21. Passeando pelos Balcãs… – 4 países num dia… de Montenegro até à Grécia!

16 de agosto de 2013

E chegava o momento de seguir para um dos grandes destinos desta viagem!
Há sempre um ou dois destinos que me direcionam numa viagem, esses que ditam para que lado ir, e este era na Grécia, o que me faria atravessar 2 países para lá chegar! Por isso naquele dia eu faria quase 700 km por 4 países: Montenegro, Albânia, Macedónia e Grécia!

Embora tivesse uma longa distância para percorrer não me sentia nada preocupada nem pressionada! Há dias assim, em que o calor é mais aflitivo do que os quilómetros e aquele dia prometia ser quente de novo. Lembro-me que durante a noite molhei diversas vezes o meu lenço para limpar o rosto e o pôr sobre a cabeça, como se faz quando as pessoas têm febre, porque o calor era muito e eu sentia-me febril, mesmo com o ar condicionado ligado!

Começava a achar que nunca me livraria do sofrimento do calor e tratava mas era de me mentalizar para ele, como um tropa se prepara mentalmente para uma missão dura!

À hora que me levantei ainda apetecia andar por ali a passear, em redor do hostel, enquanto o pequeno-almoço era preparado!

O edifício é voltado para o rio, que fica do outro lado do caminho que é privado do hostel.

Constatei que andava a passear “pelo quarto de dormir” de uma série de caminhantes que dormiam ao relento, no relvado da berma do caminho do hostel! Constatei também que ali se dá guarida a todo o tipo de viajantes, entre mochileiros que dormiam ali na relva, caravanistas parqueados logo a seguir e gente como eu, muito mais comodista que preferi pagar 20€ e dormir duas noites numa cama de casal fofa, num quarto enorme, com televisão e ar condicionado!

E segui o curso do rio Moraca na direção do Skadarsko jezero, pois a fronteira com a Albânia fica lá pelo meio do lago!

Ao passear-me por ali ficava fascinada com o estado natural em que o rio se conserva, ninguém diria que estamos na capital de um país com uma paisagem destas!

E lá estava o lago Escútare ou Skadarsko jezero, o maior dos Balcãs, que é alimentado pelas águas rio Moraca e desagua no mar Adriático através de um outro rio.

A ruínha que escolhi para ir até ele era, no mínimo, original! Irregular, cheia de altos e baixos, areias e cascalho, de quando em quando, mas cheia de encanto também!

As perspetivas que ia tendo do lago eram encantadoras àquela hora da manhã, ainda com as brumas matinais a encher tudo de encanto!

A estrada nacional parecia uma autoestrada em comparação com a estradinha ziguezagueante que eu fizera!

Cheguei à fronteira da Albânia já a circular num autêntico inferno! O termómetro da moto não deixava de piscar nos 50º, o que queria dizer que não conseguia contar mais do que isso!
Eu já levava o lenço enfiado no vão do vidro para poder limpar a cara, no arranca e pára para passar a fronteira.

E o lago continua pela Albânia!

O lixo pelo chão começa logo ali, a 50 metros da fronteira, veja-se quando parei para ler o mapa do país na berma da estrada!

A estrada parecia uma reta sem fim com construções isoladas, muitas em mau estado e uma série de bombas de gasolina abandonadas, até chegar a uma cidade… uma população… um lugar, sei lá! Sei que era cheio de lixo, confusão…

A fazer lembrar uma cidade marroquina, com burros estacionadas na berma da estrada e tudo!
Nem parei, o calor era infernal, o ambiente cheio de pó e trânsito, de tal maneira que nem parei e poucas fotos tirei.

Segui para Shkodër que, apesar de ter uma “entrada” igualmente desordenada e desarranjada, tem um centro bem fofinho, perto da mesquita!

Eu estava a precisar muito de beber algo fresco e aquele ambiente foi o meu oásis!

Oh, quase me deixei desfalecer numa esplanada tão confortável, agarrada a uma enorme copada de sumo de laranja fresquíssimo!

A mesquita fica num jardim entre a zona trapalhona e a zona turística!

Foi esta cidade que deu o nome ao Lago Escútare que também é
“Skadar” “Shkodër” “Shkodra” dependendo da língua em que é pronunciado!

E segui pelos montes com o rio como paisagem!

Uma pena o lixo por todos os lados, mesmo quando não há casas por perto, ele está lá! O que destoa profundamente com a beleza das paisagens!

Parece que por aquelas terras a água tem sempre cores extraordinárias e quase irreais!

A minha ideia não era propriamente “catar” o país e sim ver como ele é, como são as paisagens, as pessoas, o ambiente! Porque se trata de um dos países mais pobres da Europa, onde grande parte da população é camponesa, e não existe muita informação sobre ele!

Encontrei ciganos, que me acenaram adeus quando parei para fotografar os seus cavalos a pastar selados, como se fossem partir a qualquer momento!

E recantos decrépitos, abandonados e cheios de lixo também…

Na berma das estradas viam-se tendinhas montadas com telhado de folhas de milho, onde miúdos assavam massaroca para vender aos transeuntes e, sobretudo, aos turistas.

Por aquela altura eu já estava morta de sede há umas horas, mas não havia nada onde comprar o que quer que fosse. Até que vi um larguinho na berma da estrada com uma fonte, onde uma série de pessoas lavava as mãos. Não resisti, dei meia volta e fui até lá, peguei na minha garrafa de água, há muito vazia e fui enche-la na fonte. Aquelas mulheres ficaram todas a olhar para mim, lavavam as mãos e a cara com sabonete que estava pousado na berma da fonte, que tinha a forma de dois golfinhos entrelaçados.
Quando olhei para a água dentro da garrafa, que desilusão, era turba!

Voltei-me para as senhoras e perguntei mais por gestos do que por palavras, se aquela água não se podia beber!
Responderam-me todas em coro “no, no, Bar, Bar!” apontando para o bar que ficava logo ali ao lado. Bolas, eu não tinha lekë, como iria pagar a água?

Fui até à moto, tratar de tirar o capacete e buscar euros a ver se conseguia comprar água! Estava eu nessa operação quando uma senhora vem do bar com uma garrafa de água gelada e ma oferece! Fiquei espantada! Fiz o gesto de quem pergunta quanto é, ela respondeu-me com um gesto amplo, com as mãos abertas, significando “nada”.

As pessoas em redor olhavam com satisfação, pelo menos sorriam para mim e para ela! Abri ali mesmo a garrafa e bebi quase metade, a água era deliciosa!

Agradeci mais uma vez, disse adeus àquelas pessoas tão simpáticas e segui o meu caminho tão satisfeita e enternecida “há gente tão boa por este mundo!”

As ruas que fiz eram pavimentadas mas parecia que tinham aluído, olhava-se de repente e não havia buraco algum, mas ao passar era necessário contornar pedaços literalmente engelhados de alcatrão!

Tal como na Bósnia vêm-se pequenos altares na berma das estradas, em honra de mortos em acidentes de viação!

Já andava atenta às estações de serviço há um bom pedaço, tentando encontrar alguma com o sinal de cartão de crédito, quando encontrei uma mandei abastecer e… quando fui pagar não aceitava cartão nenhum! Oh raios partam o azar! Claro que acabei por pagar em euros ou não sei como seria! O homem deu-me o troco em lekë, e eu que estava a sair do país fiquei com um nota para gastar!

Mais uns quantos quilómetros e estava a chegar à fronteira com a Macedónia. Bem, agora que tinha dinheiro fui mas é beber qualquer coisa antes de sair do país.

Pedi cerveja e água e ainda bem que não pedi mais nada porque um senhor que estava lá sentado numa mesa pagou tudo o que pedi! Puxa, aqueles albaneses são todos boas pessoas? Fui-me sentar numa mesa enquanto toda a gente olhava para mim com uma curiosidade simpática, já que sorriam para mim!

Ao despedir-me disse adeus a toda a gente e recebi um caloroso adeus com direito a acenos e tudo, enquanto alguns vinham até à porta ver-me partir!

Tenho de voltar à Albânia!

Logo a seguir à fronteira acaba o lixo por todos os lados!

A Macedónia foi também um país que apenas atravessei, estava demasiado calor para eu parar aqui e ali, mas deu para ver que é um país lindo que terei que visitar mais demoradamente um dia que volte àqueles lados.

Desta vez parei apenas em Ohrid, com o seu lago que prometia alguma frescura no inferno de calor que eu vinha a atravessar há horas!

Ohrid é a cidade maior na borda do lago com o seu nome. Ohrid, que em português é Ácrida, é uma cidade turística e simpática que só consegui visitar depois de parar junto ao lago e molhar os pés e as mãos e quase enfiar a cabeça dentro dele! Por momentos até a visão da água me pareceu quente, por momentos pensei que não seria capaz de me afastar dali para seguir para a Grécia. Fiquei ajoelhada na berma do cais, como os islâmicos fazem quando rezam, as mãos na água e a cabeça mais baixa que o corpo. A tensão arterial equilibrou e só então fui ver o povo, passear pelas ruas e beber algo bem fresco.

A cidade estava cheia de gente que se passeava com todo aquele calor! Nos jardins tem estátuas de tipos cabeçudos com ar de filósofos. Não consegui perceber quem eram porque a escrita deles é inteligível! Nem o abecedário é parecido com o nosso!

As pessoas comiam gelados sofregamente, eu limitava-me a carregar comigo uma garrafa de água… tenho sempre a sensação de que o gelado por ser doce me deixará ainda mais cheia de cede!

Achei curiosos os altares deles, ortodoxos, cheios de imagens e velinhas!

Quando voltei ao lago estava cheio de ondulação! Be diferente de quando eu chegara!

E voltei a enfiar os pés na água…

e deitei-me um pouco no jardim à sombra, com as pernas das calças todas molhadas e com uma enorme vontade de não me mexer nem mais um passo…

Mas o tempo iria começar a arrefecer um pouco e, animada por essa ideia, lá arranjei coragem para seguir o meu caminho até Trikala na Grécia, que ficava ainda a uma infinidade de quilómetros!

Se eu fico preocupada quando vejo uma vaca a olhar fixamente para mim, imagine-se o que sinto quando vejo uma manada a correr na minha direção!

A minha aventura com as vacas gregas apenas estava a começar! Elas lá passaram a trote por mim, o que não me impediu de parar e pôr o descanso à moto! Nunca confiar em bichos que são maiores que eu e a minha motita!

Cheguei tarde a Trikala mas, só lá é que entendi o quanto era tarde! É que eu não tinha reparado que a hora da Grécia é igual à de Istambul, o que quer dizer 2 horas mais tarde que aqui, e eu pensava que era só uma hora a mais!

Fui comer a um restaurante logo acima do hostel e fui tão bem recebida e servida que iria lá voltar nas noites seguintes.

Fui dormir, pressentindo os montes gigantescos em torno de mim. de repente a vontade que a manhã chegasse rápido era muita, mesmo sabendo que iria sofrer de novo com o calor, eu queria muito ver o que me envolvia naquele que foi um dos destinos impulsionadores desta viagem!

E foi o fim do 18º dia de viagem!

20. Passeando pelos Balcãs… – Budva, Sveti Stefan e o Canon do Moraca!

15 de agosto de 2013

Eu estava alojada junto ao Canon do Moraca, aquele rio fantástico de águas turquesa que fura por entre penhascos! Mas a noite foi de tempestade, eu pude ouvir o vento que soprava muito forte e a chuva a bater-me na janela… uma pena, porque eu fora até Podgorica para visitar a zona e o rio, e o tempo parecia não estar para ajudar, nem sequer me apetecia sair da cama para ir para aquela luta! Bolas…

Mas saí! Esperava-me um pequeno-almoço muito variado e interessante “bem, se não passear, pelo menos como!”

O temporal estava precisamente a montante do rio, onde eu queria ir! Fiquei ali a olhar para o céu e a ver para que lado soprava o vento, pois levaria o temporal consigo, já que era bem forte. E sim, levava as nuvens negras para o lado onde já estava negro e que, por acaso, era para onde eu queria ir!

No problem, mudança de planos, peguei na motita, tirei-lhe a top-case e segui para o lado inverso!

Uma pena o céu estar cinzento, Podgorica ficou com um ar mais triste por causa disso!

Podgorica, a capital do Montenegro, já se chamou Titogrado em honra do marechal Josip Broz Tito, o tal que manteve a Jugoslávia unida, contra tudo e contra todos, governando “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido”.

A cidade é literalmente fendida pelo rio. Curioso o estado natural em que ele se conserva, com as bermas em escarpas terrosas e pedregosas!

E lá fui seguindo para a costa, onde o tempo não estava nenhuma beleza, mas pelo menos não chovia!

Se aquele céu estivesse azul, a paisagem seria um deslumbramento, com Budva cheia de gente e movimento lá em baixo!

Estava bastante calor, o tempo encoberto apenas acrescentou humidade ao ar!

A Budvanska rivijera é muito procurada pelas praias, restaurante, hotéis e vidinha noturna! Eu pela vida noturna não me esforço muito mas pela praia, estava mesmo a apetecer!

Por isso fui ver se arranjava um pedaço de areia para me pôr! Para minha surpresa fui muito bem recebida por quem estava, e uma senhora velhota indicou-me a sua “espreguiçadeira” para eu me estender! Depois entendi que ela tinha duas reservadas como suas e como o marido andava a passear junto à água, ela ofereceu-me o seu lugar para eu me estender! Tão simpática!

Mesmo atrás fica uma fileira de restaurantes, cafés e tendas de todas as tretas!
Passei ali boa parte do meu dia, em conversa complicada com as pessoas que falavam pouco inglês, mas que se faziam entender! Um senhor aproximou-se cheio de curiosidade e ao saber que eu era portuguesa exclamou “Big Figo and Eusébio! Ronaldo is for girls!”

Depois de um tempo simpático e um almoço mais universal que regional voltei para a minha motita. Estava acompanhada. As pessoas ficaram atrapalhadas quando perceberam que ela era minha! Fiz-lhes sinal de que não havia problema e lá tiraram as fotos que quiseram com a criancinha e a moto, agradecendo-me muito!

Logo ali à frente, apenas a 6 ou 7 km de Budva, fica Sveti Stefan, uma ilhota ligada a terra por um istmo, que é um resort que vale a pena ver, mesmo de longe! Fui até lá!

Na sua origem foi uma fortificação do séc. XV, construída para defender a linha costeira, posteriormente uma aldeia que foi completamente adquirida pelo major Tito, que a transformou num resort de luxo.

Tentei aproximar-me. Lá em baixo à um “torniquete” com um guardião que o abre a quem quer!

Tentei entrar, estava uma motinha pequena estacionada num parque sem nada mais do que ela. O homem não me deixou ficar, disse-me que não havia lugar!!

Fiquei a olhar para ele, com ar de quem não vai reclamar mas o acha anormal de todo!

Voltei para cima, pela ruela onde é proibido estacionar! Raios, eu não iria deixar a moto a quilómetros para caminhar até ali! Parei junto a um jovem policia que vira a meio da subida. Ele estava do outro lado da rua a mandar os carros voltarem para cima, chamei-o sem desmontar da minha moto.

Perguntei-lhe onde podia parar a moto por uns minutos enquanto ia até à ilha, “no parque lá em baixo!” – respondeu ele como se fosse óbvio. “o homem diz que não há lugar para a minha moto lá!”- expliquei eu. Ele fez um gesto com o dedo como se aparafusasse a cabeça, do tipo, o homem é mas é tolo e mandou-me pô-la junto da dele e, enquanto eu a encostava bem à berma da estrada ele aproximou-se com outro rapaz. Perguntou-me de onde eu vinha.

Quando me fazem esta pergunta numa viagem nunca sei muito bem o que querem saber!

De onde venho quando? Agora, venho de Budva; hoje venho de Podogrica; neste ponto da viagem venho da Croácia; de origem, venho de Portugal! Complicado de responder, não é?

Ficou impressionado por eu vir de tão longe e, ao perceber que eu não tinha vindo de ferry ficou mudo de espanto! Mostrei-lhe o mapa total da viagem, percebeu então que ainda tinha muita estrada para fazer!

Adorou a minha moto, propôs trocar a minha pela sua, que eu era muito pequena e magrinha para ela e ele era muito maior e mais forte do que eu!

Lá o deixei mais o amigo a apreciar a minha Ninfa e fui passear pela zona.

Acho sempre piada quando encontro palavras que parecem nossas!

As praias ali têm a areia meio rosada que lhes dá um ar quase artificial!

Bolas, mas eu queria era ir até à ilha dar uma voltinha e ver como aquilo é por dentro! E não se pode! É só para hóspedes!

Fiquei meio desiludida! Por outro lado que se lixe, não teria muita piada ir passear para o meio de uma série de hotéis com gente chique… digo eu, que não pude lá ir!

Segue-se pela beira da praia, a do lado direito estava vazia, e vai-se tendo perspetivas interessantes da ilha e da praia.

Mais à frente estava montes de gente quase a fazer fila para fotografar ou ser fotografado com a ilha como cenário!
Coisa de pobre que não pode entrar como eu, mas pode fazer de conta!

E, como eu também sou pobre, aproveitei a deixa de me pedirem para tirar fotos para ser fotografada também!

Foi ao ver a foto que me apercebi como o sol me tinha marcado tanto dos últimos dias! A marca da fita da máquina fotográfica era tão forte no meu pescoço e a parte de baixo do rosto estava visivelmente mais escura que a de cima! Mas eu estava feliz, e isso é que me importava mesmo!

Quando voltei de novo à minha moto o policia veio ter comigo, pensei que me iria dizer algo porque eu demorara bem mais do que os 10, minutos que prometera! Chegou perto de mim e estendeu-me a mão com uma chave, a chave da sua scooter: “Então, é neste momento que trocamos de moto?” – perguntou com um grande sorriso.

“Não poderia trocar, tenho uma viagem para continuar!” – respondi.
“Com a minha scooter não teria qualquer problema, seguramente ninguém te incomodaria até chegares a casa!”

Seguramente que não! Ela tinha “Policija” escrito na frente e o pirilampo azul atrás! eheheh

Ainda fiquei ali um bocado na conversa e na risota com ele e parti dizendo, como sempre faço, “Bye and, your country is very, very beautiful!” porque, além de ser verdade, as pessoas merecem sabe-lo!

Na costa os hotéis continuam e a zona de passagem é meio privada. Fiz uma foto-caricatura de nós as duas, eu e a Ninfa, num dos muitos espelhos de auxílio à condução que há em todos os cruzamentos por ali!

Parei para ver a coisa de longe e segui pela costa para sul, para seguir de volta para Podgorica.

Mais abaixo entra-se em ângulo reto em relação à costa e atravessa-se uma ponta do lago Escútare ou Skadarsko jezero, que vira no dia anterior de longe. Infelizmente a linha do comboio não permite aproximar dele naquele ponto!

O calor voltava a estar meio infernal e eu só pensava em abastecer-me de água fresca!

Passei em Podgorica, no meio de uma planície que parece nunca mais acabar, rodeada de ciprestes

Há infinidades de bancadas de venda de fruta pela berma da estrada, mesmo no centro da cidade! Repuxos improvisados de mangueiras que deitam água sobre as melancias, garantem que a fruta não estará quente se a compramos! Os figos são uma das minhas frutas preferidas e não resisti a experimenta-los: eram simplesmente D E L I C I O S O S!

E logo a seguir ficava o meu hostel e começava o deslumbramento do Canon do Moraca!

São quilómetros de frescura e beleza que acompanhei com pausas refrescantes e figos doces e suculentos!

Há momentos em que parece que a estrada é apenas um rasgão no rochedo onde nada cabe, mas na realidade a estrada é larga e passa por ela todo o tipo de veiculo, até ao maior camião!

Um carro com 5 jovens caíra ali havia pouco tempo, naquele ponto da estrada, estava lá montado todo um altar, com flores e as fotos deles! Eu tinha parado para ver o rio lá em baixo e fiquei chocada ao imaginar alguém cair ali de carro!

Preparava-me para seguir quando apareceu um tipo sei lá de onde, pois aquilo é longe de tudo, não há sequer uma cabana perto. Dizia ele para eu lhe dar a máquina fotográfica que ele me tirava uma foto a conduzir na rua! Apenas fez um gesto na direção da maquina que eu trazia pendurada ao peito e eu passei-me, fiz um ar de má e atirei-lhe com um “What??” tão convincente e autoritário que o homem desapareceu na natureza!

Se tinha má intensão era burro o suficiente para não perceber que bastava dar-me um empurrão e eu cairia mais a moto, pois estava em posição bem instável! Mas o meu ar deve ser mais intimidatório do que eu podia imaginar! Eheheh

E passeei o resto da minha tarde por aquelas paisagens, voltando para o hostel onde me esperava um belo e baratinho jantar. Os hotéis e hostels têm visível prazer em assinalar que são “biker friendly”

Naquela noite fiz serão no bar, um pequeno pavilhão construído em madeira, onde a net era forte e me permitia fazer uma série de pesquisas. O patrão, que estava numa mesa perto com um grupo de amigos, achou-me muita graça e ofereceu-me toda a cerveja que eu quis beber! Ele falava pouco inglês, mas o filho foi traduzindo o que ele me queria dizer, tinha-me visto em Budva e ficara espantado com o conjunto que fazíamos, a moto e eu e, sem imaginar que eu estava hospedada no seu hostel! Quando me viu chegar ali ficou todo vaidoso, até tirou fotos à moto para mostrar aos amigos! Foi muito engraçado o serão!

E foi o fim do meu 17º dia de viagem!

19. Passeando pelos Balcãs… – De Dubrovnik até Kotor…

14 de agosto de 2013

Este seria o dia de explorar um pouco de um novo país na minha história: Montenegro!

Mas antes de seguir para qualquer lado fui visitar Dubrovnik de dia! O mesmo lugar de estacionamento da noite anterior estava à minha espera, foi só parar e seguir caminhando!

Gostei particularmente das ruínhas que descem quase a pique, com escadinhas e lampiões em todo o seu cumprimento, até ao centro da cidade, até à Stradun.

Apetece mesmo capta-las em ambos os sentidos a todo o momento!

A igreja de São Brás estava de novo aberta… ou estaria ainda aberta?
Esta igreja barroca, do séc. XVIII, é muito importante e muito visitada, pois é dedicada ao padroeiro da cidade!

O porto estava tão bonito àquela hora da manhã!

Pensar que a cidade foi profundamente afetada pelo conflito da separação da ex-Jugoslávia! Foi cercada e bombardeada pelo exército da Sérvia & Montenegro, uma calamidade que foi muito bem recuperada e apagadas as suas feridas!

Na realidade os montenegrinos não queriam que a cidade ficasse com a Croácia, já que a consideravam historicamente sua, mesmo sendo a sua população maioritariamente croata e nem sequer ter muitos montenegrinos residentes! Coisa de sonhos de impérios grandiosos, mesmo que à força, e contra tudo e contra todos!

Estava muito calor já e eu não resisti aos meus desejos de momento e, tirando as botas, sentei-me num degrau do cais com os pés dentro da água transparente e fresquinha! Os turistas que se amontoavam para entrar nos barcos que fazem visitas na zona, ficaram a olhar para mim, com vontade de fazer o mesmo. Um velhote ainda fez menção de tirar os sapatos mas o piloto do barco veio busca-lo para partirem! Eheheh

Depois foi passear por ali, apreciando pormenores de uma cidade pavimentada e construída em pedra calcárica!

Como será caminhar por ali em tempo de chuva? Não será demasiado escorregadio?

A torre do relógio, medieval, parecia iluminada pelos céus!

E dava gosto apreciar a longa avenida sem os magotes de turista do dia anterior!

As ruínhas laterais pareciam chinocas de tanto lampião por ali acima!

As perspetivas lá de cima da estrada são fantásticas! Ficou marcada uma nova visita mas, da próxima vez, para demorar-me por ali, ficar, dormir e visitar em pormenor!

E experimentar aquelas praias de águas transparentes e deslumbrantes!

Este era o 3º mar que eu visitava naquela viagem, embora fossem todos Mediterrâneo, para além dele passara pelo Mar Lígure, na ribiera italiana, e agora no mar Adriático! Ao todo, certamente fiz 7 mares, digo eu!

Dubrovnik ficava para trás à medida que eu me aproximava de Montenegro.

A entrada em Montenegro foi rodeada por ciprestes! Será que os marinheiros croatas foram plantando os tais 100 ciprestes por cada um, até Montenegro?

Não houve qualquer dificuldade em passar a fronteira, apenas havia fila! Os habitantes de ambos os países cruzam a fronteira facilmente, mas havia também muitos alemães e italianos.

Então cheguei a um ferry! Eu sabia que havia caminho por terra mas apetecia-me tanto atravessar o mar! Dava a sensação que seria tão fresco andar por cima da água que eu fui perguntar a um dos policias controladores do trafego para o cais, como devia fazer para atravessar sem dinheiro!

“Não tens nenhum dinheiro?” – perguntou ele.

“Não tenho dinheiro do vosso!” – respondi

“Então que dinheiro tens?” – ele punha as mãos nas ancas e olhava para mim à espera que eu dissesse uma moeda qualquer esquisita, afinal eu vinha a Croácia e eles conhecem a sua moeda!

“Eu tenho euros!” – enfiei as mãos nos bolsos e mostrei 20€

“Mas aqui é euros!!” – exclamou ele espantado.

Bolas senti-me mesmo burra! Então eu fiz o trabalho de casa e não me lembrava mais que Montenegro, embora não faça parte da zona euro adotou a nossa moeda!

Siga para bingo e a minha motita fez sensação entre carros e bicicletas. Uma senhora de alguma idade veio pedir-me para tirar me uma foto junto da moto, depois a nós as duas mais a moto. Quando dei por mim toda a gente no barco olhava para mim e para a moto!

A baía de Kotor é um espanto que eu queria apreciar de todos os ângulos!

Kotor é encantadora, com um porto natural e toda uma baia em seu redor, como uma imensa piscina de tão calmas e belas são as suas águas!

Fui visitar a vila que é muralhada e é património da Humanidade!

Na realidade parece uma terrinha de brincar, com ruínhas estreitas e praças encantadoras que parecem ter sido decoradas para turista ver!

A igreja de São Lucas, fica ali no meio e, curiosamente, já foi de culto compartilhado entre ortodoxos e católicos, embora atualmente só se realizem ali celebrações ortodoxas.

Logo à frente fica a Igreja Ortodoxa Servia de São Nicolau.

Almocei ali, ao lado da catedral, umas lulas grelhadas deliciosas, com cerveja montenegrina 5 estrelas!

Para depois continuar as minhas explorações dos recantos e ruelas que eu tanto aprecio!

Achei um piadão à corda de estender a roupa, com roupa gigante pendurada com molas igualmente gigantes, na torre sineira da igreja de Santa Maria!

E ali ao lado fica uma das portas da cidadela, a Porta do Rio, ou Porta do Norte, do séc. XVI, com o rio a parecer falso de tão intensa que é a sua cor!

Passei por uma “estrela” de gato que posava placidamente para uma série de turistas que se aplicavam a sério para lhe apanhar o melhor ângulo!

A catedral de São Trifon é um edifício românico do séc. XII muito curioso! As suas torres são diferentes porque ela foi muito danificada por um terramoto no séc. XVII e, não havendo dinheiro para a restaurar completamente, foi feito o possível. Mais tarde voltou a passar por um outro terramoto, nos anos 70 do século passado, mas desta vez foi recuperada tal e qual era!

Por dentro ela é em tons de vermelho e salmão, em efeitos muito curiosos!

Pode-se visitar o tesouro que fica no andar de cima com acesso à varanda, de onde se vê toda a praça!

E fui deambulando por ruelas onde os turistas não se metiam, gosto de ver tudo o que puder sozinha!

E voltei à Trg od Oruzia, a Praça das Armas onde tudo se passa e de onde muita gente parecia não querer sair!

Aquele relógio tem 4 séculos!

E fui passear pela baía…

A Baia de Kotor é um deslumbramento em todos os ângulos que a observemos! Chamam-lhe Bocas de Cattaro ou Bocas de Kotor, ou ainda a Baía de Cátaro. Curioso como há nomes por ali que se assemelham aos daqui! Claro que me lembrei logo do país dos Cátaros, no sul de França! Será que tem algo a ver? Certamente que não, mas não deixa de ser curiosa a semelhança.

Ao contrario das paisagens que estamos habituados por aqui, em que depois do mar vem a praia, onde ele rebenta estendendo-se pela areia, ali há o mar e os fiordes por vezes profundamente vertiginosos, criando paisagens de extraordinária beleza!

Passeei-me em seu redor deslumbrando-me a todo o momento com o que os meus olhos viam, segura de que fotografia alguma conseguiria captar toda a aquela beleza. Montenegro, onde os montes são realmente muitos, mas de negro nada têm!

Simplesmente eu não conseguia seguir caminho! Parava a cada passo para ver e para me deslumbrar!

Depois lá me embrenhei pelo Parque Natural de Lovcen, por uma ruínha única que, embora estreitinha, era de 2 sentidos e era uma estrada nacional!

Por ali encontram-se os mais variados memoriais ao mortos da II Guerra, mas nada que se compare com os grandes monumentos que já visitara. Apenas lembretes, quando comparados com os outros, monumentais!

A partir de Cetinje comecei a subir para o Lovcen, onde fica o Mausoléu de Njegoš, o Shakespeare de Montenegro!

À medida que se vai subindo vai-se tendo uma perspetiva cada vez mais espantosa de toda a área do parque!

E pimba, o mausoléu estava em obras! Lá tive eu e muita gente de deixar a moto cá em baixo e subir o resto a pé!

Na realidade se não estivesse em obras o percurso também seria feito a pé, a única diferença é que subira por escadas civilizadas e não por escadas escavadas na rocha e cheias de cascalho solto!

Ao chegar ao mausoléu propriamente dito cruzei com um casal de motards, ambos carecas! Não posso negar que é prático usar o cabelo rapado… mas a mulher era tão feia que assustava!

E lá estava o Njegoš, todo coberto de pó!
O homem que foi politico, filosofo e poeta, entre tanta coisa que deu a Montenegro, como a secularização do estado, não é por acaso que ainda hoje tem a importância que tem!

Ele nasceu perto de Cetinje, numa pequena aldeia e quis ser sepultado lá, mas com a destruição do templo onde esteve, acabaram por lhe construir um mausoléu no “topo do mundo” o que foi controverso já que era sua vontade permanecer num local modesto!

Na verdade a construção é magnífica e fica num ponto incrivelmente espantoso!

Vale a pena subir ali só pela paisagem e pela serenidade fresca que ela nos transmite!

Cetinje lá ao fundo, aquela que ainda hoje é recordada como a capital do reino de Montenegro no início do século passado, entre 1910 e 1918.

Claro que não vim embora sem me despedir do homem, tinha de ser, a passagem passa por ele! Lá continuava coberto de pó, esculpido num bloco único de granito verde-escuro de quase quatro metros de altura e com 28 toneladas de peso! Garantido que nunca sairá dali!

O senhor da entrada ofereceu-se para me tirar uma foto, para me compensar, já que eu reclamei ter de pagar bilhete para ver o homem todo porco, e tudo cheio de pó! Eheheh

Na descida pude ver melhor o caminho e a paisagem com Cetinje sempre no horizonte!

Muita gente faz montinhos de pedrinhas por ali, fica muito giro e pedrinhas é o que não falta!

E fiz eu mesma o meu montinho de pedras! Ficou giro!

O caminho faz-se por cima da gruta onde fica a escadaria que leva ao mausoléu, enquanto a estão a renovar e não se pode passar. Não entendi muito bem porquê, pois se o mausoléu foi inaugurado nos anos 70, precisamente em 1974, já estava assim estragada a escadaria em pedra? Será que as pessoas que lá foram todos estes anos tinham cascos em vez de pés?

O que vale é que para baixo todos os santos ajudam!

Cá de baixo, de uma curva no caminho, podia-se ver a entrada da escadaria, como um buraco no monte!

E mais á frente o mausoléu parece uma pedrinha lá em cima!

E segui para Podgorica, avistando ao longe o lago Escútare ou Skadarsko jezero, surrealista!

E foi o fim do 16º dia de viagem!

18. Passeando pelos Balcãs… – Miss Sarajevo…

13 de agosto de 2013

Eu não conseguiria evitar de ir a Sarajevo…

Que me importava a praia e o mar e os sítios onde toda a gente vai? Iria estar calor, iria andar pelo interior e até pela montanha, mas eu iria lá!

Logo a seguir à saída da cidade de Dubrovnik fica a fronteira com a Bósnia e começa a paisagem serena e verde com terrinhas pequenas a pontear o meu caminho.

Não foi complicada a passagem da fronteira, apenas mostrar o passaporte e seguir viagem! O mar podia-se ver ainda, lá da fronteira!

Mais à frente fica Trebinje, a cidade mais a sul da Bósnia e, quem vem de Dubrovnik, passa por ela, estendida no seu imenso vale e atravessada pelo Rio Trebišnjica.

Não a visitei a pormenor, tinha outra grande cidade em mente, mas terei de voltar ali para vê-la porque sei que é uma belíssima cidade. Desta vez parei na berma da estrada e apreciei-a de longe, no ponto em que a estrada iria voltar-se para o outro lado do monte e eu deixaria de a ver. Por isso parei e gravei aquela paisagem na memória, como quem pede desculpa por seguir sem parar e dar a devida atenção a tão bonito recanto de um país.

Prometi “eu voltarei para te ver!” e segui o meu caminho…

Para mim é sempre reconfortante encontrar pastores num país estranho, transmite-me a sensação de gente que tem do que viver, gente que vive como a minha gente!

Contornei o Bilecko jezero, um lago artificial enorme, o segundo maior lago dos Balcãs, encantador àquela hora da manhã! E foi ali que vi o que devia ser o único incêndio de toda esta viagem, e nem tenho a certeza se não seria apenas uma fogueira, pois a coluna de fogo era pequena e, ao fim da tarde, quando eu regressava, não existia mais!

Por baixo daquele lago existe uma vila evacuada e inundada aquando da sua construção, como acontece em tantos lagos deste mundo. Curioso o efeito refrescante que a visão da água teve sobre mim num momento encantador, mas de calor já muito intenso!

O Parque Nacional de Sutjeska veio a seguir, tornando o caminho muito bonito.

Eu esperava encontrar o memorial que me tinha enchido os olhos, de entre os muitos memoriais jugoslavos, hoje chamados de Monumentos Esquecidos da Ex-Jugoslávia e, depois de caminhos lindíssimos que atravessam o Parque Nacional de Sutjeska, ele estava ali, imponente no topo de uma colina arredondada, o Tjentište Memorial, no vale dos heróis!

O monumento é tão grandioso como surrealista naquela envolvência natural, rodeada de montanha e verde.

Dois blocos de cimento armado de dimensões descomunais que desafiam os nossos sentidos…

Ele relembra a Batalha do Sutjeska, em 1943, que pretendeu capturar Josip Broz Tito, o mesmo que mandou construir este e outros memoriais, uns anos após o fim da II Grande Guerra.

Por trás dele uma série de degraus levam a um pequeno recinto onde são lembrados os batalhões que ali lutaram e pereceram…

Totalizando cerca de 300 degraus desde a base da colina e o início do percurso…

Lá de cima tem-se uma perspetiva deslumbrante do monumento!

Hoje ele está ali, como um elefante branco que faz as pessoas pararem ao avistarem-no da estrada, mas falta-lhe o protagonismo que mereceu durante muitos anos, enquanto a Jugoslávia ainda era um país e as pessoas buscavam ali essa força nacionalista que compensaria, talvez, a falta de determinação de cada um dos seus verdadeiros países!

Estava lá um carro e eu pensei em levar até lá a minha moto, mas acabei por não o fazer, o caminho era um carreiro serpenteante e não valia a pena dar tão grande volta. O carro serviu para fazer de escala e tornar mais fácil a perceção da dimensão do monumento!

E o altar, visto de cima, parece um altar druida, no meio da natureza!

A imagem do local prende a atenção, custava-me ir embora!

Sarajevo fica logo a seguir!

Sarajevo era aquela cidade que eu queria visitar desde a guerra que a cercou, sitiou e destruiu, há 17 anos atrás. Uma cidade cheia de história onde se cruzam culturas, hábitos, costumes e religiões. A cidade é praticamente plana, no vale com o seu nome, rodeado de colinas, mas tem uma colina que a domina, ali, onde fica o Cemitério Alifakovac…

Visitar aquele cemitério, onde tanta gente foi sepultada após a guerra, em que morreram mais de 12.000 pessoas, recolhidas de todos os sítios onde haviam sido enterradas às pressas durante o cerco… teve um efeito muito profundo!

É tudo tão recente, todas aquelas sepulturas são de gente que morreu entre 1992 e 1996, que choca muito mais que cemitérios das duas guerras mundiais! Como se afinal tudo possa voltar a acontecer…

A cidade renascida ao fundo…

“Descobrir Sarajevo foi um encanto tão desejado quanto inesperado! A cidade que se recompôs tão rapidamente de imensos e graves ferimentos, está de pé, cheia de contrastes e belezas diferentes! Edifícios modernos coexistem com ruelas estreitinhas ladeadas de lojas e barezinhos, cujos toldos quase se tocam de um lado para o outro do caminho. As cicatrizes da guerra e do longo cerco à cidade ainda são visíveis, em furos cimentados pelas fachadas dos edifícios mais altos, mas a zona pitoresca está perfeita e encantadora. Todos os receios se revelaram infundados, Sarajevo é aquela cidade simpática a revisitar com calma, mais dia menos dia!”

A Gazi husrev-bey mosque, considerada a mais importante construção Islâmica do país e um dos melhores exemplos do mundo da arquitetura otomana.

As ruínhas são encantadoras e intrincadas, cheias de lojinhas e esplanadas com bancos baixinhos e gente a tomar chá!

Os cemitérios otomanos estão um pouco por todo o lado, como jardins!

Mas havia algo que eu queria muito visitar na cidade, do outro lado, perto do aeroporto!

O túnel da esperança!

A cidade esteve cercada durante 3 anos e sobreviveu graças à criatividade do exército bósnio, que construiu um túnel por onde passou tudo o que foi necessário para garantir o mínimo a uma população sacrificada!

O túnel foi escavado por baixo do aeroporto, em condições muito difíceis, dado que o túnel se inundava frequentemente e não havia materiais adequados nem para expelir a água. Os soldados trabalharam 24 horas sobre 24, por turnos durante 5 meses até chegarem ao lado de lá!

Foi escavado à mão, com pá e picareta e a terra transportada em carrinhos de mão!

Por ali passou ajuda e materiais de todo o tipo para a população e soldados, numa cidade onde nada havia, nem luz, nem combustível, nem material medico suficiente….

Durante um bloqueio de mil dias, o túnel foi de esperança e de salvação. Através dele milhares de toneladas de alimentos, dispositivos técnicos militares, combustível e materiais médicos entraram na cidade!

Feridos graves foram evacuados e soldados, funcionários e superiores militares entraram e saíram.

“O túnel tornou-se um símbolo da resistência do povo desarmado, a um dos exércitos mais poderosos da Europa!”

Ele parte de uma casa insuspeita, de uma família comum, que permitiu que o exercito a usasse como ponto de partida. É comovente ver fotos da velhota, dona da casa, a dar água aos soldados!

Hoje a casa é um museu que guarda os “comboiinhos” que faziam o transporte de tudo…

Ali houve mesmo uma luz ao fundo do túnel…

A casa está lá, cheia de buracos de balas, como ficou depois do cerco acabar!

Depois continuam os cemitérios! Depois dos islâmicos e dos otomanos, que se podem encontrar em qualquer canto na cidade, os cristãos, cheios de cruzes e gravuras curiosas!

Voltei à estrada com a cabeça cheia de sensações e ligações a momentos vividos muitos anos antes, quando a guerra da Bósnia e o cerco de Sarajevo preocuparam os meus dias.

Os polícias Bósnios eram uns risonhos! Mandaram-me parar vezes sem conta, apenas para saber de onde eu vinha e se era mesmo uma mulher! Aqueles que não me mandaram parar à ida, mandaram-me parar à vinda!

Num momento em que eu vinha completamente distraída pelo meio dos montes, um jovem e muito interessante polícia mandou-me parar. Quase derrapei para o fazer pois não contava encontrar polícia numa curva da montanha!

“Sabe que o limite de velocidade aqui é de 40km/h?” – perguntou ele.

“Oh, mas aqui o meu amigo diz que são 60km/h!” – exclamei eu apontando o sinal redondo de 60 no meu GPS.

Ele espreitou – “Pois, mas o seu amigo está enganado.” – disse. Fiquei a olhar para ele como quem fez uma asneira esperando o que viesse! – “Pode seguir.” – disse ele então, com um sorriso, e piscou-me o olho!

Puxa, que menino giro e simpático! Se eu pudesse tinha-lhe tirado uma foto!

Depois vieram as vacas! Detesto cruzar com vacas que me olham fixamente! Fico sempre com a sensação que se ela vem e se encosta, não haverá nada que me salve debaixo dela! Como eu desejei que o polícia simpático estivesse mais perto um pouco para me salvar!

As ovelhas são muito menos assustadoras, correm para todos os lados e são mais pequenas do que a moto!

O lago Bilecko estava encantador ao entardecer!

Trebinje estava quase invisível!

E Dubrovnik estava linda!

Fui jantar à cidade, que é muito bonita à noite, com as suas ruelas estreitinhas de pedra polida e brilhante!

Ali é terra de peixe, e que bom peixe! Comi mexilhões porque não resisti ao seu aspeto! Tive de apontar para o prato dos vizinhos pois descobri que não sabia o seu nome em inglês! Tão cedo não me vou esquecer, chamam-se: Mussels

A Stradun, aquela rua que é quase uma praça, de tão larga, é pavimentada a calcário o que a faz brilhar. Mas naquela noite estava cheia de gente e pouco se via do seu chão. Ela é a rua principal de cidade desde o séc. XIII.

A Igreja de São Brás estava aberta àquela hora!

E tudo era uma animação! Parecia que estava em Espanha, onde o jantar se prolonga até à ceia e a festa até às tantas!

Um grupo de rapazes queria trocar o meu chapéu por um chapéu todo colorido! Diziam eles que eu, toda de preto, iria ficar um espanto com um chapéu azul turquesa ou vermelho!

E o porto velho com a Fortaleza de São João logo ao lado!

Aquela população viveu sempre do mar, até chegar o turismo, e dizia a tradição que cada homem devia plantar 100 ciprestes durante a sua vida, para poder um dia construir o seu próprio barco. Dizem que por isso hoje há tantos ciprestes em torno da cidade!

E fui-me despedir da Stradun e da torre do relógio e fui dormir!

E foi o fim do 15º dia de viagem!

17. Passeando pelos Balcãs… – de Split até Dubrovnik , passando por Mostar

12 de agosto de 2013

O calor começou cedo em Split! Logo pela manhã começava a prometer torrar-me de novo os miolos, mas mesmo assim eu ainda me aventurei a passear um pouco!

Subi ao Monte Marjan de onde se pode ver toda a cidade.

Apenas no trajeto do Monte Marjan até à marina vi 2 carros serem rebocados! Bem, não diria rebocados, pois na realidade foram guindados na frente dos meus olhos! Um policia punha aquelas coisas de metal nas jantes e um guincho prendia nelas, erguia o carro no ar e pimba com ele em cima do reboque! Uma operação de meia dúzia de minutos que a gente quase nem sentia, na fila do trânsito!

Fiquei meio traumatizada pois nunca vira fazer tal coisa! Será que aquilo também funciona assim com as motos?

Depois vi que as motos têm tratamento vip e há sempre uns corredores para os parques por onde apenas elas podem passar sem pagar! Muito simpático! Por isso eu não seria rebocada!

E fui passear um pouco pelo centro da cidade, onde andara no dia anterior. Eu queria visitar a catedral!

A Catedral de St. Svetog Dujma é a catedral mais antiga do mundo! Inicialmente era o mausoléu do imperador Diocleciano, mas foi convertida em catedral no séc. VIII fazendo parte do palácio de Dioclesiano.

Não se podia fotografar lá dentro, por isso lá tive de roubar uns quantos enquadramentos à socapa com a minha máquina silenciosa!

A torre sineira fica ao lado da catedral e é espantosa!

Mais espantoso é vê-la por dentro e subi-la! Para minha surpresa estava um grupo de pessoas amontoadas a alguns degraus do chão, na escada que sobe em caracol, junto ao interior das paredes da torre.

Esperei, pensando que havia fila por qualquer motivo. Talvez a escada em metal não suportasse toda aquela gente de uma vez e tivéssemos de subir aos poucos, mas então aquela gente encostou-se fazendo um esforço para me deixar passar. Só então, ao subir, percebi! As pessoas tinham medo!

A torre é “esquelética” cheia de aberturas e nada que isole o interior, isto é, ao subirmos podemos ver tanto o vazio para o interior da torre, como o vazio para o exterior! Faz um efeito curioso subir assim uma aparente frágil escada no vazio! A paisagem lá de cima é deslumbrante e vale bem a subida àquele que é o símbolo da cidade! Split aos nossos pés!

Vai-se subindo e acompanhando as perspetivas da paisagem pelas inúmeras aberturas

Aberturas ao nosso lado e no ado oposto da torre.

De lá de cima temos uma imagem espantosa de 360º sobre a cidade!

Split é a segunda maior cidade da Croácia e a capital da Dalmacia. Por momentos perguntei-me se os cachorritos dálmatas não viriam de lá, afinal em francês chamam-se “dalacians”!

Então voltei a descer a torre, onde andei sozinha, apenas na descida cruzei com algumas pessoas começavam a subir, o resto permanecia lá em baixo ou desistira!

A meio da descida eu podia ver as pessoas sentadas nas beiras das janelas lá em baixo! Eheheheh

Mas ao olhar para cima era compreensível o medo e a sensação de vertigem que aquelas pessoas deviam sentir!

Uma torre muito bonita!

Depois são as ruínhas estreitas, com esplanadas por todos os cantos

até à Praça do Povo com a Torre Marina, medieval, e o monumento a Marko Marulic, o fundador da literatura croata.

Por esta altura o calor estava mesmo infernal, eu já tinha bebido uma garrafa de 1.5l de água e estava a tratar da segunda!

Saí da cidade e, antes de seguir para sul, passei por Trogir, uma cidadezinha ali ao lado muralhada e muito bonita! Um mimo criado por gregos antes de Cristo e que hoje é uma grande atração turística!

A Katedrala Lovre Sv é encantadora, numa mistura de românico e gótico com a torre a lembrar a torre da catedral de Split!

Como diz a literatura “Trogir possui 2.300 anos de tradição urbana contínua”

A lente da máquina continuava a embaciar com o calor, uma pena pois captava pormenores curiosos de uma cidade que parece de brincar!

Como o recanto dos hippies pintores. Não tenho muita vocação para hippie, mas acabo sempre por meter conversa com quem desenha ou pinta, e ali não foi exceção!

Então segui viagem, não sem parar um pouco para ver de longe a torre sineira da catedral, que sobressai do aglomerado de casinhas, por trás das muralhas!

Eu sei que o caminho pela costa é muito bonito e sei também que é o caminho mais lógico para quem vem de Split para Dubrovnik … mas nem sempre eu vou por lógicas e voltei a fazer o caminho pelo interior!

De novo a Bósnia a despertar a minha curiosidade, mesmo ali ao lado, e foi por lá que eu fui!

Aquilo quer dizer: “Rota do Vinho Herzegovina”. Deu para ver que os Bósnios são muçulmanos mas produzem bons vinhos!

É curioso passar por cemitérios nas bermas das estradas como jardins comuns, sem qualquer resguardo! Dá para ver que não são muito preocupados com isolamentos para os mortos!

E cheguei a Mostar!

Os sinais de destruição provocada pela guerra da Bósnia ainda são um pouco visíveis em edifícios na cidade moderna, mas o centro histórico está lindo, com a sua ponte e ex-libris da cidade perfeitamente reconstruida!

O centro histórico de Mostar é encantador, com as ruelas empedradas com seixos redondos a fazerem-nos cocegas nos pés, e a sua extraordinária Stari Most – a ponte velha, do séc. XVI, sobre o rio Neretva, de águas profundamente esmeralda!

Entrei na Mesquita Koski Mehmed Pasha, que fica mesmo ao lado do rio e tem uma perspetiva extraordinária sobre o rio e o centro histórico!

Para isso tive de subir ao minarete. De novo ainda bem que não sofro de vertigens nem de claustrofobia, porque aquela escadinha não é em caracol, é encaracoladíssima, de tão estreito que é o minarete!

Mas vale a pena subir!

Oh p’rá minha sombra lá em baixo na abobada da mesquita!

E lá estava o rio e a ponte!

E o casario antigo, com telhados de pedra…

Mas os meus olhos não descolavam da ponte, aquela joia lindíssima, sobre o rio esmeralda!

Tirei um milhão de fotos parecidas, simplesmente porque não se consegue evitar de olhar e captar toda aquela beleza!

E por fim lá desci. O minarete era verdadeiramente estreito, podia-se apreciar a sua elegância delgada cá de baixo!

E do jardim da mesquita ainda tirei mais uma série de fotos ao rio e à ponte, era inevitável!

E lá fui ver a ponte de perto.

Ao longe a mesquita de onde eu vira a ponte pela primeira vez!

Agora já cheia de gente, naquele espaço minúsculo, a fotografar em todas as direções como eu fizera!

Há uma tradição na cidade, em que rapazes mergulham desde a ponte para o rio, o que não é coisa fácil já que as águas do Neretva são gélidas e apenas pessoas experientes o devem fazer. Diz-se que esta tradição vem desde o séc. XVII!

Fiquei ali a olhar para a ponte um bom tempo, pensando em quem morreu ali, em quem tudo perdeu e em como tudo parece tão normal, tão pouco tempo depois da catástrofe!

A ponte foi destruída em 1993 e reconstruida por uma série de anos, inaugurada em 2004 e classificado, junto com o centro histórico, como Património Mundial da UNESCO em 2005.

Claro que fiquei ali á fresca muito bem acompanhada por uma cervejinha da terra! E sim, a cerveja Bósnia é muito boa!

Continuei a minha caminhada, com o meu lenço vermelho como apoio, pois o calor era impiedoso e eu transpirava!

A ponte estava agora cheia de mulheres sexies e eu lembrei-me do meu amigo Elísio e tirei uma foto a apanhar algumas!

Nas lojas adjacentes à ponte podem-se ver vídeos da sua destruição em 1993… a gente sabe que aquilo foi tudo abaixo, sabe que toda a zona foi arrasada e, mesmo assim, não consegue deixar de estremecer a cada investida da artilharia de fogo Sérvia e desejar intimamente “parem com isso que a ponte vai cair!” então ela cai e tudo é um monte de escombros em seu redor. É terrível esta sensação de impotência perante a estupidez humana que destrói deliberadamente uma parte da história do seu povo, uma ponte com mais de 400 anos. Hoje ela está lá, perfeita e reconstruida e olho-a com toda a admiração como símbolo de uma cidade martirizada!

 

E fui embora, pelas ruelas às pedrinhas, cheias de lojas de tudo, em que tudo parecia custar um euro!

A Mesquita Nesuh-aga Vucjakovic fica na berma da estrada com o seu cemitério cheio de “mecos” brancos de mármore, em memória de muita gente que morreu na guerra da Bósnia…

A minha motita tinha feito uma amiga italiana carregada de tralhas! Até almofadas ela tinha amarradas ao assento!

Segui em direção a Dubrovnik, por paisagens cheias de curiosidades!

Voltei a encantar-me com a Bósnia!

Até chegar aos seus 8km de praia!

Dubrovnik à vista!

Não fiz muito mais naquela noite, para alem de tomar um bom banho e me esticar de pernas para o ar, depois de um jantar feito mais de bebida do que de comida, pois o calor fora muito e estava visto que o dia seguinte me reservaria ainda muito mais…

E foi o fim do 14º dia de viagem!