10.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Entre o frio, o calor e o vento infernal! –

9 de agosto de 2019

A excitação de estar ali, e poder passear em redor, tirou-me cedo da cama.

Chovera toda a noite, eu ouvira as grossas pingas de água a tamborilar por todo o teto da tenda, mas o clima continuava quente e seco no interior. Eu preparara-me bem para aquela experiência, definitivamente! Mas só perceberia o quanto, ao abrir o fecho, literalmente gelei! Estava tanto fio lá fora que ao soltar uma exclamação, saiu fumo da minha boca! Ok, que verão vai ser este? Seguramente, de tudo o que eu lera e estudara, estaria dentro da pior das hipóteses postas pelos islandeses, ao descrever para viajantes o quão agreste podia ser seu próprio clima!

A parte mais chata de acampar é ter de fazer tudo ao nivel do chão! Como tomar um pequeno almoço e fazer planos para o dia!
As minhas botas de neve estavam a revelar-se a melhor escolha para aqueles dias. Pés quentes e secos é tudo o que é preciso para a gente não se sentir miseravel!


Tinha tantos planos para aquele dia, queria ir em tantas direções, apenas o tempo me poderia impedir de aproveitar tudo o que tinha em mente!

Claro que o parque tinha uma sala comum, mais propriamente uma casa, com cozinha apetrechada e tudo. Têm sempre! Mas lá dentro era a confusão, com muita a gente, quase tudo homens, a tentar fazer o pequeno-almoço ao mesmo tempo. Apenas fui lá ao partir, para aquecer água e fazer café para levar comigo na minha termos, e deixei-os para lá, à fila para a torradeira, para a frigideira e para a chaleira! Como eu só queria meio litro de água quente, alguém me deixou aproveitar a chaleira fervente, sem ter de esperar no fim da fila. Obrigada rapazes!

Começava a perceber a “lógica” das bombas, e que seguramente teria gasolina em todo o lado que precisasse. Há sempre estações de serviço, mesmo nos locais mais ermos, há uma rotunda, um cruzamento ou um entroncamento, e há um ponto com café e lá está uma bomba, sempre em autosserviço. Tudo pago com cartão, tudo muito prático, apenas tenho de saber quanto dinheiro em gasolina escolher… é, apenas isso! Mas até isso aprendi rápido!

Se estivesse na Escócia aquela porção de água chamar-se-ia “sea loch Eyjafjörður” assim chama-se, como na Noruega, fiord Eyjafjörður. Na realidade é um imenso braço de mar que entra por mais de 60 km pela terra dentro num fiord enorme, o maior da zona. Uma pena o tempo não deixar ver muito dele!

Aprendi que junto das cidades, e Akureyri, embora pequena, é uma das maiores cidades do país, há algumas árvores pequenas, mais parecidas com arbustos, O momento certo para as apreciar pois encontra-las é um privilégio que não se repete muito pela ilha!

O parque de campismo enganara-me totalmente. apenas a chuva chegava lá, e eu ouvi-a durante a noite, mas o vento, por qualquer motivo, nem se ouvia lá em cima! E no entanto ele era tão forte por todo o lado! A sensação era de que o vento poderia empurrar e arrastar a moto pela água do chão até atira-la fora da estrada!

Mesmo assim eu tinha de ir a alguns lados, era inevitável! O que me preocupava não era ser posta ao chão pelo vento, o que me preocupava era que não havia ninguém na rua que me pudesse ajudar, se isso acontecesse, e eu não conseguiria erguer a moto sozinha! Por isso teria de me manter de pé a todo o custo! E assim fui até Grenjaðarstaður, ver as casinhas de turfa tão tipicas do país.

Grenjaðarstaður é uma pequena localidade com uma igreja e uma das quintinhas de turfa mais famosas da Islândia.

Reza a história que havia uma herdade em Grenjaðarstaður desde o início da colonização da Islândia há mais de mil anos.

Grenjaður Hrappsson colonizou esta área e viveu em Grenjaðarstaður, que ganhou o seu nome. Muitos nomes de lugares antigos na Islândia têm a sua origem nos nomes de seus colonos.

Estas casas remontam ao século XIX e as partes mais antigas datam de 1876. A majestosa casa de relva em Grenjaðarstaður era a maior mansão neste condado, com 775 m²!

A relva ou turfa, era usada por ser barata e eficaz, pois isolava as casas do frio. As paredes externas são feitas de lava duplamente empilhada, um material abundante por ali.

A lava era o material de construção nas áreas da Islândia, onde há atividade vulcânica.

Nem todas as casinhas de turfa são construidas da mesma maneira, tudo depende da zona onde estão, sobretudo as paredes podem não ser feitas de pedra/lava, podem elas também ser feitas de turfa, ou terra/lama misturada com relva, prensada até fazer blocos.

Tão fascinante como eu imaginava que fosse aquela experiência de estar, pela primeira vez, junto daquelas construções!

Eu tinha planos de ir até ao topo norte, mas o caminho era tão desolado e isolado que comecei a hesitar.
O vento era praticamente ciclónico e empurrava-me com tal força que a moto parecia não conseguir desenvolver, cada vez que o apanhava de frente!

Tudo era a imagem da desolação.

O vento não vinha sempre na mesma direção, ora me apanhava de frente, ora de lado, por vezes de trás. Mas que raio o fazia dar a volta se não havia qualquer obsataculo em redor, nem uma árvore, nem um muro ou casa? Tinha de desistir de subir mais, estava a ficar verdadeiramente cansada de lutar com tal ventania, e assim que encontrei uma estrada noutra direção, virei!

Foi quando, pelo meio do barulho infernal do vento, mais a música nos meus ouvidos, percebi pedrinhas que saltavam pelo interior da moto! Como? De onde vinham as pedrinhas afinal? Então olhei com mais atenção aquilo que pensava ser o alcatrão da estrada e percebi que não era alcatrão, era gravilha negra prensada! Era muito negra e tinha mesmo a linhas pintadas de branco, mas não deixava de ser gravilha!

Comecei a perceber que, quando a estrada era de alcatrão, brilhava um pouco com a chuva, quando era de gravilha, parecia mais abrasiva. O que era enganador, pois a gente tende a sentir mais confiança numa estrada com piso abrasivo e ali era precisamente o contrário, eu podia mesmo escorregar com todo o vento naquela gravilha solta!

Mas há de tudo por ali, até estradas de terra batida enlameadas e esburacadas. Não podia deixar de ficar fascinada com a terra negra. Eu sabia que ela seria negra, mas não imaginava que fosse tanto, nem toda, nem por todo o lado!

E no meio do nevoeiro e do negro, lá se avista um vulcão, o Krafla! Estou noutro planeta, definitivamente! Eu sei que ele tem um lago dentro, mas com a chuva e nevoeiro não veria muita coisa. Não o subi, com todo o esforço que vinha fazendo, mais o vento tão forte, não tive a menor vontade de lutar para caminhar até lá acima. Eu hei-de cá voltar um dia, com mais tempo, para ver esses recantos, calmamente.

Estava a ficar gelada e exausta por isso voltei para Mývatn.
Eu queria ver a Mývatn Geothermal Area, de perto e, quem sabe, aquecer-me um pouco no seu lago azul, se o cheiro não fosse insuportavel!

Conduzir com frio, chuva e vento forte é uma aventura mas garanto que, se à festa se juntar estrada má de terra batida e fumarada quente de vapor de água, a experiência torna-se verdadeiramente surreal! Já para não falar nas viseiras da moto e do capacete a embaciarem de tal maneira, por dentro e por fora, que eu nem tinha a certeza de onde punha as rodas!

Estava tanto frio e no entanto tanto calor ao mesmo tempo, recebia a baforada do lago sempre o que vento virava.

Não cheirava tão mal como eu temia e fiquei por ali uma infinidade de tempo, apenas a curtir o surreal do momento e a descansar.

Com todo o vento que eu enfrentara, eu fizera tanto esforço de mãos e braços, que contraira todo o corpo de forma incontrolável, ao conduzir.

Precisava ficar quieta um pouco para relaxar, por isso desenhei!

“No meio da chuva, do vento e do frio, por entre o negro da paisagem, o calor das águas azuis era surreal! Tudo fumegava em redor, como se de cada cavadela na terra saísse uma fumarola! Não havia ninguém em redor, nada está inundado de turista por ali, cada momento é uma experiência única e individual, e como eu gosto disso! Sentei-me numa pedra no meio da lama fumegante, sentindo o calor nos pés, através da botas de neve, e era como se a terra me acolhesse com seu calor. O tempo que fiquei ali, até partir para o frio e o temporal de novo!” (in Passeando epla Vida – a página)

Cartazes diziam para não entrar na água pois abaixo da superfície ela podia estar a cerca de 97 ou 98 graus! Puxa, de repente lembrei-me que a temperatura de ebulição da água seria poucos graus acima disso, 100º ou algo assim! Fascinante!

É claro que pus os pés na água!

Naquela berma do lago a profundidade da água era tão pouca que certamente a temperatura ambiente tão baixa a arrefecia o suficiente para eu não me escaldar. Depois eu tinha botas e meias suficientemente grossas para que o calor não chegasse imediatamente à minha pele.

Eu estava certa, sentir o calorzinho nos pés e foi uma sensação espetacular! O meu cérebro não estava habituado à ideia de que, no meio do frio intenso, um lago me aquecesse os pés, e tive de me forçar a sair dali, antes que a cozedura começasse!

Ok, vamos lá para mais uma voltinha ao grande lago Mývatn, mais uma voltinha pela terra negra!

Como podia eu ficar quieta com paisagens daquelas a chamar por mim? Todo aquele negro estava a maravilhar-me de uma forma assustadora, porque a atração era grande mas o receio também. Maldita ventania!

Tudo tão deslumbrante e eu nem conseguia tirar todas as fotos que queria, pudesse eu registar tudo o que me fascinava…

As autoridades avisam que não é permitido fazer fora-de-estrada, nem acampar em qualquer sítio aleatório. Eu achei que não fosse de todo possível explorar fora da estrada alcatroada, no entanto percebia agora que o que havia mais eram caminhos fora da estrada, sempre sinalizados e levando a sítios fantásticos. Porque raio as pessoas hão-de, mesmo assim, tentar correr a direito por qualquer lado?

Namafjall Hverir é espantoso! O passo de Námaskarð fica entre o vulcão Krafla e o campo de lava Búrfellshraun e era deslumbrante a meus olhos!

Parecia que tinha aterrado em Marte, apenas com muito fumo, frio e vento!

Junto à montanha vulcânica fica uma imensa extensão de terra borbulhante feita de fontes que se chamam Hverir.

Não há qualquer vegetação em Námaskarð, nem há água pura, parece que tudo é sulfuroso por ali.

E o cheiro sente-se em todo o lugar, mas não é nada que perturbe demais, ou a beleza extraordinária e única, não deixa sequer o cérebro processar o cheio!

O fumo mudava de direção com o vento e este, embora fosse tão forte, não o impedia de se espalhar por todo o lado.

Era tão hiplnotizante observar um Hverir tão poderoso a bufar!

O tempo que eu andei por ali, quilómetros de passeio, acho que o que valeu foi o vento forte, para eu não levar comigo todo o cheiro de enchofre que me rodeou por tanto tempo!

Eu estava meio exausta mas tinha de ver de perto a grande falha. Eu passara por ela ontem, mas havia sitios específicos onde eu queria ver a sua marca!

O deslumbramento seguia comigo na minha procura. havia banhos por ali, mas eu não queria tirar a roupa e perder horas dentro de água, eu queria ver mais, isso sim!

A Islândia é um dos únicos lugares do mundo onde é possível ver e tocar, ao mesmo tempo, duas placas tectônicas continentais. Há quem mergulhe para as ver debaixo de água, mas eu não aspirava a fazê-lo, queria apenas ver toda a revolução que existe na superficie e ali, toda aquela região, está bem marcada por ela.

Parei em Reykjahlíð, junto ao lago, porque a “revolução” era visivel tão perto das casas.

Em redor da igreja parece que passou uma toupeira gigante que levantou tudo ao passar.

Claro que explorei a redondeza, afinal era mais uma oportunidade de ver um cemitério local de perto, como um jardim, com espaço para picnic e tudo.

E lá estava a lava revolta.

Fascinante pisar sobre ela!

Não conseguia evitar pensar que tudo aquilo podia mexer a qualquer momento! Inocência minha imaginar tal coisa, mas quem não o faria?

Vamos lá pegar na moto mais um pouco e seguir mais para a frente, pois não estava longe do campo de lava de Búrfellshraun, e eu tinha de ver como era.

São quilómetros de lava revolta até perder de vista!

Eu sabia que iria encontrar muito mais daquilo pela ilha abaixo, bastava observar a configuração da falha em forma de um “Y” invertido ou a letra grega lambda “λ”

Mas não importava nada, eu tinha de pisar ali, sobre ela, se possivel conduzir a minha moto também!

E lá estava eu a lutar com o vento sobre aquela revolta das pedras!

O meu fascínio não tinha limites e eu estava tão maravilhada com tudo! Voltei à estrada de alcatrão, tinha de voltar para casa para me deitar…

Os pequenos lagos sussedem-se, com paisagens mais relaxantes nas fotos do que no local. Não sei como todo aquele vento não levantava ondas nas águas dos lagos!

Ok, afinal a estrada não era de alcatrão, de novo!

Gravilha grossa é o que mais as minhas rodas viram!

Eu chegaria à paz da estrada que fizera ontem ao ir para Akureyri, e ela parecia de veludo depois dos caminhos manhosos que fizera.

Tão misteriosas as paisagens em redor

A Islândia ficará para sempre na minha memória envolta naquela atmosfera de beleza misteriosa!

Cheguei ao fiord onde ficava a minha casa, embora ainda fosse longe.

Movimentação lá em baixo chamou a minha atenção. Tinha sempre de ter cuidado como parava a moto para que o vento não a virasse de pernas para o ar, e desci um pouco…

Então eles estavam lá em baixo, os tão tipicos cavalos islandeses, lindos, selvagens, correndo cheios de beleza, pela encosta de um lado para o outro.

Hipnotizante! E eu que tinha receio de não os ver, fiquei maravilhada!

Bem, tenho de ir para casa, antes que não tenha mais força nas mãos para segurar aquele volante infernal!

Akureyri parecia tão em paz ao fundo

Subi ao parque e o vento parava ali. Como era possível?

Parece que fui a ultima a chegar a casa. os inquilinos eram outros, mas o meu quarteirão estava cheio de novo.

Tinha um vizinho de bicicleta numa tenda ao lado.

Conheci-o ao passear um pouco em redor. O pobre homem estava bem mais exausto do que eu, não vira quase nada naquele dia, apenas lutara com o vento e fizera grande parte do caminho com a bicla pela mão, já que o vento era tão forte, que ele não se conseguia equilibrar em cima dela. Pois, foi o que imaginei, se para mim era dificil, para um ciclista devia ser verdadeiramente o inferno!

Eu estava tão gira com o gorro do meu moçoilo e o carapuço enfiado, que tive de fazer uma selfie para mostrar ao mundo como fico sem chapéu! O chapéu era para esquecer por aqueles dias, não haveria nada que o segurasse na minha cabeça com aquela ventania!

Só então fiz o desenho das voltas e reviravoltas que dera naquele dia. Não fui longe, mas fui feliz!

Deus queira que amanhã o vento abrande um pouco… só um pouco seria tão bom!

Estiquei-me no meu colchão de ar, que parecia de plumas, e morri para o mundo….

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

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