15. Passeando pelos Balcãs… – Uma pausa em Zagreb!

10 de agosto de 2013

E foi este mais um dia de pausa no meu caminho.

Depois de tanto calor, de uma série de quilómetros já percorridos e de muita coisa já visitada, era hora de parar, como um tomar balanço para entrar definitivamente em terras mais desconhecidas, pois afinal, a partir da Croácia iria percorrer uma série de países nunca antes visitados por mim!

Estava de novo muito calor, definitivamente ainda não passara o inferno dos quarenta e muitos graus!

A cidade é muito bonita, voltei a passear pela Cidade Alta ou Gornji Grad, porque não iria andar de moto naquele dia. Tinha de descansar as mãos!

Perguntam-me frequentemente se eu não fico arrasada das costas numa viagem tão longa, ou se não me dói demasiado o rabo, de conduzir tanto tempo por tantos dias! Não, as costas nunca me doem! Não sofro da coluna e conduzo muito direitinha o que, com a ajuda da cinta que uso sempre, me faz sentir sempre confortável mesmo depois de todos os 17.000 km que fiz! O rabo de vez em quando começa a querer doer, mas basta mudar um pouco a posição no banco e passa, para isso é que serve o banco de gel afinal!

É das mãos que eu sofro mais! Tenho as mãos muito frágeis e conduzir, eternamente agarrada a um guiador, chega a ser doloroso! E não há forma de conduzir sem mãos, ou apenas pousando-as levemente do guiador, como se faz num carro, por isso há que aguentar, trocar de luvas regularmente e descansar de vez em quando!

Desta vez, ainda por cima, levava o dedo polegar direito incapacitado o que dificultava, não só a condução, como o desenho! Mas mesmo assim fiz alguns desenhos muito bonitos! A minha teoria é que, se eu ficar sem um dedo não deixarei de ser quem sou, por isso fiz tudo o que gosto de fazer, apesar da dor, apesar da dificuldade!

E foi o que andei a fazer por Zagreb, a passear, a petiscar e a desenhar! Um dia para prazeres sem moto!

A Trg bana Jelacica é a praça central da cidade onde tudo parece ir dar, autocarros, táxis, metro de superfície! Testemunha de grandes episódios da história da cidade e do país! Lá estava a estátua equestre de Ban Jelacic o libertador da Croácia do poder da Hungria!

A fonte Mandusevac esteve subterrada por muito tempo, desde que ao pavimentarem a praça no séc. XIX a cobriram. Há apenas 20 ou 30 anos descobriu-se que ela estava lá, debaixo do chão, enterrada e voltaram a traze-la à superfície!

Está ligada à fundação da cidade e a sua água é potável! Há várias lendas sobre ela, uma diz que se atirarmos uma moeda para as suas águas os nossos desejos serão realizados, outra diz que se bebermos da sua água nunca mais esqueceremos Zagreb, até ao fim da nossa vida!

Ali ao lado encontrei uma livraria com uma publicidade que me despertou a atenção! A Gabriela chegou à Croácia! E a publicidade dizia:

“Gabriela, klincic i cimet
uzbudljiva knjiga najpopularnijeg brazilskog klasika
slavi zivotnu radost i neobuzdanu senzualnost”

Que é o mesmo que dizer:

“Gabriela, cravo e canela
Um livro emocionante dos mais populares clássicos brasileiros
celebra a alegria da vida e da sensualidade desenfreada”

Aprendi croata num instante! eheheheh

E dali embrenhei-me pelas ruínhas pitorescas e frescas, sobretudo frescas, que o calor era impiedoso!

Que coisa linda as ruelas cheias de esplanadas e guarda-sóis e gente simpática e sorridente!

E cerveja fresquinha a acompanhar uma série de desenhitos simples, sobre pessoas e ambientes!

Há recantos por ali que mais parecem de brincar de tão “mimis”!

A torre da Igreja de Stª Maria, (Crkva Sv Marije) que fica acima, junto ao Mercado Dolac, podia-se ver por cima dos telhados das casinhas!

E pelas nesgas, que eram as ruelas transversais, a catedral impõe-se, com a torre já restaurada e destapada bem visível cá de baixo.

Subi até ao Mercado de Dolac. Afinal eu nunca o tinha visto sem atividade! Fui recebida pela estátua em bronze de uma feirante a quem tinham acrescentado um ramo de flores à sua carga!

Voltei à catedral, já que no dia anterior estava em missa quando lá tentei ir.

E estava de novo em missa! Valha-me Deus, são muito misseiros os croatas! Valeu pelo fresquinho que se fazia sentir lá dentro!

Ok, ok, já sei que não posso tirar fotos quando as igrejas estão em oração, mas pelo amor de Deus, eu só vou voltar cá daqui a não sei quantos anos, deixem-me pelo menos tirar uma ou duas! Pronto, umazinha só, tá?

Voltei para a rua onde se pode tirar todas as fotos do mundo às ruelas encantadoras e aproveitei para ir às compras, já que as minhas calças pretas tinham perdido tanta cor quanta eu tinha ganho! Elas estavam a ficar tão castanhas quanto eu! Estavam completamente castanhas na zona dos joelhos! Comprei umas novas em napa, assim o sol não deveria ter potencia para lhes comer a cor!

E não fiz mais nada naquele dia para alem de passear, comer, beber, desenhar e, à noite, conviver com os hospedes da pousada que se fartaram de me fazer perguntas sobre quem eu era, de onde vinha, para onde ia e se escandalizavam ao perceber que eu nem a meio da viagem ia e já tinha visto muito mais que eles, mesmo alguns que andavam na estrada há mais de um mês, mas de mochila às costas, de comboio em comboio!

E foi o fim do 12º dia de viagem!

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13. Passeando pelos Balcãs… – pelas memórias da Ex-Jugoslávia…

9 de agosto de 2013

De manhã eu até tinha medo de sair de casa! Não fazia a menor ideia do que iria encontrar, depois de uma noite de chuva, o mesmo calorão ou um dia cinzento?

Fui agradavelmente recebida por uma manhã solarenga e fresca, se comparasse com os 44º do dia anterior! Mas ainda era muito cedo e eu estava decidida a não sofrer muito, por isso fui passear para a cidade a ver em que se tornaria aquela frescura suspeita!

Logo ao pegar na moto percebi que a frescura não era tanta assim, eu é que comparava com o calor do dia anterior e assim tudo era fresco! Na realidade estavam 36º!

Fui passeando pelas colinas da cidade até à zona antiga chamada Cidade Alta ou Gornji Grad, já que a cidade moderna é chamada de Cidade Baixa ou Donji Grad. Ali fica a Igreja de S. Marcos com o seu telhado lindíssimo com os brasões da Croácia à esquerda e de Zagreb à direita feitos no século XIX.

A Igreja originalmente de estilo românico, foi sendo alterada e adaptada em estilos posteriores e hoje é um dos edifícios mais antigos (séc. XIII) de Zagreb e um dos seus símbolos.

Em redor da praça, que tomou o nome da igreja, ficam edifícios do estado, como o Parlamento e o Tribunal Constitucional. Um guarda que estava por ali fez tão má cara quando passei, resmungando comigo que nem tentei parar ali. Detesto ter de enfrentar ranhosos, por isso embora o outro fosse mais simpático, dei meia volta e fui embora!

Fui até à catedral que continua em obras, embora desta vez já só tivesse uma das torres embrulhada, há 3 anos estavam as duas de chapéu!

“A catedral de Zagreb é um edifício extraordinário com uma longa e sofrida história que quase a vitimou por diversas vezes. É dedicada à Assunção da Virgem e a Santo Estevão e São Ladislau e, na sua origem, é gótica, mas por duas vezes na sua história foi incendiada (no séc. XIII e no séc. XIV) e, mais tarde, quase totalmente destruída por um terramoto. Assim hoje a catedral que vemos é uma mistura do estilo original, gótico, e o estilo posterior que a trouxe à vida, neogótico, muitos séculos depois já no séc. XIX.

Tem estado em obras de restauro desde há uma série de anos e, desta vez, pude já ver toda a sua fachada e uma das fantásticas torres descoberta. Está a ficar linda e a voltar à plenitude da sua beleza, quando lá voltar espero já vê-la toda descoberta!”

Cá fora pode-se entender o porquê da demora no restauro da catedral, dois pináculos, um antes e outro depois do restauro, mostram como tudo se estava a deteriorar no edifício! O pilar da esquerda estava novo em 1901, aquando da conclusão da reconstrução do edifício depois do terramoto que o vitimou, a erosão provocada pelas adversidades atmosféricas corroeu-a daquela maneira até hoje!

Na parede atrás o relógio da catedral que, como uma série de outros relógios na cidade, parou no momento do grande terramoto de 1880, que danificou profundamente o edifício! Parou às 7 horas 3 minutos e 3 segundos do dia 9 de novembro de 1880.

Em frente à catedral fica um dos monumentos mais conceituados da cidade, o Pilar de Maria com os anjos dourados e a fonte, do séc. XVIII.

Fui até ao mercado ali em frente, todo colorido e cheio de movimento! Comprei um pacote de amendoins salgados, a ver se não me faltava o equilíbrio e se a tensão arterial não caia por si abaixo com o calor!

Mas eu não iria ficar ali a passear todo o dia! Eu poderia faze-lo no dia seguinte, já que continuaria na cidade por mais um dia, mas naquele momento apetecia-me ver mais, talvez porque no dia anterior me fechara na pousada até à noite!

E foi o que fiz! Consultei o meu livrinho “o que há para ver por aqui?” é para isso que eu faço trabalho de casa, para poder escolher o que ver a cada vez que me apeteça!

E decidi ir visitar alguns recantos da ex-Jugoslávia…

Há muito que eu queria ver aqueles enormes monumentos de perto, construções que parecem saídas de filmes de ficção científica!

Foi mandado construir, pelo presidente do país (Josip Broz Tito), uma infinidade de monumentos gigantescos, nos anos 60 do séc. passado, em memória de batalhas travadas durante a II Grande Guerra.

Pretendia-se provocar um grande impacto visual, para enaltecer o povo Jugoslavo, e isso foi visivelmente conseguido por muito tempo, até que a República se desintegrou e tudo aquilo foi sendo abandonado e perdendo o sentido. Hoje são chamados de Monumentos Abandonados na ex-Jugoslávia…

Muitos anos depois um fotógrafo belga (Jan Kempenaers) pegou num mapa de 1975 e foi fotografando esses enormes monumentos com ar alienígena entre 2006 a 2009.

Então eles voltaram a dar nas vistas e podem ser vistos na internet, mas eu queria ver os que pudesse ao vivo… naquele dia vi 2, terei de voltar para ver mais alguns!

O Primeiro foi o de Podgaric…

Fica-se um bocado confuso! O monumento está no meio de lado nenhum, por trás de quintas e quintais, sobre um morro, em que o caminho nem é muito visível!

O Monumento à Revolução do Povo de Moslavina, uma obra de um grande escultor croata em honra do povo daquela zona, que não lhe parece dar muita importância, embora aquela continue a ser a obra mais conhecida do escultor!

Parece que atravessamos uma “star-gate” para chegarmos à enorme escultura!

Há quem corte a relva/palha e há quem ponha flores… que são de papel…

Não sei explicar, acho que cada um gosta do que gosta, e eu ali senti-me pequena, junto de um monumento que guardava dentro do meu imaginário há demasiados anos. Encontra-lo finalmente, apenas com o som do vento como companhia, teve um efeito forte sobre mim.

Lá de cima, dos “pés” do monumento, pode-se ver a pequena localidade onde ele foi erigido, com o lago ao fundo e muito poucas casas! Dá que pensar, como se decidiu colocar ali uma obra daquela dimensão?! Eu imaginei-a sempre junto a um centro urbano, pela sua espetacularidade.

Mas não, está ali só…e hoje, abandonado!

Mais à frente, a uns cento e tal quilómetros, junto à fronteira com a Bósnia, fica Jasenovac… ali não é apenas um monumento, é toda uma história que há para sentir.

O tempo estava já bastante mais quente, pousei a moto à sombra de uma árvore, não fosse ela esturricar e depois queimar-me o rabo ao montar!

E fui caminhar por aquele que foi o campo do terror…

Jasenovac – O mais cruel campo de extermínio de todos os tempos, como lhe chamam…

Ali morreram entre 600 e 700.000 pessoas, sérvios, ciganos e judeus.

O campo funcionou num pântano, hoje uma enorme área relvada, com árvores e lagos com patos e tudo. Ninguém pressente o que ali se viveu…

O monumento é uma obra de um grande arquiteto sérvio (Bogdan Bogdanovic ) em memória das vítimas, muitas delas sérvias também! Este arquiteto fez ao todo 20 memoriais por todo o território jugoslavo, e há uns 3 ou 4 mais que eu gostava de ver…

Também ali há flores… de papel!

E um excerto de um poema que fala de morte e sangue e punhais que matam, tal como se fazia naquele campo de concentração!

Estou a falar de um sítio onde os guardas e carrascos faziam apostas a ver quem matava mais gente e houve quem contasse 1300 gargantas cortadas! A personagem foi cumprimentada e galardoada com diversos prémios pela sua façanha, com objetos de ouro e festa e tudo!

Mais uma vez o som do vento foi a minha única companhia…

Todas as provas foram destruídas com a libertação do campo

E no lugar onde estavam os pavilhões com as diversas funções, hoje existem saliências e reentrâncias no imenso relvado!

Pode-se ler a legenda esculpida em metal junto ao caminho feito de toros de madeira dos carris de comboio. Fotografei o relevo e traduzi as suas inscrições na net e pude entender onde estava cada coisa…

E fui embora, com uma vontade imensa de passear um pouco pela Bósnia ali ao lado!

(continua)

12. Passeando pelos Balcãs… – de Bled até Zagreb…

8 de agosto de 2013

Estava na hora de enfrentar o calor de novo, mas eu não imaginava o quanto ele seria forte naquele dia! A vontade de ficar mais um pouco desaparece quando penso em tudo o que ainda há para visitar e nos grandes destinos que me esperam e naquele momento a partida sabia não a despedida mas a continuação do prazer da descoberta!

Percorri o caminho até ao centro da cidade, com casinhas fofinhas que apetecia habitar

E fui fazer um último picnic junto ao lago, porque eu tenho sempre tempo para mais um momento de paz nas minhas viagens! Nada é frenético nos caminhos que faço, por isso apesar do café da manhã que me deram na pousada onde dormi, fui comer a minha fruta com toda a calma, num banco de jardim à sombra e com uma paisagem que sempre me deixa saudades!

E ao pegar na moto ainda dei um belo passeio em torno do lago, num último olhar sobre a beleza pura!

E só depois segui viagem, com a vontade de não parar muito no meu caminho para Zagreb. O calor apertava já e rapidamente decidi que não iria andar de um lado para o outro a morrer, pois não tenho qualquer vocação para sofrer!

Por isso desviei-me apenas para visitar Predjama e o seu castelo!

O castelo é um espanto, construído literalmente na boca de uma caverna, foi sendo aumentado e adaptado à rocha que o acolhia ao longo dos séculos.

Inicialmente ele foi gótico, uma construção pequena do séc. XIII que se abrigava quase totalmente dentro da gruta, mas depois foi crescendo para fora dela.

E a gruta faz parte dele, com recantos inspiradores!

Sobe-se, desce-se, passa-se por corredores estreitos, passagens mais amplas e volta-se quase ao mesmo sítio!

E o pedregulho que forma a encosta e a gruta está por todo o lado!

Do castelo a paisagem sobre a aldeia e os campos inclinados, onde se fazem jogos de época, é linda!

Então volta-se a encontrar escadas escavadas na rocha, ingremes e sombrias que levam mais para o interior da gruta!

Há uma lenda sobre o castelo que conta que um cavaleiro, conhecido por Barão Ladrão, se fechou no castelo por muito tempo ao ser perseguido pela morte de um nobre.

Do castelo ele atirava cerejas para os soldados que o cercavam, levando-os ao desespero por não saberem nem entenderem como podia ele ter cerejas frescas depois de tanto tempo fechado no castelo cercado.

Na realidade o castelo tinha um túnel secreto, que ligava a uma aldeia mais longe, de onde vinham os mantimentos e as cerejas.

Os inimigos acabaram por subornar um criado do Barão que denunciou a sua presença na retrete, que era o único ponto frágil do castelo, e o nobre foi apanhado, literalmente, com as calças na mão por uma bala de canhão!

O castelo foi destruído e mais tarde reconstruido pelos novos proprietários e hoje lá está, com as suas galerias em pedra a complementar a construção.

Por baixo dele há uma série de grutas que podem ser visitadas, mas a fila de pessoas com capacetes de lampadinhas na testa era grande e não me apeteceu esperar para ir ver!

É curiosa a sensação de olhar para um castelo real enfiado numa gruta!

O calor era insuportável e eu só conseguia sentar e beber a todo o momento enquanto apreciava tão extraordinária paisagem!

Constatei que o termómetro da moto, por tudo e por nada, subia a valores fora do comum, até fixar-se regularmente nos 44º, por vezes ía mesmo aos 45º…

Estas temperaturas são de tal ordem fortes que conseguia estar mais fresco dentro do capacete fechado do que cá fora!

Eu parava a cada oportunidade, já por vício, já por desespero! Comprava uma garrafa de agua com gas gelada, bebia um bom pedaço e partia, pois apesar de tudo era menos penoso rolar do que parar, mas a garrafa fresca na mala chamava por mim e a urgência de parar antes que ela aquecesse era obsessiva! Quando encontrava trânsito lento o desespero começava a ameaçar instalar-se, volta a parar, bebe mais um pouco, segue mais um pouco!

Então, a dada altura, quando o trânsito voltava a ser mais lento, porque os automobilistas reduzem a velocidade com o calor e deixam o carro deslizar suavemente… porque têm ar condicionado e deslizar pelo calor infernal é natural, 5 motos desportivas seguiam na minha frente, a passinho de caracol, tentando passar. Eu ia mais atrás, a cismar mais uma vez com a água fresca que acabara de comprar, quando um dos motards vai abrandando o ritmo até que caiu para o lado!

Cruzes! O homem desmaiou!!!

Parei na berma da estrada tentando encolher a moto sob uma pequena sombra de árvore.

Os colegas acorreram a ajudar o rapaz, tentando a todo o custo senta-lo. Valha-me Deus, nunca se levanta um desmaiado!

Fui ajudar. Eles falavam alemão, mas a linguagem gestual e o inglês serviram muito bem para lhes dizer “parem com isso!”. Fui buscar a minha toalha de banho, que é enorme, e pus dois a segura-la pelas pontas para fazer uma tenda de sombra sobre o rapaz, que estava ardente, parecia que tinha febre!

Tirei-lhe as botas, tirei-lhe o capacete, abri-lhe o blusão. Estava de fato de couro completo com camisolas por dentro! Só de ver aquilo eu própria quis desmaiar de calor! Então molhei-lhe a cabeça e os pulsos com a minha água ainda bem fresca e frisante. Lentamente ele voltou à vida.

O dilema ali era, se andasse sem casaco podia cair e magoar-se, se andasse com o casaco cairia de novo de certeza! “siga sem o casaco ou vai voltar a cair mais à frente!”

Ele assim fez, prendeu o casaco com a aranha no banco da moto e preparou-se para seguir caminho.

Quando voltei à minha moto ela apontava 42º, ao andar deveria ir descendo… mas não desceu, subiu mais e mais até aos 44º…

Depois da minha boa ação, fiquei de novo sem água! E a sede não era muita… era demais! Comecei a temer pela minha própria segurança, apesar de tudo eu também tenho a tensão arterial baixa…

Parei em Novo Mestro para me reabastecer de água, porque condições para visitar não era nenhuma!

Mais uma cerveja. Mais uma garrafa de água XL e o meu lenço vermelho a ficar todo molhado de eu limpar o rosto a todo o momento!

Tudo era escaldante por ali, pensar em caminhar só por si era um suplício! Oh céus, eu quero um lago para me meter dentro!

A terrinha era simpática mas o calor não deixou apreciar nada! Dei um banho à moto com a água gelada que pedi no café, pois agora eu já pensava também em refrescar a moto para poder sentar-me sem ter de levar com o calorão do assento!

Cada sombra da estrada sem trânsito servia para beber mais e mais água. Não me lembro de ter sofrido nunca tanto calor seguido, por tanto tempo, numa viagem!

Eu sentia que estava a perder paisagens lindas e recantos encantadores do país, mas só tinha uma coisa em mente… encontrar frescura no meio do inferno!

Passei pelo Grad Mokrice que eu queria ver mais de perto mas a vontade passou-me! O castelo do séc. XV já me chamou a atenção há uns anos atras, mas ainda não foi desta que fui vê-lo mais de perto! Terá de ficar para outra vez com menos calor!

A fronteira da Croácia é logo ali e eu só pensava em ir a correr esconder-me em Zagreb na pousada!

E foi o que fiz!

Que me importava se era cedo ou tarde? Entrei em desespero pela receção e… estava tãããão fresquinho lá dentro! Huuuuuum
O gatito da rececionista ficou em pânico com a minha entrada desesperada! eheheheh

Enfiei-me no bar, estiquei-me num sofá, pedi uma cerveja e morri de prazer e frio!

Então foram chegando outros hóspedes mochileiros, aflitos como eu, que se foram enfiando lá dentro refugiados e esbaforidos do calor. Um grupo de rapazes trazia garrafões de água de 5 litros, em vez de garrafas, num grupo de raparigas 2 apresentavam queimaduras solares graves nos ombros nus e toda a gente ali sofria atrozmente com o calor!

A tarde foi avançando e ninguém tinha vontade de voltar ao calor, então o céu desabou em fortes chuvadas intermitentes que fizeram tudo cheirar a terra e a pó, como se o chão estivesse são sedento de água e frescura como nós!

Não saí mais, jantei e fiquei por ali

e foi o fim do 10º dia de viagem!