2022… história de uma viagem adiada 2

Um dos meus grandes receios foi sempre cair de moto e ficar incapacitada de conduzir. E, por vezes, os pesadelos realizam-se! Foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu quando caímos e eu vi o meu braço transformado num grande S… Apanhei-o do chão com cuidado e ajeitei-o junto à barriga, esticando-o e pondo os ossos mais ou menos no sitio, já que os sentia moverem-se fora da articulação debaixo da minha mão direita…

Instintivamente tentei acalmar o meu moçoilo, que estava meio em estado de choque ao perceber a gravidade do meu estado. Um senhor lavrador que passava no local ajudou a pôr a moto de pé, pois ela estava numa posição muito difícil, com a cabeça para baixo e as rodas para o ar, já que a ruela onde caímos era muito inclinada. Subir na moto estava fora de questão, eu tinha de manter os ossos no sitio, com o braço pressionado conta mim, bem seguro sob a mão direita. Caminhei assim, debaixo do calor, até um ponto mais seguro, para depois irmos até à estrada e então ir para o hospital de ambulância.

Se tivesse sido operada imediatamente, teria começado muito mais cedo a recuperação, assim tudo demorou mais. Agora a recuperação está a andar bem, mas é sempre tudo muito custoso e lento! Nada a fazer!

E eu, que detesto andar de carro, nunca andei tanto num como agora!

A minha bolinha nº8 é a minha companhia de todos os dias, como os miúdos que não largam o seu brinquedo. Ela é mole, mas dou comigo a confirma-lo de vez em quando com a mão direita já que na esquerda ela parece uma verdadeira bola de bilhar tão dura!

Os estragos na moto são mínimos e isso é uma grande coisa ou a minha dor seria muito maior, tenho a certeza!

E os meus acabarão por ficar reduzidos a uma linha no pulso… espero!

A motita vai ajudando na recuperação, tanto física como emocionalmente, porque tudo é mais animador quando se tem um objetivo à vista!

E sigo recuperando as forças, porque a embraiagem é uma mola excelente para exercitar uma mão esquerda!

Mas afinal, quem apenas anda de moto há tanto tempo, quantas vezes ficou incapacitada para conduzir?

Pois, isso é comigo! Conduzo desde os 13 anos, sempre motos de grande cilindrada e grande peso, deveria ter uma história negra. Claro que caí e bati algumas vezes, é inevitável, quem anda tanto na rua por tanto tempo já foi ao tapete algumas vezes! Mas não tantas quanto seria de prever! Deixar cair a moto para o lado não é nada, e mesmo isso aconteceu pouco e principalmente com a minha primeira moto alta. Eu vinha habituada a motos mais baixas e, quando comprei a Transalp, custou-me um bocado processar que o chão ficava mais longe que o habitual, embora as minhas pernas sejam longas.

Acidente incapacitante, na realidade, aconteceu agora pela 2ª vez. Isto é, é apenas a 2ª vez na minha vida que fico muitos dias sem poder conduzir!

Acidentes complicados foram 3, mas do primeiro eu conseguia conduzir, embora os estragos em mim tivessem sido mais que das outras vezes. Enquanto tenho forças nas mãos para segurar o guiador nada me prende em casa.

E então quando foi o tal outro tombo que me deixou sem conduzir por um mês e meio?

Estávamos em 2002, eu andava a tratar de comprar a minha primeira PanEuropean, quando, por uma situação de encandeamento pela luz forte na escuridão, calculei mal a trajetória e derrapei na areia ao tentar desviar-me de um obstáculo inesperado…

A minha Varadero rodopiou sobre si e levou-me junto, destruindo o dedo médio da minha mão esquerda, para além de outros ferimentos. Naquela noite, depois de ter alta no hospital, fui levada para casa de uma amiga e na manhã seguinte o meu moçoilo foi visita-la e ficou por lá a ajudar a cuidar de mim. Eu sou bastante alta, a minha amiga era pequenita e a ajuda do Filipe foi bem-vinda, já que eu tinha até medo de me apoiar em alguém tão baixinho quanto ela.

Foram muitos dias sem ter a certeza se se conseguiria salvar o bendito dedo maroto!

O meu moçoilo cuidou de mim todo o tempo: levou a minha Varadero para a oficina, trouxe a PanEuropean nova para casa, levou-me aos curativos, cozinhou para mim e, quando tive de sair da casa da minha amiga, ele veio comigo para minha casa continuar o seu trabalho, pois eu ainda não era autónoma e precisava que cuidassem de mim!

Isso quer dizer que ficou a cuidar de mim até hoje, pois estamos juntos desde então! E, vinte anos depois, cá voltamos à primeira forma: agosto de novo e de novo ele a cuidar de mim… Não é irónico comemorarmos assim os nossos 20 anos?

PARABÉNS PARA NÓS!

5 thoughts on “2022… história de uma viagem adiada 2

  1. Antes de mais, parabéns aos dois!
    Como já alguém disse – o que não nos mata, fortalece-nos. A vida é feita de haventuras e desventuras, e quando acontecer, que nunca seja pior. Claro está que isto não serve de consolo a ninguém. Além dos ferimentos e danos, seguem-se uma série de constrangimentos, e o pior de todos é não podermos andar de mota…
    Recentemente (15/05/2022) a “fazer” uma rotunda “manhosa”, perdeu aderência e lá fui ao tapete. Eu que costumo andar quase sempre com equipamento de protecção, desta vez, como a volta era pequena, não levei calças de ganga com proteções. Resultado – um joelho bem esfolado/queimado e um pé bem inchado (esquerdos) que ficam debaixo da mota… claro está que não foi a única vez que caí ou deixei cair a mota, mas foi a única que sofri ferimentos. Os curativos duraram mais de um mês mas, graças a Deus, não me impediram de continuar a andar de mota e de realizar uma viagem de 9 dias que tinha agendado para fins de junho.
    A minha paixoneta (Tracer 900) sofreu pequenos arranhões, que sararam mais rápido que os meus
    E assim vamos ganhando experiência. Nunca pior!
    Continuação de uma excelente recuperação…✌️

  2. Antes de mais, parabéns aos dois!
    Como já alguém disse – o que não nos mata, fortalece-nos. A vida é feita de haventuras e desventuras, e quando acontecer, que nunca seja pior. Claro está que isto não serve de consolo a ninguém. Além dos ferimentos e danos, seguem-se uma série de constrangimentos, e o pior de todos é não podermos andar de mota…
    Recentemente (15/05/2022) a “fazer” uma rotunda “manhosa”, perdeu aderência e lá fui ao tapete. Eu que costumo andar quase sempre com equipamento de protecção, desta vez, como a volta era pequena, não levei calças de ganga com proteções. Resultado – um joelho bem esfolado/queimado e um pé bem inchado (esquerdos) que ficaram debaixo da mota… claro está que não foi a única vez que caí ou deixei cair a mota, mas foi a única em que sofri ferimentos. Os curativos duraram mais de um mês mas, graças a Deus, não me impediram de continuar a andar de mota e de realizar uma viagem de 9 dias que tinha agendado para fins de junho.
    A minha paixoneta (Tracer 900) sofreu pequenos arranhões, que sararam mais rápido que os meus
    E assim vamos ganhando experiência. Nunca pior!
    Continuação de uma excelente recuperação…✌️

  3. Pingback: Gracinda Ramos | Correio do Porto

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