2022… história de uma viagem adiada 2

Um dos meus grandes receios foi sempre cair de moto e ficar incapacitada de conduzir. E, por vezes, os pesadelos realizam-se! Foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu quando caímos e eu vi o meu braço transformado num grande S… Apanhei-o do chão com cuidado e ajeitei-o junto à barriga, esticando-o e pondo os ossos mais ou menos no sitio, já que os sentia moverem-se fora da articulação debaixo da minha mão direita…

Instintivamente tentei acalmar o meu moçoilo, que estava meio em estado de choque ao perceber a gravidade do meu estado. Um senhor lavrador que passava no local ajudou a pôr a moto de pé, pois ela estava numa posição muito difícil, com a cabeça para baixo e as rodas para o ar, já que a ruela onde caímos era muito inclinada. Subir na moto estava fora de questão, eu tinha de manter os ossos no sitio, com o braço pressionado conta mim, bem seguro sob a mão direita. Caminhei assim, debaixo do calor, até um ponto mais seguro, para depois irmos até à estrada e então ir para o hospital de ambulância.

Se tivesse sido operada imediatamente, teria começado muito mais cedo a recuperação, assim tudo demorou mais. Agora a recuperação está a andar bem, mas é sempre tudo muito custoso e lento! Nada a fazer!

E eu, que detesto andar de carro, nunca andei tanto num como agora!

A minha bolinha nº8 é a minha companhia de todos os dias, como os miúdos que não largam o seu brinquedo. Ela é mole, mas dou comigo a confirma-lo de vez em quando com a mão direita já que na esquerda ela parece uma verdadeira bola de bilhar tão dura!

Os estragos na moto são mínimos e isso é uma grande coisa ou a minha dor seria muito maior, tenho a certeza!

E os meus acabarão por ficar reduzidos a uma linha no pulso… espero!

A motita vai ajudando na recuperação, tanto física como emocionalmente, porque tudo é mais animador quando se tem um objetivo à vista!

E sigo recuperando as forças, porque a embraiagem é uma mola excelente para exercitar uma mão esquerda!

Mas afinal, quem apenas anda de moto há tanto tempo, quantas vezes ficou incapacitada para conduzir?

Pois, isso é comigo! Conduzo desde os 13 anos, sempre motos de grande cilindrada e grande peso, deveria ter uma história negra. Claro que caí e bati algumas vezes, é inevitável, quem anda tanto na rua por tanto tempo já foi ao tapete algumas vezes! Mas não tantas quanto seria de prever! Deixar cair a moto para o lado não é nada, e mesmo isso aconteceu pouco e principalmente com a minha primeira moto alta. Eu vinha habituada a motos mais baixas e, quando comprei a Transalp, custou-me um bocado processar que o chão ficava mais longe que o habitual, embora as minhas pernas sejam longas.

Acidente incapacitante, na realidade, aconteceu agora pela 2ª vez. Isto é, é apenas a 2ª vez na minha vida que fico muitos dias sem poder conduzir!

Acidentes complicados foram 3, mas do primeiro eu conseguia conduzir, embora os estragos em mim tivessem sido mais que das outras vezes. Enquanto tenho forças nas mãos para segurar o guiador nada me prende em casa.

E então quando foi o tal outro tombo que me deixou sem conduzir por um mês e meio?

Estávamos em 2002, eu andava a tratar de comprar a minha primeira PanEuropean, quando, por uma situação de encandeamento pela luz forte na escuridão, calculei mal a trajetória e derrapei na areia ao tentar desviar-me de um obstáculo inesperado…

A minha Varadero rodopiou sobre si e levou-me junto, destruindo o dedo médio da minha mão esquerda, para além de outros ferimentos. Naquela noite, depois de ter alta no hospital, fui levada para casa de uma amiga e na manhã seguinte o meu moçoilo foi visita-la e ficou por lá a ajudar a cuidar de mim. Eu sou bastante alta, a minha amiga era pequenita e a ajuda do Filipe foi bem-vinda, já que eu tinha até medo de me apoiar em alguém tão baixinho quanto ela.

Foram muitos dias sem ter a certeza se se conseguiria salvar o bendito dedo maroto!

O meu moçoilo cuidou de mim todo o tempo: levou a minha Varadero para a oficina, trouxe a PanEuropean nova para casa, levou-me aos curativos, cozinhou para mim e, quando tive de sair da casa da minha amiga, ele veio comigo para minha casa continuar o seu trabalho, pois eu ainda não era autónoma e precisava que cuidassem de mim!

Isso quer dizer que ficou a cuidar de mim até hoje, pois estamos juntos desde então! E, vinte anos depois, cá voltamos à primeira forma: agosto de novo e de novo ele a cuidar de mim… Não é irónico comemorarmos assim os nossos 20 anos?

PARABÉNS PARA NÓS!

2022… história de uma viagem adiada 1

Era um passeio simpático e relaxante, num local muito bonito e inspirador, mas com um acesso bastante complicado. E tudo corria bem quando tudo começou a correr mal!

Era o meu moçoilo quem ia a conduzir. Ele é um excelente condutor, por isso eu confio e por vezes ando à pendura, mas ele enganou-se no caminho e seguiu por uma ruela íngreme e difícil.

Eu quis parar para que a moto ficasse mais leve, assim eu poderia ir ver o que nos esperava e perceber se devíamos continuar. Mas ele não parou. Afinal a ruela era em paralelo e isso deu-lhe confiança para continuar.

Eu tinha razão, devíamos ter parado e eu desmontado…

Depois de um ziguezague, a ruela subia imenso, de forma irregular e com muitas ervas nas bermas e no centro. A moto resvalou nelas e perdeu aderência, derrapou violentamente para trás e caímos…

O meu braço ficou todo torto, percebi imediatamente que tinha uma fratura feia e terminou ali a ideia de viajar em agosto…

Apenas muitos dias depois fui operada. A cirurgia foi feita por entre os tendões do pulso e isso, aliado à inatividade do gesso inicial, provocou uma mão inerte e sem sensibilidade…

Só depois de retirar os pontos pude começar verdadeiramente a ginasticar a mão marota. E veio a dor da recuperação. Se antes doía pela fratura, agora doi todo o dia e toda a noite, porque tendões, nervos e músculos são muito difíceis de recuperar…

O regresso da minha moto a casa, depois de ter passado umas pequenas férias na oficina, é um incentivo para trabalhar esta mão, mas é também a consciência de quanto ela é incapaz de me deixar conduzir…

Eu não sou uma lutadora intrépida, mas também não sou uma covarde, por isso sigo tentando convencer esta mão marota a funcionar… mas ela ainda só leva a manete da embraiagem até meio!

E aqui continuo eu, no meio de toda a dor, de muito gelo para controlar o inchaço e muito exercício, celebrando pequenas conquistas como conseguir comer com faca e garfo, apertar os cordões das sapatilhas, pegar numa garrafa de água de 1,5l ou apoiar-me nas duas mãos para me levantar do sofá!

21.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Momentos de silêncio em baías de sangue e morte…  –

19 de agosto de 2019

Tempo encoberto, sempre a mesma bosta…

Eu tinha tantos planos para aquele dia mas o céu cinzento não me deixaria ir muito longe. Não há qualquer interesse em circular apenas para fazer quilómetros, se não puder ver nada no caminho!

A costa era tão recortada que valia a pena explorar enquanto o tempo não se revelava por trás da bruma, por isso passear em redor era sempre um programa interessante para se fazer.

Não sei onde as pessoas andavam, mas eu continuava sozinha por todo o lado, como se a paisagem fosse toda apenas para mim! Um cavalinho ao longe, era o único sinal de vida por muitos quilómetros de distância.

O que fazem as pessoas como trabalho para sobreviverem? Havia barcos, sinais de pesca, mas atividade nenhuma. Não percebo muito do assunto, provavelmente não era época de sair para o mar, sei lá!

É bom não ter a paisagem cheia de turistas, mas é um pouco triste não ver ninguém, de todo, em lado nenhum!

Eu tinha de pegar na moto e ir para mais longe, até onde o tempo me permitisse ir.

Na bomba de gasolina já me conheciam de passar todos os dias para bastecer. Não que o depósito da moto tivesse tempo de ficar vazio, mas porque era menos uma coisa para me preocupar. Sair sempre com o depósito cheio evita sempre stress na procura de onde abastecer!

Tudo parece alcatifado de verde, embora os montes fossem completamente carecas de vegetação, arvores, arbustos ou mesmo ervas altas.

Em cada curva um fiord. perde-se mesmo a noção de se estamos a percorrer uma ilha ou a passar para outra.

E encontrei uma das baías sangrentas… Apenas um ou dois meses antes tudo aconteceu de novo ali…

A emboscada das Baleias-Piloto, na realidade é muito ativa naquele fiord…

De alguma forma fiz um minuto de silêncio. Quanta paz num recanto que é afinal um recanto de morte. E eu que tenho uma simpatia especial pelas baleias em geral

Dizem que na área das Ilhas Faroé vivem cerca de 100.000 baleias-piloto, e todos os anos são mortas cerca de 800…

Mas a matança das baleias ocorre um pouco por todas as ilhas, mesmo nas praias de Torshavn. E os recantos de mar são tantos que é fácil imaginar como as pobres são empurradas para eles sem hipótese de fuga!

Tão estranho e fora de contexto as propagandas politicas naquelas paisagens, como se fizessem publicidade para minguem! Mas é claro que não falta quem percorra aquela rua, afinal é uma das que liga o norte da ilha à capital!

iria tentar seguir mais para norte, até onde o tempo mo permitisse. Quando não me permitisse ver mais nada não valeria a pena continuar!

Continuava a percorrer o caminho das baleias assassinadas…

E no fiorde de Vestmanna, apenas 2 ou 3 meses antes, baleias-piloto, machos e fêmeas com seus bebés, e golfinhos, tinham sido encurralados e assassinados às centenas… Imaginar aquelas águas vermelhas de sangue dava-me náuseas. Estamos no século XXI e mantêm-se tradições barbaras? Que tradição?

Eu não seguiria mais além, o tempo estava uma bosta, sem visibilidade alguma, não valia a pena seguir sem nada ver! Por isso voltei para trás até Leynar, o ultimo ponto do meu caminho em que o nevoeiro não tapava tudo.

Ok, vamos lá ver de perto uma baía sangrenta!

A aldeia é bonitinha, com água que corre por todo o lado, canalizada por regos controlados para lhe retirar a força.

Tanto procurei caixas do correio, até perceber que elas, para além de serem azuis, parecem particulares! Lá estava uma à entrada do lugarejo.

Como um sitio tão pacifico e desértico consegue reunir um grupo de caçadores de baleias para o grind?

A aproximação de um lugar de morte não deixa prever o que ali se passa de vez em quando. Parece apenas mais um lugar pitoresco e inofensivo!

Mas ninguém se deixe enganar pelos bonequinhos pintados nas pedras, nem pelo silêncio em redor, em abril daquele ano umas dezenas de baleias foram mortas ali…

Nada se ouvia para além do som da água que corria.

Mesmo os cavalinhos eram silenciosos, quando dei por ela estavam bem pertinho de mim e da minha moto cheios de curiosidade.

Eram pequenos mas muito simpáticos, deixaram até que eu os tocasse!

E desci à praia para pisar a areia negra, onde se realizam os rituais sangrentos.

O ritual de matança, conhecido como grind, ou adrap, realiza-se desde o século XVI.

Ele é iniciado quando os pescadores avistam baleias ou golfinhos no mar. Os bichos são empurrados para a baía, por barcos e jet skis, onde são puxados para a areia pelos caçadores que espetam um gancho nos seus respiradouros e depois cortam a medula espinhal com uma faca, para provocar uma morte rápida, dizem eles como se estivessem a fazer um favor a quem quer morrer!

A Islândia não pode entrar na Comunidade Europeia enquanto caçar baleias, mas as Ilhas Faroé recebem todas os benefícios da União Europeia, mesmo caçando baleias às centenas e violando a Convenção de Berna, porque tem uma isenção pela Dinamarca.

Médicos das Ilhas Faroé já concluíram que a carne e gordura de Baleia-Piloto contém muito mercúrio e dioxina e que, por isso, não é segura para comer.

Está mesmo estabelecida a recomendação sobre o consumo de carne e gordura de Baleia-Piloto: Homens adultos devem comer, no máximo, uma refeição de carne e gordura de baleia-piloto por mês.

Meninas e mulheres devem abster-se totalmente de comer gordura, se planeiam ter filhos ou se estão a amamentar. Os rins e o fígado da baleia-piloto não devem ser consumidos. Todas estas restrições ao consumo da carne de baleia, resultam que a maior parte do produto da caça seja, simplesmente, descartada no mar dando origem aos cemitérios submarinos descobertos pela Sea Shepherd…

Tudo isto deita por terra a teoria de que a caça é uma fonte de alimento e prova que é sim um desporto cruel e sangrento! E a vida continua!

Sentei-me na praia. As casinhas de telhados de turfa, rodeadas de relva verde, transmitiam apenas paz.

Tomei um café quentinho, da minha garrafa termos, e desenhei.

Um pequeno picnic, que estava na hora de comer, num ambiente muito bonito onde apenas faltava um céu azul.

Segui um pouco a rua até Skælingur e, espanto! Eu já vi bandos de tudo na montanha, até porcos, a passear na Transfăgărășan road, mas patos? Foi a surpresa total!

E pareciam muito confortáveis passeando pela montanha grasnando e abanando os rabos. Patos radicais, heim?

Eles tinham razão para estarem felizes, afinal a liberdade tem esse poder e a paisagem sobre o fiord era verdadeiramente inspiradora!

Do lado esquerdo ficava a ilha de Vagar, do lado direito a grande ilha de Streymoy.

Era o fim da linha, tinha de voltar a passar em Leynar para seguir para Torshavn, já que todas as ilhas pareciam estar submersas num denso nevoeiro.

Perto de Torshavn fica Hoyvík, uma população que pertence à capital e que tem uma área junto ao mar que me estava a atrair a cada vez que passava na estrada.

O tempo estava bem mais agradável ali, por isso caminhar um pouco e explorar os seus relvados até ao mar foi um momento muito zen.

E quando me deparei com uma cerca que, aparentemente, me impediria de prosseguir, havia uma escada para me ajudar a ultrapassa-la! Fantástico!

Não se notavam trilhos desgastados na relva, apenas um pouco pisada aqui e ali, o que não me mostrava muito bem em que direção eu podia ir, sem enfiar os pés em elgum rego encoberto!

E então percebi porque a cerca tinha uma escada para ajudar a ultrapassa-la em vez de simplesmente ter uma porta. As famosas ovelhas andavam por ali e, certamente, não seriam capazes de subir a escada e sair pela cerca, apenas os seres humanos o pediram fazer!

Senti-me intimidada pelos bichos, mas nenhum pareceu muito preocupado comigo!

Ainda bem, porque não tinham cara de amigos! A forma como olhavam para mim de lado não era nada acolhedora.

A erva era densa e fofa e o limite era o mar, com um rebordo de pedras a delimitar a terra.

Acho que o mar por aqueles lados não tem ondas! Talvez só com grandes temporais, sei lá, mas durante todo o tempo que ali estive, nunca as vi!

Parece que se pode andar por todo o lado, não há nada nem ninguém que nos impeça de caminhar à vontade. Também não há qualquer proteção, se alguém se entusiasmar e cair nas pedras ou no mar, paciência, tenha juízo e não choramingue!

Qualquer pedaço de mar tem mais uma ilha e outra, ou serão apenas pedras?

Há gente ali que tem como paisagem toda aquela imensidão de pedras, verde e mar!

E há recantos onde eu passearia a todo o momento se ali vivesse, porque seriam só meus para me sentar e relaxar com vistas incríveis.

E depois há as tais ovelhas que são mais que os habitantes das ilhas!

Pequenas casas de pedra são como museus vivos da história da habitação nas Ilhas.

Vivia-se de forma simples antigamente

As casinhas confundem-se com a paisagem. Efetivamente fazem parte dela como se fossem simples penedos no meio da relva!

Ha-as também de madeira no local, mas são mais recentes.

Nem sei como faria se viesse em carro para cá, quando eu ia para lá! Ambos tonhamos de encolher as barrigas para passarmos um pelo outro!

As capoeiras são bem giras por ali. Bem, naquele dia eram capoeiras, mas nos dias anteriores não eram galinhas que estavam ali, eram ovelhas! Seria uma habitação comunitária multi-espécie?

Muito amigáveis e sem medo! Vieram comer à minha mão como se fossem cãezinhos!

Embora Torshavn não seja uma cidade grande, tem recantos muito interessantes para visitar, coisas que eu via de longe e era um bom momento para as ir ver de perto.

Para além de passear em redor do parque, com casas mais recentes e bonitas, mas com telhado de turfa

continuar vendo de perto o limite entre terra e mar do lado de Torshavn, para completar o caminho iniciado em Hoyvík

Curiosamente, deste lado havia caminho e, de alguma forma, isso tornava o percurso mais cansativo do que caminhar pela relva sem saber onde terminaria o meu passeio!

Talvez por poder ver o percurso desenhado, ele parecesse maior do quando não o via por ser de relva!

Ainda era cedo e eu iria aproveitar para subir e explorar a zona residencial que se podia ver desde o parque de estacionamento.

“Lá de baixo do parque de campismo eu via o perfil geométrico e colorido das casas no topo da encosta e a curiosidade me atraiu! Que simpático passeio foi este, por entre casas particulares mas com caminhos abertos a quem quiser passar, recantos de convívio público e ambiente quase irreal! E quando me viam passar, qual guerreiro equipado na minha armadura notard, as pessoas simplesmente sorriam e cumprimentavam num inglês perfeito, deduzindo facilmente que eu não sou daqui. ” (In Passeando pela Vida – a Página)

Podia ver a minha casinha lá em baixo no meio dos pontinhos de cor que eram outras tendas

E as casas coloridas eram um encanto, sem nada que as separasse umas das outras, como se as famílias que as habitam fossem todas parentes!

Eu tinha a sensação de andar a passear por propriedade privada o tempo todo!

Aquilo eram ruas ou apenas caminhos particulares?

Não sei, mas ninguém se perturbou com a minha presença.

A verdade é que não cruzei com muita gente, mas quem passou por mim não stressou nada por me ver ali a cuscar!

Mais à frente fica o KONGAMINNIÐ, um obelisco de basalto erguido em 1882 para comemorar a visita do rei dinamarquês Christian IX às Ilhas Faroé em 1874. Foi a primeira visita de um rei dinamarquês às ilhas. 

A visita do rei em Torshavn teve direito a um momento bem dramático. O Borgmester (o prefeito ou presidente da camara) de Tórshavn desmaiou durante seu discurso de boas-vindas e morreu na frente da multidão – incluindo o rei dinamarquês. 

O rei Christian IX ficou tão chocado com sucedido que diz-se que apoiou financeiramente a viúva do falecido pelo resto de sua vida.

Dali tem-se uma vista esplêndida sobre a cidade.

E voltei para casa. De alguma forma o dia tinha sido longo e pesado, embora ainda nem fosse noite. Isto de lidar com zonas de morte é quase como lidar com campos de concentração ou locais onde morreu gente conhecida e ainda andava fragilizada com o falecimento do meu irmão…

O parque de campismo estava todo por minha conta e a sala comum e cozinha estava bem vazia, como eu a queria.

Nos últimos dias eu tinha-me enjoado dos cheiros de comida instantânea e não a queria voltar a sentir naquele momento. Apenas queria comer uma carne grelhada e beber um vinho.

Como eu nunca sei como será a carne de cada lugar onde ando, e normalmente ela rija e seca como pedaço de couro, eu compro sempre hambúrgueres simples, sem temperos nem adições. Assim, pelo menos não será uma carne seca e rija.

Aquele era o dia em que a minha motita fazia 6 meses de vida e passavam também 6 meses sobre o aniversário do meu irmão…

E eu comemorei com uma pequena garrafa de Monte Velho que viajara comigo desde Portugal.

O hambúrguer? Era delicioso!

Estava frio naquela noite, mais uma vez, e eu estava nostálgica, por isso deixei-me ficar na minha tenda a ouvir musica. Uma luz na noite que tentava clarear a escuridão dentro de mim…

A volta não fora grande naquele dia, mas fora intensa…

Parece que amanhã estará um pouco de sol! Espero, que aquelas nuvens em cima dele o deixem espreitar um pouco, pois já está deprimente tanta bruma…

Amanhã estarei recomposta e de novo animada, hoje só quero ficar quieta…

20.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

Streymoy e Eysturoy, as grandes ilhas 

18 de agosto de 2019

Eu sabia que iria acabar por dar comigo a suplicar por um pouco de sol, e pronto, era essa a minha condição!

A primeira coisa que eu fazia de manhã era gatinhar para cima do meu muro de relva e olhar o horizonte em busca de um nascer do astro rei! Qual rei? Rei que se preze não abandona assim seu reino e seus súbditos!

Lá estava tudo cheio de bruma a parecer fumo branco que escorria pela encosta das ilhas vizinhas! Oh, merda, outra vez?

Sim, eu não estava com o melhor humor, afinal passara o dia anterior e todo o serão a receber mensagens privadas, de uns e de outros, com imagens e links para eu seguir, falando da mortandade das baleias na Ilhas Faroé, e isso já me estava a dar nos nervos!

Será que alguém pensava que eu não sabia da tradição? E, curiosamente, a maior parte das mensagens eram de pessoas que nunca me dirigiam a palavra, nunca interagiam comigo, nada diziam, mas parece que não me falavam mas me viam pois sabiam que eu andava por lá!

Sim, tive de segurar o meu mau feitio para não mandar toda a gente catar-se!

Houve até quem me tentasse pressionar a fazer uma declaração do Facebook a dizer que discordava da matança das baleias… era deprimente pensar que pessoas adultas achassem que eu, por andar por lá, concordava com a tradição, ou acreditassem que uma declaração minha no Facebook fosse algo de útil a fazer-se, como se ela fosse conseguir o que o planeta todo anda a tentar e ainda não conseguiu… Enfim…

Embora o tempo continuasse encoberto não estava muito escuro, o que já era uma coisa positiva. Não deveria chover e isso já era fantástico!

E sim, a cada baía que eu passava lembrava-me se ali seria um dos sítios da emboscada e matança das baleias…

Mas nesta não era. As emboscadas são sempre junto a povoações, as pessoas têm até direito a dispensa do trabalho para irem assistir ao momento de terror.

Aqui era só paz e aguas quietas como espelhos.

Eu vira a catarata desde o outro lado da baía, era alta e sem ninguém em redor.

É quando a gente se apercebe que, quando lê que as Ilhas Faroé são inundadas de turistas, isso não quer dizer que os encontremos por lá aos pontapés! Quer dizer que, com tão pouca população, tudo parece uma multidão e, na realidade, 20 mil turistas por ano não é propriamente uma inundação!

A verdade é que, como na Islândia, eu andava sempre sozinha em todo o lado.

Kaldbak estava tão sozinha como eu, apenas um cãozito me recebeu e me seguiu por todo o lado enquanto eu passeei por lá.

A Kaldbak Kirkja é a coisa mais fofa e uma das mais icónicas das Ilhas ou, pelo menos, a que aparece nas fotos mais encantadoras, com o fiord como cenário de fundo.

É, mas naquele dia o Fiord estava meio escondido e a linda igreja de madeira negra perdera o seu cenário de sonho atrás de um teto de bruma branca.

Mesmo assim era sempre inspirador apreciar a igrejinha com quase dois séculos, rodeada do seu pequeno cemitério relvado na encosta de muros até ao mar.

As casinhas fazem pendant com a igreja e a paisagem verde. Aqueles telhados são espantosos!

Tinha de fazer uma foto da perspetiva icónica com a minha motita a posar!

“Às vezes eu tinha a sensação de que não havia ninguém naquelas ilhas! As casinhas aglomeravam-se em pequenas localidades, as igrejinhas estavam bem cuidadas, havia mesmo flores e sinais de civilização, mas não havia ninguém a maior parte do tempo! De que vivem as pessoas? Onde trabalham? Não sei, mas com tanta beleza em redor devem ser felizes ali! No meu caminho fui fazendo amizade com cavalos, vacas, ovelhas e cães, que era quem por la havia e me dava verdadeiramente atenção, enquanto os habitantes locais se deviam manter recolhidos com o mau tempo! E foi uma exploração cheia de beleza e natureza…” (in passeando pela Vida – a Pagina)

Normalmente eu não gosto de voltar para trás pelo mesmo caminho mas nas Føroyar não há escolha por vezes, porque há aldeiazinhas que ficam no fim da linha, não há nada depois delas. Kaldbak é uma delas

” As cataratas estão por todo o lado, como se todos aqueles montes verdejantes fossem fontes permanentes! E há quedas de água anónimas que, não sendo atrações turísticas, ninguém parece ir ver e são de uma beleza impressionante! Estão assim, na beira da estrada, sem nada que nos impeça de as olhar tão perto quanto queiramos, caminhas até elas, molhar as mãos ou recolher agua para mais uma aguarela. Quantas vezes parei para apreciar o espetáculo que elas davam e sentia-me privilegiada por ser a sua única espectadora…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Do outro lado da baía podia-se ver a verdadeira dimensão da catarata, chama-se Týggjaráfoss. Nas Føroyar as cascatas também se chamam “foss” como na Islândia.

Não havia nunca muitos carros na rua, mas sempre que havia, punham-se atrás de mim! Isto deve ser sina minha, pois está sempre a acontecer-me, como quando cheguei ao Cabo Norte, no meio do maior frio, nevoeiro e ventania, sem conseguir ver onde punha as rodas e alguns carros se aproximavam e ficavam estrategicamente atrás de mim! Fosse eu borda fora, será que eles também me seguiriam?

“Devia fazer um poema, não, compor uma canção “I’m a Lighthouse” em inglês até fica fixe! É só vir o nevoeiro e toda a gente fica atrás de mim o tempo todo, e eu que os guie!” (in Facebook)

E eu que não gosto de ter ninguém atrás, para poder parar quando quiser sem ter de fazer muito sinais para avançarem! Caricato é quando eu paro e o carro que me segue pára atrás de mim, como se dispusesse a esperar que eu reinicie a marcha! A sério que me queres obrigar a andar?

Então na berma da estrada lá estava uma fabrica de “telhas”! Tal como eu imaginava, nem sempre a relva é semeada, embora muitas vezes o seja, como eu vira na Noruega. Frequentemente ela é recortada em quadrados e colocada sobre os telhados previamente preparados para a receber.

E logo à frente, lá estava a igreja onde o telhado estava a ser renovado! Fantástico ver como a coisa se processa!

A dada altura quase se deixa de perceber a diferença entre uma baía de mar e uma baía de lago, mas ali, definitivamente era um lago. Eu estava no meio da ilha de Streymoy, a mesma de Torshavn, junto ao Lago Saksunarvatn.

Sem nada entre mim e a água, um passo ao lado e glugluglu!

A partir dali o fio de água que se vê nos mapas, torna-se o riacho mais encantador a caminho de um dos sítios mais bonitos das ilhas: Saksun

Quantas vezes parei para apreciar o momento e ouvir o silêncio apenas perturbado pelo ronronar das águas…

Naquele ponto, mesmo estando com saudades de um belo sol, já nem sabia se todo aquele encanto misterioso não se perderia com a plena visibilidade que ele proporcionaria!

Acho que, quando se nasce isolado, se aceita bem viver isolado. A paisagem ajuda bastante, pois viver ali é como viver dentro de um postal ilustrado, todos os dias…

.. com uma cascata privada a encher a vida de sons inspiradores!

Felizmente a rua estava em ótimo estado e eu não tinha de me preocupar com o sitio onde pousava as minhas rodas, porque a paisagem era muito distrativo!

Então percebi que estava ser seguida e não era por um carro! Preocupa um bocado andares e ouvires os cascos atrás de ti! Pensas “vai tocar na moto e pôr-me ao chão!”

Era um cavalinho negro que se entusiasmou comigo e a minha Scarlette!

Os animais adoram-me! Este cavalinho gostou de mim, seguiu-me até às grades da estrada, depois não conseguia passar, ficou a olhar para mim. Ainda bem, eu tenho algum pavor a animai do meu tamanho, pois num instante me põem ao chão. O bichinho era simpático, mas mesmo sem me querer mal, facilmente tinha atirado comigo de cima da minha montada!

Ah, as benditas grades no chão! A Islândia tinha algumas, mas as Føroyar estão cheias delas, por todo o lado, nas retas e nos desníveis, enormes! A moto treme, escorre e derrapa nelas com a humidade, como se fosse revertidas a sabão! Há que passar sem hesitar ou será o tombo da artista!

Somos logo recebidos com advertências bem claras. É fácil entende porque se encontram avisos destes em muitos sítios das ilhas, os turistas podem ser, por vezes, muito invasivos, na ânsia de conseguir as melhores fotos.

A lei deve ser sempre: olhar mas não tocar, passear mas não perturbar e, no fim, deixar tudo como estava! Quem não é capaz de tanto devia ficar em casa…

Aquelas terras são propriedade privada e há vários relatos de pessoas sobre os problemas que tiveram com o proprietário, porque ele não gosta pisem o que é seu. Curioso as pessoas referirem que invadiram suas propriedades acidentalmente, como se não fosse claro onde termina o espaço visitável e começa o espaço privado!

É a bosta da moda dos influenciadores que acham que tudo podem por uma bosta de selfie…

Em cima do morro, Dúvugarðar, uma fazenda em atividade, que funciona hoje como um museu. Mantém um rebanho de cerca de 300 ovelhas e algumas das suas casinhas têm mais de 200 anos.

Curioso que parece não ter havido uma ordem na sua construção, com as casinhas dispostas cada uma para seu lado!

Saksun é uma pequena aldeia de 14 habitantes, situada no topo de um anfiteatro natural circular, com vista para o fiord envolvente da Lagoa Pollurin, que abre para o mar depois dos rochedos.

A água corre em redor, desde o topo das montanhas, em várias cascatas impressionantes.

Normalmente pode-se subir até bem alto, mas por aqueles dias estava difícil! Aquela relva molhada escorregava tanto que nem sei se era mais difícil subir ou descer!

Eu não tencionava subir muito, e ainda bem, porque teria sido lindo fazer ski por ali abaixo ao descer, ou teria sido mais fazer sku, na realidade!

Eu vi uma gordinha bater com o rabo no chão e agradeci silenciosamente ela ter “almofada” no traseiro, ou teria sido dramático! Saiu de lá que parecia um brigadeiro de chocolate, porque embora de longe se veja tudo verde, a terra negra está logo por baixo e salta em lama quando a relva é pressionada. Não consegui evitar uma gargalhada, ao ver a moçoila toda borrada de castanho chocolate.

Vista lá de cima da cascata a Lagoa Pollurin era um espelho azul no meio do verde…

Ao longe a Igrejinha parecia uma pulga em cima do monte com as montanhas enormes como cenário de fundo. Confesso que o meu coração falhou uma batida com a beleza de tudo em redor!

Não é na fotos que tudo parece irreal de tão perfeito, lá a sensação era a mesma, só que mais avassaladora ainda!

Sentei-me um pouco numa pedra e fiz alguns desenhos rápidos

A Saksunar kirkja do século XIX é tão simples quanto bonita, construída em pedra e madeira e com o tipico telhado em relva, mas o que a torna surreal de tão vela, é a sua localização, no topo de um morro que é como altar sobranceiro ao fiord!

A vontade era de descer a ruinha com a moto, mas não é permitido e a descida acaba por ser encantadora pois vai revelando mais e mais do lago, la em baixo, e da dimensão das montanhas. O cemitério atrás da igreja era tão a condizer com a paisagem!

Um belo sitio para sentar, tomar café e desenhar!

Eu teria de ir lá abaixo, não havia condições de caminhar para muito mais longe por ali, a relva estava ensopada e escorregadia como na cascata…

Por isso eu fui em busca do caminho para o lago/mar lá em baixo.

Eu podia ver o caminho do outro lado da fenda, entre os montes, ao lado da estrada, com casas e carros.

E sim, dei a volta e segui por ali. Ao fim da rua havia um pequeno parque de estacionamento e depois era só descer.

A perspetiva sobre o caminho era tão inspiradora que acabei por demorar uma eternidade até lá abaixo. Desenhei, pintei e desci…

e qual não foi o meu espanto quando dei com um portão com torniquete para controlar as entradas!

Um torniquete com pagamento por multibanco!!! Estava no meio do monte ou na entrada do Metro?!

Eu sabia que os faroeses estavam a tirar partido do sucesso do seu país junto dos turistas, cobrando por tudo o que pudesse ser cobrado, mas não esperava um pagamento em multibanco o meio de lado nenhum para caminhar até um lago!

E lá meti o meu cartão multibanco para abrir o torniquete…

Consideremos que, se pago para entrar num museu ou catedral, num outro país da Europa, porque não pagar para ver as belezas naturais por ali, em outra perspetiva?

“Há uma paz e uma serenidade em todo o lado que é quase irreal! Não há vento, não há barulho, não há turistas, apenas eu e a natureza, como se nada disto tivesse sido descoberto ainda! As nuvens trazem consigo o mistério, mas o sol traria o fascínio….” (in Passeando pela Vida – a Página)

Lá de baixo, da margem do lago, podiam-se ver os fios de água de cascatas inacessíveis e apenas visíveis a partir dali.

O silêncio era absoluto, apenas embalado pelo som longínquo do mar, que ecoava levemente pelo lago, vindo do lado de lá do fiord… Só por isso tinha valido a pena descer até ali e pago a entrada!

Depois do estreito entre os montes fica a imensa praia negra, mas a maré estava a subir e pode ser muito perigoso ir até naquelas circunstancias. Num instante a gente fica presa na praia quando a agua fecha a saída. havia quem já estivesse a voltar dela tendo de atravessar a agua.

A igrejinha já não era visível em cima da colina, a neblina parecia um véu de algodão sobre ela!

Enquanto estive ali em baixo foi como se o tempo tivesse parado para mim!

E ao ir embora prometi a mim mesma que voltaria um dia, quem sabe para ver aquilo tudo com sol e céu azul!

E tinha postais escritos para mandar para a minha mãe, sempre o faço em viagem, ela gosta de os receber e eu gosto de os enviar, por isso andava à procura de selos e um posto de correios. Em Oyrarbakki encontrei tudo numa estação de serviço.

Àquela altura eu já via as estações de serviço como autênticos restaurantes, onde há sempre croissants acabados de fazer, cachorros quentes e uma série de coisas fixes para comer. Tal como na Islândia não falta nada, até posto de correio se encontra numa estação de serviço, ou perto!

Selfie de grupo reflexiva!

E segui para Eiði. Infelizmente a visibilidade era baixa por ali, o nevoeiro esta mais cerrado e não me adiantaria muito caminhar ou explorar em redor, pois quanto mais subia menos via.

Não havia ninguém na rua, como sempre eu estava só, por isso quando um homem passou foi como se a vida tivesse voltado à terra!

Mesmo não se vendo grande coisa eu subi um pouco e, quando Eiði desaparecia no meio das brumas, encontrei estes amigos, com cara de poucos amigos!

Acho que o pobre estava mais com cara de triste do que com cara de inimigo, mas nunca fiar! Com aquela armação, se ele se enervasse, atirava facilmente comigo e com a minha moto ao chão! Acho que os chifres retorcidos o impediam de ver para os lados, só pode, de tão perto que estavam dos olhos!

Não conseguiria ver o que queria, por isso não adiantava seguir para a frente. Teria de dar a volta e tentar avistar ao longe, do outro lado, se o nevoeiro permitisse.

Estava no extremo da grande ilha de Eysturoy e tinha de ir para o extremo da outra grande ilha de Streymoy, mesmo em frente.

O grande braço de mar que separa as ilhas é estreito e de uma ilha vê-se perfeitamente a outra, mesmo com o nevoeiro.

Do lado esquerdo Eysturoy, do lado direito Streymoy, as duas maiores ilhas de Føroyar.

Fossá é uma das cataratas mais altas das ilhas. Desce em dois níveis de quedas de água, como em degraus, por cerda de 140 metros em Fossdalur, o vale da cachoeira ou da cascata.

Impressionante! naquele momento quis ter um drone para espreitar por ali acima sem ter de subir!

Não me pus a escala-la, sei que há um trilho que sobe a cascata, mas o tempo não convidava por isso apenas me aproximei daquele que é o nível baixo de queda de água e desenhei um pouco.

Tjørnuvík fica na frente de Eiði, no extremo da ilha de Streymoy. Apesar do nevoeiro eu podia ver a aldeia remota lá em baixo, numa baía só sua.

A perspetiva da praia negra era fantástica.

E, como eu imaginara, os Risin og Kellingin, (o Gigante e a Bruxa), na costa abaixo de Eiði, estavam invisíveis…

Eu tinha a certeza de que os rochedos eram visíveis desde a praia de Tjørnuvík, mas só se via a parede branca nevoenta! Oh…

Bem, podia sempre explorar a aldeia e a praia e imaginar o que não podia ver, mas não era a mesma coisa! À entrada da aldeia havia um café/restaurante cheio de gente, certamente turistas. Algumas pessoas passeavam na praia, e seriam as única pessoas que veria por ali.

As casinhas não eram todas negras, muitas eram brancas e encantadoras, com pormenores bem cuidados e limpos, como se tudo tivesse sido pintado há pouco.

O muro da igreja fascinou-me, feito de pedras redondas empilhadas como num puzzle.

E dentro do muro a relva era tão verde que parecia artificial.

E as casas negras pareciam de brincar, com os tradicionais telhados de relva a condizer.

Por ali seca-se peixe como se fosse bacalhau.

Tudo tão perfeito que nem faltavam mesas para sentar e conviver, em bora não houvesse ninguém nas ruas.

E por falar em pormenores, os habitantes daquelas terras são artesãos de carinho e bom humor!

Em qualquer canto se viam bonequinhos feitos de pedras redondas, muito engraçados.

Sempre casais, de trajes bem pormenorizados, com toucas e chapéus e tudo!

De alguma forma condiziam tão bem com a arquitetura tradicional! E ficou provado que nem sempre o preto é triste, porque as casas pretas por lá eram as mais “mimis”

Não havia pessoas pelas ruas, mas havia dignos representantes de seus habitantes.

Casalinhos de pedra guardiões dos seus quelhos.

De alguma forma os bonequinhos faziam esquecer que não havia ninguém, era como se fossem gente.

Na realidade não se pode esperar encontrar muita gente pelas ruas de uma aldeia onde vivem pouco mais de 60 pessoas.

E quando voltei à praia os Risin og Kellingin tinham aparecido! Yess!

O Risin (o Gigante) é o rochedo mais afastado de terra e tem 71 metros de altura; a Kellingin (a Bruxa) é o rochedo mais próximo da terra, com 68 metros de altura, é mais pontiagudo e parece ter as pernas afastadas.

Reza a lenda que um dia os gigantes islandeses, com inveja, queriam apoderar-se das Ilhas Faroé e o Risin e a sua esposa Kellingin, foram enviados para as capturar.

Ao chegarem à costa montanhosa de Eiðiskollur o gigante esperou no mar enquanto a bruxa escalava a escarpa. A ideia era que ela amarrasse todas as ilhas com uma corda grossa, de forma que o gigante as pudesse arrastar até à Islândia. Mas quando ela amarrou a escarpa e puxou, a montanha partiu-se. Eles lutaram toda a noite tentando prender a costa com a corda, mas a montanha estava firme e forte e não cedeu.

Diz ainda a lenda que um gigante ou uma bruxa não podem apanhar sol ou se transformarão em pedra. Ora com toda a luta eles distraíram-se e não deram conta de que amanhecia e dá para perceber o que aconteceu: transformaram-se em dois blocos enormes de pedra! Dizem que até hoje lá estão olhando com ansiedade para a sua Islândia.

Eu adoro as lendas dos locais!

Pode ser que um dia eu voltes às Føroyar para ver tudo o que não pude ver por causa do nevoeiro… quem sabe!

Mesmo com o nevoeiro encobrindo tanto da beleza do local, as perspetivas da aldeia desde a praia eram encantadoras e misteriosas.

Embora a areia seja negra deixa um rasto branco à passagem das ondas do mar!
(Não fui eu quem desenhou o coração, já lá estava desenhado quando passei!)

Os murinhos de pedras protegendo os pequenos terrenos cultivados fizeram-me lembrar dos murinhos nos Açores.

Terrenos de cultivo mesmo na margem da praia!

E por ali acima fica a encosta de um monte vertiginosamente verde, que eu não conseguia ver…

… com cataratas e cursos de água por todo o lado.

Na subida da estrada, para me ir embora, não conseguia deixar de apreciar a aldeia a afastar-se naquela paraíso meio escondido, mas muito bonito.

A rua é estreita e tem refúgios para permitir o cruzamento de dois veículos, o sitio perfeito para apreciar o paraíso que fica para trás.

E para a frente, um vislumbre das grandes pedras pontiagudas do Gigante e da Bruxa…

Teria gostado de ir até junto dos rochedos… mas ficaria para outra vez…

Teria sido inútil caminho até Eiðiskollur pois nada se veria lá de cima…

Eiðiskollur e Eiði do outro lado do monte.

Regressando a casa, em Torshavn, cruza-se com uma terrinha de vez em quando, embora a maior parte do caminho seja vazia de casas e gente. Haldarsvík é uma das vilas na costa de Streymoy com Eysturoy como paisagem, do outro lado do mar.

Ninguém nas ruas! Será que aquela gente passa a vida dentro de casa?

Kollafjørður, já perto de casa (ok, por ali tudo era perto de minha casa!), deserta, mas com pormenores muito curiosos.

Como a igrejinha com telhado de relva, que a gente tem de espreitar por cima do muro para ver!

A Kollafjørður kirkja é uma igrejinha do século XIX, muito bem cuidada e com uma paisagem privilegiada sobre o fiord. A bem dizer, parece que nas Føroyar todas as casas e toda a gente tem direito a paisagens privilegiadas!

Podia constatar isso pelas casas situadas pela encosta acima, lindas e voltadas para o mar!

Tive de dar a volta à igreja para a ver, dado que ela está encoberta do lado da estrada, mas descoberta do lado do mar.

E os pormenores que me ficaram na memória, foram as pedras pintadas na berma da estrada, mesmo junto à água. Alguém se deu ao cuidade de converter as pedras angulosas em casinhas!

Casinhas, carros, autocarros e camionetas!

Que coisa fofa!

Eu andava preocupada com a passagem do túnel para Vagar. Ouvira dizer que tinha-se 2 dias para a pagar e eu temia não ir a tempo e, de alguma forma, ter de pagar multa. Então, ao passar perto, percebi que aquela era a estação de serviço onde o pagamento devia ser feito, conforme me tinha descrito. Ufa, ainda vou a tempo!

Tinham-me dito que a portagem se pagava no regresso, na primeira estação de serviço após o túnel. numa estação de serviço que ficava a 1 ou 2 km. Bora lá cumprir as minhas obrigações. Então descobri que as motos não pagam portagens, por isso eu podia ir embora em paz! Eu j´suspeitava, pois tinha visto preços para diversos veículos e não havia nada sobre motos, mas nunca confiar sem confirmar!

Descobri também que não há portagens na ilhas. Apenas nos dois túneis, que passam por baixo do mar, é exigido um pagamento único de ida e volta, e nesses a passagem das motos é grátis!

Excelente!

Quando não há nada para além de paisagem lisa, sem arvores, tudo verde a subir e a descer, há pormenores que saltam à vista, como uma paragem no meio de lado nenhum!

E, parecendo que não, faz sentido e tem bastante uso! Caminhantes desembarcam ali para subir as montanhas.

E os habitantes lá em baixo sobrem até à estrada para apanharem o transporte para diversos pontos das ilhas.

Na pureza verde da paisagem, de alguma forma, um porto com contentores pode ter um aspeto tão desajustado e perturbador…

E pronto, vamos para Torshavn que há coisas que quero aproveitar para ver.

O pequeno forte sobre o porto de Torshavn estava a chamar-me a atenção desde que chegara e era uma boa oportunidade para o visitar.

Entra-se da rua sem qualquer portão. A fæstning Skansin é uma fortaleza histórica sobre o porto de Tórshavn e a sua maior destruição não foi em tempo de guerra e sim na ampliação do porto.

A sua construção original é do século XVI e teve como finalidade defender a capital de ataques marítimos.

A maior parte dos canhões ainda lá existentes são dinamarqueses

Mas há também canhões ingleses, deixados durante a ocupação inglesa na Segunda Guerra Mundial. Ali funcionou o quartel-general do Comando da Marinha Real. Ali fica um dos faróis das Ilhas Faroé, o Farol Skansin, que orientava a navegação para o porto da capital. Tão fofinho!

Lá de cima pode-se ver claramente Nólsoy, 10 quilómetros de ilha habitados por cerca de 260 pessoas. Afinal das 18 ilhas que compõem o arquipélago, apenas uma não é habitada e essa fica bem distante.

Embora Skansin não fique muito elevada, proporciona perspetivas muito bonitas em redor. Dali quase se podia ver o parque de campismo e a minha casa.

Mas as perspetivas sobre o porto eram as mais detalhadas, já que ele fica mesmo em baixo da colina.

Dava para ver perfeitamente por onde entrar e onde se formam as filas de embarque, se bem que percebia-se que o porto não tinha portas e a gente podia entrar em qualquer ponto se estivesse a pé.

Eu gosto de estudar as coisas para não ter surpresas e fui embora mais contente depois de perceber como funcionava o porto para não stressar quando fosse embarcar, já que o meu embarque seria no meio da noite.

Fui para casa que estava cheia de fome e cansada da falta de sol. Logo ao lado as esculturas chamaram a minha atenção.

É, não chovera durante o dia, mas a humidade tinha sido grande por todo o lado. Abri as malas todas e pus tudo a arejar, a ver se a coisa secava um pouco.

Home sweet home

As voltas que dei num dia e tão poucos quilómetros contabilizados no final! Apenas lamentei a falta de sol, o resto foi só prazer!

Amanhã vou para as ilhas do norte… se o tempo deixar!

19.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Fim de dia 

17 de agosto de 2019 (continuação)

Quando reservei as passagens para os ferries, havia a possibilidade de desembarcar nas Ilhas Faroé por 3 dias, o tempo que o ferry seguinte voltaria a passar, dado que as ilhas têm varias ligações à Dinamarca pois são uma região dependente dela. Cheguei a ponderar essa hipótese, sabendo que o arquipélago não é muito grande, por isso em 3 dias conseguiria ver muita coisa. Se pensarmos que o arquipélago tem uma área total inferior a qualquer distrito português, é fácil imaginar o quanto se pode visitar num distrito nosso em 3 dias!

No entanto, depois de ponderar bem, achei melhor ficar por 7 dias, até voltar a passar o ferry da Islândia, podia encontrar mau tempo, ter algum impedimento ou percalço e não conseguir ver nada nos tais 3 dias… e fiz bem!

Ali encontrei o casal de Malta, que embarcara comigo na ida e no regresso da Islândia e que tinha seguido essa opção, de ficar os tais 3 dias nas Ilhas e, coitados, estavam fechados do hotel desde que chegaram, apenas caminhando um pouco por Torshavn, saíram pela primeira vez de moto para irem até ali e apanharam tudo submerso em nuvens e nevoeiro. (é o que dá acordar tarde e gastar o tempo todo a tomar pequenos almoços em hotéis)

Estavam inconsoláveis pois iriam partir no dia seguinte de manhã, (pois os três dias, na realidade, não eram mais que dois dias e umas horas) e nada tinham visto das ilhas, foram até lá só para pagar fortunas para ficarem dentro de um quarto de hotel, sem paisagem, sabendo que há um mundo de belezas incríveis à espera, algures, inacessíveis a eles.

Eu é que fora inteligente, disseram eles, que tinham ficado com pena de mim por eu me ter disposto a acampar tanto na Islândia como nas ilhas, pois eles esgotaram rapidamente o orçamento da viagem em hotéis estupidamente caros para nada verem!

Pois, eu vira isso em casa, por isso optei pelo campismo. A diferença de preços nas ilhas era de 75€ por noite, no hotel mais barato para 12€ por noite no camping! Fácil a escolha, não? Ainda por cima os hotéis mais baratos esgotaram muito cedo e tão rapidamente que nem tive tempo de ponderar mais. A dois meses da minha partida já não havia qualquer quarto disponível a nenhum preço em todo o arquipélago. Então eu peguei na minha casa e vim monta-la na ilha.

E lá iam eles, todos miseráveis embora, levando como memória das ilhas toda a chuva e nevoeiro que viram…

Subitamente eu já nem me lamentava pela nevoa e chuva, tinha ainda tanto tempo para ver o que quisesse que, mesmo que chovesse, algo se revelaria antes de eu partir, dali a dias, yesss!

Eles acabaram por ficar algures no meio do percurso a conversar com outro motociclista que fizera a mesma escolha que eles e partiria no dia seguinte. Esse ainda saiu mais tarde do hotel e já nem o lago iria ver. Senti-me uma privilegiada por ter mais tempo. O outro motociclista nem me dirigiu a palavra, apenas comentava como fora estupido em não ter feito as coisas de outra maneira e lamentava o dinheiro que estava a gastar nas ilhas sem as ver.

Temos pena, amigo! Agora já não sou a miserável que acampa para gastar menos dinheiro, olha para mim e chora!

E lá fui eu passear pelos caminhos mais manhosos que encontrei, para ter outras perspetivas da paisagem e só porque o podia fazer!

Já que a paisagem estava meio encoberta, que eu a visse de ângulos criativos!

Comparando com outros caminhos que fiz na Islândia, aquele era bem simpático de fazer.

Ainda havia muita coisa que eu queria ver na ilha de Vagar. Provavelmente o tempo não me permitiria grande visibilidade, mas eu continuaria para a frente de qualquer maneira, afinal o meu uniforme mantinha-se: tudo vestido com o fato de chuva por cima, logo não haveria chuva que me assustasse!

Quanto ao nevoeiro, paciência, só me restava esperar que conferisse a cada paisagem um clima romântico de mistério e que não tapasse tudo! E a verdade é que havia algo cinematográfico ou teatral nas paisagens, graças à névoa!

Santo Deus, não era possível seguir conduzindo sem parar a cada quilómetro para apreciar o que me rodeava!

Eu sabia que nem todos os percursos são circulares naquelas ilhas, grande parte das vezes somos obrigados a voltar para trás pelo mesmo caminho, pois não há seguimento, mas mesmo assim, como nada me garantia que ao voltar houvesse visibilidade, eu parava aqui e ali e mais além e… enfim, tinha o dia todo para isso, que se lixe, paro onde e quantas vezes quiser!

Tinha passado por dois motociclistas a fazer o mesmo caminho que eu. Não sei porquê, mas não eram muito simpáticos.

Frequentemente isso acontece comigo, passo por motociclistas que me cumprimentam com sinais em “V”, eu também cumprimento sempre. De alguma forma sente-se alguma simpatia quando nos cumprimentam, é natural. Seguimos caminho perto uns dos outros, porque, na realidade, estamos a ir para o mesmo lugar e é como se por momentos estivéssemos a viajar juntos. São sempre momentos bonitos… até pararmos!

Depois de uma certa afinidade ao conduzirmos juntos seria de esperar dois dedos de conversa, alguma simpatia, sei lá! Mas nem sempre é assim…

Paramos as motos perto e a empatia quebrou-se assim que tirei o capacete! Eu já vi este filme varias vezes, noutras viagens, assim que percebem que eu sou uma mulher parece que ficam desorientados e não sabem falar comigo. Não entendo se se sentem intimidados, se ameaçados, não sei se pelo facto de eu ser uma mulher sozinha a andar por ali os incomoda… sei que se afastam e fazem de conta que eu não existo!

Enfim, é para o lado que eu durmo melhor, não preciso de companhia, e quanto menos tempo perder com parvoíces, mais coisas maravilhosas vejo e sinto!

Podia ver Tindhólmur, a ilhota magica com rochedos delumbrantes, meio escondida na bruma e isso era mais importante do que motociclistas carrancudos.

Uma pena, seguramente não a iria ver de perto.

Sabia que há barcos que nos levam até ela, em passeios por entre rochedos de formas curiosas, mas com aquela nevoa envolvendo tudo teria de deixar para outra vez… uma pena!

Segui para Gasadalur, uma aldeia rodeada pelas montanhas mais altas de Vagar. Que coisa linda!

As casinhas atraíam-me tanto! Se pudesse tinha entrado para ver como eram por dentro.

Os meus “colegas” de estrada foram diretos à cascata. A mim não me apeteceu ir lá, não naquele momento.

Eu queria ver os pormenores da aldeia, com as casinhas de turfa e os pequenos terrenos cultivados.

Um pormenor à entrada da aldeia!

Sølubúð, as voltas que eu dei para entender o que aquilo queria dizer! Acabei por conseguir traduzir de faroês para espanhol, pois para português estava difícil. E quer dizer “tienda” ou loja! Ao que parece os residentes põem ali suas coisas para outras pessoas usarem e pagarem por elas, havia descrições em inglês de produtos que costumavam estar à venda e estavam “out of stock” como bolinhos e coisas afins.

O nevoeiro aproximava-se e descia rapidamente, se eu queria ver a cascata de Múlafossur teria de me apressar!

Tindhólmur, a ilhota dos 5 picos estava quase invisível… Ok, tivera azar com a nevoa e a pouca visibilidade, mas tinha de admitir que ganhara perspetivas românticas e de mistério únicas! Há que ver a beleza do momento e nunca a perder gemendo pela beleza que poderia ter sido!

Não me apressei, caminhei pelo percurso demarcado com fitas. Curiosamente o piso era de relva tão espessa que parecia uma alcatifa grossíssima, que nem os muitos pés que por ali passavam tinham conseguido desbastar!

“Depois dos rochedos e dos recortes na falésia, fica a catarata, e no entanto foi a aldeia de Gasadalur e a envolvência que prendeu minha atenção! Não havia ninguém, apenas eu e os aldeões, que me olhavam com curiosidade, a bruma aproximava-se e rapidamente cobriu tudo, e eu não me importei. Apenas não me apeteceu percorrer correndo a distancia entre toda a beleza que me fascinava e a catarata, só porque “é obrigatório” lá ir! E vi pessoas chegarem, irem rapidamente até lá e partirem de novo… mas aparentemente eu não sou igual às outras pessoas e não tenho os mesmos objetivos!” (in Passeando pela Vida – a Página)

Não tenho vertigens, também não tenho atração pelo abismo, mas estas falésias sempre me fazem arrepiar e me provocam momentos de quase paralisia de êxtase.

É claro que eu hoje me arrependo um pouco de não ter ido ver a cascata, podia ter lá ido antes de o nevoeiro ter tapado tudo, e voltado para explorar a falésia depois. Mas não me apeteceu correr no ir e voltar… um dia volto lá e vejo e pode ser que até encontre céu e sol aberto!

Pelo que percebi a população da aldeia é de 11 pessoas! Não admira que se ouça e se leia que os faroenses stressam com o volume de visitantes, não é preciso muita gente para parecer uma multidão em aldeias de 11 habitantes, com uma das paisagens mais espetaculares e “instagraveis” do mundo!

Uma questão que eu me punha, sobre como são aparados os telhados das casas, e que descobri a resposta. É simples, colocam uma ovelha em cima e ela encarrega-se disso! Fantástico, ecológico e eficaz, quem pode querer melhor solução? Afinal estamos na terra onde o volume de ovelhas é o dobro do volume de habitantes! Por isso elas têm tanto ao mais direito a usufruir dos recursos!

E realmente a relva dos telhados parecia sempre aparada, nunca a via crescida a ponto de pender nas bordas. A ovelhas por ali são eficientes.

Um dia questionei-me se na Noruega, dado o clima e a latitude, não haveria vacas cabeludas como na Escócia. E sim, quando passeei pelo país, encontrei-as alegres e contentes pastando. Na altura fiquei eufórica, parei a moto e fui para o meio de pasto observa-las e fotografa-las.

Um outro dia, observando o mapa das Ilhas Faroé e a sua “proximidade” da Escócia, voltei a questionar-me se as famosas vaquinhas não estariam por lá também, sei lá, eu nem sou especialista em vacas e tenho algum receio delas (tenho sempre que um bicho é maior do que eu e a minha moto e pode atirar connosco ao chão!) mas apenas me questionei!

E lá estavam elas, no meio da bela pastagem verde, com as franja a tapar-lhe os olhos!
Não me contive e dei gargalhadas de satisfação! São tão fofinhas e simpáticas!

Há quem lhes chame vacas escocesas, eu há muito deixei de as chamar assim, por respeito às primas norueguesas e agora às vizinhas feroesas!

Ali é o fim da linha, não há caminho para a frente, por isso tem de se fazer o mesmo caminho de volta.

É os rochedos estavam ainda mais encobertos, apenas me restava vê-los de longe e seguir caminho.

Ainda que as ruas sejam as mesmas, olha-las na perspetiva inversa é sempre interessante e dei comigo a parar no mesmo sítios da ida, apenas porque eram muito bonitos vistos em todas as direções!

Lá estava Bøur ao fundo. naquele país todas as terras têm seu próprio mar, sua própria baía, ninguém está longe da água!

Na realidade dizem que nenhum ponto no arquipélago está a mais de 5 quilómetros do mar, isso é algo de espantoso! Caso para dizer que o mar é mesmo de todos por ali!

Bøur é uma aldeiazinha fofa, entre a curva do monte e a curva do mar, que tem 74 habitantes, dizem. A mim pareceu-me que tem mais casas do que pessoas!

Não desci, a vida ensinou-me que grande parte das aldeias com enquadramentos bonitos à distância, estão a mostrar a melhor perspetiva de si, pois de perto são bem mais banais. E por ali não era diferente e eu sentia quando eram muito parecidas com o que já vira!

“As Ilhas Faroé foram a bonança depois da tempestade! Depois do percurso exigente na Islândia, deixar deslizar a moto pelos caminhos deslumbrantes de paz, com o verde a emoldurar magnificamente cada quilómetro, era tudo o que eu precisava. Mesmo com a bruma e a visibilidade reduzida, o mistério e o deslumbramento fizeram-me tão bem, como o desfolhar calmamente de um livro de viagens no conforto de um lar…” (In Passeando pela Vida – a Página)

Sørvágur, uma das mais antigas aldeias das Ilhas Faroé. Nos anos 50, ao construírem uma nova escola, descobriram um antigo assentamento Viking.

Durante a Segunda Guerra Mundial ali se alojaram os engenheiros britânicos que construíram toda a infraestrutura da vila bem como o Aeroporto de Vagar, o porto em Sørvág e diversas estradas e pontes. Para isso, eles tiveram de mover casas inteiras para outros locais! Acho que é a vantagem das casas de madeira, embora se movam também casa de pedra e cimento armado, para além de manterem melhor o calor no interior.

A Sørvágs kirkja, igreja do séc. XIX, é a coisa mais proeminente na vila para quem chega. É preta, tem muito espaço em volta e um cemitério em seu redor, dentro de um muro de pedras irregular. Claro que me chamou a atenção, mas estava fechada…

Sandavágur estava já debaixo de um espeço nevoeiro, se não a tivesse visto na ida, seguramente na volta não a veria, pelo menos não a partir da estrada!

Mas mesmo assim deu para ter outras perspetiva lá em baixo, mais de perto, só para ver como era o mar de areia negra com todo o nevoeiro.

E era curioso o conjunto, como se eu estivesse no meio de uma foto a preto e branco.

Acho que entendi porque a igreja é branca e vermelha, é para as pessoas a encontrarem no meio de cinzento dos dias de nevoeiro! ahahahah

Parece que à minha aproximação o céu se abria um pouco, só para eu não fazer troça da falta de cor na paisagem, e ver como o verde ainda era verde por todo o lado!

E sim, aquilo é bonito de qualquer maneira!

E lá fui seguindo para casa, apreciando o que me era permitido no meio da nevoa, em paisagens sempre arrebatadoras, com baias negras e montes verdes em todo o lugar!

Eu já me habituara tanto à falta de arvores, que apenas olhava em redor e pensava, por não existirem é que se podia ver toda a beleza dos montes, como campos de futebol que sobem e descem infinitamente!

E depois há as cataratas, os regos de água e as nascentes, por todos os lados, sem nem haver filas de turistas para as ver, porque são tão frequentes e banais que se passa por elas quase sem dar importância! Eu iria perceber com a continuação das explorações o quanto isso era banal e verdade!

A falta de sol começava a fazer-se sentir no meu ânimo. A combinação de frio e nevoeiro é deprimente e não havia nada que eu pudesse fazer contra isso!

Mesmo assim, o passeio daquele dia fora muito produtivo e nem por isso molhado, não tinha do que me queixar quanto a isso.

Tomei um banho quente, por ali é fácil levantar moedas para o banho com cartão multibanco, e fui-me juntar aos mochileiros que tomavam café no banco em cima do muro de relva, junto à minha tenda. Não chovia, mas o tempo arrefecia rapidamente. Estávamos todos equipados como esquimós e gordos de tanta roupa que vestíamos. Ainda demos boas gargalhadas pelo serão, até gelarmos totalmente e voltarmos para as nossas casa.

Foi tão bom dormir quentinha, com o corpo relaxado, porque não foi puxado ao limite naquele dia…