About Gracinda Ramos

Um dia disseram-me que eu fazia a minha vida leve... Eu respondi que a minha vida tem de ter o peso que eu posso suportar!...

35. Escandinávia 2017 – por caminhos locais até Helsiquia …

23 de agosto de 2017

(continuação)

Ainda fui até Kotka, mas não me entusiasmou tanto a cidade como a vida das pessoas por lá!

Os caminhos da miudagem continuavam a fascinar-me!

Enquanto os pequenitos pedalavam suas bicicletas até às escolas, os mais cresciditos deslocavam-se em pequenas motos!

Parece que por lá os papás não são tão preocupados nem super-protetores como cá que, mesmo por pequenas distâncias, preferem levar os seus rebentos de carro até às portas das escolas, provocando longas filas de trânsito por horas!

Mas acabei por dar apenas uma pequena volta pela cidade, não estava cm vontade de ver monumentos nem de me meter no meio das pessoas, mas sempre me atrai ver como se vive num local onde nunca fui!

Estava a preparar-se um concerto na igreja e os rapazes que recebiam as pessoas convidaram-me a entrar. Simpáticas as pessoas por ali. Claro que acabei por apreciar a igreja ao som da musica, ante o olhar curioso de alguns presentes!

Mas eu não perderia muito tempo por ali, apenas dei uma volta apreciando pormenores curiosos, como o deposito da água numa zona alta da cidade, surrealista como um objeto gigante alienígena…

Mas cruzar com uma velhinha de andarilho foi, na realidade, o ponto alto da minha visita à cidade!

Uma coisa que eu tinha apreciado desde que andava por países escandinavos, era a dignidade com que as pessoas idosas se moviam e se “impunham” ao mundo. Nada daquela postura triste e quebrada do velhinho coitadinho!

O andarilho era tipo trotinete de 4 rodas e ela vinha a descer a rua em velocidade, empurrando com o pé e deslizando!

Depois subia os dois pés e deixava-se ir e quando eu pensava que ela não iria conseguir travar, eis que o fantástico veiculo tem travões, ela aciona-os e para, como qualquer condutor civilizado.

E la foi ela, deixando-me com uma imensa vontade de ser velhota na Finlândia!

Deixei a cidade com vontade de explorar caminhos que ninguém faz! Claro que por ali os caminhos podem converter-se mesmo em caminhos a qualquer momento, quando o alcatrão acaba de repente, em linha reta, e apenas sobra terra batida para rolar!

Depois só resta explorar assim mesmo!

E vale a pena explorar caminhos desconhecidos, que não vêm em roteiros turísticos e onde apenas os residentes passam!

As casas quase nem se veem, por entre as arvores, mas são lindinhas e acolhedoras, quando a gente se aproxima

“Os pequenos encantos de populações que vivem longe do turismo e apenas gostam de embelezar o seu caminho, sempre me atraem mais que os sítios míticos e incontornáveis de um país! É explorando a sua vida real, feita de gente comum, que eu encontro o sentido de viajar, porque o que é preparado para turista ver, tem o valor que tem e nem sempre é verdadeiramente representativo do que procuro. Por isso, enquanto os turistas correm de local em local, com visitas guiadas e entradas pagas, eu estou, por vezes, no meio de nada a sentir cada pequeno recanto anónimo como se fosse monumental!”

(in Passeando pela vida – a Página)

E tudo era tão inspirador!
Conduzir pelo silêncio da beleza da paisagem, com um céu cheio de nuvens que tornavam cada enquadramento perfeito!

Oh, aqueles caminhos eram lindos!

Encontrei o memorial aos 500 anos da aldeia de Perheniemi!

E as paisagens eram todas minhas! Não havia ninguém por ali em todo o meu caminho, feito de lagos e rios por todos os lados!

E cheguei a Hämeenlinna. Eu sei que a cidade é engraçadita, mas a agua fascinou-me muito mais, então perdi-me por ali, por entre locais meio abandonados cheios de encanto!

Sentei-me ali e fiz um pequeno picnic que ficará para sempre na minha memória, pela beleza e sossego que todo o ambiente lhe conferiu!

Havia uma casinha na borda do lago, onde eu me sentei por muito tempo. É nestes momentos que eu escrevo coisas, desenho um pouco, ou simplesmente nada faço para além de apenas olhar!

E assim do nada se faz um momento memorável!

Embora parecesse o fim do dia, era apenas o efeito das enormes nuvens, porque eu chegaria a Helsínquia bem a tempo de ver o dia terminar!

Ainda cheguei a tempo de tomar um café (caríssimo e miserável, mas que soube bem!), ouvir uma musica e passear pela cidade!

E subir até Catedral de Uspenski para ver o pôr-do-sol

A perspetiva lá de cima era tão inspiradora…

Que deixou um gostinho inesquecível na minha memória e que quero um dia voltar a sentir!

Amanhã seguiria para a costa Este…

34. Escandinávia 2017 – Passeando por Porvoo …

23 de agosto de 2017

Tinha o dia todo por minha conta para fazer muito pouco!

Eu gosto de me deixar assim, ao sabor do vento, com um recanto ou dois para passar e o resto para desfrutar! Faz bem, numa viagem cheia de quilómetros, não pensar muito um dia ou outro!

O sul da Finlândia tem vários recantos que eu gostaria de visitar, mas naquele dia apenas me deixaria andar por ali!

A pouco mais de 50 km de Helsínquia, depois de uma condução quase em modo automático, fica Porvoo. Era muito cedo quando me despachei e saí para passear por isso permiti-me deixar-me andar até lá sem mais nada em mente senão ir!

Era cedo, no dia e no mês, mas a miudagem já estava na escola! Eu pude acompanhar o percurso de pequenos bandos de bicicletas pelas ruas, mas chegar junto de uma escola e ver o parque de estacionamento dos miúdos, fascinou-me! Quantas bicicletas!

E à medida que outros chegavam, estacionavam direitinho as suas no meio das outras e seguiam para o edifício sem nem as fechar!

A zona antiga da cidade era logo ali, muito bonita com as suas casinhas em madeira, pintadas de cores luminosas e a convidar para explorar cada recanto!

Porvoo é a segunda mais antiga cidade da Finlândia e é linda!

Pelos quelhos, que saem das ruas mais principais, pode-se chegar a recantos lindos, cheios de cor e encanto.

Alguns desses caminhos são privados, mas ninguém pareceu preocupado com a minha curiosidade em espreitar!

Então cheguei à Praça do Mercado. As praças centrais das cidades antigas chamam-se sempre praças do mercado pela Europa toda, eu acho!

Logo ali ficam dois museus, o Porvoon Museum, Holmin Talo e o Borgå Museum, Gamla rådhuset. Não visitei nenhum pois estavam fechados, mas explorei os quintais por trás do Porvoon Museuo, Holmin Talo e eram encantadores!

Aparentemente aquelas casas tortas, com paredes de madeira meio inclinadas, parecem apenas esperar para cair, mas olhando melhor, são sólidas e são lindas, com as suas cores garridas impressionantes!

Na antiga câmara da cidade funciona o museu Borgå, uma excelente paisagem para acompanhar o meu pequeno almoço!

O café Fanny! Como em tantos outros por aqueles países, o café é de chaleira, a parecer mais chá do que café, é caríssimo e estás feito à nossa espera, como se fosse normal! Para eles até pode ser, para mim nem por isso!

Ok, venha dai o cafezinho, tipo mijoquinha, e o croissant, que quando não há pão até migalhas vão!

Só faltou um pouco de sol a acompanhar o café da manhã, em tão inspiradora paisagem!

Seguindo pela ruinha estreita, logo a seguir ao café, vai-se ter à catedral, a Porvoon Tuomiokirkko!

A igreja é dedicada a Santa Maria e as partes mais antigas são do século XIII.

Os vestígios góticos devem-se à sua reconstrução no século XV depois de diversas destruições. Mas grande parte do seu ar atual é bem mais recente. Enfim, parece que as igrejas são sempre vitimas de incêndios e catástrofes ao longo da sua existência, por isso nada é mais como era, nos dias de hoje!

E há muita beleza no edifício, com pormenores que prevaleceram e continuam a cativar, mesmo tendo o telhado da igreja sido completamente destruído pelo fogo em 2006!

Aparentemente por ali não há distinção de género! Junto ao campanário uma mocinha cuidava do empedrado do chão com muito profissionalismo!

Confesso que nunca tinha visto uma calceteira, mas tenho de admitir que é um trabalho que até condiz bem com a minucia feminina!

O rio Porvoonjoki é logo ali e na sua margem ficam as casinhas de madeira mais encantadoras, todas em castanho avermelhado e preto e com vista privilegiada para a água.

Dei a volta com a moto e fui até ao outro lado do rio. Eu tinha de ver tudo aquilo noutra perspetiva!

Vista desde o outro lado do rio a cidade é muito bonita!

As horas e as explorações que eu dediquei àquele cantinho finlandês!

E sim, encantei-me com Porvoo!

(continua)

33. Escandinávia 2017 – Descendo a Finlândia até Helsínquia

22 de agosto de 2017

Embora eu goste muito do Natal e de todas as tradições a ele ligadas, visitar a terra do pai natal não era um sonho meu, na realidade eu nem sabia muito bem o que iria encontrar, mas fui até lá, claro! E o que me fascinou foi encontrar aquilo tudo vazio, sem turistas nem visitantes, apenas eu passeando por ali.

Gostei de caminhar sobre a linha do Circulo Polar Ártico, pousar as minhas rodas sobre ela e fazer uma pilha de fotos

Na realidade esse foi o ponto alto da visita ao local, mais do que todas as atrações que ele pode oferecer.

Então, andava por ali toda animada a explorar, quando uma velhota pequenina se acercou de mim. Eu vira-a sozinha e percebera que me observava, mas achava que se devia ter afastado de algum grupo. Mas não, andava sozinha e vinha de muito mais longe do que eu, vinha da Austrália!

“Registos de viagem – 10

Mulheres sozinhas a passear é outro nível! 😉
Encontrei esta avozinha australiana, que anda a passear pela Europa sozinha! Dizia ela que se estivesse à espera de companhia morreria sem ver o que queria! Grande abraço na despedida, com muitas fotos comigo e a minha moto, para mostrar aos filhos e netos que as mulheres na Europa são grandes e corajosas! Adorei!”

(in Facebook)

Eu fiquei tão maravilhada com ela como ela comigo! Acho que a minha dimensão a impressionou, na realidade eu parecia uma gigante perto dela! Quis-me tirar uma foto para levar e mostrar à família e amigas, mas que apanhou mais chão do que paisagem! eheheheheh

Tomamos um café juntas e contou-me a sua história, a mãe falecera e dissera-lhe para usar o dinheiro que lhe deixava para realizar o seu sonho de viajar até à Europa. Ela tentara convencer uns e outros para irem com ela, mas ninguém tivera coragem nem vontade de viajar para tão longe, então ela partira sozinha, antes que passasse tempo demais e não tivesse mais capacidade de o fazer. E lá estava ela nos seus quase 70 anos toda feliz!

Claro que tirei uma série de fotos à minha moto junto à linha que separa o nosso mundo do Polo Norte, como eu dizia!

A minha motita minúscula junto de uma linha!

Uma coisa que eu aprendi em viagem é que, onde há turistas há moedinhas em qualquer laguito ou poça de água e cadeados nas pontes, onde há motards há autocolantes nas tabuletas…

É uma sensação curiosa estar em agosto a passear num local onde é sempre Natal…

e onde o comércio está sempre a condizer coma época, mesmo fora de época!

E a verdadeira cidade do Pai Natal é um recinto onde se paga para visitar, como a Disneyland ou algo do género. Por isso nunca me despertou o interesse e por isso nunca fiz questão de visitar!

Eu gosto do Natal natural, quando os enfeites se acumulam pelas ruas, de lojas e casas, gosto do espírito e do nada que é passear e viver. Não aprecio encenações brilhantes, com meninas e duendes a tentar animar o ambiente com toda a alegria forçada que estes parques conseguem ter… por isso não entrei!

Apreciei o ambiente em redor, acolhedor e muito mais de acordo com o que esperava ver.

E disse adeus áquilo tudo, com os cartazes que prometiam muita diversão a não me cativarem minimamente!

Eu sabia que me esperava um caminho com muito pouco para ver, a Finlândia não é o país mais variado em termos de paisagens que se pode encontrar, por isso teria um belo dia para pensar, ouvir musica e, quem sabe, desenhar um pouco!

E aquele seria um dia meio histórico na minha vida!

“Registos de viagem – 11

Vou contar-vos um segredo…
Quando fiz as contas aos quilómetros que fiz com todas as minhas motos, conclui que, quando a Negrita completasse 58.000km, eu completaria 900.000…
Ora esse momento foi hoje!
Estou a celebrar o feito com uma cerveja que fala uma língua estrangeira, mas é fixe!
PARABÉNS para mim”

(in Facebook )

Parei em Oulu mas nada me inspirava para além de a bela cerveja e unas Riisipiirakka, as pequenas tortas de arroz que acompanham bem com tudo pois nem são doces nem amargas.

Nem me tentei misturar com o povo, estava muito movimento nas ruas e eu já não estava habituada a tal!

E as ideias fluem quando se conduz por horas sem mais nada para fazer, por vezes sistematizam-se experiências de uma forma tão lógica que vale a pena comunica-las ao mundo! Escrevia eu a dada altura:

“Registos de viagem – 12

6 vantagens e 1 desvantagem de se viajar de moto com frio:

1. A cerveja nunca fica quente, mesmo quando guardada por horas na top-case!

2. Nunca temos dúvidas sobre o que vestir: tudo!

3. Não faz mal estar-se gordo, ninguém vai notar com toda a roupa vestida.

4. Ninguém nos vai achar loucos, feios ou gordos, afinal todos os motociclistas na estrada se parecem connosco!

5. Há sempre espaço na moto para mais comida, a roupa está toda vestida por isso libertou espaço.

6. Não há problema se chover, afinal o fato de chuva também está vestido desde manhã para ajudar a combater o frio!

A desvantagem…

Que não haja necessidade urgente de ir ao WC… com toda a roupa vestida será um desastre!!!”

(in Facebook)

Claro que faltou ali um último ponto que pude experimentar dias antes!

7. Em caso de queda toda a roupa vestida nos protege, qual hair-bag à nossa medida!

E se os nomes das terras, até ali, eram curiosos por vezes, ali eram curiosos sempre!

E a Finlândia é um país encantado, feito de lagos que se sucedem como pocinhas de água por todos os lados. Alguns tão inspiradores que é preciso parar para olhar, mesmo não havendo nem um recanto na estrada para o fazer!

Outros têm belezas quase invisíveis para quem passa correndo para o seu destino.
E a sensação, por vezes, era de que a seguir à berma da estrada ficava o céu e infinito, quando a agua vinha até ela e reflectia o céu, como um espelho perfeito!

E assim cheguei a Helsínquia… cheia de vontade de continuar a explorar o sul do país!

32. Escandinávia 2017 – Até Rovaniemi, o dia em que eu caí!

21 de agosto de 2017

(continuação)

De repente eu não queria ir embora!

Eu sabia que a Finlândia era muito menos interessante do que a Noruega e queria ficar mais um pouco!

Mas o meu tempo não é infinito e eu tinha de começar a descer no mapa…

Voltei a percorrer o caminho que me levara ao Cabo Norte, mas com mais lentidão ainda, tentando absorver todas as persptivas possíveis da paisagem.

Toda a serenidade envolvente era ainda mais fascinante do que na subida, apenas porque eu estava a ir embora…

E as Renas eram ainda mais, deviam ter acordado no entretanto e saído para o pequeno almoço!

Vou sempre associar o Cabo Norte e a ilha de Magerøya a toda a serenidade que senti naquele dia

As gaivotas pereciam bolinhas brancas nas encostas das escarpas

E não havia ninguém no mundo para além de mim e da minha moto

Pessoas vivem ali, longe de tudo e de todos, e nem as localidades são feitas de proximidade, como se cada casa se isolasse das outras e cada um cuidasse de si

Os momentos de beleza foram inesquecíveis e ficariam para sempre gravados na minha memória

Quanto tempo fiquei por ali, apenas olhando em redor…

As Renas chegavam-se tão perto que eu quase as conseguia tocar

Como é possível ter-se saudades de um sitio que se acaba de conhecer?

Como é possível já se sentir essas saudades quando ainda se está a sair do local?

Eu sofrera tanto a fazer aqueles caminhos no dia anterior, e agora estava ali, toda enternecida e cheia de pena de ir embora!

Adeus Noruega!

E à medida que me afastava na direção da Finlândia o tempo ia melhorando!

O céu ía ficando mais azul, mas a paisagem ía perdendo o encanto. Eu já sabia que iria ser assim…

Fez-me lembrar quando atravessei os países da ex-União Soviética, quando ia a caminho da Rússia, estrada sem paisagem!

E lá estava a placa a anunciar a entrada no pais, cheia de autocolantes como qualquer sitio onde passam muitos motards!

Eu tinha decidido visitar a Noruega primeiro e só depois ir para a Finlândia precisamente por causa desse “deserto” esperado.

Uma coisa que a vida me ensinou foi a visitar primeiro o que eu tenho mais ânsia de ver e só depois o resto. No caso de algo acontecer, o que eu já vi ninguém me pode mais tirar!

Mas a monotonia seria quebrada em breve!

“Registos de viagem – 9
Entra-se na Finlândia e a estrada não tem fim de monótona, então começam as obras! Quilómetros de estrada sem pavimento, onde são acrescentadas novas camadas de saibro e cascalho para voltar a alcatroar. 20 km disto! E quando já estava a habituar-me ao piso aventura e me aproximo por fim dos trabalhadores, uma máquina começa a trabalhar e um bando de Renas desata a correr para a estrada! Eles assustaram-se com o barulho, eu assustei-me com eles… ser atropelada por Renas estava fora dos meus planos! Correu tudo bem, nem eu nem a Negrita nos magoamos.”

(In Passeando pela vida – a Página)

A sensação de ver uma série de grandes bichos a correr na minha direção foi assustadora, eu não sabia se se desviariam de mim ou saltariam por cima. Acho que algumas saltaram mesmo!

Um dos trabalhadores veio na minha direção, certificar-se de que eu estava bem e ajudar-me a levantar a moto. Eu sei que a moto no chão não parece tão grande quanto ela é e o tipo, que era bem grande, não parecia ter força para me ajudar a levanta-la! Ele simplesmente estava escandalizado por eu andar ali sozinha com uma moto tão pesada e não havia maneira de fazer a força suficiente para a levantar.

Puxe homem, dizia eu, com mais força!

E ele perguntava pelos meus amigos, de onde eu vinha, de onde era e só fazia o barulho de quem puxa, mas a força era nenhuma! Quando finalmente levantamos a moto, quem estava exausta era eu, pois era a única que se esforçara realmente. Enfim! Lá ficaram eles a comentar entre eles e a ver-me ir embora, cheios de espanto…

Eu nunca tinha caído, ou sequer deixado a moto cair, numa viagem, aquela foi a primeira vez que tal me aconteceu! Eu, que stresso quando cruzo com vacas, porque sempre que os bichos são maiores do que eu e a minha moto, me sinto vulnerável, não esperava ser derrubada por renas.

E nada de novo se passou até Rovaniemi, para além da monotonia esperada…

Nunca tive particular desejo de visitar a terra do Pai Natal, mas já que ficava no meu caminho iria lá dormir uma noite. Lá estavam os chalés iluminados à minha passagem, iria lá passar no dia seguinte para dar uma olhada.

O meu hostel era bonitinho e tinha um excelente bar no ré-do-chão. Era tudo o que eu precisava depois de um dia de viagem como aquele.

De alguma forma sentia-me meio triste por estar a regressar com tanta coisa espantosa que deixei por ver, lá para trás…

… mas amanhã eu iria seguir para o sul, onde tudo voltava a ser interessante

 

31. Escandinávia 2017 – Cabo Norte, no topo da Europa

21 de agosto de 2017

No dia seguinte tudo parecia muito mais animador.

Eu imaginara que o dia ainda seria muito longo por ali, mas vira no GPS que afinal o pôr-do-sol não seria mais tarde do que noutro lado qualquer. Mas essa pequena desilusão foi rapidamente compensada pela hora do nascer-do-sol! Afinal anoitecia cedo mas amanheceria ceadíssimo!

Com sol ou sem ele, seria dia às 3.31 horas da madrugada!

“Uma curiosidade que eu tinha era de ver como era a noite lá em cima, no topo da Europa. Eu sabia que no momento em que lá chegasse haveria noite e não poderia experimentar a sensação de ter dia a noite toda. O tempo encoberto não deixaria ver o sol, mas como o GPS dizia que amanhecia às 3.31h, acordei cedo e fui ver. A sensação foi única! Uma luminosidade que dava a sensação de serem 7 ou 8 horas da manhã e no entanto eram apenas 3.45h… Não havia sol, mas havia dia muito cedo! momento mágico mesmo assim…”

(in Passeando pela vida – a página)

E bem antes do pequeno almoço eu já andava a explorar em redor, maravilhando-me com uma luminosidade que me baralhava as ideias! Havia renas a pastar por todo o lado e a paisagem era apenas minha!


Que outro maluco se levantaria da cama àquela hora para ir passear ao frio só para sentir o dia nascer?

Só eu e as Renas mesmo!

E mesmo depois das minhas explorações em redor, quando voltei ao hostel para o pequeno almoço era quase a única pessoa na sala. Eu nunca dispenso um bom pequeno almoço, preciso muito de toda a energia que ele me possa dar para começar o meu dia.

Despedi-me da rececionista, que me vira chegar tão tremula no dia anterior e parecia divertida com a minha transformação e energia matinal, e da sua rena na receção e fui embora cantarolando.

Eu tinha um pequeno trajeto de 33km para fazer até ao ponto mais a norte da Europa!

Esperavam-me as paisagens mais serenas e deslumbrantes, pela sua diferença do que vira até ali…

“Quanta beleza poderá haver no nada? Tanta e tão grande quanto a paz que é percorre-lo! E a vontade é de ir e voltar, parar e ficar, vivendo um momento único que se apodera completamente de mim. Havia Renas a pastar ao longe e mais nada para fazer senão guardar todo aquele encanto na caixinha da minha memória, onde as coisas mais extraordinárias permanecerão para lá de todas as viagens!”

(in Passeando pela vida – a página)

Há quem viva por ali, em localidades pequenas de casinhas dispersas como em Kirkeporten

e há Renas por todos os lados!

Confesso que me sentia observada!

Eu, o silêncio e a minha moto, nada mais!

Quando cheguei à placa de Nordkapp um casal de italianos tentava fotografar-se junto dela, mas não conseguiam ficar os três na foto, claro. Então aproveitamos a presença uns dos outros para nos fotografarmos, num momento único!

As Renas estavam tão perto de mim que quase as podia tocar!

E lá estava mais uma branquinha!
Se ver uma dá sorte, ver 2 deveria dar muita mais sorte ainda, não?

Três, então, seria sorte suficiente para ganhar o Euro-milhões?

A seguir era o fim da terra em falésias inspiradoras que o tempo meio encoberto deixava revelar de uma forma bastante misteriosa.

E lá estava, ao fundo, o Nordkap Globus…

Fui-me aproximando lentamente.

Estava um vento forte e gélido, na verdade estava mesmo um frio infernal, e eu nem o capacete tirei.

havia pouca gente por ali, a suficiente para eu pedir que me tirassem uma foto, armada em RoboCop.

Logo ao lado fica o monumento Barn av jorden – Crianças do mundo

O monumento foi iniciado em 1988, quando o autor, Simon Flem Devold – (um ativista norueguês pelos direitos das crianças), selecionou aleatoriamente sete crianças de sete países – Tanzânia, Brasil, EUA, Japão, Tailândia, Itália e Rússia – para visitarem o Cabo Norte e sonharem com a “Paz na Terra”

Durante a sua visita de sete dias, cada uma das crianças, de 8 a 12 anos, fez um relevo em argila simbolizando a amizade, a esperança, a alegria e o trabalho em conjunto. No ano seguinte os relevos foram ampliados em bronze e erguidos em semicírculo.
A escultura “Mãe e Filho”, da escultora Eva Rybakken, aponta para os sete discos gigantes.

A história está narrada num 8º disco, perto.

Do edifício de Kystradar Magerøy as perspetivas para o exterior…

E na parede podia-se ver um anoitecer em tempo de sol da meia noite… lindo!

Como eu gostava de o poder ver um dia…

Quando voltei para a moto começavam a chegar mais pessoas.

E um casal se aproximou metendo conversa comigo! A senhora era portuguesa, casada com um alemão, e estavam à minha espera pois tinham reconhecido a matricula da minha moto como portuguesa e queriam ver que eu era.

Um momento de conversa animada que culminou com uma sessão de fotos.

Não havia mais moto nenhuma para além da minha e da do casal italiano

Eu tinha de registar aquele momento antes de ir embora…

E a partir dali a minha viagem chamar-se-ia regresso…

(continua)