18.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

– As ilhas do sul 

17 de agosto de 2019

Acordei às 4.51h da manhã, sabe Deus porquê, considerando que a meteorologia prometia chuva e eu devia aproveitar para dormir. Mas, para minha felicidade, havia sol no horizonte! Subitamente senti-me eufórica. pouco importavam as previsões, eu iria sair rapidamente para aproveitar a nesga de sol, isso era garantido!

Pus-me a estudar o mapa do arquipélago. As ilhas de Sandoy e Suðuroy estavam fora de questão, eu não me iria meter em ferries para as visitar e sujeitar-me a ter de pernoitar lá se o mar não me permitisse voltar no mesmo dia. Iria dedicar-me às ilhas com ligação por estrada, estava decidido.

Gatinhei para cima do muro de relva, arrastando comigo o meu pequeno almoço. Eu tinha de ter a certeza de que o sol vingaria, nem que fosse um pouco apenas!

Na realidade ele não apareceu verdadeiramente, enquanto eu tomava o meu café, apenas se mostrou por trás das nuvens, mas isso já era alguma coisa, depois de tanta chuva!

O certo é que, mesmo que no mar a visibilidade não fosse a melhor, em terra a paisagem começava a ver-se ao longe e isso era muito animador!

Que se lixe, vou passear! Se desatar a chover ou a visibilidade for nula, pelo menos a aventura de conduzir por estradas nunca antes por mim trilhadas, ninguém ma tira!

E as perspetivas sobre Torshavn eram encantadoras, com o calor do sol a fazer a névoa subir e a dar a tudo uma atmosfera féerica! WoW

Não podia deixar de me sentir eufórica, o sol viera para ajudar! Yesss

De alguma forma conduzir por ali era tão parecido e tão diferente de conduzir pela Islândia! Não apenas porque não estava vento, era algo cá dentro de mim que sentia que ali tudo era diferente!

Sobe-se rapidamente e rapidamente se desce, e a névoa faz parecer que alcanço o céu.

Ora bem, antes que o sol se arrependesse e fizesse justiça às previsões de mau tempo, eu tinha de conferir uma paisagem que me apaixonara muito tempo atrás, Norðradalur por ali, à esquerda.

Não é fácil seguir caminho com tantos enquadramentos belíssimos a chamar a atenção e eu ia parando a todo o momento para olhar em redor e tirar fotos. Quando não se tem a certeza de poder usufruir de toda a beleza, é preciso aproveitar cada pedacinho enquanto se tem oportunidade!

E no topo da colina lá estava o que eu queria ver com os meus próprios olhos…

Pousei a moto e fiquei a olhar.

Ver fotos de uns e de outros é interessante, mas olhar diretamente com os nossos próprios olhos é deslumbrante!

“Quando o sol espreitou finalmente eu “sai correndo” como dizem os brasileiros! Era como se a natureza voltasse à vida em todo o seu esplendor, sem qualquer partícula de poeira no ar a perturbar a beleza do amanhecer. Saí da estrada, percorri estradões íngremes, pulei de pedra em pedra, parei, sentei e apreciei… como eu precisava daquela paz depois dos dias difíceis, feitos de chuvas e ventos fortes, que passara na Islândia…” (in Passeando Pela Vida – a Página)

Quanta pureza pode uma paisagem conter?

Lá em baixo fica Norðradalur, uma pequena aldeia de apenas 15 habitantes. A aldeiazinha fica no fundo do grande vale com montanhas íngremes em seu redor. Embora se situe perto de Tórshavn, está muito isolada, pois está sozinha ali com uma estrada apenas para sair e entrar!

Ao fundo podiam-se ver Koltur e Trøllhøvdi, duas pequenas ilhas tão icónicas naquele enquadramento! Passou-se uma eternidade de puro êxtase até que eu conseguisse voltar a pegar na moto…

E a estrada era tão fantástica quanto a paisagem, em curvas inspiradoras que iam revelando mais e mais à medida que eu a descia.

“Gosto quando a estrada se encaracola diante de mim e a paisagem fica ao alcance do meu olhar enquanto conduzo. É como um filme em tela gigante que se desenrola em tempo real! Sigo fascinada sempre hesitando entre apreciar a condução, ou parar a cada quilômetro para registar o que os meus olhos veem. Então desço e volto a subir e aproveito tudo aquilo a que tenho direito, porque estou só e não há mais ninguém no meu caminho!” (in Passeando Pela Vida – a Página)

A água corria por todos os lados, em regos e regatos, como se todo o monte fosse uma imensa nascente ou fonte.

A sensação de andar a passear num imenso cenário de realidade virtual era tão forte! Um imenso postal ilustrado em 3 dimensões que me envolvia de forma surreal!

Eu iria perceber com o tempo que o mar por ali nunca está “limpo”, há sempre ilhas, ilhotas, pedras ou penedos ao alcance do olhar, o que faz com que cada perspetiva sobre ele seja sempre ainda mais fascinante do que sobre um mar liso.

Iria perceber também que o verde está por todo o lado e desce até à beirinha do mar, onde o rebordo negro da pedra determina o limite entre terra e água de uma forma impressionante.

Koltur e Trøllhøvdi tão perto!

Fiquei tempos infinitos olhando e demorei horas a saír dali, porque a atração era tão grande que eu simplesmente me pus a caminhar em redor!

E quando peguei na moto ainda fui explorar mais um pouco.

Acho que a experiência violenta na Islândia me tornou mais arisca e aqueles caminhos chamavam tanto a minha atenção!

Ok, ganha juízo que os caminhos estão tão ensopados que ainda te vais esbardalhar na lama mais a moto!

Enquanto o sol me inspirasse eu seguiria!

Vagar é uma das maiores ilhas do arquipélago e a mais ocidental e tem passagem por estrada. Percebi que tinha portagem e que funcionava como na Islândia: a gente passa e depois tem um ou dois dias para pagar a portagem. Mas não conseguia ver preços para motos! Será que, como na Islândia, motos não pagam? Pensaria nisso depois.

A estrada desce e atravessa a distância entre ilhas por baixo de água por 5km. O túnel foi contruído para dar apoio ao aeródromo, que é o único nas ilhas e foi construído pelos ingleses durante a segunda guerra mundial. Passei por ele nas minhas explorações, não tem nada de especial, mas a ilha é deslumbrante!

Desde as perspetivas do mar, com terra por todos os lados, à simples estrada que não tem nada de simples, tudo é fascinante em redor!

Não ha muitas estradas por ali, a gente segue em frente e vai sempre dar a algo bonito, simples!

E cheguei a Sandavágur, uma cidadezinha encantadora. Acho que se pode considerar uma cidade, afinal tem quase mil habitantes, o que é uma verdadeira multidão para aquelas ilhas!

A sua igreja é muito bonitinha, por fora pelo menos, que por dentro não pude visitar!

Com o cemitério em redor, como um jardim muito bem cuidado.

Uma pena o nevoeiro estar a instalar-se, porque aquelas paisagens ficariam encantadoras com um céu azul cheio de nuvens brancas!

A igreja está voltada para a baía negra com um riacho a correr na sua frente, mas já quase nem se via para longe. Bosta de tempo que não queria melhorar!

Andei a chapinar na água, a vantagem de se ter botas impermeáveis e quentes

Sandavágur quer dizer “baía de areia” e realmente lá estava a praia de areia negra!

Claro que lá fui por as minhas patinhas!

Dali podia ver perfeitamente a igreja, tão bonita quanto caraterística da cidade.

E fiz um desenho. A vontade era desenhar tudo a toda a hora no meu caminho! Pena eu não ter todo o tempo do mundo para o fazer convenientemente!

Tão lindo mesmo sem sol!

Eu tinha de seguir, mesmo sem ter a certeza de que o nevoeiro me deixasse ver muito, pois havia tanta coisa bonita que eu queria ver por ali, como o famoso lago de Sørvágsvatn, o maior das ilhas!

Que pena, ele estava ali, lindo, por entre as brumas!

Para lá do lago fica o mar. Um lago sobre o mar é a coisa mais fantástica que a gente pode encontrar!

Há sempre onde se tomar um café para aquecer as mãos e a alma!

As árvores são uma coisa rara, nas ilhas como na Islândia, e quando eu as encontrava fazia uma festa dentro de mim!

Logo à frente fica o caminho, maio manhoso, para chegar ao inicio do trilho que leva pela borda do lado até ao mar, sempre subindo.

Eu perceberia com o tempo que ali tudo se paga e, mesmo no meio do campo, há sempre uma cabine ou um torniquete onde a gente enfia o cartão multibanco se quer continuar a explorar. Nada a fazer, é assim e pronto!

Podia ver o mapa do trilho com mais 5km até ao ponto onde toda a gente quer ir.

E pronto, bora lá caminhar, meio andando, meio escorregando, pelo trilho molhado e por vezes enlameado!

Por entre a música do meu telemóvel, as fotos foram aos milhares, para que nada se perdesse do caminho a fazer, antes que a bruma tudo apagasse.

A água corria por todos os lados, em regos aos milhares! Definitivamente aquele lago não sofria de falta de alimento!

Por vezes eu tinha a sensação de que estava sozinha no mundo, apenas eu e a natureza.

Por quanto tempo a paisagem seria visível ainda?

Ao fundo podia ver o fim do lago, para lá daquele ponto ficava a falésia sobre o mar. Fascinante mesmo visto daqui e com a atmosfera de mistério que a névoa conferia, era fascinante na mesma!

Podia ver pequenos pontos de gente que caminhava também, mas era mais a solidão do que a companhia.

A sensação de que o caminho nunca mais acabava, no entanto, era grande, como se tudo se afastasse à medida que eu ía avançando.

Ok, do nada aparecia alguém, como se a cada saliencia do terreno mais caminho houvesse e escondesse gente!

A sensação era de que a qualquer momento eu deixaria de ver o lago, por isso o fotografava a cada vez que olhava para trás.

Então cheguei às primeiras falésias! Wow, incrível! Nada me tinha preparado para as ver assim depois de uma saliência no terreno! Eu pensava que elas começavam mais além.

Espantosas!

Não há nada que nos impeça de dar um passo em falso e cair lá abaixo!

Sim, dá um friozinho na barriga!

Puxa, se eu caio daqui abaixo nem os ossos me encontram!

E, por um momento, podia ver o lago de um lado da falésia e o mar do outro!

Pessoas que não vira apareciam sabe-se lá de onde!

A lama não deixava subir e os pés escorregavam enquanto todos caminhávamos em falso. Uma animação!

Eu, e todas as pessoas por quem passei, já estava toda suja de lama, por isso sentar na relva e desenhar não me sujaria mais! Eu tinha de captar aquele momento no meu livrinho…

Do outro lado ficava a escarpa onde o lago transborda para o mar numa cascata de mais de 30 metros. Assim que lá cheguei dei um belo trambolhão nas pedras… já estava a tardar, ainda não tinha caído naquela terra! Mas cair ali foi, no mínimo, meio aterrorizante!

Havia por ali varias pessoas que acorreram a ajudar-me a levantar, pois as pedras eram mesmo escorregadias.

Sentei-me um pouco, não se via muito e cada vez a visibilidade diminuía mais. E enquanto fiquei curtindo o momento do desaparecimento do mar, perdi a conta a quantas pessoas caíram onde eu caí! Era assustador cada vez que alguém se esticava, pois parecia que ía parar lá abaixo…

Fui tirando fotos a uns e a outros, toda a gente quer uma recordação de quando ali esteve, de pé, de preferência, não me assustem mais, vá lá!

“Esta atmosfera de mistério encanta-me, quando o precipício se prepara para desaparecer e toda a gente fica triste, mas a beleza se transforma em encanto…” (in Passeando pela Vida – a Página)

Este dia promete ser longo…

(continua)

4 thoughts on “18.Islândia-Ilhas Faroé-Noruega

  1. Se a pandemia permitir (e as regras também), ando a planear ir às ilhas Faroé ainda este ano! Estive na Islândia e 2015 e tornou-se rapidamente o meu destino preferido até hoje – por todo o lote de razões em que se pode pensar 🙂
    Foi muito bom regressar através desta crónica!

    • A Islândia marcou-me e apaixonou-me profundamente, acho que não vou descansar até lá voltar de novo! 😉
      As Ilhas Faroé, ficaram na minha memória como o paraíso de beleza que completou, na perfeição, a viagem extraordinária que foi.

  2. Como é bom acabar um dia passeando sem sair de casa… e a minha moto coberta com uma mantinha! (Só de pensar nisso fico um pouco triste).
    Um Bem Haja, pela partilha.

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