31. Passeando por caminhos Celtas – de Cardiff até Londres!…

22 de agosto de 2014

Tinha chovido de noite, mas nem assim o ambiente era menos bonito no hostel onde eu ficara. Recantos de jardim, com flores e plantas, sempre me atraem para ficar um pouco, acompanhada de um chá quente e o meu caderninho de desenhos!

Ao tempo que eu não desenhava a caneta sépia, uma cor que eu usava muito antigamente, quando o espaço na moto era muito pouco e eu levava apenas um lápis, uma caneta e um caderninho de desenho! Depois o espaço foi aumentando e os materiais diversificando, mas volto àquela cor a cada passo, em desenhos rápidos e gosto!

Depois de uma noite de chuva, o céu estava límpido e azul, como se ela tivesse lavado tudo muito bem! Do outro lado do rio Taff ficava o Millennium Stadium, que é o principal estádio do País de Gale. É enorme, já foi o maior do Reino, julgo que o maior hoje é o Wembley.

Imponente! Tinha de lhe dar a volta cada vez que saía de casa, por isso naquele dia dei-lhe mais uma volta, já que não o visitei, vi-o de todos os ângulos por diversas vezes!

Naquele dia eu iria até Londres. A sensação de estar a voltar para casa era tão presente que só me apetecia dar mais uma volta e outra e não voltar!

Mas daria uma volta e outra e seguiria para a capital, que esta vida não se faz apenas de passeio… infelizmente!

E uma das voltas que eu daria, seria para tentar ver a Llandaff Cathedral por dentro, já que quando lá estivera 2 dias antes ela estava fechada!

Desta vez desci a rua que leva até pertinho dela, com direito a todo o espaço do mundo para a minha bonequinha ficar enquadrada com a igreja!

E se o exterior era aquela imponência antiga que eu já conhecia..

o interior da igreja era curioso, com uma construção cilíndrica lá em cima, como que a encimar um pórtico! Aquela gente lembra-se de cada coisa!

Alguém tocava órgão enquanto eu me preparava para passar aquela espécie de fronteira sagrada para um lado qualquer!

Apesar das coisas que lhe acrescentaram a igreja é linda e o altar luminoso com o sol nascente, como numa igreja deve ser!

Aquele santo enorme em cima da entrada para o altar é que não me deixava sequer raciocinar!

E era ao lado do santo enorme que o tocador de órgão estava! Aquela catedral tem uma grande tradição de organistas e coros!

Ali ao lado ficava uma parte bem mais civilizada do cemitério, que eu tive de espreitar rapidamente!

Oh, e lá estavam as cruzes celtas lindas! Afinal Cardiff é a capital do País de Gales, que é um dos caminhos celtas!

E só então comecei o meu caminho na direcção da capital!

A paragem seguinte estava marcada na minha agenda havia muito tempo, por isso não foi por acaso que eu passei ali, subindo o mapa em vez de ir direta a Londres! Havia algo que eu queria muito ver em Tewkesbury…

E lá estava ela, no meio de uma belíssimo relvado com árvores centenárias a fazer a receção a quem chegasse!

Sim, era mais uma igreja que eu queria ver, mas não era uma igreja qualquer!

Era só uma das igrejas mais bonitas que se possa imaginar!

“Há momentos gloriosos numa viagem, quando a beleza transcende os nossos sentimentos e provoca profundas emoções! Assim aconteceu quando entrei na Tewkesbury Abbey, a Abbey Church of St Mary the Virgin, um monumento à beleza e à grandiosidade da obra humana para elevar a obra de Deus! Sinto-me sempre tão pequena e insignificante junto de uma construção daquelas, um exemplar único da arquitetura românica no reino com pormenores únicos na Europa, como a grande torre central. Quantos anos tem? 900? Uma beleza antiga e eterna…”

(in Passeando pela vida – a página)

“A Abbey Church of St Mary the Virgin, ou simplesmente Tewkesbury Abbey, é um edifício espantoso! Construída entre os séc. XI e XII, possui a maior e mais espantosa torre românica de toda a Europa. O seu interior é deslumbrante, tudo combinava para me encantar, desde as luzes até à música que se fazia ouvir. Andei por ali a vaguear, fotografei-a de todos os ângulos, tentei desenha-la, mas o que eu queria mesmo era estar ali, apenas estar! Um espelho, estrategicamente posicionado no início da nave, permite apreciar o magnífico teto sem erguer a cabeça, mas eu andei por ali de nariz no ar até ficar com tonturas! Tudo é tão bonito…”

(in Passeando pela vida – a página)

Que coisa mais bonita!

Não sei quanto tempo fiquei por ali, mas foi muito, a considerar pelas horas que passam nas fotos que tirei!

E a fachada é impressionante, com enormes janelas em vez de uma rosácea!

Finalmente lá me pus a andar dali para fora! Estava cheia de fome e o tempo a passar sem que eu fizesse o menor esforço por ir comer! Uma coisa boa que aquele país tem para comer, são as empadas! Uma delícia, com recheio de carne e legumes, não são nada enjoativas e são enormes!

Bora lá às empadas que têm espeto de rissóis mas são gigantes! Eu já as conhecia de outras andanças, quando estivera em Stratford-upon-Avon da última vez!

Stratford-upon-Avon, a terra de Shakespeare!

Desta vez consegui fotografar a casa do homem sem uma multidão de pessoas a fazer pose em frente, para a fotografia!

O famoso bobo, retirado de uma peça de Shakespeare, à entrada da rua antiga…

Acho que toda a gente que vai a Stratford tem uma foto junto do bobo e outra junto da casa do homem!

Toda a gente, nem por isso! Eu não tenho!

Peguei na minha empada, que não tinha fim, e fui-me sentar junto da casa mais famosa daquela terra e pude acompanhar um bom pedaço do que é o dia ali: fotos e mais fotos junto da casa!

Em frente fica uma loja onde é sempre Natal! Pelo menos é tudo o que lá se vende: enfeites de Natal, mesmo em agosto!

Lá também havia quem se pusesse em pose para a foto!

E aquela rua é uma permanente animação, com gente que vai e vem todo o tempo!

Não admira, porque para além de ser uma terra famosa pelo seu habitante mais ilustre, é muito bonita, cheia de construções medievais extraordinárias, com pormenores encantadores!

A gente pode até imaginar o próprio Shakespeare a passar ali ao lado, de tão perfeito enquadramento da época se preservou!

Quando voltar a passar ali vou ficar num hotel daqueles!

Desta vez eu não tinha tido qualquer dificuldade em estacionar a minha motita, bem no meio da rua, junto de outras “coisas com duas rodas”!

Ela tinha despertado alguma atenção, havia gente parada a olhar para ela quando eu cheguei perto! Fico sempre orgulhosa quando isso acontece!

E sai uma selfie enquanto espero para passar no meio do transito!

Havia outra coisa que eu queria visitar ali: a Anne Hathaway’s Cottage.

Ali tive de pagar parque, fica original a minha motita com um bilhete pendurado nela!

E lá estava a casa!

“A Anne Hathaway’s Cottage é considerada uma das casas mais românticas da Inglaterra porque ali Shakespeare namorou Anne, a sua futura esposa. Uma casa do séc. XV com algumas atualizações posteriores, já que pertenceu à família até ao séc. XIX. Shakespeare tinha apenas 18 anos quando casou com Anne, que era mais velha uns 8 anos do que ele. Já na época ela engravidou e eles tiveram de casar rapidamente, pois era inaceitável haver filhos fora do casamento em pessoas de bem! Embora mais velha que o marido, ele faleceu 7 anos antes dela. A casa é muito bonita e os jardins muito grandes, cheios de árvores de fruto que eu fui “depenicando” ao passar. Perto da casa há um banco que é uma escultura, que lembra uma gôndola, e foi criada inspirada no “Mercador de Veneza”, uma peça de teatro de Shakespeare.”

(in Passeando pela vida – a página)

Os jardins são interessantes e levam-nos em passeio romântico de uns lados para os outros!

A casinha é tão encantadora que eu simplesmente não conseguia afastar-me dela!

Fotografava-a e voltava a fotografar, desenhava-a e voltava a desenhar, e quase me esquecia de ir ver por dentro!

E se por fora parece uma casinha de bonecas, por dentro ela é mesmo!

da “gôndola” o enquadramento era tão bonito!

E dali eu fiz alguns desenhos também, para além de me fazer fotografar!

Mas na redondeza tudo é tão bonito, até as simples casas de habitação dos vizinhos!

E o dia estava tão bonito que eu não resisti a ir a outro destino que tinha em mente havia muito tempo!

Lower Slaughter, mais uma terrinha de histórias de encantar que eu queria tanto ver!

Mas nada do que esperava se assemelhava realmente ao que encontrei! Porque, para além de uma vilazinha linda, que eu pensei que era apenas uma aldeia, as pessoas eram tão acolhedoras e simpáticas que me apeteceu ficar por ali mais tempo! E foi o que acabei por fazer!

Quando cheguei, pela margem direita do rio, as pessoas pararam! Eu tive a sensação de que tudo parou, pois quem estava na rua do outro lado do rio, ficou a olhar, seguindo a moto à medida que eu passava à procura de um lugar para parar. Fiquei apreensiva com a reacção, mas depois as pessoas sorriam para mim quando eu comecei a caminhar por ali, de máquina fotográfica em punho!

O rio Eye parece apenas um pequeno riacho desenhado por medida para atravessar a localidade, com a dimensão certa, sem perturbar nada e ainda tornar tudo mais encantador!

A igreja dedicada a St. Mary the Virgin, de origem ni séc. XII, mas reconstruída no séc. XVIII, também está lá “por medida”!

Uma terrinha linda não estaria completa sem uma igreja encantadora!

E as casinhas nas margens do rio espantosamente perfeitas, em pedra clara iluminando o ambiente!

Então quando cheguei ao moinho de água, com a sua roda e a chaminé, e puxei do meu livrinho, acho que foi o espanto total! Eu já nem sabia se devia desenhar ou seguir o meu caminho, pois varias pessoas se chegaram descaradamente a mim para ver!

Acabei por lhes dar o prazer de me verem desenhar o que era património seu! E foram momentos bem passados no final, acabando por conversar um pouco com as pessoas e desenhar outras casas na redondeza!

E sim, havia por ali gente, mas fizeram o favor de se afastar para eu poder tirar fotos e desenhar sem ninguém na frente! Tão queridos! Claro que me servi da sua simpatia e desenhei algumas perspectivas com pessoas na frente!

Foi tão bom ter ido ali! Deixou um sabor tão agradável de simpatia e gentileza, que fiquei com vontade de lá voltar!

E o dia estava a acabar em paisagens tão inspiradoras, como eu gosto tanto que aconteça em viagem!

E então segui para Londres, sem querer fazer mais nada senão saborear todos os encantos daquele dia. Eu estaria em Londres tempo suficiente para não precisar de me apressar em visitar a cidade a correr naquela noite!

E foi o fim do 25º dia de viagem…

30. Passeando por caminhos Celtas – Land’s End…até ao fim da terra!…

21 de agosto de 2014

Entre alguns erros frequentes que cometo estupidamente em viagem, está o esquecer-me de pensar em quilómetros quando leio milhas, e isso aconteceu-me naquele dia, tudo me pareceu mais perto do que realmente era, e não processei logo que as cerca de 500 milhas que faria naquele dia eram, na realidade, quase 800 km!

Claro que quando dei conta, nada mudou nos meus planos e continuei alegremente o meu caminho, apenas passando ao lado de algumas pequenas coisas que gostaria de ter visto, para poder chegar onde queria! Nada que me matasse de cansaço ou infelicidade, portanto, e fui até ao fim da terra, Land’s End!

Esta viagem ficaria marcada, entre outras coisas, pelos estádios que visitei e aqueles onde passei à porta, definitivamente! E o hostel onde eu pernoitava era bem em frente do estádio do Cardiff, o Milénium Stadium, da sala de estar eu podia ver a minha bonequinha em frente da janela, com o estádio do outro lado do rio Taff!

Ora naquele dia eu rumaria para sul, muito para sul, milhas e milhas a sul…

Sair de Cardiff em direcção a sul é aquela seca de dar uma grande volta. Em torno do recorte que a terra faz em torno do Bristol Chanel até ao river Severn, onde fica finalmente a primeira ponte para começar a descer o mapa!

E a estrada é uma seca, ao estilo de uma via rápida mas, na realidade, não se podem passar as 50 m/h (80km/h), o que torna a coisa lenta e morosa para caramba, dado que a estrada até é rápida e larga e a paisagem nada tem de inspirador!

Quando finalmente sai daquele carrossel chato, tratei rapidamente de me meter pelas ruelas do costume, aquelas que  parece que são de apenas um sentido mas na realidade são de dois!

Porque havia por ali uma vilazinha que eu queria visitar desde a minha ultima visita ao Reino Unido! Uma vila piscatória, por isso a costa seria o meu percurso de encanto!

E as perspectivas do mar ali de cima eram paradisíacas!

Clovelly é uma vilazinha piscatória no Devon.

Eu sabia que ela era encantadora, senão teria desistido de a visitar logo à chegada, ao perceber que tinha de pagar bilhete para entrar… mas além de eu saber que valeria a pena, as pessoas foram verdadeiramente simpáticas comigo, oferecendo-me espaço para deixar o capacete e o blusão e poder visitar tudo descontraidamente.

Então depois veio a descida, e que descida! A vilinha fica lá no fundo, depois de um percurso por ruelas a pique, pavimentadas em pedras redondas do mar, que nos fazem caminhar “ a travar” todo o tempo, sob o risco de escorregar e descer aquilo tudo de rabo pelo chão.

E tem degraus e nenhum veiculo ali pode circular, a não ser uma espécie de tobogãs, como na ilha da Madeira, que deslizam por ali abaixo com as cargas. Para as pessoas, só resta caminhar ou descer de burro! E chega-se ao ponto em que, numa curva apertada que passa por baixo de uma casa, se vê lá em baixo o portinho!

Parei e, não fosse o tempo fresco que por ali se fazia sentir, a sensação fazia lembrar a visita às Cinque Terre em Itália, no ano passado. Que bonito tudo por ali!

Tudo parece artificialmente perfeito ali, desde as casinhas, as ruelas, o porto e o próprio mar!

Pessoas de idade sofriam para chegar até ali, descendo com dificuldade a rua íngreme, pavimentada com pedras redondas que magoavam os pés!

Mas a descida valia a pena! Lá em baixo o ambiente era sereno, com as pessoas relaxadamente sentadas junto ao mar!

Do cais a perspetiva da vila, pelo monte acima, é vertiginosa e parte do casario não se pode mesmo ver cá de baixo!

Sentei-me empoleirada no mais alto degrau de pedra e tentei desenhar um pouco, mas havia muita gente atenta ao que eu estava a fazer, afinal ali no meio de toda a cor, eu parecia o zorro, toda vestida de preto, só me faltava a capa, e isso despertava as atenções!

Não estava calor nenhum, uns 17 ou 18 graus, mas aquela gente está habituada a aproveitar o sol e o bom tempo!

O pormenor da “areia” sempre me fascina! Olha-se para a praia e tem-se a sensação de se estar a olhar para a areia com uma grande lupa, pois ela não é mais que um mar de calhaus redondinhos!

E os visitantes enchiam o ambiente de cor…

Tinha de começar a subida… e isso já me estava a deixar cansada, mesmo antes de começar!

Dá-se a volta por trás das casas em frente à praia e volta-se a descer à areia, do outro lado!

E foi ali, depois da grande rampa de descida dos barcos, que eu me pus a fazer o meu montinho de pedras!

“Material” não faltava para fazer o montinho! Podia até decidir a sua dimensão pela escolha das pedrinhas apropriadas!

Havia lá outros já feitos, mas o meu ficou muito mais bonitinho!

E então, finalmente, comecei a subida! Não podia adiar mais se queria ir longe depois!

Os pormenores de cada casa eram encantadores!

Casinhas de brincar, era o que pareciam!

Como eu imaginara ao descer, a subida era vertiginosa e as casas vistas de baixo acentuavam essa sensação!

Tudo ali mereceu o bilhete que tive de pagar para visitar!

É um verdadeiro privilégio viver-se ali e vir-se à rua e ela ser assim!

Há ali hotéis, mas hospedar-me ali isso assustou-me um pouco! Como conseguiria eu hospedar-me numa vila onde a minha motita não poderia entrar?

E cá em cima, à saída da vila, encostei-me ao muro e pus-me a recuperar energias comendo amoras! Naquele país há tanta amora, coisa que adoro!

E então seguir para a Cornualha, o ultimo reduto celta do Reino Unido, para mim, que vinha de norte!

Eu tinha vontade de ir a Tintagel, uma outra pequena vila na costa atlântica, onde fica, segundo a lenda, o castelo do rei Artur! O caminho para lá valeu a pena, ruinhas estreitas, ladeadas de muros feitos de terra revestida a palha acabada de cortar e onde dois carros mal passavam um pelo outro!

Mas acabei por desistir de visitar o castelo! Ele ficava longe da vila e eu teria de caminhar até ele. A disposição para caminhar era pouca e o tempo menos ainda… por isso segui pelas ruelas até ao mar, numa praia de rocha dura, entre Treknow e Trebarwith. Em frente eu podia ver o Gull Rock, aquela pedrinha no meio do mar!

Eu precisava de tempo para ficar…

É naqueles momentos que eu tenho a sensação que nem que eu vivesse varias idas seguidas, nunca conseguiria ver e viver tudo o que queria… e eu tinha de ir embora, se queria ir até ao fim, naquele dia!

Voltei à estrada nacional, onde muitas coisas acontecem!

E depois de quilómetros de estrada, seguindo em filas de carros que seguiam para destinos no caminho do meu destino, cheguei!

“Cheguei a Land’s End ao anoitecer, o ponto mais ocidental da Cornualha e de toda a ilha. Um ponto mítico no Reino, usado frequentemente para definir eventos beneficentes com percursos entre os dois extremos, desde o norte – John O ‘Groats, até ao sul – Land’s End, de “end-to-end”. O céu era uma luta de nuvens que deixavam transparecer uma luminosidade quase surreal. Havia gente por ali, e festa e tudo, mas ninguém parecia reparar naquele céu deslumbrante! O fim da Inglaterra estava lindo!”

(in Passeando pela Vida – a página)

Ao longe podia ver a famosa “última casa da ilha”!

E junto a mim a famosa placa!

Não resisti, como não gosto de selfies, que deformam a cara toda à gente por serem tiradas de muito perto, depois de montes de pessoas me pedirem para lhes tirar fotos, pedi eu também que me tirassem uma foto a mim!

E captei uma imagem para fazer conjunto com a placa de John o’Groats!

Por ali não faltava festa, coisas para comprar e gente a passear, apesar do frio e do vento!

Também não faltavam registos de eventos passados, personalidades que foram até ali!

E o registo da distância entre Land’s End e a terra de cada viajante que ali se desloque! Fiz uma rodinha vermelha na foto…

… e ampliando a coisa, na rodinha vermelha que eu fiz na foto, lá estamos nós: Faro, Lisboa e Porto!

Captei uma última perspectiva do local, estava a noitecer e eu tinha de voltar a subir até Cardiff… O cenário tornou-se perfeito para mim, a placa, a ultima casa, as nuvens inspiradoras! Foi um bom momento, aquele em que me despedi!

Atravessei a festa de piratas que havia por lá,

E fui encontrar a minha bonequinha acompanhada por uma BMW americana de Oregon que, pelo aspeto e pelos autocolantes, já percorreu mais de meio planeta!

E tinha um autocolante de Portugal!
Uma pena não ter encontrado o condutor que, pelos 2 capacetes visíveis, estaria acompanhado com pendura! Provavelmente estariam hospedados no hotel, já não estava ninguém com aspeto de motard por ali em volta!

Para memória futura, a minha bonequinha e o Hotel Land’s End!

Mais à frente encontrei os vestígios celtas que faltavam para marcar a tradição!

Lá estavam as célebres cruzes!

E tinha quase 400 km para fazer até Cardiff, podia vê-los no GPS!

Cheguei de noite a casa, depois de algumas peripécias na estrada, que me deixaram a sensação de que receberia mais dia, menos dia uma multa de excesso de velocidade em casa… até hoje não chegou, mas ainda pode vir a caminho… ainda pode vir!

E foi o fim do 24º dia de viagem

29. Passeando por caminhos Celtas – …pelo País de Gales…

20 de agosto de 2014

Aquele seria um dia muito especial! Não apenas pelo que eu tinha planeado ver mas também pelo que eu tinha planeado fazer… ou tentar fazer, claro, pois há coisas que a gente nunca sabe se são mesmo possíveis até estar lá, no local!

Não seria um dia cheio de quilómetros, mas seria, seguramente, um dia cheio de emoções!

O País de Gales é uma das zonas celtas que eu mal tinha visitado da última vez que estivera no Reino e desta vez propunha-me a catar os seus recantos mais encantadores, porque as ruelas são ladeadas de casinhas que lembram os contos de fadas e as histórias de encantar!

Embora eu não seja arquitecta, as casas de cada país, zona, ou aldeia, sempre me fascinam! Gosto de ver como vivem as pessoas, que gostos têm, que decorações usam, por aí fora, por onde passo! Então as casinhas de telhado de colmo, que se encontram pelo Reino Unido, são um encanto.

Para além do telhado de colmo, tão comum em tantos países, como no nosso, por ali têm requintes de decoração em palha no topo, onde se separam as águas, e são mesmo dignas de histórias de encantar.

Depois os jardins, com plantas que frequentemente são trepadeiras, completam o quadro, por trás de muros que não nos impedem de ver quão bonito é tudo ali dentro. Um quadro pintado a cada curva do caminho, quando se passeia com calma por terras de sua majestade!

E todo este encanto ficava no caminho para o primeiro destino do dia!

O Castle Combe Circuit!

Eu tinha lido que se podia correr ali mas apenas encontrara tarifas para grupos de 6 motos, por isso não sabia se eu podia dar uma corridinha por ali com a minha moto!

Fui-me aproximando, dei uma volta ao circuito por fora e acabei por meter conversa com uns e com outros.

Aquela gente olhou para mim como se eu fosse um ET, meio espantados pela minha motita!
Eu sabia que aquela hora era das motos, podia vê-las a correr…

Tinha de concordar que a minha moto não era a coisa mais previsível para aparecer ali, no meio das “Rs”, para correr!

E aquela gente não me levava a sério, acho que pensavam que eu apenas queria ver o povo correr!

Quando entenderam finalmente que eu queria correr um pouco com a minha moto, que ela andava há dias demais a baixas velocidades e queríamos, eu e ela, dar o gosto ao dedo e leva-la ao limite, houve um sorriso geral!

“A moto não é muito rápida!” – dizia um

“Claro que não é, mas é rápida o suficiente para fazer o que aqueles estão a fazer na pista com motos muito mais rápidas que a minha!” – respondia eu.

“Quanto dá?”

“Muito mais do que eles estão a dar ali!” – eu via-os a passar na pista e não iam a mais de uns 130 ou 140 km/h. O preconceito de que a minha moto é enorme e anda devagar não os deixava pensar que 130 ou 140 km/h qualquer moto dá! – “A minha moto dá 250 km/h e está sem top case, por isso conduzi-la na pista é só uma questão de habilidade minha!”

Havia um sorriso nos rostos deles, acho que um sorriso irónico! Então alguém me ofereceu 5 voltas!

“Deixe aqui tudo, eles vão sair daqui a pouco e você tem 5 voltas por sua conta! Nós vamos ficar aqui a ver, qualquer coisa e pare, não arrisque!”

O meu coração deu um salto!

Tratei rapidamente de me preparar, deram-me uma joelheiras para eu pôr por cima das calças, apertei-me toda, prendi o cabelo, enfiei o capacete, fui para a moto e fiquei à espera.

As motos foram saindo e os pilotos ficavam a olhar para mim, gente comum que ia para ali correr, como eu, a única diferença é que eram todos homens e com motos de pista!

Então entrei!

Eu tinha estudado a planta da pista em casa e ali nos placares, mas percorre-la era outra coisa bem diferente! Tinha a consciência de que todos os olhos estavam postos em mim, algures lá para trás, mas ignorei tudo isso mal comecei a conhecer o percurso, e sim, dei muito mais do que os 130 ou 140 km/h!

Que sensação, depois de tantos dias a conduzir em baixas velocidades, poder correr livremente.

Houve retas em que o ponteiro passou os 230 km/h. A pista não é muito grande mas tem curvas largas que se fazem a mais de 180km/k e fui perdendo a noção de quantas voltas dei, até que alguém na berma da pista me fez sinal para sair. Claro que teve de esperar que eu desse mais uma volta pois eu vi o sinal de relance e não dava mais para sair logo!

Quando me apanharam cá fora fizeram um escândalo! Como me atrevia eu a correr daquela maneira com uma moto daquela dimensão e sem conhecer a pista!

Afinal em que ficamos? Primeiro não devia correr porque a moto andava pouco, depois escandalizam-se porque eu corri para caramba?

Que nada, diz-me o homem que me ofereceu as 5 voltas, foi um prazer para os olhos verem-me brincar com a minha moto gigante a tamanhas velocidades, as outras motos até podiam ter continuado a correr que a minha moto não teria perturbado nada! Parabéns! Então bateram-me palmas e tudo! De onde vinha eu? Portugal? E os meus colegas de viagem onde andavam? Não havia colegas, eu viajava sozinha! Quase se fez silêncio! Sozinha por ali com aquela moto?

E pronto, tive direito também a chá e a bolachas só por andar a viajar pelo Reino, depois de ter vindo da República da Irlanda, completamente sozinha, com uma moto enorme e a correr em circuito como se fosse a minha segunda profissão! Eheheh

Senti-me uma estrela!

E com isto foi-se quase toda a manhã! Saí dali com a energia renovada e ainda cheia de adrenalina, que foi passando pelas ruelas que fui fazendo a seguir e onde nem pensar em dar mais que os 90km/h permitidos por lei! A bem dizer, quem daria os 90 por aquelas ruinhas?

Comecei a procura de uma aldeia encantadora que tinha em mente, dei voltas e voltas e voltava sempre ao ponto de partida! Parecia um filme de terror, a lembrar o Pesadelo em Elm Street, quando as pessoas tentam sair da cidade e voltam sempre ao mesmo sitio!

Parei numa St Peter’s Church porque na falta do que procurava há sempre outras coisas para ver no caminho!

O que me chamou a atenção da rua foi uma cruz esculpida numa peça só, a partir do tronco de uma árvore! Uma cruz céltica!

O que eu gosto daqueles ambientes!

E lá estava elas de novo, as cruzes! Desenhei mais uma ou duas para a minha colecção de cruzes recolhidas nos países celtas! Lindas!

A cruz de uma peça só fascinou-me!

E na falta do que procurava e não encontrava, segui as placas até a Malmesbury abbey.
“À procura do que quero ver, vou vendo tudo o que me aparecer no caminho e pronto!”

Uma abadia espantosa, românica, com uma história rara de vida monástica continua desde a sua fundação no séc. VII até ao fim das congregações e mosteiros no séc XVI

Acho sempre curiosa a maneira como a porta de entrada é assumida lateralmente e não pela fachada, como fazemos por cá em geral!

E a porta é linda!

O interior é surpreendente! A simplicidade do estilo românico é mantido e a altura da nave torna-se vertiginosamente acentuada pela nudez das paredes! Lindo!

Impossível não andar por ali de nariz no ar!

Há traços posteriores, de “arcos quebrados”, o que só torna o conjunto mais fascinante!

E o teto, espectacular!

Para quem não quisesse andar por ali de nariz no ar para ver a abobada, um espelho, estrategicamente colocado, tornava a tarefa mais fácil!

E como em todas as igrejas e catedrais naquele país, lá estava o cafezinho onde se serviam chá e bolos!

Estava um belo dia de sol, apetecia mesmo passear por ali, junto da belíssima construção!

Parte do complexo religioso está em ruinas, o que permite enquadramentos muito bonitos!

E onde deveria ser a porta principal, a fachada, no extremo oposto ao altar mor, fica uma parede fechada!

A cidadezinha de Malmesbury é muito bonita e pitoresca, com casas lindas e ruas estreitas, de traçado medieval!

E na saída do jardim, pelas traseiras da abadia, fica uma escultura impressionante, bem no meio do portão. Dois homens que lutam acrobaticamente!

Uma obra tão expressiva que me encostei ali a desenha-la um pouco!

Estava eu naquela contemplação fascinada quando aprecio o jardineiro que andava por ali a tratar dos jardins! E não é que o homem usava apenas uma t-shirt como indumentária! Eu vi-lhe mesmo o rabo quando se inclinou sobre as sebes! Eheheheh

Muito próprio para quem trabalha nos jardins de uma igreja! Eheheheh

E a minha procura continuou mais um pouco… os caminhos que percorria eram lindos, o dia estava espantoso e só me apetecia dar voltas e mais voltas pela zona! Parei num café/restaurante, só pelo encanto que era!

O The Baker’s Arms era a coisa mais encantadora! Sai mais um chá que café nem vale a pena pensar!

As ruas mais simples são lindas por ali!

“A minha ida até Castle Combe não foi nada inocente, havia coisas que eu queria fazer ali, mas a aldeia em si, não foi fácil de encontrar. Depois de umas corridas, que também sabem bem numa viagem essencialmente feita em baixas velocidades, andei para trás e para a frente por ruelas infinitas, sem conseguir encontrar… então decidi desistir! Às vezes é preciso saber-se deixar cair uma ideia para seguir outras mais possíveis!”

“E foi quando desisti que a encontrei!
O deslumbramento do local acolheu-me assim, na berma da estrada que eu escolhera fazer.
Pousei a moto entre os carros, junto a um grupo de velhotes, sentado no muro. Perguntei se incomodava eu deixar ali a moto, não, não incomodava nada. Fiquei um pouco por ali, sentada no mesmo muro a desenhar um pouco! Então uma das velhotas chegou-se a mim e perguntou-me de onde eu era, pois os seus amigos questionavam o “P” da minha moto mas estavam envergonhados de perguntar. “Sou portuguesa” disse eu “ah, eu bem dizia que não era da Polónia!” exclamou ela. Disse-me que era irlandesa mas estava na Inglaterra há muitos anos. “Lindo país, eu venho de lá nesta viagem!” todo o seu rosto se iluminou às minhas palavras. O tempo que eu ali fiquei a divagar sobre as 2 Irlandas, a alegria que se instalou naquela ponta do muro….”

(in Passeando pela vida – a página)

Arlington Row, em Bibury, com o rio Coln a completar o quadro, considerada desde o séc. XIX “a mais bela aldeia de Inglaterra”, por um artista famoso quando a visitou.

E as casinhas lá estavam, tão típicas da zona, mas aquelas bem alinhadas, de pedra cor-de-mel e telhados a condizer, como se fosse um cenário ali posto para os turistas verem!

É tudo tão bonito ali!

O tempo que eu andei por ali, fartei-me de desenhar casinhas lindas com flores e pormenores encantadores!

Então os enquadramentos daquelas casas encantadoras com uma moto em frente, deliciaram-me!

Pormenores decorativos surreais…

e outros reais!

Então cruzei com o segundo casamento da minha viagem!

Não cheguei a entender se aquele seria o noivo ou o pai da noiva!

As pitorescas casas Arlington Row foram construídas em 1380 como uma loja de lã monástica. Continuam hoje como eram, alinhadas e lindas!

Valera a pena catar a zona à procura da aldeiazinha!

A igreja mais à frente, na mesma pedra bege, rodeada por um jardim com florinhas!

Eu gosto de ver por dentro igrejas de outras religiões! Há sempre algo de diferente do que estou a costumada a ver numa igreja!

O cemitério no jardim da igreja é a coisa mais comum e esperada por aquelas terras! Quase senti falta de ter algo do género por cá pelas nossas terras também!

E segui para a última etapa do meu passeio por terras galesas, do Gloucestershire para o Oxfordshire para chegar a Burford.

Sempre na rota das terras mais bonitas do Reino! De origem saxónica a cidade é encantadora, com o traçado e construções medievais bem visíveis!

Entrei na cidade pela parte de cima, pela High Street, e ainda bem, pois pude ver a rua principal até ao fundo, cheia de movimentos, casas encantadoras e esplanadas que se sucediam à minha passagem! Lindo!

Queria comer e aquele era o ambiente perfeito! Sentei-me numa esplanada, com a moto bem pertinho, e pedi um pequeno-almoço, que ali se serve todo o dia!

Claro que um pequeno-almoço ali não tem nada a ver com malgas de café com leite e torradas!

Tem mais a ver com comida variada, com direito a ovos e feijões e tudo que, acompanhado com cerveja é mil vezes melhor que comidas suspeitas, feitas de fritos cobertos com camadas de massa frita encharcada em óleo!

Fico sempre na dúvida se uma casa daquelas se irá aguentar de pé por muitos mais anos, com os tetos todos tortos, deformados pelo tempo!

Mas parece que estão para durar!

Que bem que a minha motita ficava naquele ambiente!

As lojinhas são encantadoras e apetece entrar em todas!

Não admira que Burford seja o lar de diversos escritores, na realidade ali tudo inspira para escrever, e desenhar, e pintar e acredito que para fazer música e dançar também, só para falar nas artes mais populares!

E voltei a subir a High Street, com vontade de parar a cada momento para ver e fotografar cada casa por onde passava!

Ainda havia um sítio onde eu queria passar, certamente não para visitar longamente mas para ver! Se não desse para ver da rua, pelo menos o caminho até lá era bonito, por isso não seria tudo perdido!

Eu queria ver uma abadia em ruinas, daquelas coisas que me fascinam sempre e segui pela margem do rio Wye até ela!

Sim, era visível da rua e não, não iria pagar para a visitar!

Simplesmente não podia andar a pagar para ver tudo o que me passava pela cabeça! Depois uma ruina daquela dimensão, tão visível da rua, não justificava um pagamento para a ver por dentro! Com muita pena minha, mas seria de fora que eu a veria e pronto!

A Tintern Abbey, vem desde o séc. XII cheia de história feita de remodelações, reconstruções, destruições e finalmente abandono por séculos, até ao séc XVII, quando o romantismo despertou o interesse pelo misterioso e impressionante da construção, exacervada por poemas e textos. Desde então tem sido mantida e protegida.

Claro que não se pode esquecer que foi utilizada para o videoclip dos Iron Maiden – Can I Play With Madness

Provoca-me sempre uma grande sensação estar na presença de tão fantástica construção em ruinas!

“O poder que uma abadia em ruinas tem é impressionante, como se uma força ela exercesse sobre mim e me deixasse quase paralisada de respeito de admiração. É sempre assim! Então fico a olhar e, intimamente, agradeço o facto de estar sozinha, apenas e eu e ela, e todo um mundo de sensações que me percorrem! A Tintern Abbey voltou a provocar esse efeito, não entrei, não pude por isso percorrer o seu interior mas, mesmo assim, o seu poder avassalou-me! Uma construção do séc. XII mostra hoje vestígios de séculos de transformações arquitetónicas, até ser deixada ao abandono por tempos que se perdem no tempo até alguém no séc. XIX voltar a dar valor ao seu corpo esquelético, mas muito belo, e o estudar. Quando foi considerado monumento de interesse nacional e foi finalmente protegido…”

(in Passeando pela vida – a página)

Os seus pormenores impressionantes… como aquilo se manteve de pé por tanto séculos em ruinas?

A minha motita parece insignificante e minúscula junto dela!

Uma ultima olhada e segui para Cardiff…

Ainda era dia por isso fui passear um pouco pela cidade e ainda não ficariam por ali as minhas visitas a igrejas e cemitérios!

A catedral estava a chamar-me a atenção, ainda por cima tinham-me indicado um sitio para comer lá perto! Ora, era cedo para comer, por isso fui passear pela redondeza!

A Llandaff Cathedral é anglicana e fica perto da margem do rio Taff na antiga “Cidade de Llandaff” que hoje é rodeada por Cardiff e por isso faz parte dela.

Estava fechada e ouvia-se lá dentro música. Alguém estava a ensaiar órgão e coros, ainda me sentei perto a ouvir mas depois fui andando pela propriedade da igreja. Soube depois que a música é tradição da igreja, com coros de homens e rapazes!

Tem origem normanda e foi sofrendo transformações ao longo dos séculos desde o séc. XII e lá estavam as cruzes celtas, num dos sítios cristão mais antigo da Grã-Bretanha! Lindo!

Então fui seguindo os caminhos, saindo da relva bem aparada em torno da igreja e percorrendo trilhos que me levaram por aquilo que parecia um cemitério abandonado, embora começasse logo ali, ao lado da catedral!

De cruz celta em cruz celta pelo meio do mato… eu podia ve-las ao longe, parecia gente no meio do caminho!

“Eu nunca fui dada a medos de cemitérios, mortos ou locais assombrados, passeio-me por eles como por jardins incomuns, apenas! Mas passear pelo cemitério de Cardiff foi a coisa mais parecida com um filmezinho de terror que se possa imaginar! É enorme, fica mesmo ao lado da catedral e tem todo o ar de coisa abandonada, cheio de ervas altas e mato, de onde brotam as tumbas antigas e desalinhadas, com cruzes celtas à mistura. Não bastando o cenário já sombrio por si, o entardecer tornava tudo ainda mais a puxar para o sinistro, quando a vegetação encobria a já pouca luz do dia e eu cruzava com enormes árvores centenárias que preenchiam quase todo o meu caminho, que não era mais que um carreiro de folhas pisadas. Ao longe ouvia as risadas dos miúdos que jogavam futebol numa clareira que eu vira ao chegar e que já ficara para trás há muito. Ninguém parece preocupar-se com um cemitério por ali, de repente miúdos passavam por mim em bicicletas de montanha em grande velocidade, como se o cemitério fosse o sítio mais comum para se brincar. E tornou-se noite, e ninguém pareceu se importar, nem eu, que continuei as minhas explorações, pensando numa meia dúzia de pessoas que conheço que desmaiariam de terror se se encontrassem ali naquele momento. E não, nenhum morto se ergueu para me matar à dentada!”

(in Passeando pela vida – a página)

E se eu me perdesse por ali pelo cemitério? É que aquilo parecia que não tinha fim! A única coisa que me provocava alguma apreensão eram os rapazes que eu ouvia ao longe e que passavam perto nas suas bicicletas. Os mortos nunca me preocupam, os vivos sim, porque lhes chamo miúdos, mas não eram tão miúdos assim, eram mais jovens para lá de teenagers!

Mas a preocupação não era assim tanta que me impedisse de sentar numa tumba a comer amoras! Eheheheh
Eu adoro amoras silvestres!

E lá voltei ao mundo dos vivos, placidamente!

Fui comer qualquer coisa…

E foi o fim de dia no jardim do hostel, com direito a internet na rua e tudo, só para gelar um pouco os dedos!

E foi o fim do 23º dia de viagem