11. Passeando pela Grécia/Balcãs – a tarde em Delfos e o serão em Meteora

29 de agosto de 2022

Hoje eu subiria o país e havia coisas que não queria perder de todo. Planeava mesmo passar grande parte do tempo a explora-las. Mas antes havia Atenas.

Mas o meu dia não seria dedicado à cidade. Havia coisas que eu queria ver por lá, mas não subiria à Acrópole. Ainda tinha viva a memória do calor infernal que lá passara anos atrás. Calor e turistas aos magotes, tudo o que eu não queria ter de enfrentar naquele momento!

Os gregos são muito praticos quando se trata de estacionar uma motoca, encostam-na em filinha na berma das estradas, junto aos passeios, e pronto! E ninguém parece se arreliar com isso.

Eu, como nem sou grega, nem tenho uma motoca, lá encontrei um estacionamento para motos, não fosse aparecer um policia mal disposto, que não gostasse de ver uma portuguesa fazer como os gregos na sua terra e multar-me! Afinal arranjaram-me um alojamento novo, mas sem garagem… não se pode ter tudo!

A porta de garagem que existia junto ao alojamento, bem original por sinal, era na realidade a porta de um bar, que trancada ficava com aquele ar!

Eu estava hospedada na Plaka, o coração da cidade, cheia de movimento. Não era fácil para mim andar por ali a fazer o esforço por conduzir com precisão pelas ruelas até encontrar um sitio para estacionar.

Atenas é um museu a céu aberto e, a cada vez que lá volto, exploro mais um pouco. Desta vez fiquei-me pela Plaka e as suas ruinas.

Andei a ver os chapéus, a verdade é que eu estava a precisar de comprar um novo, que o meu estava bem gasto, deformado e meio desbotado. Mas aqueles eram de palha, muito claros para mim, chapéus de verão.

A beleza em redor inspirava-me para tomar um pequeno almoço calmo e requintado, longe da confusão, da gente que passa e do barulho dos carros. Encontrei aquele sitio tão simpático e reservado, sem ser fechado, e fiquei tão contente ali.

Pessoas vieram e foram e eu calmamente no meu canto. Às vezes é preciso não ter pressa para nada e em viagem é quando sabe melhor. Já basta em tempo de trabalho, quando tenho horas para cumprir e pequenos atrasos podem ser faltas, a qualquer hora do dia!

As ruinas do antigo mercado romano parecem ruinas de um templo!

A Biblioteca de Adriano ficava mesmo ali. Não havia muitos turistas por isso podia andar à vontade. Acho que aquela hora os turistas ou estavam nas esplanadas ruidosas a tomar o pequeno almoço, ou se amontoavam para entrar em sítios mais chamativos como a Acrópole,

O edifício esteve subterrado por baixo de uma igreja paleocristã, primeiro, e séculos depois por uma basílica, até que no final do século XIX um incêndio no local deixou aparecer magnificas e enormes colunas de mármore. Então depois de grandes escavações ela foi restaurada e ficou como a vemos hoje.

Impressionante a importância que uma biblioteca tinha há tantos séculos! E pensar que hoje, século XXI, há quem ache que é uma perda de tempo e que nunca tenha entrado numa…

A minha moto tinha chamado a atenção e aqueles dois foram-se pôr perto dela, logo à minha chegada. Acho que o meu ar ao pousar a moto e colocar o chapéu não os inspirou a aproximarem-se. Mas ao meu regresso eles meteram conversa com um “Beautiful bike!”

Eu compro sempre a moto que gosto contra tudo e contra todos, mas quando alguém diz que ela é linda, fico sempre vaidosa.

E com o seu inglês macarrónico, lá me pediram para tirar fotos junto dela. E sim, ambos tinham smartphones decentes para tirar fotos, eu mesma os usei para os fotografar! Claro que também tirei uma com o meu telelé, para memória futura.

Dei mais uma volta pelo centro com a moto para ir embora e, ao passar no portão de Atena Archegetis, tive de parar um pouco para registar o momento em que a minha motita lhe passou em frente. Afinal é uma das construções mais importantes e imponentes que restam da Ágora Romana! 😀

Numa ultima olhada sobre a Ágora podia ver a Torre dos Ventos, rodeada pelas colunas de mármore, e a colina da Acropole ao fundo.

Ok, vamos ver isto tudo de longe e vamos embora.

Eu queria subir ao Monte Lykabettos, o ponto mais alto da cidade, dizem que tem 277 metros de altitude. Reza a lenda que, em tempos, ali era um refugio de lobos e que daí poderá ter surgido o nome, já que lobo em grego é “lycos”.

Há um funicular que leva lá acima, que eu nunca vi porque sempre subo pela estrada, além de que ele não é visivel da rua, pois sobe por um túnel até ao topo. Lembro-me de quando fui lá a primeira vez, guiei-me pela sua silhueta na noite e fui subindo ruas ingremes e cheias de curvas sem ter a certeza de que a minha moto, uma PanEurpean na época, passaria nos sítios onde a metia.

Desta vez sentia-me bem menos confiante, mesmo com uma moto muito mais leve e ágil. Mas as subidas ainda me angustiavam tanto!

Chegando ao estacionamento há uma série de degraus para subir e as perspetivas sobre a cidade e o próprio monte vão-se revelando.

Na realidade o estacionamento é um pouco mais afastado, eu é que pus a minha motinha num canto de jardim mesmo em frente às escadas. Os senhores que estavam lá a tratar de uma buracada qualquer acharam que era um bom sitio para eu a pôr… e eu também! 😀

A Suprema Sacerdotiza, Pitia, era a ligação entre os deuses e os humanos e, para comunicar, entrava em transe inalando gases libertados pelas montanhas (ou usando drogas, digo eu!) sendo as suas mensagens interpretadas pelos sacerdotes, acreditando-se que ela era a voz do próprio Apolo. Agora imagine-se o poder daquela mulher!

Felizmente não estava muito calor, mas mesmo assim quando cheguei ao restaurante no topo das escadas, tive de comprar uma garrafa de agua fresca pois estava a desidratar!

Lá em cima a capela de S. Jorge e a torre sineira assinalam a chegada ao ponto, como recompensa.

A perspetiva sobre a cidade, a partir dali de cima, é verdadeiramente de 360º!

A norte do monte há umas “ilhas” verdes onde eu já passara ha uns anos, podia ve-las ali de cima. Eram mais interessantes vistas de longe que no local, como acontece tanta vez!

A cidade está por todo o lado e a Acrópole, em frente a mim, na direção do mar, como a cereja em cima do bolo.

Ligeiramente mais a sul, ao longe fica o estádio Panathinaiko, imponente, um dos estadios mais antigos do mundo totalmente construido em mármore branco.

Depois há a portinha que dá para uma escadaria que leva até lá abaixo à cidade e, provavelmente, também ao funicular! Honestamente não desci muito para verificar. Tudo o que desce volta a subir e a minha moto estava no outro lado do monte, cá em cima!

No próprio Monte há um anfiteatro moderno ao ar livre, com uma estrutura metálica impressionante, onde já atuaram artistas como Bob Dylan, Ray Charles ou os Scorpions. Deve ser fantastica a sensação de estar no topo da cidade a assistir a um concerto!

Já vai sendo comum encontrar bichinhos giros no meu caminho por aquelas paragens. Fui a correr tirar o cágado da rua, só para lhe por a mão antes que ele saltasse em velocidade alucinante para a berma!

Eu não ía para muito longe de Atenas, mas precisava de todo o tempo possivel para explorar o sitio.

Segui o meu caminho, primeiro meio plano, depois começou a subir e a paisagem a ficar mais interessante. Cruzei Aráchova, um mimo de terrinha que já fica acima dos 900m.

Sempre mais interessante ver estas populações do exterior que desde as ruas que as atravessam, mas fofinha mesmo assim.

Um sitio muito oportuno para me abastecer para as horas em que não teria nada para comer ou beber!

E cheguei a Delfos…

Não posso negar que foi um momento muito especial para mim chegar ali… Delfos o “umbigo do mundo”

Reza a lenda que Zeus, o rei dos deuses, procurava o centro da terra, por isso soltou duas águias de extremos opostos da terra, voando em direção uma da outra, e elas se encontraram em Delfos. Naquele ponto foi colocada uma pedra oval, que é um formato de boas energias. Esta pedra oval chama-se ônfalo em grego, que quer dizer umbigo e daí surgiu a alcunha.

E na antiguidade Delfos era mesmo o centro do mundo, vinha gente de todos os lados para consultar o Oráculo, gente de todas as classes, desde nobres, reis e politicos até gente comum, à procura de orientaçoes, respostas a questões específicas e prever o futuro.

Depois chegaram os romanos e acabaram com aquilo tudo e pronto, o oráculo perdeu todo o interesse e a cidade decaiu!

Delfos fica encrostada na costa sul do monte Parnasso com o Golfo de Corinto no horizonte, depois do vale.

Delfos ficará na minha memória como o sítio arqueológico mais belo que vi…

Pode até nem ser, mas a localização e a carga emocional que ele teve para mim foi mais impactante que o Fórum Romano de Roma, o Coliseu ou Olympia!

Por isso dispus-me a passar ali o tempo todo que me apetecesse!

Tesouro de Atenas, uma das capelas que rodeavam o Templo de Apolo.

Havia outras, cada uma dedicada a uma cidade-estado e chamavam-se tesouros porque continham as oferendas da cidade correspondente ao deus, para comemorar as suas vitórias. Esta era a de Atenas e é a única que foi restaurada.

Aquele capitel Jonico, enorme, fascinou-me! Para ele ser daquele tamanho, a coluna que ele encimava seria meio gigantesca!

A forma como eram empilhadas e encaixadas as pedras e tijolos sempre me fascina. Como um puzzle belo e muito bem montado!

E lá estava a Coluna das Serpentes, ou a sua réplica já que a original continua em Istambul, antiga Constantinopla, para onde Constantino I, o Grande, a mudou uns 300 anos dC!

Ela era parte de um monumento de bronze em forma de coluna espiralada. Originalmente tinha cerca de oito metros de altura, hoje tem apenas seis, já que perdeu elementos. Foi erguido em Delfos como oferenda a Apolo 478 anos aC, para comemorar a vitória grega sobre os persas.

E logo a seguir estava o Templo de Apolo… ou o que chegou até hoje.

Ainda é possivel ver a sua enorme dimensão. Devia ter sido um monumento impressionante!

Acho que sentei o rabo em todas as pedras que encontrei e fui desenhando aqui e ali, sempre que havia uma sombra oportuna e ninguem em redor para me incomodar.

As perspetivas são impressionantes à medida que se vai subindo. Aquela gente sabia escolher o sitio para viver!

A perspetiva vertiginosa sobre o anfiteatro e o vale é verdadeiramente fascinante! Facil de perceber porque sempre aparece na net quando se pesquisa por Delfos!

Não sei quanto tempo fiquei sentada a olhar, mas mesmo com outras pessoas por ali a caminhar, parecia que o local absorvia todos os ruidos, e só sobrava o leve ronronar de água ao longe.

Quando visito aldeias penduradas em colinas sempre me pergunto como as pessoas faziam para subir e descer toda a encosta do monte vezes sem conta!

Na realidade aquilo subia que se fartava e os desenhos que foram feitos imaginando o povoado em seu apogeu são inspiradores, com o enorme templo de Apolo a dominar tudo e o anfiteatro logo acima. Impressionante!

Desci à rua finalmente, pois a outra parte das ruinas fica do outro lado da estrada.

Alguns desenhos que fiz:

Aquele capitel Jonico que me fascinou…

Outros desenhos do teatro ficaram só no esboço, acho que este foi o mais fofinho que fiz

O Templo de Athena Pronaia …

… está localizado a alguma distancia do centro das ruinas principais. Na antiguidade ele ficava à entrada de Delfos e era dedicado à deusa Atena para que ela protegesse o seu meio-irmão Apolo.

É, fiquei ali por horas. Podia ver o vale là em baixo e a estrada que iria percorrer ao continuar o meu caminho

estradas bem inspiradoras, por sinal!

O sol ficou para trás à medida que eu ia subindo o país. Parece que é assim em todos os países, o norte é mais dado a nuvens e tempo incerto que o sul! Será?

São aqueles percursos que ameaçam de tal maneira com uma carga de água a qulquer momento, que nem apetece parar, só para tentar escapar à chuva!

mas eu parei e segui e as nuvens passaram de ameaçadoras a assustadoras

e de assustadoras a aterradoras!

Mas se há coisa que eu não tenho é medo de chuva, por isso segui cantando e assobiando e a chuva não me alcançou até eu chegar a Meteora!

No alojamento disseram-me que não saisse pois vinha aí uma carga de água… mas eu não conseguiria ficar quieta com aquelas enormes pedras a chamarem por mim!

A primeira vez que fui a Meteora apaixonei-me pelo local, pela atmosfera, pelas pessoas e pela comida.

Dizem que a gente não deve voltar ao local onde foi feliz e eu sempre fico com receio de estragar memórias agradáveis que trago comigo. Mas então eu cheguei e tudo voltou! E foi mais forte do que eu, aquela vontade de ir lá acima conferir se tudo era como eu me lembrava.

Aquela sensação de voltar ao interior das enormes pedras, fez tudo ser tão familiar como se lá tivesse estado poucos dias atrás.

A estrada continua boa e com perspetivas de cortar a respiração!

Havia gente por ali acima à espera do por-do-sol E os do alojamento com receio que eu subisse por causa da chuva que vinha aí! Aquelas pessoas estavam a pé, de t-shirt, e iriam apanha-la toda mais facilmente do que eu, que estava de moto e poderia descer rapidamente a qualquer momento!

É tão esquisito que se pense que eu estou mais desprotegida de moto que outras pessoas a pé, não é?

Os pontos mais famosos de observação do pôr-do-sol no vale estavam cheios de gente, havia varias das famosas Vans que levam os turistas até aqueles pontos e havia eu que andava a passear, como quem confere se todos os mosteiros ainda estão no seu lugar desde a ultima vez que ali passei!

Mosteiro de Agia Tríada e aminha motita ♥

O horizonte estava a iluminar-se, provavelmente o sol iria, pelo menos, avermelhar as nuvens!

Ao longe os turistas, em cima do grande rochedo, pareciam formigas eufóricas pela perspetiva de ainda vislumbrarem o sol!

E realmente o sol espreitou um pouco no ultimo momento, como se quisesse dar um pequeno espetáculo para quem se dispôs a esperar por ele, contra todas as espectativas de chuva que o céu cinzento deixava adivinhar!

Não precisei de subir à grande pedra, afinal da rua tem-se uma visão muito parecida, só que sem ninguém em meu redor a fazer selfies!

Eu tenho uma foto com a minha PanEuropean ali, naquele sitio!

“Navegar” no meio daquelas pedras sempre me fascina e faz acelerar meu coração! ♥

Adoro Meteora e certamente esta não foi a ultima vez que lá passei…

Eu já fiz tantos desenhos lá, mas mesmo assim fiz mais uma série deles desta vez, para acrescentar à coleção!

O meu Mosteiro Ágia Tríada

Estava na hora de ir comer qualquer coisa e, se bem me lembrava, havia ali um restaurante que eu conhecia ali, eu vira-o ao subir. Da ultima vez que ali estive, fiquei por três dias, para ter tempo de visitar diversos mosteiros por dentro, e fui jantar a um restaurante perto do alojamentento nas 3 noites que lá passei.

Lembrava-me de ter gostado muito do serviço, da simpatia e da comida, por isso achei que seria uma boa ideia lá voltar.

“Quanto tempo as pessoas se recordarão de nós, depois da nossa passagem?
Estive em Meteora em 2013, com a PanEuropean (a Magnifica) cheguei de noite e vinha cheia de fome. No alojamento receberam-me com alegria, uma senhora de moto!!! Perguntei se ainda haveria algum sitio onde comer. Disseram-me para subir uns 200 metros até este restaurante, a ver se ainda me davam comida. Deram! E era tão boa que aqueceu meu coração. Hoje voltei ao mesmo sitio, a comida é de novo genial e toda a gente se lembrou de mim, do meu chapéu e da minha moto…. ( era de outra cor, não era?)” – in Facebook

O senhor sentado à porta do restaurante parece que ficou sentado ali desde a ultima vez que lá estive!

“ciao bella” tudo igual ao que me lembro! ♥

Para o jantar costeletas de cordeiro grelhadas acompamhadas do bom vinho branco grego geladinho, que delícia! Que digam os 3 gatinhos que aninharam a meus pés a ver se lhes tocava alguma coisa

A minha companhia ao jantar. Eram três gatitos novinhos, um deles era muito arisco para eu o apanhar numa foto sem plash!

Gatos sempre se aproximam de mim. Acho que sentem que eu os adoro!

E de presente um pequeno gelado, oferta da casa. O que eu gosto dos gregos! ♥

E então veio o temporal, o céu desabou sobre Metora como meteoritos, de tão grossas que eram as gotas de água. Mas só depois de eu chegar a “casa” e me sentar no alpendre a arrefecer o meu pulso febril.

Sentia-me feliz!

Amanhã sigo para norte…

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