16.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– Adeus Islândia –

15 de agosto de 2019

Acordei tão cedo!

É sempre assim em viagem, não há despertador, ando cansada e, mesmo assim, acordo com as galinha! A excitação do que há para fazer é maior do que todo o esforço, cansaço ou desalento que me preencha. Ali a preocupação era o que me fazia acordar cedo. É sempre assim, quando tenho de apanhar um ferry. Sempre que as coisas não dependem apenas de mim, tenho receio de chegar tarde, de me enganar no sitio onde devo estar para embarcar, de ter algum percalço e perder o meu embarque.

Eu tinha muito tempo para chegar a Seyðisfjörður, afinal estava a apenas 70 e poucos quilómetros e o embarque era só às 10.30h, mas não há nada a fazer, acordo cedo e pronto!

Depois tinha um ancoradouro só para mim, com uma paisagem privilegiada e uma paz só minha para viver!

Quanta serenidade! Uma pintura ao vivo só para mim, pois não havia nada nem ninguém acordado àquela hora!

Ok, provavelmente a tripulação do barco de pesca estivesse alerta, e apenas eles e eu!

Como eu queria ter mais tempo naquele país!

Quando reservara os ferries decidi por uma semana na Islândia e uma semana nas Ilhas Faroé, não foi uma decisão fácil, mas acabei por deixar assim. Estando lá, a caminho da partida, lamentava tanto não ter reservado duas semanas na Islândia…

A cidadezinha de Eskifjörður dormia ao longe. Eu tinha a certeza que a atravessaria completamente sozinha.

Na minha frente o Holmatindur, hoje era completamente visível. Há quem vá ali para o escalar.

O Hólmatindur é uma montanha muito apreciada, tem 985 m de altura e não é fácil de subir até o topo. Lá de cima a vista é deslumbrante e dizem que vale o esforço. Quem chega ao topo pode escrever seu nome num livro de visitas e, posteriormente, obter um selo. Juntando 5 desses selos, (o que implica subir 5 vezes!) obterá o título de Conquistador da Montanha. 

Coisas que o clube de caminhadas local, Ferðafélag Fjarðamanna, organiza e a que muita gente adere.

Cada momento contava tanto, sabendo que deixaria o país e não poderia voltar atrás fazia-me viver tudo ao segundo.

Arrumaria as coisas na moto de acordo com o que tiraria e levaria comigo para o barco. Esse é um dos cuidados a não negligenciar, pois eu detestaria ter de abrir sacos, saquinhos e sacolas no porão do ferry, como vira muitos fazerem.

Costuma-se dizer: quem vai para o mar avia-se em terra! E era literalmente essa a minha situação, por isso bastar-me-ia abrir a top case para, ao por o capacete tirar a sacola que levaria comigo e pronto!

Tudo estava deserto na casa, o que facilitou tanto o meu trabalho. Pude trazer os meus sacos e organizar-me calmamente

Quando se tem tempo, tudo se faz tão facilmente! Embora eu seja uma pessoa prática e descomplicada, que prepara um saco para uma viagem em meia hora, detesto fazer as coisas a correr, tenho sempre a sensação de que algo fica esquecido.

E vamos lá, fazer os 70 e tal quilómetros até ao porto, com todo o tempo do mundo, olhando tudo o que houver em redor, para guardar como ultima memória daquele país apaixonante!

Os vizinhos ainda dormiam como passarinhos ou, pelo menos, as suas motos sim!

A minha motita mostrava um pouco pelo que tinha passado, nem a chuva nem o vento tinham conseguido apagar os traços da lama que foi recolhendo ao longo dos dias!

E quando eu digo que era cedo… era cedo mesmo!

5.22h da manhã, eu sei que sou meio esquisita em viagem, faço muito esforço, ganho muita energia, multiplico a minha força e adquiro uma resistência aparentemente infinita. Acordo quando quero e mesmo assim durmo pouco!

A serenidade das águas fazia o mar parecer um lago. O mar entra pelo rasgão na terra até ali, perdendo toda a sua força e ficando como um espelho.

A organização das localidades não é muito coerente, por vezes, como se as casas não se relacionassem muito umas com as outras. Ficam meio cada uma por si, voltada para onde quer. E do lado da montanha, lá estava mais uma igreja de formato curioso. Parece que por aquele país é comum as igrejas serem edifícios diferentes e meio arrojados até, por vezes!

As perspetivas do braço de mar eram grandiosas em todos os ângulos, enquanto eu dava a volta para passar para o outro lado para me ir embora…

Uma ponte faz a ligação entre a cidadezinha e os domínios do famoso monte Holmatindur, que eu via da minha casa naquela noite.

Depois começa-se a subir, contornando o monte, e a perspetiva sobre o mar é de cortar a respiração!

Tinha consciência que ia parando de quilómetro em quilómetro, mas não podia evitar, estava no modo despedida e isso fazia-me querer guardar cada momento, cada perspetiva, cada sensação, para memória futura, para os tempos em que a vida não me permitiria voltar ali…

Tão agradável aquele caminho, sem vento, nem chuva, apenas eu e toda aquela paz e beleza.

Contorna-se o monte Holmatindur e tudo em redor é a sua reserva natural

E o mar acompanha, formando um “Y” em relação a Eskifjörður, conferindo a tudo uma beleza extraordinária que me lembrava os lagos da Noruega!

Havia neve no topo dos montes, mas não estava muito frio… ou eu já enfrentara tanto que aquelas temperaturas pareciam-me amenas?

Qualquer rego de erosão era uma pequena cascata e eu podia ouvir água que caia em todo o lado, ecoando pelos montes em redor.

Cada passo caminhado era um passo de despedida. Registava na mente o quanto eu queria ver mais para não me esquecer de voltar….

Pus-me por ali a morder bolachas e a desejar não ter de ir embora!

Imaginava se tivesse mais uma semana o que eu poderia fazer, agora que o vento se fora! Seguramente ocuparia cada novo dia com mais e mais descobertas e caminhadas que ficaram por fazer!

E fui seguindo para Seyðisfjörður, queria apreciar o caminho como não pudera fazer ao chegar, quando o tempo estava miserável e fui recebida por ventos ciclónicos e brumas densas e deprimentes.

E realmente pude ver toda a beleza do caminho como nem sonhara que fosse!

Apenas dois carros passaram por mim, parece que o povo estava finalmente a acordar! De resto era o vazio e eu, como em toda a ilha fora!

Não me lembrava de ter visto lagos ou montes, não me lembrava de ter visto nada mais do que poças de água e apenas quando estavam bem perto de mim, tal era a densidade do nevoeiro, quando eu chegara!!

Mesmo sem sol aberto o caminho era deslumbrante, com farrapos de neve sobre os montes a estrada ladeada de paisagens verdes irregulares.

Não podia deixar de me sentir nostálgica ao avançar para a partida, mas estava feliz por os meus últimos quilómetros serem tão bonitos!

Cheguei finalmente ao pequeno passo de montanha que é a estrada que leva até Seyðisfjörður. Curiosamente o carro que passara por mim lá atrás ainda o descia muito devagarinho. Eu podia ver o ponto branco que ele era lá em baixo na curva. Difícil de acreditar que alguém stressasse a descer aquilo!

A catarata que eu vira ao chegar devia ser por ali e eu queria vê-la de perto agora, sem chuva.

Então eu percebi porque o carro seguia tão devagarinho! Tinham coberto a estrada com gravilha, muita gravilha! Provavelmente fazem isso para a estrada ficar circulável no inverno com neve e gelo, mas era horrível conduzir assim!

Aquele mar de gravilha estava solta, não tinha sido prensada, e a moto derrapava ao rolar sobre ela, sobretudo devido à inclinação da estrada. Fazer as curvas, então, era o inferno total! As rodas enterravam e a moto derrapava, fazendo regos na gravilha como se fosse areia!

Nada me preparara para aquilo, nem os percursos que fizera fora de estrada, pois sempre havia mais consistência nos pisos que fizera!

Parar na catarata foi um momento de alivio no meu caminho!

Gufufoss é uma cascata muito bonita, num rio que eu seguira de cima e que tem muitas outras mais pequenas. Por aqueles dias não estava tão forte como dizem que pode ser, ao ponto do seu nome querer dizer algo como “cascata de vapor” provavelmente porque quando a água é muita, cai com tanta força que levanta muito spray.

O rio continua seu caminho na descida meio vertiginosa até à cidade lá em baixo.

Parece que a gravilha não estava por todo o lado e eu lá fui seguindo mais sossegada!

Mas a ilusão de sossego passou ao perceber que era precisamente nas curvas que ela estava aos montes! Nas retas não tinham colocado nada! Estes gajos são marados de todo!! Tapetes de gravilha nas curvas, a sério?

Então tive de segurar-me, reduzir, sem travar demais e derrapando um pouco, voltar às curvas com as rodas a enterrar e a moto a ameaçar sair pela curva fora, deslizando em rios de gravilha!

Cheguei à cidade com o coração apertado, as mãos meio paralisadas e ainda travando a respiração! Que porra fora aquela?

O que vale é que a serenidade lá em baixo me fez relaxar imediatamente!

Antes de mais fui procurar onde ficava o local de embarque, afinal já não tinha qualquer memória de onde desembarcara! Percebi que tinha de colocar a moto numa rua normal que daria acesso ao porto. Facil.

Achei curioso porque tudo era organizado por miúdas muito simpáticas e bastante jovens. Disseram-me para ir tomar o pequeno almoço pois ainda era muito cedo. Até me disseram onde havia um excelente café aberto.

Dei umas voltas em redor, a cidadezinha é bonitinha, com pormenores muito curiosos.

Definitivamente a arte urbana é valorizada naquele país, o que me agradava bastante!

A igreja estava fechada e foi mais uma que eu não pude ver por dentro.

As motos alugadas eram entregues ali, à chegada e devolvidas à partida, achava eu, mas parece que muita gente apenas as recebia ali e as entregava em Rekjavik não fazendo por isso toda a ilha. Bem, ao preço a que elas são alugadas eu também não daria a volta à ilha, o dinheiro esgotar-se-ia na ida, não chegaria para a volta

Escolhi um sitio poético para parar a minha motita e fui tomar um belo pequeno almoço ali ao lado.

Podia ver a minha motita da esplanada, que bem ficava naquele ambiente! Chamam àquela rua The Rainbow Street.

O café tinha um aspeto ótimo, acolhedor e bonito. Havia muita gente a tomar o pequeno almoço ali, acho que tudo em redor estava fechado, logo não havia muita escolha! A comida era muita e com ótimo aspeto, fartei-me de petiscar de tudo um pouco mas, embora o sitio fosse acolhedor, preferi ir para o frio da esplanada.

Afinal a esplanada era muito fixe, com peles sobre os bancos para que a gente não tivesse frio ao sentar.

Dali eu podia ver a rua arco-íris e a beleza da paisagem em redor. Sim, isso fazia merecer um pequeno almoço ao frio!

Fiz um desenho rápido e tudo. Só passado um bom pedaço percebi que, de dentro do café, havia gente a espreitar para o que eu estava a fazer. Confesso que foi um bocado embaraçoso quando me voltei, dar com umas 5 ou 6 pessoas a olhar! Eu achava que, como as montras tinham cortinas não me veriam de dentro, mas as pessoas espreitavam por cima! Ok, nem vou pintar mais, vou-me pôr a andar antes que me distraia e perca o embarque!

Claro que eu nunca perderia o embarque, tinha ainda bastante tempo. Já havia motos na fila, onde me tinham dito para ir quando perguntei.

A fila da esquerda era para os motociclistas que iam para as Ilhas Faroé, a da direita era para os que iam para a Dinamarca.

Enquanto a minha fila não aumentava a outra crescia a todo o momento. Eramos muito poucos para as Ilhas Faroé!

Na casinhota de madeira umas miúdas muito simpáticas faziam a verificação de documentos e entregavam os cartões de embarque, que eram também os passes para abrir portas de camarins e camarotes.

Ficamos por ali à conversa, parece que aquela gente ficou espantada por eu ter feito toda a volta à ilha sozinha e ainda ir para as Ilhas Faroé. Espantavam-se por eu ainda ter folego e força para o fazer. Estavam todos bastante cansados e só queriam ir para casa. Sim, foi muito cansativo percorrer toda a ilha, mas a gente ganha força de dia para dia, não a perde, dizia eu. Mas eles continuavam séticos, achavam que eu era uma atleta que treinava muito diariamente para aguentar aquilo e ainda ir para as Ilhas.

Tive de me rir! Eu, atlética? Eu não vou à padaria a pé! A minha única atividade física é andar de moto, gente! Ahahahah

Então quando disse que depois das Ilhas ía para a Noruega e só depois começaria a descer para Portugal, as suas caras não tiveram preço! Nem sei se foi por ter dito que ía à Noruega, ou se porque disse que ia para Portugal! Alguns foram espreitar a traseira da minha moto. Tu vens de Portugal? – perguntou um muito incrédulo. Mas isso é no fim do mundo!

Oh valha-me Deus, o fim do mundo é muito mais longe, podem crer!

Começaram a discutir entre eles sobre a segurança de uma mulher andar por ali sozinha. Havia mais 2 mulheres entre eles, mas estavam acompanhadas, perguntei-lhes se realmente precisaram tanto assim da ajuda dos colegas. Ambas comentaram que se sentiam mais seguras por estarem com eles. Sim, mas para além do apoio moral, que mais precisaram? Ninguém conseguiu responder.

Acho que é o medo que faz a companhia ser necessária, mais do que o perigo.

O nosso transporte estava a chegar. Percebi que era o mesmo ferry que me levara, será que é o único que circula? Seguramente que não mas, definitivamente, na minha vez era sempre ele que vinha!

O rapaz letão do skate, que eu encontrara em Sólheimasandur, a praia do avião, embarcaria naquele dia também e pela fila onde a sua moto estava, iria também para as Ilhas Faroé.

Foi naquele momento que ele percebeu que eu estava realmente sozinha! Pelo que percebi, quando me viu e comentou que a Islândia de moto não era só para homens valentes, não tinha noção que eu estava realmente sozinha. Ele pensou que eu estava sozinha ali, na visita ao avião, mas que tinha um grupo de amigos, algures à minha espera! Bem isso muda o quê? Perguntei com humor! “Respect” respondeu ele muito sério!

O meu GPS desenhava o caminho que eu faria nas próximas 15 horas… céus, tanto tempo em alto mar dentro daquele ferry, que grande seca me esperava! Felizmente muito desse tempo seria de noite e eu podia dormir e simplesmente deixa-lo passar…

Quando não tenho mais nada o que fazer vou conversando com ele e ele faz desenhos para mim, como o percurso para sair do porto.. 570 km até Torshavn seriam mais rápidos de fazer se houvesse estrada e eu os percorresse de moto…

Desta vez amarrei a minha motita como uma profissional! Não há como ver fazer para se aprender, afinal!

E fui até a primeira a concluir a coisa, quanto orgulho!

Todos continuavam atarefados a amarrar suas motos e a tirar as coisas necessárias das suas bagagens. Eu tinha deixado tudo à mão. Sou muito prática e despachada, heim?

Mais um porão deserto que demoraria uma hora a ser preenchido de carros!

A minha couchette não era a mesma da ida, mas era igual. Tudo se processa mais facilmente quando já se passou por ali uma vez.

Até a minha cama era no mesmo sitio, em baixo, à esquerda, para que eu a encontrasse facilmente se fosse dormir tarde. E pronto, agora era só deixar passar o tempo e apanhar a maior seca até desembarcar de novo.

O ferry é tão alto que proporciona perspetivas giras sobre o mundo lá em baixo.

Acho que fui a primeira a estar pronta para partir, todo o barco estava deserto!

O fiord de Seyðisfjörður visto lá de cima era impressionante, com as nuvens a tapar o topo dos montes, como se estivessem ao nível que eu estava.

Eu andara em cima daqueles montes, tão perto da neve e agora ele já não era visível.

Lá em baixo os carros esperavam para embarcar e havia uma moto no meio deles, Não sei como conseguiria chegar até onde as nossas motos estavam embarcando junto com aqueles carros todos! É o que dá chegar tarde ao porto!

Dezenas de camiões transportam o que a ilha não produz. Depois de uma infinidade deles terem descido para terra, outra infinidade entrava para voltar à Dinamarca para abastecer.

Podia ver o caminho que fizera desde a tal ruinha aparentemente banal até ao ferry, atravessando a ponte.

Estava frio mas não estava vento, por isso podia-se usufruir do convés sem se ter de agarrar a tudo quanto pudesse voar.

É sempre nestes momentos que se tem hipótese de ver mais gente, como se todos estivessem a despedir-se de um país que nem é seu. É, aquele país deixa muitas saudades…

E começamos a percorrer o fiord… sentia-me tão triste por deixar a Islândia, como excitada por estar a rumar à Ilhas Faroé…

Tinha de aproveitar enquanto a paisagem era feita de montanhas em meu redor, porque em breve seria apenas mar!

E a última paisagem da Islândia era lindíssima, com águas cor de esmeralda e nuvens fofas que davam a tudo um ar de mistério…

Fiquei cá fora até me sentir completamente gelada. Ok, vamos lá tratar de comer e nada fazer até chegar!

Tinha de aproveitar a cerveja no barco pois no meu destino eu nunca sabia se a teria!

Quando finalmente passeei pelo ferry que eu já conhecia, por isso não me trazia nada de novo, fui fazer compras ao supermercado. Normalmente eu não como doçaria, mas estava-me a apetecer um chocolate. Coisa rara pois nem sou grande apreciadora.

Na Islândia não se encontra água engarrafada, acho que a única que encontrei foi mesmo no ferry. Eles dizem que a sua água é de tão boa qualidade que basta bebe-la onde ela está, não há necessidade de a empacotar.

Então, quando fui para a caixa pagar, um grupo de motociclistas estava já lá, com garrafas de whisky, bombons e uma série de salgadinhos e coisas afins. Estavam muito animados e, quando cheguei, cumprimentaram-me efusivamente. Então começaram a escolher um peluche, agarraram em vários, mas lembrara-se que eu ia para as Ilhas Faroé e eles não, por isso escolheram um Pulfin que diz na camisola “Eu amo as Ilhas Faroé” em faraonês!

Ainda não tinha chegado às ilhas e já tinha um amigo de lá!

O dia estava lindo e eu passei a maior parte do tempo lá fora a ver as diferentes perspetivas que o sol proporcionava no mar.

Os meus amigos era barulhentos e eu deixei-os mais além, com o pretexto de me ir conectar à internet e falar com o meu moçoilo.

As perspetivas do mar era verdadeiramente impressionantes.

Embora eu tivesse já constatado que a chuva me esperava em Torchavn… por isso eu queria aproveitar o sol enquanto o tinha!

Não ha mais nada para fazer além de comer e olhar para o balão, é deprimente!

Comer e ver o mar passar e mudar de cor…

Ok, e beber cerveja a ver se o tempo passa mais de pressa.

O serão foi feito de barulho e algazarra, cada um contando suas aventuras pela Islândia acima e abaixo. Fiquei chocada porque eles não tinham visto nem metade do que eu vi! Como era possível se tudo está tão no nosso caminho? Então percebi que eles se tinham distraído com os percursos fora de estrada e deixado sítios incríveis para trás. Por exemplo estavam muito tristes porque não tinham visto o lago dos Icebergs! Sério?

Percebi que os percursos que fizeram nem sequer foram para os levar a ver nada de extraordinário. Eu tinha tido momentos em que me questionara se seguisse determinados trilhos não iria até sítios impressionantes, mas não arriscara pois tudo parecia tão longe e arriscado demais para não ter a certeza de ver algo que valesse a pena!

Não acham muito caro ir até à Islândia para fazer todo o terreno e não aproveitarem para ver o que o país tem de mais extraordinário? É, eu devia ter razão, diziam, ao olharem algumas fotos que mostrei no telemóvel…

Lá estava o nosso aviso para desembarcar em Torchavn às 3.00 horas da manhã…

O barco estava deserto, eu não dormira nada e não tinha sono nenhum e era a única que andava por ali.

Assim que se ouvisse a ordem de desimpedir os camarotes alguém apareceria a qualquer momento.

Noite fechada e a lua como um lampião ao fundo! Desembarcar a meio da noite tinha um ar de desalento e abandono estranhos…

Foi tudo feito num instante, a primeira vez tudo é difícil, na segunda tudo é prática, na terceira seria melhor ainda?

Eramos meia dúzia de motos a desembarcar, e tínhamos de esperar que os carros saíssem de trás de nós.

É desalento mesmo desembarcar às 3 horas da matina!

Sobretudo quando me apercebi que não tinha reservado dormida para aquela noite! Oh céus, que me deu para não pensar que 3 horas da manhã não é hora de passear?

Tinha lugar no parque de campismo a partir do dia seguinte e o que iria fazer entretanto?

Não chovia como previsto, mas não tardaria aquele céu desabar em chuva, seguramente. Dei umas voltas em redor tentando decidir o que fazer, podia ver a cidade a ficar para baixo.

Não conseguia ativar o mapa das Ilhas. Aquele mapa fora sempre meio confuso porque, embora o GPS trouxesse nele todos os mapas da Europa, e as Ilhas Faroé sejam Dinamarca, elas não apareciam. Tive de instalar o seu mapa, mas então percebi que, para ver o mapa das ilhas tinha de tornar o mapa da Europa invisível ou ele cobri-lo-ia. Simples! Se eu me lembrasse naquele momento, na beira da estrada, a meio da noite e sem ter onde dormir, como o fazer!

Demorei um bom bocado a procurar onde faria a habilidade e logo apareceu o parque de campismo onde eu tinha reserva a partir do dia seguinte. Eu vira as motos todas pararem no escuro, junto de um portão aberto, e percebi que era lá o parque. Percebi que estava aberto à espera do desembarque no ferry, por isso não custava nada tentar arranjar lugar.

Fui recebida por 2 ou 3 miúdas muito simpáticas que me indicaram onde pôr a moto e onde podia montar a tenda, sim senhor, mesmo sem reserva. Será que por aquelas terras todos os serviços de turismo são tratados por gente jovem e simpática?

Havia gente acordada no parque e os fulanos que acabavam de chegar puseram-se a montar as tendas no escuro. O sol estava a preparar-se para nascer, podia-se ver o clarão vermelho a formar-se ao fundo.

Não eu não iria pôr-me a montar a minha tenda à luz de um pequeno lampião! Eu iria esperar que o sol abrisse e depois trataria da tenda. Até porque as previsões eram de que a chuva começasse a qualquer momento e eu não queria perder o meu primeiro nascer do sol e não voltar a ter outro tão cedo!

Um casal de namorados viu-me olhar em redor e disse-me que tinham feito café, que eu podia tomar uma caneca dele lá dentro. isso era excelente! Thank you so much! Tirei as coisas da moto para as pôr no lugar onde montaria a minha casa.

Para o caso de haver vento escolhi um lugar perto do muro de terra que separava o parque no mar. Isso, esse seria um bom sitio, depois de um pequeno rego escavado na terra e revestido de relva, assim a água da chuva não chegaria a mim…

E fui tomar o meu café num pequeno banco de madeira que ficava em cima do muro de terra e relva, bem acima do sitio onde montaria a minha tenda.

E foi um momento mágico, que valeu a pena presenciar, considerando que os próximos dias seriam de chuva intensa e o sol não seria visto tão cedo.

Então montei a minha tenda num instante, sem vento aquilo monta-se de olhos fechados!

Dei uma última olhada ao sol nascente…

E deitei-me para dormir… Eu sabia que me esperava um dia de chuva, por isso estava mentalizada para ficar por ali, sem stress, a descansar até o sol voltar… sei lá quando!

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