Preciso de partir de novo!

Cada dia que passa, cada viagem que faço, reforço a sensação de que não pertenço aqui!

Tudo é miúdo e mesquinho, tudo é enfadonho e cansativo, quando temos o mundo no nosso horizonte e tudo nos impede de seguir o nosso destino!

E o paraíso parece tão distante apenas dois meses depois de ter voltado, tudo parece ainda mais distante a tantos meses de poder voltar a partir!

Estar só comigo, abrindo apenas um pouco o meu “canto”, de vez em quando, para pequenos conhecimentos e pequenas conversas com gente de outros “mundos” é fascinante! Seguir ao sabor do meu querer, para onde me apetecer, é o que conheço de mais parecido com o paraíso!

Quando me questiono sobre qual a finalidade da vida entendo que não pode ser apenas manter-me viva até chegar o meu dia! Tem de ser mais do que isso, ou não valerá a pena andar por cá, qual frango de aviário, a sobreviver até à execução!

Sair daqui, parar com tudo o que me cansa o que me desgasta, e partir!

Conduzir por esse mundo fora, ver e fotografar tudo o que vou encontrando, procurar viver…

Tenho de viver neste mundo, onde a estupidez prolifera, onde o trabalho não é reconhecido e onde estamos a chegar a momentos de não haver mais respeito… é duro adaptar-me ou acomodar-me a situações incomodas mas nada posso fazer… apenas esperar mais um pouco para voltar a partir!

Este Miguel Esteves Cardoso é demais!

«Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo – mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.

Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores.

Nos vintes, fica-se com a certeza.

Nos trintas, aprende-se a disfarçar.

Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se.

Nos cinquentas, começa-se a dar graças a Deus que seja assim.

Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez. Geralmente as três coisas.

Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade – que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando – tem vindo a revelar-se cada vez mais.

As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo. Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade. Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar. Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vão leva à escravatura vil.

Isto não é conversa de engate. Mas é a verdade. E é bonita. »

 

 

Miguel Esteves Cardoso

“O Norte” por Miguel Esteves Cardoso

‘Primeiro, as verdades.

O Norte é mais Português que Portugal.

As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.

O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

No Norte a comida é melhor.

O vinho é melhor.

O serviço é melhor.

Os preços são mais baixos.

Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia.

Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.

No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?

No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos.

Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.

Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade.

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho.

Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos  portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.

Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade.

Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens.

Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país.

Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.

Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

 Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o ‘O Norte’.

Defendem o ‘Norte’ em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.

O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego?

Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em  fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós  todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira  que têm de dizer ‘Portugal’ e ‘Portugueses’. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como ‘Norte’. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?’

Liberdade de Paul Éluard

 Nos meus cadernos de escola,
Sobre a carteira, nas árvores,
Sobre a neve, sobre a areia — escrevo o teu nome
Em toda a página lida,
Em toda a página em branco,
Sem papel, na pedra ou na cinza — escrevo o teu nome
Sobre as gravuras douradas,
Sobre as armas dos guerreiros,
Sobre a coroa dos reis — escrevo o teu nome
Na floresta e no deserto,
Sobre os ninhos, sobre as gestas,
Nos ecos da minha infãncia — escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites,
No pão branco das jornadas,
Nas estações de noivado — escrevo o teu nome
Nos fiapos de azul-celeste,
No tanque solar bolor,
No lago lua vibrante — escrevo o teu nome
Nos campos, nos horizontes,
Nas asas dos passarinhos,
Sobre os moinhos de sombras — escrevo o teu nome
Em cada sopro de aurora,
Sobre o mar, sobre os navios,
Na insensatez das montanhas — escrevo o teu nome
Nas nuvens soltas revoltas,
Na tormenta transpirada,
Na chuva insistente e boba — escrevo o teu nome
Sobre as formas cintilantes,
Nas campânulas de cores,
Por sobre a verdade física — escrevo o teu nome

Sobre as veredas despertas,
Nos caminhos desdobrados,
Sobre as praças transbordantes — escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende,
Na lâmpada que se apaga,
Nas casas cheias de gente — escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois,
O do espelho e o do meu quarto,
Na concha sem mim depois — escrevo o teu nome
No meu cão terno e guloso,
Mas sempre de orelha
em pé
E patas destrambelhadas — escrevo o teu nome
No trampolim da minha porta,
Nos objectos familiares,
Nas línguas do lume bento — escrevo o teu nome
Em toda a carne acordada,
Na fronte dos meus amigos,
Em cada mão que me afaga — escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas,
Sobre os lábios expectantes,
Muito acima do silêncio — escrevo o teu nome
Nos refúgios descobertos,
Nos maus faróis desmontados,
Nas paredes do meu tédio — escrevo o teu nome
Sobre a ausência do desejo,
Sobre a solidão desnudada,
Nos descaminhos da morte — escrevo o teu nome
No retorno da saúde,
No risco que se correu,
Na esperança sem lembrança — escrevo o teu nome
E, pelo poder de um nome,
Começo a viver de facto:
Nasci para te conhecer e te chamar LIBERDADE.