11.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega


– Um longo dia, cheio de sofrimento e beleza –

10 de agosto de 2019

Estava um frio de rachar quando acordei, acho que durante a noite estiveram temperaturas negativas.

Ali não se sentia o vento, mas o frio e a humidade sentiam-se e bem! Os balneários eram aquecidos, o que fazia um efeito curioso, a gente chegava cheia de roupa, entrava a porta e parecia que estava numa sauna.

Tudo o que eu esperava é que o vento tivesse abrandado e o dia fosse calmo. Eu tinha tantas coisas para ver que lutar com o vento não era coisa que ajudasse muito a minha exploração.

O parque de campismo era muito bonito, valia um pequeno passeio por ele como despedida, correndo o risco de acordar alguns dorminhocos. O que vale é que a minha motita é silenciosa!

A sala comum estava cheia de gente a dormir. Acho que todos os mochileiros e ciclistas foram fugindo do frio noturno com os seus sacos cama para lá. Tenham paciência meninos, mas eu preciso de água quente para o meu café. Era muito cedo ninguém estava a fazer pequenos almoços, dormiam mesmo!

E eu segui o meu caminho para perceber, logo à frente, como o vento estava forte. E só pioraria ao longo do dia, à medida que eu seguiria para Este.

Pelo menos o tempo não estava chuvoso e até se vislumbrava um pouco de céu azul. Fantástico!

Eu aprendera, no norte da Noruega, que o as luvas nunca são demais quando está frio percistente por muitos quilómetros, por isso tinha comigo varios pares de luvas de aquecimento para usar por baixo das luvas da moto. E ainda bem que as levei, porque estavam a ser bem necessárias!

A atmosfera eterea fazia lembrar, precisamente, o momento em que eu cruzara o Circulo Polar Artico. A sensação era de passear no paraíso, não fosse o vento forte e o frio.

Ao longe podia ver a neve em cima dos montes baixos. Como não poderia estar tanto frio, afinal a terra do gelo não pode ser quente!

A sensação de solidão era bem mais forte do que em qualquer viagem que eu fizera até então, não só porque não se avistava vivalma em quilómetros de caminho, mas porque acampando não há a sensação de poder conviver com uns e com outros, como ficando hospedada num hostel.

Eu queria parar a todo o momento, para apreciar a paisagem surreal, mas o vento não estava para brincadeiras e parar era uma autenctica aventura. Não só tinha de ter cuidado com a posição em que parava a moto, para o vento não a derrubar, como tinha de ter cuidado comigo ou ele atirar-me-ia ao chão também!

E no entanto a serenidade estava lá, embora só fosse visivel para os olhos, se os ouvidos não ouvissem o uivo da ventania.

Avistar casas era tão raro. que só me questionava como seria viver assim isolado! Seriam familias grandes, cheias de gente, ou seriam pessoas solitárias, vivendo perdidas no meio do nada?

Estava a atravessar o vale de Hörgárdalur e ao fundo podia ver os picos do Drangafjall, como dedos a apontar para o céu.

De alguma forma a paisagem lembrava-me um pouco a ilha de Skye, na Escócia, e o seu Old Man of Storr.

Quando a solidão é absoluta, parece que estou sozinha no mundo.

Deslumbramento com moto..

… e deslumbramento sem moto…

Deslumbramento no vazio sem ninguém no horizonte, apenas eu e minha moto!

Eu sempre chamo de “montes em negativo” quando eles aparecem para baixo de mim.

A gente pára e olha para baixo e toda a altura das montanhas é muito maior para baixo do que para cima do ponto onde estamos!

E sem ter subito, estou no topo de algo, de um desfiladeiro fantástico.

O vento quase atirava comigo lá para baixo. Ele soprava forte por entre as escarpas com um som assustador.

Credo, se eu caisse lá abaixo ninguém me encontaria por dias!

E precisei lutar com ele apenas para caminhar até à moto. Era cedo e eu já estava acusar cansaço da luta com o vento infernal!

Não havia muito o que escolher, apenas paisagem sem moto ou paisagem com moto, a cada vez que conseguia parar um pouco!

Não ha muitas estradas por ali, então toda a gente que passa deve passar por ali. Então porque não há ninguém a passar, só eu?

Regos e rios correm por todo o lado e, aparentemente, em todas as direções. Bem, a ilha é tão recortada nos seus limites, que os rios devem correr mesmo em todas as direções, já que o mar também está por todo o lado!

E encontrei uma localidade com meia dúzia de casas e uma igreja curiosa, com um nome ainda mais curioso… se o conseguirmos pronunciar!

A igreja Miklabæjarkirkja estava fechada, parece que é costume, e nem dava para espreitar para dentro. No seu jardim fica o cemitério e desde ali pode-se ver a imensidão do “deserto” que a rodeia.

Não se vê gente e encontro um cemitério! Será que as pessoas morreram todas?

Mais um momento de descanso na luta com o vento e aproveitar para aquecer as mãos e o coração, até encontrar uma bomba para pôr gasolina.

As posições em que eu parava a moto para o vento não a levar, eram hilariantes por vezes!

Mais uns quilómetros e lá estava uma estação de serviço, com croissants quentes e café! A sensação de estar com gente era tão boa que eu aproveitava para conversar um pouco. Afinal estava em Varmahlíð, uma terrinha que era bem mais que 3 ou 4 casas, tinha hotel e tudo e mais de 100 habitantes… poucos mais!

Muitos copos de Kaffi 66 a minha motinha segurou para mim, naquele país, enquanto eu deitava conversa fora ou, simplesmente, olhava em redor.

E, surpreendentemente, havia pessoas a chegar! Porque é que na rua eu não via ninguém e, de repente, ali elas apareceiam? De onde sairam elas para onde iriam, será que ía começar a ver gente pelo caminho, porque simplemente o povo se levantava tarde??

Bem, pertinho dali fica uma igreja que eu queria ver, a Víðimýrarkirkja.

Há quem diga que ela é a mais bela igreja de turfa da Islandia. Não sei se é verdade, não as vi todas, mas vi que é encantadora

Tinha de a visitar por dentro e, ali no meio de lado nenhum, a entrada era paga por cartão multibanco!

Claro que aproveitei para me pôr ao paleio com o senhor que está a tomar conta dela.
A igreja é do século XIX, mas tem pormenores muito mais antigos do que isso, como o retabulo do altar que é do século XVII e veio da Dinamarca.

Fiquei a saber também que, antigamente, segundo as convenções da Reforma Islandesa, as mulheres sentavam-se de um lado do corredor e os homens do outro!

Muito bem conservada toda aquela madeira revestida de terra e turfa, depois de tanto tempo. Parece que a formula de construção, além de ecológica, é realmente eficaz!

Quem vê a igreja por fora imagina-a húmida e fria por dentro, mais parecendo um monte de terra com uma fachada de tabuas de madeira!

Muito se engana quem pensa, pois o interior é seco e aconchegante, sem humidades nem podridão! Os antigos sabiam da poda!

E lá estava o cemitério em redor, bem relvado e a fazer conjunto com a igreja.

Ali podia ver-se exatamente como a igreja era construída, com blocos de terra prensada com palha. Um dos exemplares de construção totalmente em turfa e erva, porque já está mais distante da zona vulcanica, onde a lava é usada para levantar as paredes

A forma como ela parece sair da terra levantando a relva consigo, é fascinante!

E no meio da sua peruca de relva verde, a janelita parece quase um olho de um duente escondido!

Realmente muito bonita, digna de um qualquer filme de fixão, do tipo do Senhor do Aneis ou do Hobbit!

Ainda fiz um desenhinho antes de partir, não podia sair dali sem um registo de recordação!

Mesmo ao lado fica uma casinha bem mimi, provavelmente de quem cuida da igreja. Fiquei a pensar, como chegará a eletricidade a cada casa, se ficam tão longe e isoladas pela ilha fora? Não me lembro de ver fios nas ruas!

As paragens para ver coisas bonitas iam servindo para eu descansar do esforço da luta contra o vento mas, a cada vez que seguia viagem, ele voltava a lutar contra mim com toda a força. Tem de ser, não posso ficar aqui a vida toda!

Havia mais coisas que eu queria ver, as casinhas de Glaumbær por exemplo.

Duas casas de madeira recebem os visitantes, chamam-se Gilsstofa e Áshús. São edificios do Museu Nacional da Islândia, construidas no séc. XIX. Pelo que percebi estas casas podiam ser movidas e a Gilsstofa, a branca, foi movida de lugar uma meia duzia de vezes! Fantástico! Literalmente andava-se com a casa às voltas!

Não percebi muito bem qual o critério na orientação e disposição daquelas casas!

E lá estavam as belas casinhas de turfa, como um cenário de filme de encantar!

Tudo parecia ter sido posto ali para encantar os visitantes. As casinhas eram deliciosas, com cabelos de relva e paredes de palha prensada, custava crer que resitiram tanto tempo, ali em cima, desamparadas do vento e da intemérie. E que vento!

Em Glaumbær viveu o responsavel pela critianização da Islândia, no século XI, mas as casinhas de turfa são do século XVIII ou XIX. As casas de turfa foram habitadas até meados do séc XX e as de madeira foram sendo anexadas a elas, até começarem a ser todas construias em madeira e deixarem a trufa antiga para trás. Ok, ainda usam bastante a trufa nos telhados, mas não nas paredes.

Por dentro podiam ver-se os blocos que formavam as paredes. Aparentemente embora fosse tudo terra, não havia humidades! Fantástico! Pensar que hoje em dia, com todos os meios que temos, há casas que são construidas cheias de infiltrações que demoram anos e multiplas reformas até resolver o problema!

A igreja completa o quadro encantador, depois do muro composto do mesmo material das paredes das casas. Como pode o clima tão rigoroso não destruir aquilo tudo depois de tantos anos?

A igreja é mais recente, mas é muito bonita e fica tão bem no conjunto!

Houve ali uma igreja mais antiga, do século XI, mas desapareceu. Pudera, 10 séculos naquele clima devem derrubar qualquer construção, digo eu, que não sei nada de construção antiga!

E as casas pareciam sair do chão, como pequenas colinas relvadas com janelas!

Será que se corta a relva naqueles telhados como nos campos? Ou deixa-se secar e cair até crescer uma nova?

Não pude deixar de imaginar um jardineiro maluco a cortar a relva dos telhados, assubiando e conduzindo o seu ruidoso corta-relvas!

Como seria para os miudos viverem ali, com as mães berrado “Ólafur sai já de cima da cozinha, que isso não é o relvado de um campo de futebol!” ou “menina Sigríður, faça favor de parar de cortar a franja à sala de jantar, que a chuva vai entrar por aí!”

Sim, a minha mãe também me chamava de “menina” quando ralhava comigo, e sim, fui pesquisar nomes islandeses, para perceber como uma mãe chamaria seus filhos! eheheheh

Um sitio adoravél que não apetecia abandonar…

Não podia partir sem guardar aquelas casinhas no meu diario gráfico..

O sol marcou a sua presença, mas nem por isso o tempo aquecia! Estava um frio dos diabos!

Tão depressa o sol espreitou e logo desapareceu. Uma pena, pois eu ainda queria ir a outro sitio lindissimo e sem sol, deveria ser meio deprimente!

O sitio que eu queria ver era no meio de um imenso deserto de palha!

Ok, toca a pousar a moto e caminhar. O que faz uma igreja no meio de lado nenhum, afinal? Provavelmente em tempos haveria uma série de pequenas casas de turfa por perto, hoje desparecidas.

A sua localização apenas assentuou a sua aura de mistério, Grafarkirkja, a igreja mais antiga da Islânsia. Há partes da igreja do século XVII, mas existia ali uma igreja muito antes disso.

Estava fechada, tive de espreitar pela janelinha nas traseiras para perceber como era por dentro. Tal como eu imaginava era parecida com a igreja de Víðimýrarkirkja

” Longe de tudo, no meio da bruma, eu encontrei a mais antiga igreja da Islândia… e foi um momento único na minha viagem! Construída em blocos de terra amassada com palha e coberta de turfa, ela faz parte da terra como se dela tivesse emergido um dia. Foi como estar na presença de uma entidade muito antiga e poderosa. Não há nada em volta, nem casas nem estradas, apenas ela e o longo campo verde em redor, como as entidades devem estar…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Foi uma pena ter deixado a minha caixinha de aguarelas na moto, apenas tinha levado o caderninho e uma caneta, mais para fazer anotações do que para desenhar, afinal as minhas mãos estavam muito geladas para desenhar. Mas saiu um esboço a caneta, para memória futura!

Havia gente a chegar para a ver. Fantástico, consegui testemunhar que havia vida na ilha, afinal!

Quando se fala em milhões de visitantes na Islandia, eles devem espalhar-se bem pela ilha e por todo o ano, porque quando se anda por lá, não se vêem muitos!

Por perto há localidades habitadas. Poucas casas e pouca gente, mas se considerarmos que a ilha toda tem menos habitantes que a cidade de Lisboa (bastante menos), percebemos porque não encontramos niguém a maior parte do tempo!

Hólar chamara a minha atenção, pela sua grande torre sineira. Na realidade, onde não há cidades, qualquer pequena localidade prende a atenção!

Uma pena que a igreja estivesse fechada. Percebi que ali existe uma escola superior e que aquela terra foi sede de um bispado. Não sei de onde vêm os alunos para encherem a escola, mas devem vir e ficar a viver por lá, porque não há muitas terras por perto para eles irem e virem!

Pertinho da igreja, na descida, fica a Auðunnarstofa, uma réplica de uma casa antiga da zona e que agora é o escritório do bispo de Hólar.

Aquela porta é uma obra de arte!

Eu tinha planeado ficar algures pelo caminho, num parque de campismo qualquer, mas o tempo estava uma bosta, o frio era meio terrivel e o vento insuportavel… se calhar seria melhor continuar seguindo para sul a ver se as coisas melhoravam, sei lá!

Blönduós estava a maior desolação de frio, vento e solidão!

Para além da igreja, bem original, nada me atraía para lá ficar, por muito gelada e cansada que eu me sentisse

Apenas pude espreitar pelas janelas para ver como era por dentro

Acho que me sentiria meio triste se ficasse por ali. É, o melhor era continuar seguindo, quem sabe se encontraria o sol e deixasse o vento para trás!

De alguma forma a solidão e a luta constante com o vento despertavam em mim toda a tristeza que trazia no coração.

“A concentração que o vento me impõe não afasta da cabeça o que o coração não consegue esquecer. Viajar com a angústia como companhia num país como a Islândia, é viajar ao mais intimo que as emoções podem ir. Há caminhos que me transportam através do tempo até ao infinito.” (registos de viagem)

O deslumbramento do vazio infinito era tão grande! “Não há como não me apaixonar por este país!”

Quanto mais andava mais forte era o vento! Havia momentos em que tinha a sensação de que não seguraria mais a moto de pé e que ela e eu iriamos simplesmente ser arrastadas para fora da estrada!

E de repente, quando parecia que as coisas não podiam ficar piores, fui obrigada a sair da estrada!

Estes gajos devem estar a gozar comigo! Como é suposto eu seguir por ali fora sozinha, sem saber onde vou ter, sem niguem por perto, nem casas nem pessoas, e com uma ventania infernal a ameaçar pôr-me ao chão a todo o momento? Mas as setas assim indicavam, por isso não tinha alternativa. Ainda caminhei um pouco a ver o que havia a seguir, mas não dava para ver muito sem caminhar quilómetros.

Enfim, siga e seja o que Deus quiser!

Os montes não são altos, mas eles crescem quando se começa a descer! Lá fui indo lentamente, tentando não entrar em pânico. A parte melhor é que, à medida que seguia e descia, a força do vento atenuava um pouco! Ótimo, não era tudo mau, as colinas que se formavam na descida protegiam um bocado o meu caminho. Mesmo assim, de vez em quando, o vento encanava pelo meio das rochas com toda a força e quase me virava de pernas para o ar!

Aquilo nunca mais acabava, passei por regos de água, por terra negra menos batida do que eu desejaria, por pedrinhas e gravilha. A moto já dela é pesada, com os bagulhos em cima, mais o meu peso, parecia um elefante a arrastar-se por caminhos arenosos, quase areias movediças. Mas tudo bem, os filmes de terror na minha cabeça, embalados pela minha música, não foram suficientes para me fazerem entrar em pânico total e acho que até estava a fazer boa figura.

Então, de repente, depois de uma série de grandes pedras, estavam 3 tipos de moto. Senti-me tão amparada! O ar de espanto deles foi tal que parecia que tinham visto um fantasma. Fiz uma festa, eram os primeiros motociclistas que eu via desde que desembarcara na ilha! Não pude sequer desmontar, estávamos num solo irregular e arenoso, tinha a sensação de que se pusesse o descanso ele enterraria. Eles estavam com um ar meio miserável, um deles estava todo molhado, tinha caído algures, e os outros estavam visivelmente stressados.

Perguntaram-me de onde eu vinha, onde estavam os meus amigos, se eu atravessara o rio e sei lá mais o quê. Venho de onde vocês vêm, não há outro caminho aqui, estou sozinha, sem amigos por cá, e atravessei só uns regos de água, não vi rio nenhum! Sim era um rio, diziam eles, tinham-se afligido muito a atravessa-lo e o colega caiu no meio da água, a moto enterrou e eles tiveram muita dificuldade. A sério? Não pode ser, eu fui para a zona mais estreita e atravessei muito bem, a água não era funda e eu só tive de pôr o pé ao chão para não derrapar pois os meus pneus não são próprios.

As motos deles eram mais leves, tinham pneus de taco, acho que o que lixou tudo foi o pânico coletivo mesmo! Estavam preocupados por eu andar ali sozinha, propuseram que eu seguisse com eles. Eu agradeci mas achei melhor seguir sozinha, o pânico e o medo são contagiosos e eu, sozinha, sempre me desenrasco. Não tenho de depender de ninguém para além de mim, o que me faz superar os medos e resolver as situações sem ter de provar nada a ninguém. Acho que o stress deles me contagiaria, para além de o seu ritmo não ser, certamente, o meu. A verdade é que parece que não iriam sair dali tão cedo e eu segui o meu caminho. Nunca mais os vi, devem mesmo ter ficado lá ainda muito tempo!

Vá lá, o caminho não era tão ruim assim! Eu fi-lo sem stressar! Ok, pus os pés no chão um milhão de vezes, mas isso é porque eu sou azelha e tinha uma moto com pneus de ir à missa… Depois já vinha morta de cansasso, nada de uns 200 ou 300 quilómetros, eu já devia ir nuns 500 ou mais, numa luta desigual com o vento mais violento e desamparado que eu conhecera em toda a minha vida!

E finalmente cheguei ao piso lisinho e só então pude parar e desmontar um pouco. As minhas mãos estavam pisadas, os meus braços doloridos, aliás todo o corpo doía, com o esforço e a luta contra o vento. E por falar em vento, ele estava mais forte que nunca, assim que desmontei para descansar as pernas, ele quase me deitou ao chão!

Como pode uma paisagem parecer tão serena sem que se perceba quão forte era o vento que a atravessava?

Eu vinha sentindo um calor esquisito, a bem dizer, o dia todo! Desde que saíra para a estrada que esperava que o tempo aquecesse, um pouco que fosse, mas ele nunca aqueceu muito…

Estava no meu limite e ainda tinha bastante para lutar. Acho que se o tempo estivesse quente teria sido muito pior, por isso o frio até me ajudara a resistir tanto sem cair para o lado de exaustão

Eu já nem me afastava da moto quando parava, para a amparar com o meu corpo e não correr o risco de que o vento a pusesse ao chão. Se ela caisse eu acho que me deixaria cair junto e ficaria ali mesmo, estendida no chão com ela, sem forças para mexer um dedo que fosse!

Eu parecia uma velhinha a subir para a moto, mais pendurada nela do que a subir para ela!

Vá lá, aprecia a paisagem como se estivesse um tempo sereno, afinal a beleza prevalece sobre a ventania!

Oh, bendito sol, que aquece a alma quando o corpo está na realidade gelado pela temperatura baixa há centenas de quilómetros.

Nunca achei muita piada quando me chamam de guerreira mas, naqueles momentos, era o que eu me sentia, uma guerreira, que lutava contra verdadeiros moinhos de vento, em paisagens de cortar a respiração!

Já nem tinha a certeza se chegaria a Reykjavík, o vento, agora mais forte do que nunca, batida na encosta dos montes e fazia ricochete fazendo a moto ziguezaguear. Era tão assustador!

Pudesse eu ficar ali quieta e esperar que o tempo acalmasse

Impossivel relaxar, eu contraia-me toda até me doer todo o corpo.

Eu tentava racionalizar a situação, se tinha de fazer força era com as mãos, porque não conseguia deixar de contrair-me até tudo me doer até ao pensamento? Parava um pouco a cada vez que o vento era mais favoravel, só para tentar descontrair, mas definitivamente, era impossivel.

Estava a chegar à capital, mas o parque de campismo não era lá. Ainda teria de percorrer um bom pedaço de ventania até lá chegar. Um pedaço bem terrivel por sinal, em que me seria de todo impossivel parar, com o vento a vir de todas as direções, desviado por pedregulhos e penhascos de lava, que está por todo o lado, bem em redor da cidade! Oh valha-me….

E lá cheguei, pouco sã mas salva…

Felizmente a minha tenda era facil de montar, e eu estava uma especialista na coisa, senão acho que tinha dormido ao relento estendia no meio da relva. O vento era tão forte que levava tudo consigo. Trouxe todas as tralhas possiveis para a minha beira, malas da moto incluidas, e assim que libertei a tenda do seu saco, o vento encarregou-se de fazer dela uma autentica bandeira.

Ou seguro esta coisa com força ou ela vai parar às Ilhas Faroé bem antes de eu lá chegar!

Pousei a “bandeira/tenda” na relva e segurei-a com os joelhos, enquanto punha em cima tudo o que tinha por perto, uma mala em cada ponta depois o saco mais além e por fim o capacete. Mas ele era leve e o vento simplesmente roubou-mo, e lá foi ele a rolar por ali fora como se fosse uma bola de plastico! E tive de correr atrás dele! Depois espetei as grandes estacas, que levara para terreno rijo, mas que revelar-se-iam fantásticas para ventos ciclónicos, uma de cada lado e uma aos pés e outra à cabeceira. Podia voar tudo, mas elas não deixariam que a tenda levantasse voo, Quem se riu de eu levar o martelo de borracha não estava bem informado, como eu, sobre o que poderia encontrar naquela ilha!

Depois foi só colocar o grande aro, que graças a Deus é só um, e levantar aquilo tudo ao pregar as restantes estacas e puxar as espias! 10 minutos e estava pronta e esticada para resistir àquela ventania toda… esperava eu…

Dexei-me cair no colchão e dormi, sem banho, sem tirar a roupa, sem mais nada, apenas tirei as botas e morri para o mundo…

Chegara ao fim o meu dia de luta, tão lindo quanto longo e dificil… o dia mais dificil que eu vivera numa viagem!

RIP meu querido esqueleto… ressuscita amanhã, por favor!

10.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Entre o frio, o calor e o vento infernal! –

9 de agosto de 2019

A excitação de estar ali, e poder passear em redor, tirou-me cedo da cama.

Chovera toda a noite, eu ouvira as grossas pingas de água a tamborilar por todo o teto da tenda, mas o clima continuava quente e seco no interior. Eu preparara-me bem para aquela experiência, definitivamente! Mas só perceberia o quanto, ao abrir o fecho, literalmente gelei! Estava tanto fio lá fora que ao soltar uma exclamação, saiu fumo da minha boca! Ok, que verão vai ser este? Seguramente, de tudo o que eu lera e estudara, estaria dentro da pior das hipóteses postas pelos islandeses, ao descrever para viajantes o quão agreste podia ser seu próprio clima!

A parte mais chata de acampar é ter de fazer tudo ao nivel do chão! Como tomar um pequeno almoço e fazer planos para o dia!
As minhas botas de neve estavam a revelar-se a melhor escolha para aqueles dias. Pés quentes e secos é tudo o que é preciso para a gente não se sentir miseravel!


Tinha tantos planos para aquele dia, queria ir em tantas direções, apenas o tempo me poderia impedir de aproveitar tudo o que tinha em mente!

Claro que o parque tinha uma sala comum, mais propriamente uma casa, com cozinha apetrechada e tudo. Têm sempre! Mas lá dentro era a confusão, com muita a gente, quase tudo homens, a tentar fazer o pequeno-almoço ao mesmo tempo. Apenas fui lá ao partir, para aquecer água e fazer café para levar comigo na minha termos, e deixei-os para lá, à fila para a torradeira, para a frigideira e para a chaleira! Como eu só queria meio litro de água quente, alguém me deixou aproveitar a chaleira fervente, sem ter de esperar no fim da fila. Obrigada rapazes!

Começava a perceber a “lógica” das bombas, e que seguramente teria gasolina em todo o lado que precisasse. Há sempre estações de serviço, mesmo nos locais mais ermos, há uma rotunda, um cruzamento ou um entroncamento, e há um ponto com café e lá está uma bomba, sempre em autosserviço. Tudo pago com cartão, tudo muito prático, apenas tenho de saber quanto dinheiro em gasolina escolher… é, apenas isso! Mas até isso aprendi rápido!

Se estivesse na Escócia aquela porção de água chamar-se-ia “sea loch Eyjafjörður” assim chama-se, como na Noruega, fiord Eyjafjörður. Na realidade é um imenso braço de mar que entra por mais de 60 km pela terra dentro num fiord enorme, o maior da zona. Uma pena o tempo não deixar ver muito dele!

Aprendi que junto das cidades, e Akureyri, embora pequena, é uma das maiores cidades do país, há algumas árvores pequenas, mais parecidas com arbustos, O momento certo para as apreciar pois encontra-las é um privilégio que não se repete muito pela ilha!

O parque de campismo enganara-me totalmente. apenas a chuva chegava lá, e eu ouvi-a durante a noite, mas o vento, por qualquer motivo, nem se ouvia lá em cima! E no entanto ele era tão forte por todo o lado! A sensação era de que o vento poderia empurrar e arrastar a moto pela água do chão até atira-la fora da estrada!

Mesmo assim eu tinha de ir a alguns lados, era inevitável! O que me preocupava não era ser posta ao chão pelo vento, o que me preocupava era que não havia ninguém na rua que me pudesse ajudar, se isso acontecesse, e eu não conseguiria erguer a moto sozinha! Por isso teria de me manter de pé a todo o custo! E assim fui até Grenjaðarstaður, ver as casinhas de turfa tão tipicas do país.

Grenjaðarstaður é uma pequena localidade com uma igreja e uma das quintinhas de turfa mais famosas da Islândia.

Reza a história que havia uma herdade em Grenjaðarstaður desde o início da colonização da Islândia há mais de mil anos.

Grenjaður Hrappsson colonizou esta área e viveu em Grenjaðarstaður, que ganhou o seu nome. Muitos nomes de lugares antigos na Islândia têm a sua origem nos nomes de seus colonos.

Estas casas remontam ao século XIX e as partes mais antigas datam de 1876. A majestosa casa de relva em Grenjaðarstaður era a maior mansão neste condado, com 775 m²!

A relva ou turfa, era usada por ser barata e eficaz, pois isolava as casas do frio. As paredes externas são feitas de lava duplamente empilhada, um material abundante por ali.

A lava era o material de construção nas áreas da Islândia, onde há atividade vulcânica.

Nem todas as casinhas de turfa são construidas da mesma maneira, tudo depende da zona onde estão, sobretudo as paredes podem não ser feitas de pedra/lava, podem elas também ser feitas de turfa, ou terra/lama misturada com relva, prensada até fazer blocos.

Tão fascinante como eu imaginava que fosse aquela experiência de estar, pela primeira vez, junto daquelas construções!

Eu tinha planos de ir até ao topo norte, mas o caminho era tão desolado e isolado que comecei a hesitar.
O vento era praticamente ciclónico e empurrava-me com tal força que a moto parecia não conseguir desenvolver, cada vez que o apanhava de frente!

Tudo era a imagem da desolação.

O vento não vinha sempre na mesma direção, ora me apanhava de frente, ora de lado, por vezes de trás. Mas que raio o fazia dar a volta se não havia qualquer obsataculo em redor, nem uma árvore, nem um muro ou casa? Tinha de desistir de subir mais, estava a ficar verdadeiramente cansada de lutar com tal ventania, e assim que encontrei uma estrada noutra direção, virei!

Foi quando, pelo meio do barulho infernal do vento, mais a música nos meus ouvidos, percebi pedrinhas que saltavam pelo interior da moto! Como? De onde vinham as pedrinhas afinal? Então olhei com mais atenção aquilo que pensava ser o alcatrão da estrada e percebi que não era alcatrão, era gravilha negra prensada! Era muito negra e tinha mesmo a linhas pintadas de branco, mas não deixava de ser gravilha!

Comecei a perceber que, quando a estrada era de alcatrão, brilhava um pouco com a chuva, quando era de gravilha, parecia mais abrasiva. O que era enganador, pois a gente tende a sentir mais confiança numa estrada com piso abrasivo e ali era precisamente o contrário, eu podia mesmo escorregar com todo o vento naquela gravilha solta!

Mas há de tudo por ali, até estradas de terra batida enlameadas e esburacadas. Não podia deixar de ficar fascinada com a terra negra. Eu sabia que ela seria negra, mas não imaginava que fosse tanto, nem toda, nem por todo o lado!

E no meio do nevoeiro e do negro, lá se avista um vulcão, o Krafla! Estou noutro planeta, definitivamente! Eu sei que ele tem um lago dentro, mas com a chuva e nevoeiro não veria muita coisa. Não o subi, com todo o esforço que vinha fazendo, mais o vento tão forte, não tive a menor vontade de lutar para caminhar até lá acima. Eu hei-de cá voltar um dia, com mais tempo, para ver esses recantos, calmamente.

Estava a ficar gelada e exausta por isso voltei para Mývatn.
Eu queria ver a Mývatn Geothermal Area, de perto e, quem sabe, aquecer-me um pouco no seu lago azul, se o cheiro não fosse insuportavel!

Conduzir com frio, chuva e vento forte é uma aventura mas garanto que, se à festa se juntar estrada má de terra batida e fumarada quente de vapor de água, a experiência torna-se verdadeiramente surreal! Já para não falar nas viseiras da moto e do capacete a embaciarem de tal maneira, por dentro e por fora, que eu nem tinha a certeza de onde punha as rodas!

Estava tanto frio e no entanto tanto calor ao mesmo tempo, recebia a baforada do lago sempre o que vento virava.

Não cheirava tão mal como eu temia e fiquei por ali uma infinidade de tempo, apenas a curtir o surreal do momento e a descansar.

Com todo o vento que eu enfrentara, eu fizera tanto esforço de mãos e braços, que contraira todo o corpo de forma incontrolável, ao conduzir.

Precisava ficar quieta um pouco para relaxar, por isso desenhei!

“No meio da chuva, do vento e do frio, por entre o negro da paisagem, o calor das águas azuis era surreal! Tudo fumegava em redor, como se de cada cavadela na terra saísse uma fumarola! Não havia ninguém em redor, nada está inundado de turista por ali, cada momento é uma experiência única e individual, e como eu gosto disso! Sentei-me numa pedra no meio da lama fumegante, sentindo o calor nos pés, através da botas de neve, e era como se a terra me acolhesse com seu calor. O tempo que fiquei ali, até partir para o frio e o temporal de novo!” (in Passeando epla Vida – a página)

Cartazes diziam para não entrar na água pois abaixo da superfície ela podia estar a cerca de 97 ou 98 graus! Puxa, de repente lembrei-me que a temperatura de ebulição da água seria poucos graus acima disso, 100º ou algo assim! Fascinante!

É claro que pus os pés na água!

Naquela berma do lago a profundidade da água era tão pouca que certamente a temperatura ambiente tão baixa a arrefecia o suficiente para eu não me escaldar. Depois eu tinha botas e meias suficientemente grossas para que o calor não chegasse imediatamente à minha pele.

Eu estava certa, sentir o calorzinho nos pés e foi uma sensação espetacular! O meu cérebro não estava habituado à ideia de que, no meio do frio intenso, um lago me aquecesse os pés, e tive de me forçar a sair dali, antes que a cozedura começasse!

Ok, vamos lá para mais uma voltinha ao grande lago Mývatn, mais uma voltinha pela terra negra!

Como podia eu ficar quieta com paisagens daquelas a chamar por mim? Todo aquele negro estava a maravilhar-me de uma forma assustadora, porque a atração era grande mas o receio também. Maldita ventania!

Tudo tão deslumbrante e eu nem conseguia tirar todas as fotos que queria, pudesse eu registar tudo o que me fascinava…

As autoridades avisam que não é permitido fazer fora-de-estrada, nem acampar em qualquer sítio aleatório. Eu achei que não fosse de todo possível explorar fora da estrada alcatroada, no entanto percebia agora que o que havia mais eram caminhos fora da estrada, sempre sinalizados e levando a sítios fantásticos. Porque raio as pessoas hão-de, mesmo assim, tentar correr a direito por qualquer lado?

Namafjall Hverir é espantoso! O passo de Námaskarð fica entre o vulcão Krafla e o campo de lava Búrfellshraun e era deslumbrante a meus olhos!

Parecia que tinha aterrado em Marte, apenas com muito fumo, frio e vento!

Junto à montanha vulcânica fica uma imensa extensão de terra borbulhante feita de fontes que se chamam Hverir.

Não há qualquer vegetação em Námaskarð, nem há água pura, parece que tudo é sulfuroso por ali.

E o cheiro sente-se em todo o lugar, mas não é nada que perturbe demais, ou a beleza extraordinária e única, não deixa sequer o cérebro processar o cheio!

O fumo mudava de direção com o vento e este, embora fosse tão forte, não o impedia de se espalhar por todo o lado.

Era tão hiplnotizante observar um Hverir tão poderoso a bufar!

O tempo que eu andei por ali, quilómetros de passeio, acho que o que valeu foi o vento forte, para eu não levar comigo todo o cheiro de enchofre que me rodeou por tanto tempo!

Eu estava meio exausta mas tinha de ver de perto a grande falha. Eu passara por ela ontem, mas havia sitios específicos onde eu queria ver a sua marca!

O deslumbramento seguia comigo na minha procura. havia banhos por ali, mas eu não queria tirar a roupa e perder horas dentro de água, eu queria ver mais, isso sim!

A Islândia é um dos únicos lugares do mundo onde é possível ver e tocar, ao mesmo tempo, duas placas tectônicas continentais. Há quem mergulhe para as ver debaixo de água, mas eu não aspirava a fazê-lo, queria apenas ver toda a revolução que existe na superficie e ali, toda aquela região, está bem marcada por ela.

Parei em Reykjahlíð, junto ao lago, porque a “revolução” era visivel tão perto das casas.

Em redor da igreja parece que passou uma toupeira gigante que levantou tudo ao passar.

Claro que explorei a redondeza, afinal era mais uma oportunidade de ver um cemitério local de perto, como um jardim, com espaço para picnic e tudo.

E lá estava a lava revolta.

Fascinante pisar sobre ela!

Não conseguia evitar pensar que tudo aquilo podia mexer a qualquer momento! Inocência minha imaginar tal coisa, mas quem não o faria?

Vamos lá pegar na moto mais um pouco e seguir mais para a frente, pois não estava longe do campo de lava de Búrfellshraun, e eu tinha de ver como era.

São quilómetros de lava revolta até perder de vista!

Eu sabia que iria encontrar muito mais daquilo pela ilha abaixo, bastava observar a configuração da falha em forma de um “Y” invertido ou a letra grega lambda “λ”

Mas não importava nada, eu tinha de pisar ali, sobre ela, se possivel conduzir a minha moto também!

E lá estava eu a lutar com o vento sobre aquela revolta das pedras!

O meu fascínio não tinha limites e eu estava tão maravilhada com tudo! Voltei à estrada de alcatrão, tinha de voltar para casa para me deitar…

Os pequenos lagos sussedem-se, com paisagens mais relaxantes nas fotos do que no local. Não sei como todo aquele vento não levantava ondas nas águas dos lagos!

Ok, afinal a estrada não era de alcatrão, de novo!

Gravilha grossa é o que mais as minhas rodas viram!

Eu chegaria à paz da estrada que fizera ontem ao ir para Akureyri, e ela parecia de veludo depois dos caminhos manhosos que fizera.

Tão misteriosas as paisagens em redor

A Islândia ficará para sempre na minha memória envolta naquela atmosfera de beleza misteriosa!

Cheguei ao fiord onde ficava a minha casa, embora ainda fosse longe.

Movimentação lá em baixo chamou a minha atenção. Tinha sempre de ter cuidado como parava a moto para que o vento não a virasse de pernas para o ar, e desci um pouco…

Então eles estavam lá em baixo, os tão tipicos cavalos islandeses, lindos, selvagens, correndo cheios de beleza, pela encosta de um lado para o outro.

Hipnotizante! E eu que tinha receio de não os ver, fiquei maravilhada!

Bem, tenho de ir para casa, antes que não tenha mais força nas mãos para segurar aquele volante infernal!

Akureyri parecia tão em paz ao fundo

Subi ao parque e o vento parava ali. Como era possível?

Parece que fui a ultima a chegar a casa. os inquilinos eram outros, mas o meu quarteirão estava cheio de novo.

Tinha um vizinho de bicicleta numa tenda ao lado.

Conheci-o ao passear um pouco em redor. O pobre homem estava bem mais exausto do que eu, não vira quase nada naquele dia, apenas lutara com o vento e fizera grande parte do caminho com a bicla pela mão, já que o vento era tão forte, que ele não se conseguia equilibrar em cima dela. Pois, foi o que imaginei, se para mim era dificil, para um ciclista devia ser verdadeiramente o inferno!

Eu estava tão gira com o gorro do meu moçoilo e o carapuço enfiado, que tive de fazer uma selfie para mostrar ao mundo como fico sem chapéu! O chapéu era para esquecer por aqueles dias, não haveria nada que o segurasse na minha cabeça com aquela ventania!

Só então fiz o desenho das voltas e reviravoltas que dera naquele dia. Não fui longe, mas fui feliz!

Deus queira que amanhã o vento abrande um pouco… só um pouco seria tão bom!

Estiquei-me no meu colchão de ar, que parecia de plumas, e morri para o mundo….

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

9.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Finalmente a Islândia! –

8 de agosto de 2019

Oh, finalmente amanheceu um novo dia!

A cama não era de todo desconfortavel e eu tenho o habito de dormir bastante quando quero que o tempo passe. Afinal é a melhor forma de não me cansar de tudo e de todos e começar a socar as paredes!
E finalmente era dia 8 e estavamos a chegar a Seyðisfjörður. Não conseguia controlar muito bem a excitação. Eu já sabia que cada centimetro no meu telemovel eram longos minutos no mar, mas de qualquer maneira estava já tão perto!

E sim, ainda faltava um centimetro ou dois para desembarcar…

Tinha de subir ao convés para ver tudo o que pudesse da minha chegada à grande ilha!

Bem a tempo de ver toda a beleza daquele céu, cheio de nuvens inspiradoras.

Senti-me verdadeiramente privilegiada por poder testemunhar tão belo momento!

Ok, é nestes momentos que me dou conta do quanto sou apaixonada pelo mar….

E as perspetivas que fui tendo da Islândia não eram muito diferentes das Ilhas Faroé!

Mas de alguma forma percebia-se que tudo era maior e mais distante. E havia neve nas montanhas! Fantástico!

De alguma forma a paisagem era um pouco assustadora, tão desamparada. E o vento começava a soprar forte. Quão forte pode ser o vento na Islândia?

Estava na hora de ir reunir as minhas coisas para me pôr a andar rapidamente logo que pudesse. As pessoas pareciam muito descontraídas, acho que não se aperceberam que o clima por aqueles lados não é simpático e a metrologia prometia chuva, nevoeiro e vento forte. Tudo junto para alegrar o desembarque!

Eu sou muito prática, se está chuva, frio e vento, eu equipo-me, mesmo correndo o risco de parecer ridicula junto do povo de t-shirt e sapatilhas!

E abriram os porões! Bora lá para o drama de arrumar tudo na moto e desamarra-la. Desta vez alguém me ajudaria pela certa, sem que fosse preciso eu ir procurar ajuda, ou ninguém sairia dali, já que a minha moto estava atrás de várias, mas à frente para sair, isso é que é fixe!

O meu vizinho da AfricaTwin parecia outro, muito simpático e sorridente. Aparentemente aqueles dias no mar tinham-lhe amaciado o humor!

Descobri que não viajava sozinho e a sua pendura era muito simpática, estivemos a conversar um pouco e tudo. Talvez o seu mau-humor ao embarcar fosse porque estavam zangados e fizeram as pases entretanto!

O tempo estava exatamente a bosta que eu esperava quando pisamos terra, mas era tão revigorante voltar a conduzir que não me ralou nada. Claro que eu esperava que mais à frente estivesse um pouco de sol.

Não havia maneira daquela gente se despachar e andar? A principio pensei que estivessem à espera de poderem seguir, mas depois percebi que simplesmente não andavam porque eram lentos a decidir por onde ir! Alguns estavam agora a pôr os fatos de chuva! A sério? A vossa net não funcionou no barco? Provavelmente não, afinal tinha de ser paga e eles não o devem ter feito. Pindéricos!

Acabei por arrancar sozinha, não iria ficar à espera de quem não me pertencia nem decidia nada na minha vida. Eu tinha tanta curiosidade de percorrer aquele país…

Sai-se de Seyðisfjörður e começa-se imediatamente a subir a estrada serpenteante, um pequeno passo de montanha, com curvas bem acentuadas. Ninguém me seguia, nem motos nem carros. Comecei a ficar preocupada, será que me esqueci de fazer alguma coisa? Porque toda a gente demora tanto?

Acho sempre tão giro quando um país é numa ilha e há uma placa a indicar que estamos lá, como se a gente de repente pudesse estar noutro país qualquer!

Eu nunca faço questão de ter companhia, apenas achava estranho, não havendo mais nenhuma saida da cidade, niguém me seguir! Então finalmente vi uns pontinhos ao longe. Afinal aquela gente era apenas muuuuito demorada!

Ali fica a Gufufoss, uma cascata bem bonita que acaba por ser esquecida por quem chega, excitado por seguir viagem e procurar as cascatas mais famosas. mas eu tenho a mania de parar para ver o que ninguém quer ver!

Carros e motos chegavam finalmente junto da minha moto, e tal como eu suspeitava ninguém desceu para ver a cascata de perto.

Mesmo assim os sacanas não partiram sem mim, seguiram sempre atrás, cada vez mais atrás até os perder de vista outra vez.
Na realidade à medida que a gente subia o passo de montanha, a chuva era cada vez mais intensa, o nevoeiro mais cerrado e o vento mais forte. E quando falo de forte, falo de uma ventania totalmente desconhecida para mim, e eu já passei por muito vento nesta vida. Não se via nada, não se conseguia andar muito, apenas ir lutando e subindo.

Cheguei lá acima sozinha e ainda bem, pois a paisagem apanhou-me de surpresa e eu tive de parar.

Foi quando persebi como é um país onde as árvores são raras ou inexistentes!

O meu fascínio estava apenas a começar.

Todos os regos, riachos, rios e poças de água por ali têm nome. Nem sei como os distinguem já que com o degelo devem-se misturar todos, visto que ha tantos!

E a gente só vê ao passar por cima, porque não há declive ou montanha perto para fazer perceber que por ali passa um rio, por baixo de uma estrada plana e uma paisagem lisa!

Eu tinha de pôr gasolina, não há muitas estradas por ali, a bem dizer havia a estrada que eu estava a fazer e era tudo! Não tinha cruzado com nenhum povoado, não vira mais carros, não vira estações de serviço… será que iria ter gasolina com fartura ou iria andar a stressar por todo o país? Para já sabia que havia uma cidadezinha mais à frente, eu vira-a lá em baixo.

A cidadezinha não era mais que um lugarejo, (mais tarde eu perceberia que praticamente todas as cidadezinhas são na realidade lugarejos!) Não foi facil abastecer, a bomba estava em auto-serviço e não dava para abastecer escolhendo os litros e sim o dinheiro. Ora como raios iria eu saber quanto valia aquele dinheiro ou a quantos litros ele correspondia? Escolhi um valor que me pareceu apropriado e constatei que era baixo demais.

Acontece-me sempre isso, quando a moeda do país tem muitos zeros, eu penso sempre que é muito dinheiro, Na realidade 2000Kronur deram para apenas 8,73litros, o que vim a constatar, fazia com que o preço da gasolina por litro não passasse do 1.47€! Surpreendente, pois pensei que a gasolina por lá era mais cara!

Neste entretanto um grupo de mulheres americamas tomou de assalto a minha paz. Ficaram simplesmente fascinadas comigo e com a minha moto. Elas tinham metido conversa comigo na fila da casa de banho, e agora queriam saber tudo sobre mim e tirar fotos junto da moto. Não conseguiam acreditar que eu andava ali sozinha, e como eram todas pequenitas, olhavam para mim cheias de admiração pela minha dimensão e da moto. Fizeram-me comer bolinhos e tudo! Umas queridas!

Sa-se da terrinha e entráva-se de novo no vazio e apesar do vento forte, que ameaçava deitar-me a mim e à moto ao chão, eu não me conseguia impedir de parar e viver cada momento de pura solidão, depois da algazarra do mulherio em meu redor!

Aquele país não se parece com nada que eu vi até hoje! A terra apenas se rasga e passa água, em qualquer lugar, de uma forma deslumbrante por ser tão diferente!

Quando parava tinha de ter o cuidado de pousar a moto de forma que o vento lhe batesse pela direta, para que o descanso a segurasse e ela não tombasse com tanta pressão. A perspetiva de deixar caír a moto ali não era nada amimadora, não se via vivalma por quilómetros!

Então comecei a avistar Mývatn ao longe!

Era surrelal, no meio do frio gélido que se fazia sentir, ver funo sair do chão, Fumarolas enormes, a bem dizer! Eu iria explorar aquele recanto fumarento no dia seguinte, não agora, que me sentia gelada e não me parecia uma boa ideia ir para o meio do calor. Detesto contrastes de temperaturas.

De um lado fica o enorme lago frio, do outro as águas quentes! Isto é realmente a terra do gelo e do fogo! E nas bordas do lago a areia era negra. Como aquilo me fascinou!

A serenidade das fotos é fascinante, inguém imaginaria que o vento era tão forte que se tornava dificil caminhar para tirar algumas fotos!

E lá estava a Goðafoss, que quer diizer “Catarata dos Deuses”. Os nomes de tudo por ali estava a fascinar-me, até porque eu não conseguia pronunciar a maior parte deles!

As cataratas estão no rio Skjálfandafljót que nasce no glaciar Vatnajökull, não é fantástico tentar soletrar estes nomes?

Chovia, fazia um frio de morte e a humidade no ar era imensa. Andavam algumas pessoas por ali, mas eu sentia-me só no mundo!

Ainda fiz um desenho ou dois, mas as aguarelas não secavam e o próprio papel estava humido. Não bastava o dia chuvoso, o spray que toda aquela água emanava era imenso!

As pessoas andavam por ali cheias de capotes e sacos plásticos no pés. Eu usava o fato de chuva por cima de um monte de roupa e as minhas botas de caminhada na neve, impermeaveis, e estava precisar de chegar a casa, fosse ela o que fosse, para me aquecer!

Havia um pouco de neve no topo dos montes, nem sei como não havia mais, afinal estava um frio de morrer!

E lá estava Akureyri, onde eu iria montar a minha tenda pela primeira vez!

Otimo, estava a precisar imenso de me aquecer e de descarregar a moto. Detesto andar cheia de tralhas atrás de mim!

Os islandeses não gostam nada que os turistas acampem em qualquer lado. Na realidade há parques de campismo por todo o país, por isso nem há necessidade de dormir no meio de lado nenhum, sem direito a banho quente e eletricidade!

E eu também não gosto de dormir onde calha, por isso pesquisei em casa onde estavam os parques nos caminhos que queria fazer, para não andar por lá à procura.

E o parque estava quase todo por minha conta! Dividido em quarteirões relvados, com casa de banho perto, não me faltaria nada! Curiosamente, embora o parque fosse elevado em relação à cidade, era abrigado nem sei por o quê e o vento quase não se fazia sentir ali! Uf, que alivio!

Não acampei muitas vezes na vida, mas acampei as suficientes para perceber um bocado do assunto. Ali havia árvores e arbustos, um luxo depois de um caminho enorme de estradas carecas, por isso o vento não seria tão forte como eu vinha imaginando até lá chegar. Mesmo assim achei melhor chegar-me à sebe do lado que vinha o vento e montei a minha casa.

10 minutos e a tenda estava montada, mais 10 e estava tudo pronto lá dentro! É o que dá conhecer bem a nossa casa, saber como monta-la, e ter uma bomba eletrica para encher o colchão!

O parque era muito bonito, com um lago no meio e com vista para a cidade, lá em baixo. Ainda era cedo e o dia prometia ser longo, por isso não resisti a ir lá abaixo!

Queria apreciar como eram as escolas

saber como eram as casas

como eram as lojas

se havia hipermercados

e, claro, como eram as igrejas!

As igrejas por lá são muito interessantes, quer as antigas, e eu tinha duas ou três para ver, quer as modernas, como esta!

E o sol tinha chegado, finalmente, o que me inspirou bastante!

A cidade tem os seus murais curiosos e os seus recantos interessantes

A rua principal da cidade tem os seu encantos, mas o que eu queria mesmo era comer!

Oh, adorei os doendes gigantes, tive de ir vê-los de perto e mostra-los à minha motita!

estava na hora de voltar para minha casa, mesmo que o dia não parecesse ir terminar nunca!

O parque já não estava mais vazio, o meu quarteirão estava cheio de gente estacionada agora!

Ainda registei o momento para a posteridade. Que raio de horas eram que nunca mais era noite, afinal?

Eu durmo bem com luz, durmo bem em qualquer lugar, durmo bem com barulho também. Estiquei-me dentro da tenda e adormeci. Naquele dia o Raul Gomes iria ligar-me para falar comigo, em direto, para a Motard FM e eu a dormir como um passarinho.

O toque do telemóvel acordou-me e foi a conversa mais agradavel que eu podia esperar, depois de tantos dias sem estabelecer uma conversa de jeito, estava a fazer falta.

Passava da meia noite quando sai da tenda para arejar as ideias… e a noite ainda era dia! Não era o sol da meia noite, mas era um dia invulgarmente grande!

8.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– navegando… –

7 de agosto de 2019

Como ocupar o tempo quando se tem tanto sem nada para fazer?
Sempre as mesmas pessoas, as mesmas lojas, as mesmas salas, as mesmas paisagens, Acho que fui morrendo de tédio a cada minuto que passava, e os minutos transformaram-se em horas infinitas. Eu li, eu escrevi, eu olhei a minha localização, tudo vezes sem conta, até à insanidade!

E a bolinha azul, que era eu no mar, não se movia quase nada a cava visualização! Só me ocorria que, se houvesse estrada, eu faria aquilo num instante de moto! Eu poderia até fazer tudo num dia…

Fui-me vingando a comer, mas até isso perdia a piada! O pequeno almoço era a coisa mais interessante para comer, com pão fresco de diversas qualidade e todas aquelas coisas que eu gosto!

Lá fora estava um frio de rachar, com direito e vento e humidade com fartura. E tal como eu, muita gente passava por lá a todo o momento, provavelmente, como eu, para não enlouquecer de tédio!

Nada que me impedisse de fazer uns desenhitos…

Então avistaram-se ilhas no telemovel, fiquei tão excitada, estariamos já a passar nas Ilhas Faroé?
Mas não, era ainda o arquipélago das Shetland, a norte da Escócia…

Mais umas horas a passear pelo barco, a desenhar aqui e acolá…
Mas a paciência era pouca, quando já se começa a desenhar pormenores do barco para se passar o tempo…

Quando o barco começa a balançar há sempre gente a enjoar! Isso é terrivel porque, mesmo eu não enjoando no mar, se vir alguém vomitar fico mal disposta e posso enjoar também. Então só me resta sair de perto. Mas às vezes é tanta gente por todo o lado a querer deitar carga ao mar, que só fugino dali, mesmo com frio e vento! Céus, como eu destesto tudo aquilo!
Ao menos o mar é sempre bonito, com os passarocos a animar o momento!

Então elas começaram a aparecer, as Ilhas Faroé!

Confesso que foi uma emoção avistá-las pela primeira vez!

Uma rapariga correu com o seu caderninho para desenhar as primeiras perspetivas das ilhas, mesmo com aquele vento todo, bem na frente do barco!

Ela não levava os materiais mais apropriados para desenhar naquelas circunstâncias, Tinha um estojo com vários lápis que era difícil de usar, e os lápis de cor não eram boa ideia para aquele vento todo. O melhor teria sido usar um pincel com reservatório de água e aguarela, como eu faço. É fácil de manusear e apenas com uma caneta, o pincel e uma caixinha minúscula de aguarelas, o desenho sai rápido.

Não faz sentido ficar ali ao vento e ao frio e desenhar basicamente de memória, pois ela nem conseguia olhar direito para a paisagem.
Eu sou prática, fico de pé, pouso o caderninho na grade, a mão que não desenha segura o livrinho e a caixa de aguarela, a outra faz tudo o resto num instante! Claro que o resultado é simples, não iria ficar ali a vida toda a dar mais pormenor!

E perder o espetaculo que era estar a ver terra depois de tanto mar!

Então começaram a aparecer as casas, estavamos a chegar a Tórshavn!

Ver civilização depois de tantas horas de barco era, no mínimo, emocionante!

O tempo estava cinzento, mas mesmo assim tive tanta vontade de sair! Naquele momento estava a precisar tanto de conduzir!

Podia ver as casinhas vermelhas, de telhado de relva, que compõem o governo feroês, na pequena península de Tinganes.

E do outro lado do ferry via-se o pequeno farol

O porto não é grande, acho que nada é grande naquelas ilhas, mas é muito movimentado!

Ficamos ali muito tempo. Afinal as ilhas são abastecidas pelo ferry, que transporta duzias de camiões com tudo o que é necessário e que não se produz ali. Lembro-me de ver imensos camiões de fruta!

O nosso ferry parecia gigante ali no meio, onde tudo é pequenino!

(Sim, o ferry tinha jacuzzi exterior e o povo usava aquilo com o maior frio, em alto mar!)

Meu Deus, eu já morri e ressuscitei diversas vezes e ainda agora atingi a primeira etapa do caminho até à grande ilha! Não sou uma pessoa ansiosa mas desta vez acho que vou morrer de ansiedade!

E depois de mais uma eternidade, ele moveu-se de novo e nós partimos! Eu tinha curiosidade de ver por onde seguiriamos. Por entre as ilhas? Quais, como?

E foi fascinante! Era uma sensação quase surreal, numa atmosfera tão etérea que eu quis ficar…

Estavamos a passar por entre as ilhas do norte!

Pudesse eu percorrer e contornar todas aquelas ilhas de barco, para poder ver e viver aquela sensação para sempre!

O meu pensamento era, como se percorriam aquelas ilhas se não se via qualquer rua desde o mar? Será que as ruas nunca dão para a água? Serão todas internas, por dentro das ilhas? Seria uma uma pena! Mas é claro que não, eu vira-as em casa ao traçar caminhos, que parvoice!

Apaixonei-me pelas Ilhas Faroé só por as ver passar…

Eu precisava de ficar mais tempo, não tinha a certeza se quando voltasse lá viveria a mesma sensação e isso deixava-me nostalgica…

E veio mais mar, mar alto, sem nada mais para além de mar para ver! Céus, vou morrer de tédio!

Com um pôr-do-sol mixuruca por entre nuvens carregadas. É, eu já percebera que iria ser recebida com chuva no meu destino, embora ainda estivesse tão longe…

O povo também se entretinha a apanhar as melhores perspetivas do que havia em redor, embora não fosse nada de muito extraordinário.

Ainda fiz amizade com algumas pessoas por ali, sobretudo as mais interessadas na paisagem, por-do-sol, ilhas e por ai fora. Porque muita gente não quis saber de nada, apenas ficara todo o tempo entre os salões e nos camarotes. Como eu os compreendo, a seca era grande por todo o lado!

A sensação boa que o pôr-do-sol trazia era de que amanhã chegaria à Islândia, com chuva ou sem ela!

7.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– partindo para o mar… –

6 de agosto de 2019

Só de pensar no que me esperava para os próximos dias, já ficava deprimida! Arrumei a minha bagagem de forma a ser fácil retirar as coisas mais necessárias, sem ter de desmontar tudo quando embarcasse, e sentei-me no degrau das escadas a pensar na minha vida. O que iria eu fazer em dois dias e meio no mar? Ler? Escrever? Comer? Definitivamente entediar-me até à morte!

Claro que quando o destino é fantástco, o caminho valerá sempre a pena, mas não, eu não gosto de ficar tanto tempo a olhar para o balão à espera que o caminho passe. Até ali as travessias mais longas que eu fizera, entre o norte de França e a República da Irlanda e entre a Finlândia e a Suécia, não tinham passado as 17 ou 18 horas e eu quase morri de tédio… agora seriam tantas mais…

Não importa, o que tem de ser feito não pode ser evitado! Ainda por cima estava uma bosta de tempo, para que eu não me perdesse pelo caminho e estivesse no porto de Hirtshals a horas! Se a hora do embarque era 11.30h isso queria dizer que eu devia estar lá duas foras antes, 9.30h portanto. É bom que chova mesmo para que eu não me atrase.

Não tenho qualquer srtess em andar de barco, cruzeiro ou ferry. Não tenho medo do mar e não acho que tudo vai afundar só porque eu estou dentro. Stresso sim com o receio de fazer as coisas erradas, não encontrar o cais de embarque, chegar tarde, embarcar no ferry errado, eu sei lá!

Stresso por depender de um transporte que não o meu!

E a verdade é que os meus medos já se realizaram antes, quando errei na reserva para o ferry para a Irlanda e quando cheguei ao porto, não havia reserva nenhuma no meu nome! Lembro-me que o meu coração gelou! Claro que tudo se resolveu, de uma maneira ou de outra, e eu lá embarquei noutro ferry de ultima hora. Mas morri por uns longos minutos!

Desta vez o stress foi encontrar o cais onde a companhia Islandesa operava. Dei voltas e mais voltas, seguindo placas que se contradiziam, murmurando de mim para mim “tem calma que há tempo, é cedo” e acabei por encontrar o cais seguindo camiões com o logotipo da Smyril Line. Eu iria atrás deles até ao fim do mundo para enontrar o cais! E encontrei.

E sim, cheguei a horas de esperar uma eternidade para embarcar! Fiz amizade com um casal de Malta, muito simpático, e um alemão meio atarantado. Ficaram chocados por me verem ali sozinha. Ao tempo que não ouvia a tradicional pergunta: Os teus amigos?

Mas chocada fiquei eu quando o alemão descontraiu, tirou o capacete e começamos a falar! O homem tinha idade para ser nosso pai! 78 ou 79 anos, sozinho a caminho da Islândia, numa moto antiga e pronto para acampar? E tinha a lata de ficar espantado por eu ir sozinha? A sério?

Já tinha feito aquela viagem 15 anos atrás, ao que percebi com a mesma moto, e agora queria reviver a experiência pois não viajara muito nos ultimos anos e tinha de recuperar esse tempo perdido. Em momento nenhum se referiu à idade como um receio ou uma limitação. Eu quero ser assim aos 79 anos…

Ali as motos não são colocadas em linhas próprias, nem são encaminhadas para a frente de todos. Apenas se alinham com os carros até passarem o controle de bilhetes e documentos, como numa portagem ou fronteira. Vamos lá ao arranca – pára- arranca – pára, que é para isso que nos dizem para chegarmos duas horas antes do embarque!

Era este o aspeto do documento da minha reserva.
Sim, ele vai encadernado no meu livro-guia de viagem, é menos um papel à solta na bagagem.

Esperando que do lado de lá da “portagem” haja uma linha para as motos, não estou a ver estacionarem as motos de qualquer maneira, no meio dos carros, numa viagem tão longa!

E sim, do lado de lá uma linha era só nossa e as moto já eram bastantes! Senti-me menos estupida por stressar com embarques, ao perceber que tanta gente madrugara para embarcar ao mesmo tempo que eu! Fiquei feliz por ficar atrás daquelas motos todas, significava que só teria de os seguir sem me preocupar, e que a minha moto ficaria seguramente atrás das deles, o que provavelmente me possibilitaria sair primeiro ao desembarcar! Yess!

Depois com tanto homem por ali, seguramente algum me ajudaria a amarrar a moto, coisa que me custa bastante fazer. Sou muito fragil de mãos, tenho pouca força nos braços e tenho medo de não conseguir fazer as coisas bem, por isso!

Percebi que eu era a unica mulher condutora e mesmo as penduras eram poucas. E tal como eu suspeitara, não havia ninguém a prender as motos, cada um amarrava a sua! Oh valha-me Deus!

O sistema da fivela, que prende as fitas quando têm de ser esticadas, não era nada simples e aqueles homens estavam todos às voltas a tentar entender como prender as suas motos. Como iriam ajudar-me a prender a minha?

Ao meu lado veio pôr-se uma Africa Twin, fiquei contente por ter uma Honda ao lado da minha Honda! Era italiana e tinha uma grande amolgadela na matrícula, parecia que tinha apanhado um tiro na placa, de tão funda era a cova! Ía perguntar o que lhe tinha acontecido, mas o tipo pôs-me um olhar assassino! Ele olhava para mim com um desprezo que me fugiu qualquer vontade de falar. Que foi homem? E ainda por cima olhava insistentemente. Já sei que estou aqui às aranhas com esta porcaria de fitas imundas e fivelas emperradas, mas se não queres ajudar, também não precisas prejudicar!

Voltei-lhe as costas e mandei-o catar-se.

Não tentei mais, aquilo não funcionava, a fivela não corria, larguei tudo e fui pedir ajuda a um dos homens da empresa, que andava por ali a orientar as motos. Foi simpático o rapaz e veio prender a minha querida Scarlett, todo dedicado. Ficou surpreendido por eu estar sozinha, parece que não é muito comum, quando há mulheres condutoras, viajam em grupo com outras motos, logo eu era uma raridade! Sério? Elas hão-de vir, não se preocupe! Acabou por descobrir que a fivela da minha fita estava estragada e por isso eu nunca conseguiria fazê-la correr!

Estás a ver óh otário da AT, esta coisa está avariada não sou eu que sou azelha!

Acabei por ser das primeiras a ter a moto pronta e sair do porão! Dali até partirmos ainda demoraria um bom tempo, ainda estavam a embarcar os camiões noutro porão e os carros só entrariam depois. E a sensação de “isto nunca mais acaba” aumentou dentro de mim, ali mesmo!

O raio do barco não tinha fim e demorei a orinetar-me pelos corredores.

Acabei por perceber que o porão das motos era o Deck 4 e que eu dormiria abaixo da minha moto, no Deck 2 e que o Deck 3 não existia ou não era da nossa conta. talvez máquinas, porão de embarque comecial, sei lá!

Quando se marca a viagem do ferry é obrigatório marcar também um lugar numa couchete ou um camarote, simplesmente não existe hipotese de viajar em cadeirão, como noutros ferries que eu conhecera antes. E está certo, não faz qualquer sentido as pessoas viajarem sentadas em cadeirões, como quem viaja de autocarro! As couchetes são pequenas e cabe uma série de pessoas nelas. Achei que me ia sentir claustrofobica ali dentro, é sempre essa sensação que tenho. Mas até é engraçado e não é nada sufocante. Só estavamos 3 mulheres instaladas ali, por isso não faltava espaço e ar.

Arrumei o meu canto e larguei as tralhas na minha cama. O que é suposto eu fazer a seguir? Então senti-o move-se! PARTIMOS!

Nem sei como passou tanto tempo desde o embarque, que eu nem me dei conta! E estava na hora do almoço, que estava incluido no meu bilhete!

Eu só iria para as Ilhas Faroé no regresso da islândia, mas já fui provando a sua cerveja.

Gostei bastante! Eu achava que devia aproveitar a cerveja enquanto a tinha, imaginando que não deveria encontra-la facilmente na grande ilha. E como eu estava certa!

Ainda bem que não me esforcei por encontrar e comprar um mapa da Islândia, porque ali no barco eram de borla, pouco importava se eram de verão ou inverno, servia!

Eramos cerca de 600 pessoas a viajar, não sei onde estavam, mas graças a Deus não tive de levar com elas todas no meu caminho o tempo todo.

Começou o tédio absoluto! Nada para fazer, sempre a mesma coisa em meu redor, ler, escrever, desenhar, comer beber, por mais 60 horas….

Não sei quantas vezes filmei o mar, mas foram muitas vezes, mesmo sabendo que ele era tudo o que eu veria pelos proximos dias, sempre igual… ou parecido!