7.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– partindo para o mar… –

6 de agosto de 2019

Só de pensar no que me esperava para os próximos dias, já ficava deprimida! Arrumei a minha bagagem de forma a ser fácil retirar as coisas mais necessárias, sem ter de desmontar tudo quando embarcasse, e sentei-me no degrau das escadas a pensar na minha vida. O que iria eu fazer em dois dias e meio no mar? Ler? Escrever? Comer? Definitivamente entediar-me até à morte!

Claro que quando o destino é fantástco, o caminho valerá sempre a pena, mas não, eu não gosto de ficar tanto tempo a olhar para o balão à espera que o caminho passe. Até ali as travessias mais longas que eu fizera, entre o norte de França e a República da Irlanda e entre a Finlândia e a Suécia, não tinham passado as 17 ou 18 horas e eu quase morri de tédio… agora seriam tantas mais…

Não importa, o que tem de ser feito não pode ser evitado! Ainda por cima estava uma bosta de tempo, para que eu não me perdesse pelo caminho e estivesse no porto de Hirtshals a horas! Se a hora do embarque era 11.30h isso queria dizer que eu devia estar lá duas foras antes, 9.30h portanto. É bom que chova mesmo para que eu não me atrase.

Não tenho qualquer srtess em andar de barco, cruzeiro ou ferry. Não tenho medo do mar e não acho que tudo vai afundar só porque eu estou dentro. Stresso sim com o receio de fazer as coisas erradas, não encontrar o cais de embarque, chegar tarde, embarcar no ferry errado, eu sei lá!

Stresso por depender de um transporte que não o meu!

E a verdade é que os meus medos já se realizaram antes, quando errei na reserva para o ferry para a Irlanda e quando cheguei ao porto, não havia reserva nenhuma no meu nome! Lembro-me que o meu coração gelou! Claro que tudo se resolveu, de uma maneira ou de outra, e eu lá embarquei noutro ferry de ultima hora. Mas morri por uns longos minutos!

Desta vez o stress foi encontrar o cais onde a companhia Islandesa operava. Dei voltas e mais voltas, seguindo placas que se contradiziam, murmurando de mim para mim “tem calma que há tempo, é cedo” e acabei por encontrar o cais seguindo camiões com o logotipo da Smyril Line. Eu iria atrás deles até ao fim do mundo para enontrar o cais! E encontrei.

E sim, cheguei a horas de esperar uma eternidade para embarcar! Fiz amizade com um casal de Malta, muito simpático, e um alemão meio atarantado. Ficaram chocados por me verem ali sozinha. Ao tempo que não ouvia a tradicional pergunta: Os teus amigos?

Mas chocada fiquei eu quando o alemão descontraiu, tirou o capacete e começamos a falar! O homem tinha idade para ser nosso pai! 78 ou 79 anos, sozinho a caminho da Islândia, numa moto antiga e pronto para acampar? E tinha a lata de ficar espantado por eu ir sozinha? A sério?

Já tinha feito aquela viagem 15 anos atrás, ao que percebi com a mesma moto, e agora queria reviver a experiência pois não viajara muito nos ultimos anos e tinha de recuperar esse tempo perdido. Em momento nenhum se referiu à idade como um receio ou uma limitação. Eu quero ser assim aos 79 anos…

Ali as motos não são colocadas em linhas próprias, nem são encaminhadas para a frente de todos. Apenas se alinham com os carros até passarem o controle de bilhetes e documentos, como numa portagem ou fronteira. Vamos lá ao arranca – pára- arranca – pára, que é para isso que nos dizem para chegarmos duas horas antes do embarque!

Era este o aspeto do documento da minha reserva.
Sim, ele vai encadernado no meu livro-guia de viagem, é menos um papel à solta na bagagem.

Esperando que do lado de lá da “portagem” haja uma linha para as motos, não estou a ver estacionarem as motos de qualquer maneira, no meio dos carros, numa viagem tão longa!

E sim, do lado de lá uma linha era só nossa e as moto já eram bastantes! Senti-me menos estupida por stressar com embarques, ao perceber que tanta gente madrugara para embarcar ao mesmo tempo que eu! Fiquei feliz por ficar atrás daquelas motos todas, significava que só teria de os seguir sem me preocupar, e que a minha moto ficaria seguramente atrás das deles, o que provavelmente me possibilitaria sair primeiro ao desembarcar! Yess!

Depois com tanto homem por ali, seguramente algum me ajudaria a amarrar a moto, coisa que me custa bastante fazer. Sou muito fragil de mãos, tenho pouca força nos braços e tenho medo de não conseguir fazer as coisas bem, por isso!

Percebi que eu era a unica mulher condutora e mesmo as penduras eram poucas. E tal como eu suspeitara, não havia ninguém a prender as motos, cada um amarrava a sua! Oh valha-me Deus!

O sistema da fivela, que prende as fitas quando têm de ser esticadas, não era nada simples e aqueles homens estavam todos às voltas a tentar entender como prender as suas motos. Como iriam ajudar-me a prender a minha?

Ao meu lado veio pôr-se uma Africa Twin, fiquei contente por ter uma Honda ao lado da minha Honda! Era italiana e tinha uma grande amolgadela na matrícula, parecia que tinha apanhado um tiro na placa, de tão funda era a cova! Ía perguntar o que lhe tinha acontecido, mas o tipo pôs-me um olhar assassino! Ele olhava para mim com um desprezo que me fugiu qualquer vontade de falar. Que foi homem? E ainda por cima olhava insistentemente. Já sei que estou aqui às aranhas com esta porcaria de fitas imundas e fivelas emperradas, mas se não queres ajudar, também não precisas prejudicar!

Voltei-lhe as costas e mandei-o catar-se.

Não tentei mais, aquilo não funcionava, a fivela não corria, larguei tudo e fui pedir ajuda a um dos homens da empresa, que andava por ali a orientar as motos. Foi simpático o rapaz e veio prender a minha querida Scarlett, todo dedicado. Ficou surpreendido por eu estar sozinha, parece que não é muito comum, quando há mulheres condutoras, viajam em grupo com outras motos, logo eu era uma raridade! Sério? Elas hão-de vir, não se preocupe! Acabou por descobrir que a fivela da minha fita estava estragada e por isso eu nunca conseguiria fazê-la correr!

Estás a ver óh otário da AT, esta coisa está avariada não sou eu que sou azelha!

Acabei por ser das primeiras a ter a moto pronta e sair do porão! Dali até partirmos ainda demoraria um bom tempo, ainda estavam a embarcar os camiões noutro porão e os carros só entrariam depois. E a sensação de “isto nunca mais acaba” aumentou dentro de mim, ali mesmo!

O raio do barco não tinha fim e demorei a orinetar-me pelos corredores.

Acabei por perceber que o porão das motos era o Deck 4 e que eu dormiria abaixo da minha moto, no Deck 2 e que o Deck 3 não existia ou não era da nossa conta. talvez máquinas, porão de embarque comecial, sei lá!

Quando se marca a viagem do ferry é obrigatório marcar também um lugar numa couchete ou um camarote, simplesmente não existe hipotese de viajar em cadeirão, como noutros ferries que eu conhecera antes. E está certo, não faz qualquer sentido as pessoas viajarem sentadas em cadeirões, como quem viaja de autocarro! As couchetes são pequenas e cabe uma série de pessoas nelas. Achei que me ia sentir claustrofobica ali dentro, é sempre essa sensação que tenho. Mas até é engraçado e não é nada sufocante. Só estavamos 3 mulheres instaladas ali, por isso não faltava espaço e ar.

Arrumei o meu canto e larguei as tralhas na minha cama. O que é suposto eu fazer a seguir? Então senti-o move-se! PARTIMOS!

Nem sei como passou tanto tempo desde o embarque, que eu nem me dei conta! E estava na hora do almoço, que estava incluido no meu bilhete!

Eu só iria para as Ilhas Faroé no regresso da islândia, mas já fui provando a sua cerveja.

Gostei bastante! Eu achava que devia aproveitar a cerveja enquanto a tinha, imaginando que não deveria encontra-la facilmente na grande ilha. E como eu estava certa!

Ainda bem que não me esforcei por encontrar e comprar um mapa da Islândia, porque ali no barco eram de borla, pouco importava se eram de verão ou inverno, servia!

Eramos cerca de 600 pessoas a viajar, não sei onde estavam, mas graças a Deus não tive de levar com elas todas no meu caminho o tempo todo.

Começou o tédio absoluto! Nada para fazer, sempre a mesma coisa em meu redor, ler, escrever, desenhar, comer beber, por mais 60 horas….

Não sei quantas vezes filmei o mar, mas foram muitas vezes, mesmo sabendo que ele era tudo o que eu veria pelos proximos dias, sempre igual… ou parecido!

5 thoughts on “7.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

    • Obrigada pela companhia
      Acho que é sempre util quando alguém vive algo que pode ser util para outros viajantes o possa partilhar. Dá trabalho mas ao mesmo tempo vou revivendo tudo passo a passo, o que é tão bom! 😀

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