Mais tarde pode ser tarde demais….

Nos últimos dias muita coisa ruim se passou no mundo das 2 rodas… e eu que apenas tenho 2 rodas para me mover no mundo, fico sempre triste e pensativa… quando será a minha vez?

É nestes momentos que acredito naquela frase, já gasta, que diz que a vida é uma trégua que a morte nos dá!

Outro companheiro que partiu… mais um momento de luto… mais um momento de tristeza…

De novo olho a minha motita e peço-lhe… cuida bem de mim, não me faças mal!

Depois vem o balanço da vida, o que fiz do que sonhei? Se morresse amanhã teria a sensação de ter feito um pouco daquilo a que me propus? Deixaria um legado? Deixaria caminho aberto para outros e outras motociclistas, viajantes, artistas, professores, alunos, amigos….

Decido que, até o meu dia chegar, tenho o dever de me fazer feliz!

Decido que os meus sonhos devem ser realizados agora e não um dia…

Decido que, se o dinheiro chega, devo ir…

Decido que a vida é para viver hoje!

Mais tarde pode ser tarde demais….

A minha vida sobre 2 rodas…

A minha vida não é centrada em motos!

Eu apenas vivo e vivi toda a minha existência independente acompanhada com uma! Como uma mulher que se casa, gosta do seu marido, mas não é fanática pelos homens todos, assim é a minha motita na minha vida, seja ela qual for!

Às vezes perguntam-me se não tive pena de vender cada moto que tive para adquirir outra! Porque não as guardei? E vocês, pessoas comuns que conduzem carro desde sempre, porque não guardaram todos os carros que tiveram?

A minha moto é a minha independência, não a minha prisão! Ela nem sequer é a minha liberdade, porque livre serei eu sempre, nem que me condenem à prisão! Não há espírito motard que me acorrente!

Houve um momento em que eu decidi que não tinha de ser como toda a gente, não por querer ser diferente, mas porque o que todos gostavam era algo que eu detestava! E eu sempre odiei andar num carro! É mais forte do que eu, é visceral, é incontrolável!

Aprendi a conduzir moto com apenas 13 anos, mal tinha aprendido a andar de bicicleta quando se proporcionou a experiencia! Conduzi um Kawa 750 que “pesava uma tonelada”! Adorei a experiência e sempre que podia voltava a conduzi-la mais um pouco… Aquilo era como uma traquinice, quase uma desobediência, como quando a gente fuma ou namora às escondidas. Eu sabia que aquilo não era para mim mas aproveitava sempre… até que um dia viesse a ser obrigada a ter um carro…

Depois fui trabalhar de jardineira, durante umas férias de verão, para comprar uma bicicleta e enquanto pude fui-me escapando nela para todo o lado.

Um dia a bicla já não dava, eu tinha de ir para longe demais e veio a vespinha 50.
“Esgotei” 2 vespas! Levei-as por caminhos, aldeias e cidades nunca antes imaginadas! Quantos quilometros, quantos furos, quantos dias felizes de perfeita “inconsciência”, onde ninguém sonhava onde eu pudesse andar!

Puxa, era tão mais fácil não ter de pedalar e simplesmente dar ao punho e andar! Eheheh

No entanto faziam-me sentir culpada, quase uma fora-da-lei, uma inconsciente que não pensava nos perigos da vida, em vez de estar em casa a cuidar das minhas coisas, como está certo, andava por aí ao “Deus dará”…

Então fui para a Suiça estudar… ganhei uma bolsa de estudo que “nem vale a pena tentares que essas coisas nunca vêem para Portugal” mas deu-me uma segunda hipótese de vida!

Então vi-me sozinha, em Genève, onde ninguém me conhecia, nem cobrava condutas correctas nem atitudes convencionais! Ali eu entendi que o mundo não é todo igual e que há um espaço nele para pessoas como eu! Entendi que, tal como eu imaginava, a vida não tem de ser desperdiçada com rotinas gastas mas muito bem aceites. Vi que a nossa vida é só nossa e não tem de ser feita de coisas que não nos interessam só porque interessam a toda a gente!

Foi na Suiça que conduzi várias Harleys, Ducatis e BMs e percebi que não eram as marcas mais sonantes as que me realizavam como condutora. Conduzi diversos tipos e modelos de motos que me ajudaram a entender o tipo de moto certo para mim. E descobri que era de moto que eu iria andar o resto da minha vida, até os meus ossos o permitirem.

Quando voltei escolhi uma trail, uma Transalp 600.
Não me podia dar ao luxo de comprar uma moto que me arruinasse as costas, quando eu sabia que se tivesse uma moto minha na garagem, não lhe iria dar um minuto de tréguas! Com ela “catei” todo o país… não parava nunca. Eram tempos em que eu ganhava pouco e gastava muito, pois trabalhava longe e tinha uma prestação grande para pagar da moto. Mas eu ía na mesma, houvesse dinheiro para a gasolina e eu ía! Quando ía para mais longe era o “visa” que pagava…

Rapidamente a motita se encheu de km e acabei por troca-la pela Africa Twin… e aí foi a Europa que se abriu para mim. Não porque tivesse mais dinheiro, ou porque tivesse uma moto melhor… apenas porque o meu pais começava a ser pequeno e as saudades de Suiça grandes.

Saía pela Europa sem dizer nada a ninguém, simplesmente porque não queria ouvir sermões, criticas nem comentários desmotivadores, quando eu nem tinha de dar satisfações a ninguém!

O medo dos outros enfraquece-nos e as pessoas que menos conhecem são as que mais alto berram as suas alarvidades sobre os medos, perigos e inconsciências de quem vai…

Depois disso houve uma Varadero… uma primeira PanEuropean 1300 e a actual Magnifica.
Não tive muitas motos, mas esgotei-as todas! Todas elas me deram o melhor que tinham para mim: viajar, passear, andar sem limites…

Todas elas foram históricas, cheias de histórias, recordações, episódios caricatos…
Todas elas me deram vida… cerca de 800.000 km de vida!
Adoro-as a todas, estejam na mão de quem estiverem hoje!

Beijucas

Haverá algo mais gratificante do que guiar a nossa vida conforme nos aprouver?

Houve um tempo em que eu pensava que tinha de fazer o que os outros tinham feito antes de mim. Ser respeitável e respeitada passava por isso!

Quando casas?
Quando vais tirar a carta?
Quando vais comprar um carrinho?
Um apartamento? Depois uma casa, quem sabe?

E quando a gente não quer nada disto o que faz da nossa vida?
Lembro-me de pensar que um dia teria de comprar um carro e não querer chegar a esse momento!
Enquanto a vida me permitiu, fui-me escapando de bicicleta… depois teve de ser uma motorizada, uma Vespinha 50…

Mas gente respeitável tem carro! Mais, troca-o com regularidade por modelos mais recentes até atingir o topo que os vizinhos vão espreitando à chegada “fulana está bem na vida, já trocou de carro outra vez e este, cuidado!!”
Gente respeitável trata de comprar uma casa, boa e cara, (agora não se diz casa diz-se vivenda, vá lá, aprende!) mobilá-la e mantê-la o mais parecida possível com as casas das revistas!
Gente respeitável paga, compra novo e volta a pagar, remodela e volta a pagar e vai vivendo do mais a comprar e mais a pagar, trocando sempre por melhor!

E de repente eu não queria mais ser respeitável!

Um dia eu entendi que a minha vida pode ser o que eu quiser! A partir daí eu criei o meu próprio conceito de respeitável e respeitável é aquele que vai construindo o seu mundo à sua medida, sem perturbar o mundo envolvente mas sem ser escravo dele!

Porquê Marrocos?

Tinha um amigo, meu afilhado no meu Moto-Clube (de S Mamede de Infesta) que tinha o sonho de ir a Marrocos.
No ano passado pediu-me se eu ia com ele e mais uns amigos que queriam começar a viajar.
Dizia ele que juntávamos a sua protecção (ele era policia) à minha experiencia e iríamos por aí fora.
Chamava-se Sottomayor e faleceu num acidente estúpido de moto sem realizar o seu sonho…
Vou a Marrocos por ele…

O meu amigo já faleceu há uns meses… por isso eu comecei a dizer que ia a Marrocos sozinha, pois não havia ninguém para ir comigo.
Então o João Luis criou um tópico no VdM com o nome: “Vamos a Marrocos Gracinda?” e as pessoas começaram a organizar-se para irem a Marrocos comigo!
Partimos no dia 16 e voltamos no dia 25 de Abril…

Nunca tinha dito porque queria tanto ir a Marrocos, quando o continente dos meus sonhos é a Europa…
Deu-me para dizer agora! :’-)

Bom ano

Desejos de novo ano, somos sempre tentados a faze-los, mas o dia que passa é sempre mais um dia igual a todos os outros!

Desejar o quê, de um dia para o outro, porque mudamos de ano no entretanto? Se nada mudou de ontem para hoje, com a mudança de ano, que esperamos que aconteça a partir de hoje, apenas fazendo desejos pueris e crentes em milagres?

Desejemos mudar de atitude, desejemos mudar mentalidades, vontades desejos, paixões…

Desejemos apaixonar-nos pelo que fazemos, pelo que aprendemos, pelo que criamos ou desenvolvemos…

Desejemos mudar o pensamento, o raciocínio, o miserabilismo que leva ao “coitadinho que eu sou” para pudermos mudar o que nunca soubemos fazer bem: lutar pelo que queremos e mudar também o que nos coloca no mundo a infelicidade de desejar o inalcançável por falta de vontade de lutar…

A felicidade não nos cai em cima por acidente, é uma decisão que se toma ao tornarmo-nos reconhecidos pelo que temos e pela força e vontade de ir lutando pelo que não temos!

Bom ano a todos

Gracinda Ramos