33. Escandinávia 2017 – Descendo a Finlândia até Helsínquia

22 de agosto de 2017

Embora eu goste muito do Natal e de todas as tradições a ele ligadas, visitar a terra do pai natal não era um sonho meu, na realidade eu nem sabia muito bem o que iria encontrar, mas fui até lá, claro! E o que me fascinou foi encontrar aquilo tudo vazio, sem turistas nem visitantes, apenas eu passeando por ali.

Gostei de caminhar sobre a linha do Circulo Polar Ártico, pousar as minhas rodas sobre ela e fazer uma pilha de fotos

Na realidade esse foi o ponto alto da visita ao local, mais do que todas as atrações que ele pode oferecer.

Então, andava por ali toda animada a explorar, quando uma velhota pequenina se acercou de mim. Eu vira-a sozinha e percebera que me observava, mas achava que se devia ter afastado de algum grupo. Mas não, andava sozinha e vinha de muito mais longe do que eu, vinha da Austrália!

“Registos de viagem – 10

Mulheres sozinhas a passear é outro nível! 😉
Encontrei esta avozinha australiana, que anda a passear pela Europa sozinha! Dizia ela que se estivesse à espera de companhia morreria sem ver o que queria! Grande abraço na despedida, com muitas fotos comigo e a minha moto, para mostrar aos filhos e netos que as mulheres na Europa são grandes e corajosas! Adorei!”

(in Facebook)

Eu fiquei tão maravilhada com ela como ela comigo! Acho que a minha dimensão a impressionou, na realidade eu parecia uma gigante perto dela! Quis-me tirar uma foto para levar e mostrar à família e amigas, mas que apanhou mais chão do que paisagem! eheheheheh

Tomamos um café juntas e contou-me a sua história, a mãe falecera e dissera-lhe para usar o dinheiro que lhe deixava para realizar o seu sonho de viajar até à Europa. Ela tentara convencer uns e outros para irem com ela, mas ninguém tivera coragem nem vontade de viajar para tão longe, então ela partira sozinha, antes que passasse tempo demais e não tivesse mais capacidade de o fazer. E lá estava ela nos seus quase 70 anos toda feliz!

Claro que tirei uma série de fotos à minha moto junto à linha que separa o nosso mundo do Polo Norte, como eu dizia!

A minha motita minúscula junto de uma linha!

Uma coisa que eu aprendi em viagem é que, onde há turistas há moedinhas em qualquer laguito ou poça de água e cadeados nas pontes, onde há motards há autocolantes nas tabuletas…

É uma sensação curiosa estar em agosto a passear num local onde é sempre Natal…

e onde o comércio está sempre a condizer coma época, mesmo fora de época!

E a verdadeira cidade do Pai Natal é um recinto onde se paga para visitar, como a Disneyland ou algo do género. Por isso nunca me despertou o interesse e por isso nunca fiz questão de visitar!

Eu gosto do Natal natural, quando os enfeites se acumulam pelas ruas, de lojas e casas, gosto do espírito e do nada que é passear e viver. Não aprecio encenações brilhantes, com meninas e duendes a tentar animar o ambiente com toda a alegria forçada que estes parques conseguem ter… por isso não entrei!

Apreciei o ambiente em redor, acolhedor e muito mais de acordo com o que esperava ver.

E disse adeus áquilo tudo, com os cartazes que prometiam muita diversão a não me cativarem minimamente!

Eu sabia que me esperava um caminho com muito pouco para ver, a Finlândia não é o país mais variado em termos de paisagens que se pode encontrar, por isso teria um belo dia para pensar, ouvir musica e, quem sabe, desenhar um pouco!

E aquele seria um dia meio histórico na minha vida!

“Registos de viagem – 11

Vou contar-vos um segredo…
Quando fiz as contas aos quilómetros que fiz com todas as minhas motos, conclui que, quando a Negrita completasse 58.000km, eu completaria 900.000…
Ora esse momento foi hoje!
Estou a celebrar o feito com uma cerveja que fala uma língua estrangeira, mas é fixe!
PARABÉNS para mim”

(in Facebook )

Parei em Oulu mas nada me inspirava para além de a bela cerveja e unas Riisipiirakka, as pequenas tortas de arroz que acompanham bem com tudo pois nem são doces nem amargas.

Nem me tentei misturar com o povo, estava muito movimento nas ruas e eu já não estava habituada a tal!

E as ideias fluem quando se conduz por horas sem mais nada para fazer, por vezes sistematizam-se experiências de uma forma tão lógica que vale a pena comunica-las ao mundo! Escrevia eu a dada altura:

“Registos de viagem – 12

6 vantagens e 1 desvantagem de se viajar de moto com frio:

1. A cerveja nunca fica quente, mesmo quando guardada por horas na top-case!

2. Nunca temos dúvidas sobre o que vestir: tudo!

3. Não faz mal estar-se gordo, ninguém vai notar com toda a roupa vestida.

4. Ninguém nos vai achar loucos, feios ou gordos, afinal todos os motociclistas na estrada se parecem connosco!

5. Há sempre espaço na moto para mais comida, a roupa está toda vestida por isso libertou espaço.

6. Não há problema se chover, afinal o fato de chuva também está vestido desde manhã para ajudar a combater o frio!

A desvantagem…

Que não haja necessidade urgente de ir ao WC… com toda a roupa vestida será um desastre!!!”

(in Facebook)

Claro que faltou ali um último ponto que pude experimentar dias antes!

7. Em caso de queda toda a roupa vestida nos protege, qual hair-bag à nossa medida!

E se os nomes das terras, até ali, eram curiosos por vezes, ali eram curiosos sempre!

E a Finlândia é um país encantado, feito de lagos que se sucedem como pocinhas de água por todos os lados. Alguns tão inspiradores que é preciso parar para olhar, mesmo não havendo nem um recanto na estrada para o fazer!

Outros têm belezas quase invisíveis para quem passa correndo para o seu destino.
E a sensação, por vezes, era de que a seguir à berma da estrada ficava o céu e infinito, quando a agua vinha até ela e reflectia o céu, como um espelho perfeito!

E assim cheguei a Helsínquia… cheia de vontade de continuar a explorar o sul do país!

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32. Escandinávia 2017 – Até Rovaniemi, o dia em que eu caí!

21 de agosto de 2017

(continuação)

De repente eu não queria ir embora!

Eu sabia que a Finlândia era muito menos interessante do que a Noruega e queria ficar mais um pouco!

Mas o meu tempo não é infinito e eu tinha de começar a descer no mapa…

Voltei a percorrer o caminho que me levara ao Cabo Norte, mas com mais lentidão ainda, tentando absorver todas as persptivas possíveis da paisagem.

Toda a serenidade envolvente era ainda mais fascinante do que na subida, apenas porque eu estava a ir embora…

E as Renas eram ainda mais, deviam ter acordado no entretanto e saído para o pequeno almoço!

Vou sempre associar o Cabo Norte e a ilha de Magerøya a toda a serenidade que senti naquele dia

As gaivotas pereciam bolinhas brancas nas encostas das escarpas

E não havia ninguém no mundo para além de mim e da minha moto

Pessoas vivem ali, longe de tudo e de todos, e nem as localidades são feitas de proximidade, como se cada casa se isolasse das outras e cada um cuidasse de si

Os momentos de beleza foram inesquecíveis e ficariam para sempre gravados na minha memória

Quanto tempo fiquei por ali, apenas olhando em redor…

As Renas chegavam-se tão perto que eu quase as conseguia tocar

Como é possível ter-se saudades de um sitio que se acaba de conhecer?

Como é possível já se sentir essas saudades quando ainda se está a sair do local?

Eu sofrera tanto a fazer aqueles caminhos no dia anterior, e agora estava ali, toda enternecida e cheia de pena de ir embora!

Adeus Noruega!

E à medida que me afastava na direção da Finlândia o tempo ia melhorando!

O céu ía ficando mais azul, mas a paisagem ía perdendo o encanto. Eu já sabia que iria ser assim…

Fez-me lembrar quando atravessei os países da ex-União Soviética, quando ia a caminho da Rússia, estrada sem paisagem!

E lá estava a placa a anunciar a entrada no pais, cheia de autocolantes como qualquer sitio onde passam muitos motards!

Eu tinha decidido visitar a Noruega primeiro e só depois ir para a Finlândia precisamente por causa desse “deserto” esperado.

Uma coisa que a vida me ensinou foi a visitar primeiro o que eu tenho mais ânsia de ver e só depois o resto. No caso de algo acontecer, o que eu já vi ninguém me pode mais tirar!

Mas a monotonia seria quebrada em breve!

“Registos de viagem – 9
Entra-se na Finlândia e a estrada não tem fim de monótona, então começam as obras! Quilómetros de estrada sem pavimento, onde são acrescentadas novas camadas de saibro e cascalho para voltar a alcatroar. 20 km disto! E quando já estava a habituar-me ao piso aventura e me aproximo por fim dos trabalhadores, uma máquina começa a trabalhar e um bando de Renas desata a correr para a estrada! Eles assustaram-se com o barulho, eu assustei-me com eles… ser atropelada por Renas estava fora dos meus planos! Correu tudo bem, nem eu nem a Negrita nos magoamos.”

(In Passeando pela vida – a Página)

A sensação de ver uma série de grandes bichos a correr na minha direção foi assustadora, eu não sabia se se desviariam de mim ou saltariam por cima. Acho que algumas saltaram mesmo!

Um dos trabalhadores veio na minha direção, certificar-se de que eu estava bem e ajudar-me a levantar a moto. Eu sei que a moto no chão não parece tão grande quanto ela é e o tipo, que era bem grande, não parecia ter força para me ajudar a levanta-la! Ele simplesmente estava escandalizado por eu andar ali sozinha com uma moto tão pesada e não havia maneira de fazer a força suficiente para a levantar.

Puxe homem, dizia eu, com mais força!

E ele perguntava pelos meus amigos, de onde eu vinha, de onde era e só fazia o barulho de quem puxa, mas a força era nenhuma! Quando finalmente levantamos a moto, quem estava exausta era eu, pois era a única que se esforçara realmente. Enfim! Lá ficaram eles a comentar entre eles e a ver-me ir embora, cheios de espanto…

Eu nunca tinha caído, ou sequer deixado a moto cair, numa viagem, aquela foi a primeira vez que tal me aconteceu! Eu, que stresso quando cruzo com vacas, porque sempre que os bichos são maiores do que eu e a minha moto, me sinto vulnerável, não esperava ser derrubada por renas.

E nada de novo se passou até Rovaniemi, para além da monotonia esperada…

Nunca tive particular desejo de visitar a terra do Pai Natal, mas já que ficava no meu caminho iria lá dormir uma noite. Lá estavam os chalés iluminados à minha passagem, iria lá passar no dia seguinte para dar uma olhada.

O meu hostel era bonitinho e tinha um excelente bar no ré-do-chão. Era tudo o que eu precisava depois de um dia de viagem como aquele.

De alguma forma sentia-me meio triste por estar a regressar com tanta coisa espantosa que deixei por ver, lá para trás…

… mas amanhã eu iria seguir para o sul, onde tudo voltava a ser interessante