5. Passeando pela Grécia/Balcãs – Atravessando o Mediterrâneo

23 de agosto de 2022

Este foi seguramente o dia mais entediante da viagem! Tanto tempo dentro de um barco é uma chatice a lembrar a minha longa travessia até à Islândia! 25 horas de mar…

Depois de uma noite desconfortavel, em que as horas não parecem passar, nem o pequeno almoço animou a minha manhã. Pelo menos as perspetivas sobre o Mediterrâneo eram luminosas e quentes, nada do frio que, sei lá porquê, eu estava à espera!

Para quebrar o tédio da história da travessia, desta vez escolhi 2 desenhos do dia anterior. Uma das coisas que me agrada é poder desenhar o que quero, como quero e com os materiais que me apetecerem, dentro dos que levo! Desta vez foram os dois feitos a caneta e foi bastante satisfatório realiza-los.

Aquela Bodega de Sommos fascinou-me realmente! Havia um jardineiro por ali a trabalhar que ficou visivelmente intrigado com o que eu estava a fazer, meio aninhada no meio do caminho. Quase esperei que ele viesse ver de perto, mas apenas se limitou a ficar a olhar até eu pegar na moto e me pôr a andar.

Agora no ferry nada de novo havia para fazer, apenas ficar por ali a ver o tempo a passar. Ok, há uma piscina no convés por isso não será tudo um horror. Se bem que, quando me sinto entediada, tendo a não achar muita piada em enfiar-me no meio de muita gente que fica esticada ao sol a tostar…

Sentei-me por ali, dei uns mergulhos, poucos, porque a piscina era pequena e pouco profunda, com gente a chapinar por todos os lados.

E o tempo foi passando muito devagar. Então começou a epopeia do gelo! No dia anterior pedi a um barman para pôr a minha bolsa de gel no congelador, agora ao ir busca-la estava “fresca”! “Mas afinal que congelador é esse que não gela?”, ” Ah, o congelador está com um problema…” “Ok, ponha-me a bolsa noutro mais eficiente, pode ser?”

Ora, se o gel precisa de uma hora para ficar frio o suficiente para eu pôr no meu pulso, voltei lá 2 horas depois… estava ainda menos fresco que pela manhã! “Como é possível os congeladores não ongelarem?” ” É, estamos com um problema com os congeladores e com o gelo”, disse ele.

Vi que havia uma arca vertical, com porta de vidro, do lado de fora do balcão, cheia de estalactites de gelo. “Posso pôr ali dentro? Certamente vai gelar rápido!” Voltei duas horas depois e… o tipo tinha desligado a máquina, estava tudo descongelado com água a escorrer pelas prateleiras e a minha bolsa de gel toda mole a querer escapar-se por entre as grades da prateleira! Este tipo bate muito mal!

“Então desligou a máquina homem?”, “Ah teve de ser, tinha pouca coisa dentro dentro!”

Aquela porcaria esteve ligada desde ontem e teve de ser desligada justamente agora, quando nenhum congelador funciona direito? Acho que vou agarrar o tipo pelos colarinhos!

Apontei na prateleira das bebidas uma garrafa de whisky “Dê-me meio whisky num copo grande com muito gelo.” E assim arranjei gelo com fartura para pôr no meu pulso, embrulhado num guardanapo de papel de se transformou numa pasta e molhou tudo em redor, mesa, cadeia e chão. Tudo teria sido muito mais simples com a bolsa de gelo, assim deixei a trapalhada para ele limpar.

Foi quando um grupo de motociclistas se sentou na mesa ao lado e meteram conversa comigo. Olhavam para a minha mão com ar de surpresa, e exclamou um deles a dada altura, como era possivel eu andar a viajar sozinha de moto, completamente deficiente da mão da embraiagem?!

“Então quer dizer que, se eu ficar deficiente para o resto da minha vida não deverei viajar mais?!” Parecia que ninguém conseguiria articular uma resposta coerente para a minha pergunta.

Então pelo telemóvel vi que estávamos a chegar a Porto Torres! Não havia escala lá para mim, mas sempre a paisagem mudaria um bocadinho e teria algo diferente para ver! E pus-me a andar, deixando para trás aqueles 4 em silêncio a olhar para mim, como se eu fosse um extraterrestre!

O mar é sempre giro de se ver, mas é monótono também, quando é tudo o que há no horizonte! Acho que não nasci para fazer cruzeiros, acho que, por muita diversão e entretenimento que tenham para oferecer, eu me iria entediar dentro de um por muitos dias!

Pausa para refletir!

Podia ver lá em baixo o povo à espera para entrar. Carros a sair, carros e motos à espera para entrar.

Dali até ao nosso destino ainda faltava umas 7 ou  8 horas

É, 7 ou 8 horas de mais do mesmo, isto é, nada!

Então, muitas horas depois, percebi que já se podia ver terra pelas janelas! Não fui só eu que corri para ver lá de fora!

Quanta emoção, Italia à vista e ainda era de dia!

Yes, chegaríamos antes do previsto, o que me permitiria ir calmamente até ao alojamento, quem sabe ainda apreciar a paisagem!

Mas aí começou a epopeia do desembarque!

Ninguém se mexeu quando o barco parou e ninguem se mexeu quando o tempo passou…

Disseram-nos que a policia estava a revistar todos os barcos à saida do ferry, isso queria dizer que estavam a revistar centenas e centenas de carros… e umas horas mais de espera…

Mesmo os carros não se mexendo muito, percebemos que podíamos esgueirar-nos pelo meio deles assim que aliviassem o espaço entre eles, e foi então que as coisas correram menos bem. O fulano que estava atrás de mim era um aselha! A minha moto não sairia com a dele atrás, pois estava a prender a minha contra o pilar à minha frente e ele não conseguia tirar a moto dele dali!

Ele tentava tira-la, puxava para trás, puxava para a frente e a moto voltava ao lugar onde estava antes, e a minha e todas as outras continuavam presas. Ele voltava a manobrar para lá e para cá, e voltava ao mesmo sitio! Santo Deus, como é que um homem anda na estrada, com a mulher à pendura, e não sabe manobrar uma moto?

Só me restava manobrar a minha. Eu sou boa nisso, em manobrar uma moto num espaço muito reduzido, bastam-me 10cm à frente e outros 10cm atrás que eu já consigo tirar a minha moto, mas eu estava sem força alguma na mão esquerda, o descanso empancou numa das argolas do chão e recolheu… a moto desequilibrou na minha direção e a minha mão esquerda não teve a força mínima para a segurar… merda!

Foi quando percebi que 25 horas de descanso foi a pior coisa que eu pude oferecer a esta mão… vamos ver se consigo conduzir até ao alojamento sem força alguma para usar a embraiagem… que não me apareça um aselha na minha frente!

Vieram imediatamente vários motociclistas levantar a moto do chão, muito preocupados se estava tudo bem comigo, naquele momento já todos sabiam que eu andava a viajar incapacitada. Todos tinham acompanhado os esforços desajeitados do meu vizinho de trás ao tentar manobrar a moto, e a minha tentativa de sair com ele mesmo ali…

Saí finalmente do ferry com uma fila de motos atrás de mim. Valha-me Deus, a confusão era tanta, havia festa e estradas cortadas e aquelas motos todas a seguir-me! Se eu me esbardalho eles virão contra mim?

Depois de muitas curvas, ruas escuras, transito infernal, os meus seguidores foram saindo para os seus destinos e eu lá cheguei ao meu alojamento. Confortavel, com chá e torradas à minha espera e um congelador a sério para por o meu gelo…

Hoje vou dormir como um passarinho, amanhã vou descer a Italia…

 

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