11.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega


– Um longo dia, cheio de sofrimento e beleza –

10 de agosto de 2019

Estava um frio de rachar quando acordei, acho que durante a noite estiveram temperaturas negativas.

Ali não se sentia o vento, mas o frio e a humidade sentiam-se e bem! Os balneários eram aquecidos, o que fazia um efeito curioso, a gente chegava cheia de roupa, entrava a porta e parecia que estava numa sauna.

Tudo o que eu esperava é que o vento tivesse abrandado e o dia fosse calmo. Eu tinha tantas coisas para ver que lutar com o vento não era coisa que ajudasse muito a minha exploração.

O parque de campismo era muito bonito, valia um pequeno passeio por ele como despedida, correndo o risco de acordar alguns dorminhocos. O que vale é que a minha motita é silenciosa!

A sala comum estava cheia de gente a dormir. Acho que todos os mochileiros e ciclistas foram fugindo do frio noturno com os seus sacos cama para lá. Tenham paciência meninos, mas eu preciso de água quente para o meu café. Era muito cedo ninguém estava a fazer pequenos almoços, dormiam mesmo!

E eu segui o meu caminho para perceber, logo à frente, como o vento estava forte. E só pioraria ao longo do dia, à medida que eu seguiria para Este.

Pelo menos o tempo não estava chuvoso e até se vislumbrava um pouco de céu azul. Fantástico!

Eu aprendera, no norte da Noruega, que o as luvas nunca são demais quando está frio percistente por muitos quilómetros, por isso tinha comigo varios pares de luvas de aquecimento para usar por baixo das luvas da moto. E ainda bem que as levei, porque estavam a ser bem necessárias!

A atmosfera eterea fazia lembrar, precisamente, o momento em que eu cruzara o Circulo Polar Artico. A sensação era de passear no paraíso, não fosse o vento forte e o frio.

Ao longe podia ver a neve em cima dos montes baixos. Como não poderia estar tanto frio, afinal a terra do gelo não pode ser quente!

A sensação de solidão era bem mais forte do que em qualquer viagem que eu fizera até então, não só porque não se avistava vivalma em quilómetros de caminho, mas porque acampando não há a sensação de poder conviver com uns e com outros, como ficando hospedada num hostel.

Eu queria parar a todo o momento, para apreciar a paisagem surreal, mas o vento não estava para brincadeiras e parar era uma autenctica aventura. Não só tinha de ter cuidado com a posição em que parava a moto, para o vento não a derrubar, como tinha de ter cuidado comigo ou ele atirar-me-ia ao chão também!

E no entanto a serenidade estava lá, embora só fosse visivel para os olhos, se os ouvidos não ouvissem o uivo da ventania.

Avistar casas era tão raro. que só me questionava como seria viver assim isolado! Seriam familias grandes, cheias de gente, ou seriam pessoas solitárias, vivendo perdidas no meio do nada?

Estava a atravessar o vale de Hörgárdalur e ao fundo podia ver os picos do Drangafjall, como dedos a apontar para o céu.

De alguma forma a paisagem lembrava-me um pouco a ilha de Skye, na Escócia, e o seu Old Man of Storr.

Quando a solidão é absoluta, parece que estou sozinha no mundo.

Deslumbramento com moto..

… e deslumbramento sem moto…

Deslumbramento no vazio sem ninguém no horizonte, apenas eu e minha moto!

Eu sempre chamo de “montes em negativo” quando eles aparecem para baixo de mim.

A gente pára e olha para baixo e toda a altura das montanhas é muito maior para baixo do que para cima do ponto onde estamos!

E sem ter subito, estou no topo de algo, de um desfiladeiro fantástico.

O vento quase atirava comigo lá para baixo. Ele soprava forte por entre as escarpas com um som assustador.

Credo, se eu caisse lá abaixo ninguém me encontaria por dias!

E precisei lutar com ele apenas para caminhar até à moto. Era cedo e eu já estava acusar cansaço da luta com o vento infernal!

Não havia muito o que escolher, apenas paisagem sem moto ou paisagem com moto, a cada vez que conseguia parar um pouco!

Não ha muitas estradas por ali, então toda a gente que passa deve passar por ali. Então porque não há ninguém a passar, só eu?

Regos e rios correm por todo o lado e, aparentemente, em todas as direções. Bem, a ilha é tão recortada nos seus limites, que os rios devem correr mesmo em todas as direções, já que o mar também está por todo o lado!

E encontrei uma localidade com meia dúzia de casas e uma igreja curiosa, com um nome ainda mais curioso… se o conseguirmos pronunciar!

A igreja Miklabæjarkirkja estava fechada, parece que é costume, e nem dava para espreitar para dentro. No seu jardim fica o cemitério e desde ali pode-se ver a imensidão do “deserto” que a rodeia.

Não se vê gente e encontro um cemitério! Será que as pessoas morreram todas?

Mais um momento de descanso na luta com o vento e aproveitar para aquecer as mãos e o coração, até encontrar uma bomba para pôr gasolina.

As posições em que eu parava a moto para o vento não a levar, eram hilariantes por vezes!

Mais uns quilómetros e lá estava uma estação de serviço, com croissants quentes e café! A sensação de estar com gente era tão boa que eu aproveitava para conversar um pouco. Afinal estava em Varmahlíð, uma terrinha que era bem mais que 3 ou 4 casas, tinha hotel e tudo e mais de 100 habitantes… poucos mais!

Muitos copos de Kaffi 66 a minha motinha segurou para mim, naquele país, enquanto eu deitava conversa fora ou, simplesmente, olhava em redor.

E, surpreendentemente, havia pessoas a chegar! Porque é que na rua eu não via ninguém e, de repente, ali elas apareceiam? De onde sairam elas para onde iriam, será que ía começar a ver gente pelo caminho, porque simplemente o povo se levantava tarde??

Bem, pertinho dali fica uma igreja que eu queria ver, a Víðimýrarkirkja.

Há quem diga que ela é a mais bela igreja de turfa da Islandia. Não sei se é verdade, não as vi todas, mas vi que é encantadora

Tinha de a visitar por dentro e, ali no meio de lado nenhum, a entrada era paga por cartão multibanco!

Claro que aproveitei para me pôr ao paleio com o senhor que está a tomar conta dela.
A igreja é do século XIX, mas tem pormenores muito mais antigos do que isso, como o retabulo do altar que é do século XVII e veio da Dinamarca.

Fiquei a saber também que, antigamente, segundo as convenções da Reforma Islandesa, as mulheres sentavam-se de um lado do corredor e os homens do outro!

Muito bem conservada toda aquela madeira revestida de terra e turfa, depois de tanto tempo. Parece que a formula de construção, além de ecológica, é realmente eficaz!

Quem vê a igreja por fora imagina-a húmida e fria por dentro, mais parecendo um monte de terra com uma fachada de tabuas de madeira!

Muito se engana quem pensa, pois o interior é seco e aconchegante, sem humidades nem podridão! Os antigos sabiam da poda!

E lá estava o cemitério em redor, bem relvado e a fazer conjunto com a igreja.

Ali podia ver-se exatamente como a igreja era construída, com blocos de terra prensada com palha. Um dos exemplares de construção totalmente em turfa e erva, porque já está mais distante da zona vulcanica, onde a lava é usada para levantar as paredes

A forma como ela parece sair da terra levantando a relva consigo, é fascinante!

E no meio da sua peruca de relva verde, a janelita parece quase um olho de um duente escondido!

Realmente muito bonita, digna de um qualquer filme de fixão, do tipo do Senhor do Aneis ou do Hobbit!

Ainda fiz um desenhinho antes de partir, não podia sair dali sem um registo de recordação!

Mesmo ao lado fica uma casinha bem mimi, provavelmente de quem cuida da igreja. Fiquei a pensar, como chegará a eletricidade a cada casa, se ficam tão longe e isoladas pela ilha fora? Não me lembro de ver fios nas ruas!

As paragens para ver coisas bonitas iam servindo para eu descansar do esforço da luta contra o vento mas, a cada vez que seguia viagem, ele voltava a lutar contra mim com toda a força. Tem de ser, não posso ficar aqui a vida toda!

Havia mais coisas que eu queria ver, as casinhas de Glaumbær por exemplo.

Duas casas de madeira recebem os visitantes, chamam-se Gilsstofa e Áshús. São edificios do Museu Nacional da Islândia, construidas no séc. XIX. Pelo que percebi estas casas podiam ser movidas e a Gilsstofa, a branca, foi movida de lugar uma meia duzia de vezes! Fantástico! Literalmente andava-se com a casa às voltas!

Não percebi muito bem qual o critério na orientação e disposição daquelas casas!

E lá estavam as belas casinhas de turfa, como um cenário de filme de encantar!

Tudo parecia ter sido posto ali para encantar os visitantes. As casinhas eram deliciosas, com cabelos de relva e paredes de palha prensada, custava crer que resitiram tanto tempo, ali em cima, desamparadas do vento e da intemérie. E que vento!

Em Glaumbær viveu o responsavel pela critianização da Islândia, no século XI, mas as casinhas de turfa são do século XVIII ou XIX. As casas de turfa foram habitadas até meados do séc XX e as de madeira foram sendo anexadas a elas, até começarem a ser todas construias em madeira e deixarem a trufa antiga para trás. Ok, ainda usam bastante a trufa nos telhados, mas não nas paredes.

Por dentro podiam ver-se os blocos que formavam as paredes. Aparentemente embora fosse tudo terra, não havia humidades! Fantástico! Pensar que hoje em dia, com todos os meios que temos, há casas que são construidas cheias de infiltrações que demoram anos e multiplas reformas até resolver o problema!

A igreja completa o quadro encantador, depois do muro composto do mesmo material das paredes das casas. Como pode o clima tão rigoroso não destruir aquilo tudo depois de tantos anos?

A igreja é mais recente, mas é muito bonita e fica tão bem no conjunto!

Houve ali uma igreja mais antiga, do século XI, mas desapareceu. Pudera, 10 séculos naquele clima devem derrubar qualquer construção, digo eu, que não sei nada de construção antiga!

E as casas pareciam sair do chão, como pequenas colinas relvadas com janelas!

Será que se corta a relva naqueles telhados como nos campos? Ou deixa-se secar e cair até crescer uma nova?

Não pude deixar de imaginar um jardineiro maluco a cortar a relva dos telhados, assubiando e conduzindo o seu ruidoso corta-relvas!

Como seria para os miudos viverem ali, com as mães berrado “Ólafur sai já de cima da cozinha, que isso não é o relvado de um campo de futebol!” ou “menina Sigríður, faça favor de parar de cortar a franja à sala de jantar, que a chuva vai entrar por aí!”

Sim, a minha mãe também me chamava de “menina” quando ralhava comigo, e sim, fui pesquisar nomes islandeses, para perceber como uma mãe chamaria seus filhos! eheheheh

Um sitio adoravél que não apetecia abandonar…

Não podia partir sem guardar aquelas casinhas no meu diario gráfico..

O sol marcou a sua presença, mas nem por isso o tempo aquecia! Estava um frio dos diabos!

Tão depressa o sol espreitou e logo desapareceu. Uma pena, pois eu ainda queria ir a outro sitio lindissimo e sem sol, deveria ser meio deprimente!

O sitio que eu queria ver era no meio de um imenso deserto de palha!

Ok, toca a pousar a moto e caminhar. O que faz uma igreja no meio de lado nenhum, afinal? Provavelmente em tempos haveria uma série de pequenas casas de turfa por perto, hoje desparecidas.

A sua localização apenas assentuou a sua aura de mistério, Grafarkirkja, a igreja mais antiga da Islânsia. Há partes da igreja do século XVII, mas existia ali uma igreja muito antes disso.

Estava fechada, tive de espreitar pela janelinha nas traseiras para perceber como era por dentro. Tal como eu imaginava era parecida com a igreja de Víðimýrarkirkja

” Longe de tudo, no meio da bruma, eu encontrei a mais antiga igreja da Islândia… e foi um momento único na minha viagem! Construída em blocos de terra amassada com palha e coberta de turfa, ela faz parte da terra como se dela tivesse emergido um dia. Foi como estar na presença de uma entidade muito antiga e poderosa. Não há nada em volta, nem casas nem estradas, apenas ela e o longo campo verde em redor, como as entidades devem estar…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Foi uma pena ter deixado a minha caixinha de aguarelas na moto, apenas tinha levado o caderninho e uma caneta, mais para fazer anotações do que para desenhar, afinal as minhas mãos estavam muito geladas para desenhar. Mas saiu um esboço a caneta, para memória futura!

Havia gente a chegar para a ver. Fantástico, consegui testemunhar que havia vida na ilha, afinal!

Quando se fala em milhões de visitantes na Islandia, eles devem espalhar-se bem pela ilha e por todo o ano, porque quando se anda por lá, não se vêem muitos!

Por perto há localidades habitadas. Poucas casas e pouca gente, mas se considerarmos que a ilha toda tem menos habitantes que a cidade de Lisboa (bastante menos), percebemos porque não encontramos niguém a maior parte do tempo!

Hólar chamara a minha atenção, pela sua grande torre sineira. Na realidade, onde não há cidades, qualquer pequena localidade prende a atenção!

Uma pena que a igreja estivesse fechada. Percebi que ali existe uma escola superior e que aquela terra foi sede de um bispado. Não sei de onde vêm os alunos para encherem a escola, mas devem vir e ficar a viver por lá, porque não há muitas terras por perto para eles irem e virem!

Pertinho da igreja, na descida, fica a Auðunnarstofa, uma réplica de uma casa antiga da zona e que agora é o escritório do bispo de Hólar.

Aquela porta é uma obra de arte!

Eu tinha planeado ficar algures pelo caminho, num parque de campismo qualquer, mas o tempo estava uma bosta, o frio era meio terrivel e o vento insuportavel… se calhar seria melhor continuar seguindo para sul a ver se as coisas melhoravam, sei lá!

Blönduós estava a maior desolação de frio, vento e solidão!

Para além da igreja, bem original, nada me atraía para lá ficar, por muito gelada e cansada que eu me sentisse

Apenas pude espreitar pelas janelas para ver como era por dentro

Acho que me sentiria meio triste se ficasse por ali. É, o melhor era continuar seguindo, quem sabe se encontraria o sol e deixasse o vento para trás!

De alguma forma a solidão e a luta constante com o vento despertavam em mim toda a tristeza que trazia no coração.

“A concentração que o vento me impõe não afasta da cabeça o que o coração não consegue esquecer. Viajar com a angústia como companhia num país como a Islândia, é viajar ao mais intimo que as emoções podem ir. Há caminhos que me transportam através do tempo até ao infinito.” (registos de viagem)

O deslumbramento do vazio infinito era tão grande! “Não há como não me apaixonar por este país!”

Quanto mais andava mais forte era o vento! Havia momentos em que tinha a sensação de que não seguraria mais a moto de pé e que ela e eu iriamos simplesmente ser arrastadas para fora da estrada!

E de repente, quando parecia que as coisas não podiam ficar piores, fui obrigada a sair da estrada!

Estes gajos devem estar a gozar comigo! Como é suposto eu seguir por ali fora sozinha, sem saber onde vou ter, sem niguem por perto, nem casas nem pessoas, e com uma ventania infernal a ameaçar pôr-me ao chão a todo o momento? Mas as setas assim indicavam, por isso não tinha alternativa. Ainda caminhei um pouco a ver o que havia a seguir, mas não dava para ver muito sem caminhar quilómetros.

Enfim, siga e seja o que Deus quiser!

Os montes não são altos, mas eles crescem quando se começa a descer! Lá fui indo lentamente, tentando não entrar em pânico. A parte melhor é que, à medida que seguia e descia, a força do vento atenuava um pouco! Ótimo, não era tudo mau, as colinas que se formavam na descida protegiam um bocado o meu caminho. Mesmo assim, de vez em quando, o vento encanava pelo meio das rochas com toda a força e quase me virava de pernas para o ar!

Aquilo nunca mais acabava, passei por regos de água, por terra negra menos batida do que eu desejaria, por pedrinhas e gravilha. A moto já dela é pesada, com os bagulhos em cima, mais o meu peso, parecia um elefante a arrastar-se por caminhos arenosos, quase areias movediças. Mas tudo bem, os filmes de terror na minha cabeça, embalados pela minha música, não foram suficientes para me fazerem entrar em pânico total e acho que até estava a fazer boa figura.

Então, de repente, depois de uma série de grandes pedras, estavam 3 tipos de moto. Senti-me tão amparada! O ar de espanto deles foi tal que parecia que tinham visto um fantasma. Fiz uma festa, eram os primeiros motociclistas que eu via desde que desembarcara na ilha! Não pude sequer desmontar, estávamos num solo irregular e arenoso, tinha a sensação de que se pusesse o descanso ele enterraria. Eles estavam com um ar meio miserável, um deles estava todo molhado, tinha caído algures, e os outros estavam visivelmente stressados.

Perguntaram-me de onde eu vinha, onde estavam os meus amigos, se eu atravessara o rio e sei lá mais o quê. Venho de onde vocês vêm, não há outro caminho aqui, estou sozinha, sem amigos por cá, e atravessei só uns regos de água, não vi rio nenhum! Sim era um rio, diziam eles, tinham-se afligido muito a atravessa-lo e o colega caiu no meio da água, a moto enterrou e eles tiveram muita dificuldade. A sério? Não pode ser, eu fui para a zona mais estreita e atravessei muito bem, a água não era funda e eu só tive de pôr o pé ao chão para não derrapar pois os meus pneus não são próprios.

As motos deles eram mais leves, tinham pneus de taco, acho que o que lixou tudo foi o pânico coletivo mesmo! Estavam preocupados por eu andar ali sozinha, propuseram que eu seguisse com eles. Eu agradeci mas achei melhor seguir sozinha, o pânico e o medo são contagiosos e eu, sozinha, sempre me desenrasco. Não tenho de depender de ninguém para além de mim, o que me faz superar os medos e resolver as situações sem ter de provar nada a ninguém. Acho que o stress deles me contagiaria, para além de o seu ritmo não ser, certamente, o meu. A verdade é que parece que não iriam sair dali tão cedo e eu segui o meu caminho. Nunca mais os vi, devem mesmo ter ficado lá ainda muito tempo!

Vá lá, o caminho não era tão ruim assim! Eu fi-lo sem stressar! Ok, pus os pés no chão um milhão de vezes, mas isso é porque eu sou azelha e tinha uma moto com pneus de ir à missa… Depois já vinha morta de cansasso, nada de uns 200 ou 300 quilómetros, eu já devia ir nuns 500 ou mais, numa luta desigual com o vento mais violento e desamparado que eu conhecera em toda a minha vida!

E finalmente cheguei ao piso lisinho e só então pude parar e desmontar um pouco. As minhas mãos estavam pisadas, os meus braços doloridos, aliás todo o corpo doía, com o esforço e a luta contra o vento. E por falar em vento, ele estava mais forte que nunca, assim que desmontei para descansar as pernas, ele quase me deitou ao chão!

Como pode uma paisagem parecer tão serena sem que se perceba quão forte era o vento que a atravessava?

Eu vinha sentindo um calor esquisito, a bem dizer, o dia todo! Desde que saíra para a estrada que esperava que o tempo aquecesse, um pouco que fosse, mas ele nunca aqueceu muito…

Estava no meu limite e ainda tinha bastante para lutar. Acho que se o tempo estivesse quente teria sido muito pior, por isso o frio até me ajudara a resistir tanto sem cair para o lado de exaustão

Eu já nem me afastava da moto quando parava, para a amparar com o meu corpo e não correr o risco de que o vento a pusesse ao chão. Se ela caisse eu acho que me deixaria cair junto e ficaria ali mesmo, estendida no chão com ela, sem forças para mexer um dedo que fosse!

Eu parecia uma velhinha a subir para a moto, mais pendurada nela do que a subir para ela!

Vá lá, aprecia a paisagem como se estivesse um tempo sereno, afinal a beleza prevalece sobre a ventania!

Oh, bendito sol, que aquece a alma quando o corpo está na realidade gelado pela temperatura baixa há centenas de quilómetros.

Nunca achei muita piada quando me chamam de guerreira mas, naqueles momentos, era o que eu me sentia, uma guerreira, que lutava contra verdadeiros moinhos de vento, em paisagens de cortar a respiração!

Já nem tinha a certeza se chegaria a Reykjavík, o vento, agora mais forte do que nunca, batida na encosta dos montes e fazia ricochete fazendo a moto ziguezaguear. Era tão assustador!

Pudesse eu ficar ali quieta e esperar que o tempo acalmasse

Impossivel relaxar, eu contraia-me toda até me doer todo o corpo.

Eu tentava racionalizar a situação, se tinha de fazer força era com as mãos, porque não conseguia deixar de contrair-me até tudo me doer até ao pensamento? Parava um pouco a cada vez que o vento era mais favoravel, só para tentar descontrair, mas definitivamente, era impossivel.

Estava a chegar à capital, mas o parque de campismo não era lá. Ainda teria de percorrer um bom pedaço de ventania até lá chegar. Um pedaço bem terrivel por sinal, em que me seria de todo impossivel parar, com o vento a vir de todas as direções, desviado por pedregulhos e penhascos de lava, que está por todo o lado, bem em redor da cidade! Oh valha-me….

E lá cheguei, pouco sã mas salva…

Felizmente a minha tenda era facil de montar, e eu estava uma especialista na coisa, senão acho que tinha dormido ao relento estendia no meio da relva. O vento era tão forte que levava tudo consigo. Trouxe todas as tralhas possiveis para a minha beira, malas da moto incluidas, e assim que libertei a tenda do seu saco, o vento encarregou-se de fazer dela uma autentica bandeira.

Ou seguro esta coisa com força ou ela vai parar às Ilhas Faroé bem antes de eu lá chegar!

Pousei a “bandeira/tenda” na relva e segurei-a com os joelhos, enquanto punha em cima tudo o que tinha por perto, uma mala em cada ponta depois o saco mais além e por fim o capacete. Mas ele era leve e o vento simplesmente roubou-mo, e lá foi ele a rolar por ali fora como se fosse uma bola de plastico! E tive de correr atrás dele! Depois espetei as grandes estacas, que levara para terreno rijo, mas que revelar-se-iam fantásticas para ventos ciclónicos, uma de cada lado e uma aos pés e outra à cabeceira. Podia voar tudo, mas elas não deixariam que a tenda levantasse voo, Quem se riu de eu levar o martelo de borracha não estava bem informado, como eu, sobre o que poderia encontrar naquela ilha!

Depois foi só colocar o grande aro, que graças a Deus é só um, e levantar aquilo tudo ao pregar as restantes estacas e puxar as espias! 10 minutos e estava pronta e esticada para resistir àquela ventania toda… esperava eu…

Dexei-me cair no colchão e dormi, sem banho, sem tirar a roupa, sem mais nada, apenas tirei as botas e morri para o mundo…

Chegara ao fim o meu dia de luta, tão lindo quanto longo e dificil… o dia mais dificil que eu vivera numa viagem!

RIP meu querido esqueleto… ressuscita amanhã, por favor!

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