A minha vida sobre 2 rodas…

A minha vida não é centrada em motos!

Eu apenas vivo e vivi toda a minha existência independente acompanhada com uma! Como uma mulher que se casa, gosta do seu marido, mas não é fanática pelos homens todos, assim é a minha motita na minha vida, seja ela qual for!

Às vezes perguntam-me se não tive pena de vender cada moto que tive para adquirir outra! Porque não as guardei? E vocês, pessoas comuns que conduzem carro desde sempre, porque não guardaram todos os carros que tiveram?

A minha moto é a minha independência, não a minha prisão! Ela nem sequer é a minha liberdade, porque livre serei eu sempre, nem que me condenem à prisão! Não há espírito motard que me acorrente!

Houve um momento em que eu decidi que não tinha de ser como toda a gente, não por querer ser diferente, mas porque o que todos gostavam era algo que eu detestava! E eu sempre odiei andar num carro! É mais forte do que eu, é visceral, é incontrolável!

Aprendi a conduzir moto com apenas 13 anos, mal tinha aprendido a andar de bicicleta quando se proporcionou a experiencia! Conduzi um Kawa 750 que “pesava uma tonelada”! Adorei a experiência e sempre que podia voltava a conduzi-la mais um pouco… Aquilo era como uma traquinice, quase uma desobediência, como quando a gente fuma ou namora às escondidas. Eu sabia que aquilo não era para mim mas aproveitava sempre… até que um dia viesse a ser obrigada a ter um carro…

Depois fui trabalhar de jardineira, durante umas férias de verão, para comprar uma bicicleta e enquanto pude fui-me escapando nela para todo o lado.

Um dia a bicla já não dava, eu tinha de ir para longe demais e veio a vespinha 50.
“Esgotei” 2 vespas! Levei-as por caminhos, aldeias e cidades nunca antes imaginadas! Quantos quilometros, quantos furos, quantos dias felizes de perfeita “inconsciência”, onde ninguém sonhava onde eu pudesse andar!

Puxa, era tão mais fácil não ter de pedalar e simplesmente dar ao punho e andar! Eheheh

No entanto faziam-me sentir culpada, quase uma fora-da-lei, uma inconsciente que não pensava nos perigos da vida, em vez de estar em casa a cuidar das minhas coisas, como está certo, andava por aí ao “Deus dará”…

Então fui para a Suiça estudar… ganhei uma bolsa de estudo que “nem vale a pena tentares que essas coisas nunca vêem para Portugal” mas deu-me uma segunda hipótese de vida!

Então vi-me sozinha, em Genève, onde ninguém me conhecia, nem cobrava condutas correctas nem atitudes convencionais! Ali eu entendi que o mundo não é todo igual e que há um espaço nele para pessoas como eu! Entendi que, tal como eu imaginava, a vida não tem de ser desperdiçada com rotinas gastas mas muito bem aceites. Vi que a nossa vida é só nossa e não tem de ser feita de coisas que não nos interessam só porque interessam a toda a gente!

Foi na Suiça que conduzi várias Harleys, Ducatis e BMs e percebi que não eram as marcas mais sonantes as que me realizavam como condutora. Conduzi diversos tipos e modelos de motos que me ajudaram a entender o tipo de moto certo para mim. E descobri que era de moto que eu iria andar o resto da minha vida, até os meus ossos o permitirem.

Quando voltei escolhi uma trail, uma Transalp 600.
Não me podia dar ao luxo de comprar uma moto que me arruinasse as costas, quando eu sabia que se tivesse uma moto minha na garagem, não lhe iria dar um minuto de tréguas! Com ela “catei” todo o país… não parava nunca. Eram tempos em que eu ganhava pouco e gastava muito, pois trabalhava longe e tinha uma prestação grande para pagar da moto. Mas eu ía na mesma, houvesse dinheiro para a gasolina e eu ía! Quando ía para mais longe era o “visa” que pagava…

Rapidamente a motita se encheu de km e acabei por troca-la pela Africa Twin… e aí foi a Europa que se abriu para mim. Não porque tivesse mais dinheiro, ou porque tivesse uma moto melhor… apenas porque o meu pais começava a ser pequeno e as saudades de Suiça grandes.

Saía pela Europa sem dizer nada a ninguém, simplesmente porque não queria ouvir sermões, criticas nem comentários desmotivadores, quando eu nem tinha de dar satisfações a ninguém!

O medo dos outros enfraquece-nos e as pessoas que menos conhecem são as que mais alto berram as suas alarvidades sobre os medos, perigos e inconsciências de quem vai…

Depois disso houve uma Varadero… uma primeira PanEuropean 1300 e a actual Magnifica.
Não tive muitas motos, mas esgotei-as todas! Todas elas me deram o melhor que tinham para mim: viajar, passear, andar sem limites…

Todas elas foram históricas, cheias de histórias, recordações, episódios caricatos…
Todas elas me deram vida… cerca de 800.000 km de vida!
Adoro-as a todas, estejam na mão de quem estiverem hoje!

Beijucas

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4 thoughts on “A minha vida sobre 2 rodas…

  1. As tuas escritas continuam a aquecer a alma de quem tenta viver um pouco daquilo que já alcançaste.

    Não te preocupes, que já faço por não ficar só aqui a ler…

    Um beijo da “junior”,

    Phoenix

    • Cucu!

      Ninguem é obrigado a ser diferente ou a remar contra a maré! Ser normal e banal é uma forma de se ser e de se viver feliz também!

      O que ninguem deve fazer é ser o que não quer, viver como não gosta, nem lutar pelo que não lhe interessa e esgotar-se com lamentos depois!

      Beijucas

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