10. Passeando pela Grécia/Balcãs – de Esparta até Atenas dando a volta ao sul

28 de agosto de 2022

Há um Sítio Arqueológico muito importante em Mystras. Eu podia vê-lo pela encosta do monte, porque está situado, como num anfiteatro sobre a cidadezinha.

A senhora do alojamento era russa e estivemos na conversa sobre a guerra e como ela tinha pena de não poder visitar o seu país. Falamos também do sitio arqueológico e fiquei a saber que demoraria a manhã toda a visita-lo, porque se estende pela encosta do monte e é composto por diversos espaços…

Por vezes tenho de fazer opções e ali optei prosseguir para Esparta e assim ficar com tempo para descer até à ponta sul da península e só depois subir para Atenas, pela costa.

Esparta, a cidade do lendário rei e general Leónidas e os seus 300 guerreiros.

A antiga Esparta com o monte Taígeto ao fundo, que se eleva até aos 2400 metros. Na realidade não é um monte e sim uma cordilheira das mais antigas registadas na Europa e que aparece referida na Odisseia de Homero. Fiquei fascinada por poder localizar e olhar para uma paisagem que vem desde a Grécia antiga até aos nossos dias. Eu sei que toda a terra e monte pela Europa tem historia antiga, pois nada cresceu de repente, mas não pude evitar a sensação de pisar terra sagrada para a humanidade!

E lá estava a Acropole sobre uma pequena colina, sem bilhete para comprar, apenas um portão sem guarda onde eu entrei livremente!

Esparta tinha o exército mais temido da Grécia, porque os seus homens eram treinados desde miúdos para se tornarem grandes guerreiros. Eram retirados de suas famílias em criança para viverem em meios agrestes, aprendendo a suportar a fome, o frio, a dor e tudo o que lhes pudesse vir a surgir pela frente. Este treino, que era uma forma de vida, conferia-lhes tanta força, experiencia e conhecimento, que eram vistos quase como semideuses.

O nome Esparta é conhecido mundialmente devido à sua história, sendo até hoje símbolo de heroísmo e autossacrifício, bem como de uma forma frugal de viver.

Ainda hoje usamos o termo “espartano” para descrever algo simples e despojado com sinónimos como: austero, rígido, rigoroso, severo ou implacável e intransigente.

Esparta fica na região da Lacónia, que também viu o seu nome associado às principais caraterísticas da sociedade espartana, originando o termo “lacónico” que ficou associado a uma forma sucinta e sintética de falar e escrever.

Dá para ver que aquela gente era “curta e grossa” na vida do dia-a-dia, sem ostentações, nem coisas supérfluas, sem esculturas nem adornos, o que contribuiu para que, mesmo hoje, não hajam muitos vestígios da sua sociedade, porque além de terem pouco o que deixar, provocaram muitos ódios que geraram a destruição de tudo o que era seu ao serem vencidos e superados.

Eu sabia isso tudo, mas agora que estava ali, pisando o seu lugar, conseguia perceber direito o que e isso queria dizer… havia tão pouco das edificações caminhos e estruturas da época!

É certo que estão em escavações, e muita coisa estará debaixo daquela terra acumulada, mas mesmo o antiteatro é quase apenas uma curva cavada na encosta da colina, quase impercetível!

Deu-me uma nostalgia! Sentei-me ali e fiquei a olhar, imaginando como seria fantástico poder ver como tudo aquilo era há 25 séculos! Por outro lado, cruzes, foi há tanto tempo e, segundo lendas e histórias, as guerras foram tão sangrentas que o melhor é ficar tudo como está, na base da imaginação!

Mas a guerra não foi ali, foi bem mais para norte.

Leónidas recebeu o pedido de ajuda para defender a Grécia da invasão dos persas e conduziu seus homens para norte de Atenas onde travou a batalha do desfiladeiro das Termóplias, lutando até à morte e retendo as tropas invasoras.

De entre os seus homens apenas 300 eram espartanos, um numero insignificante perto das tropas do Xá, e foram eles que deram o mote para o filme 300.

Reza a lenda que o Xá persa ameaçou-os dizendo: “Minhas flechas serão tão numerosas que obscurecerão a luz do Sol”.

Ao que Leónidas respondeu: “Tanto melhor, combateremos à sombra!”

Os espartanos podiam ser lacónicos, mas tinham sentido de humor!

Dizem que os espartanos mataram mais de 20 mil persas antes de serem aniquilados…

Impossivel passar por aquele sitio, relembrar a história e não lembrar a estória do filme 300 mais a sua frase iconica: this is Sparta!

Sai-se da acrópole, em direção ao centro da cidade e lá está, Laónidas! Tive de fazer uma espécie de “um minuto de silêncio” ao grande herói…

E dirigi-me para sul. Havia uma terrinha lá bem abaixo onde eu queria passar sem falta!

Eu já não me lembrava que por aqueles lados LARANJA e PORTTUGAL pronunciam-se praticamente da mesma forma, a sonoridade das duas palavras é praticamente a mesma

mas a escrita também, se formos ao google tradutor e o pusermos a falar entendemos melhor porque é que aquela gente sorri quando eu digo que venho de Portugal!

Conduzir calmamente era tudo o que eu queria, mas não pude deixar de parar ao avistar uma igreja ortodoxa. Elas são sempre tão bonitas! Estava em Molai e era a igreja de São Nectarios.

Estava aberta e pude visita-la com calma, pois só estava lá a senhora responsável, não havia ninguém a orar.

Sempre me sinto desconfortável a explorar uma igreja onde há gente a rezar, sobretudo aquelas, que são pequenas e onde as pessoas se movimentam quando rezam, de um altar para o outro, de imagem em imagem, beijando-as e tocando-as, porque nunca sei como me mover ou se vou ferir a sua sensibilidade.

As pinturas que contam histórias sempre me fascinam, por vezes contam mesmo histórias recentes, os religiosos é que parecem sempre velhos, com barbas brancas e chapéus negros.

Gostava de um dia assistir a uma celebração e entender as movimentações no espaço religioso, o que há por trás da porta no altar e quem lá entra ou quem de lá sai!

E há velas fininhas e medalhas que são oferecidas às imagens com muita devoção.

E lá estava “o rochedo mais bonito do mundo” a lembrar o desenho do Principezinho, da cobra que engoliu um elefante!

Monemvasia fica do outro lado do rochedo, o lado sul, na encosta voltada para o mar Egeu.

A vila está ligada a terra por um istmo, que curiosamente é uma palavra de origem grega e que quer dizer pescoço em português!

Atravessa-se as aguas límpidas como cristal até ao rochedo onde não circula qualquer tipo de veiculo.

Estaciona-se à porta e, assim que se entra a muralha, percebe-se porque nenhum veiculo ali circula, as ruinhas são como caminhos privados entre casinhas.

Monemvasia foi fundada pelos bizantinos no século VI e é uma cidadela medieval encantadora. A fortaleza é chamada “Gibraltar do Oriente” e foi ocupada por bizantinos, cruzados, venezianos e turcos.

O “Kastro” – (castelo), é dividido em duas partes, a cidade baixa e a cidade alta.

Não fui até à cidade alta, porque os caminhos são íngremes e com degraus, e o calor não me inspirou a subir.

Afinal há carrinhos a circular ali, carrinhos de mão que, pelo ar de quem os manobrava, eram difíceis de controlar!

Há recantos tão bonitos para explorar na cidade baixa, que me ocupei por ali, a fotografar e a desenhar.

A vontade era ficar ali por horas a explorar e desenhar, porque é tudo tão bonitinho e acolhedor!

Só para viver um pouco daquela atmosfera valeu a pena descer todo o Peloponeso antes de ir para Atenas!

Acabei por me instalar na pracinha central onde não faltam esplanadas de cafés e restaurantes, para me refrescar e curtir o ambiente.

E, acompanhada por uma cerveja gelada, acabei por me por na conversa com turistas e residentes sobre banalidades do dia-a-dia por aquelas paragens.

Lentamente, como quem não tem vontade de ir a lado nenhum, la fui caminhando até à saida para me fazer de novo à estrada.

Monemvasia em grego, significa “entrada única” e eu lá saí pelo mesmo caminho por onde entrei, para começar a subir para Atenas .

Por aquela altura a minha mão esquerda começava a falhar e eu só rezava para que não me aparecesse nenhuma novidade inesperada, que me obrigasse a ações repentinas, porque eu sabia que não conseguiria…

Felizmente as estradas eram poucas e pouco movimentadas, sem muito assunto para eu me distrair. Ainda tive um ou outro momento de algum stress, quando um carro me aparecia de repente, vindo não sei de onde, e entrava na minha frente, sem imaginar o quanto eu estava limitada na minha rapidez de reação!

Eu não queria ir direta a Atelas pelo caminho mais curto, não queria fazer autoestrada, e queria chegar-me à costa leste assim que a montanha me permitisse. Por isso fui passando por populações fora da estrada principal, em perspetivas encantadoras.

A montanha que eu atravessara no dia anterior aparecia ao longe, imponente e com nuvens por cima. Do outro lado devia estar a chuviscar, segundo as previsões. Sorte a minha que andava à frente do mau tempo, deixando-o a molhar os caminhos que já fizera!

Finalmente cheguei a Astros, junto do Golfo Argólico, quando a terra começa a curva para outro braço de terra onde fica Náuplia.

Astros é uma terrinha sem grandes atrativos, daqueles sitios onde a gente para porque tem um quiosque que serve bebidas frescas.

E ainda bem que parei, porque refresquei a gargante e o pulso, para depois enfrentar a ventania de leste que atirava até a agua para a estrada!

Quando eu andava pela Islândia sentia-me confusa porque, como não há arvores por lá, não conseguia prever de que lado vinha o vento, mas agora, com as palmeiras a vergarem à força do vento, já não achava tão reconfortante assim ver o efeito que ele fazia! Era meio assustador!

Havia parapentes no ar com aquela ventania! São malucos os gregos? Se eu me via grega a conduzir a moto no chão, eles não stressariam no ar?

Quando está vento e atravesso uma localidade, sinto-me bem mais confortável, ao menos se eu cair alguém estará por perto para me ajudar a levantar! Não, eu posso fazer tudo menos cair, nem queria imaginar a avaria que seria se eu caísse e me magoasse na mão marota!

E lá estava Náuplia, com a sua fortaleza de Palamidi no topo do monte! Seguramente que eu não subiria lá acima! É daquelas coisas que eu prefiro apreciar cá de baixo, embora imaginasse que o golfo e a cidade vistos lá de cima deveriam formar uma paisagem impressionante. Mas com aquele vento todo, a subida com curvas, carros e camionetas à mistura, e a minha mão a doer cada vez mais e a perder a força… eu não arriscaria!

A cidade foi fortificada pelos venezianos no século XV para se proteger contar os piratas

E o castelo de Bourtzi, no meio do mar! Tal como a fortaleza no monte, o castelo é veneziano. Bourtzi significa torre em turco, e é o que o castelinho é, uma torre no meio das águas do porto!

O castelo aquático impressionou-me bastante e confesso que me apetecia apanhar um barco e ir lá vê-lo de perto…

Lá segui, meio relutantemente, maldizendo a minha incapacidade de explorar mais em pormenor ….

Claro que o azul quase artificial do mar me reconfortaria bastante, afinal ainda havia muita coisa para ver e para viver e eu poderei voltar a passar ali noutra viagem qualquer, sem limitações na condução…

E então lá estava ele…

Parece uma ponte comum, quando a gente o atravessa concentrada na estrada, mas na realidade é uma obra impressionante, o Canal de Corinto!

Foi construido no final do século XIX, meio a “pá e pica”

Já um dia o atravessei sem perceber que era ali, mas desta vez eu ía atenta e não o deixaria passar debaixo das minhas rodas sem parar para o apreciar!

O Canal de Corinto liga o Golfo de Corinto ao Mar Egeu e, literalmente, rasga o Istmo de Corinto, que liga Peloponso à Grécia continental, para fazer esta ligação.

Não é muito longo, tem pouco mais de 6 quilómetros de comprimento, mas é impressionante porque é profundo, como se o mar ficasse entre paredes.

Ele permite a circulação rápida de barcos desde o golfo até ao mar Egeu que, antes da sua construção, teriam de dar a volta a toda a península de Peloponeso, o que alongava a viagem para mais de 700 quilómetros.

Uma obra que foi primeiramente pensada pelos romanos, para acabar por ser realizada apenas 20 séculos depois!

Como é bastante estreito, tem pouco mais de 20 metros de largura, não permite a passagem de grandes barcos, por isso apenas barcos de medio e pequeno porte lá passam.

É claro que o desenhei! Ainda bem que a mão marota era a esquerda, senão não poderia ter desenhado coisa nenhuma!

A sensação de deixar para trás coisas que queria ver e não podia, tinha-se desvanecido e foi cheia de satisfação que segui pela costa até Atenas, entre carros que não podiam andar, mas me davam passagem, por caminhos meio sinuosos e em estado manhoso, entre zonas portuárias e zonas industriais sombrias… 

Em Atenas havia um problema no meu alojamento, que não podia receber os hospedes por causa de uma avaria elétrica.

O dono estava todo aflito a tratar de arranjar alojamento para toda a gente e encontrou um sitio bem fixe para mim. Fiquei instalada mesmo no centro da cidade a preço bastante económico e junto de restaurante, bares e festa!

Que belo serão passei numa esplanada bem gira, “Los gatos”, com sangria e musica e gente bem disposta sem perturbar demais o meu sossego!

Amanhã vou passear pela cidade, que já tenho saudades daqui, e depois subir o país!

9. Passeando pela Grécia/Balcãs – Por Olympia até Mystras

27 de agosto de 2022

O meu pequeno apartamento era muito simpático, com uma cozinha minimamente apetrechada com o necessário.

Ontem eu estava tão cansada que não me apeteceu de todo andar à procura de um sitio para comer. Passei no supermercado, ali perto, e fiz um jantarzinho delicioso, de carne grelhada com salada e, claro, um vinhinho da zona a acompanhar!

Hoje, preparei um delicioso pequeno almoço, na casa havia manteiga, doce de fruta, chá e café, só precisei de trazer o resto.

Não há nada mais agradável pela manhã do que tomar um belo pequeno almoço numa varanda virada a nascente!

De noite choveu torrencialmente, eu podia ouvir a chuva a bater nas precianas. Uma chuva estratégica que só caiu depois de eu ir para a cama e terminou antes de eu sair dela! A minha motita ainda estava toda molhada.

Hoje eu ia atravessar para Patras e depois descer a península de Peloponeso. Havia coisas que eu queria ver por ali abaixo, mas estava naturalmente mentalizada para ver o que conseguisse de populações e focar-me mais em paisagens. Passear pelo interior de uma cidade era um suplicio para a minha mão e eu não precisava torturar-me, pelo menos não pela manhã!

Tive azar, não muito longe dali a rua estava fechada, a ponte caíra, por isso era preciso seguir pelo caminho alternativo. Nada de especial se não fosse cedo demais para a minha mão estar operacional para segurar direito o guiador. Ainda por cima havia camiões a passar e depois carros… valha-me Deus, esta gene decidiu vir toda agora que eu preciso fazer isto sozinha para não ter de parar nem usar a embraiagem?

Caminhos que eu faria tão facilmente, de repente tornaram-se um acontecimento…

Tive de ir para a autoestrada pois queria atravessar a Ponte Charilaos Trikoupis, ou Ponte Rio-Antirio. Eu sei que não é mais que uma ponte, mas sempre me chamou a atenção por ligar os dois extremos de Etólia-Acarnânia e Peloponeso

Parei para fotografar a ponte e a estatua do atleta transportando o facho olímpico quase me fez querer sair e ir explorar a terrinha ali ao lado, Antirrio.

Eu queria ver a ponte desde terra, mas não sería em Antirrio. Atravessei para Patras e fui seguindo o meu sentido de orientação, furando pelas ruelas e procurando a margem do rio.

E os caminhos eram mesmo estranhos! Cheios de curvas, partes em terra batida, depois desciam e passavam à rasquinha por baixo de uma linha de comboio, voltavam a subir, obrigatório virar à esquerda, depois à direita, sempre obedecendo a sinais de trânsito esquisitos que me faziam a sair daquela ruínha por alguns metros para depois voltar a ela mais à frente!

Aqueles gregos são marados! Rompendo aquelas ruelas estreitinhas passava a linha do comboio e esse era tudo menos insignificante! Lá estava ele, sem qualquer guarda ou proteção, cada um que confie no seu instinto e na sua visão e audição apurada! Havia sítios onde até havia miúdos a brincar! Devem estar mesmo muito habituados àquilo, só pode!

E lá estava ela!

É uma ponte especial no seu estilo, uma ponte estaiada como a nossa ponte de Vasco da Gama, que tem um vão muito grande, há quem diga que é o segundo maior do mundo. E é imponente!

Depois de sair do intrincado das ruínhas que me levaram ali, a sensação era de uma imensa paz e frescura! A água era límpida e cristalina e as montanhas ao longe, inspiradoras… Enfiei as mãos na água fresca e só então processei que ela era salgada e isso fazia muito bem ao meu pulso!

Patras não me prendeu muito tempo. A minha entrada na cidade não correu muito bem, sei lá porquê motinhas e scooters enredaram-se em mim e eu tive alguma dificuldade em conduzir naquela pressão. Se eu estivesse bem das mãos não me teriam perturbado, a minha moto andava mais e eu sou habilidosa no trânsito, mas naquele momento eu só pensava que aquela gente não imaginava o perigo em que se e me punham ao fazerem-me tangentes e apertarem-me. Raios partam o “patranhences”.

Mas há coisas lindas que sempre me fazem parar e apreciar…

Patras é uma das maiores cidades da Grécia e está cheia de coisas interessantes para ver, mas é também um porto onde eu tenciono desembarcar mais dia menos dia, por isso o que não vi estará lá à minha espera para eu ver numa próxima passagem!

E segui para Archaia Olympia, onde eu queria gastar bom tempo do meu dia!

Mas como quem vai para o mar avia-se em terra, fui primeiro almoçar para depois explorar e caminhar sem o estomago a roer-se no vazio!

Archaia Olympia, quer dizer exatamente “Olímpia antiga” e sim, foi ali que nasceram os jogos olímpicos da antiguidade! E apesar das semelhanças de nomes, não tem nada a ver com o monte Olimpo, que fica lá para norte a centenas de quilómetros de distância.

Entra-se no recinto e envontra-se logo o Philippeion, um memorial circular jónico, que me chamou a atenção pela sua beleza ainda visivel e pelo seu nome, já que é um memorial a Filipe, e os Filipes sempre me prendem a atenção, ou não fosse o meu moçolio Filipe também!

De qualquer maneira é uma construção única já que é o único monumento ali dedicado a um humano.

Os Jogos Olímpicos nos tempos da Grécia antiga realizaram-se a partir de 776aC, deixando um período de pausa de 4 anos entre celebrações. Este modelo é conservado até aos dias de hoje. Eles eram mais do que desporto, representavam a paz e a nobreza da competição. O Estádio de Olímpia foi palco de todas as competições atléticas dos antigos Jogos Olímpicos, à  exceção das corridas de carros e cavalos que eram realizadas no Hipódromo adjacente

E ali estava eu, à porta do estádio!

Passar por aquele corredor onde se fez história tantos milénios atrás, tem sempre um impacto forte na gente! Pelo menos em mim tem!

E lá estava todo ele a meus pés! A gente consegue imaginar o rugido da multidão percorrendo todo aquele imenso espaço. Eu já vi outros estádios, mas aquele não é “um estádio”, aquele é “O estádio”!

Não conseguia evitar de caminhar por ali como quem caminha em solo sagrado e acho que, se houvesse turistas marados, agarrados aos pauzinhos de selfie a fazer macacadas pelas ruinas, eu me teria passado com eles!

O Templo de Zeus, ali ficava uma das 7 maravilhas do mundo antigo: a estátua gigantesca de Zeus, de Fídias, feita em marfim e ouro e com mais de 12 metros de altura. Em honra de Zeus se realizavam os jogos olímpicos e toda a Olympia antiga honrava o deus dos deuses.

Junto da base do templo podem-se ver as “rodelas” resultantes da desintegração das colunas, espalhadas pela área e, pelo seu diâmetro, pode-se imaginar a dimensão daquilo tudo quando estava em pé, porque cada rodela tem um diâmetro superior à minha altura

A Villa de Nero, fascinante a forma como as pedras e tijolos eram empilhados para construir aquelas paredes grossas e solidas!

Tecnica infalivel, a considerar pelos séculos que aquelas paredes têm, e tudo resitiu até hoje, mesmo negligenciado e abandonado! E, para além de tudo, bonito o resultado!

Palaestra, uma escola de luta corporal. Até o local onde se dava/levava porrada era bonito e cheio de colunas!

O Theokoleon, um edifício que abrigava os sacerdotes ¨Theokoles¨ e outros membros do Santuário, que eram oráculos ou que explicavam aos visitantes o ritual dos Jogos Olímpicos.

Gostava de poder voltar no tempo por umas horas, só para ver aquilo tudo antes de ter começado a cair aos pedaços. É sempre a sensação que tenho ao visitar um sitio daqueles…

Então, de repente, as nuvens juntaram-se e desataram a chover com tanta força que ninguém teve tempo de se abrigar. Eu achava que não havia muita gente a visitar as ruínas, porque o espaço é grande e não nos cruzávamos uns com os outros, mas naquele momento as pessoas apareceram correndo dos sítios onde estavam.

Não, eu não vou correr! A distancia é grande, não há nenhum sitio onde me possa abrigar, que adianta correr? Vou molhar-me toda e vou, correndo ou caminhando! Então caminhei calmamente para a entrada, onde a menina dos bilhetes tinha ficado com o meu capacete. Nem ela tinha uma cabine para se abrigar, tinha apenas um telhado reduzido!

Eu nunca tenho muita dificuldade em enfrentar a chuva, porque ela não me bate na cara, o que me permite até demorar a perceber se esta mesmo a pingar! Mas ali não era apenas pingar, era uma chuveirada bem intensa.

Instalei-me na esplanada do bar lá do sitio, que ainda ficava retirada do portão de entrada, pedi um granizado e fui relaxando e arrefecendo a minha mão febril.

Assim como veio assim se foi a chuva! De um lado o céu voltou mesmo a ficar azul…

… mas do outro continuava carregado como chumbo!

Não era a chuva naquele sitio que me incomodava, até porque já vira tudo o que queria ali. Preocupava-me se iria estar a chover assim ao longo do caminho que eu iria fazer.

Filiatra é uma pequena cidade sem nada de especial para ver, não fora cruzar com a Torre Eiffel e teria sido uma passagem sem história pela terrinha!

Claro que fui investigar como aquilo foi ali parar e descobri que foi construída nos anos 1960, por um médico greco-americano Haralampos Fournarakis, residente na terrinha. As diferenças entre a réplica e a torre original não se ficam pela altura, já que ela tem 26m para os 300m da torre Effel. Há varias alterações, mas quem a vê assim, de repente, acha-a uma replica perfeita.!

Em 2012, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, indignado com a torre grega, enviou uma carta de reclamação à UNESCO solicitando a remoção imediata da réplica

“É uma caricatura obscura e representa um ataque estético à civilização francesa e ao patrimônio arquitetónico global”, dizia ele. Mas como isso já foi há 10 anos e eu passei lá este ano e ela lá estava, deduz-se que a UESCO está-se pouco ralando para as imitações!

E uma coisa tão simples fez com que a terrinha ganhasse visibilidade e se falasse dela do outro lado da Europa, porque a terrinha não tem mais nada que se fale!

Então comecei a ver placas que avisavam que a estrada estava cortada mais à frente. Não sei como entendi, mas acho que eles vão tendo cada vez mais placas legíveis para quem não é grego. E lá tive de sair da rua mais à frente, para um desvio por ruelas mais perto do mar.

Ora vamos lá por ruinhas que passam por pequenas localidades rurais. Mas passam também por zonas de praia e turismo. É surreal andar por ruinhas de pequenos povoados e, de repente, atravessar uma zona turística cheia de carros bem sofisticados a empancar o transito que se tornou demais para a dimensão da estrada!

Cheguei a Pilos, uma terrinha na encosta de um monte, com uma baía encanadora como paisagem. E à medida que descia a rua que vai dar ao centro, podia já ver a Esfactéria, aquela ilha alongada que quase fecha a baía.

Por aquela altura eu já estava tão antissocial que não me apetecia estar perto de ninguém, sobretudo quando esse alguém eram turistas ruidosos. E eles estavam por todas as esplanadas! Tomei um café rápido e fui para o cais com a minha motita. Que bem se estava ali!

A longa ilha e seus rochedos parecia que estava tão perto, como sombras chinesas, que a gente estende a mão e alcança!

Estava um pouco de vento, mas nada que me impedisse de desenhar, tentando captar um pouco daquela paz.

E então voltei para a estrada, sem querer saber de quais caminho seriam mais rapidos ou mais recomendados, atravessei a serra para o lado de Esparta. Aquele céu não me inspirava confianças, mas eu tinha de arriscar a apanhar uma molha se queria explorar a montanha!

E lá fui.

Passava das 19 horas e o sol estava a descer… eu só esperava que a estrada não fosse ruim de todo, para o caso de eu não conseguir chegar ao outro lado antes de anoitecer!

E foi a mais bela escolha que eu podia ter feito.

A cada subida ou curva, as perspetivas de povoados e estrada eram de fazer qualquer
um parar e fotografar!

Segui sem pressas, porque é impossível apreciar algo de muito bonito a correr!

Atravessei apenas uma população, as outras que via estavam em encostas onde eu não passaria. Tinha chovido há pouco e a estrada estava molhada. Algumas pessoas ficaram a olhar a ver-me passar

A minha motita comportava-se extraordinariamente bem por aquelas ruas. Ela estava a ser uma aliada de valor, leve e fácil de manobrar, com a força certa para não me deixar stressar em nenhuma subida. Excelente.

E parei não sei quanto tempo  a apreciar o sol poente no topo do monte.

Uma ultima olhada para o lado poente da montanha e tudo era amarelo.

Uma primeira olhada para o outro lado e tudo era cor, verde e rosa surpreendentes!

Curiosidades de uma estrada de montanha, com um sinal de trânsito reciclado. mas claro que não pude deixar de sorrir imaginando um comboio a passar por ali!

O céu foi ficando mais rosa. Fez-me lembrar o por-do-sol no Mont Blanc, que deixa de ser branco e passa a ser monte rosa!

E cheguei a Mystras, onde ficava a minha casa naquela noite. Avisaram-me no alojamento que a cidade estava em festa e que eu devia lá pois tinha de tudo, comida e bebida também, claro.

Quando me disseram que a festa tinha de tudo, eu não imaginava que teria de tudo mesmo! Incluindo tendas de artigos religiosos: imagens, amuletos, musica, tudo!

Tinha até um padre a pregar com imensa gente a ouvir. Os ortodoxos são muito devotos mesmo! Não consegui fotografar o padre, aquela gente olhava para mim de lado e eu não podia provocar confusão desrespeitando-os na sua religião….

Ao mesmo tempo, e mesmo ao lado, tinha comidinha muito fixe! Leitão assado, espetadas, cerveja e musica alta! Como se consegue conciliar tudo isso ao mesmo tempo? Não faço ideia, mas estava toda a gente feliz assim!

Claro que quis experimentar um pouco de tudo, porquinho, espetadas, pão e cerveja, um belo menu!

E havia uma tenda de fazer bolinhas, como farturas, apenas a maquina cortava a massa em pedacinhos, em vez de ser em tripas, para uma frigideira gigante.  Não provei, porque enchiam aquilo de creves e açúcar e tal, e eu não gosto. Como já tinha a barriga cheia não me dei ao trabalho de perguntar se não faziam daquilo só com açúcar e canela. Mas fiquei a ver fazer.

Eu percebo pouco de bolos e doces, mas ali eram diferentes de tudo o que eu conheço. Havia fila para pedir daquilo, tipo cone de gelado, mas em waffles, com frutas e compota por cima!

Depois de curtir mais um bocado a confusão da festa, que aqueles gregos são tudo menos silenciosos, fui para casa, que o dia tinha sido longo. Por aquela altura já andava com a mão em cima da cabeça a ver se desinchava um pouco. Pensem o que quiserem, vocês são malucos e eu sou louca, por isso estamos todos bem.

É sempre giro ler o meu nome num país distante, como se eu fosse conhecida por lá! A minha porta era a única que tinha o nome, isso devia querer dizer que toda a gente chegou antes de mim.

Boa noite mundo que amanhã vou até Atenas… mas não vou a direito, isso é certo!

8 . Passeando pela Grécia/Balcãs – Descendo a Grécia até Mesolongion

26 de agosto de 2022

No dia seguinte não havia vestigios de festa naquele pátio! Fantáscico, considerando que a festa durou até altas horas das noite. Eu pude ouvir o barulho ao longe, dado que o meu quarto era no sótão, por isso do outro lado da casa.

Não havia mais ninguém, para além de mim e o dono da casa que me veio servir o pequeno almoço.

Ah, fazer um gelo pela manhã era tão reconfortante! De alguma forma era como se o meu pulso estivesse sempre febril e a sensação do gel frio era um alivio muito grande, de que eu apenas podia usufruir pela manhã! Ele ajudava a que o pulso e os meus dedos desinchassem e assim a movimentação fosse um pouco mais fácil. Já não era tarefa fácil mexer a mão pela manhã, mas com os dedos inchados era bem pior!

Sobre o meu desenho de ontem:

As casinhas trulli podem ser encontradas na região de Puglia, não é obrigatório ir a Alberobello para as ver, embora lá elas sejam às centenas.  Reza a lenda que estas casinhas eram construídas assim para enganar os cobradores de impostos de habitação, porque aqueles tetos em cone, todos compostos por pedrinhas achatadas, encaixadas em pirâmide, podiam ser desmontados em segundos apenas retirando uma das pedrinhas, e a casa se converteria num barraco abandonado. O meu desenho de ontem é de um aglomerado de casinhas trulli, que formam uma única habitação familiar.

O meu caminho para hoje era descer Epiro e Etólia-Acarnânia até às portas da península de Peloponeso e eu estava cheia de curiosidade para ver duas ou três coisas no caminho!

Fazer o percurso inverso da noite anterior foi aquela surpresa! Eu tinha percebido que junto ao porto havia muita vida, esplanadas a funcionar, carros a circular e gente pela rua, mas hoje tudo parecia bem menor e mais quieto!

O porto fica logo ali, bem acessível para quem se quiser aproximar. Acho que nunca tinha visto um porto assim, como uma praia de onde saem barcos!

Apesar do receio do que a estrada me podia reservar e das dificuldades que isso implicasse, conduzir era sempre uma alegria. Então, em vez de seguir pela costa, fui subindo os montes. Não era nada de muito íngreme, com curvas em cotovelo… esperava eu!

As perspetivas lá de cima sobre o mar são, frequentemente, mais interessantes que o que se consegue ver do pé dele! A costa grega é toda recortada e eu queria ter uma imagem abrangente sobre os recortes!

Passei em Perdika do monte, eu chamava-a assim porque há uma outra numa ilha perto de Atenas. Não havia muito o que ver por la, mas havia muita gente para me ver, eu acho! Pelo menos era a sensação que as pessoas me passavam, ao se chamarem umas às outras para me virem ver!

Parei um pouco para dar uma olhada ao largo principal da povoação que, por sinal, era um largo bem desarrumado e irregular. A igreja estava fechada, mas dava para espreitar pelo vidro da porta. As igrejas ortodoxas, mesmo quando são simples, são linda de ver por dentro.

Mas a passagem por ali não era tanto para ver as terras por onde passasse ao acaso. Eu tinha um objetivo para além de apreciar a paisagem, que continuava a ser linda, eu procurava uma terra em especial!

A rua foi estreitecendo e começou a ser cada vez mais dificil para mim conduzir por ela, porque os carros maiores atrasavam o transito e eu era forçada a usar embraiagem e mudanças de 50 em 50 metros, mas a beleza do lugar valia bem a pena!

Então lá estava Parga, com os seus rochedos/ilhotas e praias cheias de gente.

A estrada estreitinha e cheia de transito, serpenteava contornando a costa e podia ver as terrinhas lá em baixo. As perspetivas sobre a praia e a sucessão de povoados eram encantadoras.

Assim que a ruinha permitia eu parava para deixar os carros seguirem o seu caminho e para eu descansar um pouco e fazer fotos.

Eu via motos lá em baixo e a estrada meio livre, mas quando cheguei ao entroncamento que me levaria até lá, era a barafunda total, com vários carros de bebidas, enormes, a empancar tudo!

Mas não tive coragem de ir até ao centro… a barafunda de transito e pedestres desmotivou-me de meter a moto lá no meio e forçar ainda mais o meu braço que estava já a doer por todos o lado até à ponta dos dedos.

Mas não faz mal se não me meto mo meio do povoado para ver recantos, até porque deviam estar cheios de gente mesmo. Parei a minha motita num cantinho da estrada, onde carro nenhum teria espaço para parar sem empancar o transito todo, e fiz a minha pausa zen, com aquela paisagem inspiradora e o meu sumo de laranja como companhia.

Segui a bela estrada, que ora pareceia uma rua, ora parecia uma via rápida. Mas que tinha sempre paisagens incriveis!

Não é fácil saber o que estamos a ver, quando passeamos pela Grécia, mas consegui descobrir que a paisagem inspiradora que me aparecia à direita era o estuário de um rio, o Rio Acheron.

Há muita vida lá em baixo, não é simplesmente um pântano sem nada nem ninguém para além dele.

Então cheguei a Arta, a antiga Ambrácia, fundada mais de 600 anos antes de Cristo! Cheguei exatamente pelo lado da ponte, uma das coisas que mais queria ver e do mais importante que a cidade tem.

Uma cidade que, só pela sua antiguidade, me fez querer visitar para ver duas ou três coisas. Não teria de ver tudo, apenas passear calmamente e relaxar no meio da história.

A ponte foi construída para atravessar o rio Arachthos, foi restaurada e reconstruída muitas vezes ao longo dos séculos, sobre fundações romanas ou anteriores.

O seu aspeto atual é provavelmente uma reconstrução otomana do século XVII.

O rio Arachthos ou Aracto, era digno de apreciar também, com as suas águas limpidas e transparentes e margens verdes!

Tive de me sentar ali e tomar um café, porque o café é ótimo na Grécia e porque queria sentir a atmosfera do local. Adorei!

Há uma casa mesmo na entrada da ponte e motos estacionadas lá! Fiquei com pena de não ter trazido a minha motita para ali também, ela teria gostado certamente… 😀

Outra coisa que eu queria muito ver ali era a a antiga Igreja Bizantina Imperial de Panagia Parigoritissa. 

A Igreja de Parigoritissa, ou de Panagia da Consolação, estava na minha lista de coisas a ver há muitos anos, à espera que eu voltasse à Grécia, porque é uma construção que sempre me fascinou.

É uma construção do final do século XIII, ligeiramente retangular, com 3 andares e 5 cúpulas octogonais. Isso é o que se vê por fora, porque quando se entra a atmosfera é impressionante.

O interior é imponente, alto e poderoso, revestido de mármore e afrescos, ao nível da galeria, que conseguiram chegar até hoje mesmo estando ao alcance de quem passa. Estes afrescos são bem mais recentes que a construção, mesmo assim têm uns 5 séculos!

No topo da cúpula central um mosaico com o rosto de Cristo, forma um conjunto vertiginoso quando a gente olha para cima!

Eu sabia que ficaria hipnotizada quando entrasse ali. Embora já tenha visto igrejas ortodoxas impressionantes, novas, restauradas e resplandecentes, como a Catedral do Sangue Derramado em São Petersburgo, aquela tinha o poder da pedra nua e crua, que contava histórias e provocava sensações completamente diferentes.

Como se a sua história fosse mais tangível na sua pureza

As colunas que sustentam a cúpula, brancas e altas, encostadas às paredes, de alguma forma fizeram-me lembrar ossos, como se fossem as costelas do edifício! Realmente fiquei meio hipnotizada!

AS paredes traseira da igreja estão amparadas com uma estrutura de metal, como um andarilho, se ela fosse andar.

E segui para Preveza. A zona está cheia de vestígios históricos, porque perto fica a antiga Nicópolis, a cidade fundada por Augusto. Não era minha intensão visitar tudo de fio a pavio, até porque estava calor e a minha paciência para caminhar não era a maior. Mas fui logo recebida pelo Monumento a Augusto fechado!

Depois disso, à medida que seguia pela estrada paralela às muralhas, pude perceber a grande movimentação de turistas… É de doer a alma ver pessoas subirem nas coisas para tirar fotografias, sem pensarem que tudo aquilo tem para lá de muitos anos! Se os turistas continuarem a subir nos monumentos, a gravar nomes nos monumentos, a caminharem sobre muros e muralhas, as coisas vão tender a desaparecer para sempre, tudo por uma bela foto no instagram…

Amuei!

Não me apeteceu de todo caminhar por entre turistas barulhentos debaixo do sol quente. A minha mão doía, o meu pulso latejava, eu precisava de frescura, não de calor. Por isso saí das ruas principais, fui atrás do Ambracian Gulf, eu vinha a vê-lo desde Arta pela imagem do GPS .

O Ambracian Gulf tem vários nomes: golfo de Arta, golfo ambraciano e golfo de Áccio.

É um golfo fechado do mar Jônico. É como uma piscina de mais de 600 km², tem 40 km comprimento e 15 km de largura, é um dos maiores golfos fechados da Grécia e é um parque nacional. E era muito fixe passear em redor, onde não havia ninguém e tudo era frecura e beleza, só para mim!

Ainda dei uma volta na cidade, pois a ideia era seguir para a Etólia-Acarnânia por ali, mas percebi que teria de atravessar por um túnel e não me apeteceu, por isso decidi dar a volta ao golfo por Arta de novo.

É daquelas coisas que decido de repente e fico sem saber se decidi bem, pois vejo o que ganho, mas não vejo o que perdi! Paciência, se eu cá voltar farei as coisas de outra maneira, agora vai assim.

Arte urbana é uma coisa que sempre me chama a atenção.

Quando volto a passar onde passei, aproveito para captar o que já me chamou a atenção na primeira passagem, foi o caso desta estação de serviço, perto de Arta, que me prendeu a atenção por ter tudo o que uma estação de serviço tem, mas ser uma estação de abastecimento de café e não de gasolina!

No sitio onde ficam as mangueiras de abastecimento, há um balcão com bancos e, na dúvida, diz Coffe Station!

Uma das coisas que me chama a atenção em qualquer país, é a arquitetura civil que vai aparecendo pelas ruas que percorro. E a Grécia está cheia de exemplos encantadores, mas também de exemplos curiosos! Casas sem nada no ré-do-chão e tudo no primeiro andar é uma das coisas que se encontra um pouco por todo o lado.

Escrevia eu no meu facebook:

“Sr. Arquiteto, eu quero uma casa no primeiro andar.”

“Certo, e o que quer que tenha no Rés-do-chão?!

“nada! Só quero a casa no primeiro andar!”

“Ok, feito!”

São as casas sem rés-do-chão e as muitas casas com os ferros dos alicerces a aparecerem no topo dos pilares e dos telhados, dizem que é uma forma das casas não serem consideradas terminadas para efeito de evasão de impostos. Não sei se é ou não, sei que resulta estranho!

Já que estava de volta a Arta, aproveitei para dar uma volta à medida que subia a cidade, encontrei a Necropole da antiga Ambrácia

Logo ao lado fica o Templo de Máximo, o Grego. A igreja é recente, de 2016, e estava fechada, mas é bonita por fora também, cheia de cor.

Este é o primeiro templo construído em homenagem ao santo em sua terra natal.  São Máximo nasceu em Arta e é uma das figuras mais importantes do século XVI para a teologia ortodoxa, com uma reputação que ultrapassa as fronteiras gregas.  Conhecido como São Máximo de Vatopedino, ele foi descrito como um “reformador dos russos”, enquanto os próprios russos o chamam de Maksim Grek, que significa Máximo, o grego.

E fui seguindo o contorno do golfo, evitando auto-estradas e vias rápidas como eu gosto. Encontrei o rio Aqueloo  com perspectivas impressionantes

Achei muito interessantes as pinturas de murais na Grécia, frequentemente representam personagens históricas, provavelmente por ser um pais cheio de história tomam-ma como tema!

A ponte era estreita e tinhamos de esperar que uns viessem para nós irmos, uns de cada vez.

E cheguei ao meu destino Messolonghi.

A arquitectura das cidades é muito característica, como se todos os prédios fossem cheios de grandes varandas e terraços no topo.

Messolonghi é chamada oficialmente de Cidade Sagrada de Messolonghi, nome que vem do tempo em que foi palco de vários cercos sangrentos durante a Guerra da Independência Grega. No 3º cerco, depois de resistir por um ano, o povo decidiu abandonar a cidade sitiada, “o êxodo”. Poucas pessoas sobreviveram porque foram traídos nos seus planos e esse ato heroico deu à cidade o nome de santa, até aos dias de hoje.

A cidade é conhecida também porque ali morreu o poeta Lord Byron.

Ele viajou para a Grécia para lutar contra o Império Ootomano na Guerra da Independencia Grega, e por isso os gregos o reverenciam como seu herói nacional. Morreu aos 36 anos após contrair uma febre em Messolonghi.

Junto ao Portão de Messolonghi, está a impressionante Estátua da Liberdade de 5 metros de altura, de 2014.

Uma curiosa representação da liberdade, que aparece em movimento, como se impondo, e não como uma mulher seminua!

Messolonghi está localizada bem na berma da enorme lagoa de Klisova formada pelos sedimentos dos rios Acheloos e Evinos, que formaram uma barreira natural que separa a lagoa do Golfo de Patras, e por isso não há ondas, a menos que haja ventos fortes.

Na realidade a origem do seu nome vem mesmo de Mezzo e Laghi que significam “no meio dos lagos” ou Messo e Laghi (Messolaghi) que significam “lugar cercado por lagos”

A imponente porta e as muralhas de Messolongion revelam a identidade histórica da Cidade Santa. Atrás daquela muralha fica o jardim dos heróis, que ocupa uma área de 14 hectares, com enormes palmeiras, ciprestes e eucaliptos, um cemitério, onde os combatentes da guarda da Cidade Santa de Messolonghi foram enterrados.

Eu dei uma volta pela cidade de moto, mas não era ali que eu queria explorar, então fui dar à estrada da marginal onde, um pouco mais à frente, tem uma saída para a lagoa.

Há uma rua no meio da água, são 3 km de estrada até ao ilhéu Tourlida. É uma estreita faixa de terra, que foi construída em 1884 e atravessa o lado ocidental da lagoa Kleisova.

Parece que morre gente naquela estrada tão pacifica… É um habito por aqueles lados, erguer um pequeno memorial no local onde alguém morre, com foto do defunto e tudo! Ali havia dois, o que me surpreendeu, pois a rua não me puxou em nada para acelerar! Talvez por ter água dos dois lados, tão perto e sem qualquer barreira, cá no fundo a sensação era que, se me portasse mal na estrada iria parar à água!

As casinhas na água chamam-se pelades. São casas de pescadores feitas de madeira e apoiadas em palafitas, a uma pequena altura acima da superfície da lagoa ou mesmo da terra, para prevenir enchentes

Açudes dividem a água, como muros que dividem terrenos, onde se pescam robalos ou enguias e se faz piscicultura.

Pescadores percorrem os açudes de carro para se instalarem a pescar no meio da lagoa. Quase meti a moto por ali, mas depois lembrei-me que teria de fazer manobras para sair e não me apeteceu forçar a mão marota a tal exercicio.

Tourlida fica no fim da estrada da água e é uma aldeia piscatória, com casinhas lacustres encantadoras, empoleiradas sobre palafitas, onde apetece viver por uns dias, rodeada de beleza.

Apenas os caminhos são meio macacos, feitos de terra e lama! Se eu vivesse ali tinha uma moto de todo o terro, certamente!

E há uma capela muito bonita junto da estrada, a capela de Agios Nikolaos

Olhava para terra e tudo pareci tão longe, como se eu tivesse atravessado uma barreira invisivel para outra dimensão. Nem conseguia mais ver a cidade, apenas os montes!

Passear por ali era mesmo como percorrer uma realidade paralela de beleza e paz, que contrastava profundamente com a agitação da cidade.

Mas eu tinha de voltar e tinha de ir a uma farmácia comprar repelente pois os mosquitos, moscas ou moscardos, ou seja lá o que fosse, andavam a comer-me viva e eu já tinha os dedos da mão direita quase tão inchados como os da esquerda à conta disso.

Giro foi explicar o que queria a um grego, tipo preciso de “cho- cho-cho para pzzzz” isto acompanhado por gestos e sinais de abanar, voar e morder! E o homem entendeu perfeitamente.

A minha casa era um apartamento no primeiro andar. Eu tinha passado no supermercado e iria cozinhar e beber um bom vinho na varanda, que era o topo do prazer para mim naquele momento!

O cansaço era tanto que a vontade era mesmo ficar em casa e não mexer mais…

7. Passeando pela Grécia/Balcãs – Mais mar… até à Grécia!

25 de agosto de 2022

Ora vamos lá que hoje é dia de ir apanhar outro ferry…

Tinha de estar no porto às 12.00h por isso ainda tinha tempo de ir até Brindisi calmamente em passo de passeio

O alojamento era muito agradável e era orientado por um casal de velhotes muito simpático, que tinham um congelador que congelava mesmo e um lugar para eu guardar a moto de noite e tudo! A casa era grande e tinha uma decoração bem a condizer com os proprietários. mas o melhor foi o pequeno almoço, cheio de coisas fixes para alguém esfomeado como eu comer à vontade!

Ainda pensei em dar um retoque ao desenho do dia anterior, mas ficou mesmo assim, embora as rodas pareçam meio tortas, estão direitinhas, por isso fica como está! Memória de uma passagem por Roma!

E lá fui buscar a moto, consciente de que ia ser uma aventura. Tive de montar e manobra-la apoiando-me na força de pernas e da mão direita, já que a mão esquerda ainda não tinha acordado!

Meu Deus, a dificuldade que eu tive a fazer uma manobra tão simples sobre a gravilha para tirar a moto dali! No dia anterior entrei e arrumei-a tão facilmente que me esqueci de a por em posição que me facilitasse a saída. Mas afinal não haveria dificuldade alguma em sair dali… se a mão marota tivesse um pouco mais de força, conseguisse segurar o guiador com firmeza e apertar a embraiagem a fundo…

Dei uma volta por Sannicandro di Bari antes de me fazer à estrada, apenas porque não havia trânsito e por isso não tinha de usar muito a embraiagem nem as mudanças. O sitio é simpático, muito perto de Bari, com algumas coisas giras de ver. Eu estava numa de ver mas não de fotografar, tudo o que implicava parar a moto era coisa que não me apetecia de todo.

O Monumento ai caduti, ou  Memorial de guerra, fica na piazza Unità d’Italia e é dedicado aos soldados nascidos em Sannicandro que morreram durante a primeira e segunda guerras mundiais. O sino, no topo do monumento, chama-se Augustea e foi construído com o bronze retirado dos canhões aos austríacos durante as guerras. Ou os canhões eram muito pequenos, ou estavam em cacos e só se puderam usar pedaço pequenos, porque o sino não é gigante!

Alberobelo ficava perto do meu caminho, mas eu não tinha vontade de lá ir. A cidadezinha está sempre cheia de turistas, parar para visitar implica sempre bastante tempo e não me apetecia ir lá numa corrida, fazer tanto esforço para depois andar no meio da multidão para trás e para a frente, como aconteceu quando lá fui há uns anos.

Mas percorrer caminhos próximos pode ser tão ou mais gratificante do que ir até à terrinha em si. Porque se pode passear calmamente por ruelas sem transito, que serpenteiam por entre vinhas, com casinhas com os mesmos telhados de pedra encantadores.

E era como um espectáculo só meu, porque apenas eu por ali andava mesmo!

Deu para espreitar nos quintais, entrar em algumas casinhas abandonadas e perceber como funcionam por dentro e tudo!

E deu para comer amoras! Eu sempre paro quando vejo amoras silvestres, e ali havia tantas!

Então estava na hora de seguir para Brindisi, senão iria chegar lá muito tarde e, se eu já stresso quando chego cedo para embarcar, imaginem como seria se chegasse tarde! Apanhei a via rápida, era a melhor forma de seguir sem preocupações nem percalços até lá… pensava eu!

Eu tinha sempre a preocupação de deixar espaço suficiente em relação ao carro da frente, não fosse ele travar e eu não ter capacidade de segurar a minha moto de repente, e seguia na minha velocidade certa. Na realidade a sensação era de que todos os carros iam à mesma velocidade, por volta dos 110km ou 120km, já que a velocidade legal era de 110 e eu não queria trazer nenhuma multa para casa.

Até que, nem sei como, talvez porque levava mesmo os sentidos bem apurados por causa da minha insegurança quanto à minha mão, percebi pelo retrovisor que vinha ai uma carrinha comercial em grande velocidade ou, pelo menos, bem mais rápido que eu e todos os carros que eu podia ver em torno de mim. Nada de novo, se o tipo tivesse seguido o seu caminho, mas não é que o maluco vira à direita bem na minha frente, ao que parece para sair ali! Mas ele estava na faixa da esquerda e tinha, por isso, de atravessar duas outras, cheias de transito em movimento, para sair!

E assim foi, eu reduzi e travei para sua excelência passar bem na minha frente sem me espatifar contra ele, mas temendo que os de trás se espatifassem contra mim, e ele atravessou toda a estrada em velocidade de quem não tem travões, revirando-se bem na minha frente e continuando a capotar de lado até ao separador da via de saída. Galgou o primeiro separador e quase saltou o segundo para ficar pendurado nele, não caindo por pouco sobre um desgraçado que não tinha culpa nenhuma e vinha apenas a entrar na via rápida!

Ok, o que foi aquilo?

Ninguém parou, foi como se nada tivesse acontecido, continuamos todos o nosso caminho à nossa velocidade e pude ver pelo retrovisor que, enquanto o maluco esteve ao alcance da minha vista, ninguém parou mais. Aparentemente aquela gente ia trabalhar e não tinha tempo para perder com um parvo qualquer que decidiu destruir o carro por pura estupidez!

Felizmente a correria terminou logo a seguir pois saí daquela maluqueira já que estava a chegar a Brindisi e tinha de procurar o porto.

É tão curioso começar a ver placas a indicar a direção da Grécia sabendo que ela fica do lado de lá do mar!

E as placas da Grécia levavam direitinho ao terminal, muito bem sinalizado. Fantástico! Acho mesmo que nunca vi terminal tão bem sinalizado!

O destino da esquerda chamou-me a atenção, seria fantástico atravessar para a Albânia! Ao tempo que eu não ía lá, mas também não seria desta vez…

O meu Chek-in era na direita, sem filas nem chatices. Aparentemente não há muito turista a embarcar ali e isso é fantástico!

A minha motita tinha feito uma amiga no entretanto. Fez ela, porque eu nem por isso. O dono da Goldwing nem para mim olhou! Que se passa com estes motociclistas que nem cumprimentam, nem falam, nem olham, para a gente? Serei tão assustadora assim que nem apetece falar?

Fiquei desapontada porque estivemos ali os dois e nem uma palavra trocamos! Eu não faço questão de conversar com todos os motociclistas que cruzam o meu caminho, mas estar quase lado a lado por mais de 45 minutos sem nem olhar é uma forma de dizer fica na tua que eu fico na minha. E eu fiquei!

Tudo mudou quando chegou um casal italiano!

Supersimpáticos, fartaram-se de tagarelar comigo enquanto esperávamos e, quando entramos no terminal, juntamo-nos a outros motociclistas que tinham entrado direto e já estavam à espera, foi um tempo de espera muito mais interessante e animado. Depois percebi que o tipo carrancudo da Gold era mesmo carrancudo com toda a gente. Não trocou nem uma palavra com ninguém. É raro encontrar um viajante solitário com ar de poucos amigos e pouco sociável, mas que eles existem, existem!

Connosco estavam 3 motards marroquinos, muito boa gente também. Vinham e Agadir, tinham um meeting na Austria e iam até lá em passeio, explorando e aproveitando o caminho.

A minha motita ficou bem arrumada no meio de 2 Marroquinas… enquanto não vai a Marrocos, vem Marrocos até ela!

Tão pacifico embarcar num porto sem multidões, de alguma forma isso fazia-me bem. Não me sentia pressionada nem preocupada com nada. Também à força de embarcar e desembarcar aqui e ali, começo a não stressar tanto com a operação!

Percebi depois que havia pouca gente a embarcar de carro e ninguém a embarcar a pé. Não havia gente por todos os lados a arrastar tróleis, malas sacos e sacolas e a zona de cadeirões estava completamente vazia! 

Foi quando fui comer que percebi que a grande parte dos viajantes era camionistas! Sim que eu reservei viagem com almoço, já que há pouco o que fazer num ferry, ao menos não falte o que comer!

Era eu e os homens todos! Alguns comiam dois pratos de comida ao mesmo tempo, muito pão, bolos de por aí fora. É muito fixe comer no meio destes homens, até fico com a sensação de que como pouco!

O entardecer num ferry é a coisa mais gira que tem para ver lá, e naquele era tão pacifico, porque não havia vento algum, nem frio, apenas nós e o mar. Lindo!l

E os moços dos camiões estavam por todos os lados, calmamente na mais amena cavaqueira. Acho que camionistas são as pessoas que mais se parecem com motociclistas. Sem nem dar por ela estava naturalmente a conversar com eles, sobre motos, viagens e tudo o que eu podia ver e eles não, porque o camião vai muito longe, mas não pode ir a muito lado.

Os meus amigos marroquinos eram uma animação, ficaram muito contentes por eu falar francês, porque não encontravam facilmente quem falasse. Ah pois, em Espanha não deve ser fácil não, sobretudo longe da fronteira de França. E estes homens não eram motociclistas de ir ao café de moto ao domingo, andam para caramba, o senhor mais magrinho tinha uma trail e fazia percursos fora de estrada nela, com muita classe.

Quem gosta, gosta e não se inibe com nada, apenas ajusta a moto aos seus interesses e vai em frente. A idade? É maioridade, por isso são livres, sem prazo de validade!

Esta travessia foi tão agradável que fiquei surpreendida quando percebi que já tínhamos chegado. Ok, a travessia era de “apenas” 9 horas, por isso o tempo foi muito menos que a travessia de Espanha para a Itália! No entanto era mais tarde do que eu pensava, porque me esqueci do fuso horário: na Grécia é mais tarde duas horas do que em Portugal, e mais tarde uma hora que na Itália, o que fazia as 21.15 horas serem, na realidade, 22.15h!  Bolas, eu não tinha contado com isso e dissera ao alojamento que chegaria uma hora antes!

Ok, saio do barco e sigo o mais rápido que puder para lá, afinal é perto do porto! Mas estava enganada as ruas eram todas aos SS, cheias de subidas e descidas, aparentemente pelo meio de lado nenhum, sem luz alguma e eu sem habilidade nas mãos para fazer uma condução mais agressiva! Por muito que me custasse tive de seguir com calma e cuidado esperando que houvesse alguém para me receber e me dar um quarto para eu dormir!

Qual não foi o meu espanto quando, no meio do escuro da noite, vejo o edifício todo iluminado, cheio de carros à porta e, à medida que me aproximava, podia ouvir musica incrivelmente alta na noite! Não é que o local estava com a maior festa e animação que se pode imaginar?

Entrei timidamente pelo sitio, a festa ocupava todo o pátio e toda a gente pôs os olhos em mim, seguindo os meus passos até à casa. Nunca me senti tão feia, desgrenhada e mal vestida! No meio de toda aquela gente em taje de festa de cores vivas e variadas e penteados caprichados, eu contrastava em tudo, como se pertencesse a outro planeta!

Mas as pessoas foram muito simpáticas comigo, até me ofereceram-me petiscos e bolo! E, quando me ofereceram o que eu quisesse para beber, pedi um vinhinho da zona, que eu gosto de saber o que se produz de vinhos no sitios onde passo.

E fui para o meu quarto, que ficava num sótão fofo, com terraço e tudo, curtir a minha pequena festa particular.

É assim que eu gosto, que nada me falte, sobretudo a paz…

Que fixe, amanhã vou começar a explorar a Grécia! E não havia pensamento que me trouxesse mais alegria naquele momento!

6. Passeando pela Grécia/Balcãs – Descendo a Italia até Bari

24 de agosto de 2022

Não posso negar que acordei com receio de não conseguir conduzir direito a minha moto. Depois do tempo de inatividade no ferry, a mão acordou completamente imóvel, os dedos estavam inchados e as dores no pulso eram fortes.

Os meus desenhos num ferry são tão inspirados quanto o ferry em si. Nada de novo no convés…

O dia estava lindo, mas as memórias do caminho que eu tinha feito para chegar até ali, de noite, por estradinhas estreitas e cheias de curvas em cotovelo, faziam-me temer pelas minhas habilidades de condução! E depois eu tinha de descer o país e a condução dos italianos não é a mais ordeira e pacífica que conheço. Mas eu nunca deixo as inseguranças tomarem conta de mim, deixo as preocupações para pensar depois, à medida que as coisas vão surgindo.

Agora a minha prioridade era tomar um bom pequeno almoço e arrumar as minhas coisas para partir!

O alojamento era uma casinha muito simpática, dentro de um grande jardim, aparentemente cheia de gatos e cães

ou, pelo menos, de gente simpatizante dos bichinhos, a considerar pelas diversas placas engraçadas sobre peludos e patudos.

Na realidade não vi gato nem cão, apenas gente. Desta vez não tive companhia felina ao pequeno almoço!

Eu não queria enfrentar trânsito intenso, mas, ao mesmo tempo, não conseguia resistir à proximidade de Roma. La fui andando e, sem querer querendo, acabei por não resistir e atravessar a cidade!

Ao tempo que eu não passava ali, as saudades que eu tinha de Roma!

Claro que fiquei com saudades na mesma, porque depois do esforço de conduzir no meio do trânsito intenso, a vontade era de me pôr a andar dali para fora.

Tenho de voltar a Roma com mais tempo e com ambas as mãos a funcionarem bem.

Naquele momento eu não queria confusões, queria apenas rolar pelo país abaixo sem muitas manobras motociclistas, apreciando apenas o que fosse aparecendo à medida que eu ía passando. Assim passei em Sora, ou Sora passou por mim, com a sua Abbazia San Domenico Abate, do século XI, tão bonita, na beira da estrada!

Aquela é uma zona que eu quero explorar melhor, mas não naquele momento.

Mais abaixo aquele rio tem perspetivas muito bonitas, na Isla del Liri, mas o movimento para aquele lado era tanto que eu fugi para a paz.

Espreitei só a Piaza S. Restitura, para tomar um café e porque tinha visto a traseira da Chiesa Collegiata di Santa Restitura, a padroeira da cidade, que parecia quase um castelo. Na realidade muito semelhante à Abbazia San Domenico lá atrás, mas é uma construção muito mais recente, do século XX.

Tomei o meu café com uma paisagem sem turistas, um privilégio que aproveitei bem!

A estrada livre era o momento de paz para a minha mão dolorida, e era nestes momentos que eu aproveitava para pousar a mão do depósito da moto e a deixar descansar..

Então eu vi a Basilica Santuario di Maria Santissima Addolorata ou Santuario dell’Addolorata di Castelpetroso no meio dos montes. Eu já tinha passado ali uns anos antes.

Tive de parar e decidir, enquanto lanchava qualquer coisita: vou até lá ou sigo caminho?

O santuario era tão bonito visto da estrada que eu tive de lá ir, só passar, para ver de perto.

A magnífica construção é Neogótica.

Santissima Addolorata é o mesmo que Santíssima Senhora das Dores e o santuário tem uma história que vale a pena saber!

Em 1888 a Virgem apareceu pela primeira vez a dois pastores que procuravam uma ovelha perdida. Eles a viram ajoelhada, olhando para o céu, com Cristo morto a seus pés. Uma Pietà. Meses depois o bispo de Bojano foi ao local investigar sobre a aparição e também A viu. Então 2 anos depois foi lançada a primeira pedra para a construção do santuário, que apenas foi consagrado em 1975, mais de 80 anos depois!

No altar fica um oratório neogótico com a escultura da Pietà, a Nossa Senhora das Dores com Cristo morto a seus pés.

E aquela cúpula é hipnotizante! Acho que, para mim, todas as cúpulas o são!

Lá de cima a paisagem tem outro encanto, que da rua não dava para perceber!

Só pela perspetiva da paisagem já valeu a pena ir até lá, mesmo passando por algum transito e alguns turistas e peregrinos.

Ainda tinha uma série de quilometros para fazer e quando é assim eu aproveito as paragens para abastecer, para me abastecer também.

A minha motita dava nas vistas onde eu parava, acho que, pelo facto de ser branca chamava mais a atenção. Ao tempo que não me perguntavam se eu vinha da Polónia! E eu tinha de lembrar que Polónia é “PL” e não apenas “P”.

As paisagens continuam lindas à medida que se desce o país, afinal a Itália é linda, toda ela!

Mas à medida que se desce, o lixo aumenta. Não há área de descanso sem lixo, apenas há com muito ou pouco!

E quando precisei de parar, por um motivo qualquer, tive de esperar e andar até encontrar uma área menos suja, porque não é só o lixo que incomoda, é o mau cheiro também, tão mau que eu podia senti-lo ao passar na estrada!

E não, não é só nas áreas de descanso que ele está, é um pouco por todo o lado..

Ainda cheguei a Bari de dia, a tempo de passear um pouco pela cidade, comer e descontrair.

Eu já tinha estado na cidade, por isso não tinha ansias de a catar em pormenor, apenas passear um pouco.

A cidade é muito interessante, com um centro histórico muito bonito, feito de pedra branca e construções cheias de história.

Sempre que ando a pé pelas ruelas de uma cidade e vejo uma moto a passar, dá-me vontade de ir buscar a minha e andar por ali também! Uma vez fiz isso no bairro gótico em Barcelona, tinha eu uma PanEuropean qualquer, e foi giro de ver, porque as ruelas a dada altura eram tão estreitas que as pessoas tinham de se encostar às paredes para eu passar. Só parei quando deparei com uma placa de proibição à circulação de motos!

Bem, ok, naquele dia eu não estava em grandes condições para andar a manobrar a moto em ruelas tão estreitas com um piso meio escorregadio, do polimento das pedras que o compunham!

E lá cheguei até à Piazza del Ferrarese, só para não ir embora sem ter passado no centro do local!

Estava na hora de ir para casa, a minha vontade de explorar tinha sido mais forrte que a dor na minha mão, mas agora era ela que estava a vencer!

Amanhã tenho outra seca de ferry para apanhar…