41. Escandinávia 2017 – Passeando até Giethoorn

28 de agosto de 2017

Ao tempo que eu não me passeava pela Holanda!

O país é tão bonito e me chamava há tanto tempo e, no entanto, demorei tanto a lá voltar!
Amesterdão não é a única coisa que há por ali para explorar e sempre apreciei muito mais a cidade à noite que durante o dia, por isso pus-me a léguas rapidamente, começando o meu desenho de um percurso meio intrincado no meu mapa, que duraria todo o dia.

Havia Giethoorn para visitar e todo o caminho até lá, bem cedo pela manhã. ando se sai de Amesterdão o caminho não tem muito de inspirador, mas à medida que a gente se aproxima da cidadezinha tudo se vai tornando cada vez mais encantador!

Começam a aparecer canais e rios nas bermas do caminho e as pessoas passeiam-se serenamente de bicicleta. E não há idade para se andar de bicicleta por aquelas bandas!

Então chega-se a Giethoorn, uma cidadezinha de origem medieval onde, na sua zona mais antiga, o transito se faz de barco, pelos canais, ou de bicicleta, por vias estreitas nas suas margens.

E o tempo para ali!

Estamos na chamada Veneza dos Países Baixos, mas eu chamar-lhe-ia mini-Veneza, porque tudo é tão mimi tão pequenino e fofinho que parece de brincar!

Mesmo as pontes levadiças, que atravessam pequenos canais, são pequenitas e abrem-se com um toque de mão nas suas alavancas, mostrando-me como é eficaz o sistema de abertura, que aparece já nas pontes das pinturas de Van Gogh!

As casas com telhado de colmo são acolhedoras e fazem todo o sentido no meio envolvente!

Os caminhos para cada casa são alcatroados, mas estreitinhos, não haverá mais espaço do que para duas bicicletas se cruzarem! Em contrapartida os canais permitem uma boa circulação de barcos e botes.

Como será viver ali todos os dias, numa casa daquelas e com uma paisagem destas?

E ter o nosso próprio canal, com os nossos próprios barcos ancorados à nossa espera?

Se eu vivesse ali não seria necessário o medico mandar-me caminhar, eu fá-lo-ia de boa vontade todos os dias, carregando os meus livrinhos para desenhar aqui e ali!

Recantos de paraíso!

E não estava tudo cheio de turistas, a paz sentia-se em cada perspetiva. Tudo o que se ouvia era o cantar dos pássaros!

No fim do meu relaxado passeio havia a esplanada que me recebera à chegada, sobre o canal, com uma cerveja fresquinha e alguns turistas que chegavam de bicicleta, para passear de barco.

Num ambiente sereno, de sol e beleza, que me ficaria na memória

Confesso que queria ficar ali por uma férias completas!

Fui passeando ao longo do caminho que me levaria à zona nova da cidade, sozinha em sossego

As pessoas começavam a acordar e a andar um pouco por todos os lados, alegrando o ambiente

A bomba de gasolina chamou.me a atenção, na borda do rio para abastecer carros e barcos. Tudo é bem pensado por ali!

A minha imagem parecia impressionar quem passava. A verdade é que também me impressionava a mim! Vista daqui parecia um guerreiro refletido nas montas!

Havia outras terras em mente, estava na hora de partir para mais descobertas!

(continua)

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40. Escandinávia 2017 – de Estocolmo até Amesterdão passando por Copenhaga…

27 de agosto de 2017

Há dias numa viagem em que a história é apenas sentida e vivida e aquele seria assim. A distância entre Estocolmo e Copenhaga seria apenas feito de condução e de deixar passar a estrada, porque em viagem eu só faço o que me apetece e a vontade de andar a catar em redor não era muita!

Claro que eu olho em redor, claro que não corro cegamente em velocidade, apenas não me apetece andar para um lado e para o outro à procura de nada! claro que há países onde a gente tropeça em coisas fantásticas, aldeias medievais lindas, ou cidadezinhas cativantes e aí eu nunca resisto, mas por ali as coisas não estão na berma das ruas a chamar por nós, por isso fui seguindo sem nem pensar em mais nada.

Depois há as curiosidades que apenas quem anda na estrada acha piada. Um casal de velhos que me acenava de dentro do seu carro também velhote, depois de se esforçarem por me ultrapassar e me verem o mais de frente possível, um grupo de motards que rolou comigo durante alguns quilómetros e uma estrada que se abre de repente, no meio de nada, em frente a todos nós !

Demorei um bocadinho a perceber que não era acidente nem nada, só uma ponte móvel!

Senti-me na Holanda, de repente!

Mas é claro que nem só a Holanda é cheia de canais, ali para cima o que há mais é rios, lagos, charcos e canais!

Ainda deu para dois dedos de conversa e sentir-me uma star, por estar na Finlândia a falar do norte da Noruega com motociclistas dali que nunca lá tinham ido!

Claro que aqui e ali fui vendo mais um pouco da arquitetura da zona, em Jonkoping, mas sempre sem me afastar muito da minha montada, porque a vontade não era de permanecer no meio de uma cidade!

Talvez fazer um piquenique no jardim junto ao lago, isso sim!

Dias antes um amigo do Facebook me convidara para passar na sua casa em Malmö e até pernoitar lá. Eu tinha dormida reservada em Copenhaga, mas podia passar e estar com gente portuguesa sim, porque não!

E era para lá que eu me dirigia, apreciando a infinita paz da paisagem e dos céus inspiradores!

A paz daqueles países inspirara-me tampo para permanecer na paz!

E foi um serão tão bem passado, com gente boa e conversas infinitas em português, tantos dias depois!

“Registos de viagem – 15
Tão longe de Portugal, tão perto de gente amiga! No meu caminho para Copenhaga, fui recebida como uma princesa, entre conversas a 3 línguas, num delicioso jantar como já não me lembrava de ter! O Facebook tem estas coisas fantásticas, uma facilidade de comunicação e uma rapidez de aproximação, que supera distancias e ultrapassa dificuldades, quando a gente quer! Não sei se cheguei a agradecer convenientemente …
Obrigada Carlos Nunes, esposa e amigos, foi muito giro estar convosco”

In Facebook

Naquela noite eu atravessaria a ponte-túnel, que liga a Finlândia à Dinamarca, e chegaria ao meu hostel com vontade de ficar mais uma infinidade e continuar explorando em redor… mas amanhã era dia de abandonar a Escandinávia…

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28 de agosto de 2017

Eu estivera em Copenhaga na minha ida, voltava a lá estar na minha volta…
Eu sabia o que tinha gostado e o que tinha detestado, por isso sai cedo para me escapar dos turistas aos milhões que enchiam tudo de confusão, e para me escapar também do transito meio caótico e apreciar o ambiente do cais Nyhavn, o mais solitariamente possível!

E foi possível mesmo!

Na verdade, andei por ali a meu gosto sem ninguém me perturbar nas minhas muitas voltinhas de mil fotos e alguns desenhos!

Fosse mais tarde um bocadinho e tomaria uma cerveja numa daquelas esplanadas encantadoras!

Como sempre, onde há uma ponte há a os cadeados aos montes! Enfim, coisa de turista que só turista tolera!

“Não importa quantos dias eu ande em viagem, a sensação de regresso sempre me deixa nostálgica! É a nostalgia que filtra tudo o que vejo e visito nesses regressos, não importa a que distância eu esteja de casa. Assim aconteceu em Copenhaga, tão longe e tão perto do meu país, apenas porque era o meu último dia por terras escandinavas… eu olhava tudo em redor com a despedida no olhar… “

(in passeando pela vida – a página)

E estava na hora de ir embora, não importava o quanto custasse!

O Que tem de ser tem muita força e o caminho de casa era uma obrigação, não uma opção!

O caminho que me esperava era longo e sem vontade de fazer mais nada senão… faze-lo!

Definitivamente, para quem stressa em meter a moto num ferry eu acabava de me diplomar na matéria, depois de uma infinidade deles que já fizera até chegar ao último da viagem!
A gente chega a uma portagem, como uma autoestrada, e é sempre a andar!

É só entrar num carreiro, pagar ao portageiro, seguir as indicações e pronto!

Algures um barco me esperava com alguém para me dizer o que fazer a seguir!

E do outro lado ficava a Alemanha…

…. Quanta nostalgia no meu olhar!

A minha motita cheia de terra e pó na sua última viagem através da água…

E foi sem parar que segui para a Holanda!

Às vezes é quase como arrancar um dente: já que se tem de ir embora, então siga sem muitas birras!

Que o pôr-do-sol esperava-me por lá com direito a belíssimos momentos!

Ok, vá lá, saíste dos países nórdicos, mas ainda tens algumas coisas para catar nos países do norte!

Naquela noite não jantaria, apenas petiscaria algumas porcarias, daquelas que ajudam a passar o tempo e organizar o pensamento, e que na maioria das pessoas são doçarias, mas comigo são fatias de queijo, presunto, pão e coisas afins! Afial havia um por-do-sol a apreciar!

E amanhã teria tempo para explorar a redondeza, porque a próxima noite seria também em Amesterdão!

39. Escandinávia 2017 – entardecer em Estocolmo…

26 de agosto de 2017

(continuação)

Depois de tanta calma e sossego, lá em baixo pelas estações de metro, o regresso à superfície foi quase violento! As ruas estavam cheias de gente, o transito era intenso, não havia muito para onde eu fugir e, no entanto, eu queria paz e distância da confusão.

Eu sempre tenho necessidade de paz e calma numa viagem, mas depois de toda a paz que me acompanhara por terras escandinavas, eu não estava preparada para confusões, por isso fui-me enfiar no Nordiska Museet – Museu Nórdico que, embora estivesse cercado de movimento, estacionamento repleto e pessoas aos magotes, estava sereno e fresco no interior!

O edifício é lindo por dentro e as alas de exposição muito elucidativas do mundo sueco!

E as perspetivas dos interiores eram fascinantes!

É meu costume, quando toda a gente olha para as exposições eu ponho-me a apreciar os encantos arquitetónicos dos locais!

Isto sim, é um grande rei!

Lá ganhei coragem para ir passear no meio do transito, consciente de que a agradável sensação que tivera no dia anterior poderia ser perturbada por novas sensações deixadas por tanto turista…

Mas os pormenores da cidade sempre me chamam, como as antigas cabines telefónicas, e por esses pormenores vale a pena passear e tentar ignorar as multidões.

Não havia ninguém em redor do Museu de Arte Moderna, por isso pude explorar as fantásticas esculturas de Niki de Saint Phalle em silêncio!

A minha Negrita também aprecia arte!

E as perspetivas desde a ilha de Riddarholmen também valiam a luta com o transito!

E foi o momento de mais um pôr-do-sol, cheio de nostalgia por uma viagem que me estava a levar de volta para casa… Esperei para ver mais uma vez o sol como vira do dia anterior. E estava lindo!

Muita gente vai até ali ver o pôr-do-sol, o ambiente é sereno e, de alguma forma, eu sentia que aqueles seriam momentos que iria recordar mais tarde.

Então fui para a zona história, ali perto, explorar mais um pouco e jantar.

A experiencia de chegar à cidade antiga e à zona dos restaurantes foi embaraçosa…

“Registos de viagem – 15
Hoje encontrei um grupo de turistas portugueses no centro histórico de Estocolmo, mas eram tão barulhentos e espalhafatosos, que fiz de conta que não dei por nada e passei de fininho como se fosse estrangeira! Passei duas horas depois por eles, estavam numa esplanada de um restaurante italiano aos berros uns com os outros, como se estivessem numa tasca… Destoavam tanto na serenidade do ambiente, espero que o pessoal do restaurante fosse mesmo italiano e não se chocasse por isso com a algazarra! “

(in Passeando pela vida – a página)

Aquelas lojinhas vão-me fascinar sempre, não importa quantas vezes eu lá volte a passear!

Os gnomos aos montes inspiraram-me..

E eu desenhei um só para mim!

Terminei o meu dia na Stortorget, a praça mais antiga de Estocolmo!

Foi em torno desta praça que a cidade se formou e cresceu!

Amanhã eu riria embora da Suécia e tinha tanta pena!

Nostalgia foi a minha companhia…

38. Escandinávia 2017 – Estocolmo e as suas estações de metro…

26 de agosto de 2017

Há tanta coisa para ver numa cidade que se visita pela primeira vez que é preciso ter-se capacidade de escolher o que ver e deixar o resto para outra vez! É sempre assim que eu me organizo para não ficar perdida entre tanta coisa sem saber em que direção ir, com tão pouco tempo que sobra numa viagem que já vai longa.

Mas havia uma série de coisas que me fizeram querer desde sempre visitar Estocolmo e eu não sairia de lá sem as ver: as estações de metro intervencionadas por artistas. Eu sabia que eram muitas e que algumas valiam mais a pena do que outras, mas estava disposta a visitar todas as que pudesse e me apetecesse!

E o meu dia foi feito disso, mais do que outra coisa!

Elas não são muito longe umas das outras, mas, contrariamente ao que fizera em Moscovo, onde fora de moto de umas estações para as outras, eu iria tentar apanhar o metro e ir de estação em estação, sem morrer de pavor de me perder da minha querida motita!

Desci às 9.30h da manhã e subiria às 15.30h, o que fez 6 horas debaixo de terra passeando, explorando, apreciando e fotografando e de todas as que vi, porque nem todas foram intervencionadas, e das que foram, nem todas são espetaculares, 10 ficaram-me na memória!

Eu iria começar pela estação de Kungsträdgården, junto ao jardim histórico com o mesmo nome (Jardim Real em português) onde a agitação do dia começava, e encontrei um sítio simpático e seguro para pôr a moto, já que havia parque próprio. É sempre a opção certa quando vou permanecer muito tempo longe dela, para não correr risco de multas!

Claro que antes de ir procurar a entrada da estação não pude deixar de espreitar na igreja de St. Jacobs Kyrka, logo ali. Sempre me atraem igrejas de outras religiões e aquela mais ainda, pois é dedicada ao apóstolo São Tiago Maior, padroeiro dos viajantes.

A igreja tem 4 séculos e, como demorou muito a ser concluída, conjuga uma série de estilos desde o gótico tardio até ao renascentista ou barroco. E é linda! Uma boa forma de começar um dia debaixo de terra, arejando antes as ideias com outras manifestações arquitetónicas!

E a descida era logo ali, do outro lado da praça, atravessando-a a direito!

Como quem entra numa gruta com um tabuleiro de xadrez no chão, lá estava a primeira obra de arte subterrânea gigante do meu dia!


Anda-se por ali a descobrir pormenores “barrocos” pelos cantos!

Um ambiente curioso, com personagens bizarras aqui e ali

O cais de embarque é um pouco sombrio, que aquele verde não é nada luminoso, mas o ambiente é interessante!

O meu momento de coragem em apanhar o metro e seguir na direção certa… ok, eu estive a estudar bem o mapa para não me perder, nem do que procurava nem do sítio onde a minha motita estava. Uma tarefa muito mais fácil em Estocolmo do que em Moscovo, onde eu nem conseguia decifrar direito o nome das estações!

Ao desembarcar na estação seguinte percebi logo que nunca mais me perderia, pois era a T-Centralen onde todas as linhas vão dar, por isso na dúvida até ali eu iria ter por muito perdida que estivesse!

Esta era a estação que mais chama a atenção na internet e é uma das mais bonitas no local!

Impossível olhar em redor e não me imaginar com uma tarefa daquelas: criar uma enorme intervenção artística numa estação de metro! Eu seria tão feliz com um trabalho desses em mãos!

E segui para a estação de Rinkeby T-bana…

Só hoje me dou conta de quanto tempo eu andei e explorei em cada estação! Foi muito tempo pela hora gravada em cada foto!


A estação de Solna Centrum parece toda em honra da nossa bandeira portuguesa!

Os metros paravam, o povo saia e entrava e ficava tudo vazio de novo. Uma estação nunca fica cheia por muito tempo.

Andava eu por ali a explorar, porque as áreas são bastante grandes, quando reparei que uma senhora de idade, usando chapéu preto, me observava e me seguia de perto. Chapéus sempre me atraem a atenção! Então a senhora acercou-se de mim e disse-me, num inglês perfeito

“you are a beautiful lady and your hat is beautiful!”

Fiquei desconsertada! Agradeci o cumprimento e retribui com um “devo dizer o mesmo da senhora e o seu chapéu é lindo também!”

Não tive coragem de a fotografar de frente, quando falávamos, por vezes as pessoas reagem mal a uma fotografia e eu não gosto de constranger ninguém. Mas fotografei-a quando se afastava de mim, meio em contraluz, pensando para mim “olha eu, quando for velhota!”

A estação de Akalla não é das mais bonitas, mas tem o seu interesse.

A Stadion sim, é das mais fotografadas na net, com os seus arcos-íris sobre azul impressionantes!

A Tekniska Högskolan tem pormenores curiosos!

A Tensta parece saída da pré-história

Não apenas as representações, mas também a forma como foram executadas, lembram a arte rupestre desses tempos!

A estação de Vreten impressiona quando apreciada no ângulo certo, porque os elementos perdem-se um pouco na escuridão do espaço

E finalmente a estação de Huvudsta que também precisa de atenção no ângulo em que é captada.

O verde deve ser uma cor bastante apreciada por lá!

Foram muitas horas debaixo da terra e eu tinha de sair dali. Não importava mais o que havia para ver lá em baixo, teria de ficar para outra vez. E saí para a maior confusão, de onde nem a minha moto conseguia sair sem transgressão!

Havia um evento desportivo, uma prova de ciclismo pelo que percebi, a decorrer e toda a praça Kungsträdgården fora vedada para criar o percurso em seu redor! Uns policias disseram-me que teria de esperar mais de hora e meia até poder sair com a moto!

Peguei na moto e dei umas voltar em redor e percebi que não havia saída, a área onde eu estava fora totalmente cercada por barreiras, eu tinha de transgredir ou ficar até acabar.

Claro que fui falando com os policias que ia encontrando, na minha procura de uma saída, e acabaram por me deixar atravessar a pista formada pela cerca e pôr-me a andar! Dei comigo a passar quase dentro da estação de metro onde começara o meu dia, por caminho de transito proibido e tudo! Gostei dos policias suecos!

(continua)

37. Escandinávia 2017 – de Turku até Estocolmo… 11 horas de ferry!

25 de agosto de 2017

Tinha cerca de 11 horas de barco para fazer naquele dia. Por isso eu me hospedara dentro mesmo do cais, e dormira num hostel que era um barco, assim não teria de acordar cedo demais nem de stressar a percorrer distancias entre a minha dormida e o meu transporte.

Eu nunca tive medo de andar de barco e no entanto sempre tive medo de embarcar a minha moto num! Não porque tema que o barco se afunde comigo e ela dentro, não sofro do pavor arrogante de achar que por eu ir nele algo irá acontecer! O meu medo é apenas de fazer as coisas erradas e não conseguir embarcar a tempo no momento, cais e barco certo! Que fazer? Também tenho direito a ter os meus medos!

Assim, no dia anterior passara no cais de embarque a seguir aquele onde a minha casa estava atracada e confirmara que não era ali, nem no a seguir e sim noutro mais à frente e senti-me reconfortada por ter sido perspicaz em evitar o stress de última hora que tanto me aflige!

Acordei cedo, a minha motita esperava junto ao meu cais e o ambiente era meio surrealista, afinal não é todos os dias que um cidadão comum dorme num navio com um barco de guerra como vizinho!

Fizeram-me entrar no cais e seguir para a frente, por uma linha onde apenas havia eu!

O meu ferry era todo catita e, embora estivesse a chover, não me mandaram entrar. Parecia que toda a gente entraria antes de mim. Aconselharam-me mesmo a proteger-me da chuva numa tenda, que havia ali perto.

Confesso que me senti ignorada e meio miserável, a ver toda a gente a entrar e eu a ficar. Mesmo um grupo de motos seguiu para dentro bem antes de mim! Uma injustiça, pois eu até chegara antes!

Só lá dentro percebi que, obviamente havia uma razão para a entrada por aquela ordem. A minha motita ficou sozinha depois de a parte da frente do porão estar completamente preenchida. Nem as motos que vira entrar estavam por perto sequer!

Bastou-me olhar de novo para o mapa para perceber que a viagem tinha uma “escala” onde sairiam os primeiros veículos a entrar no ferry e que ocuparam a frente toda.

Nem toda aquela gente estava ali para ir até Estocolmo!

A entrada no ferry foi a coisa mais estranha a meus olhos!

Quando a gente reserva a passagem escolhe se quer camarote ou assento para fazer a viagem a seu gosto. No entanto imensas pessoas entraram pela receção dentro apressadíssimas para descobrirem os seus camarotes, como se alguém lhos pudesse tomar se não chegassem até eles a tempo! E corriam empurrando enormes troleys e empurrando quem se lhes pusesse na frente!

Eram 8 horas da manhã, qual era aflição de irem a correr para os camarotes? Não tinham dormido aquela noite?

Eu preferi apreciar a partida, sempre gosto de saborear a deslocação de um barco, sobretudo quando vou dentro dele!

Eu tinha noção de que navegaríamos por zonas cheias de ilhas e ilhotas, mas, de alguma forma, não estava preparada para fazer uma viagem de tão longa distância sem perder terra de vista!

Comecei por ver as casinhas de uns e de outros nas margens próximas de Turku e segui vendo penedos e rochas por quase todo o tempo!

Entretanto dentro do ferry o ambiente estranho continuava! Uma banda, que me recusei a registar em foto, tocava a mais pura pimbalhada em inglês e em línguas bizarras e desconhecidas, que deduzi serem nórdicas, tipo finlandês, sueco ou ambas à mistura. E sim, o fenómeno pimba é meio universal, cada país tem a sua versão!

Uma pena, já que o melhor heavy-metal é finlandês… 😉

Escrevia eu no entretanto:

“Não entendo muito bem as pessoas! A maioria, mal entrou no barco foi comer! De onde vinham elas para estarem cheias de fome às 8.00 horas da manhã? Outras corriam para os camarotes, como se estes não estivessem reservados e alguém os pudesse ocupar ou roubar! Não dormiram de noite? Agora é meio dia e meia e está tudo a comer bolos e a tomar café! Serei a única dentro dos horários certos, que tomei o pequeno almoço antes de embarcar e agora estou a comer uma deliciosa batata recheada com frango e a beber cerveja?”

E as paisagens sucediam-se impressionantes lá fora…

A costa, fosse ela qual fosse, estava tão perto de nos que fomos acompanhados por motos de água em vários momentos!

E o imenso vazio alternava e apenas era visível de um dos lados do barco, bastava escolher de que lado sair para apreciar!

Acho que não é possível ficar indiferente a um percurso tão rico em enquadramentos com aquela beleza

Aquela travessia marcou o primeiro balanço de tudo o que eu já vivera por terras nórdicas. Foram horas de serenidade, apenas perturbadas pelos meus pensamentos humorísticos em relação ao ambiente dentro do ferry. Horas repletas de pensamentos bons, de imagens fascinantes e de saudade…

… saudade do que já vivera e não se voltaria a repetir tão cedo…

E o ferry seguia de forma impressionante por entre os milhares de ilhas que rodeiam o continente, dando a sensação, por vezes, de que o espaço não seria suficiente para ele passar!

E chegamos a Estocolmo ao entardecer!
Claro que peguei na moto e fui logo explorar tudo o que pudesse, de alguma forma conseguia ter saudades de conduzir, pelo simples facto de ter ficado todo o dia a ver a água passar!

E fui ver o pôr-do-sol na ilhota de Riddarholmen, com a Stadshuset – a câmara – ao fundo, em contraluz!

A cidade antiga de Estocolmo começa logo ali, por ruelas encantadoras onde o tempo não parece ter passado!

“Estocolmo é uma cidade fascinante, vai-se até junto da catedral e começa a viagem no tempo para trás. E as lojinhas decrépitas são tão bonitas, com a luz a incidir nas ruas estreitas, criando um clima a lembrar o Natal! Que belo entardecer!”
(in Passeando pela vida – a página)

Havia uma serenidade no ar, como se nada de mau pudesse estar a acontecer no mundo. Impossível quebrar aquele encanto!

E apesar dos muitos turistas que passeavam por ali, as ruelas não eram um frenesim como noutras cidades europeias. E eu agradeci em silêncio que a calma não fosse quebrada por gritinhos, corridinhas, selfies e coisas afins típicas dos turistas descontrolados!

A gente esperava um pouco, as pessoas passavam e a beleza dos recantos ficava toda ao nosso dispor, como se estivéssemos sós na cidade!

Mesmo as esplanadas eram alegremente sossegadas, com música ambiente que não atordoava os passantes e agradava aos clientes!

E as lojas? Oh as lojas!
Eram lindas, casas velhíssimas com as janelas a fazer de montras, muitas vezes bem altas, mas cheias de encanto, sem quebrar em nada o tradicional traçado dos quelhos!

Apaixonei-me por Estocolmo…

Felizmente amanhã ainda estaria por ali…