9. Passeando pela Grécia/Balcãs – Por Olympia até Mystras

27 de agosto de 2022

O meu pequeno apartamento era muito simpático, com uma cozinha minimamente apetrechada com o necessário.

Ontem eu estava tão cansada que não me apeteceu de todo andar à procura de um sitio para comer. Passei no supermercado, ali perto, e fiz um jantarzinho delicioso, de carne grelhada com salada e, claro, um vinhinho da zona a acompanhar!

Hoje, preparei um delicioso pequeno almoço, na casa havia manteiga, doce de fruta, chá e café, só precisei de trazer o resto.

Não há nada mais agradável pela manhã do que tomar um belo pequeno almoço numa varanda virada a nascente!

De noite choveu torrencialmente, eu podia ouvir a chuva a bater nas precianas. Uma chuva estratégica que só caiu depois de eu ir para a cama e terminou antes de eu sair dela! A minha motita ainda estava toda molhada.

Hoje eu ia atravessar para Patras e depois descer a península de Peloponeso. Havia coisas que eu queria ver por ali abaixo, mas estava naturalmente mentalizada para ver o que conseguisse de populações e focar-me mais em paisagens. Passear pelo interior de uma cidade era um suplicio para a minha mão e eu não precisava torturar-me, pelo menos não pela manhã!

Tive azar, não muito longe dali a rua estava fechada, a ponte caíra, por isso era preciso seguir pelo caminho alternativo. Nada de especial se não fosse cedo demais para a minha mão estar operacional para segurar direito o guiador. Ainda por cima havia camiões a passar e depois carros… valha-me Deus, esta gene decidiu vir toda agora que eu preciso fazer isto sozinha para não ter de parar nem usar a embraiagem?

Caminhos que eu faria tão facilmente, de repente tornaram-se um acontecimento…

Tive de ir para a autoestrada pois queria atravessar a Ponte Charilaos Trikoupis, ou Ponte Rio-Antirio. Eu sei que não é mais que uma ponte, mas sempre me chamou a atenção por ligar os dois extremos de Etólia-Acarnânia e Peloponeso

Parei para fotografar a ponte e a estatua do atleta transportando o facho olímpico quase me fez querer sair e ir explorar a terrinha ali ao lado, Antirrio.

Eu queria ver a ponte desde terra, mas não sería em Antirrio. Atravessei para Patras e fui seguindo o meu sentido de orientação, furando pelas ruelas e procurando a margem do rio.

E os caminhos eram mesmo estranhos! Cheios de curvas, partes em terra batida, depois desciam e passavam à rasquinha por baixo de uma linha de comboio, voltavam a subir, obrigatório virar à esquerda, depois à direita, sempre obedecendo a sinais de trânsito esquisitos que me faziam a sair daquela ruínha por alguns metros para depois voltar a ela mais à frente!

Aqueles gregos são marados! Rompendo aquelas ruelas estreitinhas passava a linha do comboio e esse era tudo menos insignificante! Lá estava ele, sem qualquer guarda ou proteção, cada um que confie no seu instinto e na sua visão e audição apurada! Havia sítios onde até havia miúdos a brincar! Devem estar mesmo muito habituados àquilo, só pode!

E lá estava ela!

É uma ponte especial no seu estilo, uma ponte estaiada como a nossa ponte de Vasco da Gama, que tem um vão muito grande, há quem diga que é o segundo maior do mundo. E é imponente!

Depois de sair do intrincado das ruínhas que me levaram ali, a sensação era de uma imensa paz e frescura! A água era límpida e cristalina e as montanhas ao longe, inspiradoras… Enfiei as mãos na água fresca e só então processei que ela era salgada e isso fazia muito bem ao meu pulso!

Patras não me prendeu muito tempo. A minha entrada na cidade não correu muito bem, sei lá porquê motinhas e scooters enredaram-se em mim e eu tive alguma dificuldade em conduzir naquela pressão. Se eu estivesse bem das mãos não me teriam perturbado, a minha moto andava mais e eu sou habilidosa no trânsito, mas naquele momento eu só pensava que aquela gente não imaginava o perigo em que se e me punham ao fazerem-me tangentes e apertarem-me. Raios partam o “patranhences”.

Mas há coisas lindas que sempre me fazem parar e apreciar…

Patras é uma das maiores cidades da Grécia e está cheia de coisas interessantes para ver, mas é também um porto onde eu tenciono desembarcar mais dia menos dia, por isso o que não vi estará lá à minha espera para eu ver numa próxima passagem!

E segui para Archaia Olympia, onde eu queria gastar bom tempo do meu dia!

Mas como quem vai para o mar avia-se em terra, fui primeiro almoçar para depois explorar e caminhar sem o estomago a roer-se no vazio!

Archaia Olympia, quer dizer exatamente “Olímpia antiga” e sim, foi ali que nasceram os jogos olímpicos da antiguidade! E apesar das semelhanças de nomes, não tem nada a ver com o monte Olimpo, que fica lá para norte a centenas de quilómetros de distância.

Entra-se no recinto e envontra-se logo o Philippeion, um memorial circular jónico, que me chamou a atenção pela sua beleza ainda visivel e pelo seu nome, já que é um memorial a Filipe, e os Filipes sempre me prendem a atenção, ou não fosse o meu moçolio Filipe também!

De qualquer maneira é uma construção única já que é o único monumento ali dedicado a um humano.

Os Jogos Olímpicos nos tempos da Grécia antiga realizaram-se a partir de 776aC, deixando um período de pausa de 4 anos entre celebrações. Este modelo é conservado até aos dias de hoje. Eles eram mais do que desporto, representavam a paz e a nobreza da competição. O Estádio de Olímpia foi palco de todas as competições atléticas dos antigos Jogos Olímpicos, à  exceção das corridas de carros e cavalos que eram realizadas no Hipódromo adjacente

E ali estava eu, à porta do estádio!

Passar por aquele corredor onde se fez história tantos milénios atrás, tem sempre um impacto forte na gente! Pelo menos em mim tem!

E lá estava todo ele a meus pés! A gente consegue imaginar o rugido da multidão percorrendo todo aquele imenso espaço. Eu já vi outros estádios, mas aquele não é “um estádio”, aquele é “O estádio”!

Não conseguia evitar de caminhar por ali como quem caminha em solo sagrado e acho que, se houvesse turistas marados, agarrados aos pauzinhos de selfie a fazer macacadas pelas ruinas, eu me teria passado com eles!

O Templo de Zeus, ali ficava uma das 7 maravilhas do mundo antigo: a estátua gigantesca de Zeus, de Fídias, feita em marfim e ouro e com mais de 12 metros de altura. Em honra de Zeus se realizavam os jogos olímpicos e toda a Olympia antiga honrava o deus dos deuses.

Junto da base do templo podem-se ver as “rodelas” resultantes da desintegração das colunas, espalhadas pela área e, pelo seu diâmetro, pode-se imaginar a dimensão daquilo tudo quando estava em pé, porque cada rodela tem um diâmetro superior à minha altura

A Villa de Nero, fascinante a forma como as pedras e tijolos eram empilhados para construir aquelas paredes grossas e solidas!

Tecnica infalivel, a considerar pelos séculos que aquelas paredes têm, e tudo resitiu até hoje, mesmo negligenciado e abandonado! E, para além de tudo, bonito o resultado!

Palaestra, uma escola de luta corporal. Até o local onde se dava/levava porrada era bonito e cheio de colunas!

O Theokoleon, um edifício que abrigava os sacerdotes ¨Theokoles¨ e outros membros do Santuário, que eram oráculos ou que explicavam aos visitantes o ritual dos Jogos Olímpicos.

Gostava de poder voltar no tempo por umas horas, só para ver aquilo tudo antes de ter começado a cair aos pedaços. É sempre a sensação que tenho ao visitar um sitio daqueles…

Então, de repente, as nuvens juntaram-se e desataram a chover com tanta força que ninguém teve tempo de se abrigar. Eu achava que não havia muita gente a visitar as ruínas, porque o espaço é grande e não nos cruzávamos uns com os outros, mas naquele momento as pessoas apareceram correndo dos sítios onde estavam.

Não, eu não vou correr! A distancia é grande, não há nenhum sitio onde me possa abrigar, que adianta correr? Vou molhar-me toda e vou, correndo ou caminhando! Então caminhei calmamente para a entrada, onde a menina dos bilhetes tinha ficado com o meu capacete. Nem ela tinha uma cabine para se abrigar, tinha apenas um telhado reduzido!

Eu nunca tenho muita dificuldade em enfrentar a chuva, porque ela não me bate na cara, o que me permite até demorar a perceber se esta mesmo a pingar! Mas ali não era apenas pingar, era uma chuveirada bem intensa.

Instalei-me na esplanada do bar lá do sitio, que ainda ficava retirada do portão de entrada, pedi um granizado e fui relaxando e arrefecendo a minha mão febril.

Assim como veio assim se foi a chuva! De um lado o céu voltou mesmo a ficar azul…

… mas do outro continuava carregado como chumbo!

Não era a chuva naquele sitio que me incomodava, até porque já vira tudo o que queria ali. Preocupava-me se iria estar a chover assim ao longo do caminho que eu iria fazer.

Filiatra é uma pequena cidade sem nada de especial para ver, não fora cruzar com a Torre Eiffel e teria sido uma passagem sem história pela terrinha!

Claro que fui investigar como aquilo foi ali parar e descobri que foi construída nos anos 1960, por um médico greco-americano Haralampos Fournarakis, residente na terrinha. As diferenças entre a réplica e a torre original não se ficam pela altura, já que ela tem 26m para os 300m da torre Effel. Há varias alterações, mas quem a vê assim, de repente, acha-a uma replica perfeita.!

Em 2012, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, indignado com a torre grega, enviou uma carta de reclamação à UNESCO solicitando a remoção imediata da réplica

“É uma caricatura obscura e representa um ataque estético à civilização francesa e ao patrimônio arquitetónico global”, dizia ele. Mas como isso já foi há 10 anos e eu passei lá este ano e ela lá estava, deduz-se que a UESCO está-se pouco ralando para as imitações!

E uma coisa tão simples fez com que a terrinha ganhasse visibilidade e se falasse dela do outro lado da Europa, porque a terrinha não tem mais nada que se fale!

Então comecei a ver placas que avisavam que a estrada estava cortada mais à frente. Não sei como entendi, mas acho que eles vão tendo cada vez mais placas legíveis para quem não é grego. E lá tive de sair da rua mais à frente, para um desvio por ruelas mais perto do mar.

Ora vamos lá por ruinhas que passam por pequenas localidades rurais. Mas passam também por zonas de praia e turismo. É surreal andar por ruinhas de pequenos povoados e, de repente, atravessar uma zona turística cheia de carros bem sofisticados a empancar o transito que se tornou demais para a dimensão da estrada!

Cheguei a Pilos, uma terrinha na encosta de um monte, com uma baía encanadora como paisagem. E à medida que descia a rua que vai dar ao centro, podia já ver a Esfactéria, aquela ilha alongada que quase fecha a baía.

Por aquela altura eu já estava tão antissocial que não me apetecia estar perto de ninguém, sobretudo quando esse alguém eram turistas ruidosos. E eles estavam por todas as esplanadas! Tomei um café rápido e fui para o cais com a minha motita. Que bem se estava ali!

A longa ilha e seus rochedos parecia que estava tão perto, como sombras chinesas, que a gente estende a mão e alcança!

Estava um pouco de vento, mas nada que me impedisse de desenhar, tentando captar um pouco daquela paz.

E então voltei para a estrada, sem querer saber de quais caminho seriam mais rapidos ou mais recomendados, atravessei a serra para o lado de Esparta. Aquele céu não me inspirava confianças, mas eu tinha de arriscar a apanhar uma molha se queria explorar a montanha!

E lá fui.

Passava das 19 horas e o sol estava a descer… eu só esperava que a estrada não fosse ruim de todo, para o caso de eu não conseguir chegar ao outro lado antes de anoitecer!

E foi a mais bela escolha que eu podia ter feito.

A cada subida ou curva, as perspetivas de povoados e estrada eram de fazer qualquer
um parar e fotografar!

Segui sem pressas, porque é impossível apreciar algo de muito bonito a correr!

Atravessei apenas uma população, as outras que via estavam em encostas onde eu não passaria. Tinha chovido há pouco e a estrada estava molhada. Algumas pessoas ficaram a olhar a ver-me passar

A minha motita comportava-se extraordinariamente bem por aquelas ruas. Ela estava a ser uma aliada de valor, leve e fácil de manobrar, com a força certa para não me deixar stressar em nenhuma subida. Excelente.

E parei não sei quanto tempo  a apreciar o sol poente no topo do monte.

Uma ultima olhada para o lado poente da montanha e tudo era amarelo.

Uma primeira olhada para o outro lado e tudo era cor, verde e rosa surpreendentes!

Curiosidades de uma estrada de montanha, com um sinal de trânsito reciclado. mas claro que não pude deixar de sorrir imaginando um comboio a passar por ali!

O céu foi ficando mais rosa. Fez-me lembrar o por-do-sol no Mont Blanc, que deixa de ser branco e passa a ser monte rosa!

E cheguei a Mystras, onde ficava a minha casa naquela noite. Avisaram-me no alojamento que a cidade estava em festa e que eu devia lá pois tinha de tudo, comida e bebida também, claro.

Quando me disseram que a festa tinha de tudo, eu não imaginava que teria de tudo mesmo! Incluindo tendas de artigos religiosos: imagens, amuletos, musica, tudo!

Tinha até um padre a pregar com imensa gente a ouvir. Os ortodoxos são muito devotos mesmo! Não consegui fotografar o padre, aquela gente olhava para mim de lado e eu não podia provocar confusão desrespeitando-os na sua religião….

Ao mesmo tempo, e mesmo ao lado, tinha comidinha muito fixe! Leitão assado, espetadas, cerveja e musica alta! Como se consegue conciliar tudo isso ao mesmo tempo? Não faço ideia, mas estava toda a gente feliz assim!

Claro que quis experimentar um pouco de tudo, porquinho, espetadas, pão e cerveja, um belo menu!

E havia uma tenda de fazer bolinhas, como farturas, apenas a maquina cortava a massa em pedacinhos, em vez de ser em tripas, para uma frigideira gigante.  Não provei, porque enchiam aquilo de creves e açúcar e tal, e eu não gosto. Como já tinha a barriga cheia não me dei ao trabalho de perguntar se não faziam daquilo só com açúcar e canela. Mas fiquei a ver fazer.

Eu percebo pouco de bolos e doces, mas ali eram diferentes de tudo o que eu conheço. Havia fila para pedir daquilo, tipo cone de gelado, mas em waffles, com frutas e compota por cima!

Depois de curtir mais um bocado a confusão da festa, que aqueles gregos são tudo menos silenciosos, fui para casa, que o dia tinha sido longo. Por aquela altura já andava com a mão em cima da cabeça a ver se desinchava um pouco. Pensem o que quiserem, vocês são malucos e eu sou louca, por isso estamos todos bem.

É sempre giro ler o meu nome num país distante, como se eu fosse conhecida por lá! A minha porta era a única que tinha o nome, isso devia querer dizer que toda a gente chegou antes de mim.

Boa noite mundo que amanhã vou até Atenas… mas não vou a direito, isso é certo!

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