28. Passeando por caminhos Celtas – descendo o País de Gales até Cardiff…

19 de agosto de 2014 – continuando

Peguei na moto e segui para Liverpool!

Nem sei há quantos anos queria lá passar, por nada em especial, apenas porque é uma cidade e um nome que trago no meu imaginário desde sempre, talvez porque deve ter sido das primeiras cidades Inglesas de que ouvi falar, um dia, quando o meu mundo ainda terminava bem perto da minha casa.

Como muitas outras cidades que visitei na minha vida apenas porque o seu nome não me saiu da cabeça por toda a minha vida até eu lá conseguir ir, como Budapeste, Cracóvia ou Bucareste… ou Leninegrado onde ainda irei!

Bem, Liverpool é afinal a terra dos Beatles, por exemplo, e só por isso eu queria lá passar, e pronto!

Fui entrando pela cidade sem nada que me prendesse a atenção até cruzar com uma igreja em ruinas! Não é muito comum cruzar-se com uma igreja em ruinas no centro de uma grande cidade, mas naquele país as igrejas têm uma simbologia bem diferente da que tem por cá, por isso tudo é possível!
Parei e fui ver!

A ruina ganhou um significado especial quando me aproximei e entendi a sua história!

Tratava-se da St Luke’s church, uma igreja neogótica do final do séc. XIX, que foi profundamente danificada durante o bombardeamento, chamado de Liverpool Blitz, quando a cidade foi atacada pelos alemães em 1941.

Liverpool foi a segunda cidade do Reino Unido mais atacada e danificada durante a II Grande Guerra, depois de Londres, devido ao seu importante porto que os alemães queriam neutralizar…

Hoje a Igreja de St Luke permanece como um memorial às 4.000 vítimas daquele ataque. Os jardins estão bem tratados e o espaço é usado para eventos culturais, como concertos, recitais e coisas do género.

Cartazes colados em seu redor sensibilizam a população para ajudar a manter a igreja de pé!

E de igreja em igreja, na realidade aquela que eu queria mesmo ver na cidade, era a catedral!

“A catedral de Liverpool é um edifício espantoso! Com quase 190 m de comprimento é a catedral mais comprida do mundo mas, quando a gente entra, não é o seu comprimento que impressiona, é o seu espaço amplo e a sensação de altura infinita, ao ponto de não se ter ângulo para a enquadrar completamente na máquina fotográfica! Um neogótico impressionante do século passado, com um ambiente que surpreende, onde o espaço religioso convive com exposições de pintura, uma cafetaria e uma loja. Toda esta vida torna o enorme edifício bem menos austero, porque as suas diversas alas podem ser quase opressoras, ao estilo das antigas igrejas góticas. Explorei tudo com a calma e o deslumbramento que o espaço provoca e mesmo desenha-lo não era fácil…”

(in Passeando pela vida – a página)

“Entrei ali e tudo o que eu vira em livros e na net pareceu uma brincadeira de meninos! A catedral de Liverpool é simplesmente grandiosa! Por momentos eu nem sabia em que direcção ir, ela é tão ampla, tão alta e tão vazia! Não conseguia entender para que lado era o altar, as cadeiras estavam tão longe que nem percebi logo para que lado estavam voltadas. Depois, na dúvida de não saber para onde ir ou olhar, ergui os olhos e segui o seu teto impressionante, porque pelo teto tudo leva ao transepto, ao altar e à abobada no cruzamento das naves, que era tão alta quanto a imensa torre que se via ao longe! Sentei-me por ali no meio e fiquei a admirar a vertiginosa altura por cima de mim e os efeitos que a luz provocava na imensa torre… momentos de espanto!”

(in Passeando pela vida – a página)

A descontracção com que se passeia por ali, por entre conversas murmuradas mas sem qualquer preocupação!

Homens e mulheres, usando batinas vermelhas, conversam com quem visita de forma natural, explicando pormenores de história e religião e as luzes desenham ambientes surreais no grandioso espaço sem nos oprimir!

Dentro da catedral fica a Lady Chapel, uma obra mais pequena e pormenorizada, contrasta com a grandiosidade do corpo principal da catedral e é linda!

A sensação era incrível, de ter entrado numa igreja dentro de outra igreja, com a estranheza de um “será que eu saí da catedral sem dar por ela’”

A semipenumbra do espaço fascinou-me realmente!

Claro que a catedral estava lá, logo à saída da porta da capela, eu apenas tinha entrado num mundo dentro de outro mundo!

E ali se fazem exposições, concertos, jantares, festas! Havia obras artísticas nos altares laterais muito interessantes!

E havia uma espécie de arvorezinha dos desejos, onde eu coloquei um coraçãozinho que sarrabisquei, lembrando-me de tanta coisa e tanta gente ao faze-lo, como quem põe uma vela por alguém!

O edifício é grandioso e vermelho e pode ser visto de muito longe na cidade!

E depois de um banho de igreja não me apetecia ver muito mais coisas, apenas passear pela cidade e apreciar os seus pormenores!

Tomei um café (mais ou menos horroroso) num café com o nome da minha terra!

E passei pelos estádios de futebol lá da terra, aqueles que em Manchester não queriam que eu visitasse!

O mítico Liverpool Football Club, o Anfield, construído nos finais do séc. XIX… e não, não fui visita-lo por dentro! Nem só de estádios se faz uma viagem!

E de passagem fui também ao Everton, que é logo à frente, rivais e vizinhos!

E não, também não o fui visitar!
Pronto, eu prometi em Manchester que não visitaria o Liverpool por isso terá de ficar para outra passagem pela zona!

Memoriais a grandes jogadores, Dixie Dean, o maior artilheiro do clube “um dos maiores avançados centro da sua era” dizem ainda hoje.

As paredes cheias de plaquinhas comemorativas!

Há sempre vida onde há futebol “You’ll never walk alone”

Passeei um pouco pelo tão desejado porto da cidade, no tempo da guerra por ser um bom porto, hoje por ter muitas atrações, de festas e comes-e-bebes!

Estava um belo dia para se beber uma cerveja numa esplanada, mas eu não o faria! A campanha anti-álcool estava na rua com toda a força e eu ainda tinha uma série de quilómetros para fazer!

Ao longe a catedral parecia um fantasma avermelhado que tudo observava!

Pelos caminhos do porto podia-se apreciar o mar e as nuvens magníficas!

E depois da King’s Dock era a saida da cidade ou, pelo menos, do centro da cidade, com coisas que me chamavam a atenção, mesmo por trás dos carros!

Havia muito tempo que eu percebera que não adiantava nada pedir café, é uma bosta mesmo, por isso parei para um chazinho! Afinal estamos na Inglaterra “time for a cuppa!”

Ainda dei dois dedos de paleio com 2 motards que apareceram entretanto e se deslumbraram comigo, por causa da minha motita, que eu e ela fazíamos um conjunto muito bonito! Wow, nunca imaginei ouvir piropos de ingleses, os sérios, cínicos e distantes! Que nada, boa gente!

Havia um sítio onde eu queria ir antes de seguir para Cardiff, um sítio onde eu queria ir desde a última vez que andei por ali, há 3 anos, e me distraí com outras coisas no lado leste da ilha. Desta vez eu iria lá nem que chegasse a Cardiff a meio da noite!

Caernarfon e o seu castelo!

“O Caernarfon Castle tinha ficado para trás nas minhas escolhas da ultima vez que estive no País de Gales, mas desta vez eu fui vê-lo. É uma fortaleza medieval bem no meio de Caernarfon. O castelo embora tenha aquela aparência de construção robusta e completa, não tem muito mais do que as muralhas intactas. A sua história conturbada de guerras e batalhas, desde a sua construção no séc. XIII, é rica e está ligada à história do país até ser deixado ao abandono e só no século XX voltou à sua imponência e beleza, agora como muralha e ruína deslumbrante! Eu queria vê-lo e enquadra-lo na sua redondeza, por isso fartei-me de dar voltas em seu redor, até parar no outro lado do rio Seiont, sentar-me e admira-lo… Que lindo dia se pusera, e permitiu que eu viajasse um pouco pela história enquanto o desenhava e fotografava em momentos que ficaram na minha memória para sempre!”

(in Passeando pela vida – a página)

A ponte que atravessa o rio é basculante, não vi muitas pontes assim na minha vida e foi curioso ficar ali a vê-la rodar sobre si própria para deixar passar os barcos!

Apesar de atravessar a ponte eu queria ir aquele lado com a moto!

Por isso voltei à cidadezinha para a buscar e ir procurar o caminho!
O ambiente era muito agradável por ali, com pessoas que passeavam calmamente e comiam gelados… e eu que não gosto de gelados, limitei-me a ficar a olhar! Ok, sai mais um chá!

Encontrei uma das casas com 3 frentes mais estreitinhas da minha vida! Parecia um livro de pé!

Enquanto se toma um chá quente aprecia-se muito mais coisas do que quando se come um gelado! Só pelo tempo de espera para que arrefeça, dá para ver tudo o que nos rodeia!

E lá peguei na moto e fui ver o castelo do outro lado do rio!

E por cima dos campos de milho!
Eu sabia que ele estaria naquela direcção, bastou pôr-me de pé em cima da moto, e ele lá estava!

E continuei a escolher percursos de sonho até ao meu destino!
Porque viajar é como viver, o facto de sabermos qual o nosso destino, não quer dizer que façamos o caminho de toda a gente, nem o mais fácil, ou o mais rápido! Porque não fazer o mais bonito?

E eu escolhi descer o país por Beddgelert, por ruelas antigas, entre aldeias perdidas nos montes!

Esta aldeiazinha lindíssima tem uma lenda que lhe dá o nome e eu queria ver de perto a sua beleza!

Na realidade Beddgelert quer dizer Gelert’s Grave – sepultura de Gelert.

Diz a lenda que Gelert foi um cão que o rei João de Inglaterra ofereceu ao Príncipe de Gwynedd em Gales. Ora um dia o príncipe chegava da caça quando viu o berço do seu filho tombado e o bebé desaparecido. Quando o cão aparece com a boca cheia de sangue ele saca da espada e mata-o, acreditando que ele matara o seu filho. Mal o cão solta o seu uivo de morte o príncipe ouve o choro do seu bebé e então percebe que há um lobo morto no chão do quarto. Cheio de remorsos por ter morto o cão salvador do seu filho, sepulta o cão com uma grande cerimónia no local onde fica hoje a aldeia, mas continua a ouvir o seu uivo, e a partir daquele dia ele nunca mais voltou a sorrir.

Embora a lenda seja triste a verdade é que a aldeia é linda e estava cheia de gente bem disposta que começou a acenar-me a cada vez que eu passava, já que eu andei para lá e para cá com a moto à procura de onde a parar! Acabei por a parar bem no meio da ponte e pronto!

E as paisagens por ali são verdadeiramente exuberantes!

Uma simples estrada era um postal ilustrado feito de beleza! Bastava erguer a máquina e disparar, pois todas as fotos ficariam lindas, com o céu azul e as nuvens inspiradoras!

A verdade é que, naquele país, basta estar um pouco de sol, que tudo é lindo!

E fui para casa, que naquele dia seria em Cardiff!

E foi o fim do 22º dia de viagem

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