About Gracinda Ramos

Um dia disseram-me que eu fazia a minha vida leve... Eu respondi que a minha vida tem de ter o peso que eu posso suportar!...

3.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

2 de agosto de 2019

– de Saignelégier – Suíça, até Raill – Alemanha –

O meu quarto ficava nas águas-furtadas do hostel, com uma janelinha inclinada que me proporcionava uma perspetiva simpática da paisagem até onde o tempo matinal, meio nublado, permitia ver. Do outro lado do sótão havia outro quarto com duas fulanas bem bizarras, que ficaram muito ofendidas e se fartaram de reclamar porque o meu quarto era melhor e mais bonito que o delas e com direito a paisagem e tudo, enquanto o delas não tinha nada disso. Valha-me Deus gente que importa? É um quarto para uma noite, não é para viver uma vida, dizia eu. A verdade é que eu ficaria apenas uma noite e elas três… Paciência, é porque me acharam mais simpática que vocês e me quiseram compensar, sei lá!

Giras eram as escadas que levavam até lá acima, o ideal era não se ter muitos sacos para carregar, nem ter os pés muito grandes, para não corrermos o risco de resvalar por ali abaixo. As minhas vizinhas reclamaram também das escadas, não sei se tinham os pés grandes mas os sacos eram muitos e enormes!

Eu tinha tanta coisa para ver naquele dia, iria atravessar mais uma zona cheia de coisas lindas, em que era preciso selecionar para não parar em cada curva do caminho, por tudo e por nada que me aparecesse de bonito. Iria passar pela Rota dos Vinhos da Alsácia, que eu adoro, onde já não passava há alguns anos e seguiria para as margens do rio Mosel. O rio dos vinhos, como eu o conheci há uns anos quando o percorri até se juntar ao rio Rio Reno em Koblenz.

Eu apenas tinha entrado numa pontinha da Suíça e logo a seguir sairia, do tipo, só fui lá dormir! Às vezes acontece-me isso, quando tenho uma direção traçada e procuro dormir por perto do caminho que quero fazer e vou escolhendo os sítios mais bem posicionados e mais baratos. Por vezes estou em zonas de dormidas tão caras que desvio o meu caminho para onde se pode dormir mais em conta. Tem de ser, porque uma viagem de tantos dias com tantas dormidas, não pode ficar em risco pelos preços excessivos. Afinal é só para dormir uma noite a maior parte das vezes, não é para usufruir de um hotel de x estrelas por tempo indeterminado! E no fim acabo sempre por escolher sítios lindos e simpáticos, porque quando se fazem as marcações em casa, há tempo para escolher, ler comentários e decidir, sem ter de o fazer em cima dos joelhos no caminho e pagar o que não cabe no meu orçamento!

E logo ali, ao fim da rua, ficava a França e a Alsácia, que coisa fantástica!

A bela aldeiazinha de Hirtzbach, estava deserta, um privilégio que me permitiu andar para trás e para a frente sem ninguém me incomodar! Não é a terrinha mais famosa da Alsácia, por isso provavelmente nunca se encheria de turistas, digo eu que não esperei para ver!

Os pormenores as casinhas eram verdadeiramente encantadores. Essa é uma carateristica que eu aprecio nas aldeias francesas, cada pessoa procupa~se por embelezar o que é seu e com isso toda a aldeia fica linda!

No centro da aldeia um enorme jardim, com ar de rio florido, torna tudo mais mais extraordinário! As voltas que eu dei em redor, quer de moto quer a pé, para apreciar cada casinha, de travejamento exterior, de que eu tanto gosto!

Cada uma mais encantadora que a outra, autenticos miminhos que parecem saidos de contos infantis de princesas e gnomos!

E sim, andei mesmo em volta a apreciar tudo!

Mesmo os trabalhos dos alunos instalados nos jardins publicos e rotundas me fizeram parar mais à frente em Illfurth , porque eram perfeitos.

Oh céus, por este andar nunca chegarei ao fim da viagem, mas eu tenho de parar para ver de perto! Simplesmente um espanto de trabalhos!

Enfim lá cheguei a Mulhouse, ainda cedo, nem sei como pois vim parando por todo o lado. E, claro, tive de parar para ver os murais… é sempre assim!

Quando me perguntam afinal o que eu gosto de ver numa viagem, é sempre dificil fazer a lista!

Gosto de paisagens agrestes, montes e vales, mas também gosto de mar; gosto de história e arquitetura, mas também gosto de artesanato e arte urbana; gosto de desenhar e fotografar tudo para mais tarde recordar, mas também gosto de não o fazer e deixar passar; gosto de experimentar a comida local e regional, mas também gosto de comer umas sandocas e outras “porcarias” na berma da estrada; gosto de me sentir só e independente, mas também gosto de conviver e conhecer gente… gosto de tudo o que apetecer fazer e ver, enfim!

Desde que percorri de fio a pavio a Rota dos Vinhos da Alsacia que Mulhouse ficou na minha lista, porque não passei por lá e não o tinha feito até agora.

E a cidade não me desapontou. Não havia muita gente e eu pude passear em redor calmamente. Encontrei um pequeno mercado na na Place de la Réunion. Eu adoro mercados e feiras, é uma boa forma de andar no meio dos locais e perceber como “funcionam”, o que vendem o que compram, sei lá!

E gosto de comprar fruta nestes locais e passear comendo.

Um dia terei de lá voltar só para visitar a catedral/igreja por dentro. Não sei como consegui chegar ali tão cedo que ela ainda estava fechada…

 O Templo de Saint-Étienne, (não lhe devo chamar catedral porque é protestante?) é calvinista, mas já foi católica, como todas estas igrejas antigas, Também já foi românica, agora é neogótica… enfim, valia a pena visitar…

A bem dizer as atrações turisticas estavam todas fechadas, mas não houve qualquer stress, não faltarão oportunidades para voltar a passar lá.

Na Place de la Réunion fica também a antiga Câmara de Mulhouse, um edificio lindissimo renascentista em arenito vermelho, que mais parece um escultura gigante. Fez-me lembrar as câmaras das cidades belgas, que são sempre monumentos a observar de perto.

Eu vou sempre parar a apreciar pormenores de arte nas ruas…

Da Rota dos vinhos da Alsacia eu tinha de selecionar uma ou duas aldeias para rever, estava fora de questão parar em muitas (ou todas como fiz da vez que percorri toda a rota) e estava fora de questão também não parar em nenhuma!

Por isso, embora tivesse a certeza de que haveria muita gente por lá, decidi passar em Eguisheim, porque é linda e porque comi lá uns pães de queijo que me ficaram na memória e eu queria voltar a experimentar!

Estacionei a moto na rua principal, não queria ficar muito longe das casas que vendiam o famoso pão, nem de todas as atrações que queria rever! Ok, eu sei que não é permitido a turista parar ali, mas eu já sou da casa… ou não?

Passaram policias e não disseram nada, apenas apreciaram a moto… ok, vamos dar uma voltinha a pé.

A terrinha é linda em todos os seus recantos e felizmente não estava tão cheia de gente como eu esperava! Uma sorte!

“A Route des Vins d’Alsace sempre atrai minha atenção e eu acabo por voltar a passar para reviver mais um pouco da sua beleza. Eguisheim deve ser uma da terrinhas mais bonitas da route e das mais visitadas também, está sempre cheia de gente que se passeia para cima e para baixo nas suas ruinhas bonitas ladeadas por encantadoras casas de travejamento exterior, em cores vibrantes e pormenores antigos. Pousei a minha moto bem no meio da população e a Place du Château Saint-Léon era logo ali. Uma bela pausa para descansar e lanchar um delicioso pão de queijo, antes de seguir viagem para norte.”
(in Passeando pela Vida)

Tão bom passear calmamente sem tropeçar em mil pessoas…

Espera-se apenas um poucquinho e não aparece ninguem nas fotos!

Em Riquewihr ja havia mais gente, mas nada que me impedisse de passear em paz e apreciar de novo a beleza do local.

Realmente tudo é lindo por ali como eu me recordava ser. É daquelas zonas que vale a pena visitar quando se passa perto, quanto mais não seja para se tomar um copo de vinho numa esplanada, acompanhado de um belo Bretzel!

Os desenhos que eu já fiz por ali em tempos! Lembro-me de me encostar a qualquer canto e registar os belos pormenores. Desta vez não me apeteceu. Fiquei-me pelas fotos, muitas fotos, e pelos lanchinhos. Algo me dizia que tinha de aproveitar bem enquanto encontrava facilmente os petiscos que aprecio, antes de chegar ao ponto mais complicado da viagem onde encontrar o que comer poderia ser uma aventura…

Seguiria para o Mosel, onde ficava a minha dormida ,apreciando o que encontrasse no meu caminho. Saint-Quirin foi uma das terrinhas desertas que encontrei.

Não sei onde andava toda a gente, afinal nem era domingo nem nada! É um contra-senso, se está muita gente é uma chatice, se não está ninguém é uma tristeza. Enfim, a verdade é que se aprecia tudo melhor sem ninguém em redor!

Como os pormenores encantadores nos jardins das casinhas particulares.

Viajar a solo tem este encanto, a gente está consigo mesma, não pede nada a ninguém, não se preocupa com ninguém, pára e faz como quer, quando quer…

E as coisas que me fazem parar, provavelmente, não fariam parar mais ninguém. A paz, por exemplo!

Ainda parei em Sarralbe, antes de chegar ao Mozel. Não visitei a enorme igreja, embora fosse ela quem me fez parar.

A Eglise Saint-martin é gotica em tem na sua frente a Porte d’Albe, os restos da muralha da cidade.

Ok, desta vez dei uma olhada por dentro

A terrinha é simpatica, deserta, mas simpática. Acho que tudo nesta viagem conspirou para eu me ir habituando à solidão da Islandia!

A Alemana era logo a seguir, 3 países de uma vez, isso porque passei ao lado do Luxemburgo e não entrei!

E eu estava cheia de vontade de rever os caminhos do Mozel. Pelo que me lembrava, as paisagens eram deslumbrantes e as localidades cheias de gente e animação, com bom vinho a acompanhar!

E estava lá tudo à minha espera!

Habituada a passear pelo Douro, fico sempre fascinada com zonas vinicolas tão parecidas e tão diferentes!

A minha dormida era em Reil, Alemanha. Eu já lá estivera e sabia que era uma aldeia muito bonita, por isso fiz questão de chegar a tempo de explorar um pouco ainda de dia.

Os pormenores sempre me chamam a atenção e me fazer cair na gargalhada de vez em quando!

Os vizinhos do hostel se encarregaram de alojar a minha motita num recanto entre as suas casas, Muito simpáticos os alemães!

E fui passear e procurar onde jantar, claro, que nem só de sandocas vive esta mulher!

Havia coisas interessantes por ali!

Mas definitivamente a minha moto cativou as atenções! Fiz amizade com uma tailandesa a viver em Rail, que conduzia uma belíssima Vespa! Fascinou-se pela minha motita e ficou tão feliz quando eu disse que adorava Vespas e que já tinha tido 2 mais pequenas que a dela. Momento giro.

Toda feliz lá foi ela à sua vida na sua motita bem simpática!

E eu continuei o meu passeio. Fui até à margem do rio apreciar toda a sua beleza enquanto anoitecia. Fiquei a ouvir musica e a curtir o local até ficar de noite e, quando voltei a subir para o jardim na berma da estrada, apanhei a luz das casas de frente. Os meus olhos estavam habituados à escuridão e eu fiquei encandeada, pus o pé e não havia chão…

E como numa Via Sacra, caí pela primeira vez!

Eu sempre caio nas minha viagens, já começa a ser normal, mas daquela vez foi assustador! Porque ao perceber que iria cair, porque não via o degrau, pus a mão para me proteger, mas havia um banco de jardim na minha frente. Instintivamente virei a cabeça de lado e bati com o testa com toda a força no dito branco. Se eu não tivesse virado a cabeça… teria esmagado o nariz…

Fiquei atordoada por momentos, sem entender muito bem o que me tinha acontecido, afinal eu nada via, apenas a escuridão e o vulto negro contra o qual batera a cabeça. E quando levei a mão à testa, estava molhada…

Oh céus, sangue que corre, aquilo não era apenas um galo, era uma ferida aberta, bem na zona onde pousava o limite do capacete…

Fui dormir, o meu galo cantaria ao amanhecer, seguramente….

2.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

1 de agosto de 2019

– de Decazeville – França, até Saignelégier – Suíça –

Quando me perguntam se ainda há o que ver por esta Europa que eu tanto exploro, eu lembro-me sempre da quantidade de coisas incríveis que ainda não vi e que sei que existem…

Aquele dia não seria diferente! Embora eu estivesse a atravessar de novo o sul de França, que eu já percorri vezes sem conta, havia tanta coisa incrível para ver no meu caminho que eu tinha de selecionar. É sempre assim, sempre fica tanto o que ver para as vezes seguintes que passar perto. E voltei a andar para trás e para a frente em busca de pequenos encantos que sei que existem.

Embora me irrite um pouco ter de deixar a moto e caminhar para encontrar o que quero ver, eu sabia que Conques valia esse esforço. Obviamente, o ideal para mim é ir com a moto até ao centro da cidade ou aldeia que quero explorar e só depois caminhar. Mas ali não é possível. A entrada está vedada ao trânsito de veículos não autorizados e só me restava descer até lá ao fundo.

A vantagem é que o caminho permite captar diversas perspetivas e enquadramentos fantásticos da aldeia.

A aldeia é tão bonita que apetece ficar lá por dias, caminhar, explorar recantos, comer numa esplanada e desenhar!

“Tenho saudades de me encostar a uma parece para me proteger do sol enquanto descanso um pouco da caminhada! Subir e descer ruelas por entre construções antigas e lindas, é do mais bonito que se pode fazer, mesmo cansando, mesmo suando, com o sol a incidir e a aquecer. Mas é o que fica na memória, o prazer que foi, para além do cansaço e do calor, esse calor que me faz tanta falta, num ano em que quase só tive direito a frio! Na realidade tenho saudades do sol e pronto!”
(in Passeando pela Vida)

É um dos pontos fortes de passagem do caminho de Santiago Francês e havia peregrinos por lá. Apenas consegui fotos sem ninguém porque era cedo até para eles e os que já andavam na rua estavam concentrados nos cafés a tomar o pequeno-almoço.

É verdade, eu sou muito madrugadora em viagem. Não uso despertador, apenas acordo e saio para a rua, sejam que horas forem. Por isso os meus dias parecem enormes!

“Vivo tanto numa viagem que tudo parece longínquo no fim, como se se tivesse passado noutro ano, noutra época, noutra encarnação! Então começo a rever as fotos e tudo volta de repente… estava frio à sombra, o típico frio da manhã quando passeamos por entre o casario antigo de uma aldeia rodeada de montes, eu sentei-me num degrau e fiquei quieta, a sentir a atmosfera do local. Não havia turistas, apenas alguns peregrinos do caminho de Santiago, e eu desenhei, como se tivesse todo o tempo do mundo, porque é assim que eu sinto um local que me apaixona….”
(in Passeando pela Vida)

Percebo que não sou normal quando constato que acordo antes dos devotos peregrinos para passear!

Percebo também como me transformo em viagem! Normalmente canso-me muito, por tudo e por nada, a minha tenção baixa cobra-me qualquer esforço que faça, deixando-me exausta tão facilmente. No entanto, assim que me faço à estrada, a minha resistência vai aumentando e me vou transformando numa autentica maratonista!  

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é 20190801_091843_Easy-Resize.com.jpg

A Église Abbatiale Sainte-Foy – Abadia da Santa Fé, é uma enormidade no meio de uma aldeia cheia de casinhas pequenas e ruelas estreitas! É românica e tem quase mil anos de história. Infelizmente estava fechada e eu não esperaria que abrisse… uma boa razão para voltar a passar lá, porque é linda e eu tenho de a ver por dentro.

É, tenho de voltar a passar em Conques com mais tempo, ficou a vontade de explorar os montes em redor e captar outras perspetivas do local. Talvez da proxima vez que passe perto lá vá, se não estiver a caminho de um destino tão distante como o que tinha por aqueles dias…

Verrières apareceu-me no caminho como um cenário, do outro lado de um pequeno rio, como se tivesse sido posta ali para embelezar e não para se viver!

“Cada vez que eu digo que percorro todo o caminho desde minha casa até ao sitio mais longínquo que quero alcançar, a exclamação que mais oiço é do aborrecimento que pode ser atravessar países e zonas por onde já passei tanta vez! E, no entanto, sempre há tanto o que ver e explorar a cada passagem, como se os caminhos nunca fossem realmente esgotados, porque a beleza não tem fim e os recantos nunca serão totalmente conhecidos! Como o sul de França, que é tão grande e tão cheio de pequenas populações encantadoras como um país inteiro! Desta vez passei em Verrières, e a perspetiva da aldeiazinha era como um quadro pintado ao alcance do meu olhar. O orgulho das pessoas que conversavam por ali foi visível, cumprimentando-me e incentivando-me a entrar e percorrer as ruelas com a minha moto. E ficaram a olhar enquanto eu manobrava para atravessar a ponte, sem deixar de comentar como a moto era linda e eu era “une femme courageuse””
(in Passeando pela Vida)

Realmente a moto parecia gigante nas ruelas e junto das casinhas pequenas. Tudo uma questão proporção!

A terrinha era pequenita, mas tinha um castelinho com a porta aberta para quem quisesse espreitar!

“São tantas as comunas que ladeiam o rio Lot que eu quero conhecer que, a cada vez que passo por ele, tento visitar mais uma ou duas. Desta vez passei por Espalion, com as suas casinhas antigas debruçadas sobre o rio, em cenários de encanto. Sentei-me por e a sensação foi de saudade de tantas outras explorações do belo país e a vontade era de continuar passeando por ele explorado todas as suas belezas. Tudo tão bonito por ali…”
(in Passeando pela Vida)

Como eu gostava de poder viajar por mais tempo, um mês de cada vez é tão pouco para explorar tudo o que quero….

Passeei em redor, de uma ponte até à outra, porque havia coisas que eu queira ver. Entre as duas pontes as calquières guardam memórias antigas dos curtumes na região, casinhas com varandas de madeira sobre o Lot!

E segui para Estaing. Já lá tinha passado a caminho da Rússia, mas é daqueles sitios onde apetece ficar, por isso voltar a passar nunca é demais!

Já desenhei ali, mas não resisti a captar um novo momento. A moto estava estacionada no sitio ideal para registar uma nova perspetiva e uma nova memória!

Acho que por ali toda a terrinha que se prese tem o seu proprio castelo!

As estradas estavam cheias de gravilha negra, podia sentir as pedrinhas a tilintar por dentro dos para-lamas da moto, e questinava-me se na Islândia a sensação seria semelhante àquela. Gracejava no facebook “Frio e gravilha negra por todo caminho… acho que já estou na Islândia e nem dei por ela!!!! 😉

Nem eu imaginava, naquele momento, como seria parecido, mas muito mais perigoso e assustador do que apenas pedrinhas que subiam pelos para-lamas a moto acima…

O Lot ecanta-me a cada vez que cruzo com ele, um rio que já prometi a mim mesma percorrer de ponta a ponta, porque ele é lindo e porque está rodeado de sitios encantadores, aldeiasinhas e castelos medievais.

E eu sempre paro vezes sem conta quando cruzo com ele, para explorar mais um pouco ou, simplesmente, para fazer um picnic!

Ainda daria tempo de passar em Ternand, uma aldeia no topo de um morro, feita de casinhas de pedras douradas.

Ao tempo que eu queria passar ali! Mas não esperava ser a unica estranjeira a passear por lá! A bem dizer apenas encontrei habitantes locais, coisa rara numa terrinha tão bonita que eu temia estar mesmo cheia de turistas!

A cor ocre das pedras era tão fascinante como eu imaginava pelas fotos da internet, e os promenores deliciosos!

A sensação era que toda a aldeia estava ali para mim, eu podia demorar o tempo que quisesse apreciando o que quisesse pois não havia ninguém a perturbar a minha exploração. Apenas um ou outro habitante local passava aqui ou ali, de resto estava todo ao meu dispor para apreciar e desenhar!

Oh, e os pormenores eram deliciosos por vezes! As gargalhadas que eu dei com o aviso do “gato bizarro”! Ahahahahah

E na verdade encontrei alguns gatos bizarros, que me olharam com aquele ar de desprezo tão seu carateristico, e que eu adoro e me faz sempre sorrir!

O meu dia estava a chegar ao fim e eu tinha de seguir viagem, pois a minha dormida ainda era distante, algures na fronteira suíça, por isso tive de deixar os gatos e os desenhos para trás.

É nestes momentos que tenho de controlar a minha vontade e deixar de parar em todo o lado, para seguir o meu caminho. Ao fim de mais uma série de quilómetros encontrei a fronteia Suíça e a minha dormida seria logo a seguir. Eu sempre tenho de levar as minhas motos até lá, nem que seja por meia duzia de quilómetros.

Do tipo “vês Scralett, foi por causa deste país que eu comecei a viajar pela Europa de moto!”

E para me aquecer o coração (e o estomago) o hostel tinha restaurante e o restaurante tinha “moules/frites” yessss

As tradições criam-se e uma que eu criei foi comer mechilhões com batatas fritas em todas a viagens que faço! Costuma ser em França, mas se for na Suiça, na Bélgica ou na Rússia, (yess, também os encontrei lá) serve perfeitamente!

A motita dormiu na rua, juntinho da esplanada, bem onde a parei quando cheguei…

Eu e ela fizeramos mais de 800km naquele dia, estava na hora de descansarmos as duas.
Até amanhã Scarlett…

1.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

30 de julho de 2019

– de casa – Penafiel, até  Lorca – Espanha – 

A viagem de 2019 foi carregada de sentimentos e emoções que eu não quero perder… aquela viagem que eu fiz meses depois de perder o meu irmão!

A gente viaja mas tudo o que temos no coração parte connosco. É assim, nada a fazer! E todas as memórias ficam impregnadas do que o coração continha e acompanhou cada passo do caminho…

Por isso eu não escrevi nada ao voltar, nem no tempo que foi passando sobre a tristeza que pesava sobre mim por aqueles dias. Agora o tempo encheu as memórias tristes de sensações e momentos vividos e apetece relembrar e ordenar o que foi aquela viagem tão especial… Pode ser que eu a consiga ordenar sem ter vontade de desistir, parar e esquecer…

Lembro-me de organizar meus pensamentos e meu caminho com a maior angustia no coração. Uma capacidade que tenho de, apesar do sofrimento, conseguir dormir, viver e concentrar-me em algo bom, algo que me realiza e mesmo assim sonhar!

Organizar uma viagem que implica travessias de ferry sempre me stressa, não que eu tenha medo de andar de barco, medo do mar ou de que algo aconteça, apenas porque eu e minha moto estamos dentro! Acho que o meu stress vem mais do receio de não conseguir cumprir tempos ou errar embarques. E nesta viagem a preocupação era maior ainda, pois se algo corresse mal, não teria outro ferry no mesmo dia, nem no seguinte, nem sequer na mesma semana! Mas acabei fazendo um bom trabalho e um pequeno desenho do meu percurso total que seria a capa do meu livro de viagem!

Desta vez a minha bagagem era imensa. Para além de a Islândia ser um país caro, não há onde dormir por todo o lado. O país é pouco povoado e a melhor maneira de o percorrer calmamente é ir acampando nos muitos parques de campismo que se encontram por lá. Nas Ilhas Faroé a história repete-se, por isso na minha bagagem seguia uma tenda de alta montanha, um saco cama de baixas temperaturas e toda a roupa necessária para quem viaja no inverno! Eu já tinha a experiência do frio no norte da Noruega e Cabo Norte, por isso não iria pecar por falta de agasalho!

Eu não estou nada habituada a viajar com muitas tralhas e, definitivamente, ver a minha moto com coisas agarradas não era a coisa que me fazia relaxar minimamente! Mas tudo bem, há quem viagem com a moto mais carregada para ir mais perto e não morre, eu também não morreria!

Mas não deixa de ser caricato, justamente a minha moto com malas maiores até hoje, era justamente aquela que viajaria com carga amarrada ao banco por não caber tudo nos latões!

E parti sozinha…

Não sou pessoa de grandes momentos, sempre foram simples as coisas que fiz, sem muita pompa ou algazarra, mas depois de adiamentos por causa do trabalho, acabei por partir a uma terça-feira com o moçoilo a trabalhar, e foi um pouco triste, sem um beijo ou um abraço, a acrescentar à angústia que me acompanhava há tanto tempo.

Eu nunca me sinto em viagem mal saio a porta de casa, talvez porque passeio muito em redor. Apenas umas horas depois, à medida que me vou afastando, a sensação se apodera de mim e eu assumo o meu espirito e atitude de viajante! E é quando eu começo a parar para ver coisas que me chamam a atenção, normalmente antes de passar a fronteira para Espanha, em jeito de despedida, claro!

Claro que não passa um mural ou um grafitti que eu não pare para fotografar! Adoro!

E eu vi vários por Bragança, mas estes bichinhos derreteram o meu coração!

Bragança é uma cidade bonita e simpática onde sempre é um prazer passear.

“Antes de morrer o meu sonho é…. “

… tanta coisa eu podia escrever ali, apenas porque nem sei qual é o meu sonho, são tantos afinal!

E siga viagem, que Espanha é logo ali…

Não sei quantas vezes sou capaz de parar apenas porque vi uma parede pintada, mas acontece a todo o momento em todos os paises!

Naquela noite iria dormir em Lorca, Navarra, num albergue do caminho de Santiago. Eu sempre gosto destes locais, onde os hospedes são, normalmente, peregrinos. Gosto da atmosfera em redor, pois têm uma forma de estar e se comportar mais serena e focada do que os turistas frenéticos, sedentos de festa e algazarra.

“E eu a pensar que só estava frio em Portugal! Hoje andou entre os 20° e os 23°, e agora desceu para 18°!!!!
Depois de percorrer boa parte do caminho francês de Santiago ao contrário, vou ficar num albergue de peregrinos, pois então . As pessoas ficaram maravilhadas achando que eu estava a fazer o caminho de moto, claro que tive de explicar que não, que estou a caminho da Islândia! Instalou-se um silêncio de assombro, nem sei porquě! “
(in facebook)

O único senão, é que dormem cedo e por isso comem cedo também, nada a ver com os serões noutras localidades de Espanha, onde a vida começa às 10 ou às 11 horas da noite! E eu lá jantei cedinho ou não teria mais onde comer por ali!

De qualquer maneira não se perdeu nada, pois quando começo uma viagem sempre parto bastante cansada, depois de um ano de trabalho, avaliações, reuniões, relatórios, atas e correção de exames. Acrescentando a isso o facto de que o corpo não está habituado a fazer tantos quilómetros por dia e por isso os 2 ou 3 primeiros dias na estrada são para pôr tudo  isso na ordem dentro de mim! O caminho faz-se caminhando, como dizia o poeta e eu fizera já perto de 700km…

A motita tinha uma praça toda para ela e eu fiquei fazendo companhia até anoitecer, entre musicas, fotografias e cervejas!

O dia seguinte seria o verdadeiro inicio da exploração, eu estava já longe de casa o suficiente para haver muita coisa nova para ver, um pouco mais fora do meu raio de ação mais constante.

É sempre assim.

31 de julho de 2019

– de Lorca – Espanha, até Decazeville – França –

Há uns anos eu passei em Sos del Rey Católico, mas não explorei direito o pueblo, porque levava comigo um amigo que não queria andar, por isso dispôs-se a ficar na sua moto à minha espera enquanto eu ia explorar o local. Naturalmente não vi grande coisa, pois não se faz nada calmante sabendo que se tem alguém à sua espera! Desde essa data que eu queria lá voltar e demorar o que me desse na real gana, por ali!

A terrinha medieval é deliciosamente linda, não é por acaso que constra entre os pueblos mais v«belos de Espanha!

Deve o seu nome ao rei Fernando II de Aragão, que era católico e nasceu ali.

Está tão bem tratada e recuperada, que quase parece artificial!

É claro que fui lá acima à igreja, nunca deixo passar uma igreja velha, estava fresco lá em cima e fiz amizade com o velhote que estava a tomar conta do local. O senhor fez questão de me mostrar alguns pormenores da construção, contou-me algumas histórias, lendas…

E disse-me para eu me sentar cá fora e apreciar a paisagem, que eu tinha ar de precisar muito de estar só! E tinha razão, a maior paz estava em redor!

Não importa quantas coisas eu tenha planeado em casa ver, em viagem só vejo e só faço aquilo que me apetece, não sou escrava de nada, nem mesmo dos meus sonhos! Por isso fiquei ali o tempo que calhou até me apetecer seguir. E embora igrejas e mosteiros antigos sempre me despertem o interesse, não quer dizer que eu me vá enfiar em todos a estuda-los em pormenor. Por vezes sabe tão bem apenas parar e ficar a olhar!

E um cuidado que tenho é em parar em sitios bonitos para comer!

Raramente eu almoço com as perninhas debaixo da mesa numa viagem. Normalmente não me disponho a perder o melhor do dia sentada numa mesa, por horas, a comer. Deixo esses luxos para o jantar quando já não irei a mais lado nenhum e tenho o serão todo por minha conta!

Isso não me impede de escolher sitios bonitos para fazer o meu picnic de almoço! Com direito a mesa e telhado e tudo, só faltou fazer um churrasco improvisado ali!

E logo a seguir entrei em França, por um passo de montanha já meu conhecido mas que sabe sempre bem rever!

O Col de Marie-Blanque

“Por entre as curvas do col de Marie Blanque, encontra-se a pequena Chapelle de Houndas, num espaço simpático para um momento de pausa. A capelinha está ligada a histórias de doença e agradecimento pela saúde, vindas dos tempos da peste e celebrando em agradecimento pela cura até aos dias de hoje! Aos anos que eu a conheço, e no entanto é sempre um agradável encontro, como se revisse um amigo depois de muito tempo.”
(in Facebook Passeando pela Vida)

E a minha casa naquele dia era em Decazeville – França. Uma terrinha simpatica, com alguns murais para eu me entreter a procurar e apreciar!

A minha casa era muito antiga num recanto que era preciso encontrar por entre caminhos e ruelas ingremes que me levaram até ao topo do morro!

Lá fiz amizade com varias caminhantes do caminho de Santiago Francês, Todas mulheres, varias a caminhar sozinhas. Foi o serão do poder feminino ali!

Eu acabei por me retirar para a sala de leitura mais encantadora que podia esperar! Há sitios que são exatamente aquilo que eu precisava de encontrar e nem sabia…

Porque uma paisagem é mais poderosa que uma imagem e vale muito mais que as tais mil palavras…

Boa noite e até amanhã …

2020, inicio de uma nova aventura!

No ano em que a minha 8ª moto me levou até ao Milhão de quilómetros, a pandemia me deixou na incerteza…

Mas para celebrar tão interessante quilometragem e a imensa quantidade de vida e de memórias que ela me permitiu, eu vou voltar a partir.

Serei acompanhada por duas grandes marcas e dois grandes amigos, que tornaram a aventura possível, confortável e, certamente, inesquecível!

Comigo estão:

a Vipmenaje

VipMenage


https://vipmenaje.com/?fbclid=IwAR0ROu6jnTH8KRjOmrl_OsbPaBTXJ3HsEMTsn0I3d-29XD8_ypdA0o1qHC4#googtrans(es|pt)

e a Moto Ponto:

https://motoponto.com/
https://www.facebook.com/MotoPonto/

Apoiando a minha motita estará, mais uma vez, a Honda Portugal.

S2R/Honda - A S2R é uma empresa que se destina ao comércio de ...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que vou por aí…

Passeando por São Miguel – Açores – II

(continuação)

A vida nem sempre corre como a gente deseja e precisa, e a minha tem dado voltas por vezes complicadas, afinal continuo a percorrer o mais difícil ano da minha vida, cheio de coisas lindas e novas, mas também de coisas ruins e difíceis… e as viagens ficam de repente tão longe que a necessidade de voltar a elas é já cheia de saudade e vontade de voltar a viver aquilo tudo outra vez!

Então volto aos Açores e ao momento em que partia para dar a volta à Ilha de São Miguel. Claro que não perdi a oportunidade de montar numa ou duas motitas… RRs sempre me despertam a atenção!

Quando vou passear com pessoas da terra eu nunca faço trabalho de casa, não estudo nada do que há para ver e apenas me disponho a seguir o grupo e ver o que me mostrarem, se estou com eles faço o que eles fazem.

A cada paragem uma oportunidade de conversar com os companheiros de viagem e de olhar em redor, apreciar pormenores!

As praias de areias escuras sempre me impressionarão, mas os rochedos como massas de pedra negra, que fundiu e se revolucionou, fascinaram-me!

Os pormenores me encantam

E a minha nova amiga parecia uma vedeta naqueles enquadramentos!

E Ribeira Grande deixou de ser letra de uma canção para se tornar ponto de paragem para “picnicar”

Motos de todos o géneros e feitios, porque se as pessoas são tão diferentes não será muito natural terem motos todas iguais!

Parabéns à organização, que pensou e preparou comidinha com fartura para toda a gente.

E aos comilões tão civilizados e bem-dispostos!

A casa do chá, tão bonita toda a envolvência. Fábrica de Chá Gorreana, a mais antiga, e atualmente única, plantação de chá da Europa.

Se estivesse ali sozinha teria feito alguma aguarelas bem fofinhas, porque tudo é inspirador, desde as cores até à ordem como as plantações de enquadram no conjunto!

Mas andei a passear um pouco no meio do chá, a ver se ficava chalada…

Muito interessante perceber as voltas que as folhas dão até se tornarem em chá

e provar o verdadeiro, ali mesmo, feito fresco para nós!

A estrada atravessa o Parque da Ribeira dos Caldeirões, permitindo perspetivas inspiradoras sobre a ribeira, os jardins e os moinhos

Mas a cascata é que prende quase totalmente a atenção, porque é linda e muito acessível

E, muito importante, há espaço para estacionar todas aquelas motos por perto!

Mas a volta à ilha não se faz de uma vez só, tradicionalmente inclui uma noite de campismo pelo meio! Tive direito a uma tenda gira, que ainda era aparentada com a que me acompanhou na Islândia! É a do meio, claro!

Campismo, serão e comidinha, claro. E lá estava o porquinho no espeto à nossa espera.

O sitio era lindo e por aquela altura a minha AfricaTwin já parecia minha e eu já a olhava de longe achando-a a mais linda de todas as motos! Que fazer, a gente aficciona-se a quem nos trata bem, né?

E comeu-se e bebeu-se na mais amena cavaqueira, que a mesa é sempre a melhor companhia para conversas descontraídas

Conversas sobre motos e moto-clubes também, afinal o motivo que nos levou até ali!

E eu iria falar sobre viagens e tal…
Eu nunca tenho vontade de falar de viagens antigas quando acabo de fazer uma nova, por isso aquele momento acabou por se tornar especial para mim, pois num instante (que foram umas horas, vá) revivi pormenores que não queria esquecer e as fotos ajudaram a relembrar.

E chegou a hora de nanar. Enquanto uns dormiriam na natureza, outros dormiriam na “cozinha”, mas com tenda e tudo 😉

Depois do estagio na Islândia e nas Ilhas Faroé, dormir numa cama baixa, com uma lona a tapar as estrelas, não custou nada. A única dificuldade era levantar-me da cama, que era mesmo muito baixa!

Foi muito agradável tomar o pequeno almoço com tanta gente conhecida em redor, depois de tantos tomados a solo algures no meio de lado nenhum! Uma animação logo pela manhã!

Para alguns o passeio terminava mesmo ali e na despedida ofereceram-me uma t-shirt que recebi com muito carinho, pois é uma memória de gente que gostei muito de conhecer! O autocolante ainda vai para a minha moto, que é tão negra que tenho de encontrar um sitio na zona vermelha para o colar 😉

Obrigada, havemos de rolar juntos de novo um dia!

As ruínhas e as localidades que cruzamos até completar a volta à ilha, deram-me vontade de explorar mais.

E as guloseimas também deixaram vontade de experimentar mais, embora eu não seja muito de doçarias, tenho de admitir que os doces tradicionais frequentemente me agradam!

Este passeio terminou com um simpático almoço, com a também simpática direção do Moto-clube no restaurante do hotel que me hospedou.

Um momento muito agradável de conversa e boa comida que ficará para memória futura, para mim…

Amanhã irei passear um pouco pela ilha por conta própria e depois com a companhia do meu amigo Nicolau Wallenstein, vamos ver os desenhos que eu consegui fazer até ele chegar à minha beira! 😉

(continua)