19. Passeando pelos Balcãs… – De Dubrovnik até Kotor…

14 de agosto de 2013

Este seria o dia de explorar um pouco de um novo país na minha história: Montenegro!

Mas antes de seguir para qualquer lado fui visitar Dubrovnik de dia! O mesmo lugar de estacionamento da noite anterior estava à minha espera, foi só parar e seguir caminhando!

Gostei particularmente das ruínhas que descem quase a pique, com escadinhas e lampiões em todo o seu cumprimento, até ao centro da cidade, até à Stradun.

Apetece mesmo capta-las em ambos os sentidos a todo o momento!

A igreja de São Brás estava de novo aberta… ou estaria ainda aberta?
Esta igreja barroca, do séc. XVIII, é muito importante e muito visitada, pois é dedicada ao padroeiro da cidade!

O porto estava tão bonito àquela hora da manhã!

Pensar que a cidade foi profundamente afetada pelo conflito da separação da ex-Jugoslávia! Foi cercada e bombardeada pelo exército da Sérvia & Montenegro, uma calamidade que foi muito bem recuperada e apagadas as suas feridas!

Na realidade os montenegrinos não queriam que a cidade ficasse com a Croácia, já que a consideravam historicamente sua, mesmo sendo a sua população maioritariamente croata e nem sequer ter muitos montenegrinos residentes! Coisa de sonhos de impérios grandiosos, mesmo que à força, e contra tudo e contra todos!

Estava muito calor já e eu não resisti aos meus desejos de momento e, tirando as botas, sentei-me num degrau do cais com os pés dentro da água transparente e fresquinha! Os turistas que se amontoavam para entrar nos barcos que fazem visitas na zona, ficaram a olhar para mim, com vontade de fazer o mesmo. Um velhote ainda fez menção de tirar os sapatos mas o piloto do barco veio busca-lo para partirem! Eheheh

Depois foi passear por ali, apreciando pormenores de uma cidade pavimentada e construída em pedra calcárica!

Como será caminhar por ali em tempo de chuva? Não será demasiado escorregadio?

A torre do relógio, medieval, parecia iluminada pelos céus!

E dava gosto apreciar a longa avenida sem os magotes de turista do dia anterior!

As ruínhas laterais pareciam chinocas de tanto lampião por ali acima!

As perspetivas lá de cima da estrada são fantásticas! Ficou marcada uma nova visita mas, da próxima vez, para demorar-me por ali, ficar, dormir e visitar em pormenor!

E experimentar aquelas praias de águas transparentes e deslumbrantes!

Este era o 3º mar que eu visitava naquela viagem, embora fossem todos Mediterrâneo, para além dele passara pelo Mar Lígure, na ribiera italiana, e agora no mar Adriático! Ao todo, certamente fiz 7 mares, digo eu!

Dubrovnik ficava para trás à medida que eu me aproximava de Montenegro.

A entrada em Montenegro foi rodeada por ciprestes! Será que os marinheiros croatas foram plantando os tais 100 ciprestes por cada um, até Montenegro?

Não houve qualquer dificuldade em passar a fronteira, apenas havia fila! Os habitantes de ambos os países cruzam a fronteira facilmente, mas havia também muitos alemães e italianos.

Então cheguei a um ferry! Eu sabia que havia caminho por terra mas apetecia-me tanto atravessar o mar! Dava a sensação que seria tão fresco andar por cima da água que eu fui perguntar a um dos policias controladores do trafego para o cais, como devia fazer para atravessar sem dinheiro!

“Não tens nenhum dinheiro?” – perguntou ele.

“Não tenho dinheiro do vosso!” – respondi

“Então que dinheiro tens?” – ele punha as mãos nas ancas e olhava para mim à espera que eu dissesse uma moeda qualquer esquisita, afinal eu vinha a Croácia e eles conhecem a sua moeda!

“Eu tenho euros!” – enfiei as mãos nos bolsos e mostrei 20€

“Mas aqui é euros!!” – exclamou ele espantado.

Bolas senti-me mesmo burra! Então eu fiz o trabalho de casa e não me lembrava mais que Montenegro, embora não faça parte da zona euro adotou a nossa moeda!

Siga para bingo e a minha motita fez sensação entre carros e bicicletas. Uma senhora de alguma idade veio pedir-me para tirar me uma foto junto da moto, depois a nós as duas mais a moto. Quando dei por mim toda a gente no barco olhava para mim e para a moto!

A baía de Kotor é um espanto que eu queria apreciar de todos os ângulos!

Kotor é encantadora, com um porto natural e toda uma baia em seu redor, como uma imensa piscina de tão calmas e belas são as suas águas!

Fui visitar a vila que é muralhada e é património da Humanidade!

Na realidade parece uma terrinha de brincar, com ruínhas estreitas e praças encantadoras que parecem ter sido decoradas para turista ver!

A igreja de São Lucas, fica ali no meio e, curiosamente, já foi de culto compartilhado entre ortodoxos e católicos, embora atualmente só se realizem ali celebrações ortodoxas.

Logo à frente fica a Igreja Ortodoxa Servia de São Nicolau.

Almocei ali, ao lado da catedral, umas lulas grelhadas deliciosas, com cerveja montenegrina 5 estrelas!

Para depois continuar as minhas explorações dos recantos e ruelas que eu tanto aprecio!

Achei um piadão à corda de estender a roupa, com roupa gigante pendurada com molas igualmente gigantes, na torre sineira da igreja de Santa Maria!

E ali ao lado fica uma das portas da cidadela, a Porta do Rio, ou Porta do Norte, do séc. XVI, com o rio a parecer falso de tão intensa que é a sua cor!

Passei por uma “estrela” de gato que posava placidamente para uma série de turistas que se aplicavam a sério para lhe apanhar o melhor ângulo!

A catedral de São Trifon é um edifício românico do séc. XII muito curioso! As suas torres são diferentes porque ela foi muito danificada por um terramoto no séc. XVII e, não havendo dinheiro para a restaurar completamente, foi feito o possível. Mais tarde voltou a passar por um outro terramoto, nos anos 70 do século passado, mas desta vez foi recuperada tal e qual era!

Por dentro ela é em tons de vermelho e salmão, em efeitos muito curiosos!

Pode-se visitar o tesouro que fica no andar de cima com acesso à varanda, de onde se vê toda a praça!

E fui deambulando por ruelas onde os turistas não se metiam, gosto de ver tudo o que puder sozinha!

E voltei à Trg od Oruzia, a Praça das Armas onde tudo se passa e de onde muita gente parecia não querer sair!

Aquele relógio tem 4 séculos!

E fui passear pela baía…

A Baia de Kotor é um deslumbramento em todos os ângulos que a observemos! Chamam-lhe Bocas de Cattaro ou Bocas de Kotor, ou ainda a Baía de Cátaro. Curioso como há nomes por ali que se assemelham aos daqui! Claro que me lembrei logo do país dos Cátaros, no sul de França! Será que tem algo a ver? Certamente que não, mas não deixa de ser curiosa a semelhança.

Ao contrario das paisagens que estamos habituados por aqui, em que depois do mar vem a praia, onde ele rebenta estendendo-se pela areia, ali há o mar e os fiordes por vezes profundamente vertiginosos, criando paisagens de extraordinária beleza!

Passeei-me em seu redor deslumbrando-me a todo o momento com o que os meus olhos viam, segura de que fotografia alguma conseguiria captar toda a aquela beleza. Montenegro, onde os montes são realmente muitos, mas de negro nada têm!

Simplesmente eu não conseguia seguir caminho! Parava a cada passo para ver e para me deslumbrar!

Depois lá me embrenhei pelo Parque Natural de Lovcen, por uma ruínha única que, embora estreitinha, era de 2 sentidos e era uma estrada nacional!

Por ali encontram-se os mais variados memoriais ao mortos da II Guerra, mas nada que se compare com os grandes monumentos que já visitara. Apenas lembretes, quando comparados com os outros, monumentais!

A partir de Cetinje comecei a subir para o Lovcen, onde fica o Mausoléu de Njegoš, o Shakespeare de Montenegro!

À medida que se vai subindo vai-se tendo uma perspetiva cada vez mais espantosa de toda a área do parque!

E pimba, o mausoléu estava em obras! Lá tive eu e muita gente de deixar a moto cá em baixo e subir o resto a pé!

Na realidade se não estivesse em obras o percurso também seria feito a pé, a única diferença é que subira por escadas civilizadas e não por escadas escavadas na rocha e cheias de cascalho solto!

Ao chegar ao mausoléu propriamente dito cruzei com um casal de motards, ambos carecas! Não posso negar que é prático usar o cabelo rapado… mas a mulher era tão feia que assustava!

E lá estava o Njegoš, todo coberto de pó!
O homem que foi politico, filosofo e poeta, entre tanta coisa que deu a Montenegro, como a secularização do estado, não é por acaso que ainda hoje tem a importância que tem!

Ele nasceu perto de Cetinje, numa pequena aldeia e quis ser sepultado lá, mas com a destruição do templo onde esteve, acabaram por lhe construir um mausoléu no “topo do mundo” o que foi controverso já que era sua vontade permanecer num local modesto!

Na verdade a construção é magnífica e fica num ponto incrivelmente espantoso!

Vale a pena subir ali só pela paisagem e pela serenidade fresca que ela nos transmite!

Cetinje lá ao fundo, aquela que ainda hoje é recordada como a capital do reino de Montenegro no início do século passado, entre 1910 e 1918.

Claro que não vim embora sem me despedir do homem, tinha de ser, a passagem passa por ele! Lá continuava coberto de pó, esculpido num bloco único de granito verde-escuro de quase quatro metros de altura e com 28 toneladas de peso! Garantido que nunca sairá dali!

O senhor da entrada ofereceu-se para me tirar uma foto, para me compensar, já que eu reclamei ter de pagar bilhete para ver o homem todo porco, e tudo cheio de pó! Eheheh

Na descida pude ver melhor o caminho e a paisagem com Cetinje sempre no horizonte!

Muita gente faz montinhos de pedrinhas por ali, fica muito giro e pedrinhas é o que não falta!

E fiz eu mesma o meu montinho de pedras! Ficou giro!

O caminho faz-se por cima da gruta onde fica a escadaria que leva ao mausoléu, enquanto a estão a renovar e não se pode passar. Não entendi muito bem porquê, pois se o mausoléu foi inaugurado nos anos 70, precisamente em 1974, já estava assim estragada a escadaria em pedra? Será que as pessoas que lá foram todos estes anos tinham cascos em vez de pés?

O que vale é que para baixo todos os santos ajudam!

Cá de baixo, de uma curva no caminho, podia-se ver a entrada da escadaria, como um buraco no monte!

E mais á frente o mausoléu parece uma pedrinha lá em cima!

E segui para Podgorica, avistando ao longe o lago Escútare ou Skadarsko jezero, surrealista!

E foi o fim do 16º dia de viagem!

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18. Passeando pelos Balcãs… – Miss Sarajevo…

13 de agosto de 2013

Eu não conseguiria evitar de ir a Sarajevo…

Que me importava a praia e o mar e os sítios onde toda a gente vai? Iria estar calor, iria andar pelo interior e até pela montanha, mas eu iria lá!

Logo a seguir à saída da cidade de Dubrovnik fica a fronteira com a Bósnia e começa a paisagem serena e verde com terrinhas pequenas a pontear o meu caminho.

Não foi complicada a passagem da fronteira, apenas mostrar o passaporte e seguir viagem! O mar podia-se ver ainda, lá da fronteira!

Mais à frente fica Trebinje, a cidade mais a sul da Bósnia e, quem vem de Dubrovnik, passa por ela, estendida no seu imenso vale e atravessada pelo Rio Trebišnjica.

Não a visitei a pormenor, tinha outra grande cidade em mente, mas terei de voltar ali para vê-la porque sei que é uma belíssima cidade. Desta vez parei na berma da estrada e apreciei-a de longe, no ponto em que a estrada iria voltar-se para o outro lado do monte e eu deixaria de a ver. Por isso parei e gravei aquela paisagem na memória, como quem pede desculpa por seguir sem parar e dar a devida atenção a tão bonito recanto de um país.

Prometi “eu voltarei para te ver!” e segui o meu caminho…

Para mim é sempre reconfortante encontrar pastores num país estranho, transmite-me a sensação de gente que tem do que viver, gente que vive como a minha gente!

Contornei o Bilecko jezero, um lago artificial enorme, o segundo maior lago dos Balcãs, encantador àquela hora da manhã! E foi ali que vi o que devia ser o único incêndio de toda esta viagem, e nem tenho a certeza se não seria apenas uma fogueira, pois a coluna de fogo era pequena e, ao fim da tarde, quando eu regressava, não existia mais!

Por baixo daquele lago existe uma vila evacuada e inundada aquando da sua construção, como acontece em tantos lagos deste mundo. Curioso o efeito refrescante que a visão da água teve sobre mim num momento encantador, mas de calor já muito intenso!

O Parque Nacional de Sutjeska veio a seguir, tornando o caminho muito bonito.

Eu esperava encontrar o memorial que me tinha enchido os olhos, de entre os muitos memoriais jugoslavos, hoje chamados de Monumentos Esquecidos da Ex-Jugoslávia e, depois de caminhos lindíssimos que atravessam o Parque Nacional de Sutjeska, ele estava ali, imponente no topo de uma colina arredondada, o Tjentište Memorial, no vale dos heróis!

O monumento é tão grandioso como surrealista naquela envolvência natural, rodeada de montanha e verde.

Dois blocos de cimento armado de dimensões descomunais que desafiam os nossos sentidos…

Ele relembra a Batalha do Sutjeska, em 1943, que pretendeu capturar Josip Broz Tito, o mesmo que mandou construir este e outros memoriais, uns anos após o fim da II Grande Guerra.

Por trás dele uma série de degraus levam a um pequeno recinto onde são lembrados os batalhões que ali lutaram e pereceram…

Totalizando cerca de 300 degraus desde a base da colina e o início do percurso…

Lá de cima tem-se uma perspetiva deslumbrante do monumento!

Hoje ele está ali, como um elefante branco que faz as pessoas pararem ao avistarem-no da estrada, mas falta-lhe o protagonismo que mereceu durante muitos anos, enquanto a Jugoslávia ainda era um país e as pessoas buscavam ali essa força nacionalista que compensaria, talvez, a falta de determinação de cada um dos seus verdadeiros países!

Estava lá um carro e eu pensei em levar até lá a minha moto, mas acabei por não o fazer, o caminho era um carreiro serpenteante e não valia a pena dar tão grande volta. O carro serviu para fazer de escala e tornar mais fácil a perceção da dimensão do monumento!

E o altar, visto de cima, parece um altar druida, no meio da natureza!

A imagem do local prende a atenção, custava-me ir embora!

Sarajevo fica logo a seguir!

Sarajevo era aquela cidade que eu queria visitar desde a guerra que a cercou, sitiou e destruiu, há 17 anos atrás. Uma cidade cheia de história onde se cruzam culturas, hábitos, costumes e religiões. A cidade é praticamente plana, no vale com o seu nome, rodeado de colinas, mas tem uma colina que a domina, ali, onde fica o Cemitério Alifakovac…

Visitar aquele cemitério, onde tanta gente foi sepultada após a guerra, em que morreram mais de 12.000 pessoas, recolhidas de todos os sítios onde haviam sido enterradas às pressas durante o cerco… teve um efeito muito profundo!

É tudo tão recente, todas aquelas sepulturas são de gente que morreu entre 1992 e 1996, que choca muito mais que cemitérios das duas guerras mundiais! Como se afinal tudo possa voltar a acontecer…

A cidade renascida ao fundo…

“Descobrir Sarajevo foi um encanto tão desejado quanto inesperado! A cidade que se recompôs tão rapidamente de imensos e graves ferimentos, está de pé, cheia de contrastes e belezas diferentes! Edifícios modernos coexistem com ruelas estreitinhas ladeadas de lojas e barezinhos, cujos toldos quase se tocam de um lado para o outro do caminho. As cicatrizes da guerra e do longo cerco à cidade ainda são visíveis, em furos cimentados pelas fachadas dos edifícios mais altos, mas a zona pitoresca está perfeita e encantadora. Todos os receios se revelaram infundados, Sarajevo é aquela cidade simpática a revisitar com calma, mais dia menos dia!”

A Gazi husrev-bey mosque, considerada a mais importante construção Islâmica do país e um dos melhores exemplos do mundo da arquitetura otomana.

As ruínhas são encantadoras e intrincadas, cheias de lojinhas e esplanadas com bancos baixinhos e gente a tomar chá!

Os cemitérios otomanos estão um pouco por todo o lado, como jardins!

Mas havia algo que eu queria muito visitar na cidade, do outro lado, perto do aeroporto!

O túnel da esperança!

A cidade esteve cercada durante 3 anos e sobreviveu graças à criatividade do exército bósnio, que construiu um túnel por onde passou tudo o que foi necessário para garantir o mínimo a uma população sacrificada!

O túnel foi escavado por baixo do aeroporto, em condições muito difíceis, dado que o túnel se inundava frequentemente e não havia materiais adequados nem para expelir a água. Os soldados trabalharam 24 horas sobre 24, por turnos durante 5 meses até chegarem ao lado de lá!

Foi escavado à mão, com pá e picareta e a terra transportada em carrinhos de mão!

Por ali passou ajuda e materiais de todo o tipo para a população e soldados, numa cidade onde nada havia, nem luz, nem combustível, nem material medico suficiente….

Durante um bloqueio de mil dias, o túnel foi de esperança e de salvação. Através dele milhares de toneladas de alimentos, dispositivos técnicos militares, combustível e materiais médicos entraram na cidade!

Feridos graves foram evacuados e soldados, funcionários e superiores militares entraram e saíram.

“O túnel tornou-se um símbolo da resistência do povo desarmado, a um dos exércitos mais poderosos da Europa!”

Ele parte de uma casa insuspeita, de uma família comum, que permitiu que o exercito a usasse como ponto de partida. É comovente ver fotos da velhota, dona da casa, a dar água aos soldados!

Hoje a casa é um museu que guarda os “comboiinhos” que faziam o transporte de tudo…

Ali houve mesmo uma luz ao fundo do túnel…

A casa está lá, cheia de buracos de balas, como ficou depois do cerco acabar!

Depois continuam os cemitérios! Depois dos islâmicos e dos otomanos, que se podem encontrar em qualquer canto na cidade, os cristãos, cheios de cruzes e gravuras curiosas!

Voltei à estrada com a cabeça cheia de sensações e ligações a momentos vividos muitos anos antes, quando a guerra da Bósnia e o cerco de Sarajevo preocuparam os meus dias.

Os polícias Bósnios eram uns risonhos! Mandaram-me parar vezes sem conta, apenas para saber de onde eu vinha e se era mesmo uma mulher! Aqueles que não me mandaram parar à ida, mandaram-me parar à vinda!

Num momento em que eu vinha completamente distraída pelo meio dos montes, um jovem e muito interessante polícia mandou-me parar. Quase derrapei para o fazer pois não contava encontrar polícia numa curva da montanha!

“Sabe que o limite de velocidade aqui é de 40km/h?” – perguntou ele.

“Oh, mas aqui o meu amigo diz que são 60km/h!” – exclamei eu apontando o sinal redondo de 60 no meu GPS.

Ele espreitou – “Pois, mas o seu amigo está enganado.” – disse. Fiquei a olhar para ele como quem fez uma asneira esperando o que viesse! – “Pode seguir.” – disse ele então, com um sorriso, e piscou-me o olho!

Puxa, que menino giro e simpático! Se eu pudesse tinha-lhe tirado uma foto!

Depois vieram as vacas! Detesto cruzar com vacas que me olham fixamente! Fico sempre com a sensação que se ela vem e se encosta, não haverá nada que me salve debaixo dela! Como eu desejei que o polícia simpático estivesse mais perto um pouco para me salvar!

As ovelhas são muito menos assustadoras, correm para todos os lados e são mais pequenas do que a moto!

O lago Bilecko estava encantador ao entardecer!

Trebinje estava quase invisível!

E Dubrovnik estava linda!

Fui jantar à cidade, que é muito bonita à noite, com as suas ruelas estreitinhas de pedra polida e brilhante!

Ali é terra de peixe, e que bom peixe! Comi mexilhões porque não resisti ao seu aspeto! Tive de apontar para o prato dos vizinhos pois descobri que não sabia o seu nome em inglês! Tão cedo não me vou esquecer, chamam-se: Mussels

A Stradun, aquela rua que é quase uma praça, de tão larga, é pavimentada a calcário o que a faz brilhar. Mas naquela noite estava cheia de gente e pouco se via do seu chão. Ela é a rua principal de cidade desde o séc. XIII.

A Igreja de São Brás estava aberta àquela hora!

E tudo era uma animação! Parecia que estava em Espanha, onde o jantar se prolonga até à ceia e a festa até às tantas!

Um grupo de rapazes queria trocar o meu chapéu por um chapéu todo colorido! Diziam eles que eu, toda de preto, iria ficar um espanto com um chapéu azul turquesa ou vermelho!

E o porto velho com a Fortaleza de São João logo ao lado!

Aquela população viveu sempre do mar, até chegar o turismo, e dizia a tradição que cada homem devia plantar 100 ciprestes durante a sua vida, para poder um dia construir o seu próprio barco. Dizem que por isso hoje há tantos ciprestes em torno da cidade!

E fui-me despedir da Stradun e da torre do relógio e fui dormir!

E foi o fim do 15º dia de viagem!

17. Passeando pelos Balcãs… – de Split até Dubrovnik , passando por Mostar

12 de agosto de 2013

O calor começou cedo em Split! Logo pela manhã começava a prometer torrar-me de novo os miolos, mas mesmo assim eu ainda me aventurei a passear um pouco!

Subi ao Monte Marjan de onde se pode ver toda a cidade.

Apenas no trajeto do Monte Marjan até à marina vi 2 carros serem rebocados! Bem, não diria rebocados, pois na realidade foram guindados na frente dos meus olhos! Um policia punha aquelas coisas de metal nas jantes e um guincho prendia nelas, erguia o carro no ar e pimba com ele em cima do reboque! Uma operação de meia dúzia de minutos que a gente quase nem sentia, na fila do trânsito!

Fiquei meio traumatizada pois nunca vira fazer tal coisa! Será que aquilo também funciona assim com as motos?

Depois vi que as motos têm tratamento vip e há sempre uns corredores para os parques por onde apenas elas podem passar sem pagar! Muito simpático! Por isso eu não seria rebocada!

E fui passear um pouco pelo centro da cidade, onde andara no dia anterior. Eu queria visitar a catedral!

A Catedral de St. Svetog Dujma é a catedral mais antiga do mundo! Inicialmente era o mausoléu do imperador Diocleciano, mas foi convertida em catedral no séc. VIII fazendo parte do palácio de Dioclesiano.

Não se podia fotografar lá dentro, por isso lá tive de roubar uns quantos enquadramentos à socapa com a minha máquina silenciosa!

A torre sineira fica ao lado da catedral e é espantosa!

Mais espantoso é vê-la por dentro e subi-la! Para minha surpresa estava um grupo de pessoas amontoadas a alguns degraus do chão, na escada que sobe em caracol, junto ao interior das paredes da torre.

Esperei, pensando que havia fila por qualquer motivo. Talvez a escada em metal não suportasse toda aquela gente de uma vez e tivéssemos de subir aos poucos, mas então aquela gente encostou-se fazendo um esforço para me deixar passar. Só então, ao subir, percebi! As pessoas tinham medo!

A torre é “esquelética” cheia de aberturas e nada que isole o interior, isto é, ao subirmos podemos ver tanto o vazio para o interior da torre, como o vazio para o exterior! Faz um efeito curioso subir assim uma aparente frágil escada no vazio! A paisagem lá de cima é deslumbrante e vale bem a subida àquele que é o símbolo da cidade! Split aos nossos pés!

Vai-se subindo e acompanhando as perspetivas da paisagem pelas inúmeras aberturas

Aberturas ao nosso lado e no ado oposto da torre.

De lá de cima temos uma imagem espantosa de 360º sobre a cidade!

Split é a segunda maior cidade da Croácia e a capital da Dalmacia. Por momentos perguntei-me se os cachorritos dálmatas não viriam de lá, afinal em francês chamam-se “dalacians”!

Então voltei a descer a torre, onde andei sozinha, apenas na descida cruzei com algumas pessoas começavam a subir, o resto permanecia lá em baixo ou desistira!

A meio da descida eu podia ver as pessoas sentadas nas beiras das janelas lá em baixo! Eheheheh

Mas ao olhar para cima era compreensível o medo e a sensação de vertigem que aquelas pessoas deviam sentir!

Uma torre muito bonita!

Depois são as ruínhas estreitas, com esplanadas por todos os cantos

até à Praça do Povo com a Torre Marina, medieval, e o monumento a Marko Marulic, o fundador da literatura croata.

Por esta altura o calor estava mesmo infernal, eu já tinha bebido uma garrafa de 1.5l de água e estava a tratar da segunda!

Saí da cidade e, antes de seguir para sul, passei por Trogir, uma cidadezinha ali ao lado muralhada e muito bonita! Um mimo criado por gregos antes de Cristo e que hoje é uma grande atração turística!

A Katedrala Lovre Sv é encantadora, numa mistura de românico e gótico com a torre a lembrar a torre da catedral de Split!

Como diz a literatura “Trogir possui 2.300 anos de tradição urbana contínua”

A lente da máquina continuava a embaciar com o calor, uma pena pois captava pormenores curiosos de uma cidade que parece de brincar!

Como o recanto dos hippies pintores. Não tenho muita vocação para hippie, mas acabo sempre por meter conversa com quem desenha ou pinta, e ali não foi exceção!

Então segui viagem, não sem parar um pouco para ver de longe a torre sineira da catedral, que sobressai do aglomerado de casinhas, por trás das muralhas!

Eu sei que o caminho pela costa é muito bonito e sei também que é o caminho mais lógico para quem vem de Split para Dubrovnik … mas nem sempre eu vou por lógicas e voltei a fazer o caminho pelo interior!

De novo a Bósnia a despertar a minha curiosidade, mesmo ali ao lado, e foi por lá que eu fui!

Aquilo quer dizer: “Rota do Vinho Herzegovina”. Deu para ver que os Bósnios são muçulmanos mas produzem bons vinhos!

É curioso passar por cemitérios nas bermas das estradas como jardins comuns, sem qualquer resguardo! Dá para ver que não são muito preocupados com isolamentos para os mortos!

E cheguei a Mostar!

Os sinais de destruição provocada pela guerra da Bósnia ainda são um pouco visíveis em edifícios na cidade moderna, mas o centro histórico está lindo, com a sua ponte e ex-libris da cidade perfeitamente reconstruida!

O centro histórico de Mostar é encantador, com as ruelas empedradas com seixos redondos a fazerem-nos cocegas nos pés, e a sua extraordinária Stari Most – a ponte velha, do séc. XVI, sobre o rio Neretva, de águas profundamente esmeralda!

Entrei na Mesquita Koski Mehmed Pasha, que fica mesmo ao lado do rio e tem uma perspetiva extraordinária sobre o rio e o centro histórico!

Para isso tive de subir ao minarete. De novo ainda bem que não sofro de vertigens nem de claustrofobia, porque aquela escadinha não é em caracol, é encaracoladíssima, de tão estreito que é o minarete!

Mas vale a pena subir!

Oh p’rá minha sombra lá em baixo na abobada da mesquita!

E lá estava o rio e a ponte!

E o casario antigo, com telhados de pedra…

Mas os meus olhos não descolavam da ponte, aquela joia lindíssima, sobre o rio esmeralda!

Tirei um milhão de fotos parecidas, simplesmente porque não se consegue evitar de olhar e captar toda aquela beleza!

E por fim lá desci. O minarete era verdadeiramente estreito, podia-se apreciar a sua elegância delgada cá de baixo!

E do jardim da mesquita ainda tirei mais uma série de fotos ao rio e à ponte, era inevitável!

E lá fui ver a ponte de perto.

Ao longe a mesquita de onde eu vira a ponte pela primeira vez!

Agora já cheia de gente, naquele espaço minúsculo, a fotografar em todas as direções como eu fizera!

Há uma tradição na cidade, em que rapazes mergulham desde a ponte para o rio, o que não é coisa fácil já que as águas do Neretva são gélidas e apenas pessoas experientes o devem fazer. Diz-se que esta tradição vem desde o séc. XVII!

Fiquei ali a olhar para a ponte um bom tempo, pensando em quem morreu ali, em quem tudo perdeu e em como tudo parece tão normal, tão pouco tempo depois da catástrofe!

A ponte foi destruída em 1993 e reconstruida por uma série de anos, inaugurada em 2004 e classificado, junto com o centro histórico, como Património Mundial da UNESCO em 2005.

Claro que fiquei ali á fresca muito bem acompanhada por uma cervejinha da terra! E sim, a cerveja Bósnia é muito boa!

Continuei a minha caminhada, com o meu lenço vermelho como apoio, pois o calor era impiedoso e eu transpirava!

A ponte estava agora cheia de mulheres sexies e eu lembrei-me do meu amigo Elísio e tirei uma foto a apanhar algumas!

Nas lojas adjacentes à ponte podem-se ver vídeos da sua destruição em 1993… a gente sabe que aquilo foi tudo abaixo, sabe que toda a zona foi arrasada e, mesmo assim, não consegue deixar de estremecer a cada investida da artilharia de fogo Sérvia e desejar intimamente “parem com isso que a ponte vai cair!” então ela cai e tudo é um monte de escombros em seu redor. É terrível esta sensação de impotência perante a estupidez humana que destrói deliberadamente uma parte da história do seu povo, uma ponte com mais de 400 anos. Hoje ela está lá, perfeita e reconstruida e olho-a com toda a admiração como símbolo de uma cidade martirizada!

 

E fui embora, pelas ruelas às pedrinhas, cheias de lojas de tudo, em que tudo parecia custar um euro!

A Mesquita Nesuh-aga Vucjakovic fica na berma da estrada com o seu cemitério cheio de “mecos” brancos de mármore, em memória de muita gente que morreu na guerra da Bósnia…

A minha motita tinha feito uma amiga italiana carregada de tralhas! Até almofadas ela tinha amarradas ao assento!

Segui em direção a Dubrovnik, por paisagens cheias de curiosidades!

Voltei a encantar-me com a Bósnia!

Até chegar aos seus 8km de praia!

Dubrovnik à vista!

Não fiz muito mais naquela noite, para alem de tomar um bom banho e me esticar de pernas para o ar, depois de um jantar feito mais de bebida do que de comida, pois o calor fora muito e estava visto que o dia seguinte me reservaria ainda muito mais…

E foi o fim do 14º dia de viagem!

16. Passeando pelos Balcãs… – Até Split, passando pelo Nacionalni park Plitvička jezera

11 de agosto de 2013

Os meus planos eram seguir a rota dos turistas todos, pela costa do Adriático mas, de repente deu-me na telha de ir pelo interior!

Lembrava-me da última vez em que parte do prazer de conduzir junto ao mar se foi com a quantidade de turistas que por ali andava a pastar e decidi explorar caminhos interiores que me fascinaram bastante na época. O calor não era o meu maior amigo, pois estava forte de novo, mas nada a que eu já não estivesse habituada!

A minha ideia era ir a Krka, seguir para Split e por lá dar umas voltas pela costa mas, de repente, não resisti e decidi voltar a visitar o Nacionalni park Plitvicka jezera.

“E voltei ao Parque Nacionalni park Plitvicka jezera… é incontornável! A gente passa perto e não pode deixar de ir visitar de novo! O parque é grande e encantador o suficiente para que o visitemos de novo e de novo, sem nos cansarmos nem termos a sensação de que já está tudo visto! São quilómetros de caminhos e passadiços que nos levam de lago em lago e desta vez escolhi um dos vários percursos bem diferente do que fiz há 3 anos. O deslumbramento é tão surpreendente quanto a frescura que se sente por aqueles trilhos cheios de beleza! A água corre por entre as árvores e a vegetação e o seu restolhar acentua a sensação de prazer de caminhar à fresca! Uma tarde de caminhada serena que retemperou energias para voltar ao enorme calor que se fazia sentir fora daquele paraíso feito de sombra, água e encanto!”

Subi no comboio do parque até ao ponto mais alto e estudei o mapa para fazer um percurso diferente do que fizera na última visita, depois foi só caminhar calmamente por entre paisagens e lagos deslumbrantes!

O parque é composto por 16 lagos visitáveis, situados em desníveis sucessivos que fazem com que eles descarreguem uns sobre os outros, como em degraus!

A água corre por todo o lado, por baixo dos nossos pés muitas das vezes, límpida e transparente, que apetece enfia-los dentro dela a todo o momento!

Depois as águas são muito calcáricas e os sedimentos formaram, e vão continuando a formar, barreiras que fazem as águas empossarem e correrem por entre a vegetação frondosa, provocando ou acentuando as cascatas incomuns porque a água parece furar de qualquer maneira o seu caminho de formas inesperadas e deslumbrantes! Estes lagos são por isso dos poucos locais no planeta onde aparecem novas cascatas a cada ano, o que quer dizer que daqui a uns tempos, ao voltar lá, posso descobrir mudanças na paisagem aquática!

Os lagos são conhecidos pelas suas cores variadas, desde o verde intenso, ao azul profundo ou ao cinzento mesclado!

Há por ali uma série de animais raros em vida selvagem, como ursos, lobos, águias e tigres! Não vi nenhum dos simpáticos bichinhos de 4 patas, apenas de 2, como águias e patos muito atarefados, a pescar o seu almoço!

Há 3 anos eu percorri o parque pelo outro lado destes grandes lagos, lá ao fundo!

Desta vez fiz um passeio mais relaxado e pude apreciar as coisas de ângulo diferente pois o meu tempo era outro!

Em 1991, incidentes entre a polícia croata e sérvio croata, pela disputa do local, marcou aqui o início da desintegração da Jugoslávia, naquele que ficou conhecido como o Incidente dos Lagos Plitvice.

E cheguei ao lago final, onde se pode apanhar o barco para chegar até à entrada P1, dado que eu tinha entrado pela entrada P2, que fica mais acima e mais perto do topo dos lagos.

O povo do barco pôs-se a atirar pedacinhos de pão aos patos, mas os pobres não conseguiam levar a melhor aos peixes que chegavam rápido por baixo e lhes roubavam tudo! Foi uma risota, pois a dada altura eles ficavam tão desorientados com a comida que desaparecia em frentes aos seus olhos que parecia que iam começar às bicadas à peixaria toda! Mas não, impotentes abandonaram o local e foram para longe!

Entretanto passou por nós um barco com um nome sugestivo: Medo!

No desembarque estava o meu almoço! Com toda a multidão a comer por toda uma infinidade de mesas! Era mesmo isso que eu estava a precisar!

Franguinho bem cheiroso e apetitoso!

A entrada P2 era perto por isso caminhei até lá, a minha motita estava placidamente à minha espera, do lado de fora da frescura do parque, onde tinha sido fotografada por um motociclista português do Facebook que publicou há dias uma foto dela ali mesmo! O mundo é pequeno, heim?

E voltei a seguir pelo interior, por serras e montes e vales! O calor era intenso mas a montanha é sempre uma tentação para mim!

O vidro no mínimo, o capacete aberto, o blusão na mala e mesmo assim era insuportável todo o calor!

Eu queria ir até Krka, mas terá de ficar para a próxima vez que ali passe pois naquele dia já só me apetecia ir refugiar-me em Split!

O sítio onde fiquei hospedada era muito bonito, bem na zona mais típica da cidade o que permitiu passear a pé por lá, calmamente, até à hora de jantar!

O movimento nas ruas era muito, as pessoas passeavam e conversavam por todos os lados em clima de descontração. A noite estava bem mais fresca que o dia abrasador e era um descanso para a alma!

Estabelecimentos muito “mimis” e esplanadas muito acolhedoras!

No meio do património que está por todo o lado!

Uns deliciosos 26º eram anunciados como temperatura! Que bom!

E junto ao teatro ficava o Wine Garden, onde eu me fui refugiar e onde ficava a minha hospedaria!

O local é um recanto muito interessante e bonito, que à noite, iluminado, fica com um ar muito romântico!

Conforme o nome indica, era mesmo o Jardim do Vinho, onde se faziam provas de vinho com uma lista interessante de vinho da Dalmacia.

Com 6 copos de vinhos diferentes mais comidinha de petiscar, tudo acompanhado de música ao vivo!

Um belo serão, com gente simpática e alguma conversa também!

E fui dormir que o calor esgota a gente e o corpo precisa se recompor!

E foi o fim do 13º dia de viagem!

15. Passeando pelos Balcãs… – Uma pausa em Zagreb!

10 de agosto de 2013

E foi este mais um dia de pausa no meu caminho.

Depois de tanto calor, de uma série de quilómetros já percorridos e de muita coisa já visitada, era hora de parar, como um tomar balanço para entrar definitivamente em terras mais desconhecidas, pois afinal, a partir da Croácia iria percorrer uma série de países nunca antes visitados por mim!

Estava de novo muito calor, definitivamente ainda não passara o inferno dos quarenta e muitos graus!

A cidade é muito bonita, voltei a passear pela Cidade Alta ou Gornji Grad, porque não iria andar de moto naquele dia. Tinha de descansar as mãos!

Perguntam-me frequentemente se eu não fico arrasada das costas numa viagem tão longa, ou se não me dói demasiado o rabo, de conduzir tanto tempo por tantos dias! Não, as costas nunca me doem! Não sofro da coluna e conduzo muito direitinha o que, com a ajuda da cinta que uso sempre, me faz sentir sempre confortável mesmo depois de todos os 17.000 km que fiz! O rabo de vez em quando começa a querer doer, mas basta mudar um pouco a posição no banco e passa, para isso é que serve o banco de gel afinal!

É das mãos que eu sofro mais! Tenho as mãos muito frágeis e conduzir, eternamente agarrada a um guiador, chega a ser doloroso! E não há forma de conduzir sem mãos, ou apenas pousando-as levemente do guiador, como se faz num carro, por isso há que aguentar, trocar de luvas regularmente e descansar de vez em quando!

Desta vez, ainda por cima, levava o dedo polegar direito incapacitado o que dificultava, não só a condução, como o desenho! Mas mesmo assim fiz alguns desenhos muito bonitos! A minha teoria é que, se eu ficar sem um dedo não deixarei de ser quem sou, por isso fiz tudo o que gosto de fazer, apesar da dor, apesar da dificuldade!

E foi o que andei a fazer por Zagreb, a passear, a petiscar e a desenhar! Um dia para prazeres sem moto!

A Trg bana Jelacica é a praça central da cidade onde tudo parece ir dar, autocarros, táxis, metro de superfície! Testemunha de grandes episódios da história da cidade e do país! Lá estava a estátua equestre de Ban Jelacic o libertador da Croácia do poder da Hungria!

A fonte Mandusevac esteve subterrada por muito tempo, desde que ao pavimentarem a praça no séc. XIX a cobriram. Há apenas 20 ou 30 anos descobriu-se que ela estava lá, debaixo do chão, enterrada e voltaram a traze-la à superfície!

Está ligada à fundação da cidade e a sua água é potável! Há várias lendas sobre ela, uma diz que se atirarmos uma moeda para as suas águas os nossos desejos serão realizados, outra diz que se bebermos da sua água nunca mais esqueceremos Zagreb, até ao fim da nossa vida!

Ali ao lado encontrei uma livraria com uma publicidade que me despertou a atenção! A Gabriela chegou à Croácia! E a publicidade dizia:

“Gabriela, klincic i cimet
uzbudljiva knjiga najpopularnijeg brazilskog klasika
slavi zivotnu radost i neobuzdanu senzualnost”

Que é o mesmo que dizer:

“Gabriela, cravo e canela
Um livro emocionante dos mais populares clássicos brasileiros
celebra a alegria da vida e da sensualidade desenfreada”

Aprendi croata num instante! eheheheh

E dali embrenhei-me pelas ruínhas pitorescas e frescas, sobretudo frescas, que o calor era impiedoso!

Que coisa linda as ruelas cheias de esplanadas e guarda-sóis e gente simpática e sorridente!

E cerveja fresquinha a acompanhar uma série de desenhitos simples, sobre pessoas e ambientes!

Há recantos por ali que mais parecem de brincar de tão “mimis”!

A torre da Igreja de Stª Maria, (Crkva Sv Marije) que fica acima, junto ao Mercado Dolac, podia-se ver por cima dos telhados das casinhas!

E pelas nesgas, que eram as ruelas transversais, a catedral impõe-se, com a torre já restaurada e destapada bem visível cá de baixo.

Subi até ao Mercado de Dolac. Afinal eu nunca o tinha visto sem atividade! Fui recebida pela estátua em bronze de uma feirante a quem tinham acrescentado um ramo de flores à sua carga!

Voltei à catedral, já que no dia anterior estava em missa quando lá tentei ir.

E estava de novo em missa! Valha-me Deus, são muito misseiros os croatas! Valeu pelo fresquinho que se fazia sentir lá dentro!

Ok, ok, já sei que não posso tirar fotos quando as igrejas estão em oração, mas pelo amor de Deus, eu só vou voltar cá daqui a não sei quantos anos, deixem-me pelo menos tirar uma ou duas! Pronto, umazinha só, tá?

Voltei para a rua onde se pode tirar todas as fotos do mundo às ruelas encantadoras e aproveitei para ir às compras, já que as minhas calças pretas tinham perdido tanta cor quanta eu tinha ganho! Elas estavam a ficar tão castanhas quanto eu! Estavam completamente castanhas na zona dos joelhos! Comprei umas novas em napa, assim o sol não deveria ter potencia para lhes comer a cor!

E não fiz mais nada naquele dia para alem de passear, comer, beber, desenhar e, à noite, conviver com os hospedes da pousada que se fartaram de me fazer perguntas sobre quem eu era, de onde vinha, para onde ia e se escandalizavam ao perceber que eu nem a meio da viagem ia e já tinha visto muito mais que eles, mesmo alguns que andavam na estrada há mais de um mês, mas de mochila às costas, de comboio em comboio!

E foi o fim do 12º dia de viagem!