About Gracinda Ramos

Um dia disseram-me que eu fazia a minha vida leve... Eu respondi que a minha vida tem de ter o peso que eu posso suportar!...

33. Escandinávia 2017 – Descendo a Finlândia até Helsínquia

22 de agosto de 2017

Embora eu goste muito do Natal e de todas as tradições a ele ligadas, visitar a terra do pai natal não era um sonho meu, na realidade eu nem sabia muito bem o que iria encontrar, mas fui até lá, claro! E o que me fascinou foi encontrar aquilo tudo vazio, sem turistas nem visitantes, apenas eu passeando por ali.

Gostei de caminhar sobre a linha do Circulo Polar Ártico, pousar as minhas rodas sobre ela e fazer uma pilha de fotos

Na realidade esse foi o ponto alto da visita ao local, mais do que todas as atrações que ele pode oferecer.

Então, andava por ali toda animada a explorar, quando uma velhota pequenina se acercou de mim. Eu vira-a sozinha e percebera que me observava, mas achava que se devia ter afastado de algum grupo. Mas não, andava sozinha e vinha de muito mais longe do que eu, vinha da Austrália!

“Registos de viagem – 10

Mulheres sozinhas a passear é outro nível! 😉
Encontrei esta avozinha australiana, que anda a passear pela Europa sozinha! Dizia ela que se estivesse à espera de companhia morreria sem ver o que queria! Grande abraço na despedida, com muitas fotos comigo e a minha moto, para mostrar aos filhos e netos que as mulheres na Europa são grandes e corajosas! Adorei!”

(in Facebook)

Eu fiquei tão maravilhada com ela como ela comigo! Acho que a minha dimensão a impressionou, na realidade eu parecia uma gigante perto dela! Quis-me tirar uma foto para levar e mostrar à família e amigas, mas que apanhou mais chão do que paisagem! eheheheheh

Tomamos um café juntas e contou-me a sua história, a mãe falecera e dissera-lhe para usar o dinheiro que lhe deixava para realizar o seu sonho de viajar até à Europa. Ela tentara convencer uns e outros para irem com ela, mas ninguém tivera coragem nem vontade de viajar para tão longe, então ela partira sozinha, antes que passasse tempo demais e não tivesse mais capacidade de o fazer. E lá estava ela nos seus quase 70 anos toda feliz!

Claro que tirei uma série de fotos à minha moto junto à linha que separa o nosso mundo do Polo Norte, como eu dizia!

A minha motita minúscula junto de uma linha!

Uma coisa que eu aprendi em viagem é que, onde há turistas há moedinhas em qualquer laguito ou poça de água e cadeados nas pontes, onde há motards há autocolantes nas tabuletas…

É uma sensação curiosa estar em agosto a passear num local onde é sempre Natal…

e onde o comércio está sempre a condizer coma época, mesmo fora de época!

E a verdadeira cidade do Pai Natal é um recinto onde se paga para visitar, como a Disneyland ou algo do género. Por isso nunca me despertou o interesse e por isso nunca fiz questão de visitar!

Eu gosto do Natal natural, quando os enfeites se acumulam pelas ruas, de lojas e casas, gosto do espírito e do nada que é passear e viver. Não aprecio encenações brilhantes, com meninas e duendes a tentar animar o ambiente com toda a alegria forçada que estes parques conseguem ter… por isso não entrei!

Apreciei o ambiente em redor, acolhedor e muito mais de acordo com o que esperava ver.

E disse adeus áquilo tudo, com os cartazes que prometiam muita diversão a não me cativarem minimamente!

Eu sabia que me esperava um caminho com muito pouco para ver, a Finlândia não é o país mais variado em termos de paisagens que se pode encontrar, por isso teria um belo dia para pensar, ouvir musica e, quem sabe, desenhar um pouco!

E aquele seria um dia meio histórico na minha vida!

“Registos de viagem – 11

Vou contar-vos um segredo…
Quando fiz as contas aos quilómetros que fiz com todas as minhas motos, conclui que, quando a Negrita completasse 58.000km, eu completaria 900.000…
Ora esse momento foi hoje!
Estou a celebrar o feito com uma cerveja que fala uma língua estrangeira, mas é fixe!
PARABÉNS para mim”

(in Facebook )

Parei em Oulu mas nada me inspirava para além de a bela cerveja e unas Riisipiirakka, as pequenas tortas de arroz que acompanham bem com tudo pois nem são doces nem amargas.

Nem me tentei misturar com o povo, estava muito movimento nas ruas e eu já não estava habituada a tal!

E as ideias fluem quando se conduz por horas sem mais nada para fazer, por vezes sistematizam-se experiências de uma forma tão lógica que vale a pena comunica-las ao mundo! Escrevia eu a dada altura:

“Registos de viagem – 12

6 vantagens e 1 desvantagem de se viajar de moto com frio:

1. A cerveja nunca fica quente, mesmo quando guardada por horas na top-case!

2. Nunca temos dúvidas sobre o que vestir: tudo!

3. Não faz mal estar-se gordo, ninguém vai notar com toda a roupa vestida.

4. Ninguém nos vai achar loucos, feios ou gordos, afinal todos os motociclistas na estrada se parecem connosco!

5. Há sempre espaço na moto para mais comida, a roupa está toda vestida por isso libertou espaço.

6. Não há problema se chover, afinal o fato de chuva também está vestido desde manhã para ajudar a combater o frio!

A desvantagem…

Que não haja necessidade urgente de ir ao WC… com toda a roupa vestida será um desastre!!!”

(in Facebook)

Claro que faltou ali um último ponto que pude experimentar dias antes!

7. Em caso de queda toda a roupa vestida nos protege, qual hair-bag à nossa medida!

E se os nomes das terras, até ali, eram curiosos por vezes, ali eram curiosos sempre!

E a Finlândia é um país encantado, feito de lagos que se sucedem como pocinhas de água por todos os lados. Alguns tão inspiradores que é preciso parar para olhar, mesmo não havendo nem um recanto na estrada para o fazer!

Outros têm belezas quase invisíveis para quem passa correndo para o seu destino.
E a sensação, por vezes, era de que a seguir à berma da estrada ficava o céu e infinito, quando a agua vinha até ela e reflectia o céu, como um espelho perfeito!

E assim cheguei a Helsínquia… cheia de vontade de continuar a explorar o sul do país!

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32. Escandinávia 2017 – Até Rovaniemi, o dia em que eu caí!

21 de agosto de 2017

(continuação)

De repente eu não queria ir embora!

Eu sabia que a Finlândia era muito menos interessante do que a Noruega e queria ficar mais um pouco!

Mas o meu tempo não é infinito e eu tinha de começar a descer no mapa…

Voltei a percorrer o caminho que me levara ao Cabo Norte, mas com mais lentidão ainda, tentando absorver todas as persptivas possíveis da paisagem.

Toda a serenidade envolvente era ainda mais fascinante do que na subida, apenas porque eu estava a ir embora…

E as Renas eram ainda mais, deviam ter acordado no entretanto e saído para o pequeno almoço!

Vou sempre associar o Cabo Norte e a ilha de Magerøya a toda a serenidade que senti naquele dia

As gaivotas pereciam bolinhas brancas nas encostas das escarpas

E não havia ninguém no mundo para além de mim e da minha moto

Pessoas vivem ali, longe de tudo e de todos, e nem as localidades são feitas de proximidade, como se cada casa se isolasse das outras e cada um cuidasse de si

Os momentos de beleza foram inesquecíveis e ficariam para sempre gravados na minha memória

Quanto tempo fiquei por ali, apenas olhando em redor…

As Renas chegavam-se tão perto que eu quase as conseguia tocar

Como é possível ter-se saudades de um sitio que se acaba de conhecer?

Como é possível já se sentir essas saudades quando ainda se está a sair do local?

Eu sofrera tanto a fazer aqueles caminhos no dia anterior, e agora estava ali, toda enternecida e cheia de pena de ir embora!

Adeus Noruega!

E à medida que me afastava na direção da Finlândia o tempo ia melhorando!

O céu ía ficando mais azul, mas a paisagem ía perdendo o encanto. Eu já sabia que iria ser assim…

Fez-me lembrar quando atravessei os países da ex-União Soviética, quando ia a caminho da Rússia, estrada sem paisagem!

E lá estava a placa a anunciar a entrada no pais, cheia de autocolantes como qualquer sitio onde passam muitos motards!

Eu tinha decidido visitar a Noruega primeiro e só depois ir para a Finlândia precisamente por causa desse “deserto” esperado.

Uma coisa que a vida me ensinou foi a visitar primeiro o que eu tenho mais ânsia de ver e só depois o resto. No caso de algo acontecer, o que eu já vi ninguém me pode mais tirar!

Mas a monotonia seria quebrada em breve!

“Registos de viagem – 9
Entra-se na Finlândia e a estrada não tem fim de monótona, então começam as obras! Quilómetros de estrada sem pavimento, onde são acrescentadas novas camadas de saibro e cascalho para voltar a alcatroar. 20 km disto! E quando já estava a habituar-me ao piso aventura e me aproximo por fim dos trabalhadores, uma máquina começa a trabalhar e um bando de Renas desata a correr para a estrada! Eles assustaram-se com o barulho, eu assustei-me com eles… ser atropelada por Renas estava fora dos meus planos! Correu tudo bem, nem eu nem a Negrita nos magoamos.”

(In Passeando pela vida – a Página)

A sensação de ver uma série de grandes bichos a correr na minha direção foi assustadora, eu não sabia se se desviariam de mim ou saltariam por cima. Acho que algumas saltaram mesmo!

Um dos trabalhadores veio na minha direção, certificar-se de que eu estava bem e ajudar-me a levantar a moto. Eu sei que a moto no chão não parece tão grande quanto ela é e o tipo, que era bem grande, não parecia ter força para me ajudar a levanta-la! Ele simplesmente estava escandalizado por eu andar ali sozinha com uma moto tão pesada e não havia maneira de fazer a força suficiente para a levantar.

Puxe homem, dizia eu, com mais força!

E ele perguntava pelos meus amigos, de onde eu vinha, de onde era e só fazia o barulho de quem puxa, mas a força era nenhuma! Quando finalmente levantamos a moto, quem estava exausta era eu, pois era a única que se esforçara realmente. Enfim! Lá ficaram eles a comentar entre eles e a ver-me ir embora, cheios de espanto…

Eu nunca tinha caído, ou sequer deixado a moto cair, numa viagem, aquela foi a primeira vez que tal me aconteceu! Eu, que stresso quando cruzo com vacas, porque sempre que os bichos são maiores do que eu e a minha moto, me sinto vulnerável, não esperava ser derrubada por renas.

E nada de novo se passou até Rovaniemi, para além da monotonia esperada…

Nunca tive particular desejo de visitar a terra do Pai Natal, mas já que ficava no meu caminho iria lá dormir uma noite. Lá estavam os chalés iluminados à minha passagem, iria lá passar no dia seguinte para dar uma olhada.

O meu hostel era bonitinho e tinha um excelente bar no ré-do-chão. Era tudo o que eu precisava depois de um dia de viagem como aquele.

De alguma forma sentia-me meio triste por estar a regressar com tanta coisa espantosa que deixei por ver, lá para trás…

… mas amanhã eu iria seguir para o sul, onde tudo voltava a ser interessante

 

31. Escandinávia 2017 – Cabo Norte, no topo da Europa

21 de agosto de 2017

No dia seguinte tudo parecia muito mais animador.

Eu imaginara que o dia ainda seria muito longo por ali, mas vira no GPS que afinal o pôr-do-sol não seria mais tarde do que noutro lado qualquer. Mas essa pequena desilusão foi rapidamente compensada pela hora do nascer-do-sol! Afinal anoitecia cedo mas amanheceria ceadíssimo!

Com sol ou sem ele, seria dia às 3.31 horas da madrugada!

“Uma curiosidade que eu tinha era de ver como era a noite lá em cima, no topo da Europa. Eu sabia que no momento em que lá chegasse haveria noite e não poderia experimentar a sensação de ter dia a noite toda. O tempo encoberto não deixaria ver o sol, mas como o GPS dizia que amanhecia às 3.31h, acordei cedo e fui ver. A sensação foi única! Uma luminosidade que dava a sensação de serem 7 ou 8 horas da manhã e no entanto eram apenas 3.45h… Não havia sol, mas havia dia muito cedo! momento mágico mesmo assim…”

(in Passeando pela vida – a página)

E bem antes do pequeno almoço eu já andava a explorar em redor, maravilhando-me com uma luminosidade que me baralhava as ideias! Havia renas a pastar por todo o lado e a paisagem era apenas minha!


Que outro maluco se levantaria da cama àquela hora para ir passear ao frio só para sentir o dia nascer?

Só eu e as Renas mesmo!

E mesmo depois das minhas explorações em redor, quando voltei ao hostel para o pequeno almoço era quase a única pessoa na sala. Eu nunca dispenso um bom pequeno almoço, preciso muito de toda a energia que ele me possa dar para começar o meu dia.

Despedi-me da rececionista, que me vira chegar tão tremula no dia anterior e parecia divertida com a minha transformação e energia matinal, e da sua rena na receção e fui embora cantarolando.

Eu tinha um pequeno trajeto de 33km para fazer até ao ponto mais a norte da Europa!

Esperavam-me as paisagens mais serenas e deslumbrantes, pela sua diferença do que vira até ali…

“Quanta beleza poderá haver no nada? Tanta e tão grande quanto a paz que é percorre-lo! E a vontade é de ir e voltar, parar e ficar, vivendo um momento único que se apodera completamente de mim. Havia Renas a pastar ao longe e mais nada para fazer senão guardar todo aquele encanto na caixinha da minha memória, onde as coisas mais extraordinárias permanecerão para lá de todas as viagens!”

(in Passeando pela vida – a página)

Há quem viva por ali, em localidades pequenas de casinhas dispersas como em Kirkeporten

e há Renas por todos os lados!

Confesso que me sentia observada!

Eu, o silêncio e a minha moto, nada mais!

Quando cheguei à placa de Nordkapp um casal de italianos tentava fotografar-se junto dela, mas não conseguiam ficar os três na foto, claro. Então aproveitamos a presença uns dos outros para nos fotografarmos, num momento único!

As Renas estavam tão perto de mim que quase as podia tocar!

E lá estava mais uma branquinha!
Se ver uma dá sorte, ver 2 deveria dar muita mais sorte ainda, não?

Três, então, seria sorte suficiente para ganhar o Euro-milhões?

A seguir era o fim da terra em falésias inspiradoras que o tempo meio encoberto deixava revelar de uma forma bastante misteriosa.

E lá estava, ao fundo, o Nordkap Globus…

Fui-me aproximando lentamente.

Estava um vento forte e gélido, na verdade estava mesmo um frio infernal, e eu nem o capacete tirei.

havia pouca gente por ali, a suficiente para eu pedir que me tirassem uma foto, armada em RoboCop.

Logo ao lado fica o monumento Barn av jorden – Crianças do mundo

O monumento foi iniciado em 1988, quando o autor, Simon Flem Devold – (um ativista norueguês pelos direitos das crianças), selecionou aleatoriamente sete crianças de sete países – Tanzânia, Brasil, EUA, Japão, Tailândia, Itália e Rússia – para visitarem o Cabo Norte e sonharem com a “Paz na Terra”

Durante a sua visita de sete dias, cada uma das crianças, de 8 a 12 anos, fez um relevo em argila simbolizando a amizade, a esperança, a alegria e o trabalho em conjunto. No ano seguinte os relevos foram ampliados em bronze e erguidos em semicírculo.
A escultura “Mãe e Filho”, da escultora Eva Rybakken, aponta para os sete discos gigantes.

A história está narrada num 8º disco, perto.

Do edifício de Kystradar Magerøy as perspetivas para o exterior…

E na parede podia-se ver um anoitecer em tempo de sol da meia noite… lindo!

Como eu gostava de o poder ver um dia…

Quando voltei para a moto começavam a chegar mais pessoas.

E um casal se aproximou metendo conversa comigo! A senhora era portuguesa, casada com um alemão, e estavam à minha espera pois tinham reconhecido a matricula da minha moto como portuguesa e queriam ver que eu era.

Um momento de conversa animada que culminou com uma sessão de fotos.

Não havia mais moto nenhuma para além da minha e da do casal italiano

Eu tinha de registar aquele momento antes de ir embora…

E a partir dali a minha viagem chamar-se-ia regresso…

(continua)

30. Escandinávia 2017 – até ao Cabo Norte…

20 de agosto de 2017

Aquele seria o dia mais difícil de toda a viagem e as minhas escolhas, embora me tivessem proporcionado momentos muito bonitos, fizeram-me sofrer um bocado mais. Eu estava numa zona tão bonita e o tempo não estava a ajudar nada, mas isso não me impediria de tentar ver um pouco mais, seguir lentamente, olhar em volta.

Da varanda do hostel tinha uma perspetiva fantástica sobre o braço de água, como um lago, que eu percorrera no dia anterior.

O pequeno almoço era muito inspirador, aquele é sempre o momento de reforçar a energia para seguir as explorações do dia.

E naquele dia, pelo percurso e mau tempo que me esperava, seguramente que eu precisaria de toda a energia que pudesse acumular para percorrer a distancia que me levaria ao topo da Noruega!

Logo ali, pertinho do hostel, ficava o cais de embarque para atravessar direto para o outro lado. Fiquei a olhar e a pensar se devia apanhar o barco ou dar a volta!

Tinha acabado de partir um e demoraria um bom bocado até chegar outro. Eu podia esperar o barco seguinte, ou podia seguir por terra e percorrer mais uns 100 km do que se fosse por mar.

Claro que, apesar do mau tempo, decidi ir por terra. Eu sei que não faz muito sentido para um viajante lógico, mas eu não sou muito lógica quando se trata de explorar, mesmo à chuva!

Eu queria ver melhor como as pessoas vivem por ali, queria olhar os campos, as quintas, os pequenos portos e as imensas montanhas do outro lado.

A visibilidade não era muita, mas as perspetivas sobre o meu caminho eram fantásticas mesmo assim!

Os rios surgiam do nada, brancos como os rios perto dos glaciares na Suíça. Deduzi que eram brancos pelo mesmo motivo, o glaciar onde nasciam deveria ser ali em cima!

Tudo era tão fascinante para mim, mesmo com a visibilidade muito reduzida, e eu parava a todo o momento.

Os fiordes não eram muito visíveis, mas eram fascinantes mesmo assim!

E eu parava a todo o momento para me deslumbrar com o mistério da paisagem!

A chuva não parava e eu também não, no momento em que a minha moto marcava uma quilometragem única na sua vida! As capicuas sempre me chamam a atenção e uma filinha de 5 ficaria na minha história, certamente!

O clima de mistério em meu redor era fantástico!

Todos aqueles momentos valeram a pena e fizeram-me sentir menos culpada por ter dado uma volta desnecessária quando podia ter feito a travessia de barco!

Cada pormenor fazia valer a pena o frio e a chuva que eu estava a atravessar!

Não havia ninguém por ali, eu andaria todo o dia completamente só!

E essa solidão era fantástica, porque eu parava onde queria e quando queria sem perturbar ninguém. Era apenas eu, minha musica e o meu telemóvel, já que a maquina fotográfica seria impossível de usar com tanta chuva!

Aquelas imagens nunca irão desaparecer da minha memória!

Estar ali sozinha, em silêncio, a viver aquele momento de beleza, era a coisa mais bonita que me podia acontecer…

Eu e a minha Negrita no meio de nada…

… um nada que era um paraíso!

A todo o momento as placas avisavam o perigo da possível presença de Renas e Alces.

No momento eu ainda nem distinguia a diferença entres uns e outros. Tive de me ligar à net e investigar, percebi que os Alces eram os do desenho de cima e as Renas as do desenho de baixo. Isto é, as Renas apresentam hastes em forma de dedos encadeados, e os Alces apresentam hastes em forma de mãos, com as palmas abertas e os dedos na ponta.

E logo a seguir uma filinha de Renas atravessava placidamente a rua!

Acho que não estava preparada para as ver tão de perto, embora andasse bem atenta para as ver nos pastos em redor!

Dizem que as renas brancas são raras e que dá sorte encontrar uma! Seria um dia sorte aquele?

Então começou a hora do sofrimento!

A distância era longa, a temperatura não parava de baixar, a chuva intensificava a cada quilómetro, o nevoeiro foi baixando até se transformar numa cortina cerrada até ao chão e, quando parecia que as coisas não podiam piorar, veio o vento intenso!

E eu ia contornando as falésias a caminho de Nordkapp.

2 ou 3 carros me seguiam sem me tentarem sequer ultrapassar, como se eu os fosse a guiar. A verdade é que eu não via nada para além de uns 4 ou 5 metros na minha frente e cada curva da falésia só era visível para mim pelo desenho no ecrã do GPS, quando eu já estava perigosamente em cima dela.

Perfeito, aquele frio infernal, de uns 3 ou 4º, fazia-me contrair de tal maneira que todo o meu corpo doía e, a cada túnel que tinha de atravessar, tudo piorava porque a temperatura descia. A sensação que eu tinha era que, se tivesse uma situação de emergência, não conseguiria agir rapidamente, de tão frias e doridas que estavam as minhas mãos e braços!

E os quilómetros pareciam não evoluir, como se o meu destino se fosse afastando de mim. Eram 18.30h, nada tarde, mas parecia de noite quando o GPS murmurou ao meu ouvido “chegada ao destino à direita” e eu nem pensei mais.

Voltei à direita e parei.

Não havia forma de parar de tremer, mesmo descer da moto foi um pouco complicado. As pernas estavam rígidas da tensão em que eu vinha há tantos quilómetros, e até preencher os papeis no hostel foi difícil.

Felizmente o edifício estava bem aquecido e eu não me mexi mais. Não havia condições de voltar a sair para o frio depois de tantos quilómetros no meio dele. Eu estava em Honningsvåg, a cidade mais setentrional do mundo, a apenas uns 30 km do Cabo Norte, mas não iria lá naquele dia.

Tomei um banho quente e deitei-me naquele momento mesmo, não importava que hora fosse, eu tinha de me aquecer e parar de tremer e isso é muito mais fácil dentro de lençóis, com edredões de penas e aquecimento bem forte!

Lá fora era de dia, mas amanhã também seria dia!

O desenho do meu caminho no GPS ficara registado numa foto para a posteridade!

Amanhã iria até ao topo para depois começar a descer!

29. Escandinávia 2017 – de Bodø até Lyngen…

19 de agosto de 2017

Inicialmente a minha viagem “daria a volta” ali, eu iria explorar a zona de Lofoten e seguiria depois calmamente para Rovaniemi, na Finlândia, para descer o país sem pressas…

Mas então o meu moçoilo começou a questionar-me porque não ia até ao Cabo Norte estando ali tão perto! Não, eu não fazia questão de lá ir acima, nunca foi um sonho meu e o tão perto nem era tão perto assim, mas acabei por acrescentar 1.000 km ao meu caminho e ir até lá!

Essa decisão encurtou todo o meu tempo e Lofoten, que era uma das zonas da Noruega que sempre me atraíra e me fizera ir até ali, acabou por ficar de lado, na minha lista de desejos a realizar, pois naquele dia nem sequer seria possível fazer a travessia e, pelo menos, seguir para norte por lá…

Claro que me fui convencendo que aquele arquipélago não é coisa que se veja de passagem e que, de qualquer maneira, nem que houvesse ferry a funcionar, eu não teria tempo para explorar nem um pouco… e desenhei o meu percurso até Lyngen sem remorsos!

Deixei a minha casinha daquela noite sem ver os meus hospedeiros! Na noite anterior a chave esperava-me na caixa do correio e lá a deixei de novo antes de partir. Ao que me parecia, por ali ninguém tinha vontade de sair da cama!

Na verdade, eu acordei bastante cedo, mesmo tendo-me deitado tarde. É sempre assim, acho que só me custa levantar cedo em tempo de trabalhos!

E não havia sinais de vida em nenhum lado em redor!

Bodø estava tão solitária quanto o parque de campismo onde eu dormira, como se ninguém quisesse acordar naquele dia!

E a natureza em redor estava naquele ponto em que brisa alguma a perturba…

Percebi facilmente que demoraria uma eternidade a chegar ao meu destino naquele dia, as paisagens simplesmente não me deixavam seguir!

Cada quilómetro era um passo no paraíso que me obrigava a parar e a registar ou, pelo menos, fotografar um pouco mais a partir da minha moto em movimento.


Eu precisava de tanto tempo para parar em todo o lado e ficar!

As paisagens eram tão fascinantes quanto simples e relaxantes. Eu simplesmente parava e ficava a olhar em redor sentindo toda a paz que o ambiente emanava.

Os montes com neve estavam tão perto que parecia que as alcançaria sem subir muito!

Hipnotizante!

E via o mar de vez em quando! Eu só o distinguia pela imensidão e quando eu subia um pouco.


Eu teria de o atravessar em Skognes. Por ali não há outra alternativa para seguir para norte, ou passar no ferry ou dar uma volta enorme pela Suécia!

A paisagem ao longe era fascinante!

Havia mais motos a fazer a travessia, mas ninguém se aproximou de mim e, quando eu passava para ir ver a paisagem lá de cima, desviaram o olhar! Quando é assim eu também não falo para ninguém!

Honestamente as paisagens sempre me fascinam mais do que conversas sobre motos!

O ferry ia deslizando por entre as paisagens deslumbrantes, eu tinha quase vontade que a viagem nunca mais acabasse!

O mar parecia um lago. No ponto onde estávamos a atravessar todas as ilhas em redor faziam o mar se aquietar.

Lá de cima do nível superior do barco eu pude ver mais motos atrás dos carros. Havia um motociclista de cabelos brancos, com uma espécie de Can-Am, que tinha ar de um chefe índio.

Toda aquela gente de moto correria pelo ferry fora, assim que ele atracou, e seguiu em velocidade pela estrada fora, como se não houvesse toda aquela beleza para apreciar!

Quis acreditar que estavam familiarizados com a paisagem e por isso ela não era importante na sua viagem, ou seria uma perda enorme não prestar a menor atenção!

Porque tudo era tão lindo por ali!

Percorrer aquela estrada era como percorrer um postal ilustrado infinito e, só por isso, eu não me arrependia de ter continuado para norte!

Quantas vezes parei? Um milhão delas!

“Por vezes divaga-se sobre se a perfeição existe… claro que existe! Basta olhar para a Natureza, como ela se esculpe, se move e se aquieta, em momentos de pura beleza e isso é perfeição! E foi percorrendo momentos e enquadramentos de pura perfeição que eu viajei no verão passado…”

(in Passeando pela Vida – a Página)

Há momentos em que estar sozinha é a coisa melhor que me pode acontecer, porque o silencio é fundamental para que eu viva o que me rodeia em toda a plenitude.

Acho que nem o som da água se fazia sentir!

As pontes por ali são todas iguais e as novas, aparentemente, seguem a mesma estrutura! Pude ver uma em construção. São práticos os noruegueses, assim não têm preocupações com design, nem cálculos nem preços, é tudo mais ou menos a mesma coisa, sem sequer saem aberrações no meio da natureza!

Eu sei que as paisagens vistas daqui parecem todas semelhantes, mas não são e eu não consigo parar de as olhar e colocar mais uma foto e outra!

Então eu estava a chegar a Lyngen, para lá de um grande rasgo na terra, num ponto que chamam de Alpes nórdicos!

Tão bonitinhas as localidades por ali, embora não se relacionem os espaços como numa aldeia de cá.

As casas vão-se alinhando na berma da água, com pequenos ancoradouros de barquinhos miúdos.

A paisagem ao longo do enorme braço de água era linda e democrática: todas as casas a podiam ver, por serem alinhadas e não formarem mais estradas para alem da que eu estava a percorrer!

Quando cheguei ao meu destino havia uma réstia de sol sobre as montanhas, refletido nas nuvens, mas eu sabia que seria o ultimo que veria por algum tempo.

O mau tempo aproximava-se! A pousada de Juventude ficava bem na curva do imenso braço de mar e eu podia ver na minha frente toda aquela água, como se fosse um lago.

Estava bastante frio e eu pude perceber que o dia seguinte não seria fácil, com a chuva a aproximar-se e a temperatura a descer. Eu simplesmente não tirei o equipamento da moto enquanto precisei de vir cá fora!

Havia mais motociclistas instalados no hostel, conheci um casal que estava cheio de frio, mas não o veria mais, pois enfiaram-se no quarto para se aquecerem.

Naquela noite eu jantei bacalhau! Uma espécie de caldeirada de bacalhau em tomate, acompanhada de uma cerveja gelada. No menu pude ler a palavra “bacalao” com a tradução em inglês por baixo “stockfish”. Estava delicioso!

Amanhã, apesar do mau tempo e do frio eu subiria até ao cabo Norte!