Ano Novo… Vida Nova!

Há momentos em que sinto que não pertenço aqui…

Este mundo não tem nada a ver comigo. As pessoas que me rodeiam são-me estranhas, como se não fosse possível mais encontrar quem aprecie o que eu aprecio.

Serei tão pouco convencional que nem me dou conta? Sou eu que estou “fora” ou são os outros que estão demasiado “dentro”?

Olho para o mundo e parece-me tão cinzento, tão previsível que assusta!

Já ninguém dá mais valor ao sol de Inverno, aos campos brancos no amanhecer, à chuva que nos faz querer estar em casa no quentinho, ou ao chegar a casa a correr para lhe fugir, com uma gargalhada e os cabelos colados à testa…

Já ninguém dá valor a cinco minutos que se “perdem” ganhando uma conversa amigável na berma da estrada? Já não há espaço para se conservar velhos amigos quando se conquista uma nova amizade ou um novo amor?

Parece que cada coisa que aparece exclui o que já existe na vida, parece que tudo está para sempre condenado a ter um tempo e desbotar e desaparecer a cada novidade, como se tudo tivesse um tempo marcado, um encantamento que se perde.

Cansei-me desta inevitabilidade! Sou pelo eterno! Pelo eternamente lindo, eternamente renovado, eternamente útil e interessante! Cansei-me de ver as pessoas virem e irem como se eu fosse um porto seguro num momento de tempestade. Acho que perdi a existência no momento em que deixei de ser necessária!

Então parti de novo para o meu mundo, aquele onde eu realmente pertenço, onde eu sou realmente feliz e de onde nunca devia ter saído. Esse mundo onde só entra quem eu quero, o meu “jardim proibido” cheio de gente bonita, tenha o aspecto que tiver. Onde ninguém é infeliz por ser gordo, ou magro, ou alto, ou baixo, ou pobre, ou stressado. Porque cada um é como é e gosta. Esse mundo é o mundo das pessoas que querem ser felizes e deixam que os outros o sejam também! É o mundo onde se é feliz porque se existe, porque a vida é uma dádiva, o sol é um privilégio, os problemas são desafios e os desgostos para partilhar.

Esse mundo é o nosso, mas cada vez menos gente o vê assim. Eu estarei lá, pois é lá que eu sou feliz, sem pressões…

O Natal já foi ontem!

Estamos a chegar ao fim de mais um ano…

Dizem que quando se envelhece se sente mais que o tempo passa, se acha que o Natal chega mais rápido, que os anos se sucedem mais rapidamente… eu acho apenas que quando se envelhece se começa a ter medo de tudo isso e quando se sente medo sonha-se com as coisas!

Se calhar eu não cresci, se calhar eu não percebi que envelheci, porque o Natal passado parece que foi há demasiado tempo, o próximo parece nunca mais vai chegar e o presente… passou tão rápido!

E eis que chega o novo ano… 2007! Já?

Tanta coisa aconteceu! Tanta gente desapareceu da minha vida, tanta gente nela entrou! Estou apenas mais consciente de como cada um se serve dos recursos que tem ao seus dispor, nem que esses recursos sejam pessoas. Cada pessoa que se lamenta por estar só num momento, mais à frente vai abandonar quem lhe preencheu a solidão, sem qualquer preconceito. Da mesma forma que comenta que a Sociedade é assim ou assado sem se incluir nela, num momento queixa-se de que ninguém liga e no momento seguinte deixa de ligar!

Estranha esta raça a que pertencemos, uma raça de gente que aponta rápido o dedo ao outro sem nunca olhar para as suas próprias atitudes!

Sou feliz de qualquer maneia!

Sou feliz porque nunca desejei muito mais do que podia ter e acabei tendo muito mais do que esperava!

Sou feliz porque os verdadeiros amigos nunca me abandonaram e continuam a encontrar-se comigo e estar bem a meu lado.

Sou feliz porque as pessoas que conheço são giras, e as que não conheço também, sem falar nas que irei conhecer neste ano que vai começar!

Sou feliz porque o sol é magnífico nestes dias de frio e esteve presente neste Natal fazendo brilhar os seus dourados e os prateados.

Sou feliz porque estive bastante doente e parece que estou bem melhor!

Sou feliz porque a minha moto, apesar de ter tantos quilómetros continua a ser uma fiel companheira que me enche de alegria.

Sou feliz porque estou viva e… se amanhã não estiver, muita gente se vai lembrar de mim com um sorriso nos lábios e, só por isso, a minha vida não terá sido em vão…

Sou feliz porque vou entrar num novo ano cheia de vontade de viver!

Sou feliz porque existo!

Mia Couto…

“(…) O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas.

A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros.

 Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (…)”

 (Mia Couto, in O fio das Missangas)

FELICIDADE REALISTA

“A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magrérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguer, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinónimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum.

Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma bênção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, com um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.

É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prémio. Não sejamos vítimas ingénuas dessa tal competitividade.

Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade… ”

Mário Quintana…  ou Marta Medeiros (?)