12.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Reykjavík, um dia de paz –

11 de agosto de 2019

Dormi como uma pedra!

Mas aquela noite foi uma confusão, depois de muitas horas de sono (porque me deitei estupidamente cedo) acordei com um enorme estrondo sobre a minha tenda. Algo embateu nela e resvalou ruidosamente, até ser projetado para longe. Acordei assustada com o barulho. O vento era tão forte que a tenda, por muito bem esticada que estivesse, era empurrada e abanada violentamente, ficando o pano tão tenso que parecia ir rasgar-se. Senti que ela aguentaria bem aquela pressão toda, pois permanecia sólida, mas o barulho era infernal! Agora, que fora aquilo que viera contra ela?

Eu estava gelada. Não me metera no saco cama e, mesmo usando um fato interior térmico, mais a roupa, o fato da moto e o fato de chuva por cima, sentia frio. Calcei as botas da neve, enfiei o gorro, pus o cachecol e enfiei as luvas, tinha de sair e ver o que se passava. Ouviam-se vozes, alguns gritos abafados, definitivamente estava muita gente acordada. Olhei o telemóvel, passava pouco das 4 horas da manhã!  Porra, esta gente não dorme?

Mal abri o fecho interior da tenda percebi que estava muito frio, mas quando abri o fecho exterior… não estava só um frio dos diabos, estava o inferno lá fora! Um inferno gelado, por sinal! A noite estava clara, e eu pude ver a confusão. Aparentemente muitas outras pessoas tinham chegado entretanto, mochileiros, ciclistas e automobilistas. A minha moto era a única e estava quietinha, junto da cabina onde funcionava a sala comum. Mas acho que só eu me lembrei de proteger a minha moto do vento, pois bicicletas tinham sido arrastadas pelo vento e tendas tinham sido arrancadas do chão. Uma tenda tinha sido projetada conta a minha, fora esse o barulho que me acordara. Era o caos em meu redor!

Assim que saí da tenda e me pus de pé, percebi que o vento era capaz de atirar comigo para o chão. Era preciso lutar para me manter de pé! As pessoas recolhiam com dificuldade as tendas levadas pelo vento e enrolavam-nas em bolas, pois era impossível voltar a monta-las ou dobra-las para as arrumar, e arrastavam-se para a sala comum para se protegerem, tentando salvar as suas coisas que voavam em todas as direções. Sim, que o vento, além de estupidamente forte, era também estupidamente imprevisível. Era a tal sensação que eu tinha ao conduzir na estrada, embora não se visse obstáculo, muro, casa, ou monte, ele mudava de direção abruptamente, sem que se pudesse prever de onde viria a seguir.

Observei as espias da minha tenda, ainda estavam fortes e firmes, mas dei-lhes um aperto, por via das dúvidas. Eu tinha de me aquecer. Peguei no meu saco de água (sim, eu levei uma botija para água quente, imaginando que podia estar frio!) e fui, lutando com o vento para me manter de pé, até à sala comum. O que me esperava lá dentro apanhou-me de surpresa! Estava cheia de gente enrolada em mandas e sacos- cama pelo chão. Parecia um recanto de refugiados! Tive de avançar pés e sacos para me aproximar da kitchenette e pôr uma grande chaleira de água a aquecer. Aquela gente seguiu os meus movimentos como se eu fosse um E.T. que desceu à terra e entrou ali.

Eu devia ser a pessoa menos experiente em campismo dali e no entanto era a mais bem apetrechada e a mais calma, afinal nada acontecera comigo a não ser ter levado com uma tenda em cima da minha tenda! Como se não bastasse, eu estava toda vestida de preto e a minha botija de água quente era vermelha, só para dar mais nas vistas. Um fulano perguntou onde eu tinha arranjado aquilo. “Trouxe de casa! Sabia que aqui faz muito frio de noite, por isso vim preparada para ele!” respondi, enquanto a enchia com quase 2 litros de água. Podia senti-la aquecer o meu corpo, que sensação boa!

Voltei para a minha tenda, enfiei a botija dentro do saco cama e preparei-me para dormir até ser dia, pensando naquela gente amontoada lá dentro, sem conforto nenhum. Adormeci ouvindo o vendaval em torno de mim, tão forte que até assustava, mas eu sou pessoa de dormir em qualquer situação, sem stress…

Quando acordei tive a sensação que nada daquilo acontecera realmente. Estava cheia de calor, o saco cama, próprio para suportar temperaturas abaixo dos -10º, mais o saco de água quente, fizeram-me transpirar! Por isso a sensação de que estivera tanto frio de noite parecia irreal… até eu abrir os fechos da tenda! Céus, a ventania soprou um frio tão incrível lá para dentro, que a vontade foi de voltar de deitar e continuar a dormir!

E não havia nada nem ninguém em meu redor!

A minha tenda estava literalmente sozinha no meio do nada, com alguns carros ao longe!

Parece que o pesadelo da noite anterior fora real, para os outros pelo menos!

O frio e o vento ameaçavam gelar-me por completo. A pior parte é tomar banho, a gente vai cheia de roupa, demora uma eternidade a tirar peça a peça, e depois tem de voltar a vestir tudo outra vez! E o parque não tinha tão boas condições como eu desejaria. O aquecimento não era muito eficiente e o banho foi verdadeiramente refrescante, com água morna e um fiozinho que entrava sabe-se lá por que frinchas.

Tomei o meu pequeno-almoço cá fora, pois era impossível faze-lo no meio de tanta gente deitada no chão lá dentro, e decidi que, se encontrasse uma dormida em conta nem Reykjavík, iria reservar! Eu sabia que na capital havia pousada de juventude e hosteis acessíveis, faltava saber se arranjaria espaço, assim, no próprio dia!

O wi-fi era inexistente, mas os dados moveis funcionavam bem em todo o lado, por isso foi facil aceder ao Booking.

E sim, havia! Yess!

Desmontei a tenda como pude, no meio da ventania, enfiei-a de qualquer maneira dentro do saco (ok, fiz uma bola com ela!) e preparei-me para a guerra de ir embora dali, no meio do maior vendaval! Não apetecia nem parar para fazer umas fotos da desolação que era o caminho. Houve momentos em que segui em contramão, para ter a certeza de que tinha margem para que nenhuma rajada de vento me atirasse borda fora.

Em Reykjavík era a paz! Não faltavam obstáculos para fazerem o vento abrandar, coisa que não existe em mais lado nenhum por aquele país acima e, finalmente, descontraí!

Encontrei logo a Solfar Sun Voyager, como o esqueleto de um barco viking, na beira da estrada junto ao mar, como quem recebe os visitantes,

Passeei pela cidade apreciando os seus pequenos encantos, fiz desenhos, apreciei a sua arte urbana. Oh, que paz!

A cidade não é grande, mas é acolhedora e bonita.

Um terço da população do país está em Reykjavík e, mesmo assim, ela é comprável à população de Leira, muito menos do que Porto ou Coimbra, portanto. Isso faz dela uma cidade adorável, com pormenores encantadores!

E finalmente vi turistas e pessoas em pequenos magotes, coisa que me era desconhecida até àquele dia! Mas havia também uma serenidade e uma paz, como só uma pequena cidade pode oferecer!

E lá estava, uma das esculturas mais conhecidas por figurar frequentemente nas listas de escultura incomuns, ou engraçadas, no mundo. Algo como “Memorial ao Empresário Desconhecido”

Claro que a igreja mais famosa do local, e de toda a Islândia, é visível à distância e fácil de encontrar

A Igreja de Hallgrímur, luterana, já foi considerada tanto como uma das mais feias como uma das mais bonitas do mundo! Pessoalmente acho-a fascinante!

Estava muita gente por ali à espera para a visitar por dentro, mas estava em hora de culto, por isso não me dispus a esperar e acabei por não a visitar… Imperdoável, mas pode ser que um dia eu volte e vá lá dentro!

Eu simplesmente não estava habituada a estar no meio de tanta gente, acho que me tinha tornado meio antissocial, naquele momento!

As casinhas, no centro histórico da cidade, são encantadoras. Até as casas dos gelados são fofinhas e eu nem gosto de gelados!

As pinturas pela cidade cativaram-me, não só nas pareces, mas também no chão!

E eu andei de um lado para o outro seguindo de pintura em pintura

Algumas eram verdadeiramente fascinantes

Não encontrei quase motos nenhumas na cidade, mas consegui encontrar uma para não deixar a minha Scarlett sozinha, enquanto passeava em redor. Fiquei toda orgulhosa quando um grupo de mulheres se aproximou dela e se pôs observa-la em pormenor. A minha moto é linda!

E as paredes pintadas multiplicavam-se de rua em rua

Mas a rua pintada era a mais fascinante!

Soube que tudo aquilo foi pintado num momento muito próprio e com uma finalidade!

Reykjavík festejava os cinquenta anos sobre o levante de Stonewall, (o evento que lançou o movimento moderno dos direitos LJBT no mundo), e os vinte anos do Pride da cidade. O Reykjavík Pride 2019 tinha começado no dia 8 e iria durar até 17, por isso estava ainda em andamento por aqueles dias.

Era como se as tiras de cor tivessem saído da casa e tivessem ido passear para a rua

Em frente à casa arco-iris, ficava a casa mais fascinante do pedaço!

Dava para ficar ali a apreciar os pormenores por um bom tempo!

Impossivel ver uma casa assim e não ter vontade de pintar uma também!

São tantas as casas e muros pintados!

Mas eu tinha de apreciar também as casinhas anónimas! Por vezes isso fascina-me mais que os grande monumentos, onde toda a gente quer tira selfies!

Desenhei algumas, porque apetecia mesmo, pelas formas e pelas cores, como casinhas de brincar, tiradas de um parque de diversões, tipo Disney World!

Eu sei que estas coisas não são muito turísticas, mas são fascinantes para mim!

Eu tinha de comer um franguinho! Nunca vou a um restaurante destes por cá, mas em viagem parece que se torna muito mais apetecível, e lá se vai criando outra tradição, para acrescentar à de comer mexilhões em França!

Muito bom, com direito a cerveja e tudo! Ao tempo que eu não bebia uma cerveja!

E fui procurar a pousada de juventude, que já estava na hora de fazer o chek-in. A minha motita iria  ter companhia para a noite.

A pousada tinha parque de campismo, bem abrigado pelas sebes, mas não era eu que ira montar a tenda podendo dormir numa cama por 19€!

Eramos só duas no quarto, o que foi excelente, pois tive com quem conversar, finalmente!

E não me apetecia fazer mais nada. Estava a precisar tanto de ficar quieta num sofá e simplesmente ler, desenhar ou ouvir musica, depois dos últimos dias de luta, que nem senti remorsos de ter deixado tanta coisa para ver e enfiar-me em casa!

De qualquer maneira tinha combinado encontrar-me com uma islandesa para entregar um pacotinho. Não me lembro mais do nome dela, só sei que era complicado, mas o diminutivo era Raga.

“Eu tinha uma missão, encontrar uma islandesa linda e entregar-lhe um pequeno presente que trouxe de Portugal para ela, a pedido de um amigo. E foi assim que ela descreveu o momento:

“Met this amazing woman this afternoon! Gracinda Ramos is Portuguese and came to Iceland on her beloved motorbike all the way from Portugal. Gracinda is an artist and teaches art as well. She loves to explore the world on her motorbike and has been to 46 countries and covered many thousands of kilometres. In this trip she is visiting Iceland, Faroe Islands and Norway.
She has already been in the North and West of Iceland and later this week she will continue her trip to the South and East before sailing off to Faroe Islands. Hopefully she will not have as strong wind as she had on her way to Reykjavik. Bom voyage Gracinda
Thank you for introducing us dear Joao Baltazar”

E o próprio comentou:

“Alguém poderá dizer que enviou um presente para uma terra tão distante por serviço especial de entregas: MotoXpress in Hand!!?? 😉
Obrigado Gracinda, uma vez mais!” (João Baltazar)

Fiquei por ali, curtindo a sensação de estar estendida num sofá, até chegar a hora de ir para uma cama de verdade!

Amanhã, se continuar este vento infernal, vou deixar a moto para trás e vou passear de autocarro… se tiver coragem de a deixar!

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