À Suiça

Tal como o caçador afadigado,
Depois de em vão correr ingratos montes,
Se alfim vê belo pássaro que pousa
Sobre um tronco do bosque,
Alegre e duvidoso a arma prepara;
E quando cuida já que é presa sua,
Manso o vê que se escapa, e que desliza
Nos leves ares co’as talhantes plumas,
Triste, desesperado à casa volta:
Ou como terno amante, que de longe
O bem-amado avista, passeando
No jardim de seus pais; contente investe,
Já em doces idéias engolfado;
E quando perto chega,
E cuida ir desfrutar gratos momentos,
Ela modesta e temerosa, os olhos
Brandamente volvendo, se retira,
E o malfadado deixa
Entregue à dor, carpindo-se saudoso;
Assim eu, oh belíssima Suíça,
Vi teus montes, teus bosques de pinheiros,
Teus campos férteis co’o suor dos homens;
Vi teu lago tranqüilo, onde se espelha
De cima desse trono de alabastro,
O sol, mal que amanhece faiscante.
Assim jovem guerreiro de ouro armado,
No polido pavês atento se olha,
E contempla seu garbo, antes que saia
A discorrer os campos, coruscante.
Vi a tua cidade de Genebra,
Tão linda como o lírio junto d’água,
Tão graciosa como pura virgem,
Que a roca empunha, e que meneia o fuso.
Vi-te, e meu coração portas abria
Ao prazer fugitivo,
Que mais ligeiro corre que o teu Ródano.
Alma alegria a mente me orvalhava,
Tão seca de pesares;
E a saudade da Pátria que me punge,
Como que adormecida, menos dura,
A farpa descansava.
Esquecido de mim, do meu destino,
Começava a gozar-te; — e já me foges!
Mas se tu de meus olhos disapareces,
Desenhada na mente a imagem tua,
Jamais consentirei que se esvaeça.

Oh Suíça, oh Genebra, oh país livre!
Culta Cítia da Europa, solo honrado
Pelos Euler, Rousseau, Haller, e Géssner,
Recebe inda este adeus de um estrangeiro;
E praza ao céu que o último não seja,
Que a ti volte, e te veja uma, e mais vezes.

por Gonçalves de Magalhães / Genebra, 11 de outubro de 1834

13.08.08 155a

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Montagne

Je goûte au silence du matin,
Dans la courbe tendre du chemin,
La rosée perle de son écrin,
Dans un chaud soleil de juin.
Mon regard pénètre émerveillé,
Au coeur de ce vallon,
Où se dresse en toute beauté,
La cime fière du Bric Berchet.
Je goûte à l’arôme délicat,
Des fleurs qui guide mes pas,
Tandis que se perche du haut des mélèzes,
Une odeur parfumée de sève,
Le chemins enlace la pente,
Se blottit au creux du ravin,
Le torrent dans le lointain chante
Sous une pluie d’éclats cristallins

Não sei para onde vou…

CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

 

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

 

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

 

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí.

 

 

José Régio

 

Ai que prazer!

Ai que prazer

Não cumprir um dever

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada

Estudar é nada

O sol doira

Sem literatura

O rio corre, bem ou mal

Sem edição original

E a brisa, essa

De tão naturalmente matinal

Como tem tempo não tem pressa.

 

Livros são papéis pintados com tinta

Estudar é uma coisa em que está indistinto

A distinção entre nada e coisa nenhuma

 

Quanto é melhor, quando há bruma

Esperar por D. Sebastião

Quer ele venha ou não!

 

Grande, é a poesia, a bondade e as danças

Mas o melhor do mundo são as crianças

Flores, musica, o luar e o sol, que

Peca só, quando em vez de criar, seca

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo

Que não sabia nada de finanças

 

Nem consta que tivesse Biblioteca!

 

Fernando Pessoa

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