8 . Passeando pela Grécia/Balcãs – Descendo a Grécia até Mesolongion

26 de agosto de 2022

No dia seguinte não havia vestigios de festa naquele pátio! Fantáscico, considerando que a festa durou até altas horas das noite. Eu pude ouvir o barulho ao longe, dado que o meu quarto era no sótão, por isso do outro lado da casa.

Não havia mais ninguém, para além de mim e o dono da casa que me veio servir o pequeno almoço.

Ah, fazer um gelo pela manhã era tão reconfortante! De alguma forma era como se o meu pulso estivesse sempre febril e a sensação do gel frio era um alivio muito grande, de que eu apenas podia usufruir pela manhã! Ele ajudava a que o pulso e os meus dedos desinchassem e assim a movimentação fosse um pouco mais fácil. Já não era tarefa fácil mexer a mão pela manhã, mas com os dedos inchados era bem pior!

Sobre o meu desenho de ontem:

As casinhas trulli podem ser encontradas na região de Puglia, não é obrigatório ir a Alberobello para as ver, embora lá elas sejam às centenas.  Reza a lenda que estas casinhas eram construídas assim para enganar os cobradores de impostos de habitação, porque aqueles tetos em cone, todos compostos por pedrinhas achatadas, encaixadas em pirâmide, podiam ser desmontados em segundos apenas retirando uma das pedrinhas, e a casa se converteria num barraco abandonado. O meu desenho de ontem é de um aglomerado de casinhas trulli, que formam uma única habitação familiar.

O meu caminho para hoje era descer Epiro e Etólia-Acarnânia até às portas da península de Peloponeso e eu estava cheia de curiosidade para ver duas ou três coisas no caminho!

Fazer o percurso inverso da noite anterior foi aquela surpresa! Eu tinha percebido que junto ao porto havia muita vida, esplanadas a funcionar, carros a circular e gente pela rua, mas hoje tudo parecia bem menor e mais quieto!

O porto fica logo ali, bem acessível para quem se quiser aproximar. Acho que nunca tinha visto um porto assim, como uma praia de onde saem barcos!

Apesar do receio do que a estrada me podia reservar e das dificuldades que isso implicasse, conduzir era sempre uma alegria. Então, em vez de seguir pela costa, fui subindo os montes. Não era nada de muito íngreme, com curvas em cotovelo… esperava eu!

As perspetivas lá de cima sobre o mar são, frequentemente, mais interessantes que o que se consegue ver do pé dele! A costa grega é toda recortada e eu queria ter uma imagem abrangente sobre os recortes!

Passei em Perdika do monte, eu chamava-a assim porque há uma outra numa ilha perto de Atenas. Não havia muito o que ver por la, mas havia muita gente para me ver, eu acho! Pelo menos era a sensação que as pessoas me passavam, ao se chamarem umas às outras para me virem ver!

Parei um pouco para dar uma olhada ao largo principal da povoação que, por sinal, era um largo bem desarrumado e irregular. A igreja estava fechada, mas dava para espreitar pelo vidro da porta. As igrejas ortodoxas, mesmo quando são simples, são linda de ver por dentro.

Mas a passagem por ali não era tanto para ver as terras por onde passasse ao acaso. Eu tinha um objetivo para além de apreciar a paisagem, que continuava a ser linda, eu procurava uma terra em especial!

A rua foi estreitecendo e começou a ser cada vez mais dificil para mim conduzir por ela, porque os carros maiores atrasavam o transito e eu era forçada a usar embraiagem e mudanças de 50 em 50 metros, mas a beleza do lugar valia bem a pena!

Então lá estava Parga, com os seus rochedos/ilhotas e praias cheias de gente.

A estrada estreitinha e cheia de transito, serpenteava contornando a costa e podia ver as terrinhas lá em baixo. As perspetivas sobre a praia e a sucessão de povoados eram encantadoras.

Assim que a ruinha permitia eu parava para deixar os carros seguirem o seu caminho e para eu descansar um pouco e fazer fotos.

Eu via motos lá em baixo e a estrada meio livre, mas quando cheguei ao entroncamento que me levaria até lá, era a barafunda total, com vários carros de bebidas, enormes, a empancar tudo!

Mas não tive coragem de ir até ao centro… a barafunda de transito e pedestres desmotivou-me de meter a moto lá no meio e forçar ainda mais o meu braço que estava já a doer por todos o lado até à ponta dos dedos.

Mas não faz mal se não me meto mo meio do povoado para ver recantos, até porque deviam estar cheios de gente mesmo. Parei a minha motita num cantinho da estrada, onde carro nenhum teria espaço para parar sem empancar o transito todo, e fiz a minha pausa zen, com aquela paisagem inspiradora e o meu sumo de laranja como companhia.

Segui a bela estrada, que ora pareceia uma rua, ora parecia uma via rápida. Mas que tinha sempre paisagens incriveis!

Não é fácil saber o que estamos a ver, quando passeamos pela Grécia, mas consegui descobrir que a paisagem inspiradora que me aparecia à direita era o estuário de um rio, o Rio Acheron.

Há muita vida lá em baixo, não é simplesmente um pântano sem nada nem ninguém para além dele.

Então cheguei a Arta, a antiga Ambrácia, fundada mais de 600 anos antes de Cristo! Cheguei exatamente pelo lado da ponte, uma das coisas que mais queria ver e do mais importante que a cidade tem.

Uma cidade que, só pela sua antiguidade, me fez querer visitar para ver duas ou três coisas. Não teria de ver tudo, apenas passear calmamente e relaxar no meio da história.

A ponte foi construída para atravessar o rio Arachthos, foi restaurada e reconstruída muitas vezes ao longo dos séculos, sobre fundações romanas ou anteriores.

O seu aspeto atual é provavelmente uma reconstrução otomana do século XVII.

O rio Arachthos ou Aracto, era digno de apreciar também, com as suas águas limpidas e transparentes e margens verdes!

Tive de me sentar ali e tomar um café, porque o café é ótimo na Grécia e porque queria sentir a atmosfera do local. Adorei!

Há uma casa mesmo na entrada da ponte e motos estacionadas lá! Fiquei com pena de não ter trazido a minha motita para ali também, ela teria gostado certamente… 😀

Outra coisa que eu queria muito ver ali era a a antiga Igreja Bizantina Imperial de Panagia Parigoritissa. 

A Igreja de Parigoritissa, ou de Panagia da Consolação, estava na minha lista de coisas a ver há muitos anos, à espera que eu voltasse à Grécia, porque é uma construção que sempre me fascinou.

É uma construção do final do século XIII, ligeiramente retangular, com 3 andares e 5 cúpulas octogonais. Isso é o que se vê por fora, porque quando se entra a atmosfera é impressionante.

O interior é imponente, alto e poderoso, revestido de mármore e afrescos, ao nível da galeria, que conseguiram chegar até hoje mesmo estando ao alcance de quem passa. Estes afrescos são bem mais recentes que a construção, mesmo assim têm uns 5 séculos!

No topo da cúpula central um mosaico com o rosto de Cristo, forma um conjunto vertiginoso quando a gente olha para cima!

Eu sabia que ficaria hipnotizada quando entrasse ali. Embora já tenha visto igrejas ortodoxas impressionantes, novas, restauradas e resplandecentes, como a Catedral do Sangue Derramado em São Petersburgo, aquela tinha o poder da pedra nua e crua, que contava histórias e provocava sensações completamente diferentes.

Como se a sua história fosse mais tangível na sua pureza

As colunas que sustentam a cúpula, brancas e altas, encostadas às paredes, de alguma forma fizeram-me lembrar ossos, como se fossem as costelas do edifício! Realmente fiquei meio hipnotizada!

AS paredes traseira da igreja estão amparadas com uma estrutura de metal, como um andarilho, se ela fosse andar.

E segui para Preveza. A zona está cheia de vestígios históricos, porque perto fica a antiga Nicópolis, a cidade fundada por Augusto. Não era minha intensão visitar tudo de fio a pavio, até porque estava calor e a minha paciência para caminhar não era a maior. Mas fui logo recebida pelo Monumento a Augusto fechado!

Depois disso, à medida que seguia pela estrada paralela às muralhas, pude perceber a grande movimentação de turistas… É de doer a alma ver pessoas subirem nas coisas para tirar fotografias, sem pensarem que tudo aquilo tem para lá de muitos anos! Se os turistas continuarem a subir nos monumentos, a gravar nomes nos monumentos, a caminharem sobre muros e muralhas, as coisas vão tender a desaparecer para sempre, tudo por uma bela foto no instagram…

Amuei!

Não me apeteceu de todo caminhar por entre turistas barulhentos debaixo do sol quente. A minha mão doía, o meu pulso latejava, eu precisava de frescura, não de calor. Por isso saí das ruas principais, fui atrás do Ambracian Gulf, eu vinha a vê-lo desde Arta pela imagem do GPS .

O Ambracian Gulf tem vários nomes: golfo de Arta, golfo ambraciano e golfo de Áccio.

É um golfo fechado do mar Jônico. É como uma piscina de mais de 600 km², tem 40 km comprimento e 15 km de largura, é um dos maiores golfos fechados da Grécia e é um parque nacional. E era muito fixe passear em redor, onde não havia ninguém e tudo era frecura e beleza, só para mim!

Ainda dei uma volta na cidade, pois a ideia era seguir para a Etólia-Acarnânia por ali, mas percebi que teria de atravessar por um túnel e não me apeteceu, por isso decidi dar a volta ao golfo por Arta de novo.

É daquelas coisas que decido de repente e fico sem saber se decidi bem, pois vejo o que ganho, mas não vejo o que perdi! Paciência, se eu cá voltar farei as coisas de outra maneira, agora vai assim.

Arte urbana é uma coisa que sempre me chama a atenção.

Quando volto a passar onde passei, aproveito para captar o que já me chamou a atenção na primeira passagem, foi o caso desta estação de serviço, perto de Arta, que me prendeu a atenção por ter tudo o que uma estação de serviço tem, mas ser uma estação de abastecimento de café e não de gasolina!

No sitio onde ficam as mangueiras de abastecimento, há um balcão com bancos e, na dúvida, diz Coffe Station!

Uma das coisas que me chama a atenção em qualquer país, é a arquitetura civil que vai aparecendo pelas ruas que percorro. E a Grécia está cheia de exemplos encantadores, mas também de exemplos curiosos! Casas sem nada no ré-do-chão e tudo no primeiro andar é uma das coisas que se encontra um pouco por todo o lado.

Escrevia eu no meu facebook:

“Sr. Arquiteto, eu quero uma casa no primeiro andar.”

“Certo, e o que quer que tenha no Rés-do-chão?!

“nada! Só quero a casa no primeiro andar!”

“Ok, feito!”

São as casas sem rés-do-chão e as muitas casas com os ferros dos alicerces a aparecerem no topo dos pilares e dos telhados, dizem que é uma forma das casas não serem consideradas terminadas para efeito de evasão de impostos. Não sei se é ou não, sei que resulta estranho!

Já que estava de volta a Arta, aproveitei para dar uma volta à medida que subia a cidade, encontrei a Necropole da antiga Ambrácia

Logo ao lado fica o Templo de Máximo, o Grego. A igreja é recente, de 2016, e estava fechada, mas é bonita por fora também, cheia de cor.

Este é o primeiro templo construído em homenagem ao santo em sua terra natal.  São Máximo nasceu em Arta e é uma das figuras mais importantes do século XVI para a teologia ortodoxa, com uma reputação que ultrapassa as fronteiras gregas.  Conhecido como São Máximo de Vatopedino, ele foi descrito como um “reformador dos russos”, enquanto os próprios russos o chamam de Maksim Grek, que significa Máximo, o grego.

E fui seguindo o contorno do golfo, evitando auto-estradas e vias rápidas como eu gosto. Encontrei o rio Aqueloo  com perspectivas impressionantes

Achei muito interessantes as pinturas de murais na Grécia, frequentemente representam personagens históricas, provavelmente por ser um pais cheio de história tomam-ma como tema!

A ponte era estreita e tinhamos de esperar que uns viessem para nós irmos, uns de cada vez.

E cheguei ao meu destino Messolonghi.

A arquitectura das cidades é muito característica, como se todos os prédios fossem cheios de grandes varandas e terraços no topo.

Messolonghi é chamada oficialmente de Cidade Sagrada de Messolonghi, nome que vem do tempo em que foi palco de vários cercos sangrentos durante a Guerra da Independência Grega. No 3º cerco, depois de resistir por um ano, o povo decidiu abandonar a cidade sitiada, “o êxodo”. Poucas pessoas sobreviveram porque foram traídos nos seus planos e esse ato heroico deu à cidade o nome de santa, até aos dias de hoje.

A cidade é conhecida também porque ali morreu o poeta Lord Byron.

Ele viajou para a Grécia para lutar contra o Império Ootomano na Guerra da Independencia Grega, e por isso os gregos o reverenciam como seu herói nacional. Morreu aos 36 anos após contrair uma febre em Messolonghi.

Junto ao Portão de Messolonghi, está a impressionante Estátua da Liberdade de 5 metros de altura, de 2014.

Uma curiosa representação da liberdade, que aparece em movimento, como se impondo, e não como uma mulher seminua!

Messolonghi está localizada bem na berma da enorme lagoa de Klisova formada pelos sedimentos dos rios Acheloos e Evinos, que formaram uma barreira natural que separa a lagoa do Golfo de Patras, e por isso não há ondas, a menos que haja ventos fortes.

Na realidade a origem do seu nome vem mesmo de Mezzo e Laghi que significam “no meio dos lagos” ou Messo e Laghi (Messolaghi) que significam “lugar cercado por lagos”

A imponente porta e as muralhas de Messolongion revelam a identidade histórica da Cidade Santa. Atrás daquela muralha fica o jardim dos heróis, que ocupa uma área de 14 hectares, com enormes palmeiras, ciprestes e eucaliptos, um cemitério, onde os combatentes da guarda da Cidade Santa de Messolonghi foram enterrados.

Eu dei uma volta pela cidade de moto, mas não era ali que eu queria explorar, então fui dar à estrada da marginal onde, um pouco mais à frente, tem uma saída para a lagoa.

Há uma rua no meio da água, são 3 km de estrada até ao ilhéu Tourlida. É uma estreita faixa de terra, que foi construída em 1884 e atravessa o lado ocidental da lagoa Kleisova.

Parece que morre gente naquela estrada tão pacifica… É um habito por aqueles lados, erguer um pequeno memorial no local onde alguém morre, com foto do defunto e tudo! Ali havia dois, o que me surpreendeu, pois a rua não me puxou em nada para acelerar! Talvez por ter água dos dois lados, tão perto e sem qualquer barreira, cá no fundo a sensação era que, se me portasse mal na estrada iria parar à água!

As casinhas na água chamam-se pelades. São casas de pescadores feitas de madeira e apoiadas em palafitas, a uma pequena altura acima da superfície da lagoa ou mesmo da terra, para prevenir enchentes

Açudes dividem a água, como muros que dividem terrenos, onde se pescam robalos ou enguias e se faz piscicultura.

Pescadores percorrem os açudes de carro para se instalarem a pescar no meio da lagoa. Quase meti a moto por ali, mas depois lembrei-me que teria de fazer manobras para sair e não me apeteceu forçar a mão marota a tal exercicio.

Tourlida fica no fim da estrada da água e é uma aldeia piscatória, com casinhas lacustres encantadoras, empoleiradas sobre palafitas, onde apetece viver por uns dias, rodeada de beleza.

Apenas os caminhos são meio macacos, feitos de terra e lama! Se eu vivesse ali tinha uma moto de todo o terro, certamente!

E há uma capela muito bonita junto da estrada, a capela de Agios Nikolaos

Olhava para terra e tudo pareci tão longe, como se eu tivesse atravessado uma barreira invisivel para outra dimensão. Nem conseguia mais ver a cidade, apenas os montes!

Passear por ali era mesmo como percorrer uma realidade paralela de beleza e paz, que contrastava profundamente com a agitação da cidade.

Mas eu tinha de voltar e tinha de ir a uma farmácia comprar repelente pois os mosquitos, moscas ou moscardos, ou seja lá o que fosse, andavam a comer-me viva e eu já tinha os dedos da mão direita quase tão inchados como os da esquerda à conta disso.

Giro foi explicar o que queria a um grego, tipo preciso de “cho- cho-cho para pzzzz” isto acompanhado por gestos e sinais de abanar, voar e morder! E o homem entendeu perfeitamente.

A minha casa era um apartamento no primeiro andar. Eu tinha passado no supermercado e iria cozinhar e beber um bom vinho na varanda, que era o topo do prazer para mim naquele momento!

O cansaço era tanto que a vontade era mesmo ficar em casa e não mexer mais…

2 thoughts on “8 . Passeando pela Grécia/Balcãs – Descendo a Grécia até Mesolongion

  1. Estas magníficas fotos acompanhadas pelos textos tão ilucidativos, são uma excelente aula de história, obrigado por compartilhar.

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