39. Escandinávia 2017 – entardecer em Estocolmo…

26 de agosto de 2017

(continuação)

Depois de tanta calma e sossego, lá em baixo pelas estações de metro, o regresso à superfície foi quase violento! As ruas estavam cheias de gente, o transito era intenso, não havia muito para onde eu fugir e, no entanto, eu queria paz e distância da confusão.

Eu sempre tenho necessidade de paz e calma numa viagem, mas depois de toda a paz que me acompanhara por terras escandinavas, eu não estava preparada para confusões, por isso fui-me enfiar no Nordiska Museet – Museu Nórdico que, embora estivesse cercado de movimento, estacionamento repleto e pessoas aos magotes, estava sereno e fresco no interior!

O edifício é lindo por dentro e as alas de exposição muito elucidativas do mundo sueco!

E as perspetivas dos interiores eram fascinantes!

É meu costume, quando toda a gente olha para as exposições eu ponho-me a apreciar os encantos arquitetónicos dos locais!

Isto sim, é um grande rei!

Lá ganhei coragem para ir passear no meio do transito, consciente de que a agradável sensação que tivera no dia anterior poderia ser perturbada por novas sensações deixadas por tanto turista…

Mas os pormenores da cidade sempre me chamam, como as antigas cabines telefónicas, e por esses pormenores vale a pena passear e tentar ignorar as multidões.

Não havia ninguém em redor do Museu de Arte Moderna, por isso pude explorar as fantásticas esculturas de Niki de Saint Phalle em silêncio!

A minha Negrita também aprecia arte!

E as perspetivas desde a ilha de Riddarholmen também valiam a luta com o transito!

E foi o momento de mais um pôr-do-sol, cheio de nostalgia por uma viagem que me estava a levar de volta para casa… Esperei para ver mais uma vez o sol como vira do dia anterior. E estava lindo!

Muita gente vai até ali ver o pôr-do-sol, o ambiente é sereno e, de alguma forma, eu sentia que aqueles seriam momentos que iria recordar mais tarde.

Então fui para a zona história, ali perto, explorar mais um pouco e jantar.

A experiencia de chegar à cidade antiga e à zona dos restaurantes foi embaraçosa…

“Registos de viagem – 15
Hoje encontrei um grupo de turistas portugueses no centro histórico de Estocolmo, mas eram tão barulhentos e espalhafatosos, que fiz de conta que não dei por nada e passei de fininho como se fosse estrangeira! Passei duas horas depois por eles, estavam numa esplanada de um restaurante italiano aos berros uns com os outros, como se estivessem numa tasca… Destoavam tanto na serenidade do ambiente, espero que o pessoal do restaurante fosse mesmo italiano e não se chocasse por isso com a algazarra! “

(in Passeando pela vida – a página)

Aquelas lojinhas vão-me fascinar sempre, não importa quantas vezes eu lá volte a passear!

Os gnomos aos montes inspiraram-me..

E eu desenhei um só para mim!

Terminei o meu dia na Stortorget, a praça mais antiga de Estocolmo!

Foi em torno desta praça que a cidade se formou e cresceu!

Amanhã eu riria embora da Suécia e tinha tanta pena!

Nostalgia foi a minha companhia…

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38. Escandinávia 2017 – Estocolmo e as suas estações de metro…

26 de agosto de 2017

Há tanta coisa para ver numa cidade que se visita pela primeira vez que é preciso ter-se capacidade de escolher o que ver e deixar o resto para outra vez! É sempre assim que eu me organizo para não ficar perdida entre tanta coisa sem saber em que direção ir, com tão pouco tempo que sobra numa viagem que já vai longa.

Mas havia uma série de coisas que me fizeram querer desde sempre visitar Estocolmo e eu não sairia de lá sem as ver: as estações de metro intervencionadas por artistas. Eu sabia que eram muitas e que algumas valiam mais a pena do que outras, mas estava disposta a visitar todas as que pudesse e me apetecesse!

E o meu dia foi feito disso, mais do que outra coisa!

Elas não são muito longe umas das outras, mas, contrariamente ao que fizera em Moscovo, onde fora de moto de umas estações para as outras, eu iria tentar apanhar o metro e ir de estação em estação, sem morrer de pavor de me perder da minha querida motita!

Desci às 9.30h da manhã e subiria às 15.30h, o que fez 6 horas debaixo de terra passeando, explorando, apreciando e fotografando e de todas as que vi, porque nem todas foram intervencionadas, e das que foram, nem todas são espetaculares, 10 ficaram-me na memória!

Eu iria começar pela estação de Kungsträdgården, junto ao jardim histórico com o mesmo nome (Jardim Real em português) onde a agitação do dia começava, e encontrei um sítio simpático e seguro para pôr a moto, já que havia parque próprio. É sempre a opção certa quando vou permanecer muito tempo longe dela, para não correr risco de multas!

Claro que antes de ir procurar a entrada da estação não pude deixar de espreitar na igreja de St. Jacobs Kyrka, logo ali. Sempre me atraem igrejas de outras religiões e aquela mais ainda, pois é dedicada ao apóstolo São Tiago Maior, padroeiro dos viajantes.

A igreja tem 4 séculos e, como demorou muito a ser concluída, conjuga uma série de estilos desde o gótico tardio até ao renascentista ou barroco. E é linda! Uma boa forma de começar um dia debaixo de terra, arejando antes as ideias com outras manifestações arquitetónicas!

E a descida era logo ali, do outro lado da praça, atravessando-a a direito!

Como quem entra numa gruta com um tabuleiro de xadrez no chão, lá estava a primeira obra de arte subterrânea gigante do meu dia!


Anda-se por ali a descobrir pormenores “barrocos” pelos cantos!

Um ambiente curioso, com personagens bizarras aqui e ali

O cais de embarque é um pouco sombrio, que aquele verde não é nada luminoso, mas o ambiente é interessante!

O meu momento de coragem em apanhar o metro e seguir na direção certa… ok, eu estive a estudar bem o mapa para não me perder, nem do que procurava nem do sítio onde a minha motita estava. Uma tarefa muito mais fácil em Estocolmo do que em Moscovo, onde eu nem conseguia decifrar direito o nome das estações!

Ao desembarcar na estação seguinte percebi logo que nunca mais me perderia, pois era a T-Centralen onde todas as linhas vão dar, por isso na dúvida até ali eu iria ter por muito perdida que estivesse!

Esta era a estação que mais chama a atenção na internet e é uma das mais bonitas no local!

Impossível olhar em redor e não me imaginar com uma tarefa daquelas: criar uma enorme intervenção artística numa estação de metro! Eu seria tão feliz com um trabalho desses em mãos!

E segui para a estação de Rinkeby T-bana…

Só hoje me dou conta de quanto tempo eu andei e explorei em cada estação! Foi muito tempo pela hora gravada em cada foto!


A estação de Solna Centrum parece toda em honra da nossa bandeira portuguesa!

Os metros paravam, o povo saia e entrava e ficava tudo vazio de novo. Uma estação nunca fica cheia por muito tempo.

Andava eu por ali a explorar, porque as áreas são bastante grandes, quando reparei que uma senhora de idade, usando chapéu preto, me observava e me seguia de perto. Chapéus sempre me atraem a atenção! Então a senhora acercou-se de mim e disse-me, num inglês perfeito

“you are a beautiful lady and your hat is beautiful!”

Fiquei desconsertada! Agradeci o cumprimento e retribui com um “devo dizer o mesmo da senhora e o seu chapéu é lindo também!”

Não tive coragem de a fotografar de frente, quando falávamos, por vezes as pessoas reagem mal a uma fotografia e eu não gosto de constranger ninguém. Mas fotografei-a quando se afastava de mim, meio em contraluz, pensando para mim “olha eu, quando for velhota!”

A estação de Akalla não é das mais bonitas, mas tem o seu interesse.

A Stadion sim, é das mais fotografadas na net, com os seus arcos-íris sobre azul impressionantes!

A Tekniska Högskolan tem pormenores curiosos!

A Tensta parece saída da pré-história

Não apenas as representações, mas também a forma como foram executadas, lembram a arte rupestre desses tempos!

A estação de Vreten impressiona quando apreciada no ângulo certo, porque os elementos perdem-se um pouco na escuridão do espaço

E finalmente a estação de Huvudsta que também precisa de atenção no ângulo em que é captada.

O verde deve ser uma cor bastante apreciada por lá!

Foram muitas horas debaixo da terra e eu tinha de sair dali. Não importava mais o que havia para ver lá em baixo, teria de ficar para outra vez. E saí para a maior confusão, de onde nem a minha moto conseguia sair sem transgressão!

Havia um evento desportivo, uma prova de ciclismo pelo que percebi, a decorrer e toda a praça Kungsträdgården fora vedada para criar o percurso em seu redor! Uns policias disseram-me que teria de esperar mais de hora e meia até poder sair com a moto!

Peguei na moto e dei umas voltar em redor e percebi que não havia saída, a área onde eu estava fora totalmente cercada por barreiras, eu tinha de transgredir ou ficar até acabar.

Claro que fui falando com os policias que ia encontrando, na minha procura de uma saída, e acabaram por me deixar atravessar a pista formada pela cerca e pôr-me a andar! Dei comigo a passar quase dentro da estação de metro onde começara o meu dia, por caminho de transito proibido e tudo! Gostei dos policias suecos!

(continua)

37. Escandinávia 2017 – de Turku até Estocolmo… 11 horas de ferry!

25 de agosto de 2017

Tinha cerca de 11 horas de barco para fazer naquele dia. Por isso eu me hospedara dentro mesmo do cais, e dormira num hostel que era um barco, assim não teria de acordar cedo demais nem de stressar a percorrer distancias entre a minha dormida e o meu transporte.

Eu nunca tive medo de andar de barco e no entanto sempre tive medo de embarcar a minha moto num! Não porque tema que o barco se afunde comigo e ela dentro, não sofro do pavor arrogante de achar que por eu ir nele algo irá acontecer! O meu medo é apenas de fazer as coisas erradas e não conseguir embarcar a tempo no momento, cais e barco certo! Que fazer? Também tenho direito a ter os meus medos!

Assim, no dia anterior passara no cais de embarque a seguir aquele onde a minha casa estava atracada e confirmara que não era ali, nem no a seguir e sim noutro mais à frente e senti-me reconfortada por ter sido perspicaz em evitar o stress de última hora que tanto me aflige!

Acordei cedo, a minha motita esperava junto ao meu cais e o ambiente era meio surrealista, afinal não é todos os dias que um cidadão comum dorme num navio com um barco de guerra como vizinho!

Fizeram-me entrar no cais e seguir para a frente, por uma linha onde apenas havia eu!

O meu ferry era todo catita e, embora estivesse a chover, não me mandaram entrar. Parecia que toda a gente entraria antes de mim. Aconselharam-me mesmo a proteger-me da chuva numa tenda, que havia ali perto.

Confesso que me senti ignorada e meio miserável, a ver toda a gente a entrar e eu a ficar. Mesmo um grupo de motos seguiu para dentro bem antes de mim! Uma injustiça, pois eu até chegara antes!

Só lá dentro percebi que, obviamente havia uma razão para a entrada por aquela ordem. A minha motita ficou sozinha depois de a parte da frente do porão estar completamente preenchida. Nem as motos que vira entrar estavam por perto sequer!

Bastou-me olhar de novo para o mapa para perceber que a viagem tinha uma “escala” onde sairiam os primeiros veículos a entrar no ferry e que ocuparam a frente toda.

Nem toda aquela gente estava ali para ir até Estocolmo!

A entrada no ferry foi a coisa mais estranha a meus olhos!

Quando a gente reserva a passagem escolhe se quer camarote ou assento para fazer a viagem a seu gosto. No entanto imensas pessoas entraram pela receção dentro apressadíssimas para descobrirem os seus camarotes, como se alguém lhos pudesse tomar se não chegassem até eles a tempo! E corriam empurrando enormes troleys e empurrando quem se lhes pusesse na frente!

Eram 8 horas da manhã, qual era aflição de irem a correr para os camarotes? Não tinham dormido aquela noite?

Eu preferi apreciar a partida, sempre gosto de saborear a deslocação de um barco, sobretudo quando vou dentro dele!

Eu tinha noção de que navegaríamos por zonas cheias de ilhas e ilhotas, mas, de alguma forma, não estava preparada para fazer uma viagem de tão longa distância sem perder terra de vista!

Comecei por ver as casinhas de uns e de outros nas margens próximas de Turku e segui vendo penedos e rochas por quase todo o tempo!

Entretanto dentro do ferry o ambiente estranho continuava! Uma banda, que me recusei a registar em foto, tocava a mais pura pimbalhada em inglês e em línguas bizarras e desconhecidas, que deduzi serem nórdicas, tipo finlandês, sueco ou ambas à mistura. E sim, o fenómeno pimba é meio universal, cada país tem a sua versão!

Uma pena, já que o melhor heavy-metal é finlandês… 😉

Escrevia eu no entretanto:

“Não entendo muito bem as pessoas! A maioria, mal entrou no barco foi comer! De onde vinham elas para estarem cheias de fome às 8.00 horas da manhã? Outras corriam para os camarotes, como se estes não estivessem reservados e alguém os pudesse ocupar ou roubar! Não dormiram de noite? Agora é meio dia e meia e está tudo a comer bolos e a tomar café! Serei a única dentro dos horários certos, que tomei o pequeno almoço antes de embarcar e agora estou a comer uma deliciosa batata recheada com frango e a beber cerveja?”

E as paisagens sucediam-se impressionantes lá fora…

A costa, fosse ela qual fosse, estava tão perto de nos que fomos acompanhados por motos de água em vários momentos!

E o imenso vazio alternava e apenas era visível de um dos lados do barco, bastava escolher de que lado sair para apreciar!

Acho que não é possível ficar indiferente a um percurso tão rico em enquadramentos com aquela beleza

Aquela travessia marcou o primeiro balanço de tudo o que eu já vivera por terras nórdicas. Foram horas de serenidade, apenas perturbadas pelos meus pensamentos humorísticos em relação ao ambiente dentro do ferry. Horas repletas de pensamentos bons, de imagens fascinantes e de saudade…

… saudade do que já vivera e não se voltaria a repetir tão cedo…

E o ferry seguia de forma impressionante por entre os milhares de ilhas que rodeiam o continente, dando a sensação, por vezes, de que o espaço não seria suficiente para ele passar!

E chegamos a Estocolmo ao entardecer!
Claro que peguei na moto e fui logo explorar tudo o que pudesse, de alguma forma conseguia ter saudades de conduzir, pelo simples facto de ter ficado todo o dia a ver a água passar!

E fui ver o pôr-do-sol na ilhota de Riddarholmen, com a Stadshuset – a câmara – ao fundo, em contraluz!

A cidade antiga de Estocolmo começa logo ali, por ruelas encantadoras onde o tempo não parece ter passado!

“Estocolmo é uma cidade fascinante, vai-se até junto da catedral e começa a viagem no tempo para trás. E as lojinhas decrépitas são tão bonitas, com a luz a incidir nas ruas estreitas, criando um clima a lembrar o Natal! Que belo entardecer!”
(in Passeando pela vida – a página)

Havia uma serenidade no ar, como se nada de mau pudesse estar a acontecer no mundo. Impossível quebrar aquele encanto!

E apesar dos muitos turistas que passeavam por ali, as ruelas não eram um frenesim como noutras cidades europeias. E eu agradeci em silêncio que a calma não fosse quebrada por gritinhos, corridinhas, selfies e coisas afins típicas dos turistas descontrolados!

A gente esperava um pouco, as pessoas passavam e a beleza dos recantos ficava toda ao nosso dispor, como se estivéssemos sós na cidade!

Mesmo as esplanadas eram alegremente sossegadas, com música ambiente que não atordoava os passantes e agradava aos clientes!

E as lojas? Oh as lojas!
Eram lindas, casas velhíssimas com as janelas a fazer de montras, muitas vezes bem altas, mas cheias de encanto, sem quebrar em nada o tradicional traçado dos quelhos!

Apaixonei-me por Estocolmo…

Felizmente amanhã ainda estaria por ali…

 

36. Escandinávia 2017 – de Helsínquia até Turku…

24 de agosto de 2017

Havia uma ou duas coisas que eu queria ver na capital e dediquei-lhes toda a manhã. É pelo pequeno almoço que eu decido o que fazer em cada dia, não importa o que tenha planeado em casa.

Mas eu conheço-me bem e sei do que preciso quando estou há muitos dias na estrada: passear sem pressas! E foi o que fiz naquele dia, passeei por Helsínquia e deixei-me ir ao sabor do muito tempo eu tinha, até ao meu destino, que não era muito longe.

Terminara o dia anterior junto da Catedral Ortodoxa e começava o seguinte na Catedral Luterana! Como eu pareço religiosa em viagem, heim?

Eu sou fan do estilo Neoclássico e o edifício não me deixou indiferente, tenho de confessar! É lindo a meus olhos, com as suas linhas sóbrias e interior quase excessivamente simples. Mas a vantagem dos templos simples é que os pormenores mais elaborados brilham em toda a sua beleza, e eu gosto disso!

Aquela simetria perfeita, tão típica no estilo, era fascinante!

Ao fundo da escadaria a praça do Senado – a Senaatintori – ainda estava a despertar! Gosto das coisas assim, antes da multidão as inundar!

Mas a minha ronda religiosa não terminaria ali!

Havia mais uns templos que eu tinha de visitar e que me haviam chamado ali desde muito tempo atrás, como a Hiljaisuuden Kappeli – a Capela do Silêncio!

Por entre o movimento e as tralhas da praça Narinkka, a capela luterana parece uma escultura gigante!

O contraste com a envolvência faz brilhar a construção, tão simples quanto fantástica!

Não se percebe logo como se entra no edifício, mas a planta está disponível no vidro do centro de interpretação.

A entrada faz-se por lá, como por uma antecâmara do silêncio! E ele estava mesmo lá dentro, não havia multidões, nem turistas, nem curiosos. Apenas eu e o silêncio!

“A capela foi construída em 2012, como parte do programa “Helsínquia, Capital Mundial do Design”, a partir de um projeto de Kimmo Lintula, Niko Sirola e Mikko Summanen, vencedor dos Prémios Internacionais de Arquitetura de 2010. O projeto espetacular deste edifício tornou-o num dos lugares mais reconhecidos da arquitetura contemporânea.”

(Do site da capela)

As suas linhas fascinaram-me!

A ideia era que as pessoas se isolassem do movimento e confusão do dia-a-dia e se encontrassem consigo próprias naquele mundo de serenidade e o objetivo foi completamente alcançado!

Não sei quanto tempo estive lá dentro, mas foi muito! Simplesmente perde-se a noção do tempo e, quando se chega cá fora, é como se tivesse saído desta dimensão e tivesse dado um passinho até à eternidade e voltado!

Ainda envolta na sensação boa que a visita à Capela do Silêncio tinha deixado em mim fui até à Temppeliaukio kirkko. A Igreja fica no meio de uma zona residencial, onde as motos ainda dormiam de pijama, mas o movimento à porta da igreja era bastante e eu percebi que não sentiria o encanto que desejava.

Construída no final dos anos 60 do século passado, fica meio subterrânea, escavada num imenso rochedo, em forma circular, e de fora quase nada se vê. O que se vê não deixa imaginar que estamos à porta de uma igreja!

Uma pena que estivesse cheia de gente que não arredava pé das suas selfies, porque quebravam o seu encanto!

A pedra em bruto contrasta com os materiais utilizados de uma forma harmoniosa e surpreendente.

Até a água benta tem direito ao seu pedaço de espanto!

O teto é elevado do limite da rocha em redor, por uma infinidade de janelas que permitem uma iluminação perfeita do imenso espaço.

As cores são garridas o suficiente para darem cor a um ambiente que tenderia a ser apenas cinzento.

Claro que tive de ir explorar o exterior e entender onde aquilo estava enfiado! E, do lado de fora, apenas a cúpula é visível.

Pode-se subir e passear em redor, conscientes de que estamos a passear em cima do corpo da igreja!

Depois de umas horas de passeio pelo mundo da arquitetura religiosa da zona, parti finalmente na direção de Espoo. Claro que eu sabia que o momento religioso apenas terminada em Helsínquia, pois havia mais igrejas no meu caminho que eu não poderia deixar de visitar!

Que fazer, com coisinhas tão lindinhas a aparecerem no meu caminho?

A catedral de Espoo parece-se mais com uma igreja apenas, é luterana, medieval e é linda!

Fica numa pequena colina, junto ao centro da cidade, com o cemitério a ladeá-la, como um imenso jardim.

Depois seguiu-se um percurso cheio de pequenos momentos de beleza, afinal estava no pais dos mil lagos e outros tantos rios!

Espreitando como vivem as pessoas

Em terras cujo nome não lembra ao menino Jesus!

Mas com pequenos encantos dignos de uma paragem para picnicar!

Até chegar a Turku, onde estacionar a minha motita no meio das bicicletas não pareceu perturbar ninguém!

Porque o rio Aura era logo ali e valia pena passear em redor!

E sim, ainda havia mais uma igreja para ver por dentro! A catedral de Turku, a igreja mais importante da Finlândia. Afinal Turku é a cidade mais antiga do país, por isso naturalmente as coisas são antigas e importantes por lá!

Muita coisa se passava em torno da igreja e foi curioso descobrir que ela funciona um pouco como o Big Ben, dando horas para o país!

Naquele dia havia vários grupos de jovens preparando alguma apresentação. Apreciei particularmente um grupo de anjinhos e diabinhos adolescentes. Foi curioso apreciar a sua dinâmica de concentração e empenho.

E a minha casa seria um barco naquela noite!

O meu camarote era pequerricho mas com espaço para tudo.

Mas as salas de estar, o bar e o restaurante eram suficientemente grandes para que eu me esticasse por ali!

E o convés simpático para apreciar o entardecer

Amanhã partiria para Estocolmo num outro barco num cais ali perto.

 

35. Escandinávia 2017 – por caminhos locais até Helsiquia …

23 de agosto de 2017

(continuação)

Ainda fui até Kotka, mas não me entusiasmou tanto a cidade como a vida das pessoas por lá!

Os caminhos da miudagem continuavam a fascinar-me!

Enquanto os pequenitos pedalavam suas bicicletas até às escolas, os mais cresciditos deslocavam-se em pequenas motos!

Parece que por lá os papás não são tão preocupados nem super-protetores como cá que, mesmo por pequenas distâncias, preferem levar os seus rebentos de carro até às portas das escolas, provocando longas filas de trânsito por horas!

Mas acabei por dar apenas uma pequena volta pela cidade, não estava cm vontade de ver monumentos nem de me meter no meio das pessoas, mas sempre me atrai ver como se vive num local onde nunca fui!

Estava a preparar-se um concerto na igreja e os rapazes que recebiam as pessoas convidaram-me a entrar. Simpáticas as pessoas por ali. Claro que acabei por apreciar a igreja ao som da musica, ante o olhar curioso de alguns presentes!

Mas eu não perderia muito tempo por ali, apenas dei uma volta apreciando pormenores curiosos, como o deposito da água numa zona alta da cidade, surrealista como um objeto gigante alienígena…

Mas cruzar com uma velhinha de andarilho foi, na realidade, o ponto alto da minha visita à cidade!

Uma coisa que eu tinha apreciado desde que andava por países escandinavos, era a dignidade com que as pessoas idosas se moviam e se “impunham” ao mundo. Nada daquela postura triste e quebrada do velhinho coitadinho!

O andarilho era tipo trotinete de 4 rodas e ela vinha a descer a rua em velocidade, empurrando com o pé e deslizando!

Depois subia os dois pés e deixava-se ir e quando eu pensava que ela não iria conseguir travar, eis que o fantástico veiculo tem travões, ela aciona-os e para, como qualquer condutor civilizado.

E la foi ela, deixando-me com uma imensa vontade de ser velhota na Finlândia!

Deixei a cidade com vontade de explorar caminhos que ninguém faz! Claro que por ali os caminhos podem converter-se mesmo em caminhos a qualquer momento, quando o alcatrão acaba de repente, em linha reta, e apenas sobra terra batida para rolar!

Depois só resta explorar assim mesmo!

E vale a pena explorar caminhos desconhecidos, que não vêm em roteiros turísticos e onde apenas os residentes passam!

As casas quase nem se veem, por entre as arvores, mas são lindinhas e acolhedoras, quando a gente se aproxima

“Os pequenos encantos de populações que vivem longe do turismo e apenas gostam de embelezar o seu caminho, sempre me atraem mais que os sítios míticos e incontornáveis de um país! É explorando a sua vida real, feita de gente comum, que eu encontro o sentido de viajar, porque o que é preparado para turista ver, tem o valor que tem e nem sempre é verdadeiramente representativo do que procuro. Por isso, enquanto os turistas correm de local em local, com visitas guiadas e entradas pagas, eu estou, por vezes, no meio de nada a sentir cada pequeno recanto anónimo como se fosse monumental!”

(in Passeando pela vida – a Página)

E tudo era tão inspirador!
Conduzir pelo silêncio da beleza da paisagem, com um céu cheio de nuvens que tornavam cada enquadramento perfeito!

Oh, aqueles caminhos eram lindos!

Encontrei o memorial aos 500 anos da aldeia de Perheniemi!

E as paisagens eram todas minhas! Não havia ninguém por ali em todo o meu caminho, feito de lagos e rios por todos os lados!

E cheguei a Hämeenlinna. Eu sei que a cidade é engraçadita, mas a agua fascinou-me muito mais, então perdi-me por ali, por entre locais meio abandonados cheios de encanto!

Sentei-me ali e fiz um pequeno picnic que ficará para sempre na minha memória, pela beleza e sossego que todo o ambiente lhe conferiu!

Havia uma casinha na borda do lago, onde eu me sentei por muito tempo. É nestes momentos que eu escrevo coisas, desenho um pouco, ou simplesmente nada faço para além de apenas olhar!

E assim do nada se faz um momento memorável!

Embora parecesse o fim do dia, era apenas o efeito das enormes nuvens, porque eu chegaria a Helsínquia bem a tempo de ver o dia terminar!

Ainda cheguei a tempo de tomar um café (caríssimo e miserável, mas que soube bem!), ouvir uma musica e passear pela cidade!

E subir até Catedral de Uspenski para ver o pôr-do-sol

A perspetiva lá de cima era tão inspiradora…

Que deixou um gostinho inesquecível na minha memória e que quero um dia voltar a sentir!

Amanhã seguiria para a costa Este…