22. Passeando pelos Balcãs… – Meteora… what a beautiful day!

17 de agosto de 2013

Foi por Meteora que fui ali!

Foi por ela que eu reservei 3 noites em Trikala!

“Μετέωρα, ou Meteora,, foi um dos destinos impulsionadores desta viagem! Uma sequência de mosteiros ortodoxos “pendurados” no ar, em grandes blocos de pedra que parecem sair verticalmente do chão, simplesmente deslumbrante! Desde a primeira vez que deparei com uma imagem de Meteora que eu quis cá vir. A princípio pensei que eram apenas imagens manipuladas, arte digital, daquela que faz cenários fantásticos para filmes, mas não, é mesmo real! Hoje visitei 2 mosteiros já, amanhã continuarei a explorar… acho que nunca me cansarei de fotografar isto tudo de todos os ângulos!”

Lembro-me de estar a escolher o hostel para pernoitar e encontrar aquele em que fiquei e ficar deslumbrada pelas fotos que apresentava no site. “Certamente que isto é tudo mentira, devem ter ido tirar as fotos mais abaixo para pôr aqui e só quando lá chegar é que vou ver o que aquilo é mesmo!”. O preço era demasiado baixo para me darem tanto, pensava eu!

Mas a verdade é que, mesmo de noite, quando ali cheguei, eu pressentia a presença dos enormes blocos, no escuro, logo ali! Mesmo sendo muito grandes tinham de estar suficientemente próximos para eu lhes sentir o perfil tão acima do horizonte!

O meu quarto, como todos os do hostel, não dava para um corredor interno como seria previsível, e sim para um terraço que contornava a casa. E, especialmente o meu, ficava voltado para o lado mais bonito da cidade e para o lado mais largo do terraço também, onde havia flores e cadeiras e tudo!

Quando sai a porta… Meteora encheu o meu horizonte de espanto!

A minha motita tinha-se instalado junto de uma amiga que lhe fez companhia durante as 2 noites seguintes.

Curiosamente os donos da moto não saiam nela! Diz-se de Mateora, como de outras cidades no mundo, que ela deve ser visitada a pé mas, mesmo eu andando muito a pé para visitar uma cidade, continuo a dizer que há distancias que se fazem muito melhor de moto!

É o caso ali, as estradas são boas, as paisagens são deslumbrantes, toda a montanha parece envolver-nos em qualquer ponto do percurso, depois é só parar a moto e caminhar!

E os mosteiros começam a aparecer no topo de qualquer penedo gigantesco!

Meteora, dizem que quer dizer “no meio do céu” e eu acrescentaria e “brotado da terra”!

Ali se pode encontrar o maior complexo de mosteiros cristãos, apenas superado por outro complexo religioso, também na Grécia, no Monte Atos, onde eu terei de ir um dia destes!

Na realidade, reza a história que os primeiros mosteiros se foram instalando em cavernas e reentrâncias nas rochas, lá pelo séc XI. Os monges eremitas queriam mesmo ficar longe do mundo e conseguiram-no! Na realidade eles queriam defender-se da ocupação otomana e ali ninguém os poderia alcançar!

Foram construídos posteriormente mais de 20 mosteiros e hoje 6 deles são visitáveis:

1- Megálos Metéoros (Grande Meteoro ou Mosteiro da Transfiguração),
2- Varlaam,
3- Ágios Stéphanos (Santo Estêvão),
4- Ágia Tríada (Santíssima Trindade),
5- São Nicolau Anapausas
6- Roussanou.

Destes 6 visitei 3… que aquilo de escalar escadas dá cabo das pernas à gente e no fim eles acabam por ser meio semelhantes!

Fui visitar o Grande Meteoro, fica mesmo no fim da rua e pareceu-me que não tinha de escalar muitos degraus!

Claro que me enganei, pois o facto de haver uma entrada direta da rua, não impede que se tenha de descer o monte onde estamos, para escalar aquele em que o mosteiro está!

Os monges têm “elevador moderníssimo" para entrarem diretos no mosteiro, mas é só para eles e para todas as mercadorias e tralhas que um mosteiro precisa para se manter! Nós, povo comum curioso, temos de penar para lá chegar! É justo, afinal ninguém nos chamou lá!

Antigamente este acesso direto era feito por redes grossíssimas de corda que eram içadas por roldanas desde a torre dos mosteiros, e por ali subia e descia tudo, inclusive pessoas!

É que os pilares de rocha chegam a ter quase 600 metros de atura a pique!

O mais encantador da subida é a perspetiva que se vai tendo sobre outros mosteiros, que vão aparecendo por entre as escarpas, revelando-se como visões extraordinárias! Só por isso já vale a subida!

Ao lado do Grande Meteoro fica o Varlaam, que não visitei mas que fotografei e desenhei até à exaustão!

À entrada de cada mosteiro existem saias, tipo avental, daquelas que se amarram à cintura, para as mulheres vestirem. A principio não entendi, pois se eu nem de calções estava, o que teria de tapar com as saias?

Um monge simpático só me dizia “ponha-a, é melhor!” e repetia aquilo talvez porque não sabia dizer mais! As saias até eram bonitas e frescas, nem a sentia mais depois de vestida! Eram de seda preta com bolinhas brancas! Não perdi a oportunidade de pedir a alguém que me tirasse uma foto, tinha de registar o momento “griff” da minha visita!

Lá de cima a paisagem é sempre deslumbrante, com o vale contornado pelos blocos de pedra e Trikala lá em baixo!

O mosteiro vizinho perfeitamente visível, mais abaixo, por entre pedras a pique!

Os mosteiros não são completamente visitáveis, porque estão em funcionamento, por isso há ali gente a viver, como num condomínio fechado, onde tudo se faz e muita coisa se produz!

O único sítio onde não se pode tirar fotos é nas igrejas mas, claro, a gente quando tem oportunidade sempre capta uma ou outra perspetiva da coisa, porque são muito bonitas e totalmente pintadas no interior!

Se fizessem um hotel ali o ambiente seria muito agradável e, seguramente, teria muitos hospedes!

Há no Metoron um museu com coisas militares, incluindo imagens das grandes guerras e fardas da época.

Acho sempre curioso ver fardas militares com saias! Não sei como eles se arranjavam a manobrar uma saia plissada daquelas em tempo de guerra!

O mosteiro é grande e cheio de recantos com representações religiosas em que as caras dos santos parecem todas iguais! Deviam estar sempre mal dispostos quando posavam para o mosaico!

Ali havia tudo o necessário para se viver, desde campo cultivado até cozinha perfeitamente apetrechada para cozinhar!

Com direito a ossário e tudo!
Quando vi a placa não entendi o que iria ver! Um cemitério ali?

“O Mosteiro do Grande Meteoron foi o primeiro mosteiro que visitei em Meteora! Uma construção do séc. XIV e um dos poucos que se podem visitar hoje. Desce-se do nível da rua, onde eu deixei ficar a moto, e começa-se a subir a escada encravada na rocha até ao mosteiro que fica no penhasco em frente. Foi uma sensação extraordinária entrar ali, como quem entra numa imagem há muito idealizada na cabeça! Num recanto encontrei uma placa que dizia “ossuary”! Então espreita-se pela abertura, numa porta antiga e robusta de madeira, e lá estão eles! Ossos e crânios arrumados, como livros, em estantes! Curiosa sensação estar perante tal vestígio do passado!”

Na torre pode-se visitar o local de carga e descarga, quando tudo isso se fazia por roldanas e redes de corda que tudo transportavam!

A operação tinha este aspeto vista de fora, naquele “saco” de rede subia e descia gente também!

Tudo muito bonito ali em cima, podia passar ali uns tempos sem sair, apenas a relaxar, numa estadia muito "zen", fotografando em todas as direções e desenhando todo o tempo!

Aquele padre era ortodoxo e vinha da Roménia! Toda uma camioneta de romenos andava a passear por ali comigo. Quando saímos fizeram uma festa ao encontrarem o meu meio de transporte e ainda ficaram mais contentes quando disse que iria seguir a minha viagem até à terra deles!

Até palmas bateram!

“Vais-te apaixonar pela Roménia!” diziam todos “After seeing Romania with your own eyes you will be in love with my country forever!” dizia o monge… e tinha razão!

E segui pela rua que liga todos os mosteiros visitáveis, parando aqui e ali para ver cada um nos seus melhores ângulos!

Lá de cima podem-se ver mais do que os 6 em visita, estão por todos os lados, encavalitados nas rochas que chegam a parecer dedos apontados para o céu!

Cá mais abaixo podia ver o Grand Meteoron, que acabara de visitar e o Varlaam, que fotografara vezes sem conta!

E a estrada lá em baixo, que passa por todo o lado! Pensar que quem visita os mosteiros a pé tem de a fazer subindo, indo de mosteiro em mosteiro, subir degraus e mais degraus e depois voltar caminhando, por uma infinidade de quilómetros de caminho!

Há rochas estrategicamente posicionadas onde toda a gente vai e onde toda a gente pede que lhe tirem fotos, com aquela paisagem como fundo! Tirei fotos a uma infinidade de pessoas que me pediam e, claro, aproveitei e também me tiraram a mim!

Ao fundo, por entre o limite dos rochedos, vê-se Kalabáka, a cidade mais próxima, com o Mosteiro de Agia Tríada, que serviu de cenário ao filme de James Bond, sobre a grande pedra da esquerda!

Só de olhar para ele foi-se a vontade de o visitar! Nem a fama e a história me fazia querer subir todo aquele enorme rochedo para ir lá acima… mas acabaria por me render e não partir sem lá ir, não naquele dia… mais tarde!

Naquele dia fui visitar o único mosteiro de mulheres de entre os 6, o Ágios Stéphanos.

Vestiam de negro, embrulhadas quase até aos olhos, pareciam islâmicas e eram antipáticas! Não pude evitar o sentimento de que eram mulheres “ressabiadas” mas se calhar fui injusta! Repetiram-me vezes sem conta que tinha de vestir uma saia, e eu a vesti-la! "já entendi! abre os olhos, estou a vesti-la não vês?"

O bilhete para visitar qualquer dos mosteiros é de 3€ e vale o dinheiro, se bem que devia ser descontado o esforço da subida no preço do dito!

Como as meninas eram antipáticas e nos tratavam como se fossemos usurpadores do que era seu, como se algum visitante fosse invadir o seu espaço, que afinal elas tinham posto ao dispor da nossa visita, não tive qualquer preconceito em “roubar” as fotos que quis! Elas bem berravam para toda a gente “No photo, no photo!” mas eram burras demais para perceberem que há maquinas que não usam flash e não fazem barulho, como a minha, e só chateavam os inocentes que nem faziam menção de tentar fotografar, deixando-me em paz, mais à frente!

O calor era imenso ali em cima! Cheguei a ter pena das “monjas” porque eu desmaiaria se andasse toda embrulhada em panos pretos! Até dei um desconto ao seu mau-feitio, pois se até os gatos se enfiavam dentro das fontes!

Kalabáka lá em baixo!

E foi onde fui a seguir, visitar a Igreja Bizantina da Assunção da Virgem, do séc. XI!

Sempre tive curiosidade de visitar estas igrejas e aquela estava ali, encostada à montanha, sem ninguém a enche-la de confusão!

Mais uma vez não era permitido fotografar, mas a senhora confiou que se eu tentasse fotografar ouviria a máquina…

De longe a visão de Kalabáka com Meteora sobre si é deslumbrante!

E fui para casa, que tinha todos os atrativos num dia de mais de 40º graus de calor, a começar pela paisagem e seguindo pela simpatia das pessoas!

O meu terraço tinha esta paisagem incrível!


Por isso comprei uma garrafa de vinho e uma série de bugigangas de que gosto muito e fui-me instalar no maior conforto a saborear o paraíso!

Para minha surpresa a dona do hostel “adotou-me” e trouxe-me um belo prato de fruta fresca, entre figos, melão e pêssego! Que coisa deliciosa acompanhada com um vinho da zona delicioso!

Naquele dia eu pesei-me!

Descobri uma balança no quarto e… tinha perdido 7 quilos!

Aquela viagem estava a retirar de mim mais do que devia! Eu simplesmente não podia continuar a perder tanto peso porque, naturalmente, não era gordura o que eu estava a perder! Estava no 19º dia de viagem e ninguém perde 7 quilos em 19 dias! Eu estava a perder tudo e com isso acabaria por perder também massa muscular!

Relembrei a minha alimentação nos últimos tempos e percebi que, mesmo comendo bem, não o fazia com a regularidade necessária, tinha passado dias a beber de tudo e a comer menos do que devia, porque o calor faz isso à gente!

Ficou decidido que iria comer para a mundial naquela noite, pois então!

Entardecia e eu fui subir de novo a montanha para ver aquilo tudo ao pôr-do-sol!

Os rochedos estratégicos estão sempre cheios de gente ao entardecer, não era só eu que queria ver o sol pôr-se!

Um grego, emigrante na França, andava por ali com a sua motinha e encontrava-o a cada vez que parava para ver mais um ângulo da paisagem! Falávamos em francês e voltávamos a encontrar-nos no mosteiro seguinte! Dizia ele que o português e o grego eram povos muito parecidos e que nunca vira uma moto portuguesa por ali! Voltaria a estar com ele no dia seguinte, a ver o pôr–do-sol de todos os ângulos e a partir de todos os mosteiros!

Com uma estrada daquelas quem quer andar por ali a pé?

E fui-me encher de comida, como tinha prometido a mim própria!
Voltei ao restaurante simpático onde jantara no dia anterior. Comi divinalmente com direito a tudo incluindo um ambiente supersimpático de esplanada,

e a Ninfa à porta! Que mais se pode querer da vida?

E foi o fim do 19º dia de viagem!

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21. Passeando pelos Balcãs… – 4 países num dia… de Montenegro até à Grécia!

16 de agosto de 2013

E chegava o momento de seguir para um dos grandes destinos desta viagem!
Há sempre um ou dois destinos que me direcionam numa viagem, esses que ditam para que lado ir, e este era na Grécia, o que me faria atravessar 2 países para lá chegar! Por isso naquele dia eu faria quase 700 km por 4 países: Montenegro, Albânia, Macedónia e Grécia!

Embora tivesse uma longa distância para percorrer não me sentia nada preocupada nem pressionada! Há dias assim, em que o calor é mais aflitivo do que os quilómetros e aquele dia prometia ser quente de novo. Lembro-me que durante a noite molhei diversas vezes o meu lenço para limpar o rosto e o pôr sobre a cabeça, como se faz quando as pessoas têm febre, porque o calor era muito e eu sentia-me febril, mesmo com o ar condicionado ligado!

Começava a achar que nunca me livraria do sofrimento do calor e tratava mas era de me mentalizar para ele, como um tropa se prepara mentalmente para uma missão dura!

À hora que me levantei ainda apetecia andar por ali a passear, em redor do hostel, enquanto o pequeno-almoço era preparado!

O edifício é voltado para o rio, que fica do outro lado do caminho que é privado do hostel.

Constatei que andava a passear “pelo quarto de dormir” de uma série de caminhantes que dormiam ao relento, no relvado da berma do caminho do hostel! Constatei também que ali se dá guarida a todo o tipo de viajantes, entre mochileiros que dormiam ali na relva, caravanistas parqueados logo a seguir e gente como eu, muito mais comodista que preferi pagar 20€ e dormir duas noites numa cama de casal fofa, num quarto enorme, com televisão e ar condicionado!

E segui o curso do rio Moraca na direção do Skadarsko jezero, pois a fronteira com a Albânia fica lá pelo meio do lago!

Ao passear-me por ali ficava fascinada com o estado natural em que o rio se conserva, ninguém diria que estamos na capital de um país com uma paisagem destas!

E lá estava o lago Escútare ou Skadarsko jezero, o maior dos Balcãs, que é alimentado pelas águas rio Moraca e desagua no mar Adriático através de um outro rio.

A ruínha que escolhi para ir até ele era, no mínimo, original! Irregular, cheia de altos e baixos, areias e cascalho, de quando em quando, mas cheia de encanto também!

As perspetivas que ia tendo do lago eram encantadoras àquela hora da manhã, ainda com as brumas matinais a encher tudo de encanto!

A estrada nacional parecia uma autoestrada em comparação com a estradinha ziguezagueante que eu fizera!

Cheguei à fronteira da Albânia já a circular num autêntico inferno! O termómetro da moto não deixava de piscar nos 50º, o que queria dizer que não conseguia contar mais do que isso!
Eu já levava o lenço enfiado no vão do vidro para poder limpar a cara, no arranca e pára para passar a fronteira.

E o lago continua pela Albânia!

O lixo pelo chão começa logo ali, a 50 metros da fronteira, veja-se quando parei para ler o mapa do país na berma da estrada!

A estrada parecia uma reta sem fim com construções isoladas, muitas em mau estado e uma série de bombas de gasolina abandonadas, até chegar a uma cidade… uma população… um lugar, sei lá! Sei que era cheio de lixo, confusão…

A fazer lembrar uma cidade marroquina, com burros estacionadas na berma da estrada e tudo!
Nem parei, o calor era infernal, o ambiente cheio de pó e trânsito, de tal maneira que nem parei e poucas fotos tirei.

Segui para Shkodër que, apesar de ter uma “entrada” igualmente desordenada e desarranjada, tem um centro bem fofinho, perto da mesquita!

Eu estava a precisar muito de beber algo fresco e aquele ambiente foi o meu oásis!

Oh, quase me deixei desfalecer numa esplanada tão confortável, agarrada a uma enorme copada de sumo de laranja fresquíssimo!

A mesquita fica num jardim entre a zona trapalhona e a zona turística!

Foi esta cidade que deu o nome ao Lago Escútare que também é
“Skadar” “Shkodër” “Shkodra” dependendo da língua em que é pronunciado!

E segui pelos montes com o rio como paisagem!

Uma pena o lixo por todos os lados, mesmo quando não há casas por perto, ele está lá! O que destoa profundamente com a beleza das paisagens!

Parece que por aquelas terras a água tem sempre cores extraordinárias e quase irreais!

A minha ideia não era propriamente “catar” o país e sim ver como ele é, como são as paisagens, as pessoas, o ambiente! Porque se trata de um dos países mais pobres da Europa, onde grande parte da população é camponesa, e não existe muita informação sobre ele!

Encontrei ciganos, que me acenaram adeus quando parei para fotografar os seus cavalos a pastar selados, como se fossem partir a qualquer momento!

E recantos decrépitos, abandonados e cheios de lixo também…

Na berma das estradas viam-se tendinhas montadas com telhado de folhas de milho, onde miúdos assavam massaroca para vender aos transeuntes e, sobretudo, aos turistas.

Por aquela altura eu já estava morta de sede há umas horas, mas não havia nada onde comprar o que quer que fosse. Até que vi um larguinho na berma da estrada com uma fonte, onde uma série de pessoas lavava as mãos. Não resisti, dei meia volta e fui até lá, peguei na minha garrafa de água, há muito vazia e fui enche-la na fonte. Aquelas mulheres ficaram todas a olhar para mim, lavavam as mãos e a cara com sabonete que estava pousado na berma da fonte, que tinha a forma de dois golfinhos entrelaçados.
Quando olhei para a água dentro da garrafa, que desilusão, era turba!

Voltei-me para as senhoras e perguntei mais por gestos do que por palavras, se aquela água não se podia beber!
Responderam-me todas em coro “no, no, Bar, Bar!” apontando para o bar que ficava logo ali ao lado. Bolas, eu não tinha lekë, como iria pagar a água?

Fui até à moto, tratar de tirar o capacete e buscar euros a ver se conseguia comprar água! Estava eu nessa operação quando uma senhora vem do bar com uma garrafa de água gelada e ma oferece! Fiquei espantada! Fiz o gesto de quem pergunta quanto é, ela respondeu-me com um gesto amplo, com as mãos abertas, significando “nada”.

As pessoas em redor olhavam com satisfação, pelo menos sorriam para mim e para ela! Abri ali mesmo a garrafa e bebi quase metade, a água era deliciosa!

Agradeci mais uma vez, disse adeus àquelas pessoas tão simpáticas e segui o meu caminho tão satisfeita e enternecida “há gente tão boa por este mundo!”

As ruas que fiz eram pavimentadas mas parecia que tinham aluído, olhava-se de repente e não havia buraco algum, mas ao passar era necessário contornar pedaços literalmente engelhados de alcatrão!

Tal como na Bósnia vêm-se pequenos altares na berma das estradas, em honra de mortos em acidentes de viação!

Já andava atenta às estações de serviço há um bom pedaço, tentando encontrar alguma com o sinal de cartão de crédito, quando encontrei uma mandei abastecer e… quando fui pagar não aceitava cartão nenhum! Oh raios partam o azar! Claro que acabei por pagar em euros ou não sei como seria! O homem deu-me o troco em lekë, e eu que estava a sair do país fiquei com um nota para gastar!

Mais uns quantos quilómetros e estava a chegar à fronteira com a Macedónia. Bem, agora que tinha dinheiro fui mas é beber qualquer coisa antes de sair do país.

Pedi cerveja e água e ainda bem que não pedi mais nada porque um senhor que estava lá sentado numa mesa pagou tudo o que pedi! Puxa, aqueles albaneses são todos boas pessoas? Fui-me sentar numa mesa enquanto toda a gente olhava para mim com uma curiosidade simpática, já que sorriam para mim!

Ao despedir-me disse adeus a toda a gente e recebi um caloroso adeus com direito a acenos e tudo, enquanto alguns vinham até à porta ver-me partir!

Tenho de voltar à Albânia!

Logo a seguir à fronteira acaba o lixo por todos os lados!

A Macedónia foi também um país que apenas atravessei, estava demasiado calor para eu parar aqui e ali, mas deu para ver que é um país lindo que terei que visitar mais demoradamente um dia que volte àqueles lados.

Desta vez parei apenas em Ohrid, com o seu lago que prometia alguma frescura no inferno de calor que eu vinha a atravessar há horas!

Ohrid é a cidade maior na borda do lago com o seu nome. Ohrid, que em português é Ácrida, é uma cidade turística e simpática que só consegui visitar depois de parar junto ao lago e molhar os pés e as mãos e quase enfiar a cabeça dentro dele! Por momentos até a visão da água me pareceu quente, por momentos pensei que não seria capaz de me afastar dali para seguir para a Grécia. Fiquei ajoelhada na berma do cais, como os islâmicos fazem quando rezam, as mãos na água e a cabeça mais baixa que o corpo. A tensão arterial equilibrou e só então fui ver o povo, passear pelas ruas e beber algo bem fresco.

A cidade estava cheia de gente que se passeava com todo aquele calor! Nos jardins tem estátuas de tipos cabeçudos com ar de filósofos. Não consegui perceber quem eram porque a escrita deles é inteligível! Nem o abecedário é parecido com o nosso!

As pessoas comiam gelados sofregamente, eu limitava-me a carregar comigo uma garrafa de água… tenho sempre a sensação de que o gelado por ser doce me deixará ainda mais cheia de cede!

Achei curiosos os altares deles, ortodoxos, cheios de imagens e velinhas!

Quando voltei ao lago estava cheio de ondulação! Be diferente de quando eu chegara!

E voltei a enfiar os pés na água…

e deitei-me um pouco no jardim à sombra, com as pernas das calças todas molhadas e com uma enorme vontade de não me mexer nem mais um passo…

Mas o tempo iria começar a arrefecer um pouco e, animada por essa ideia, lá arranjei coragem para seguir o meu caminho até Trikala na Grécia, que ficava ainda a uma infinidade de quilómetros!

Se eu fico preocupada quando vejo uma vaca a olhar fixamente para mim, imagine-se o que sinto quando vejo uma manada a correr na minha direção!

A minha aventura com as vacas gregas apenas estava a começar! Elas lá passaram a trote por mim, o que não me impediu de parar e pôr o descanso à moto! Nunca confiar em bichos que são maiores que eu e a minha motita!

Cheguei tarde a Trikala mas, só lá é que entendi o quanto era tarde! É que eu não tinha reparado que a hora da Grécia é igual à de Istambul, o que quer dizer 2 horas mais tarde que aqui, e eu pensava que era só uma hora a mais!

Fui comer a um restaurante logo acima do hostel e fui tão bem recebida e servida que iria lá voltar nas noites seguintes.

Fui dormir, pressentindo os montes gigantescos em torno de mim. de repente a vontade que a manhã chegasse rápido era muita, mesmo sabendo que iria sofrer de novo com o calor, eu queria muito ver o que me envolvia naquele que foi um dos destinos impulsionadores desta viagem!

E foi o fim do 18º dia de viagem!

17. Passeando pelos Balcãs… – de Split até Dubrovnik , passando por Mostar

12 de agosto de 2013

O calor começou cedo em Split! Logo pela manhã começava a prometer torrar-me de novo os miolos, mas mesmo assim eu ainda me aventurei a passear um pouco!

Subi ao Monte Marjan de onde se pode ver toda a cidade.

Apenas no trajeto do Monte Marjan até à marina vi 2 carros serem rebocados! Bem, não diria rebocados, pois na realidade foram guindados na frente dos meus olhos! Um policia punha aquelas coisas de metal nas jantes e um guincho prendia nelas, erguia o carro no ar e pimba com ele em cima do reboque! Uma operação de meia dúzia de minutos que a gente quase nem sentia, na fila do trânsito!

Fiquei meio traumatizada pois nunca vira fazer tal coisa! Será que aquilo também funciona assim com as motos?

Depois vi que as motos têm tratamento vip e há sempre uns corredores para os parques por onde apenas elas podem passar sem pagar! Muito simpático! Por isso eu não seria rebocada!

E fui passear um pouco pelo centro da cidade, onde andara no dia anterior. Eu queria visitar a catedral!

A Catedral de St. Svetog Dujma é a catedral mais antiga do mundo! Inicialmente era o mausoléu do imperador Diocleciano, mas foi convertida em catedral no séc. VIII fazendo parte do palácio de Dioclesiano.

Não se podia fotografar lá dentro, por isso lá tive de roubar uns quantos enquadramentos à socapa com a minha máquina silenciosa!

A torre sineira fica ao lado da catedral e é espantosa!

Mais espantoso é vê-la por dentro e subi-la! Para minha surpresa estava um grupo de pessoas amontoadas a alguns degraus do chão, na escada que sobe em caracol, junto ao interior das paredes da torre.

Esperei, pensando que havia fila por qualquer motivo. Talvez a escada em metal não suportasse toda aquela gente de uma vez e tivéssemos de subir aos poucos, mas então aquela gente encostou-se fazendo um esforço para me deixar passar. Só então, ao subir, percebi! As pessoas tinham medo!

A torre é “esquelética” cheia de aberturas e nada que isole o interior, isto é, ao subirmos podemos ver tanto o vazio para o interior da torre, como o vazio para o exterior! Faz um efeito curioso subir assim uma aparente frágil escada no vazio! A paisagem lá de cima é deslumbrante e vale bem a subida àquele que é o símbolo da cidade! Split aos nossos pés!

Vai-se subindo e acompanhando as perspetivas da paisagem pelas inúmeras aberturas

Aberturas ao nosso lado e no ado oposto da torre.

De lá de cima temos uma imagem espantosa de 360º sobre a cidade!

Split é a segunda maior cidade da Croácia e a capital da Dalmacia. Por momentos perguntei-me se os cachorritos dálmatas não viriam de lá, afinal em francês chamam-se “dalacians”!

Então voltei a descer a torre, onde andei sozinha, apenas na descida cruzei com algumas pessoas começavam a subir, o resto permanecia lá em baixo ou desistira!

A meio da descida eu podia ver as pessoas sentadas nas beiras das janelas lá em baixo! Eheheheh

Mas ao olhar para cima era compreensível o medo e a sensação de vertigem que aquelas pessoas deviam sentir!

Uma torre muito bonita!

Depois são as ruínhas estreitas, com esplanadas por todos os cantos

até à Praça do Povo com a Torre Marina, medieval, e o monumento a Marko Marulic, o fundador da literatura croata.

Por esta altura o calor estava mesmo infernal, eu já tinha bebido uma garrafa de 1.5l de água e estava a tratar da segunda!

Saí da cidade e, antes de seguir para sul, passei por Trogir, uma cidadezinha ali ao lado muralhada e muito bonita! Um mimo criado por gregos antes de Cristo e que hoje é uma grande atração turística!

A Katedrala Lovre Sv é encantadora, numa mistura de românico e gótico com a torre a lembrar a torre da catedral de Split!

Como diz a literatura “Trogir possui 2.300 anos de tradição urbana contínua”

A lente da máquina continuava a embaciar com o calor, uma pena pois captava pormenores curiosos de uma cidade que parece de brincar!

Como o recanto dos hippies pintores. Não tenho muita vocação para hippie, mas acabo sempre por meter conversa com quem desenha ou pinta, e ali não foi exceção!

Então segui viagem, não sem parar um pouco para ver de longe a torre sineira da catedral, que sobressai do aglomerado de casinhas, por trás das muralhas!

Eu sei que o caminho pela costa é muito bonito e sei também que é o caminho mais lógico para quem vem de Split para Dubrovnik … mas nem sempre eu vou por lógicas e voltei a fazer o caminho pelo interior!

De novo a Bósnia a despertar a minha curiosidade, mesmo ali ao lado, e foi por lá que eu fui!

Aquilo quer dizer: “Rota do Vinho Herzegovina”. Deu para ver que os Bósnios são muçulmanos mas produzem bons vinhos!

É curioso passar por cemitérios nas bermas das estradas como jardins comuns, sem qualquer resguardo! Dá para ver que não são muito preocupados com isolamentos para os mortos!

E cheguei a Mostar!

Os sinais de destruição provocada pela guerra da Bósnia ainda são um pouco visíveis em edifícios na cidade moderna, mas o centro histórico está lindo, com a sua ponte e ex-libris da cidade perfeitamente reconstruida!

O centro histórico de Mostar é encantador, com as ruelas empedradas com seixos redondos a fazerem-nos cocegas nos pés, e a sua extraordinária Stari Most – a ponte velha, do séc. XVI, sobre o rio Neretva, de águas profundamente esmeralda!

Entrei na Mesquita Koski Mehmed Pasha, que fica mesmo ao lado do rio e tem uma perspetiva extraordinária sobre o rio e o centro histórico!

Para isso tive de subir ao minarete. De novo ainda bem que não sofro de vertigens nem de claustrofobia, porque aquela escadinha não é em caracol, é encaracoladíssima, de tão estreito que é o minarete!

Mas vale a pena subir!

Oh p’rá minha sombra lá em baixo na abobada da mesquita!

E lá estava o rio e a ponte!

E o casario antigo, com telhados de pedra…

Mas os meus olhos não descolavam da ponte, aquela joia lindíssima, sobre o rio esmeralda!

Tirei um milhão de fotos parecidas, simplesmente porque não se consegue evitar de olhar e captar toda aquela beleza!

E por fim lá desci. O minarete era verdadeiramente estreito, podia-se apreciar a sua elegância delgada cá de baixo!

E do jardim da mesquita ainda tirei mais uma série de fotos ao rio e à ponte, era inevitável!

E lá fui ver a ponte de perto.

Ao longe a mesquita de onde eu vira a ponte pela primeira vez!

Agora já cheia de gente, naquele espaço minúsculo, a fotografar em todas as direções como eu fizera!

Há uma tradição na cidade, em que rapazes mergulham desde a ponte para o rio, o que não é coisa fácil já que as águas do Neretva são gélidas e apenas pessoas experientes o devem fazer. Diz-se que esta tradição vem desde o séc. XVII!

Fiquei ali a olhar para a ponte um bom tempo, pensando em quem morreu ali, em quem tudo perdeu e em como tudo parece tão normal, tão pouco tempo depois da catástrofe!

A ponte foi destruída em 1993 e reconstruida por uma série de anos, inaugurada em 2004 e classificado, junto com o centro histórico, como Património Mundial da UNESCO em 2005.

Claro que fiquei ali á fresca muito bem acompanhada por uma cervejinha da terra! E sim, a cerveja Bósnia é muito boa!

Continuei a minha caminhada, com o meu lenço vermelho como apoio, pois o calor era impiedoso e eu transpirava!

A ponte estava agora cheia de mulheres sexies e eu lembrei-me do meu amigo Elísio e tirei uma foto a apanhar algumas!

Nas lojas adjacentes à ponte podem-se ver vídeos da sua destruição em 1993… a gente sabe que aquilo foi tudo abaixo, sabe que toda a zona foi arrasada e, mesmo assim, não consegue deixar de estremecer a cada investida da artilharia de fogo Sérvia e desejar intimamente “parem com isso que a ponte vai cair!” então ela cai e tudo é um monte de escombros em seu redor. É terrível esta sensação de impotência perante a estupidez humana que destrói deliberadamente uma parte da história do seu povo, uma ponte com mais de 400 anos. Hoje ela está lá, perfeita e reconstruida e olho-a com toda a admiração como símbolo de uma cidade martirizada!

 

E fui embora, pelas ruelas às pedrinhas, cheias de lojas de tudo, em que tudo parecia custar um euro!

A Mesquita Nesuh-aga Vucjakovic fica na berma da estrada com o seu cemitério cheio de “mecos” brancos de mármore, em memória de muita gente que morreu na guerra da Bósnia…

A minha motita tinha feito uma amiga italiana carregada de tralhas! Até almofadas ela tinha amarradas ao assento!

Segui em direção a Dubrovnik, por paisagens cheias de curiosidades!

Voltei a encantar-me com a Bósnia!

Até chegar aos seus 8km de praia!

Dubrovnik à vista!

Não fiz muito mais naquela noite, para alem de tomar um bom banho e me esticar de pernas para o ar, depois de um jantar feito mais de bebida do que de comida, pois o calor fora muito e estava visto que o dia seguinte me reservaria ainda muito mais…

E foi o fim do 14º dia de viagem!

16. Passeando pelos Balcãs… – Até Split, passando pelo Nacionalni park Plitvička jezera

11 de agosto de 2013

Os meus planos eram seguir a rota dos turistas todos, pela costa do Adriático mas, de repente deu-me na telha de ir pelo interior!

Lembrava-me da última vez em que parte do prazer de conduzir junto ao mar se foi com a quantidade de turistas que por ali andava a pastar e decidi explorar caminhos interiores que me fascinaram bastante na época. O calor não era o meu maior amigo, pois estava forte de novo, mas nada a que eu já não estivesse habituada!

A minha ideia era ir a Krka, seguir para Split e por lá dar umas voltas pela costa mas, de repente, não resisti e decidi voltar a visitar o Nacionalni park Plitvicka jezera.

“E voltei ao Parque Nacionalni park Plitvicka jezera… é incontornável! A gente passa perto e não pode deixar de ir visitar de novo! O parque é grande e encantador o suficiente para que o visitemos de novo e de novo, sem nos cansarmos nem termos a sensação de que já está tudo visto! São quilómetros de caminhos e passadiços que nos levam de lago em lago e desta vez escolhi um dos vários percursos bem diferente do que fiz há 3 anos. O deslumbramento é tão surpreendente quanto a frescura que se sente por aqueles trilhos cheios de beleza! A água corre por entre as árvores e a vegetação e o seu restolhar acentua a sensação de prazer de caminhar à fresca! Uma tarde de caminhada serena que retemperou energias para voltar ao enorme calor que se fazia sentir fora daquele paraíso feito de sombra, água e encanto!”

Subi no comboio do parque até ao ponto mais alto e estudei o mapa para fazer um percurso diferente do que fizera na última visita, depois foi só caminhar calmamente por entre paisagens e lagos deslumbrantes!

O parque é composto por 16 lagos visitáveis, situados em desníveis sucessivos que fazem com que eles descarreguem uns sobre os outros, como em degraus!

A água corre por todo o lado, por baixo dos nossos pés muitas das vezes, límpida e transparente, que apetece enfia-los dentro dela a todo o momento!

Depois as águas são muito calcáricas e os sedimentos formaram, e vão continuando a formar, barreiras que fazem as águas empossarem e correrem por entre a vegetação frondosa, provocando ou acentuando as cascatas incomuns porque a água parece furar de qualquer maneira o seu caminho de formas inesperadas e deslumbrantes! Estes lagos são por isso dos poucos locais no planeta onde aparecem novas cascatas a cada ano, o que quer dizer que daqui a uns tempos, ao voltar lá, posso descobrir mudanças na paisagem aquática!

Os lagos são conhecidos pelas suas cores variadas, desde o verde intenso, ao azul profundo ou ao cinzento mesclado!

Há por ali uma série de animais raros em vida selvagem, como ursos, lobos, águias e tigres! Não vi nenhum dos simpáticos bichinhos de 4 patas, apenas de 2, como águias e patos muito atarefados, a pescar o seu almoço!

Há 3 anos eu percorri o parque pelo outro lado destes grandes lagos, lá ao fundo!

Desta vez fiz um passeio mais relaxado e pude apreciar as coisas de ângulo diferente pois o meu tempo era outro!

Em 1991, incidentes entre a polícia croata e sérvio croata, pela disputa do local, marcou aqui o início da desintegração da Jugoslávia, naquele que ficou conhecido como o Incidente dos Lagos Plitvice.

E cheguei ao lago final, onde se pode apanhar o barco para chegar até à entrada P1, dado que eu tinha entrado pela entrada P2, que fica mais acima e mais perto do topo dos lagos.

O povo do barco pôs-se a atirar pedacinhos de pão aos patos, mas os pobres não conseguiam levar a melhor aos peixes que chegavam rápido por baixo e lhes roubavam tudo! Foi uma risota, pois a dada altura eles ficavam tão desorientados com a comida que desaparecia em frentes aos seus olhos que parecia que iam começar às bicadas à peixaria toda! Mas não, impotentes abandonaram o local e foram para longe!

Entretanto passou por nós um barco com um nome sugestivo: Medo!

No desembarque estava o meu almoço! Com toda a multidão a comer por toda uma infinidade de mesas! Era mesmo isso que eu estava a precisar!

Franguinho bem cheiroso e apetitoso!

A entrada P2 era perto por isso caminhei até lá, a minha motita estava placidamente à minha espera, do lado de fora da frescura do parque, onde tinha sido fotografada por um motociclista português do Facebook que publicou há dias uma foto dela ali mesmo! O mundo é pequeno, heim?

E voltei a seguir pelo interior, por serras e montes e vales! O calor era intenso mas a montanha é sempre uma tentação para mim!

O vidro no mínimo, o capacete aberto, o blusão na mala e mesmo assim era insuportável todo o calor!

Eu queria ir até Krka, mas terá de ficar para a próxima vez que ali passe pois naquele dia já só me apetecia ir refugiar-me em Split!

O sítio onde fiquei hospedada era muito bonito, bem na zona mais típica da cidade o que permitiu passear a pé por lá, calmamente, até à hora de jantar!

O movimento nas ruas era muito, as pessoas passeavam e conversavam por todos os lados em clima de descontração. A noite estava bem mais fresca que o dia abrasador e era um descanso para a alma!

Estabelecimentos muito “mimis” e esplanadas muito acolhedoras!

No meio do património que está por todo o lado!

Uns deliciosos 26º eram anunciados como temperatura! Que bom!

E junto ao teatro ficava o Wine Garden, onde eu me fui refugiar e onde ficava a minha hospedaria!

O local é um recanto muito interessante e bonito, que à noite, iluminado, fica com um ar muito romântico!

Conforme o nome indica, era mesmo o Jardim do Vinho, onde se faziam provas de vinho com uma lista interessante de vinho da Dalmacia.

Com 6 copos de vinhos diferentes mais comidinha de petiscar, tudo acompanhado de música ao vivo!

Um belo serão, com gente simpática e alguma conversa também!

E fui dormir que o calor esgota a gente e o corpo precisa se recompor!

E foi o fim do 13º dia de viagem!

15. Passeando pelos Balcãs… – Uma pausa em Zagreb!

10 de agosto de 2013

E foi este mais um dia de pausa no meu caminho.

Depois de tanto calor, de uma série de quilómetros já percorridos e de muita coisa já visitada, era hora de parar, como um tomar balanço para entrar definitivamente em terras mais desconhecidas, pois afinal, a partir da Croácia iria percorrer uma série de países nunca antes visitados por mim!

Estava de novo muito calor, definitivamente ainda não passara o inferno dos quarenta e muitos graus!

A cidade é muito bonita, voltei a passear pela Cidade Alta ou Gornji Grad, porque não iria andar de moto naquele dia. Tinha de descansar as mãos!

Perguntam-me frequentemente se eu não fico arrasada das costas numa viagem tão longa, ou se não me dói demasiado o rabo, de conduzir tanto tempo por tantos dias! Não, as costas nunca me doem! Não sofro da coluna e conduzo muito direitinha o que, com a ajuda da cinta que uso sempre, me faz sentir sempre confortável mesmo depois de todos os 17.000 km que fiz! O rabo de vez em quando começa a querer doer, mas basta mudar um pouco a posição no banco e passa, para isso é que serve o banco de gel afinal!

É das mãos que eu sofro mais! Tenho as mãos muito frágeis e conduzir, eternamente agarrada a um guiador, chega a ser doloroso! E não há forma de conduzir sem mãos, ou apenas pousando-as levemente do guiador, como se faz num carro, por isso há que aguentar, trocar de luvas regularmente e descansar de vez em quando!

Desta vez, ainda por cima, levava o dedo polegar direito incapacitado o que dificultava, não só a condução, como o desenho! Mas mesmo assim fiz alguns desenhos muito bonitos! A minha teoria é que, se eu ficar sem um dedo não deixarei de ser quem sou, por isso fiz tudo o que gosto de fazer, apesar da dor, apesar da dificuldade!

E foi o que andei a fazer por Zagreb, a passear, a petiscar e a desenhar! Um dia para prazeres sem moto!

A Trg bana Jelacica é a praça central da cidade onde tudo parece ir dar, autocarros, táxis, metro de superfície! Testemunha de grandes episódios da história da cidade e do país! Lá estava a estátua equestre de Ban Jelacic o libertador da Croácia do poder da Hungria!

A fonte Mandusevac esteve subterrada por muito tempo, desde que ao pavimentarem a praça no séc. XIX a cobriram. Há apenas 20 ou 30 anos descobriu-se que ela estava lá, debaixo do chão, enterrada e voltaram a traze-la à superfície!

Está ligada à fundação da cidade e a sua água é potável! Há várias lendas sobre ela, uma diz que se atirarmos uma moeda para as suas águas os nossos desejos serão realizados, outra diz que se bebermos da sua água nunca mais esqueceremos Zagreb, até ao fim da nossa vida!

Ali ao lado encontrei uma livraria com uma publicidade que me despertou a atenção! A Gabriela chegou à Croácia! E a publicidade dizia:

“Gabriela, klincic i cimet
uzbudljiva knjiga najpopularnijeg brazilskog klasika
slavi zivotnu radost i neobuzdanu senzualnost”

Que é o mesmo que dizer:

“Gabriela, cravo e canela
Um livro emocionante dos mais populares clássicos brasileiros
celebra a alegria da vida e da sensualidade desenfreada”

Aprendi croata num instante! eheheheh

E dali embrenhei-me pelas ruínhas pitorescas e frescas, sobretudo frescas, que o calor era impiedoso!

Que coisa linda as ruelas cheias de esplanadas e guarda-sóis e gente simpática e sorridente!

E cerveja fresquinha a acompanhar uma série de desenhitos simples, sobre pessoas e ambientes!

Há recantos por ali que mais parecem de brincar de tão “mimis”!

A torre da Igreja de Stª Maria, (Crkva Sv Marije) que fica acima, junto ao Mercado Dolac, podia-se ver por cima dos telhados das casinhas!

E pelas nesgas, que eram as ruelas transversais, a catedral impõe-se, com a torre já restaurada e destapada bem visível cá de baixo.

Subi até ao Mercado de Dolac. Afinal eu nunca o tinha visto sem atividade! Fui recebida pela estátua em bronze de uma feirante a quem tinham acrescentado um ramo de flores à sua carga!

Voltei à catedral, já que no dia anterior estava em missa quando lá tentei ir.

E estava de novo em missa! Valha-me Deus, são muito misseiros os croatas! Valeu pelo fresquinho que se fazia sentir lá dentro!

Ok, ok, já sei que não posso tirar fotos quando as igrejas estão em oração, mas pelo amor de Deus, eu só vou voltar cá daqui a não sei quantos anos, deixem-me pelo menos tirar uma ou duas! Pronto, umazinha só, tá?

Voltei para a rua onde se pode tirar todas as fotos do mundo às ruelas encantadoras e aproveitei para ir às compras, já que as minhas calças pretas tinham perdido tanta cor quanta eu tinha ganho! Elas estavam a ficar tão castanhas quanto eu! Estavam completamente castanhas na zona dos joelhos! Comprei umas novas em napa, assim o sol não deveria ter potencia para lhes comer a cor!

E não fiz mais nada naquele dia para alem de passear, comer, beber, desenhar e, à noite, conviver com os hospedes da pousada que se fartaram de me fazer perguntas sobre quem eu era, de onde vinha, para onde ia e se escandalizavam ao perceber que eu nem a meio da viagem ia e já tinha visto muito mais que eles, mesmo alguns que andavam na estrada há mais de um mês, mas de mochila às costas, de comboio em comboio!

E foi o fim do 12º dia de viagem!