27. Escandinávia 2017 – Trollstigen, a estrada do Troll…

17 de agosto de 2017
(continuação)

Qualquer coisa insignificante é extraordinária quando a gente viaja atenta ao que nos rodeia, em vez de seguir correndo de atração turística em atração turística. Se o nosso objetivo não se resumir em ver o que os outros viram estamos livres para valorizar o que nos prender a atenção e isso é que eu mais gosto. Como se aquilo que eu sei que está lá para ver, porque todos os outros viram, estivesse garantido, mas o que eu descubro não! Isso “é só meu”!

Mesmo um cemitério pode ser um cenário paradisíaco…

As águas quietas de um lago sereno podem parecer um espelho e reagem à menor perturbação com ondas paralelas perfeitas…

E o paraíso fica logo ali, ao alcance do olhar! Fascinante!

A sensação era de que, ao ritmo de parar a todos os quilómetros, eu nunca mais chegaria ao meu destino, mas isso nunca é importante para mim, desde que aquilo que me prende a atenção me realize!

Não importava em que direção olhasse, tudo valia a pena registar na memória!

O meu destino ficava logo ali, naquela direção.

Mas a pressa não era nenhuma e eu continuava a para por tudo e por nada! Ok, aquilo era mais parar “por tudo e por tudo” porque até o nada é extraordinário!

E os montes era muros verticais em meu redor!

Rios, riachos, cataratas, fios de água estão por todo o lado, como se percorresse o país da água!

Estava na terra dos trolls e ali estavam elas por todo o lado e tinham mesmo direito a um sinal de transito só seu!

Um parque de campismo, mesmo ali, é um luxo! Tenho de me lembrar de acampar um dia ali!

E não falta nada em nome dos trolls, com casas de telhado de relva, trolls que anunciam gelados e comida!

Eu tinha de tirar uma foto com a minha Negrita junto do sinal de transito original!

E logo a seguir, lá estava ela, a estrada do Troll, quase impercetível rasgada em zigue-zague no monte, que mais parecia uma parede!

Espectacular!

Subi-la foi uma diversão, apenas interrompida com as paragens para tirar fotos de vez em quando.

Lá estava o longo vale entre montes vertiginosos!

Lá em cima há um Centro de Visitantes, com um caminho definido para se chegar ao ponto mais espetacular em segurança.

Muito engraçado o aviso de proibição de animais no interior: cães e trols!

O caminho contruído passa sobre um lago, por pontes de vidro. Um casal que passeava por ali com os cães estava com dificuldades pois os cachorros tinham medo de atravessar a ponte porque via a agua debaixo do chão! Então eles atravessavam os cães ao colo até à zona de cimento, fartei-me de rir com eles.

A envolvência está muito bonita com o arranjo que fizeram, em vez de deixarem o local meio selvagem.

Eu tenho sempre o habito de apreciar todas as perspetivas em vez de correr para o destino mais desejado freneticamente, como algumas pessoas estavam a fazer por ali!

E onde há natureza e turistas, há sempre os montinhos de pedrinhas, por todos os lados!

Então estava a chegar ao precipício, já podia ver a estrada que me levara até lá cima, na berma do monte.

E lá estava ela, pela encosta do monte!

O caminho não estava cheio de gente, o que tornava a sensação de aproximação do precipício mais fascinante.

Cheguei ao miradouro e fiquei quieta, como uma pulga, a olhar para o infinito!

“Tão bom sentir-me no topo do mundo, com uma paisagem tão grandiosa aos meus pés que os meus olhos nem conseguem avaliar a dimensão! E não importa o barulho, os comentários, o burburinho dos turistas em meu redor tentando fotografar-se em selfies com aquele infinito como fundo, eu senti-me sozinha no mundo! Porque uma paisagem daquelas aprecia-se em solidão e silêncio absoluto, como se tudo absorvesse e apenas ela prevalecesse! “

(in Passeando pela vida – a página)

A neve ficava logo ali, tudo parece tão perto quando estamos nas alturas!

Não tinha vontade de ir embora, tudo é tão inspirador na montanha!

Não havia ninguém na estrada, como se tudo estivesse ali só para mim.

mas eu tinha de descer por isso voltei à estrada, justamente no momento em que um grupo de motards já a descia ao longe.

Descer uma estrada recortada assim no monte é sempre muito interessante, porque se tem uma perspetiva do que nos rodeia mais vertiginosa do que na subida.

E o tempo passou tão depressa que já era hora de voltar para Trondheim, com pequenos pormenores de paisagem sempre me encantando.

Mesmo a estrada simples é fantástica!

E cheguei a Trondheim pela perspetiva mais pitoresca da cidade!

Não havia nenhuma moto no hostel, a minha negrita teria de passar a noite sozinha!

Amanhã voltaria a partir na direção do norte!

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25. Escandinávia 2017 – De Bergen até Trondheim 2

16 de agosto de 2017

(continuação)

Depois do meu longo “momento zen” em redor da igreja Borgund eu nem sabia o que me apetecia fazer a seguir, mas apenas seguir a estrada seria certamente bom, porque as paisagens são sempre inspiradoras por ali!

Não há só igrejas de madeira grandes e famosas naquele país e a uns 30 ou 40 quilómetros de Borgund encontrei a pequena igreja de Oye, uma das pequenas, antigas e lindas construções do género.
Dizem que a igrejinha, do século XII, ficava inicialmente mais perto do lago Vangsmjøse mas que o rio Rødøla inundava tudo e até desenterrava os mortos, por isso ela foi movida para ali. E o sitio é fantástico, com um cenário deslumbrante!

De qualquer maneira a igreja foi derrubada, substituída por uma nova e reconstruída de novo mais tarde, Não somos é só cá que destruímos as coisas e depois nos arrependemos e vamos tentar voltar a pô-las como eram.
As coisas que eu consigo aprender quando as pessoas escrevem as coisas em língua que eu saiba ler, heim?

E o que não faltam por ali são igrejas de madeira, mas o que me fascinava e fazia parar agora não era a igreja em si, mas o sitio onde ela estava!

Sim ela era lindinha, toda pintadinha de branco em contraste com o verde da relva impecavelmente aparada…

Até os instrumentos para jardinar o cemitério eram a condizer com o branco da igreja e o verde do chão!

Mas ao fundo do relvado havia um portão e depois a paisagem deslumbrante!

É nestes momentos que eu me perco num cemitério!

E voltei a subir um monte e desrespeitar o meu GPS que, confuso, repetia “recalculando, recalculando, recalculando”

Eu tenho sempre de ir catar onde as pessoas vivem, ver como são as suas localidades, lá onde os turistas não passam! E as ruas eram de terra batida e as casas de telhados de relva, lindo!

Confesso que quase meti a moto dentro dos jardins das pessoas, a cada vez que não havia muros e os seus caminhos eram iguais à estrada! Isto de não alcatroar as ruas faz alguma confusão quando a gente anda a cuscar nos quintais do povo!

Quando havia muros, eram espetaculares! A forma como as pessoas encaixam as tabuas de madeira entre pequenos toros verticais, permite-lhe construir uma vedação sem usar um prego! Claro que gastam muito mais madeira do que se pregassem as tabuas, mas a quantidade de casas e cercas nunca é muito grande, num país com tão baixa densidade populacional. E aquelas vedações são típicas por ali e o efeito é bonito!

Então fui percorrendo a Nasjonale Turistveger Valdresflya, uma das estradas mais bonitas da minha história!

A estrada segue entre Garli e Besstrondsæter em Vågå e oferece uma sequencia de paisagens deslumbrantes e infinitas sobre o Parque Nacional de Jotunheimen

Até o meu cérebro ficou em silêncio ao percorrer tão fantástica paisagem!

São aqueles momentos em que nem apetece pensar, apenas ficar e olhar!

E os pauzinhos de neve na berma da estrada acentuavam um leve toque de desolação!

Ao chegar a Trondheim, não me lembrando do nome da estrada, referir-me-ia a ela como a estrada dos pauzinhos!

O ponto mais alto da estrada tem mais de 1300 metros, mas como estamos num planalto não se percebe, até se começar a ver a neve tão perto do nível em que estamos!

E quando apenas faltava o toque de algumas casinhas “cabeludas” na paisagem, elas aparecerem para tornar tudo perfeito!

Cheguei a Trondheim ao anoitecer. O hostel era exatamente como eu vira no Booking, uma construção a lembrar um enorme colégio, com um imenso jardim relvado na frente e um ambiente acolhedor lá dentro. Ainda bem, porque eu iria dormir ali 2 noites!

Amanhã eu iria passear em redor e eram tantas as coisas que eu queria ver!

24. Escandinávia 2017 – De Bergen até Trondheim 1

16 de agosto de 2017

O dia parecia ir melhorar quando acordei, havia mesmo um pedaço de céu azul a espreitar sobre a cidade e eu senti-me encorajada em enfiar-me no meio dos turistas para visitar um pouco mais da cidade!

Mas enquanto tomei o pequeno almoço a coisa foi-se tornando cinzenta! Pus-me lá de cima, do jardim da Pousada de Juventude, a apreciar a cidade ao longe. Um pequeno arco iris se erguia sobre ela, mas o tempo não prometia melhorar. Eu não entendo norueguês, mas as imagens eram explicitas na televisão, prometiam muita chuva mais sobre a zona, e eu não sabia se tinha coragem de voltar a visitar a cidade vestida de astronauta, encher-me de calor e de confusão, como no dia anterior! Por outro lado, o sol estaria logo a seguir, eu podia ver as bolinhas amarelas no mapa da tv!

E enquanto arrumei as minhas coisas na moto e me equipei com os impermeáveis, a chuva ajudou-me a decidir o que fazer a seguir!

Uns senhores, que fumavam abrigados num canto, quiseram tirar-me fotos e eu aproveitei para pedir que me fotografassem com o meu telemóvel. Já que eu nunca me lembro de me auto-fotografar, ao menos que saiba aproveitar quando alguém se oferece para faze-lo!

Bergen fica num sitio muito bonito, os fiords estão logo ali, com lagos de cortar a respiração e paisagens deslumbrantes, por isso pus-me a estudar o mapa e decidi seguir para leste onde a tv prometia sol!

E foi a escolha certa, já que logo a seguir começava o céu azul, com bastantes nuvens como eu gosto, a alegrar as paisagens impressionantes!

Como iria seguir na mesma direção que tomara no dia anterior, escolhi caminhos diferentes. Fui explorando estradinhas de montanha, onde não havia transito nenhum e as localidades eram poucas e reduzidas a 2 ou 3 casas, de quando em quando.

Mas havia natureza com fartura e rios e cascatas!

Impossível seguir sem parar a todo o momento, para olhar em volta e viver cada paisagem digna de um postal bonito de uma qualquer agência de turismo!

Não é preciso procurar coisas bonitas para contemplar, elas estão por todo o lado naturalmente acessíveis a quem passe por ali!

Até as voltas que as estradas dão por ali são fantásticas e bonitas!

Paz por todo o lado, é a memória que ficou para mim!

E quando eu me sentia sozinha num mundo à parte, onde apenas havia estrada, lagos, cataratas e paisagens deslumbrante em redor…

… um lugarzinho aparecia e enchia tudo de mais encanto!

E eu voltava a parar, a ficar um monte de tempo a olhar, explorar e desenhar!

Ok, àquele ritmo eu nunca mais iria chegar ao meu destino, mas que importava se não visse sítios míticos onde toda a gente quer ir, se estava a cruzar caminhos de cortar a respiração pela sua beleza e encanto!

E por vezes era preciso olhar com atenção para poder distinguir onde estavam as casas e as localidades minúsculas, de tão camufladas na natureza.

Oh, os lagos são lindos, são tantos e estão por todo o lado!

E as casinhas com telhados de relva e musgo continuavam a aparecer, nas paisagens mais deslumbrantes!

Então comecei a encontrar as ovelhas.

No meio daquela paisagem deslumbrante, lá estavam elas, esparramadas no meio da rua.

E as meninas nem se mexiam à minha passagem! Lá estavam e lá ficavam, eu que me arrumasse se queria passar!

Deslumbramento total a cada quilómetro!

E quando parecia que a beleza não podia aumentar, os lagos aquietavam-se e formavam espelhos perfeitos, em que o real e o refletido era perfeito!

O tempo que eu demorei a passar por todo aquele paraiso…

As vezes que parei e fiquei apenas a olhar…

O desnível, entre o solo e as paredes vertiginosas que se erguiam em meu redor, quase me faziam vertigens.

Então desemboquei no caminho Flåm, onde eu passara ontem, com os fios de água caindo, lá de cima, das montanhas que formavam paredes dos lados do vale.

Hoje podia ver o fiord com bom tempo…

E era lindo!

Então entrei no Túnel de Lærdal, desde Aurland até Lærdal, por mais de 24 quilómetros.

“Depois de passar pelo Túnel Vallavik, com as suas rotundas azuis a tornar a experiência meio surreal, veio o Túnel de Lærdal… Percorrer um túnel não é a coisa mais interessante que existe para se fazer de moto, mas aquele é apenas o túnel rodoviário mais longo do mundo! Exatamente 24 quilómetros e meio de escuridão! Mas não, no meio da monotonia e escuridão, começa-se a vislumbrar um ponto de luz diferente ao fundo e uma ilha de luz e cor nos espera, a cada 6 quilómetros. Não andava por ali muita gente, mas todos os veículos que la passam param, há espaço para isso, e os efeitos inspiradores em redor despertam qualquer condutor mais cansado e fazem desejar que haja muitas mais ilhas assim, apenas para voltar a reviver a sensação.”

(in Passeando pela Vida – a Página)

 

O túnel é comum, entra-se e fica tudo igual a qualquer outro, até se vislumbrar uma luzinha azul ao fundo. A cada 6 quilómetros um espaço amplo se abre para que os viajantes possam parar e descansar e esse espaço é iluminado em tons fortes de azul de uma forma cativante.

E é claro que eu parei em todas aquelas ilhas azuis e me diverti fotografando em redor!

E não era a única a faze-lo! Pararam carros, autocaravanas, autocarros e todos quanto passavam por ali!

Ao chegar ao fim, lá estava a placa que informavam dos 24.5km de extensão que eu acabava de percorrer.

Um dia vou ter de voltar ali para fazer o caminho da montanha. Ele é muito mais extenso, com curvas fantásticas e paisagens impressionantes, mas desta vez eu simplesmente não podia fazer tudo, e como o percurso a fazer era longo eu tinha de aproveitar fazer o caminho mais rápido!
Mas as coisas fantásticas para ver para a frente eram tantas que não importava as que ficavam para trás por ver!

Agora eu estava junto da Estrada do Rei em Galdane, Lærdal

A Estrada antiga tem trajetos impressionantes, íngremes e acidentados, percorrendo montes e vales.

E as cascatas caem ao lado e correm para o rio de corrente forte.

Do lado do rio, a estrada que percorro é impressionante também, com o forte som da água a ecoar de forma quase ensurdecedora!

E as casinhas parecem de brincar na encosta, como casinhas de brincar.

Vêem-se vestígios de caminhos e pontes de madeira arruinadas. A vontade era segui-los e desvendar as montanhas históricas que eles percorrem, mas não havia condições!

Percursos de Borgund…

Onde pequenas localidades se tornaram em pequenos museus ao ar livre, testemunhando modos de construir e viver de outros tempos.

E lá estava ela, a bela igreja de Borgund!

“Chegar perto da igreja de madeira de Borgund foi uma sensação fantástica, afinal estar junto de uma construção com mais de 8 séculos é sempre impressionante! Dizem que foi construída no século XII e que não sofreu alterações nem adaptações em toda a sua existência. É das mais bem preservadas das 28 igrejas de madeira da Noruega e a sensação é de que ela é mais que uma igreja, é uma entidade, como uma alma antiga que se mantem solida e acolhedora, numa paisagem que a enquadra e valoriza com a serenidade e a paz da natureza!”

(in Passeando pela Vida – a Página)

Linda em todos os ângulos!
Não a visitei por dentro, apenas andei por ali, observando-a calmamente e registando, na maquina, no livrinho de desenho e na memória, tudo o que pudesse!

Quanto tempo estive ali? Uma eternidade e ficaria ali uma segunda eternidade se pudesse… mas tinha de seguir para norte…

A Nacional Scenic Route Valdresflye me esperava a seguir, uma das estradas mais bonitas que percorri até hoje…

(continua)

 

23. Escandinávia 2017 – Bergen, Flåm e a chuva

15 de agosto de 2017

Finalmente a chuva apanhara-me!
Aos dias que eu estava à espera de a encontrar e lá estava ela a lixar-me o dia todo! Afinal Bergen é a mais chuvosa a cidade da Europa onde, segundo estatísticas, chove em 300 por ano!
Enfim, só me restava passear pela bela cidade de Begen, já que visibilidade seria pouca para andar a passear de moto em busca de paisagens meio invisíveis no meio do temporal. Uma pena!

Dizem que Bergen é a cidade mais bonita da Noruega e deverá ser também a mais turística! Pelo menos a sensação era de que toda a gente que visitava o país por aqueles dias estava concentrada lá!

E o quarteirão de Bryggen é o mais antigo e típico da cidade, e estava na maior confusão de gente a fotografar, explorar e preencher todos os pequenos recantos.

As casas de madeira, pintadas em cores fortes, são um encanto. Mantêm-se até hoje como testemunhas únicas de um dos mais antigos grandes portos comerciais do Norte da Europa.

Mesmo com a confusão de gente e o tempo húmido fiz um registo ou dois, enquanto me ia apercebendo que a quantidade de gente por ali só iria aumentando e nunca diminuindo!

Por entre as casinhas os caminhos parecem corredores do tempo que nos levam para trás uns 3 ou 4 séculos.

Os telhados quase se tocam, lá no topo, e tudo é de madeira antiga em redor.

As velhas casas do cais forma convertidas em lojas o que permite visita-las por dentro ou, pelo menos, espreitar pelas janelas. Passeia-se pelos caminhos de madeira como se passeia por ume museu ao ar livre!

Depois há os pequenos largos calcetados que me faziam caminhar mais à vontade, sem aquela sensação de estar a pisar madeira antiga que, inevitavelmente, se vai desgastando com tanto pisar.

Atrás das casas de madeira ficam os antigos armazéns.

E anda-se por todo o pado explorando corredores, subindo escadas, percorrendo balcões e alpendres.

Tão difícil encontrar um recanto sem ninguém por ali e tão bonitos são todos eles, assim, vazios!

A multidão adensara-se e eu não tinha mais vontade de andar por ali a acotovelar-me como tanta gente. Acho que o mau tempo fazia com que as pessoas se amontoassem pelas ruelas, num refugio encantador que se tornava demasiado estreito e pequeno para tanta gente, e assim as coisas perdem a piada e tornam-se desconfortáveis, por isso com imensa pena afastei-me.

Fui caminhando por ali, tentando ver as coisas de outros ângulos onde ninguém se metia. E sim, por ali tudo é bonito!

Foi quando consegui apanhar uma moto de instrução mais em pormenor. Eu já vira varias, mas não conseguira ainda confirmar alguns pormenores curiosos, como o guiador na parte traseira da moto, para um instrutor poder controla-la a partir do lugar do pendura! Fantástico!

Ainda dei uma vista de olhos à igreja, mas desisti logo a seguir! Mau tempo e milhares de pessoas em todo o lado estava a tirar-me a vontade de andar por ali, como me passeasse no meio de tanta gente! Não iria fazer fila para subir no funicular até ao fiord, não iria fazer fila par fortaleza nem igreja!

De repente só me apetecia sair dali e voltar a encontrar-me com o mar e com os lagos. Como eu me sentir abem até ali no meio da quietude e como apenas me apetecia continuara no mesmo ambiente! Por isso peguei no mapa de decidi partir na direção onde chovia menos!

E os lagos e os fiords estavam logo ali!

E toda a paz a que o país já me habituara!

E não havia nada mais reconfortante e agradável do que fazer um picnic junto a um lago só meu, mesmo com alguns pingos a refrescar e a regar o ambiente!

Oh Bergen, prometo que voltarei para te dedicar toda a atenção, mas agora a beleza está toda na natureza, para mim!

E o céu carregado enchia tudo de mistério e fantasia!

Apesar de ter o fato de chuva vestido e de nunca o tensionar tirar, fui seguindo na direção da luz, esperando que o tempo não estivesse terrível e a visibilidade se mantivesse para me permitir ver algo no horizonte, que não apenas chuva e nevoa!

E, se tudo o que eu visse fossem lagos e montes, eu seria feliz!

“A dimensão dos fiordes perde -se, quando não há pontos de referência e não se entende muito bem o quanto são altos. Então caminho um pouco e apercebo-me do quanto tudo e grandioso pela pequena dimensão da minha moto ao longe. Um ponto insignificante junto de toda a grandiosidade. Precisava de todo o tempo do mundo para descobrir os segredos desta imensidão…”

In Passeando pela vida – a Página

Confesso que me sentia uma criança num parque infantil de tão feliz que estava por ali, sozinha, a explorar o que me surgia sem pensar em mais nada nem ninguém!

Os fios de água caíam de qualquer monte, como se jorrassem de paredes, em perspetivas irreais!

A vantagem de se andar por tais caminhos sozinha é que eu posso parar as vezes que quiser, caminhar em redor, fazer fotos aos milhares e desenhar tudo o que me apetecer, sem me afligir com nada nem ninguém! É a sensação mais próxima da liberdade absoluta, estar por conta própria!

“Aquela paz cativou-me tanto! Mais que os sítios incontornáveis, onde toda a gente vai, o silêncio e a imensidão preencheu o meu espírito e o meu coração e eu parava no meio da chuva, como quem pára no meio de uma catedral imensa, sem querer ir a mais lado nenhum, apenas ficar…”

In Passeando pela vida – a Página

E fui dar ao fiord de Flåm!
Há muitos cruzeiros a partir ou a chegar ali a todo o momento, eu podia vê-los ao longe.

E, no entanto, não havia ninguém nas ruas!

Naquela altura eu não pensava na chuva há tempos, embora ela continuasse a cair certinha! E parava, sem nem tirar o capacete, para me deslumbrar mais uma vez e outra!

Cheguei a Aurlandsvangen debaixo de chuva…

Era mesmo disso que eu estava a precisar, uma cidadezinha para explorar e esquecer a porcaria da chuva que não me deixava em paz! Comecei logo enfiando-me na igreja para dar um pouco de paz ao corpo, para me aquecer e secar!

A Vangen kirke é uma igreja do séc. XIII fantástica! Um gótico fascinante, porque me fascina descobrir como eram as coisas noutros países ao mesmo tempo que no nosso!

Aquele é uma das mais antigas e mais bonitas igrejas de pedra do país!
Fascinante!

Cá fora o campanário de madeira era encantador e tinha o nome mais esquisito que se possa imaginar! Fui eu abrir a net para entender o que queria dizer Klokkestøpul para perceber que não era mais do que torre sineira!

O tempo não melhoraria, por isso fiquei por ali passeando e descobrindo pequenos encantos da cidadezinha.

E sim, eles secam bacalhau como nós, não o comem apenas fresco!

As casinhas eram tão lindinhas, de madeira pintada em cores vivas e pormenores verdadeiramente “mimis” nos jardins muito verdes!

Depois havia os caminhos entre as casas, em terra batida que, embora parecesse um contrassenso combinava perfeitamente com o encanto natural de cada local!

E o cuidado com os pormenores faziam cada jardim parecer um pedaço de sonho!

Logo ali ficava o fiord!

O tempo chuvoso dava-lhe um toque de mistério majestoso que quase intimidava!

O tempo que eu fiquei ali a olhar! Não valia a pena subir até ao miradouro, que visibilidade não seria boa, mas valia a pena apreciar todas as perspetivas possíveis até o alcance do olhar o permitir!

O regresso a Bergen foi feito de paragens por tudo e por nada em todo o lugar!

Passei pela pequena aldeia de Flåm, “terra plana”, que fica no extremo interior do Aurlandsfjorden e deve o seu nome ao facto de ser plana no meio de montes. Tinha de ver o ponto de partida de tanto ferry e cruzeiro famoso!

As perspetivas são vertiginosas a partir da aldeia!

E os barcos, barquinhos, cruzeiros e ferrys não param de chegar e partir!

O ancoradouro chamou-me mais a atenção do que a ideia de embarcar também. Tudo bonito e simples, como se se tratasse apenas de um pequeno ponto de partida para barquitos de pesca! Fascinou-me a forma como mantem a simplicidade das coisas, mesmo em pontos onde passam pessoas de todo o mundo a todo o momento!

Não há muitas estradas por ali, mas há sempre aquela que é quase um carreiro quase invisível que chamava a minha atenção e por onde eu ia metendo a moto!

Por momentos eu nem sabia mais se teria saída ou se iria desembocar num quelho de terra batida e lama, sem saída!

De qualquer maneira isso nem era importante, pois o que eu visse até lá teria valido a pena de qualquer maneira!

E a coisa mais curiosa era encontrar montes com neve tão baixos! A sensação era de que tudo estava ao alcance de quem quisesse caminhar apenas um pouco!

E voltava a parar e a ficar hipnotizada a olhar. Tudo era tão bonito que, por aquele andar, eu nunca mais chegaria a Bergen de novo!

Cataratas na beira da estrada, tudo normal para aquele país!

E sem turistas aos magotes em gritinhos e corridinhas de selfie em selfie! Tudo normal para aquele país!

Casas com uma catarata no quintal! Tudo normal ainda!

Um dia de chuva muito especial, sem duvida!

Quando cheguei a Bergen a cidade continuava na maior luta com a chuva desde de manhã! Definitivamente passear fora a melhor decisão que eu tomara, porque ficar por ali todo o dia teria sido uma frustração!

Amanhã seguiria para norte com a certeza que um dia iria voltar ali!

22. Escandinávia 2017 – De Evje até Bergen

14 de agosto de 2017

Claro que no dia anterior eu não chegara a tempo de comprar cerveja, por isso resignei-me a acompanhar o meu jantar, mais uma vez, com sumo de laranja. Nada a fazer, simplesmente eu não voltara a correr para chegar antes das 6.30h, por isso pus-me a grelhar salsichas, que por aqueles lados são deliciosas, e a imaginar como seriam tão melhores com uma bebida de jeito.

Lá fora estava um frio de morrer, mas decidi jantar no alpendre, tinha de desfrutar uma ultima vez daquele ambiente fantástico.

Foi quando o meu vizinho, que aparentemente passava o tempo a beber cerveja, chegou com dois packs delas nas mãos. Ao passar junto do meu minúsculo Bungalow, ofereceu-me uma cerveja. Acenei que sim com a cabeça. A verdade é que eu estava apenas a entrar na brincadeira, mas ele veio mesmo trazer-me uma belíssima e geladíssima lata de cerveja! Claro que cada um oferece o que tem e eu tinha café, e até os olhos se lhe riram quando lho ofereci, quentinho e fumegante.

Por isso a memória que tenho da ultima noite em Evje é de estar a beber cerveja e oferecer café em troca, com o luar a iluminar o ambiente em redor!

O dia seguinte amanheceu solarengo de novo. A sorte estava do meu lado, muitos eram os relatos de chuva persistente por aquelas bandas!

E o meu pequeno bungalow era tão “mimi” que nem apetecia ir embora! Tomar o café da manhã num ambiente daqueles era um privilégio!


E lá estava o vizinho a chegar com mais cerveja! Seguramente o homem estava a passar ali uns dias muito cervejolas!

A parte mais difícil de uma viagem é seguir caminho, quando apetece ficar. É nesses momentos que eu ponho em pratica a minha capacidade de fazer promessas a mim própria, e é com um “eu vou cá voltar” que lá vou seguindo o meu caminho.
Havia tanta coisa que eu queria ver até chegar a Bergen que partir não foi o fim do mundo, mas havia mais surpresas e preocupações do que eu poderia esperar.

Os lagos são lindos a qualquer hora, mas ao amanhecer são quietos como espelhos e fazem reflexos perfeitos

E estes momentos anónimos eram muito mais importantes para mim do que ir a correr de ponto turístico em ponto turístico!

Afinal os lagos em espelho eram uma das coisas que eu queria ver na Noruega!

E não me conseguia impedir de parar em todos e qualquer um!

Pormenores que me iam mostrando, a cada momento, que não estava num país qualquer!

Estava no país das casinhas cabeludas e elas estavam sempre a aparecer no mau horizonte, lindas!

“Os imensos espelhos de água são a mais extraordinária memória da Noruega que trago comigo! E por essa memória voltarei, à procura de um amanhecer, quando a brisa não se faz sentir ainda e nada perturba o silencio das águas, quando o mundo parece parar num segundo apenas de contemplação. A quietude sempre me fascina e encanta…”

In Passeando pela vida – a página

E as estradas eram tão inspiradoras!

“Seguindo por entre lagos de impressionante beleza, ao longo do vale de Gyadalen, uma ponte incomum completa de repente o quadro de perfeito fascínio. Diz-se que a Terland Klopp é a ponte mais longa e melhor preservada do seu género na Noruega e hoje está ali para encantar, pois já não é usada. E encanta mesmo! Não havia ninguém por perto, parei a moto e fiquei quieta, apreciando o momento feito do ronronar das águas e o silêncio da natureza em redor. E um momento anónimo numa grande viagem permanecerá para sempre na minha memória…”

In Passeando pela vida – a página

Ao longe a perspetiva do lago Ørsdalsvatnet, entre grandes muros de pedra, era surreal

“Eu podia fazer um álbum totalmente dedicado às estradas que me fascinaram, e ele nunca mais teria fim! Não são as estradas famosas, nem aquelas onde todo o motociclista quer ir, são as anónimas, que me aparecem sem contar entre um destino e outro, e me fazem parar e respirar fundo e pensar que só por aquele pedaço de caminho já valeu a pena sair de casa! Algumas fizeram-me ficar muito tempo, como quem contempla um monumento e não tem vontade de ir embora, outras fizeram-me prometer a mim própria voltar, outras ainda me fazem sonhar hoje, muito depois de voltar…”

In Passeando pela vida – a página

São incontáveis os lagos que acompanham qualquer percurso!

E as paisagens tão variadas e imprevisíveis que me perdi no tempo visitando mais um pouco, indo mais longe ainda.

E o meu trauma com ferrys ira desaparecendo a cada vez que a estrada se transformava num e tudo era tão fácil como apanhar um autocarro e seguir caminho!

E as perspetivas desde o mar são sempre tão inspiradoras e diferentes que só por isso já vale a pena embarcar!

Eu estava no caminho de Preikestolen e toda a paisagem me inspirava a caminhar pela montanha até ao famoso rochedo, por isso fui-me dirigindo para lá, sempre presa às paisagens que me faziam tirar fotos em catadupa, como se nada fosse verdadeiramente capaz de captar tanta beleza ao mesmo tempo… e não conseguia mesmo!

Mas se a inspiração era muita, a chegada ao local converteu-a imediatamente em frustração!
Era tão grande o movimento e a multidão, de uns que chegavam e se equipavam para subir a montanha, de outros que se desequipavam depois de voltar lá de cima e de muitos outros que se amontoavam por ali a comer e a conversar…

Não sei de onde toda aquela gente saiu, mas tão depressa parei a minha moto e ela já estava presa com uma série de outras atrás!
Nada nos caminhos que fizera me preparara para aquela confusão e ambiente e eu detesto que me prendam a moto, por isso dei meia volta, enquanto os donos das motos atras da minha ainda estavam por ali, meio em cuecas a equipar-se para caminhar até ao rochedo, para me deixarem sair e pôr-me a milhas…

Não me importava mais de não ver coisas espantosas, se elas estavam repletas de pessoas, e só queria voltar à paz dos caminhos sem ninguém, longe das rotas famosas, longe do mundo povoado!

Oh, aquela paz importava-me muito mais e enchia-me de serenidade de novo!

E fui improvisando, à descoberta de paisagens de paz!

Tão melhor ver os aglomerados de longe!

Já não importava mais se estava a caminho dos pontos imperdíveis, porque imperdível é a paz que eu transporto dentro de mim quando tudo o que quero é explorar paisagens e não multidões!

Claro que sair da rota turística tem o seu preço, e naquele país mais ainda, porque os ferrys mais concorridos funcionam como pontos de autocarro que se tomam facilmente, mas os anónimos fecham cedo. E dei comigo a encontrar impedimentos atras de impedimentos, com ferrys encerrados às 3 horas da tarde que me obrigaram a dar “ a volta ao mundo” para seguir para o outro lado!

Cada vez que um ferry fechou a volta a dar pode ser enorme e os quilómetros a fazer podem duplicar! E foi o que me aconteceu ao dar comigo a ter de percorrer mais de 300km para dar a volta por terra, em vez de seguir a direito, desde Eide para seguir para norte, a caminho de Bergen sem fazer mais ferry nenhum.

As coisas podem tornar-se verdadeiramente ruins se a paisagem não for interessante, quando a volta é assim subitamente grande, e o caminho a percorrer é obrigatório e nem tanto uma escolha deliberada, mas felizmente por ali tudo tem a sua beleza e o dia é longo!

As estradas, então, são só por si como monumentos a apreciar, apesar de não se poder acelerar muito para se ganhar terreno. Resta então andar e apreciar!

Por vezes perde-se a noção de se o que vemos é mar, rio ou lago, mas para mim tudo eram firods, mesmo que não fossem!

E ao chegar ao extremo de cada “rasgão” na terra, podia perceber a perspetiva em fiord, já que estes se formam com as entradas de mar. Lindo!

“Quantas coisas mais eu poderia ter visto se não parasse a todo o momento a olhar em redor! Mesmo quando essas paragens se prolongavam por longos minutos e a consciência da distancia do meu destino se tornava mais forte, era-me, por vezes, difícil ir embora. Nesses momentos o meu lado inconsciente sussurrava-me ao ouvido “deixa para lá, vive o momento que o resto depois vê-se!” e hoje, se por um lado percebo o quanto não vi, percebo também o quanto vivi, longe de tudo e de todos, olhando para o que ninguém tem tempo de olhar e isso faz-me sentir orgulhosa do tempo que perdi!”

In Passeando pela vida – a Pagina

Quanta beleza e ninguém na rua para além de mim!

Claro que me ia mentalizando para a aproximação dos pontos cheios de turistas logo a seguir, mas cada momento que me era possível parar, aproveitava mais um bom momento de paz e solidão de rara beleza!

Em vários momentos eu dera comigo a associar algumas perpetivas da paisagem com as paisagens escocesas e me questionara se não haveria por ali vaquinhas cabeludas. Claro que pensara na hipótese como uma brincadeira minha, considerando que o clima também tem semelhanças, mas não estava de todo a contar encontra-las realmente! Qual não foi o meu espanto quando as minhas divagações se realizaram! Claro que parei imediatamente para ver de perto as vaquinhas que mais aprecio! Oh fofa, ainda hei-de fazer festinhas num pelo desses, quando vir uma mais perto da estrada!

E nos meus “vai e volta”, encontrei monstros estacionados nas águas de Ølen! Tal como quando os encontrei na Escócia, a sensação era de coisa errada, choque na paisagem, incompatibilidade com a beleza envolvente!

Deve ser surreal a sensação de se viver numa paisagem tão bonita poluída com a presença de tamanhos objetos intrusos!

Contrariamente ao que eu temia, não havia muita gente quando passei em Odda e a perspetiva da rua à chegada era como eu queria que fosse!

A Låtefossen é uma catarata espetacular! Pode ser perfeitamente apreciada da estrada que lhe passa por cima, numa ponte com diversos arcos, onde toda a gente para! E claro que eu também parei!

Impossível não ficar ali, meio hipnotizada, a apreciar a água a correr e a repartir-se e a voltar a juntar-se, enchendo tudo de spray e do seu barulho!

E a paz continuou a acompanhar-me! Não havia uma brisa no ar que movesse aquelas águas e não havia ninguém nas ruas também. O meu receio de cruzar com multidões não se realizou, acho que toda a gente estava já recolhida e apenas eu continuava a passear! Que bom!

E tal como me haviam falado, lá estava o túnel colorido à minha espera!

O túnel de Vallavik não é um túnel qualquer porque tem a particularidade de ter uma rotunda no meio, que permite mudar para um outro que cruza com ele.

A ideia de o iluminar de forma tão criativa é simplesmente genial! Impossível passar por ali sem ver a rotunda! É dividido em duas partes por uma ponte e do outro lado tem uma nova rotunda azul! Uma animação conduzir num túnel assim!

Ainda era de dia quando cheguei a Bergen. Um dia meio ranhoso, com chuva, frio e muita humidade no ar, mas com visibilidade suficiente para se perceber um pouco da dimensão da cidade.

Pronto, a chuva apanhara-me e o dia seguinte prometia uns 80% de humidade… o melhor seria ficar quieta a passear pela cidade em vez de ir para longe à chuva!