29. Passeando por caminhos Celtas – …pelo País de Gales…

20 de agosto de 2014

Aquele seria um dia muito especial! Não apenas pelo que eu tinha planeado ver mas também pelo que eu tinha planeado fazer… ou tentar fazer, claro, pois há coisas que a gente nunca sabe se são mesmo possíveis até estar lá, no local!

Não seria um dia cheio de quilómetros, mas seria, seguramente, um dia cheio de emoções!

O País de Gales é uma das zonas celtas que eu mal tinha visitado da última vez que estivera no Reino e desta vez propunha-me a catar os seus recantos mais encantadores, porque as ruelas são ladeadas de casinhas que lembram os contos de fadas e as histórias de encantar!

Embora eu não seja arquitecta, as casas de cada país, zona, ou aldeia, sempre me fascinam! Gosto de ver como vivem as pessoas, que gostos têm, que decorações usam, por aí fora, por onde passo! Então as casinhas de telhado de colmo, que se encontram pelo Reino Unido, são um encanto.

Para além do telhado de colmo, tão comum em tantos países, como no nosso, por ali têm requintes de decoração em palha no topo, onde se separam as águas, e são mesmo dignas de histórias de encantar.

Depois os jardins, com plantas que frequentemente são trepadeiras, completam o quadro, por trás de muros que não nos impedem de ver quão bonito é tudo ali dentro. Um quadro pintado a cada curva do caminho, quando se passeia com calma por terras de sua majestade!

E todo este encanto ficava no caminho para o primeiro destino do dia!

O Castle Combe Circuit!

Eu tinha lido que se podia correr ali mas apenas encontrara tarifas para grupos de 6 motos, por isso não sabia se eu podia dar uma corridinha por ali com a minha moto!

Fui-me aproximando, dei uma volta ao circuito por fora e acabei por meter conversa com uns e com outros.

Aquela gente olhou para mim como se eu fosse um ET, meio espantados pela minha motita!
Eu sabia que aquela hora era das motos, podia vê-las a correr…

Tinha de concordar que a minha moto não era a coisa mais previsível para aparecer ali, no meio das “Rs”, para correr!

E aquela gente não me levava a sério, acho que pensavam que eu apenas queria ver o povo correr!

Quando entenderam finalmente que eu queria correr um pouco com a minha moto, que ela andava há dias demais a baixas velocidades e queríamos, eu e ela, dar o gosto ao dedo e leva-la ao limite, houve um sorriso geral!

“A moto não é muito rápida!” – dizia um

“Claro que não é, mas é rápida o suficiente para fazer o que aqueles estão a fazer na pista com motos muito mais rápidas que a minha!” – respondia eu.

“Quanto dá?”

“Muito mais do que eles estão a dar ali!” – eu via-os a passar na pista e não iam a mais de uns 130 ou 140 km/h. O preconceito de que a minha moto é enorme e anda devagar não os deixava pensar que 130 ou 140 km/h qualquer moto dá! – “A minha moto dá 250 km/h e está sem top case, por isso conduzi-la na pista é só uma questão de habilidade minha!”

Havia um sorriso nos rostos deles, acho que um sorriso irónico! Então alguém me ofereceu 5 voltas!

“Deixe aqui tudo, eles vão sair daqui a pouco e você tem 5 voltas por sua conta! Nós vamos ficar aqui a ver, qualquer coisa e pare, não arrisque!”

O meu coração deu um salto!

Tratei rapidamente de me preparar, deram-me uma joelheiras para eu pôr por cima das calças, apertei-me toda, prendi o cabelo, enfiei o capacete, fui para a moto e fiquei à espera.

As motos foram saindo e os pilotos ficavam a olhar para mim, gente comum que ia para ali correr, como eu, a única diferença é que eram todos homens e com motos de pista!

Então entrei!

Eu tinha estudado a planta da pista em casa e ali nos placares, mas percorre-la era outra coisa bem diferente! Tinha a consciência de que todos os olhos estavam postos em mim, algures lá para trás, mas ignorei tudo isso mal comecei a conhecer o percurso, e sim, dei muito mais do que os 130 ou 140 km/h!

Que sensação, depois de tantos dias a conduzir em baixas velocidades, poder correr livremente.

Houve retas em que o ponteiro passou os 230 km/h. A pista não é muito grande mas tem curvas largas que se fazem a mais de 180km/k e fui perdendo a noção de quantas voltas dei, até que alguém na berma da pista me fez sinal para sair. Claro que teve de esperar que eu desse mais uma volta pois eu vi o sinal de relance e não dava mais para sair logo!

Quando me apanharam cá fora fizeram um escândalo! Como me atrevia eu a correr daquela maneira com uma moto daquela dimensão e sem conhecer a pista!

Afinal em que ficamos? Primeiro não devia correr porque a moto andava pouco, depois escandalizam-se porque eu corri para caramba?

Que nada, diz-me o homem que me ofereceu as 5 voltas, foi um prazer para os olhos verem-me brincar com a minha moto gigante a tamanhas velocidades, as outras motos até podiam ter continuado a correr que a minha moto não teria perturbado nada! Parabéns! Então bateram-me palmas e tudo! De onde vinha eu? Portugal? E os meus colegas de viagem onde andavam? Não havia colegas, eu viajava sozinha! Quase se fez silêncio! Sozinha por ali com aquela moto?

E pronto, tive direito também a chá e a bolachas só por andar a viajar pelo Reino, depois de ter vindo da República da Irlanda, completamente sozinha, com uma moto enorme e a correr em circuito como se fosse a minha segunda profissão! Eheheh

Senti-me uma estrela!

E com isto foi-se quase toda a manhã! Saí dali com a energia renovada e ainda cheia de adrenalina, que foi passando pelas ruelas que fui fazendo a seguir e onde nem pensar em dar mais que os 90km/h permitidos por lei! A bem dizer, quem daria os 90 por aquelas ruinhas?

Comecei a procura de uma aldeia encantadora que tinha em mente, dei voltas e voltas e voltava sempre ao ponto de partida! Parecia um filme de terror, a lembrar o Pesadelo em Elm Street, quando as pessoas tentam sair da cidade e voltam sempre ao mesmo sitio!

Parei numa St Peter’s Church porque na falta do que procurava há sempre outras coisas para ver no caminho!

O que me chamou a atenção da rua foi uma cruz esculpida numa peça só, a partir do tronco de uma árvore! Uma cruz céltica!

O que eu gosto daqueles ambientes!

E lá estava elas de novo, as cruzes! Desenhei mais uma ou duas para a minha colecção de cruzes recolhidas nos países celtas! Lindas!

A cruz de uma peça só fascinou-me!

E na falta do que procurava e não encontrava, segui as placas até a Malmesbury abbey.
“À procura do que quero ver, vou vendo tudo o que me aparecer no caminho e pronto!”

Uma abadia espantosa, românica, com uma história rara de vida monástica continua desde a sua fundação no séc. VII até ao fim das congregações e mosteiros no séc XVI

Acho sempre curiosa a maneira como a porta de entrada é assumida lateralmente e não pela fachada, como fazemos por cá em geral!

E a porta é linda!

O interior é surpreendente! A simplicidade do estilo românico é mantido e a altura da nave torna-se vertiginosamente acentuada pela nudez das paredes! Lindo!

Impossível não andar por ali de nariz no ar!

Há traços posteriores, de “arcos quebrados”, o que só torna o conjunto mais fascinante!

E o teto, espectacular!

Para quem não quisesse andar por ali de nariz no ar para ver a abobada, um espelho, estrategicamente colocado, tornava a tarefa mais fácil!

E como em todas as igrejas e catedrais naquele país, lá estava o cafezinho onde se serviam chá e bolos!

Estava um belo dia de sol, apetecia mesmo passear por ali, junto da belíssima construção!

Parte do complexo religioso está em ruinas, o que permite enquadramentos muito bonitos!

E onde deveria ser a porta principal, a fachada, no extremo oposto ao altar mor, fica uma parede fechada!

A cidadezinha de Malmesbury é muito bonita e pitoresca, com casas lindas e ruas estreitas, de traçado medieval!

E na saída do jardim, pelas traseiras da abadia, fica uma escultura impressionante, bem no meio do portão. Dois homens que lutam acrobaticamente!

Uma obra tão expressiva que me encostei ali a desenha-la um pouco!

Estava eu naquela contemplação fascinada quando aprecio o jardineiro que andava por ali a tratar dos jardins! E não é que o homem usava apenas uma t-shirt como indumentária! Eu vi-lhe mesmo o rabo quando se inclinou sobre as sebes! Eheheheh

Muito próprio para quem trabalha nos jardins de uma igreja! Eheheheh

E a minha procura continuou mais um pouco… os caminhos que percorria eram lindos, o dia estava espantoso e só me apetecia dar voltas e mais voltas pela zona! Parei num café/restaurante, só pelo encanto que era!

O The Baker’s Arms era a coisa mais encantadora! Sai mais um chá que café nem vale a pena pensar!

As ruas mais simples são lindas por ali!

“A minha ida até Castle Combe não foi nada inocente, havia coisas que eu queria fazer ali, mas a aldeia em si, não foi fácil de encontrar. Depois de umas corridas, que também sabem bem numa viagem essencialmente feita em baixas velocidades, andei para trás e para a frente por ruelas infinitas, sem conseguir encontrar… então decidi desistir! Às vezes é preciso saber-se deixar cair uma ideia para seguir outras mais possíveis!”

“E foi quando desisti que a encontrei!
O deslumbramento do local acolheu-me assim, na berma da estrada que eu escolhera fazer.
Pousei a moto entre os carros, junto a um grupo de velhotes, sentado no muro. Perguntei se incomodava eu deixar ali a moto, não, não incomodava nada. Fiquei um pouco por ali, sentada no mesmo muro a desenhar um pouco! Então uma das velhotas chegou-se a mim e perguntou-me de onde eu era, pois os seus amigos questionavam o “P” da minha moto mas estavam envergonhados de perguntar. “Sou portuguesa” disse eu “ah, eu bem dizia que não era da Polónia!” exclamou ela. Disse-me que era irlandesa mas estava na Inglaterra há muitos anos. “Lindo país, eu venho de lá nesta viagem!” todo o seu rosto se iluminou às minhas palavras. O tempo que eu ali fiquei a divagar sobre as 2 Irlandas, a alegria que se instalou naquela ponta do muro….”

(in Passeando pela vida – a página)

Arlington Row, em Bibury, com o rio Coln a completar o quadro, considerada desde o séc. XIX “a mais bela aldeia de Inglaterra”, por um artista famoso quando a visitou.

E as casinhas lá estavam, tão típicas da zona, mas aquelas bem alinhadas, de pedra cor-de-mel e telhados a condizer, como se fosse um cenário ali posto para os turistas verem!

É tudo tão bonito ali!

O tempo que eu andei por ali, fartei-me de desenhar casinhas lindas com flores e pormenores encantadores!

Então os enquadramentos daquelas casas encantadoras com uma moto em frente, deliciaram-me!

Pormenores decorativos surreais…

e outros reais!

Então cruzei com o segundo casamento da minha viagem!

Não cheguei a entender se aquele seria o noivo ou o pai da noiva!

As pitorescas casas Arlington Row foram construídas em 1380 como uma loja de lã monástica. Continuam hoje como eram, alinhadas e lindas!

Valera a pena catar a zona à procura da aldeiazinha!

A igreja mais à frente, na mesma pedra bege, rodeada por um jardim com florinhas!

Eu gosto de ver por dentro igrejas de outras religiões! Há sempre algo de diferente do que estou a costumada a ver numa igreja!

O cemitério no jardim da igreja é a coisa mais comum e esperada por aquelas terras! Quase senti falta de ter algo do género por cá pelas nossas terras também!

E segui para a última etapa do meu passeio por terras galesas, do Gloucestershire para o Oxfordshire para chegar a Burford.

Sempre na rota das terras mais bonitas do Reino! De origem saxónica a cidade é encantadora, com o traçado e construções medievais bem visíveis!

Entrei na cidade pela parte de cima, pela High Street, e ainda bem, pois pude ver a rua principal até ao fundo, cheia de movimentos, casas encantadoras e esplanadas que se sucediam à minha passagem! Lindo!

Queria comer e aquele era o ambiente perfeito! Sentei-me numa esplanada, com a moto bem pertinho, e pedi um pequeno-almoço, que ali se serve todo o dia!

Claro que um pequeno-almoço ali não tem nada a ver com malgas de café com leite e torradas!

Tem mais a ver com comida variada, com direito a ovos e feijões e tudo que, acompanhado com cerveja é mil vezes melhor que comidas suspeitas, feitas de fritos cobertos com camadas de massa frita encharcada em óleo!

Fico sempre na dúvida se uma casa daquelas se irá aguentar de pé por muitos mais anos, com os tetos todos tortos, deformados pelo tempo!

Mas parece que estão para durar!

Que bem que a minha motita ficava naquele ambiente!

As lojinhas são encantadoras e apetece entrar em todas!

Não admira que Burford seja o lar de diversos escritores, na realidade ali tudo inspira para escrever, e desenhar, e pintar e acredito que para fazer música e dançar também, só para falar nas artes mais populares!

E voltei a subir a High Street, com vontade de parar a cada momento para ver e fotografar cada casa por onde passava!

Ainda havia um sítio onde eu queria passar, certamente não para visitar longamente mas para ver! Se não desse para ver da rua, pelo menos o caminho até lá era bonito, por isso não seria tudo perdido!

Eu queria ver uma abadia em ruinas, daquelas coisas que me fascinam sempre e segui pela margem do rio Wye até ela!

Sim, era visível da rua e não, não iria pagar para a visitar!

Simplesmente não podia andar a pagar para ver tudo o que me passava pela cabeça! Depois uma ruina daquela dimensão, tão visível da rua, não justificava um pagamento para a ver por dentro! Com muita pena minha, mas seria de fora que eu a veria e pronto!

A Tintern Abbey, vem desde o séc. XII cheia de história feita de remodelações, reconstruções, destruições e finalmente abandono por séculos, até ao séc XVII, quando o romantismo despertou o interesse pelo misterioso e impressionante da construção, exacervada por poemas e textos. Desde então tem sido mantida e protegida.

Claro que não se pode esquecer que foi utilizada para o videoclip dos Iron Maiden – Can I Play With Madness

https://www.youtube.com/watch?v=ocFxQjPeyiY

Provoca-me sempre uma grande sensação estar na presença de tão fantástica construção em ruinas!

“O poder que uma abadia em ruinas tem é impressionante, como se uma força ela exercesse sobre mim e me deixasse quase paralisada de respeito de admiração. É sempre assim! Então fico a olhar e, intimamente, agradeço o facto de estar sozinha, apenas e eu e ela, e todo um mundo de sensações que me percorrem! A Tintern Abbey voltou a provocar esse efeito, não entrei, não pude por isso percorrer o seu interior mas, mesmo assim, o seu poder avassalou-me! Uma construção do séc. XII mostra hoje vestígios de séculos de transformações arquitetónicas, até ser deixada ao abandono por tempos que se perdem no tempo até alguém no séc. XIX voltar a dar valor ao seu corpo esquelético, mas muito belo, e o estudar. Quando foi considerado monumento de interesse nacional e foi finalmente protegido…”

(in Passeando pela vida – a página)

Os seus pormenores impressionantes… como aquilo se manteve de pé por tanto séculos em ruinas?

A minha motita parece insignificante e minúscula junto dela!

Uma ultima olhada e segui para Cardiff…

Ainda era dia por isso fui passear um pouco pela cidade e ainda não ficariam por ali as minhas visitas a igrejas e cemitérios!

A catedral estava a chamar-me a atenção, ainda por cima tinham-me indicado um sitio para comer lá perto! Ora, era cedo para comer, por isso fui passear pela redondeza!

A Llandaff Cathedral é anglicana e fica perto da margem do rio Taff na antiga “Cidade de Llandaff” que hoje é rodeada por Cardiff e por isso faz parte dela.

Estava fechada e ouvia-se lá dentro música. Alguém estava a ensaiar órgão e coros, ainda me sentei perto a ouvir mas depois fui andando pela propriedade da igreja. Soube depois que a música é tradição da igreja, com coros de homens e rapazes!

Tem origem normanda e foi sofrendo transformações ao longo dos séculos desde o séc. XII e lá estavam as cruzes celtas, num dos sítios cristão mais antigo da Grã-Bretanha! Lindo!

Então fui seguindo os caminhos, saindo da relva bem aparada em torno da igreja e percorrendo trilhos que me levaram por aquilo que parecia um cemitério abandonado, embora começasse logo ali, ao lado da catedral!

De cruz celta em cruz celta pelo meio do mato… eu podia ve-las ao longe, parecia gente no meio do caminho!

“Eu nunca fui dada a medos de cemitérios, mortos ou locais assombrados, passeio-me por eles como por jardins incomuns, apenas! Mas passear pelo cemitério de Cardiff foi a coisa mais parecida com um filmezinho de terror que se possa imaginar! É enorme, fica mesmo ao lado da catedral e tem todo o ar de coisa abandonada, cheio de ervas altas e mato, de onde brotam as tumbas antigas e desalinhadas, com cruzes celtas à mistura. Não bastando o cenário já sombrio por si, o entardecer tornava tudo ainda mais a puxar para o sinistro, quando a vegetação encobria a já pouca luz do dia e eu cruzava com enormes árvores centenárias que preenchiam quase todo o meu caminho, que não era mais que um carreiro de folhas pisadas. Ao longe ouvia as risadas dos miúdos que jogavam futebol numa clareira que eu vira ao chegar e que já ficara para trás há muito. Ninguém parece preocupar-se com um cemitério por ali, de repente miúdos passavam por mim em bicicletas de montanha em grande velocidade, como se o cemitério fosse o sítio mais comum para se brincar. E tornou-se noite, e ninguém pareceu se importar, nem eu, que continuei as minhas explorações, pensando numa meia dúzia de pessoas que conheço que desmaiariam de terror se se encontrassem ali naquele momento. E não, nenhum morto se ergueu para me matar à dentada!”

(in Passeando pela vida – a página)

E se eu me perdesse por ali pelo cemitério? É que aquilo parecia que não tinha fim! A única coisa que me provocava alguma apreensão eram os rapazes que eu ouvia ao longe e que passavam perto nas suas bicicletas. Os mortos nunca me preocupam, os vivos sim, porque lhes chamo miúdos, mas não eram tão miúdos assim, eram mais jovens para lá de teenagers!

Mas a preocupação não era assim tanta que me impedisse de sentar numa tumba a comer amoras! Eheheheh
Eu adoro amoras silvestres!

E lá voltei ao mundo dos vivos, placidamente!

Fui comer qualquer coisa…

E foi o fim de dia no jardim do hostel, com direito a internet na rua e tudo, só para gelar um pouco os dedos!

E foi o fim do 23º dia de viagem

28. Passeando por caminhos Celtas – descendo o País de Gales até Cardiff…

19 de agosto de 2014 – continuando

Peguei na moto e segui para Liverpool!

Nem sei há quantos anos queria lá passar, por nada em especial, apenas porque é uma cidade e um nome que trago no meu imaginário desde sempre, talvez porque deve ter sido das primeiras cidades Inglesas de que ouvi falar, um dia, quando o meu mundo ainda terminava bem perto da minha casa.

Como muitas outras cidades que visitei na minha vida apenas porque o seu nome não me saiu da cabeça por toda a minha vida até eu lá conseguir ir, como Budapeste, Cracóvia ou Bucareste… ou Leninegrado onde ainda irei!

Bem, Liverpool é afinal a terra dos Beatles, por exemplo, e só por isso eu queria lá passar, e pronto!

Fui entrando pela cidade sem nada que me prendesse a atenção até cruzar com uma igreja em ruinas! Não é muito comum cruzar-se com uma igreja em ruinas no centro de uma grande cidade, mas naquele país as igrejas têm uma simbologia bem diferente da que tem por cá, por isso tudo é possível!
Parei e fui ver!

A ruina ganhou um significado especial quando me aproximei e entendi a sua história!

Tratava-se da St Luke’s church, uma igreja neogótica do final do séc. XIX, que foi profundamente danificada durante o bombardeamento, chamado de Liverpool Blitz, quando a cidade foi atacada pelos alemães em 1941.

Liverpool foi a segunda cidade do Reino Unido mais atacada e danificada durante a II Grande Guerra, depois de Londres, devido ao seu importante porto que os alemães queriam neutralizar…

Hoje a Igreja de St Luke permanece como um memorial às 4.000 vítimas daquele ataque. Os jardins estão bem tratados e o espaço é usado para eventos culturais, como concertos, recitais e coisas do género.

Cartazes colados em seu redor sensibilizam a população para ajudar a manter a igreja de pé!

E de igreja em igreja, na realidade aquela que eu queria mesmo ver na cidade, era a catedral!

“A catedral de Liverpool é um edifício espantoso! Com quase 190 m de comprimento é a catedral mais comprida do mundo mas, quando a gente entra, não é o seu comprimento que impressiona, é o seu espaço amplo e a sensação de altura infinita, ao ponto de não se ter ângulo para a enquadrar completamente na máquina fotográfica! Um neogótico impressionante do século passado, com um ambiente que surpreende, onde o espaço religioso convive com exposições de pintura, uma cafetaria e uma loja. Toda esta vida torna o enorme edifício bem menos austero, porque as suas diversas alas podem ser quase opressoras, ao estilo das antigas igrejas góticas. Explorei tudo com a calma e o deslumbramento que o espaço provoca e mesmo desenha-lo não era fácil…”

(in Passeando pela vida – a página)

“Entrei ali e tudo o que eu vira em livros e na net pareceu uma brincadeira de meninos! A catedral de Liverpool é simplesmente grandiosa! Por momentos eu nem sabia em que direcção ir, ela é tão ampla, tão alta e tão vazia! Não conseguia entender para que lado era o altar, as cadeiras estavam tão longe que nem percebi logo para que lado estavam voltadas. Depois, na dúvida de não saber para onde ir ou olhar, ergui os olhos e segui o seu teto impressionante, porque pelo teto tudo leva ao transepto, ao altar e à abobada no cruzamento das naves, que era tão alta quanto a imensa torre que se via ao longe! Sentei-me por ali no meio e fiquei a admirar a vertiginosa altura por cima de mim e os efeitos que a luz provocava na imensa torre… momentos de espanto!”

(in Passeando pela vida – a página)

A descontracção com que se passeia por ali, por entre conversas murmuradas mas sem qualquer preocupação!

Homens e mulheres, usando batinas vermelhas, conversam com quem visita de forma natural, explicando pormenores de história e religião e as luzes desenham ambientes surreais no grandioso espaço sem nos oprimir!

Dentro da catedral fica a Lady Chapel, uma obra mais pequena e pormenorizada, contrasta com a grandiosidade do corpo principal da catedral e é linda!

A sensação era incrível, de ter entrado numa igreja dentro de outra igreja, com a estranheza de um “será que eu saí da catedral sem dar por ela’”

A semipenumbra do espaço fascinou-me realmente!

Claro que a catedral estava lá, logo à saída da porta da capela, eu apenas tinha entrado num mundo dentro de outro mundo!

E ali se fazem exposições, concertos, jantares, festas! Havia obras artísticas nos altares laterais muito interessantes!

E havia uma espécie de arvorezinha dos desejos, onde eu coloquei um coraçãozinho que sarrabisquei, lembrando-me de tanta coisa e tanta gente ao faze-lo, como quem põe uma vela por alguém!

O edifício é grandioso e vermelho e pode ser visto de muito longe na cidade!

E depois de um banho de igreja não me apetecia ver muito mais coisas, apenas passear pela cidade e apreciar os seus pormenores!

Tomei um café (mais ou menos horroroso) num café com o nome da minha terra!

E passei pelos estádios de futebol lá da terra, aqueles que em Manchester não queriam que eu visitasse!

O mítico Liverpool Football Club, o Anfield, construído nos finais do séc. XIX… e não, não fui visita-lo por dentro! Nem só de estádios se faz uma viagem!

E de passagem fui também ao Everton, que é logo à frente, rivais e vizinhos!

E não, também não o fui visitar!
Pronto, eu prometi em Manchester que não visitaria o Liverpool por isso terá de ficar para outra passagem pela zona!

Memoriais a grandes jogadores, Dixie Dean, o maior artilheiro do clube “um dos maiores avançados centro da sua era” dizem ainda hoje.

As paredes cheias de plaquinhas comemorativas!

Há sempre vida onde há futebol “You’ll never walk alone”

Passeei um pouco pelo tão desejado porto da cidade, no tempo da guerra por ser um bom porto, hoje por ter muitas atrações, de festas e comes-e-bebes!

Estava um belo dia para se beber uma cerveja numa esplanada, mas eu não o faria! A campanha anti-álcool estava na rua com toda a força e eu ainda tinha uma série de quilómetros para fazer!

Ao longe a catedral parecia um fantasma avermelhado que tudo observava!

Pelos caminhos do porto podia-se apreciar o mar e as nuvens magníficas!

E depois da King’s Dock era a saida da cidade ou, pelo menos, do centro da cidade, com coisas que me chamavam a atenção, mesmo por trás dos carros!

Havia muito tempo que eu percebera que não adiantava nada pedir café, é uma bosta mesmo, por isso parei para um chazinho! Afinal estamos na Inglaterra “time for a cuppa!”

Ainda dei dois dedos de paleio com 2 motards que apareceram entretanto e se deslumbraram comigo, por causa da minha motita, que eu e ela fazíamos um conjunto muito bonito! Wow, nunca imaginei ouvir piropos de ingleses, os sérios, cínicos e distantes! Que nada, boa gente!

Havia um sítio onde eu queria ir antes de seguir para Cardiff, um sítio onde eu queria ir desde a última vez que andei por ali, há 3 anos, e me distraí com outras coisas no lado leste da ilha. Desta vez eu iria lá nem que chegasse a Cardiff a meio da noite!

Caernarfon e o seu castelo!

“O Caernarfon Castle tinha ficado para trás nas minhas escolhas da ultima vez que estive no País de Gales, mas desta vez eu fui vê-lo. É uma fortaleza medieval bem no meio de Caernarfon. O castelo embora tenha aquela aparência de construção robusta e completa, não tem muito mais do que as muralhas intactas. A sua história conturbada de guerras e batalhas, desde a sua construção no séc. XIII, é rica e está ligada à história do país até ser deixado ao abandono e só no século XX voltou à sua imponência e beleza, agora como muralha e ruína deslumbrante! Eu queria vê-lo e enquadra-lo na sua redondeza, por isso fartei-me de dar voltas em seu redor, até parar no outro lado do rio Seiont, sentar-me e admira-lo… Que lindo dia se pusera, e permitiu que eu viajasse um pouco pela história enquanto o desenhava e fotografava em momentos que ficaram na minha memória para sempre!”

(in Passeando pela vida – a página)

A ponte que atravessa o rio é basculante, não vi muitas pontes assim na minha vida e foi curioso ficar ali a vê-la rodar sobre si própria para deixar passar os barcos!

Apesar de atravessar a ponte eu queria ir aquele lado com a moto!

Por isso voltei à cidadezinha para a buscar e ir procurar o caminho!
O ambiente era muito agradável por ali, com pessoas que passeavam calmamente e comiam gelados… e eu que não gosto de gelados, limitei-me a ficar a olhar! Ok, sai mais um chá!

Encontrei uma das casas com 3 frentes mais estreitinhas da minha vida! Parecia um livro de pé!

Enquanto se toma um chá quente aprecia-se muito mais coisas do que quando se come um gelado! Só pelo tempo de espera para que arrefeça, dá para ver tudo o que nos rodeia!

E lá peguei na moto e fui ver o castelo do outro lado do rio!

E por cima dos campos de milho!
Eu sabia que ele estaria naquela direcção, bastou pôr-me de pé em cima da moto, e ele lá estava!

E continuei a escolher percursos de sonho até ao meu destino!
Porque viajar é como viver, o facto de sabermos qual o nosso destino, não quer dizer que façamos o caminho de toda a gente, nem o mais fácil, ou o mais rápido! Porque não fazer o mais bonito?

E eu escolhi descer o país por Beddgelert, por ruelas antigas, entre aldeias perdidas nos montes!

Esta aldeiazinha lindíssima tem uma lenda que lhe dá o nome e eu queria ver de perto a sua beleza!

Na realidade Beddgelert quer dizer Gelert’s Grave – sepultura de Gelert.

Diz a lenda que Gelert foi um cão que o rei João de Inglaterra ofereceu ao Príncipe de Gwynedd em Gales. Ora um dia o príncipe chegava da caça quando viu o berço do seu filho tombado e o bebé desaparecido. Quando o cão aparece com a boca cheia de sangue ele saca da espada e mata-o, acreditando que ele matara o seu filho. Mal o cão solta o seu uivo de morte o príncipe ouve o choro do seu bebé e então percebe que há um lobo morto no chão do quarto. Cheio de remorsos por ter morto o cão salvador do seu filho, sepulta o cão com uma grande cerimónia no local onde fica hoje a aldeia, mas continua a ouvir o seu uivo, e a partir daquele dia ele nunca mais voltou a sorrir.

Embora a lenda seja triste a verdade é que a aldeia é linda e estava cheia de gente bem disposta que começou a acenar-me a cada vez que eu passava, já que eu andei para lá e para cá com a moto à procura de onde a parar! Acabei por a parar bem no meio da ponte e pronto!

E as paisagens por ali são verdadeiramente exuberantes!

Uma simples estrada era um postal ilustrado feito de beleza! Bastava erguer a máquina e disparar, pois todas as fotos ficariam lindas, com o céu azul e as nuvens inspiradoras!

A verdade é que, naquele país, basta estar um pouco de sol, que tudo é lindo!

E fui para casa, que naquele dia seria em Cardiff!

E foi o fim do 22º dia de viagem

27. Passeando por caminhos Celtas – Até Cardiff, a capital do País de Gales!…

19 de agosto de 2014

Trouxe a minha bonequinha até à porta do Hostel para lhe colocar a mala que tinha de carregar desde o 3º andar até à porta. As pessoas são sempre tão simpáticas quando vêm uma menina a carregar uma grande mala e não faltam cavalheiros que se ofereçam para me ajudar.

Manchester era um nome que eu trazia na minha lista de vontades, talvez apenas pelo nome, talvez apenas pela música e músicos que dali saíram, mas simplesmente estava na lista “a visitar”!

Depois, como é sabido, eu adoro conduzir no trânsito, nunca me nego a meter a minha motita gordinha pelo meio dos carros, numa gincana de arranca e para, fura e segue, como faço no Porto ou em Lisboa! Por isso quando me recomendam que evite as cidade eu nada digo e faço exactamente o contrário! E que bom que é “surfar” com uma moto “gigante” por entre a confusão!

E fui até ao centro, não era muita coisa que eu queria ver, apenas queria sentir a cidade em torno de mim. Contra o que seria de esperar, fui até Albert Square, porque o que me prendia a tenção não era uma igreja ou uma catedral, era antes a Town Hall.

Aquele edifício é deslumbrante e eu ia preparada para tentar tudo para o visitar… não foi preciso! Apenas me deixaram entrar e pronto, sem que fosse necessária qualquer pressão ou argumentação da minha parte! Eu adoro aquela gente prática e sem “frufruzices”!

O edifício é neogótico e ali funciona o governo local, como uma câmara municipal deve ser!

Claro que só andei nos corredores e espaço públicos, mas que lindo aquilo é tudo!

Ninguém me incomodou enquanto andei por ali! Pessoas passavam, no seu percurso de trabalho, e sorriam para mim por eu andar ali maravilhada a olhar!
“It’s beautifull, isn’t it?” perguntava alguém a cada passo
“Oh yes, you are privileged to work here!”

O edifício tem ligações por corredores passadiços para o edifício lateral, onde funcionam outros serviços, a lembrar os corredores da idade média que também atravessavam ruas!

Então depois de muitas voltinhas por ali, lá fui ver a catedral!

É sempre uma surpresa entrar numa catedral inglesa, tudo se pode encontrar lá dentro sem ser um tradicional ambiente de culto! A porta de entrada estava decorada com bordados pendurados em tiras infinitas!

Numa igreja por vezes encontra-se um bar, com mesas e gente a lanchar, outras vezes encontra-se uma sala de exposições….

E ali havia algumas obras curiosas, como candelabros criativos,

ou trabalhos imensos de bordados em cores chamativas!

Os vitrais são inspiradores e modernos, lindos!

E o local de culto está lá na mesma, numa nave lateral!

A catedral, mais propriamente, Cathedral and Collegiate Church of St Mary, St Denys and St George, é gótica na sua origem, com muitas reformas e transformações ao longo da sua vida conturbada por momentos religiosos menos favoráveis, e momentos de guerra também. Mas lá está ela, linda, como se nada fosse!

Nasceu católica e hoje é anglicana.

E depois da história, e embora eu nem seja muito dada a futebóis, fui ver outra catedral que levava na minha lista de vontades!

Eu tinha de ir ver o estádio do Manchester!
Cheguei lá e havia chineses por todos os lados! Eu não sei se eram mesmo chineses, mas que tinham os olhos em bico, isso tinham!

Aproximei a moto e um segurança veio ter comigo, perguntar-me onde eu queria ir com ela. Expliquei que só queria tirar uma foto sem gente nem carros na frente. Ele perguntou de onde eu era, respondi que era portuguesa. O seu rosto iluminou-se “Portuguese? Great! Of course you will take your photo with your bike!” e desatou a enxotar os chineses do meu caminho para que a moto ficasse sozinha!

Mas o efeito do “I’m portuguese” ainda iria fazer-se notar mais à frente!
Pousei a moto no meio dos carros e fui tentar visitar o estádio.

As chinesas revelaram-se úteis ao tirarem-me uma foto, claro que depois de eu lhes ter tirado uma dezena delas também!

Um estádio é sempre aquela construção imensa que me fascina!

Pude vê-lo numa maquete na loja, mas eu queria mesmo visita-lo por dentro!

Então depois de muito catar pelos corredores laterais onde ficam as portas para as bancadas, cheguei à grande porta lateral, a sir Alex Ferguson Stand, onde fica o museu. Estavam 2 homens muito simpáticos à porta, que depois percebi que eram guias do estádio.

Dirigi-me a eles, eu queria visitar o estádio, mas tinha deixado a carteira na moto, do outro lado, junto da porta principal. De onde era eu? De Portugal! Fantástico! Quanto tempo tinha para visitar o estádio? Pouco! Sem problema, era só ir buscar a moto para ali e eles me fariam uma visita guiada cirúrgica, aos pontos mais importantes do estádio, sem que eu tivesse de demorar toda a hora e meia da visita que os chineses estavam a fazer! Genial!

E assim foi, trouxe a moto até à porta, um segurança veio-me receber, guardou-me o capacete e tudo, e eu fui visitar aquilo tudo como visitante VIP, sozinha com um guia e com tarifa reduzida, enquanto os chinocas andavam em bandos de muitos. Eu podia vê-los do outro lado do campo enquanto eu estava na bancada VIP!

O meu guia era simpático, contava histórias interessantes e fazia-me perguntas também. Apanhei-o numa foto!

Ele ofereceu-se para me fotografar também. Parecíamos velhos amigos!

O espaço amplo de um estádio sempre provoca em mim uma sensação forte, de pequenez, quase de êxtase! Se juntar a essa sensação o mítico do local, então entende-se melhor o mundo de sensações que passou por mim, ali!

Então depois veio o museu… toda a história de um grande clube e um grande estádio em infinitas memórias!

E lá estava o Ronaldo…

E as taças aos milhares!

Quando saí parece que caí num outro mundo!
O segurança veio trazer-me o capacete e pôs-se ali à conversa comigo.

“So you’re portuguese? Oh Ronaldo, Ronaldo, come back please!” Dizia ele!

Perguntou-me onde ía eu a seguir, disse que ía para Liverpool. O homem ficou alarmado

“Don’t go! Don’t go to Liverpool! Liverpool is shit!”

Oh valha-me Deus que a rivalidade futebolística não era para aqui chamada! Expliquei que ia a ver a cidade, que não ia ver os seus estádios e seguiria para sul, para Cardiff.

“Cardiff is too far, too many miles away from here, go straight to there, don’t go to Liverpool, Liverpool is shit!”

Adorei a conversa do homem, dizem que os ingleses são pouco expressivos mas há momentos em que o são e muito! Adoro-os!

E fiquei com uma fita muito bonita de Manchester como recordação daquela visita que adorei!

(continua)