apreciei particularmente um grupo de anjinhos e diabinhos adolescentes. Foi curioso apreciar a sua dinâmica de concentração e empenho.

E a minha casa seria um barco naquela noite!

O meu camarote era pequerricho mas com espaço para tudo.

Mas as salas de estar, o bar e o restaurante eram suficientemente grandes para que eu me esticasse por ali!

E o convés simpático para apreciar o entardecer

Amanhã partiria para Estocolmo num outro barco num cais ali perto.

 

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35. Escandinávia 2017 – por caminhos locais até Helsiquia …

23 de agosto de 2017

(continuação)

Ainda fui até Kotka, mas não me entusiasmou tanto a cidade como a vida das pessoas por lá!

Os caminhos da miudagem continuavam a fascinar-me!

Enquanto os pequenitos pedalavam suas bicicletas até às escolas, os mais cresciditos deslocavam-se em pequenas motos!

Parece que por lá os papás não são tão preocupados nem super-protetores como cá que, mesmo por pequenas distâncias, preferem levar os seus rebentos de carro até às portas das escolas, provocando longas filas de trânsito por horas!

Mas acabei por dar apenas uma pequena volta pela cidade, não estava cm vontade de ver monumentos nem de me meter no meio das pessoas, mas sempre me atrai ver como se vive num local onde nunca fui!

Estava a preparar-se um concerto na igreja e os rapazes que recebiam as pessoas convidaram-me a entrar. Simpáticas as pessoas por ali. Claro que acabei por apreciar a igreja ao som da musica, ante o olhar curioso de alguns presentes!

Mas eu não perderia muito tempo por ali, apenas dei uma volta apreciando pormenores curiosos, como o deposito da água numa zona alta da cidade, surrealista como um objeto gigante alienígena…

Mas cruzar com uma velhinha de andarilho foi, na realidade, o ponto alto da minha visita à cidade!

Uma coisa que eu tinha apreciado desde que andava por países escandinavos, era a dignidade com que as pessoas idosas se moviam e se “impunham” ao mundo. Nada daquela postura triste e quebrada do velhinho coitadinho!

O andarilho era tipo trotinete de 4 rodas e ela vinha a descer a rua em velocidade, empurrando com o pé e deslizando!

Depois subia os dois pés e deixava-se ir e quando eu pensava que ela não iria conseguir travar, eis que o fantástico veiculo tem travões, ela aciona-os e para, como qualquer condutor civilizado.

E la foi ela, deixando-me com uma imensa vontade de ser velhota na Finlândia!

Deixei a cidade com vontade de explorar caminhos que ninguém faz! Claro que por ali os caminhos podem converter-se mesmo em caminhos a qualquer momento, quando o alcatrão acaba de repente, em linha reta, e apenas sobra terra batida para rolar!

Depois só resta explorar assim mesmo!

E vale a pena explorar caminhos desconhecidos, que não vêm em roteiros turísticos e onde apenas os residentes passam!

As casas quase nem se veem, por entre as arvores, mas são lindinhas e acolhedoras, quando a gente se aproxima

“Os pequenos encantos de populações que vivem longe do turismo e apenas gostam de embelezar o seu caminho, sempre me atraem mais que os sítios míticos e incontornáveis de um país! É explorando a sua vida real, feita de gente comum, que eu encontro o sentido de viajar, porque o que é preparado para turista ver, tem o valor que tem e nem sempre é verdadeiramente representativo do que procuro. Por isso, enquanto os turistas correm de local em local, com visitas guiadas e entradas pagas, eu estou, por vezes, no meio de nada a sentir cada pequeno recanto anónimo como se fosse monumental!”

(in Passeando pela vida – a Página)

E tudo era tão inspirador!
Conduzir pelo silêncio da beleza da paisagem, com um céu cheio de nuvens que tornavam cada enquadramento perfeito!

Oh, aqueles caminhos eram lindos!

Encontrei o memorial aos 500 anos da aldeia de Perheniemi!

E as paisagens eram todas minhas! Não havia ninguém por ali em todo o meu caminho, feito de lagos e rios por todos os lados!

E cheguei a Hämeenlinna. Eu sei que a cidade é engraçadita, mas a agua fascinou-me muito mais, então perdi-me por ali, por entre locais meio abandonados cheios de encanto!

Sentei-me ali e fiz um pequeno picnic que ficará para sempre na minha memória, pela beleza e sossego que todo o ambiente lhe conferiu!

Havia uma casinha na borda do lago, onde eu me sentei por muito tempo. É nestes momentos que eu escrevo coisas, desenho um pouco, ou simplesmente nada faço para além de apenas olhar!

E assim do nada se faz um momento memorável!

Embora parecesse o fim do dia, era apenas o efeito das enormes nuvens, porque eu chegaria a Helsínquia bem a tempo de ver o dia terminar!

Ainda cheguei a tempo de tomar um café (caríssimo e miserável, mas que soube bem!), ouvir uma musica e passear pela cidade!

E subir até Catedral de Uspenski para ver o pôr-do-sol

A perspetiva lá de cima era tão inspiradora…

Que deixou um gostinho inesquecível na minha memória e que quero um dia voltar a sentir!

Amanhã seguiria para a costa Este…

34. Escandinávia 2017 – Passeando por Porvoo …

23 de agosto de 2017

Tinha o dia todo por minha conta para fazer muito pouco!

Eu gosto de me deixar assim, ao sabor do vento, com um recanto ou dois para passar e o resto para desfrutar! Faz bem, numa viagem cheia de quilómetros, não pensar muito um dia ou outro!

O sul da Finlândia tem vários recantos que eu gostaria de visitar, mas naquele dia apenas me deixaria andar por ali!

A pouco mais de 50 km de Helsínquia, depois de uma condução quase em modo automático, fica Porvoo. Era muito cedo quando me despachei e saí para passear por isso permiti-me deixar-me andar até lá sem mais nada em mente senão ir!

Era cedo, no dia e no mês, mas a miudagem já estava na escola! Eu pude acompanhar o percurso de pequenos bandos de bicicletas pelas ruas, mas chegar junto de uma escola e ver o parque de estacionamento dos miúdos, fascinou-me! Quantas bicicletas!

E à medida que outros chegavam, estacionavam direitinho as suas no meio das outras e seguiam para o edifício sem nem as fechar!

A zona antiga da cidade era logo ali, muito bonita com as suas casinhas em madeira, pintadas de cores luminosas e a convidar para explorar cada recanto!

Porvoo é a segunda mais antiga cidade da Finlândia e é linda!

Pelos quelhos, que saem das ruas mais principais, pode-se chegar a recantos lindos, cheios de cor e encanto.

Alguns desses caminhos são privados, mas ninguém pareceu preocupado com a minha curiosidade em espreitar!

Então cheguei à Praça do Mercado. As praças centrais das cidades antigas chamam-se sempre praças do mercado pela Europa toda, eu acho!

Logo ali ficam dois museus, o Porvoon Museum, Holmin Talo e o Borgå Museum, Gamla rådhuset. Não visitei nenhum pois estavam fechados, mas explorei os quintais por trás do Porvoon Museuo, Holmin Talo e eram encantadores!

Aparentemente aquelas casas tortas, com paredes de madeira meio inclinadas, parecem apenas esperar para cair, mas olhando melhor, são sólidas e são lindas, com as suas cores garridas impressionantes!

Na antiga câmara da cidade funciona o museu Borgå, uma excelente paisagem para acompanhar o meu pequeno almoço!

O café Fanny! Como em tantos outros por aqueles países, o café é de chaleira, a parecer mais chá do que café, é caríssimo e estás feito à nossa espera, como se fosse normal! Para eles até pode ser, para mim nem por isso!

Ok, venha dai o cafezinho, tipo mijoquinha, e o croissant, que quando não há pão até migalhas vão!

Só faltou um pouco de sol a acompanhar o café da manhã, em tão inspiradora paisagem!

Seguindo pela ruinha estreita, logo a seguir ao café, vai-se ter à catedral, a Porvoon Tuomiokirkko!

A igreja é dedicada a Santa Maria e as partes mais antigas são do século XIII.

Os vestígios góticos devem-se à sua reconstrução no século XV depois de diversas destruições. Mas grande parte do seu ar atual é bem mais recente. Enfim, parece que as igrejas são sempre vitimas de incêndios e catástrofes ao longo da sua existência, por isso nada é mais como era, nos dias de hoje!

E há muita beleza no edifício, com pormenores que prevaleceram e continuam a cativar, mesmo tendo o telhado da igreja sido completamente destruído pelo fogo em 2006!

Aparentemente por ali não há distinção de género! Junto ao campanário uma mocinha cuidava do empedrado do chão com muito profissionalismo!

Confesso que nunca tinha visto uma calceteira, mas tenho de admitir que é um trabalho que até condiz bem com a minucia feminina!

O rio Porvoonjoki é logo ali e na sua margem ficam as casinhas de madeira mais encantadoras, todas em castanho avermelhado e preto e com vista privilegiada para a água.

Dei a volta com a moto e fui até ao outro lado do rio. Eu tinha de ver tudo aquilo noutra perspetiva!

Vista desde o outro lado do rio a cidade é muito bonita!

As horas e as explorações que eu dediquei àquele cantinho finlandês!

E sim, encantei-me com Porvoo!

(continua)

33. Escandinávia 2017 – Descendo a Finlândia até Helsínquia

22 de agosto de 2017

Embora eu goste muito do Natal e de todas as tradições a ele ligadas, visitar a terra do pai natal não era um sonho meu, na realidade eu nem sabia muito bem o que iria encontrar, mas fui até lá, claro! E o que me fascinou foi encontrar aquilo tudo vazio, sem turistas nem visitantes, apenas eu passeando por ali.

Gostei de caminhar sobre a linha do Circulo Polar Ártico, pousar as minhas rodas sobre ela e fazer uma pilha de fotos

Na realidade esse foi o ponto alto da visita ao local, mais do que todas as atrações que ele pode oferecer.

Então, andava por ali toda animada a explorar, quando uma velhota pequenina se acercou de mim. Eu vira-a sozinha e percebera que me observava, mas achava que se devia ter afastado de algum grupo. Mas não, andava sozinha e vinha de muito mais longe do que eu, vinha da Austrália!

“Registos de viagem – 10

Mulheres sozinhas a passear é outro nível! 😉
Encontrei esta avozinha australiana, que anda a passear pela Europa sozinha! Dizia ela que se estivesse à espera de companhia morreria sem ver o que queria! Grande abraço na despedida, com muitas fotos comigo e a minha moto, para mostrar aos filhos e netos que as mulheres na Europa são grandes e corajosas! Adorei!”

(in Facebook)

Eu fiquei tão maravilhada com ela como ela comigo! Acho que a minha dimensão a impressionou, na realidade eu parecia uma gigante perto dela! Quis-me tirar uma foto para levar e mostrar à família e amigas, mas que apanhou mais chão do que paisagem! eheheheheh

Tomamos um café juntas e contou-me a sua história, a mãe falecera e dissera-lhe para usar o dinheiro que lhe deixava para realizar o seu sonho de viajar até à Europa. Ela tentara convencer uns e outros para irem com ela, mas ninguém tivera coragem nem vontade de viajar para tão longe, então ela partira sozinha, antes que passasse tempo demais e não tivesse mais capacidade de o fazer. E lá estava ela nos seus quase 70 anos toda feliz!

Claro que tirei uma série de fotos à minha moto junto à linha que separa o nosso mundo do Polo Norte, como eu dizia!

A minha motita minúscula junto de uma linha!

Uma coisa que eu aprendi em viagem é que, onde há turistas há moedinhas em qualquer laguito ou poça de água e cadeados nas pontes, onde há motards há autocolantes nas tabuletas…

É uma sensação curiosa estar em agosto a passear num local onde é sempre Natal…

e onde o comércio está sempre a condizer coma época, mesmo fora de época!

E a verdadeira cidade do Pai Natal é um recinto onde se paga para visitar, como a Disneyland ou algo do género. Por isso nunca me despertou o interesse e por isso nunca fiz questão de visitar!

Eu gosto do Natal natural, quando os enfeites se acumulam pelas ruas, de lojas e casas, gosto do espírito e do nada que é passear e viver. Não aprecio encenações brilhantes, com meninas e duendes a tentar animar o ambiente com toda a alegria forçada que estes parques conseguem ter… por isso não entrei!

Apreciei o ambiente em redor, acolhedor e muito mais de acordo com o que esperava ver.

E disse adeus áquilo tudo, com os cartazes que prometiam muita diversão a não me cativarem minimamente!

Eu sabia que me esperava um caminho com muito pouco para ver, a Finlândia não é o país mais variado em termos de paisagens que se pode encontrar, por isso teria um belo dia para pensar, ouvir musica e, quem sabe, desenhar um pouco!

E aquele seria um dia meio histórico na minha vida!

“Registos de viagem – 11

Vou contar-vos um segredo…
Quando fiz as contas aos quilómetros que fiz com todas as minhas motos, conclui que, quando a Negrita completasse 58.000km, eu completaria 900.000…
Ora esse momento foi hoje!
Estou a celebrar o feito com uma cerveja que fala uma língua estrangeira, mas é fixe!
PARABÉNS para mim”

(in Facebook )

Parei em Oulu mas nada me inspirava para além de a bela cerveja e unas Riisipiirakka, as pequenas tortas de arroz que acompanham bem com tudo pois nem são doces nem amargas.

Nem me tentei misturar com o povo, estava muito movimento nas ruas e eu já não estava habituada a tal!

E as ideias fluem quando se conduz por horas sem mais nada para fazer, por vezes sistematizam-se experiências de uma forma tão lógica que vale a pena comunica-las ao mundo! Escrevia eu a dada altura:

“Registos de viagem – 12

6 vantagens e 1 desvantagem de se viajar de moto com frio:

1. A cerveja nunca fica quente, mesmo quando guardada por horas na top-case!

2. Nunca temos dúvidas sobre o que vestir: tudo!

3. Não faz mal estar-se gordo, ninguém vai notar com toda a roupa vestida.

4. Ninguém nos vai achar loucos, feios ou gordos, afinal todos os motociclistas na estrada se parecem connosco!

5. Há sempre espaço na moto para mais comida, a roupa está toda vestida por isso libertou espaço.

6. Não há problema se chover, afinal o fato de chuva também está vestido desde manhã para ajudar a combater o frio!

A desvantagem…

Que não haja necessidade urgente de ir ao WC… com toda a roupa vestida será um desastre!!!”

(in Facebook)

Claro que faltou ali um último ponto que pude experimentar dias antes!

7. Em caso de queda toda a roupa vestida nos protege, qual hair-bag à nossa medida!

E se os nomes das terras, até ali, eram curiosos por vezes, ali eram curiosos sempre!

E a Finlândia é um país encantado, feito de lagos que se sucedem como pocinhas de água por todos os lados. Alguns tão inspiradores que é preciso parar para olhar, mesmo não havendo nem um recanto na estrada para o fazer!

Outros têm belezas quase invisíveis para quem passa correndo para o seu destino.
E a sensação, por vezes, era de que a seguir à berma da estrada ficava o céu e infinito, quando a agua vinha até ela e reflectia o céu, como um espelho perfeito!

E assim cheguei a Helsínquia… cheia de vontade de continuar a explorar o sul do país!

32. Escandinávia 2017 – Até Rovaniemi, o dia em que eu caí!

21 de agosto de 2017

(continuação)

De repente eu não queria ir embora!

Eu sabia que a Finlândia era muito menos interessante do que a Noruega e queria ficar mais um pouco!

Mas o meu tempo não é infinito e eu tinha de começar a descer no mapa…

Voltei a percorrer o caminho que me levara ao Cabo Norte, mas com mais lentidão ainda, tentando absorver todas as persptivas possíveis da paisagem.

Toda a serenidade envolvente era ainda mais fascinante do que na subida, apenas porque eu estava a ir embora…

E as Renas eram ainda mais, deviam ter acordado no entretanto e saído para o pequeno almoço!

Vou sempre associar o Cabo Norte e a ilha de Magerøya a toda a serenidade que senti naquele dia

As gaivotas pereciam bolinhas brancas nas encostas das escarpas

E não havia ninguém no mundo para além de mim e da minha moto

Pessoas vivem ali, longe de tudo e de todos, e nem as localidades são feitas de proximidade, como se cada casa se isolasse das outras e cada um cuidasse de si

Os momentos de beleza foram inesquecíveis e ficariam para sempre gravados na minha memória

Quanto tempo fiquei por ali, apenas olhando em redor…

As Renas chegavam-se tão perto que eu quase as conseguia tocar

Como é possível ter-se saudades de um sitio que se acaba de conhecer?

Como é possível já se sentir essas saudades quando ainda se está a sair do local?

Eu sofrera tanto a fazer aqueles caminhos no dia anterior, e agora estava ali, toda enternecida e cheia de pena de ir embora!

Adeus Noruega!

E à medida que me afastava na direção da Finlândia o tempo ia melhorando!

O céu ía ficando mais azul, mas a paisagem ía perdendo o encanto. Eu já sabia que iria ser assim…

Fez-me lembrar quando atravessei os países da ex-União Soviética, quando ia a caminho da Rússia, estrada sem paisagem!

E lá estava a placa a anunciar a entrada no pais, cheia de autocolantes como qualquer sitio onde passam muitos motards!

Eu tinha decidido visitar a Noruega primeiro e só depois ir para a Finlândia precisamente por causa desse “deserto” esperado.

Uma coisa que a vida me ensinou foi a visitar primeiro o que eu tenho mais ânsia de ver e só depois o resto. No caso de algo acontecer, o que eu já vi ninguém me pode mais tirar!

Mas a monotonia seria quebrada em breve!

“Registos de viagem – 9
Entra-se na Finlândia e a estrada não tem fim de monótona, então começam as obras! Quilómetros de estrada sem pavimento, onde são acrescentadas novas camadas de saibro e cascalho para voltar a alcatroar. 20 km disto! E quando já estava a habituar-me ao piso aventura e me aproximo por fim dos trabalhadores, uma máquina começa a trabalhar e um bando de Renas desata a correr para a estrada! Eles assustaram-se com o barulho, eu assustei-me com eles… ser atropelada por Renas estava fora dos meus planos! Correu tudo bem, nem eu nem a Negrita nos magoamos.”

(In Passeando pela vida – a Página)

A sensação de ver uma série de grandes bichos a correr na minha direção foi assustadora, eu não sabia se se desviariam de mim ou saltariam por cima. Acho que algumas saltaram mesmo!

Um dos trabalhadores veio na minha direção, certificar-se de que eu estava bem e ajudar-me a levantar a moto. Eu sei que a moto no chão não parece tão grande quanto ela é e o tipo, que era bem grande, não parecia ter força para me ajudar a levanta-la! Ele simplesmente estava escandalizado por eu andar ali sozinha com uma moto tão pesada e não havia maneira de fazer a força suficiente para a levantar.

Puxe homem, dizia eu, com mais força!

E ele perguntava pelos meus amigos, de onde eu vinha, de onde era e só fazia o barulho de quem puxa, mas a força era nenhuma! Quando finalmente levantamos a moto, quem estava exausta era eu, pois era a única que se esforçara realmente. Enfim! Lá ficaram eles a comentar entre eles e a ver-me ir embora, cheios de espanto…

Eu nunca tinha caído, ou sequer deixado a moto cair, numa viagem, aquela foi a primeira vez que tal me aconteceu! Eu, que stresso quando cruzo com vacas, porque sempre que os bichos são maiores do que eu e a minha moto, me sinto vulnerável, não esperava ser derrubada por renas.

E nada de novo se passou até Rovaniemi, para além da monotonia esperada…

Nunca tive particular desejo de visitar a terra do Pai Natal, mas já que ficava no meu caminho iria lá dormir uma noite. Lá estavam os chalés iluminados à minha passagem, iria lá passar no dia seguinte para dar uma olhada.

O meu hostel era bonitinho e tinha um excelente bar no ré-do-chão. Era tudo o que eu precisava depois de um dia de viagem como aquele.

De alguma forma sentia-me meio triste por estar a regressar com tanta coisa espantosa que deixei por ver, lá para trás…

… mas amanhã eu iria seguir para o sul, onde tudo voltava a ser interessante