15.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Subindo a costa leste –

14 de agosto de 2019

Aquela noite foi uma festa!

Começou pela montagem das tendas. Havia várias pessoas a tentar montar tendas debaixo do maior temporal. O vento era muito forte e os mochileiros tinham igloos altos demais para aquele vendaval. Juntaram-se vários a montar cada tenda, mas era difícil, quando tinham de colocar o oleado no chão, depois armar a estrutura e segura-la para aplicarem o interior de tenda e depois por cima prenderem a cobertura. Isto com a chuva a molhar tudo ao mesmo tempo. Percebia-se bem porque os islandeses aconselhavam usar tendas de uma peça só, tendas de alta montanha e estepes!

Eu escolhi o meu sítio e repeti a operação que fizera em Rekjavik. Arrastei primeiro todas as minhas tralhas para perto, estendi a tenda na terra negra e pousei tudo o que tinha em cima, para evitar que o vento a levasse. Preguei as argolas laterais da base com as estacas maiores, ergui a tenda com o grande aro e rapidamente preguei toda a tenda ao chão com as restantes, puxei a espias tanto quanto pude e pronto, estava a casa montada em pouco mais de 10 minutos. Sentei-me numa das minhas malas laterais e fiquei a olhar. Aquela gente ainda estava a lutar para montar uma tenda, e demorariam mais umas horas até terem todas montadas.

Mas mesmo depois de tudo montado era um pouco difícil entrar-se nas tendas que, com a força do vento, ficavam reduzidas a meias luas de pé, com os panos laterais a ficarem encostados, ameaçando levantar voo.

Ok, acho que vou apanhar com uma tenda em cima durante a noite!

O pior é que vários tinham as suas coisas molhadas, e molhar um saco cama grosso era passar uma noite gelada. Coitados. Ainda tentei ajudar e até emprestei a minha bomba elétrica para encherem os colchões, embora alguns nem um bom colchão tivessem! Foi uma das coisas que li antes de partir, naquela terra é bom ter-se um colchão de ar, que afaste o corpo do solo, ou o frio subirá durante a noite, gelando-o, como se estivesse deitado no verdadeiro gelo.

E sim, de noite duas tendas voaram, ficando presas como bandeiras, por uma ou duas estacas mais resitentes. A minha aguentou-se firme, como se nada tivesse acontecido!

De manhã o tempo estava calmo! Oh benção dos céus! Afinal a costa marota ir-me-ia deixar subir sem voar, até Eskifjörður!

A minha maior pena foi não ter podido carregar o telemóvel para poder tirar fotos àquela praia magnífica… perda imperdoável…!

Fiz alguns desenhos e passeei pela praia cheia de nostalgia. O meu tempo estava a esgotar-se e tudo o que eu queria era poder ficar mais uns dias…

Ainda pensei em dar umas voltas para dar tempo ao telemóvel carregar um pouco, na tomada de isqueiro, mas acabei por seguir. Tinha de confiar desta vez nas memórias que ficariam na minha mente, pois comecei a divertir-me com os caminhos que fiz e voltar para trás foi deixando de ser uma opção.

Alguns percursos fora da estrada alcatroada foram surgindo e, sem a ventania de todos os dias, foi uma alegria explora-los!

Tudo é tão facil sem a força do vento a empurrar-me em todas as direções! Que bom!

Dei comigo a conduzir como se estivesse no alcatrão, sem nem pensar que o fazia, tal era o alívio da ausência do vento!

Depois eu queria ir visitar o desfiladeiro de Fjaðrárgljúfur. era um dos pontos que eu queria muito ver e precisava de tempo para isso!

A aproximação é muito bonita, com árvores e rio e tudo. Mas então percebi que a estrada estava cortada e não se podia passar para a frente! OH! Teria de caminhar e eu sabia que era bastante longe. Fiquei inconsolável…

Tentei saber o que se passava e não havia hipótese de moto ou carro passar, estavam a compor uma ponte de madeira mais à frente. Parei ali, sem saber o que fazer, precisamente quando a estrada era tão boa que eu não poderia imaginar que não se pudesse passar mais adiante!

São momentos como este que me fazem fazer promessas a mim mesma, pormessas de voltar….

A paisagem ali era tão bonita que dava para imaginar como seria uns quilómetros mais à frente! Por outro lado eu sabia que, desde que Justin Bieber lá tinha estado, os visitantes e fans tinham começado a estragar um bocado os caminhos e locais, para tirarem as fotos mais impressionantes para o Instagram… como eu odeio essas merdas….

E pensar que eu poderia ter ficado mais um pouco em Vik, deixar o telemovel carregar e tirar umas fotos fantásticas…

Não sou pessoa de choramingar muito, mesmo quando fico muito frustrada, por isso segui viagem e pronto, da próxima vez que cá vier tenho de vir preparada para caminhar tanto quanto for preciso para ir até ao Canion, garantido!

Arranjei um sitio muito fixe para tomar um sumo e comer um pão de ontem, tudo é melhor do que passar fome!

E fui descontar a frustração fora da estrada!

Não foi nenhuma aventura extraordinária, mas foi muito fixe!

A vida ensinou-me que aquilo que nos assusta quando é novidade, torna-se normal com a continuação e o receio reduz bastante, por isso, desde qua a moto não derrapasse muito eu seguia calmamente por todo o caminho!

Não havia vivalma em lado nenhum, as pessoas que eu encontrara em alguns sítios deviam evaporar-se pois na estrada era o vazio e eu!

E no entanto soubera que uns otários tinham saído da estrada, para tirar fotos em sítios nunca antes pisados para o Instagram e atolaram o carro alugado. Não há ninguém em lado nenhum, mas as autoridades logo apareceram e os influenciadores foram fortemente penalizados com multa e ordem de abandonar o país!

Porque não basta às pessoas ver o que está na frente dos seus olhos, sem terem de perturbar a natureza com a sua estupidez?

Afinal a gente para onde quer, por quanto tempo quer, pode caminhar, explorar, até pode sair da estrada com veículos próprios em sítios marcados. Porque tem a foto tirada lá mais ao fundo de ser mais interessante do que a tirada aqui?

Eu podia não conseguir ver as coisas todas que queria, mas ia-me divertindo à brava!

Sai-se da estrada e volta-se a entrar mais à frente, não falta onde pôr as rodas!

A sensação era de que tudo estava ao meu dispor, como se passeasse numa paisagem só minha!

Mas há sítios onde nem é bom pensar em andar. Mesmo que a vegetação possa parecer insignificante, é intocável. Se a gente se atrever a saír por ali fora, vai-se meter em problemas!

Mais à frente já é permitido explorar em redor. Longos caminhos em cascalho são uma aventura fascinante, sem que se perceba muito bem que distancias estamos a percorrer, porque ali tudo parece perto e longe ao mesmo tempo, como se a paisagem se afastasse ao nosso avanço!

Os caminhos são visíveis mas depois tornam-se longos e longínquos à medida que avançamos e não há atalhos, vai-se até ao fim, faz-se a curva pelo deserto e segue-se por ele até ao fim, que normalmente é a estrada mais à frente, depois de uns quilómetros de aventura no meio de nada!

E embora os glaciares pareçam alcançáveis, eles estão mais longe do que parecem, muitas vezes.

Mas consegue-se uma boa aproximação em alguns trilhos se a gente arriscar!

Os glaciares vão-se tornando mais frequentes e mais próximos à medida que se vai avançando e isso alegrava-me pois eu procurava do chamado Glaciar Rei da Europa!

Muito do que se vê pelo caminho faz parte dele, dizem que só na Gronelândia e na Antártida se encontram glaciares comparáveis a ele! O Vatnajökull é a maior superfície de gelo da Islândia e da Europa, podia ver pontas dele a todo o momento!

A fascinação fazia-me saborear cada quilómetro do caminho, como se me aproximasse pouco a pouco de uma grande entidade!

Fiquei feliz por fazer uma aproximação de baixo para cima. Se eu tivesse feito a volta à ilha ao contrário, teria passado ali debaixo do maior temporal, de chuva e vento, teria visto estes caminhos primeiro e seria como um anticlímax!

Assim eu ia subindo calmamente, com vento moderado, algumas pingas aqui ou ali, mas nada que me impedisse de apreciar em pleno aquela aproximação.

Glaciares, neve, gelo, sempre me fascinam de uma forma que não consigo explicar. E ali, eles são diferentes dos que eu vira até então nos Pirenéus ou nos Alpes.

Eles não são altos e bicudos, nem muito altos, parecem rasos, como se o grande glaciar derramasse seu gelo em extensão até quase à estrada! Fascinante! Como eu gostaria de um dia voltar ali e caminhar até ao glaciar, caminhar sobre ele, por os pés no gelo que dá afinal o nome à terra do gelo…

Então começaram a aparecer aquilo que eu chamei de dunas! Como muros ao lado da estrada que iam tapando a montanha e o gelo.

E eu previ o que estava por trás. Parei a moto e subi, para espretitar se a minha suposição estaria certa… e lá estava o Jökulsárlón, o lago dos icebergs!

Eu sabia que ele teria sempre os seu icebergs flutuando por ele, mas temia que o verão os tivesse reduzido a nada…

Dali eu podia ver os pedacinhos de gelo, como farrapos de esferovite, boiando, uma perspetiva encantadora, mas tinha de haver mais e maiores junto do ponto onde o glaciar chega ao lago… eu esperava que sim…

Mas ver o lago numa perspetiva que não atrai dezenas de turista, já era uma grande satisfação para mim, como se um pequeno segredo se desvendasse apenas para mim, quase em privado!

Vamos procurar então os grandes icebergs! Recordo que o meu coração estava acelerado de expectativa!

E sim, logo a seguir às ditas dunas, lá estavam eles!

“Cada pessoa tem os seus sonhos e um dos meus era ver os icebergs! O gelo e o frio sempre me fascinaram e estar tão perto de um glaciar, que solta seus pedaços de gelo, é como estar junto de um vulcão, uma grande caverna, perto do coração da terra! Sentei-me na berma do lago Jökulsárlón e fiquei quieta, como se o tempo parasse para mim e o silêncio fosse absoluto. Sempre vivo cada sitio como se não fosse voltar a vê-lo, mas regresso a casa prometendo a mim mesma voltar, porque estas sensações são vida, que não pode ser apenas eternamente relembrada…” (Passeando pela Vida – a Página)

Havia uma sensação de euforia dentro de mim, que me fazia acelerar o coração! Fiquei muda e quieta olhando e fiz um rápido esboço da primeira sensação que ficou na minha retina.

Eram tantos os monstros de gelo, muitos mais e maiores do que eu esperava encontrar! WoW

Havia uma lancha que levava pessoas para os verem de perto, mas nem tive o raciocínio ou a vontade de me juntar! De alguma forma sentia que arrebanhar-me com os turistas iria estragar a atmosfera de encantamento que preenchia o meu coração!

“Por muito que eu tivesse investigado sobre o Jökulsárlón, chegar perto foi toda uma surpresa! Eu vinha vendo o glaciar desde longe e, ali pertinho, eu podia ver a ponta dos icebergues por cima daquela espécie de dunas que separam o lago da rua. Mas ao passar a ponte que une o lago ao mar, tudo se revelou de repente. Pousei a moto e aproximei-me. Fiquei surpreendida por ver cabeças a emergirem das águas, enquanto um ou dois barcos passeavam por ali. Não estava muito frio, mas não estava seguramente temperatura para tanta gente se aventurar a mergulhar. ainda por cima não davam braçadas como quem nada, apenas mergulhavam e voltavam à superfície. O glaciar e o gelo flutuante fascinaram-me de tal maneira, que só muito depois de estar a olhar deslumbrada percebi que não eram pessoas que mergulhavam! Aquelas cabeças que apareciam e desapreciam, e eram bastantes, eram focas que brincavam na água! O lago era como um parque de lazer para focas brincalhonas. Momento lindo e inesquecível!” (in Passeando pela Vida – a Página)

E estava tudo tão perto da margem, como se a água não tivesse espaço para se tornar suficientemente profunda e gente pudesse caminhar até lá e tocar!

Fiz mais um ou dois esboços, até me render e ficar simplemente ajoelhada na areia negra a olhar…

Não sei quanto tempo fiquei ali a olha até decidir ir até à praia dos cristai. Ela fica do outro lado da estrada, mas mesmo assim levei a moto. Tudo o que parece perto é, na realidade, longe e eu não queria andar pela estrada a caminhar para lá e para cá.

Eu preparara-me mentalmente para não encontrar cristal algum. Afinal os cristais são pedaços de gelo que se soltam e são evados pelas vagas até à areia. Ora o tempo estava fresco, mas não tão frio que consevasse durante muito tempo gelo que flutua em pequenos pedaços…

E lá estavam eles, poucos, mas os suficientes para me encantarem!

Como pedaços de vidro, desgastados e esculpidos pelo mar, as pedrinhas de gelo misturavam-se com as pedras cinzentas da areia…

Havia gente procurando-os mais além, mas eu não precisava de mais, precisava de ficar sozinha com os meu pequeno tesouro gelado…

Tinha de ver de perto como eram aqueles cristais.

Nunca vira nada assim. Eram irregulares, como se fossem um aglomerado de pequenos cristai pontegudos, num cristal só!

“O meu verão foi feito de inverno, passeando cheia de roupa como nem agora, no nosso inverno a chegar, visto! Toda a roupa que eu trazia vestida, com o fato de chuva por cima, permitia-me caminhar e sentar em qualquer lugar, e eu sentei-me na areia negra vivendo um momento único para mim, vendo as vagas irem e virem levando consigo cristais enormes de gelo, impressionantes! Não eram lisos, como os cubos de gelo dos nossos congeladores, eram muito mais trabalhados, em superfícies irregulares e reluzentes de mil reflexos, como mil cristais num só. Um momento inesquecível na minha memória…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Tive de me forçar a sair dali! Credo, estava cheia de fome! Já era tarde, eu tinha de procurar comida e ainda me faltavam mais de 300 quilómetros até ao meu destino

Há sempre onde comer, mais atrás ou mais à frente, basta seguir a estrada.

Encontrei um sitio muito acolhedor, onde me trataram com muita simpatia e me mataram a fome.

Não importava quantos quilometros faltassem, nem se eram 4 horas da tarde, importava que eu tinha de viver cada coisa como se fosse a ultima que viveria naquele país, porque não faltava muito tempo para eu ir embora…

Café, muito café tomei naquela viagem, a forma mais facil de me aquecer e me manter alerta!

Turistas tinham-me contado como fora assustador descer a estrada dias antes de autocarro, com muito vento e carros que apareciam quase em sentido contrário ao contornar a costa. Ouvi-os com atenção, mas fiquei surpreendida, eu não imaginava a estrada da costa tão estreita assim, que fizesse os carros aparecerem em sentido contrário, nem imaginava como eles poderiam “aparecer” pois eu achava que a estrada era aberta e ampla e pouco elevada em relação ao mar! Mas eles tinham-na feito e eu ainda não, por isso tentei imaginar como sería… até chegar lá e constatar que a estrada era exatamente como eu a imaginara!

Linda, larga e ao nivel do mar!

O mar parecia um lago quieto! Um espelho de água sem nada que o perturbasse!

É por ali que o vento levanta areia e pedras negras da praia e as projeta, contra tudo e contra todos, partindo os vidros dos carros e martelando a sua chaparia. Eu vira Jeeps todos marcados com inúmeras pequenas covas em todo o seu corpo, como se tivessem sido metralhados em todas as direções!

A minha sorte tinha-se reservado para aquela subida, justamente quando eu precisava que o vento acalmasse… ele acalmou mesmo!

Até na Islândia os motociclistas se entusiasmam com a história de colar autocolantes nas tabuletas… enfim!

Aquela costa é simplesmente maravilhosa a meus olhos!

Com as praias de areia negra a confundirem-se com o negro da falésia que se lhe junta!

E o monte parece que vai desfazer-se, como um monte de areia, por ali abaixo!

Aquela é, sem dúvida, uma das estradas mais fascinantes que eu fiz até ali, e eu já fiz muita estrada fascinante na minha vida!

“Acho que os turistas que viajam de autocarro não têm muita noção de como é percorrer um caminho, pelo menos na Islândia não! Quando em Reykjavik falei que iria subir até Seyðisfjörður, varias pessoas esforçaram-se por me avisar e explicar que a costa era montanhosa, que a estrada contornava a costa e que se apanhavam carros meio em contra-mão, por isso era um percurso perigoso… Eu não tinha essa ideia, mas como eles já tinham ido até lá, achei que teria de ter cuidado, imaginei a encosta em fiord, com a estrada escavada na berma da escarpa, estreita e ziguezagueante, pois só assim poderia acontecer de os carros virem fora de mão! Mas afinal tudo era tão diferente do que elas me diziam e tão mais parecido com a minha primeira ideia! As paisagens eram quase surreais, com a montanha a parecer um monte de areia que escorregou até às praias negras e uma estrada larga, fascinante e solitária, onde não parecia andar mais ninguém para além de mim, por mais de 400 quilómetros! Onde foi aquela gente buscar a imagem que me transmitiu?” (in passeando pela Vida – a Página)

Então, pimba, deparei com mais um sinal que me obrigava a sair da estrada e aderir ao todo-o-terreno!

Nada demais nisso se não fosse o estado do caminho, com gravilha solta e revolta, a forma abrupta como ele subia, com marcas profundas de erosão, e as nuvens negras que se amontoavam naquela direção!

A coisa complicou-se à medida que eu subia, porque, não bastando a gravilha solta e a erosão do caminho, as nuvens que eu vira lá em baixo não eram de chuva e sim de nevoeiro. E que nevoeiro! Não se via nadinha! Eu nem conseguia perceber se a rua curvava ou era a direito, pois não tinha marcação e era negra, por isso eu só via a mancha negra por todo o lado, abaixo de mim e cinza acima de mim!

No meio daquele nevoeiro todo havia um ou dois carros parados, de que me consegui desviar no último momento, pois eram invisíveis a menos de 2 ou 3 metros de distância. Chineses pularam aos magotes quando eu passei, pregando-me o maior suto. Aparentemente ficaram entusiasmados por ver uma moto passar… eu acho! Porque se era para me pedirem ajuda, eu nem parei! E um jeep apareceu atrás de mim, sei lá de onde, e seguiu por todo o caminho de neveiro sem me ultrapassar. Oh homem, passa para a frente para eu te seguir! Mas ele nunca o fez, acho que eu fui a fazer de farol para ele. Merda!

Então, de repente, tudo ficou para trás e eu saí do nevoeiro serrado para o sol! Este país tem o clima mais marado que eu conheço!

“Um bom pedaço da N1 – a Ring Road – está fechada….
Passei por tudo para chegar aqui!
Primeiro fizeram-me desviar por uma ruela de terra batida e gravilha, pensando eu que era só um bocado, como já aconteceu noutros pontos do país… mas foram dezenas de quilómetros!
Subi ao monte, cheia de medo que a moto derrapasse, pois era a pique, depois foi sempre a ziguezaguear, subindo subindo, e quando parecia que não podia piorar, cheguei às nuvens e ao nevoeiro e começou a chover!
50 e tal quirómetros depois encontrei o sol e fiz esta foto, enquanto finalmente respirava descansada…” (in facebook)

Sol e céu azul, quem diria que do outro lado do monte o mundo era tão colorido!

O prazer que foi percorrer aquele vale verdejante e solarengo!

Quando o desvio me fez percorrer mais 50 quilómetros que o previsto…

O meu destino estava para lá da fileira de montes à minha direita. Tinha noção que estava a andar para a frente para depois andar para trás!

Mas que importava! Importava que a paisagem era deliciosamente serena e cativante!

E lá estava o mar, mesmo em frente à minha casa por aquela noite!

“Hoje a minha casa é aqui, a minha Scarlet já fez duas amigas e somos três a embarcar amanhã, eles para a Dinamarca e eu para as Ilhas Faroé! Por isso não chamem ainda regresso à minha epopeia pois ela vai continuar” (in Facebook)

Tive direito a ancoradouro privado, com mesas e cadeiras e tudo, para poder apreciar o anoitecer!

E anoiteceu, com as luzes de Eskifjörður a brilharem ao fundo. É uma ciidade piscatória e podia-se ver um barco que saia para a pesca.

A montanda de Holmatindur fica mesmo em frente à minha casa e eu vi-a desparecer no novoeiro, que me devia ter seguido e acabava de chegar! O barco que saira para pescar, ao que percebi, pescaria por ali mesmo, pois não foi mais longe.

E aquela era a minha ultima noite na Islândia…

Tanta coisa que eu deixei para ver, que voltava a dar a volta áquilo tudo se pudesse! A minha alegria é que ainda teria muita coisa para descobrir nas Ilhas Faroé!

14.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– As belas cataratas e as imensas praias negras –

13 de agosto de 2019

Naquele momento o vento já não era um problema, eu queria ir mais para a frente, o meu tempo estava a esgotar-se e havia uma infinidade de coisas que eu tinha de ver, a todo o custo. Queria ver as cascatas maravilhosas e acampar algures para poder disfrutar de tudo o que pudesse. É assim quando acordo cheia de energia e com vontade de devorar o mundo! 

Estava sol, o que já era um bom combustível para o meu ânimo. A parte mais aborrecida do dia era sempre arrumar os bagulhos na moto. E eu, que estou habituada a viajar com nada, tinha aquelas tralhas todas para gerir. Detesto viajar com bagulhos, mas, enfim, vai-se ganhando pratica e as coisas vão ficando mais mecanizadas e fáceis de gerir, ao longo dos dias!

Memo assim era muito cedo quando partir. A bem dizer, não havia ninguém em lado nenhum da pousada, como se todos dormissem ainda!

Primeira paragem para pôr gasolina. Como eu gostava daqueles momentos de abastecimento, com croissants quentinhos e gente meio ensonada para dar vida aos primeiros quilómetros do meu dia!

O famoso Kaffi para ajudar a acordar e siga para a luta.

O camino desde Reykjavík era da maior violência, de estrada desamparada e vento fortissimo, por isso aquela pausa era como a primeira etapa superada e recuperação de energia para prosseguir!

De manhã tudo parece muito menos assustador e a paisagem inóspita era tão fascinante!

Lua, estava a atravessar de novo a superficie lunar!

O vento continuava tão forte que o percurso pelo monte tinha sido cortado e o trânsito desviado de forma a contorna-lo. Teria de fazer mais uma série de quilómetros e o vento não era menos forte por ali. Eu poderia ter facilmente enfrentado o vento do monte, com a prática que já adquiria, mas enfim, pela segurança de todos e de cada um, tinha-se de dar a volta e pronto!

Cheguei a Selfoss. Eu sabia que estava numa zona a explorar, mas não teria tempo.

Parei junto ao rio Ölfusá. Parece que por ali até um simples rio se enche de mistério facilmente!

Não havia ninguém na rua, apesar de ser um ponto de passagem para as paisagens mais impressionantes.

O facto de não poder decidir quantos dias ficar, condicionara as minhas escolhas. Afinal eu tinha os dias contados para percorrer toda a ilha, não podia acrescentar um ou dois, eram os dias determinados pelo ferry e pronto. Por isso eu tinha de fazer as minhas escolhas e segui…

Muitos dos encantos do país estão junto à Ring Road N1, nem é preciso procurar muito, basta seguir a estrada.

E lá estava a Seljalandsfoss…

“Não há muitas cataratas no mundo onde a gente possa entrar e passar por baixo das suas águas, sobretudo com a dimensão e imponência de Seljalandsfoss. A água cai violentamente, porque não provem de simples águas que escorrem de pedra em pedra e sim de um grande rio que nasce num enorme glaciar que, na realidade, cobre um vulcão! O Eyjafjallajökull, de onde toda aquela água provém, é o famoso vulcão que entrou em erupção em 2010 e encheu os céus de fumo e poeiras e fez parar todo o tráfego aéreo na Europa por 5 dias. Cá em baixo, onde a água cai como uma cortina enorme, não parece possível que estejamos tão perto do gelo como do fogo…” (Passeando pela Vida – a Página)

A sensação de estar ali dentro era espantosa!

Os turistas vestiam capotes de plástico todos iguais, julgo que as empresas os forneciam aos seu passajeiros. Faziam lembrar os miudos dos infantários, quando saem à rua todos vestidos de igual. E como se divertiam!

A presença das pessoas não me chateava, o barulho das águas era demasiado forte para se puvir o barulho das pessoas. A natureza a sobrepor-se ao poder dos homens, era fascinante!

” A paz e o sossego estavam por todo o lado, como se o tempo não fosse importante e não houvesse nada de especial para ver ou fazer. E no entanto havia, porque a beleza está por todo o lado também! A imensidão é tanta que os grupos de turistas, que eu pensava seriam aos magotes, eram na verdade insignificantes, como se nada pudesse perturbar aqueles momentos de contemplação. Enfiei o gorro até aos olhos, o carapuço do blusão impermeável por cima, e fui percorrendo o caminho pelas entranhas da Seljalandsfoss, um percurso raro e único, ao som da água caindo de 60 metros de altura…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Sentei-me na beira do penhasco, onde a erva estava molhada, mas o meu fato de chuva, que era o meu unifrome desde o primeiro dia, me protegia de tudo. E desenhei, usando a água da catarata! Aquela gente ficou meio confusa quando eu me pus a catar água de uma poça com o tubinho do pincel e eu sentia-me eufórica!

“Pertinho de Seljalandsfoss fica Gljúfrabúi, uma cascata escondida no meio das pedras onde só vai quem a quer ver, porque não é famosa como a sua vizinha, nem permite fantásticas selfies instagramáveis! Entra-se no seu espaço como no interior de um come de pedra, onde ela cai de forma ensurdecedora, espalhando o seu “spray” em redor, como quem diz “isto é tudo meu!”. Valeram-me as botas da neve e o fato de chuva para poder andar por ali a seco, pois todo aquele que teima em entrar nos seus domínios sai molhado, muito molhado!” (Passeando pela Vida – a Página)

Não foi fácil convencer as pessoas a deixarem-me passar. Um ou outro aventurava-se mas saía molhado. Naquele dia a catarata estava violenta, dizia o guia. Parece que normalmente se entra melhor sem se molhar muito.

Acabei por conseguir entrar, finalmente, apesar dos protestos de uma fulana que estava aparentemente muito preocupada coma minha saúde. Sem stress minha senhora, eu não me vou molhar!

“Sentei-me dentro da cascata, não é a todo o momento que se pode fazer tal coisa, mas eu estava bem protegida com o fato de chuva da moto e as botas impermeável da neve. Na entrada as pessoas ficavam a olhar para mim, elas não podiam fazer o mesmo, pois não tinham roupa que o permitisse. Capotes de plástico não eram suficientes para estar ali sem ficarem uma sopa. Desenhei, com as folhas do diário de viagem a ficarem todas molhadas. As minhas aguarelas foram alimentadas pelas águas do glaciar que pairava por todo o lado, e eu estava tão feliz, como quem desenha as entranhas de um enorme dragão, que mais acima é de fogo mas ali é de gelo. E eu podia ouvi-lo rosnar bem alto em meu redor! ” (Passeando pela Vida – a Página)

Sempre me acontece, quando vejo e vivo algo que me fascina, tenho dificuldade em ir embora, como se estivesse a deixar para trás mais mistérios para desvendar que eu esqueci. Então ando em redor, olho em todos os ângulos até me afastar!

Parecia-me incrível que toda aquela água não formasse um rio enorme, na realidade a água escapulia-se por todo o lado e formava apenas um pequeno curso de água…

Vamos lá embora, mais à frente há mais cataratas para ver!

Toda a montanha ao longe jorrava água, podiam-se ver os fios brancos, mas não havia caminho para lá e eu não tinha vontade de atolar a moto!

E não muito longe fica a Skógafoss!

Eu sabia que se acampava por ali e tinha sonhado faze-lo. Só precisava saber onde, pois eu vira fotos de tendas muito perto da cascata!

A estrada de aproximação era mais à frente, pude ver o rio que a catarata formava antes de chegar a ela.

Uma placa para memória futura da minha moto!

Arrastei o meu saco dos bagulhos comigo e num instante montei a minha tenda!

Fiquei tão contente por conseguir pôr a minha tenda ali! Yess! Tinha arbustos para a proteger do vento e não havia humidade no solo.

Claro que também não haveria mais nada, nem cozinha, nem sala de estar, nem eletricidade, nem banho! Mas eu não morreria sem essas coisas, amanhã dormiria numa sitio civilizado e cuidaria de tudo.

Eu nunca acampara fora de sítios legais, mas ali eu não estaria sozinha, havia uma série de gente a montar tendas logo a seguir, outras tinham ar de estar por ali há algum tempo.

Era cedo e eu já me livrara dos bagulhos na moto. Assim seria mais facil conduzir com o vento, sem nada em cima do banco a empancar o vento! E senti-me livre para explorar a zona à minha vontade, sem pressas!

Fiz uma aproximação lenta, olhando o conjunto em cada ângulo. A catarata era impressionante! Fiz alguns esboços daquele que seria o jardim da minha casa por aquela noite!

Passeei por ali com quem tem todo o tempo do mundo. A catarata é tão grande que a gente tem a sensação de que está mais perto do que realmente está!

Aré chegar realmente perto dela e a ver em toda a sua amplitude!

É simplesmente espantosa! O spray que gera em seu redor estende-se por todo o lado a bastante distância, molhando tudo e todos.

Era tão bom poder aproximar-me, entrar na água para a ver de outro ângulo sem me molhar! Sentia-me uma criancinha a pular nas poças depois da chuva forte!

As pessoas atrás de mim dedicavam-se a procurar ângulos favoráveis para fazerem selfies com a catarata como fundo.

Mas não era fácil, pois havia sempre gente a perturbar a paisagem.

Aquele era um dos momentos que fizeram valer tudo o que passei até chegar ali. Estava sol, não estava frio, (estavam uns fantásticos 15º), tinha a minha tenda montada junto daquela cascata impressionate e o mundo parecia meu!

Claro que me dispus caminhar em redor e subir à cascata.

Aquela água vem de dois glaciares Eyjafjallajökull e Mýrdalsjökull, que formam o rio Skógaá, (de onde sai o nome da catarata) como todos aqueles nomes são giros!

Estava no topo dos 60 metros da Skógafoss, vendo o rio se dobrar e cair por ali abaixo! Que momento mágico!

O mundo lá em baixo, visto lá de cima, era menos cheio do que parecia.

Toda aquela gente que subia e descia, não era suficiente para encher o local de gente. Quando tudo é tão grande e amplo, nada parece suficiente para encher e abarrotar os espaços!

Podia ver o pequeno ponto cinzento que era a minha tenda, lá em baixo. É, ela não estava tão próxima da catarata como parecia quando a montei!

“Skógafoss parece colocada na natureza para encantar! Pode ser apreciada desde a estrada como um postal ilustrado vivo, numa manifestação fantástica de um rio que transborda desde os glaciares, o Skógaá. Subi ao seu topo, acampei pertinho dela e sentei-me na relva por tempos infinitos, como se todo o tempo do mundo não chegasse para guardar toda a sua beleza na minha memória. De alguma forma nada mais importava enquanto estive por ali, como se estivesse na presença de uma entidade cheia de personalidade que tudo dominasse…” (in Passeando pela Vida – a página)

Livre de bagulhos, peguei na minha motita e segui para explorar outras coisas em redor.

Eu sabia que ali perto ficava o glaciar de Sólheimajökull, que faz parte de um dosglaciares que alimenta a catarata de Skógafoss.

É facil caminhar até ele desde o ponto onde pousei a moto, dificil foi chegar até ao ponto em que a pousei. O vento ali era tão forte que tive dificuldade em segurar a moto no seu caminho!

Os glaciares sempre produzem uma água esbranquiçada, mas ali estava cinzenta. A terra toda é negra em redor, dando aquele tom cinza sujo à água e preto ao gelo. Como deve ser bonito aquilo tudo no inverno!

Um dia eu quero voltar para caminhar mais para dentro, com mais tempo.

Literalmente o mundo é preto e branco naquele glaciar!

O vento soprava tão forte que o som era quase assustador.

A minha motita parecia em paz mas, na realidade, lutava para se manter de pé, completamente desamparada, sem nada para travar o vento em seu redor! Felizmente o regresso à Ring Road foi menos penoso do que eu esperava, apanhei o vento mais de trás do que de lado. Que felicidade!

Eu ainda iria mais para a frente, até ao deserto negro que é a praia de Solheimasandur.

Quando se fala em praia, não se imagina um deserto tão imenso, onde o mar nem é visivel de tão distante que fica!

Pousei a moto e dispus-me a caminhar!

O piso irregular, de pedras soltas por todo o lado, cansava os pés e quanto mais caminhava mais caminho havia para fazer. Não me lembro de ter lido em lado nenhum qual a distância que percorreria, mas podia prever que seriam vários quilómetros.

A música ajuda sempre a percorrer grandes distâncias, mas tenho de reconhecer que a caminhada começou a ser monótona e cansativa!

Então, ao fim de não sei quanto tempo e milhares de passos, lá estava o objetivo da minha caminhada…

Não podia deixar de me sentir eufórica cá por dentro!

Olhando em redor, podia entender porque aquela praia tinha sido escolhida num momento de aflição, tantos anos atrás…

… para a aterrissarem de emergencia de um avião!

” A história do avião no meio da imensa praia negra de Sólheimasandur não é muito antiga, foi em 1973 que o avião americano ficou sem combustível e caiu ali, no meio de lado nenhum! Os tripulantes ainda são vivos e podem testemunhar a aventura! Sim, ninguém morreu e, na realidade, parece que não faltou combustível nenhum, o piloto apenas se enganou e mudou para o deposito errado. Hoje o DC3 Plane Wreck é uma atracão surreal, com a sua carcaça a contrastar com o solo negro, de poeiras amareladas, que faz turistas e viajantes caminharem 4km desde a estrada, apenas para o verem de perto. Como uma caminhada pela lua!” (in Passeando pela Vida – a Página)

Como sempre, as pessoas visitam os sítios e não podem deixar de os destruir um pouco apenas para deixarem a sua marca, sabe-se lá para quem ver!

Pouco a pouco o avião foi sendo delapidado até que um dia, provavelmente, nada mais restará dele!

Ainda é uma presença bizarra no meio daquela paisagem. Lembro-me que, a primeira vez que vi uma foto daquele avião, fiquei tão impressionada que o quis ir ver. Estava pronta a fazer toda uma viagem só para isso!

E ali estava eu, no meio do maior vendaval, testemunhando a vedeta daquela primeira foto que vira tanto tempo atrás!

Mesmo com todo o vento, dispus-me a registar o momento, usando ainda a água da catarata de Skógafoss. tudo a condizer com o momento!

O tempo que me paseei em redor, os milhões de fotos que eu fiz…

O mar não era logo ali, ainda era preciso caminhar bastante para ir até ele! Tudo é tão distante!

Tudo é tão surreal!

“Desertos me fascinam, me enchem de espanto e me fazem sentir tão pequena e insignificante que me silenciam e imobilizam! A praia de Sólheimasandur teve esse efeito sobre mim, mesmo sendo uma praia com mar ao longe. Fiquei ali sentada nem sei quanto tempo, a olhar o infinito em redor, com o glaciar ao longe. Tão difícil definir as distância quando não se tem termo de comparação, que a sensação é de que em qualquer direção que caminhasse, todo o destino seria muito longínquo. Que experiência fascinante viver toda aquela imensidão!”
(in Passeando pela Vida – a Página)

De repente apetecia-me montar a tenda ali perto e ficar!

Mas além de proibido, o solo é bastante rijo e sujo. Apesar de a terra, que era mais cascalho que outra coisa, ser negra, o pó que voava e sujava as minhas botas era amarelo! Teria sido bem mais fascinante se fosse negro também!

Vi pelo telemvovel, sim, ali não faltava rede para eu ligar os meu dados móveis, que estava a mais de 4 quilómetros da minha moto. Teria de caminhar até lá de novo… ou não!

No caminho até ao avião um autocarro, que parecia um jeep de rodas grandes, passou várias vezes por mim, levantando uma imensa poeirada. Eu poderia apanha-lo no regresso. Havia uma placa com o seu horario e não faltava muito para as 17.00h chegarem! O problema é que eu não tinha dinheiro para pagar a passagem. mesmo assim decidi esperar, se não pudesse ir, tanto pior, caminharia de novo.

Disse ao motorista que queria ir embora no autocarro mas que não tinha dinheiro, só cartão multibanco e visa. Seria possível eu ir mesmo assim? Claro que sim! Disse-me mesmo que apenas se podia pagar com cartão! Não só eu podia ir, como era a única que estava devidamente preparada para o fazer, já que todas as outras pessoas tinham estado a juntar o dinheiro para pagar! Yesssss, ainda bem que arrisquei em esperar e não me pus a caminhar por não ter dinheiro vivo

Meti conversa com o condutor e ele explicou-me ali e em todo o país tudo se pode processar com cartão multibanco e que cada vez o dinheiro é menos usado. Percebi que não era permitido a outros veículos circularem por ali e nem pensar em acampar, imediatamente apareceria alguém para correr com os aventureiros. Mas que mais à frente, em Vík í Mýrdal, jé era permitido montar tenda.

Perguntou-me de onde eu vinha e ficou surpreendido por eu ter vindo desde Portugal de moto, pois muita gente aluga motos lá! Pois aluga, mas é tão caro que, sem contar com a gasolina, gastaria metade do orçamento total da viagem, apenas para pagar o aluguer de uma moto equivalente à minha!

Se acrescentasse as viagens de avião, a gasolina, as dormidas e a comida, gastaria em 7 dias, sem ir a mais lado nenhum senão a própria Islândia, o dobro do que gastei no total da viagem, por mais de 35 dias de viagem e uma série de países…

Pois, não fazia ideia, ainda assim você é uma valente mulher! – murmurou o homem.

Não pude deixar de dar uma gargalhada.

A minha motita tinha uma companheira bem original, uma moto cheia de tralhas e com um skate na bagagem! Bem interessante devia ser andar por aquelas estradas de skate! Um letão que viaja de moto de tão longe com skate acoplado.

Afinal Islândia de moto não é só para homens valentes, exclamou ele quando me viu chegar e percebeu que a outra moto era minha!

Olhava para a minha moto sem bagagem amarrada e pensava que afinal podia ter deixado para montar a minha tenda mais à frente!

Voltei a Skógafoss e fiquei meio desiludida. Havia mais tendas no local. Isso não seria problema se aqueles tipos não se pusessem a por música aos berros. Claro que conviver seria giro, mas eu nem apreciava a sua música.

Tudo piorou quando começaram a falar do vento. Eu tinha lido que o vento na costa leste podia ser verdadeiramente terrível. Havia histórias de que, quando ele era verdadeiramente forte, levantava as pedras das praias e partia os vidros dos carros. Histórias de motos serem arrastadas e não conseguirem circular… Parece que aquela costa podia ser assustadora. Um fulano, que fizera a costa dois dias antes, contou que tinha caminhado por quilómetros, lutando com o vento, pois não conseguira montar a sua moto e mesmo caminhando, tivera uma luta desigual e esgotante para chegar até ali. Por isso ficara por vários dias quieto a recuperar-se.

Todos eles tinham tempo porque estavam na ilha por mais de uma semana, já que tinham ido de avião, e estavam a voltar a Rekjavik para apanharem o voo e voltar para a Dinamarca. Ficaram espantados por eu ter ido de ferry, com moto e tudo, e preocupados por eu estar a subir para Seyðisfjörður, com data certa para embarcar! E se eu não conseguisse passar a costa, qual era a minha alternativa?

Voltar para baixo e dar a volta toda à ilha, por onde eu descera, e chegar a Seyðisfjörður por cima. Isso implicava fazer mais de 800km em vez dos 500 e poucos pela costa… O chato era que poderia não ter mais tempo, para além de não ver as coisas que queria por ali acima!

Então decidi levantar a tenda e seguir mais um pouco, assim teria mais noção do tempo que me esperava pela costa, no dia seguinte, e decidir se subia por ali ou se dava de novo a volta à ilha por onde viera.

Aquela gente achou que eu era louca, (e eu sou mesmo) e lá fui para Vík í Mýrdal, onde o condutor do autocarro me dissera que era permitido montar tenda!

Nem pensei em subir ao rochedo, por terra batida com todo aquele vento ninguém subia! Gostava de ter podido ver as praias lá de cima, mas o vento não estava para brincadeiras.

E mais à frente o tempo era outro. O sol desapareceu e nuvens meio sombrias cobriram tudo. Como é possivel as coisas mudarem tando depois de umas pedras ou morros?

Podia ver as pedras aguçadas da praia de Vík ao fundo e a encosta junto à igreja parecia a paz absoluta. Mas não era, o bendito vento estava infernal…

Pousei a moto no melhor ângulo possivel para que se aguentasse em pé e eu mesma quase fui levada pelo vento.

Se contiinuasse assim, seguramente que no dia seguinte teria de voltar para trás e dar a volta à ilha pelo mesmo caminho que viera, que chatice!

Cheguei a moto à igreja para que ela a protegesse e conferi o tempo para amanhã… Aparentemente o vento abrandaria, YESSSSS…. mas antes disso a coisa prometia ficar mais ruim do que já estava!

E ficou, tão depressa desci a colina da igreja e desatou a chover. Credo, as gotas de chuva pareciam torpedos em mim! Lembrei-me que tinha várias coisas nos bolsos do blusão, mas contava que eles fossem tão impermeáveis quando o blusão em si, ou as coisas podiam piorar lá dentro. De qualquer maneira nem queria parar, com a ventania que estava e com a tromba de água que veio sei lá de onde, queria tudo menos parar desamparada no meio de nada que me abrigasse!

Nem pensar em ir mais longe, ficaria em Vík custasse o que custasse!

Fiquei sem telemóvel, a power-bank deu o berro, com toda a humidade que apanhou, e eu só o poderia carrega-lo de novo na tomada de isqueiro da moto, no dia seguinte. Paciência, amanhã penso nisso, agora tenho uma casa para montar debaixo do maior temporal e isso é trabalho de profissional!

Havia mais gente a chegar e a preparar-se para montar tendas. òtimo, não ficaria sozinha!

E que bem ficou a minha casinha ali plantada! Não podia fotografar mas podia desenhar!

O vento uivava e a chuva parecia uma metralhadora sobre a tenda… aquela noite prometia ser animada!

13.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Explorando um pouco do sul –

12 de agosto de 2019

É claro que não tive coragem de deixar a minha bonequinha para trás e apanhar um autocarro! E também é claro que sofri mais um pouco por causa disso, mas que importa, diverti-me mesmo assim!

Não conseguia perceber se o vento continuava forte pois o edificio não o deixava passar. Havia motociclistas acampados no parque da Pousada de Juventude que não tiraram as motos do parque e partiram de autocarro, mas eu devo ser meio masoquista e sai na minha! Não importava se conseguiria ir longe ou perto, importava que não queria ir sozinha, e eu sabia que me sentiria muito só se saisse sem a minha motinha…

Fiquei a ver o povo partir no autocarro, que era mais uma navette…

Não precisei de andar muito para perceber que o vento estava onde o deixara no dia anterior, com um pouco de chuva à mistura e muito frio. Realmente, só eu para sair de moto quando toda a gente as deixava em casa por causa do mau tempo. Na noite anterior tinham comentado na pousada que era desaconselhado o uso de motociclos e eu, feita palerma, a perguntar se as autoridades tinham proibido a circulação de motos, como não tinham, siga para a estrada!

A verdade é que a minha moto é a minha companhia, se a deixo para trás e apanho um outro transporte, sinto como se tivesse deixado uma amiga em casa. Depois de tantos dias sozinha também não tinha vontade de passar umas horas a conviver com estranhos, sair onde me deixavam sair e voltar quando me mandavam voltar. Simplesmente não era o meu espírito, preferi ver menos coisas, lutar mais e fazer os meus caminhos de vento e deserto.

E logo à frente o céu parecia de chumbo, a paisagem meio apocaliptica e a chuva parecia agulhas a baterem em mim!

Por vezes perguntam-me como seleciono o que ver numa viagem, dado que não tenho possibilidade de ver tudo. Eu costumo dizer que vejo o que puder e me apetecer, sem remorsos do que deixo para trás, pois acredito sempre que voltarei a cada lugar!

E é verdade, só assim posso sentir-me livre de parar e observar coisas insignificantes em vez de correr de lado para lado para “picar o ponto” em cada sitio imperdivel.

E aquelas paisagens, tão belas quanto agrestes, enchiam-me de nostalgia e deslumbramento, de tal maneira que não pude sacrificar a sensação de as percorrer de moto, para poder ir mais longe, mais confortável numa navette!

Eu ía a caminho de Grundarfjörður, uma das paisagens mais famosas da Islandia, mas cada quilómetro era assunto para me encantar. Houve momentos em que tive a sensação que o vento estava ainda mais forte que nos ultimos dias, mas eu já estava profissional na coisa. O que nos assusta na novidade, nos relaxa na experiência!

Claro que o contraste entre o que os meus olhos viam e o que o meu corpo sentia era, no mínimo, contraditório, porque eu via paz mas sentia-me numa guerra, e isso era fascinante!

E quando conseguia parar em segurança, sem correr o risco de que o vento atirasse a minha motita ao chão, já que perigo de acidente com outros veículos estava completamente fora de questão, deslumbrava-me com o imenso vazio que me cercava.

Mais do que em muitos outros países que visitei, percorrer aquele país era uma experiência que eu só podia viver sozinha, por imensidões insanas e estradas infinitas, sem ninguém a distrair-me de cada momento do caminho, apenas eu e aquele mundo!

Parte do caminho era o mesmo que eu fizera ao descer para Reykjavík, mas visto na perspetiva inversa, parecia novo!

Mas não era novo ainda, bora lá saltar para fora da estrada outra vez! Deus queira que não chova muito, pois não é nada agradável andar por terra batida à chuva!

A vantagem é que a terra por ali é tipo gravilha que não faz lama. Aquela gente é inteligente, usa a gravilha para manter os caminhos sem alcatrão meio drenados das águas que são abundantes!

E lá estava uma bomba de gasolina para eu parar, tomar um café, aquecer-me um pouco e ganhar lanço para mais uns quilómetros de luta. É curioso como um país tão grande e tão pouco povoado, com extensões gigantescas de terreno sem vivalma, está tão bem coberto por estações de serviço. Nunca há stress com gasolina ou algo para comer por ali!

O tempo pode mudar em poucos quilómetros de distância, foi algo que percebi por lá, apenas o vento permanece, muda de direção a todo o momento, mas permanece, sempre forte!

Ora chove, ora faz sol, como se eu estivesse a percorrer grandes distâncias e, no entanto, nem eram tantos quilómetros assim!

Poças, pocinhas, lagos e mar, tudo está sempre por perto. Não há arvores, nem aldeias, nem casas, apenas eu, a estrada e planicies desoladas, quase deserticas.

E então volto a atravessar superficies lunares, a falha tectónica aparece a cada momento dos percursos. Tão fascinante!

Eu já percorrera zonas vulcânicas de terra negra, mas nada se assemelhava ao que me rodeava ali.

Não sei quanto tempo andava em redor a cada vez que parava para apreciar de perto as paisagens. Eu sei que não havia muito para ver para além do que os meus olhos podiam alcançar a partir de minha moto, mas mesmo assim eu caminhava em redor, sempre que o vento me permitia pousar a moto em segurança.

Nem sequer precisava me preocupar em encostar muito a moto pois nunca havia carro algum no horizonte, era sempre apenas eu e a paisagem! De alguma forma aquele isolamento era tudo o que eu precisava para preencher o meu ânimo e reconfortar a angustia que viajava comigo…

Estava a chegar a Grundarfjörður e tudo o que eu desejava era poder passear por lá, sem nada nem ninguém a perturbar os meus pensamentos!

Embora a dada altura todas as estradas se parecessem, havia sempre algo de único em cada uma, pequenas diferenças que me encantavam!

E então cheguei…

Quanta desilusão!

Eu nunca estou à espera de muita coisa, mas ali esperava uma grande cascata, a considerar pelas fotos que se veem pela net! Depois de tanta paz e solidão, carros, carrinhos e navettes, era o que não faltava por ali. Uma espécie de alarme soou dentro de mim, turistas, gritinhos, selfies e chineses! Oh Deus, tudo o que eu não queria!

Pus-me a olhar lá para o fundo, A cascata era pequena e as fantasticas fotos da net não eram mais que uma questão de perspetiva.

Nem tinha um lugar decente para pousar a minha moto! Dei uma volta em redor à procura de um espaço, mas não havia sitio nem paciência.

O montanha, que se vê de fundo às fantásticas fotos, é muito mais impressionante que a própria cascata! Deixei a moto na berma da estrada com os quatro pisas e dispus-me a caminhar até à cascata, de muito mau humor, e só o fiz por ser o que era e onde era…

Tal como imaginava, andava por ali gente demais nas bordas da água a fazer selfies às dúzias. Amuada que estava, sentei-me a apreciar como as pessoas se punham em todos os lados em todas as posições e poses. Encontrei o sítio de onde as fotos mais famosas são tiradas e fiz um desenho. Ao menos ninguém estragaria a minha foto, porque eu faria um desenho excluindo toda a gente e bagunça!

É claro que no momento eu já sabia que mais tarde me arrependeria de não ter feito um milhão de fotos, com gente ou sem ela, mas no momento realizei-me apenas desenhando!

O monte Kirkjufell é fascinante e prendeu muito mais a minha atenção e fiz mais um desenho ou dois.

E fui embora. Acho que estava viciada no vazio e na solidão. Na verdade não queria estar com ninguém e porque devia enfiar-me no meio das pessoas se não era essa a minha vontade?

Então quando cheguei a Þingvellir, foi a decepção. O vale é lindo, mas a multidão é desanimadora!

Era de esperar. Afinal é um dos sitios mais famosos de toda a ilha, ali foi o centro de tudo, onde se fundou o primeiro parlamento do pais e, como se não bastasse, é onde as placas teconicas europeia e americana são visiveis.

Podia ver o Þingvallavatn por todo o lado, o maior lago da Islandia, podia também ouvir o barulho das pessoas, e isso era tudo o que eu não queria naquele momento. Percebi que tinha de me arrebanhar com uma pequena multidão para ir percorrer os caminhos da falha e as gargantas do Almannagià.

Carros por todo o lado inspiravam-me a prosseguir…

Fiquei-me com a paisagem de Hakid…

Mais uma vez eu sabia que me arrependeria mais tarde por não ir visitar tudo aquilo, mas sentei-me e desenhei, enquanto ouvia o barulho da pequena multidão a descer pelo percurso. Eu estava a apreciar demais a minha paz, por isso prometi a mim mesma que voltaria ali um dia, com mais tempo e melhor disposição, para ir até às famosas placas…

Aquele vale é fascinante para percorrer de moto, com percursos de terra batida e recantos para apreciar a paz do lago.

Contrariamente ao que temi, não havia ninguem a passear por ali, aparentente as pessoas iam até ao vale para visitar a falha, caminhar até à cascata e levar consigo as melhores fotos do local. Porque eu tinha de ser diferente e pôr-me a brincar em redor? Não sei, mas eu apenas faço o que me apetece, e brincar em redor do lago encheu-me de energia.

O vento nem se sentia tanto ali em baixo, por isso foi uma experiência extraordinária andar em volta do lago a derrapar no cascalho negro.

Não importa para onde a gente vá, o que sentimos e somos vai connosco, e isso sempre determina as escolhas que faço. Estava um pouco no mood do poema “LIBERDADE” de Fernando Pessoa, tanta coisa imperdivel e eu sem vontade:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Que bem me soube um cafézinho ao som do silêncio do lago, depois de uma pequena aventura na gravilha! Era tão bom poder finalmente conduzir um pouco sem o tormento do vento. Ui, quanta paz!

Foi tão reconfortante a minha brincadeira pelo Þingvellir, que, de repente, não estava nada disposta a voltar já para casa! Que se lixe o vento lá em cima, vou ver mais uma ou duas coisas!

Tinham-me mandado uma mensagem de texto desde a televisão local para me intrevistarem, mas eu não queria ir a correr para casa por causa disso. Alguem se tinha interessado pela minha história depois da publicação da Raga no dia anterior e ela fornecera o meu numero de telemovel. Tudo bem que eu aceitei fazer a entrevista, mas isso não podia prender-me o perturbar demais os meus planos! Sei lá, apareçam à noite, né?

Por isso segui para outro vale, Haukadalur, onde fica um dos sitios que eu queria muito ver, Geysir.

Geysir, deriva de “jorrar” em islandês e deu origem ao nosso nome para a coisa “géiser”. Uma nascente bem ativa, como uma espécie de poça de água profunda que borbulha de forma cadenciada, como se respirasse, e de repente espirra com toda a força, uma enorme quantidade de agua fervente. Como se a terra estivese constipada! Eu tinha de ver aquilo!

Mas, tal como eu estudara antes de partir, era o Strokkur o mais ativo, Lá estava ele a deitar fumo e água por todos os lados!

Fiquei ali a ver a cadencia da água e a tentar prever quando aquilo ia explodir, nem me incomodou que houvsesse bastante gente em redor, porque era fascinante!

E quando a gente se distrai, pimba, a água sobe a uma altura imprevisivel!

Uma coisa que percebi é que a água não dispara em tempos certos. Embora possamos ver a água dentro da fonte a oscilar, como se ameaçasse subir a qualquer momento, não adianta contar quantas vezes ela oscila para prever a subida seguinte, pois isso não acontecerá!

Outra coisa que não é regular é a altura a que a água dispara, umas vezes sobe uns 2 ou 3 metros, outras sobe uns 15 ou 20.

Então uma pessoa fica ali hipnotizada esperando ver até onde ela vai subir na vez seguinte, com o ruido do sopro que é quase assustador, como se a terra soprasse realmente!

Nem sei quantas vezes vi o Strokkur explodir, só sei que me tive de forçar a ir embora ou ficaria ali até ser de noite, hipnotizada pelo espectáculo!

Há outras pocinhas em redor que burbulham, não sei se alguma vez disparam como o Geyzir ou o Strokkur, mas são fascinantes mesmo assim!

Da televisão diziam que esperariam por mim na pousada, mas antes de ir para casa eu ainda passaria no Kerið.

Uma cratera de muito facil acesso, que fica na beira da estrada. A gente olha e reconhece facilmente a tradicional forma de um vulcão.

Lá dentro, no fundo, fica um lago bem redondinho, ok, mais oval que redondo. A gente pode descer até à sua margem e caminhar em redor, ou pode caminhar sobre o “muro”, cá em cima.

É fascinante em todas as perspetivas, embora o lago não seja aquela enorme poça azul, toda editada no Photoshop, que o povo teima em publicar no Instagram.

Mas é muito bonito todo o conjunto, ainda me sentei na borda, cá em cima, mas o vento quase atirava comigo lá para baixo!

Ok, estava na hora de ir para casa e esticar-me para descansar o esqueleto.

Estava exausta!

Todos aqueles dias de luta permanente com o vento, mais as caminhadas e as explorações estavam a cobrar o seu preço. Voltei para Reykjavík, na última luta do dia. Provavelmente já nem iria a tempo da entrevista, mas não importava, tinha aproveitado o dia da melhor forma possível e isso sim, era importante! A volta que dera fora bem maior do que eu imaginava.

Não havia ninguém à minha espera, tanto pior, amanhã vou montar a tenda num sitio qualquer na costa leste e ninguém me verá mais aqui…

12.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Reykjavík, um dia de paz –

11 de agosto de 2019

Dormi como uma pedra!

Mas aquela noite foi uma confusão, depois de muitas horas de sono (porque me deitei estupidamente cedo) acordei com um enorme estrondo sobre a minha tenda. Algo embateu nela e resvalou ruidosamente, até ser projetado para longe. Acordei assustada com o barulho. O vento era tão forte que a tenda, por muito bem esticada que estivesse, era empurrada e abanada violentamente, ficando o pano tão tenso que parecia ir rasgar-se. Senti que ela aguentaria bem aquela pressão toda, pois permanecia sólida, mas o barulho era infernal! Agora, que fora aquilo que viera contra ela?

Eu estava gelada. Não me metera no saco cama e, mesmo usando um fato interior térmico, mais a roupa, o fato da moto e o fato de chuva por cima, sentia frio. Calcei as botas da neve, enfiei o gorro, pus o cachecol e enfiei as luvas, tinha de sair e ver o que se passava. Ouviam-se vozes, alguns gritos abafados, definitivamente estava muita gente acordada. Olhei o telemóvel, passava pouco das 4 horas da manhã!  Porra, esta gente não dorme?

Mal abri o fecho interior da tenda percebi que estava muito frio, mas quando abri o fecho exterior… não estava só um frio dos diabos, estava o inferno lá fora! Um inferno gelado, por sinal! A noite estava clara, e eu pude ver a confusão. Aparentemente muitas outras pessoas tinham chegado entretanto, mochileiros, ciclistas e automobilistas. A minha moto era a única e estava quietinha, junto da cabina onde funcionava a sala comum. Mas acho que só eu me lembrei de proteger a minha moto do vento, pois bicicletas tinham sido arrastadas pelo vento e tendas tinham sido arrancadas do chão. Uma tenda tinha sido projetada conta a minha, fora esse o barulho que me acordara. Era o caos em meu redor!

Assim que saí da tenda e me pus de pé, percebi que o vento era capaz de atirar comigo para o chão. Era preciso lutar para me manter de pé! As pessoas recolhiam com dificuldade as tendas levadas pelo vento e enrolavam-nas em bolas, pois era impossível voltar a monta-las ou dobra-las para as arrumar, e arrastavam-se para a sala comum para se protegerem, tentando salvar as suas coisas que voavam em todas as direções. Sim, que o vento, além de estupidamente forte, era também estupidamente imprevisível. Era a tal sensação que eu tinha ao conduzir na estrada, embora não se visse obstáculo, muro, casa, ou monte, ele mudava de direção abruptamente, sem que se pudesse prever de onde viria a seguir.

Observei as espias da minha tenda, ainda estavam fortes e firmes, mas dei-lhes um aperto, por via das dúvidas. Eu tinha de me aquecer. Peguei no meu saco de água (sim, eu levei uma botija para água quente, imaginando que podia estar frio!) e fui, lutando com o vento para me manter de pé, até à sala comum. O que me esperava lá dentro apanhou-me de surpresa! Estava cheia de gente enrolada em mandas e sacos- cama pelo chão. Parecia um recanto de refugiados! Tive de avançar pés e sacos para me aproximar da kitchenette e pôr uma grande chaleira de água a aquecer. Aquela gente seguiu os meus movimentos como se eu fosse um E.T. que desceu à terra e entrou ali.

Eu devia ser a pessoa menos experiente em campismo dali e no entanto era a mais bem apetrechada e a mais calma, afinal nada acontecera comigo a não ser ter levado com uma tenda em cima da minha tenda! Como se não bastasse, eu estava toda vestida de preto e a minha botija de água quente era vermelha, só para dar mais nas vistas. Um fulano perguntou onde eu tinha arranjado aquilo. “Trouxe de casa! Sabia que aqui faz muito frio de noite, por isso vim preparada para ele!” respondi, enquanto a enchia com quase 2 litros de água. Podia senti-la aquecer o meu corpo, que sensação boa!

Voltei para a minha tenda, enfiei a botija dentro do saco cama e preparei-me para dormir até ser dia, pensando naquela gente amontoada lá dentro, sem conforto nenhum. Adormeci ouvindo o vendaval em torno de mim, tão forte que até assustava, mas eu sou pessoa de dormir em qualquer situação, sem stress…

Quando acordei tive a sensação que nada daquilo acontecera realmente. Estava cheia de calor, o saco cama, próprio para suportar temperaturas abaixo dos -10º, mais o saco de água quente, fizeram-me transpirar! Por isso a sensação de que estivera tanto frio de noite parecia irreal… até eu abrir os fechos da tenda! Céus, a ventania soprou um frio tão incrível lá para dentro, que a vontade foi de voltar de deitar e continuar a dormir!

E não havia nada nem ninguém em meu redor!

A minha tenda estava literalmente sozinha no meio do nada, com alguns carros ao longe!

Parece que o pesadelo da noite anterior fora real, para os outros pelo menos!

O frio e o vento ameaçavam gelar-me por completo. A pior parte é tomar banho, a gente vai cheia de roupa, demora uma eternidade a tirar peça a peça, e depois tem de voltar a vestir tudo outra vez! E o parque não tinha tão boas condições como eu desejaria. O aquecimento não era muito eficiente e o banho foi verdadeiramente refrescante, com água morna e um fiozinho que entrava sabe-se lá por que frinchas.

Tomei o meu pequeno-almoço cá fora, pois era impossível faze-lo no meio de tanta gente deitada no chão lá dentro, e decidi que, se encontrasse uma dormida em conta nem Reykjavík, iria reservar! Eu sabia que na capital havia pousada de juventude e hosteis acessíveis, faltava saber se arranjaria espaço, assim, no próprio dia!

O wi-fi era inexistente, mas os dados moveis funcionavam bem em todo o lado, por isso foi facil aceder ao Booking.

E sim, havia! Yess!

Desmontei a tenda como pude, no meio da ventania, enfiei-a de qualquer maneira dentro do saco (ok, fiz uma bola com ela!) e preparei-me para a guerra de ir embora dali, no meio do maior vendaval! Não apetecia nem parar para fazer umas fotos da desolação que era o caminho. Houve momentos em que segui em contramão, para ter a certeza de que tinha margem para que nenhuma rajada de vento me atirasse borda fora.

Em Reykjavík era a paz! Não faltavam obstáculos para fazerem o vento abrandar, coisa que não existe em mais lado nenhum por aquele país acima e, finalmente, descontraí!

Encontrei logo a Solfar Sun Voyager, como o esqueleto de um barco viking, na beira da estrada junto ao mar, como quem recebe os visitantes,

Passeei pela cidade apreciando os seus pequenos encantos, fiz desenhos, apreciei a sua arte urbana. Oh, que paz!

A cidade não é grande, mas é acolhedora e bonita.

Um terço da população do país está em Reykjavík e, mesmo assim, ela é comprável à população de Leira, muito menos do que Porto ou Coimbra, portanto. Isso faz dela uma cidade adorável, com pormenores encantadores!

E finalmente vi turistas e pessoas em pequenos magotes, coisa que me era desconhecida até àquele dia! Mas havia também uma serenidade e uma paz, como só uma pequena cidade pode oferecer!

E lá estava, uma das esculturas mais conhecidas por figurar frequentemente nas listas de escultura incomuns, ou engraçadas, no mundo. Algo como “Memorial ao Empresário Desconhecido”

Claro que a igreja mais famosa do local, e de toda a Islândia, é visível à distância e fácil de encontrar

A Igreja de Hallgrímur, luterana, já foi considerada tanto como uma das mais feias como uma das mais bonitas do mundo! Pessoalmente acho-a fascinante!

Estava muita gente por ali à espera para a visitar por dentro, mas estava em hora de culto, por isso não me dispus a esperar e acabei por não a visitar… Imperdoável, mas pode ser que um dia eu volte e vá lá dentro!

Eu simplesmente não estava habituada a estar no meio de tanta gente, acho que me tinha tornado meio antissocial, naquele momento!

As casinhas, no centro histórico da cidade, são encantadoras. Até as casas dos gelados são fofinhas e eu nem gosto de gelados!

As pinturas pela cidade cativaram-me, não só nas pareces, mas também no chão!

E eu andei de um lado para o outro seguindo de pintura em pintura

Algumas eram verdadeiramente fascinantes

Não encontrei quase motos nenhumas na cidade, mas consegui encontrar uma para não deixar a minha Scarlett sozinha, enquanto passeava em redor. Fiquei toda orgulhosa quando um grupo de mulheres se aproximou dela e se pôs observa-la em pormenor. A minha moto é linda!

E as paredes pintadas multiplicavam-se de rua em rua

Mas a rua pintada era a mais fascinante!

Soube que tudo aquilo foi pintado num momento muito próprio e com uma finalidade!

Reykjavík festejava os cinquenta anos sobre o levante de Stonewall, (o evento que lançou o movimento moderno dos direitos LJBT no mundo), e os vinte anos do Pride da cidade. O Reykjavík Pride 2019 tinha começado no dia 8 e iria durar até 17, por isso estava ainda em andamento por aqueles dias.

Era como se as tiras de cor tivessem saído da casa e tivessem ido passear para a rua

Em frente à casa arco-iris, ficava a casa mais fascinante do pedaço!

Dava para ficar ali a apreciar os pormenores por um bom tempo!

Impossivel ver uma casa assim e não ter vontade de pintar uma também!

São tantas as casas e muros pintados!

Mas eu tinha de apreciar também as casinhas anónimas! Por vezes isso fascina-me mais que os grande monumentos, onde toda a gente quer tira selfies!

Desenhei algumas, porque apetecia mesmo, pelas formas e pelas cores, como casinhas de brincar, tiradas de um parque de diversões, tipo Disney World!

Eu sei que estas coisas não são muito turísticas, mas são fascinantes para mim!

Eu tinha de comer um franguinho! Nunca vou a um restaurante destes por cá, mas em viagem parece que se torna muito mais apetecível, e lá se vai criando outra tradição, para acrescentar à de comer mexilhões em França!

Muito bom, com direito a cerveja e tudo! Ao tempo que eu não bebia uma cerveja!

E fui procurar a pousada de juventude, que já estava na hora de fazer o chek-in. A minha motita iria  ter companhia para a noite.

A pousada tinha parque de campismo, bem abrigado pelas sebes, mas não era eu que ira montar a tenda podendo dormir numa cama por 19€!

Eramos só duas no quarto, o que foi excelente, pois tive com quem conversar, finalmente!

E não me apetecia fazer mais nada. Estava a precisar tanto de ficar quieta num sofá e simplesmente ler, desenhar ou ouvir musica, depois dos últimos dias de luta, que nem senti remorsos de ter deixado tanta coisa para ver e enfiar-me em casa!

De qualquer maneira tinha combinado encontrar-me com uma islandesa para entregar um pacotinho. Não me lembro mais do nome dela, só sei que era complicado, mas o diminutivo era Raga.

“Eu tinha uma missão, encontrar uma islandesa linda e entregar-lhe um pequeno presente que trouxe de Portugal para ela, a pedido de um amigo. E foi assim que ela descreveu o momento:

“Met this amazing woman this afternoon! Gracinda Ramos is Portuguese and came to Iceland on her beloved motorbike all the way from Portugal. Gracinda is an artist and teaches art as well. She loves to explore the world on her motorbike and has been to 46 countries and covered many thousands of kilometres. In this trip she is visiting Iceland, Faroe Islands and Norway.
She has already been in the North and West of Iceland and later this week she will continue her trip to the South and East before sailing off to Faroe Islands. Hopefully she will not have as strong wind as she had on her way to Reykjavik. Bom voyage Gracinda
Thank you for introducing us dear Joao Baltazar”

E o próprio comentou:

“Alguém poderá dizer que enviou um presente para uma terra tão distante por serviço especial de entregas: MotoXpress in Hand!!?? 😉
Obrigado Gracinda, uma vez mais!” (João Baltazar)

Fiquei por ali, curtindo a sensação de estar estendida num sofá, até chegar a hora de ir para uma cama de verdade!

Amanhã, se continuar este vento infernal, vou deixar a moto para trás e vou passear de autocarro… se tiver coragem de a deixar!

11.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega


– Um longo dia, cheio de sofrimento e beleza –

10 de agosto de 2019

Estava um frio de rachar quando acordei, acho que durante a noite estiveram temperaturas negativas.

Ali não se sentia o vento, mas o frio e a humidade sentiam-se e bem! Os balneários eram aquecidos, o que fazia um efeito curioso, a gente chegava cheia de roupa, entrava a porta e parecia que estava numa sauna.

Tudo o que eu esperava é que o vento tivesse abrandado e o dia fosse calmo. Eu tinha tantas coisas para ver que lutar com o vento não era coisa que ajudasse muito a minha exploração.

O parque de campismo era muito bonito, valia um pequeno passeio por ele como despedida, correndo o risco de acordar alguns dorminhocos. O que vale é que a minha motita é silenciosa!

A sala comum estava cheia de gente a dormir. Acho que todos os mochileiros e ciclistas foram fugindo do frio noturno com os seus sacos cama para lá. Tenham paciência meninos, mas eu preciso de água quente para o meu café. Era muito cedo ninguém estava a fazer pequenos almoços, dormiam mesmo!

E eu segui o meu caminho para perceber, logo à frente, como o vento estava forte. E só pioraria ao longo do dia, à medida que eu seguiria para Este.

Pelo menos o tempo não estava chuvoso e até se vislumbrava um pouco de céu azul. Fantástico!

Eu aprendera, no norte da Noruega, que o as luvas nunca são demais quando está frio percistente por muitos quilómetros, por isso tinha comigo varios pares de luvas de aquecimento para usar por baixo das luvas da moto. E ainda bem que as levei, porque estavam a ser bem necessárias!

A atmosfera eterea fazia lembrar, precisamente, o momento em que eu cruzara o Circulo Polar Artico. A sensação era de passear no paraíso, não fosse o vento forte e o frio.

Ao longe podia ver a neve em cima dos montes baixos. Como não poderia estar tanto frio, afinal a terra do gelo não pode ser quente!

A sensação de solidão era bem mais forte do que em qualquer viagem que eu fizera até então, não só porque não se avistava vivalma em quilómetros de caminho, mas porque acampando não há a sensação de poder conviver com uns e com outros, como ficando hospedada num hostel.

Eu queria parar a todo o momento, para apreciar a paisagem surreal, mas o vento não estava para brincadeiras e parar era uma autenctica aventura. Não só tinha de ter cuidado com a posição em que parava a moto, para o vento não a derrubar, como tinha de ter cuidado comigo ou ele atirar-me-ia ao chão também!

E no entanto a serenidade estava lá, embora só fosse visivel para os olhos, se os ouvidos não ouvissem o uivo da ventania.

Avistar casas era tão raro. que só me questionava como seria viver assim isolado! Seriam familias grandes, cheias de gente, ou seriam pessoas solitárias, vivendo perdidas no meio do nada?

Estava a atravessar o vale de Hörgárdalur e ao fundo podia ver os picos do Drangafjall, como dedos a apontar para o céu.

De alguma forma a paisagem lembrava-me um pouco a ilha de Skye, na Escócia, e o seu Old Man of Storr.

Quando a solidão é absoluta, parece que estou sozinha no mundo.

Deslumbramento com moto..

… e deslumbramento sem moto…

Deslumbramento no vazio sem ninguém no horizonte, apenas eu e minha moto!

Eu sempre chamo de “montes em negativo” quando eles aparecem para baixo de mim.

A gente pára e olha para baixo e toda a altura das montanhas é muito maior para baixo do que para cima do ponto onde estamos!

E sem ter subito, estou no topo de algo, de um desfiladeiro fantástico.

O vento quase atirava comigo lá para baixo. Ele soprava forte por entre as escarpas com um som assustador.

Credo, se eu caisse lá abaixo ninguém me encontaria por dias!

E precisei lutar com ele apenas para caminhar até à moto. Era cedo e eu já estava acusar cansaço da luta com o vento infernal!

Não havia muito o que escolher, apenas paisagem sem moto ou paisagem com moto, a cada vez que conseguia parar um pouco!

Não ha muitas estradas por ali, então toda a gente que passa deve passar por ali. Então porque não há ninguém a passar, só eu?

Regos e rios correm por todo o lado e, aparentemente, em todas as direções. Bem, a ilha é tão recortada nos seus limites, que os rios devem correr mesmo em todas as direções, já que o mar também está por todo o lado!

E encontrei uma localidade com meia dúzia de casas e uma igreja curiosa, com um nome ainda mais curioso… se o conseguirmos pronunciar!

A igreja Miklabæjarkirkja estava fechada, parece que é costume, e nem dava para espreitar para dentro. No seu jardim fica o cemitério e desde ali pode-se ver a imensidão do “deserto” que a rodeia.

Não se vê gente e encontro um cemitério! Será que as pessoas morreram todas?

Mais um momento de descanso na luta com o vento e aproveitar para aquecer as mãos e o coração, até encontrar uma bomba para pôr gasolina.

As posições em que eu parava a moto para o vento não a levar, eram hilariantes por vezes!

Mais uns quilómetros e lá estava uma estação de serviço, com croissants quentes e café! A sensação de estar com gente era tão boa que eu aproveitava para conversar um pouco. Afinal estava em Varmahlíð, uma terrinha que era bem mais que 3 ou 4 casas, tinha hotel e tudo e mais de 100 habitantes… poucos mais!

Muitos copos de Kaffi 66 a minha motinha segurou para mim, naquele país, enquanto eu deitava conversa fora ou, simplesmente, olhava em redor.

E, surpreendentemente, havia pessoas a chegar! Porque é que na rua eu não via ninguém e, de repente, ali elas apareceiam? De onde sairam elas para onde iriam, será que ía começar a ver gente pelo caminho, porque simplemente o povo se levantava tarde??

Bem, pertinho dali fica uma igreja que eu queria ver, a Víðimýrarkirkja.

Há quem diga que ela é a mais bela igreja de turfa da Islandia. Não sei se é verdade, não as vi todas, mas vi que é encantadora

Tinha de a visitar por dentro e, ali no meio de lado nenhum, a entrada era paga por cartão multibanco!

Claro que aproveitei para me pôr ao paleio com o senhor que está a tomar conta dela.
A igreja é do século XIX, mas tem pormenores muito mais antigos do que isso, como o retabulo do altar que é do século XVII e veio da Dinamarca.

Fiquei a saber também que, antigamente, segundo as convenções da Reforma Islandesa, as mulheres sentavam-se de um lado do corredor e os homens do outro!

Muito bem conservada toda aquela madeira revestida de terra e turfa, depois de tanto tempo. Parece que a formula de construção, além de ecológica, é realmente eficaz!

Quem vê a igreja por fora imagina-a húmida e fria por dentro, mais parecendo um monte de terra com uma fachada de tabuas de madeira!

Muito se engana quem pensa, pois o interior é seco e aconchegante, sem humidades nem podridão! Os antigos sabiam da poda!

E lá estava o cemitério em redor, bem relvado e a fazer conjunto com a igreja.

Ali podia ver-se exatamente como a igreja era construída, com blocos de terra prensada com palha. Um dos exemplares de construção totalmente em turfa e erva, porque já está mais distante da zona vulcanica, onde a lava é usada para levantar as paredes

A forma como ela parece sair da terra levantando a relva consigo, é fascinante!

E no meio da sua peruca de relva verde, a janelita parece quase um olho de um duente escondido!

Realmente muito bonita, digna de um qualquer filme de fixão, do tipo do Senhor do Aneis ou do Hobbit!

Ainda fiz um desenhinho antes de partir, não podia sair dali sem um registo de recordação!

Mesmo ao lado fica uma casinha bem mimi, provavelmente de quem cuida da igreja. Fiquei a pensar, como chegará a eletricidade a cada casa, se ficam tão longe e isoladas pela ilha fora? Não me lembro de ver fios nas ruas!

As paragens para ver coisas bonitas iam servindo para eu descansar do esforço da luta contra o vento mas, a cada vez que seguia viagem, ele voltava a lutar contra mim com toda a força. Tem de ser, não posso ficar aqui a vida toda!

Havia mais coisas que eu queria ver, as casinhas de Glaumbær por exemplo.

Duas casas de madeira recebem os visitantes, chamam-se Gilsstofa e Áshús. São edificios do Museu Nacional da Islândia, construidas no séc. XIX. Pelo que percebi estas casas podiam ser movidas e a Gilsstofa, a branca, foi movida de lugar uma meia duzia de vezes! Fantástico! Literalmente andava-se com a casa às voltas!

Não percebi muito bem qual o critério na orientação e disposição daquelas casas!

E lá estavam as belas casinhas de turfa, como um cenário de filme de encantar!

Tudo parecia ter sido posto ali para encantar os visitantes. As casinhas eram deliciosas, com cabelos de relva e paredes de palha prensada, custava crer que resitiram tanto tempo, ali em cima, desamparadas do vento e da intemérie. E que vento!

Em Glaumbær viveu o responsavel pela critianização da Islândia, no século XI, mas as casinhas de turfa são do século XVIII ou XIX. As casas de turfa foram habitadas até meados do séc XX e as de madeira foram sendo anexadas a elas, até começarem a ser todas construias em madeira e deixarem a trufa antiga para trás. Ok, ainda usam bastante a trufa nos telhados, mas não nas paredes.

Por dentro podiam ver-se os blocos que formavam as paredes. Aparentemente embora fosse tudo terra, não havia humidades! Fantástico! Pensar que hoje em dia, com todos os meios que temos, há casas que são construidas cheias de infiltrações que demoram anos e multiplas reformas até resolver o problema!

A igreja completa o quadro encantador, depois do muro composto do mesmo material das paredes das casas. Como pode o clima tão rigoroso não destruir aquilo tudo depois de tantos anos?

A igreja é mais recente, mas é muito bonita e fica tão bem no conjunto!

Houve ali uma igreja mais antiga, do século XI, mas desapareceu. Pudera, 10 séculos naquele clima devem derrubar qualquer construção, digo eu, que não sei nada de construção antiga!

E as casas pareciam sair do chão, como pequenas colinas relvadas com janelas!

Será que se corta a relva naqueles telhados como nos campos? Ou deixa-se secar e cair até crescer uma nova?

Não pude deixar de imaginar um jardineiro maluco a cortar a relva dos telhados, assubiando e conduzindo o seu ruidoso corta-relvas!

Como seria para os miudos viverem ali, com as mães berrado “Ólafur sai já de cima da cozinha, que isso não é o relvado de um campo de futebol!” ou “menina Sigríður, faça favor de parar de cortar a franja à sala de jantar, que a chuva vai entrar por aí!”

Sim, a minha mãe também me chamava de “menina” quando ralhava comigo, e sim, fui pesquisar nomes islandeses, para perceber como uma mãe chamaria seus filhos! eheheheh

Um sitio adoravél que não apetecia abandonar…

Não podia partir sem guardar aquelas casinhas no meu diario gráfico..

O sol marcou a sua presença, mas nem por isso o tempo aquecia! Estava um frio dos diabos!

Tão depressa o sol espreitou e logo desapareceu. Uma pena, pois eu ainda queria ir a outro sitio lindissimo e sem sol, deveria ser meio deprimente!

O sitio que eu queria ver era no meio de um imenso deserto de palha!

Ok, toca a pousar a moto e caminhar. O que faz uma igreja no meio de lado nenhum, afinal? Provavelmente em tempos haveria uma série de pequenas casas de turfa por perto, hoje desparecidas.

A sua localização apenas assentuou a sua aura de mistério, Grafarkirkja, a igreja mais antiga da Islânsia. Há partes da igreja do século XVII, mas existia ali uma igreja muito antes disso.

Estava fechada, tive de espreitar pela janelinha nas traseiras para perceber como era por dentro. Tal como eu imaginava era parecida com a igreja de Víðimýrarkirkja

” Longe de tudo, no meio da bruma, eu encontrei a mais antiga igreja da Islândia… e foi um momento único na minha viagem! Construída em blocos de terra amassada com palha e coberta de turfa, ela faz parte da terra como se dela tivesse emergido um dia. Foi como estar na presença de uma entidade muito antiga e poderosa. Não há nada em volta, nem casas nem estradas, apenas ela e o longo campo verde em redor, como as entidades devem estar…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Foi uma pena ter deixado a minha caixinha de aguarelas na moto, apenas tinha levado o caderninho e uma caneta, mais para fazer anotações do que para desenhar, afinal as minhas mãos estavam muito geladas para desenhar. Mas saiu um esboço a caneta, para memória futura!

Havia gente a chegar para a ver. Fantástico, consegui testemunhar que havia vida na ilha, afinal!

Quando se fala em milhões de visitantes na Islandia, eles devem espalhar-se bem pela ilha e por todo o ano, porque quando se anda por lá, não se vêem muitos!

Por perto há localidades habitadas. Poucas casas e pouca gente, mas se considerarmos que a ilha toda tem menos habitantes que a cidade de Lisboa (bastante menos), percebemos porque não encontramos niguém a maior parte do tempo!

Hólar chamara a minha atenção, pela sua grande torre sineira. Na realidade, onde não há cidades, qualquer pequena localidade prende a atenção!

Uma pena que a igreja estivesse fechada. Percebi que ali existe uma escola superior e que aquela terra foi sede de um bispado. Não sei de onde vêm os alunos para encherem a escola, mas devem vir e ficar a viver por lá, porque não há muitas terras por perto para eles irem e virem!

Pertinho da igreja, na descida, fica a Auðunnarstofa, uma réplica de uma casa antiga da zona e que agora é o escritório do bispo de Hólar.

Aquela porta é uma obra de arte!

Eu tinha planeado ficar algures pelo caminho, num parque de campismo qualquer, mas o tempo estava uma bosta, o frio era meio terrivel e o vento insuportavel… se calhar seria melhor continuar seguindo para sul a ver se as coisas melhoravam, sei lá!

Blönduós estava a maior desolação de frio, vento e solidão!

Para além da igreja, bem original, nada me atraía para lá ficar, por muito gelada e cansada que eu me sentisse

Apenas pude espreitar pelas janelas para ver como era por dentro

Acho que me sentiria meio triste se ficasse por ali. É, o melhor era continuar seguindo, quem sabe se encontraria o sol e deixasse o vento para trás!

De alguma forma a solidão e a luta constante com o vento despertavam em mim toda a tristeza que trazia no coração.

“A concentração que o vento me impõe não afasta da cabeça o que o coração não consegue esquecer. Viajar com a angústia como companhia num país como a Islândia, é viajar ao mais intimo que as emoções podem ir. Há caminhos que me transportam através do tempo até ao infinito.” (registos de viagem)

O deslumbramento do vazio infinito era tão grande! “Não há como não me apaixonar por este país!”

Quanto mais andava mais forte era o vento! Havia momentos em que tinha a sensação de que não seguraria mais a moto de pé e que ela e eu iriamos simplesmente ser arrastadas para fora da estrada!

E de repente, quando parecia que as coisas não podiam ficar piores, fui obrigada a sair da estrada!

Estes gajos devem estar a gozar comigo! Como é suposto eu seguir por ali fora sozinha, sem saber onde vou ter, sem niguem por perto, nem casas nem pessoas, e com uma ventania infernal a ameaçar pôr-me ao chão a todo o momento? Mas as setas assim indicavam, por isso não tinha alternativa. Ainda caminhei um pouco a ver o que havia a seguir, mas não dava para ver muito sem caminhar quilómetros.

Enfim, siga e seja o que Deus quiser!

Os montes não são altos, mas eles crescem quando se começa a descer! Lá fui indo lentamente, tentando não entrar em pânico. A parte melhor é que, à medida que seguia e descia, a força do vento atenuava um pouco! Ótimo, não era tudo mau, as colinas que se formavam na descida protegiam um bocado o meu caminho. Mesmo assim, de vez em quando, o vento encanava pelo meio das rochas com toda a força e quase me virava de pernas para o ar!

Aquilo nunca mais acabava, passei por regos de água, por terra negra menos batida do que eu desejaria, por pedrinhas e gravilha. A moto já dela é pesada, com os bagulhos em cima, mais o meu peso, parecia um elefante a arrastar-se por caminhos arenosos, quase areias movediças. Mas tudo bem, os filmes de terror na minha cabeça, embalados pela minha música, não foram suficientes para me fazerem entrar em pânico total e acho que até estava a fazer boa figura.

Então, de repente, depois de uma série de grandes pedras, estavam 3 tipos de moto. Senti-me tão amparada! O ar de espanto deles foi tal que parecia que tinham visto um fantasma. Fiz uma festa, eram os primeiros motociclistas que eu via desde que desembarcara na ilha! Não pude sequer desmontar, estávamos num solo irregular e arenoso, tinha a sensação de que se pusesse o descanso ele enterraria. Eles estavam com um ar meio miserável, um deles estava todo molhado, tinha caído algures, e os outros estavam visivelmente stressados.

Perguntaram-me de onde eu vinha, onde estavam os meus amigos, se eu atravessara o rio e sei lá mais o quê. Venho de onde vocês vêm, não há outro caminho aqui, estou sozinha, sem amigos por cá, e atravessei só uns regos de água, não vi rio nenhum! Sim era um rio, diziam eles, tinham-se afligido muito a atravessa-lo e o colega caiu no meio da água, a moto enterrou e eles tiveram muita dificuldade. A sério? Não pode ser, eu fui para a zona mais estreita e atravessei muito bem, a água não era funda e eu só tive de pôr o pé ao chão para não derrapar pois os meus pneus não são próprios.

As motos deles eram mais leves, tinham pneus de taco, acho que o que lixou tudo foi o pânico coletivo mesmo! Estavam preocupados por eu andar ali sozinha, propuseram que eu seguisse com eles. Eu agradeci mas achei melhor seguir sozinha, o pânico e o medo são contagiosos e eu, sozinha, sempre me desenrasco. Não tenho de depender de ninguém para além de mim, o que me faz superar os medos e resolver as situações sem ter de provar nada a ninguém. Acho que o stress deles me contagiaria, para além de o seu ritmo não ser, certamente, o meu. A verdade é que parece que não iriam sair dali tão cedo e eu segui o meu caminho. Nunca mais os vi, devem mesmo ter ficado lá ainda muito tempo!

Vá lá, o caminho não era tão ruim assim! Eu fi-lo sem stressar! Ok, pus os pés no chão um milhão de vezes, mas isso é porque eu sou azelha e tinha uma moto com pneus de ir à missa… Depois já vinha morta de cansasso, nada de uns 200 ou 300 quilómetros, eu já devia ir nuns 500 ou mais, numa luta desigual com o vento mais violento e desamparado que eu conhecera em toda a minha vida!

E finalmente cheguei ao piso lisinho e só então pude parar e desmontar um pouco. As minhas mãos estavam pisadas, os meus braços doloridos, aliás todo o corpo doía, com o esforço e a luta contra o vento. E por falar em vento, ele estava mais forte que nunca, assim que desmontei para descansar as pernas, ele quase me deitou ao chão!

Como pode uma paisagem parecer tão serena sem que se perceba quão forte era o vento que a atravessava?

Eu vinha sentindo um calor esquisito, a bem dizer, o dia todo! Desde que saíra para a estrada que esperava que o tempo aquecesse, um pouco que fosse, mas ele nunca aqueceu muito…

Estava no meu limite e ainda tinha bastante para lutar. Acho que se o tempo estivesse quente teria sido muito pior, por isso o frio até me ajudara a resistir tanto sem cair para o lado de exaustão

Eu já nem me afastava da moto quando parava, para a amparar com o meu corpo e não correr o risco de que o vento a pusesse ao chão. Se ela caisse eu acho que me deixaria cair junto e ficaria ali mesmo, estendida no chão com ela, sem forças para mexer um dedo que fosse!

Eu parecia uma velhinha a subir para a moto, mais pendurada nela do que a subir para ela!

Vá lá, aprecia a paisagem como se estivesse um tempo sereno, afinal a beleza prevalece sobre a ventania!

Oh, bendito sol, que aquece a alma quando o corpo está na realidade gelado pela temperatura baixa há centenas de quilómetros.

Nunca achei muita piada quando me chamam de guerreira mas, naqueles momentos, era o que eu me sentia, uma guerreira, que lutava contra verdadeiros moinhos de vento, em paisagens de cortar a respiração!

Já nem tinha a certeza se chegaria a Reykjavík, o vento, agora mais forte do que nunca, batida na encosta dos montes e fazia ricochete fazendo a moto ziguezaguear. Era tão assustador!

Pudesse eu ficar ali quieta e esperar que o tempo acalmasse

Impossivel relaxar, eu contraia-me toda até me doer todo o corpo.

Eu tentava racionalizar a situação, se tinha de fazer força era com as mãos, porque não conseguia deixar de contrair-me até tudo me doer até ao pensamento? Parava um pouco a cada vez que o vento era mais favoravel, só para tentar descontrair, mas definitivamente, era impossivel.

Estava a chegar à capital, mas o parque de campismo não era lá. Ainda teria de percorrer um bom pedaço de ventania até lá chegar. Um pedaço bem terrivel por sinal, em que me seria de todo impossivel parar, com o vento a vir de todas as direções, desviado por pedregulhos e penhascos de lava, que está por todo o lado, bem em redor da cidade! Oh valha-me….

E lá cheguei, pouco sã mas salva…

Felizmente a minha tenda era facil de montar, e eu estava uma especialista na coisa, senão acho que tinha dormido ao relento estendia no meio da relva. O vento era tão forte que levava tudo consigo. Trouxe todas as tralhas possiveis para a minha beira, malas da moto incluidas, e assim que libertei a tenda do seu saco, o vento encarregou-se de fazer dela uma autentica bandeira.

Ou seguro esta coisa com força ou ela vai parar às Ilhas Faroé bem antes de eu lá chegar!

Pousei a “bandeira/tenda” na relva e segurei-a com os joelhos, enquanto punha em cima tudo o que tinha por perto, uma mala em cada ponta depois o saco mais além e por fim o capacete. Mas ele era leve e o vento simplesmente roubou-mo, e lá foi ele a rolar por ali fora como se fosse uma bola de plastico! E tive de correr atrás dele! Depois espetei as grandes estacas, que levara para terreno rijo, mas que revelar-se-iam fantásticas para ventos ciclónicos, uma de cada lado e uma aos pés e outra à cabeceira. Podia voar tudo, mas elas não deixariam que a tenda levantasse voo, Quem se riu de eu levar o martelo de borracha não estava bem informado, como eu, sobre o que poderia encontrar naquela ilha!

Depois foi só colocar o grande aro, que graças a Deus é só um, e levantar aquilo tudo ao pregar as restantes estacas e puxar as espias! 10 minutos e estava pronta e esticada para resistir àquela ventania toda… esperava eu…

Dexei-me cair no colchão e dormi, sem banho, sem tirar a roupa, sem mais nada, apenas tirei as botas e morri para o mundo…

Chegara ao fim o meu dia de luta, tão lindo quanto longo e dificil… o dia mais dificil que eu vivera numa viagem!

RIP meu querido esqueleto… ressuscita amanhã, por favor!