4. Passeando por caminhos Celtas – subindo a França da Aquitaine até ao Limousin…

30 de julho de 2014

Todos os dias são dias bons para viajar, sobretudo quando se tem tanta vontade de o fazer! Tinha pela frente um dia para subir de uma região da França para outra, da Aquitaine até ao Limousine, ambas regiões encantadoras que visito sempre com muito prazer a cada vez que por ali passo! E tenho sempre em mente meia dúzia de sítios onde posso passar porque são lindos!

Fui-me despedindo de Saint-Jean-Pied-de Port, as portas e janelas são encantadoras por ali, vermelhas em contraste com as parede brancas e sempre com flores a completar o quadro!

Também as há em verde, igualmente com flores. Aquelas casinhas medievais são de prender mesmo toda a nossa atenção!

Janelas lindas!

A minha motita dormiu fora da muralha mas iria sair pela porta grande, atravessando todo o povoado!

Lá fui, descendo a rua onde estava hospedada e que é a rua principal da citânia. Não se pode circular por ali normalmente, mas de manhã cedo tudo é permitido, sobretudo quando se está de moto e se está de partida!

Aquilo é lindo, apesar do céu não estar azul!

Aliás, ele estava tudo menos azul, naquele dia! As nuvens estavam mesmo pouco acima do nível do chão!

Um viajante me acompanhou por mais de 40 km, bem agarrado ao vidro da minha motita! Como será para um bicho, um inseto, ver-se de repente a mais de 40km do sítio onde costuma viver? Será que tenta voltar ao ninho ou junta-se aos da sua espécie na terra onde foi ter?

Sauveterre-de-Béarn apareceu no meu caminho, com gente simpática e um ambiente giro para tomar um café, delicioso se o comparar com os cafés horrendos que me esperavam no Reino Unido!

As cidadezinhas naquela zona são encantadoras, parecem terrinhas de brincar, tiradas de livros de contos, com paisagens verdes a condizer!

É o caso de Orthez, com a sua Pont Vieux do séc. XIII, encantadora!

Por aquela altura o meu passageiro continuava comigo, mesmo depois de eu ter desmontado varias vezes e demorado a fotografar e desenhar! Parecia um pouco impaciente, pois ia dando uma olhada ao GPS. Devia ter pressa de chagar algures!

Antes de sair da Aquitaine ainda passei por Mont-de-Marsan, uma cidade cheia de história e com pormenores muito bonitos, afinal tem a sua origem medieval bem visível!

Mas o céu estava meio encoberto e não me inspirava muito andar por ali! Terei de lá voltar noutra passagem pela zona!

Quando tenho muitos quilómetros para fazer aproveito sempre para encontrar o sol, pois certamente ele estará algures mais para longe, no meu caminho!
E assim era, havia sol e girassóis!

Ao longe vi Pujols, um mimo de cidadezinha no topo de uma colina, que eu quero ver noutra altura que ali passe!

E depois Villeneuve-sur-Lot, porque por ali parece que todas as terrinhas são bonitas para se visitar, la parei de novo!

Estava calor e eu tinha de beber algo bem fresquinho!

A cidadezinha é encantadora e havia uma ou duas coisas que eu queria ver por lá.

Como a Eglise Sainte Catherine d’Alexandrie. Eu sempre sinto um fascínio por igrejas vermelhas e em França há algumas!

A igreja não é muito antiga, é do final do séc. XIX e juntando dois estilo românico e bizantino

Numa imagem impressa no local a perspetiva é espantosa!

Fascinou-me mesmo, sobretudo a sua longa torre que sobressai no meio da praça de uma forma impressionante!

E dentro é muito bonita! Com pormenores da época bem elaborados…

E intervenções modernas muito curiosas, que prenderam completamente a minha atenção, como aquela espécie de pórtico em madeira pintado de formas e cores muito interessantes!

Quando cheguei até à minha motita, ela tinha feito amigas! É tão bom passear em França, onde a gente pode parar a moto onde quiser sem qualquer stress, em cima do passeio, numa berma de estrada ou onde ela couber sem perturbar o trânsito! Adoro a França por isso!

Mas o que eu precisava mesmo era de fazer umas estradinhas daquelas onde ninguém anda e onde parece que só passa a minha moto! É sempre o meu fascínio e nesta viagem levei um fartote delas! Uma delícia!

Ainda por cima essas ruínhas levam frequentemente a recantos muito bonitos onde não há ninguém e onde eu posso sempre parar e curtir uma pausa, sem qualquer stress!

Depois passei em Cahors, aquela cidade onde eu estive há dois anos, mas o transito era tanto, o calor tão sufocante e o céu tão cinzento, que eu fui embora quase sem nem explorar um pouco! Desta vez fui direta à Pont Valentré, que era tudo o que eu queria ver lá !

Aquela ponte fascina-me ! Também é conhecida como Pont du Diable. É uma ponte fortificada do séc. XIV que atravessa o Lot e é linda !

Andei por ali, para trás e para a frente, havia muita gente sobre ela e muita gente me pedia para as fotografar com a ponte como fundo. As pessoas adoram isso !

O Lot estava muito bonito! Quando está sol e nuvens tudo parece mais bonito afinal!

E ao menos lá em baixo não havia multidões de pessoas sedentas de se fazer fotografar junto da ponte!

Como sempre a Ninfa pôde ficar mesmo pertinho da Ponte à minha espera! Na França isso é sempre possível!

Então aconteceu-me algo inesperado… a maquina maior, uma Sony Cyber-Shot DSC-H200, que usa pilhas, foi-se! E eu não tinha mais pilhas para ela!

E como se não bastasse… acabou a bateria da maquina fotográfica menor, uma Sony Cyber-shot DSC-HX20V. Fui trocar a bateria e a 2ª estava descarregada. Bolas, como não me dei conta de que não tinha todas as baterias carregadas?

Mas eu tenho uma 3º, porque as minhas ultimas maquinas usaram sempre estas baterias, por isso foram-se as maquinas mas ficaram as baterias!

Raiva descontrolada mesmo… a 3ª também estava descarregada!

Segui o meu caminho completamente frustrada…

Raios! Claro que eu não tinha maquina fotográfica operacional mas tinha olhinhos para ver ! Por isso, apesar da frustração, segui para Saint-Cirq-Lapopie!

Ora Saint-Cirq-Lapopie é uma cidadezinha medieval espantosa, no topo de um monte, que desce pelo penhasco até formar um precipício sobre o rio Lot, lá em baixo. Seria uma frustração visita-la sem poder fotografar…

Cheguei à entrada da cidade, uma grande confusão de trânsito me esperava. Por tras de um grande autocarro estava o estacionamento das motos… cheio de motos mal estacionadas, que ocupavam o dobro do espaço que deviam…

Escrevia eu no meu Facebook naquele dia:

“Hoje aconteceu-me algo que não me lembro que me tenha acontecido nunca…. fiquei sem bateria na maquina menor e sem pilha na maquina maior! Que frustração!
Queria pousar a moto numa aldeia medieval lindíssima, não tinha maquina mas tinha olhinhos para ver, mas o parque para motos estava repleto de motocas mal estacionadas e a minha não cabia “is too big!” repetia o polícia “too big o caraças esses caramelos é que não sabem estacionar direito!”
Deu-me um ataque de mau feitio, parei a moto na frente de todas as outras e pus-me a desenhar, só saí quando acabei todos os sarrabiscos! Os donos das motos? Esperaram, para ver se aprendem a estacionar.
Fotos do local…. nem uma!

Alguns desenhitos que fiz:

Foram desenhos rápidos, havia muita gente por ali e criou-se um interesse particular por mim e pelo que eu estava a fazer, já que havia motociclistas a querer sair e a minha moto não deixava!

Dois ou três vieram mesmo ver-me desenhar, juntando-se a outras pessoas que olhavam com curiosidade! Um senhor queria comprar-me um desenho e uma senhora queria que eu fizesse o seu retrato com a cidade como fundo! Oh valha-me Deus! Arrumei a tasca e pus-me a andar rindo à gargalhada! eheheh

E ainda tirei uma ou duas fotos com o telemóvel, mas aquilo merecia muito maior qualidade…

Eu tenho de lá voltar!

E fui para casa, que naquele dia era em Les Pradelles, Lapleau, no mesmo sítio onde fiquei há 2 anos atrás quando voltava do meu passeio pela Suíça e Bélgica.

Foi muito bonito ser recebida com um abraço e um ótimo jantar, como se lá tivesse estado apenas no dia anterior!

“Ninguém esquece uma super-mulher numa super-moto!” – foi a receção!

E foi o fim do 2º dia de viagem!

3. Passeando por caminhos Celtas – até Saint-Jean-Pied-de-Port…

E como já vai sendo habito, tudo acontece antes de eu partir!

Parece que tudo conspira para desviar a minha atenção da empreitada que me proponho fazer e dos preparativos que procuro ultimar!

Desta vez foi a máquina fotográfica mais pequena, mais pequena mas muito melhor que a maior, aquela que avariou no ano passado e não veio a tempo da viagem e me obrigou a comprar uma nova (a maior) à última da hora! Pronto, este ano só foi à Sony umas 3 ou 4 vezes antes de partir, porque avariou o leitor de cartões, porque meteu porcarias dentro da lente, porque o estabilizador se passou e sei lá mais o quê!

Mas teve de se cuidar pois desta vez eu tinha a outra e nem cheguei verdadeiramente a stressar “Não queres ir? Ficas em casa e eu levo a outra que já foi à Roménia e portou-se muito bem!” e ela acabou por se pôr fina e ir comigo de viagem sim senhor, e trabalhar bem (mais ou menos) toda a viagem e não se falou mais do assunto!

Ora como eu não stressei com a máquina fotográfica o GPS juntou-se à festa e stressou ele! Foi para a Garmin em Barcelona e tudo. Lá veio melhor mas não a 100%, mas também não stressei por isso, o meu amigo Filipe Marques emprestou-me a sua Lulu, que é gémea do meu Rafael, e lá segui viagem com um casal de GPS. Não seria por isso que eu me perderia pelo mundo!

Uma última visita à Mototrofa, para trocar os punhos aquecidos que estavam meio derretidos por uns novos fornecidos pela garantia. E que bem que fiz em tratar disso, pois com o frio que apanhei usei-os todos os dias e sempre quase na temperatura máxima!

A motita é jovem mas já muito experiente! Estava em plena forma para partir!

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29 de julho de 2014

Há muito que eu deixei de me preocupar com o levantar muito cedo para partir numa viagem! Levanto-me quando acordar, sem usar sequer o despertador, e logo se vê como vai ser a seguir! Assim posso despedir-me direito do meu moçoilo, sem ter de o acordar de madrugada, ele vem ajudar-me a pôr tudo na moto e tira-me as ultimas fotos e tudo! Que mais posso querer?

E é sempre aquela sensação, não estou a sair de casa mais uma vez, como faço todos os dias! Estou a sair de casa para só voltar depois de muito ver, muito rolar e muito viver! É tão boa a sensação!!

Outro ritual que já vai sendo habitual é ir imprimir e encadernar o meu livro de viagem, onde tenho tudo planeado, desde o que posso querer ver, até reservas de dormidas e ferrys! Como tudo vem ficando para a última hora, também é na última hora que imprimo a coisa, as meninas da Telma-copias já se estão a habituar à minha visita e ao “Boa viagem” no final!

E naquele dia eu não iria fazer nada de especial, apenas conduzir, conduzir e conduzir, até ao sul de França, direto.

Claro que acabo sempre por parar aqui ou ali… mas nada de especial!

Os Pirenéus sempre me fascinam e eu queria passar a noite lá, numa terrinha deliciosa onde passei há dois anos e que adorei!

Oh, a sensação de conduzir tanto tempo seguido era tão boa que eu simplesmente quase não conseguia parar, até a tarde estar a chegar ao fim e o sol começar a brincar comigo, em paisagens deslumbrantes. Aí eu fui rapando da máquina e tirando algumas fotos.

E cheguei a Saint-Jean-Pied-de-Port e escrevia eu no meu facebook:

“Saint-Jean-Pied-de-Port, quase 900 km depois cá estou de novo! A última vez que aqui estive a minha motita estava mutilada, depois de ter batido dias antes de partir. Uma dor de alma, num ambiente tão bonito olhar para a minha moto partida! Mas hoje o conjunto está perfeito e a minha Ninfa já espantou olhos, parada no centro da cidadezinha, com montes de gente em seu redor a ler todos os seus autocolantes! Que belo dia para passear!”

O hostel ficava mesmo dentro das muralhas, numa casinha recuperada encantadora! Todas as casinhas por ali são encantadoras, afinal!

Fui comer finalmente, comida de panela, de alguma forma eu já sabia que esta viagem seria de comidas de plástico por isso tinha de aproveitar enquanto estava num pais onde se cozinha!

E o sol pôs-se lindo quando eu passeava pelas ruelas!

Era tudo o que eu queria, ver a cidadezinha de noite, com as suas muralhas e pontes e o rio Nive a passar logo ali!

“Em Saint Jean Pied de Port, convergem as três grandes vias do Caminho de Santiago no território francês, de Paris, Le Puy e de Vecelay (Chemin de Saint-Jacques des Pyrénées-Atlantiques) e isso é visível pelo centro de apoio e pela igreja de Nossa Senhora.” (Passeando até à Suiça 2012)

Tão bonito tudo por ali! Tão relaxante e sossegado! Adoro aquela terra!

Ouviam-se vozes que vinham da igreja e eu fui espreitar! Era um coro que fazia lembrar os cantares alentejanos. Pude perceber pelos cartazes à porta que se tratava do Coro Basco de Homens Gogotik e cantavam tão bem! Umas senhoras encostaram-se mais umas às outras, num banco da igreja, para me arranjarem lugar e eu fiquei ali, maravilhada a ouvir! Era lindo!

E acabei por voltar calmamente para “casa”. O pátio do hostel era uma maravilha para se estar ao serão, em conversas sussurradas em diversas línguas e eu, que nem estudei muitas línguas, era a que falava e entendia mais pessoas que falavam em inglês, em francês, em espanhol e em italiano! Foi tão giro!

E foi o fim do primeiro dia de viagem, cheio de encanto e desejos realizados, depois de tanto tempo sonhando em partir, em conduzir muitos quilómetros seguidos, em conhecer terras e gentes…

2. Passeando por caminhos Celtas

Um ano sem passear…

Um ano sem me mover livremente como sempre fui fazendo na minha vida…

Um ano presa a recordações, e receios, e à incerteza de poder ou não voltar a partir para uma longa jornada!

Ao contrário do que muita gente pode pensar, eu não sonho longamente com cada viagem, penso de vez em quando se poderei ir ali ou acolá, mas nada projeto! Vou recolhendo ao longo do tempo tudo o que encontro, ou me enviam, sobre todos os países e vou arquivando essa informação em pastas com o nome de cada país a que pertencem, nada mais. Quando decido onde vou, pego em cada uma das pastas de cada país onde passarei e vejo o que lá tenho.

Mas não sonho demais.

Tenho alguma dificuldade em lidar com sonhos irrealizados, por isso os meus sonhos são para realizar, então sonho à medida do que posso fazer e pronto!

E assim como os meus sonhos são para realizar, as promessas que faço a mim mesma também e há 3 anos que eu prometera voltar a terras britânicas, realizar o que não pude nesse tempo, quando a minha motinha avariou e me impediu também de ir até à Irlanda. Por isso, quando chegou a hora de perceber que poderia viajar, o destino foi marcado muito facilmente!

Foi quando comecei a desenhar e a marcar o meu caminho!

Desta vez eu iria dormir diversas vezes no mesmo local, não haveria necessidade de andar de um lado para o outro todos os dias, quando o território em que me movia não era assim tão extenso que o exigisse, por isso as 34 noites foram passadas em 19 sítios, o que fez uma média de quase 2 noites em cada local.

E foi neste momento que eu comuniquei aos meus amigos que estaria, durante todo o meu mês de agosto, “Passeando por caminhos Celtas”… porque nós somos celtas e todos os povos por onde passei o são!

Um mapa da presença celta pode ilustrar melhor por onde andei…

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Glasgow – 12 de agosto de 2014

Glasgow ficará para sempre lembrada como a terra do azar para mim! Se alguma vez eu disser que vou voltar à Escócia, por favor alguém me lembre de não ficar em Glasgow, apenas passar e andar!

Apenas falhou por uns 7 dias para ser exatamente 3 anos depois do tal dia 19 de agosto de 2011, quando o primeiro azar se manifestou…

Pois, e hoje foi dia de azar de novo!

Às vezes perguntam-me como farei eu se tiver um azar em viagem, estando sozinha, uma avaria um furo, qualquer coisa!

Uma avaria, tive-a cá no tal dia 19 de agosto e resolvi-a com a minha seguradora e a gente daqui.

Um furo, tive-o hoje e resolvi-o conduzindo por cerca de 40 milhas até chegar onde me pudessem ajudar. Gente simpática, de oficina em oficina, lá me foram mantendo o pneu suficientemente alto para a jante não chegar ao chão, até chegar a uma oficina Honda em Ayr.

O furo? Era uma enormidade, o que foi mantendo um pouco de ar foi o próprio parafuso que o provocou. Um parafuso enorme que atravessou o pneu em dois sítios, por onde entrou e por onde saiu a ponta!

O parafuso era esta coisa monstruosa!

Tudo está bem quando acaba bem… espero!

Até amanhã!

1. Passeando por caminhos Celtas

Cucu!

Pois é, já parti o meu porquinho e já decidi o que vou fazer a seguir!

Não importa quanto tinha, importa o que posso fazer com o que tinha…

E o desenho foi feito à medida do que posso fazer!

Então, depois do azar que tive em 2011 com a minha Magnifica, volto para completar as minhas explorações e passear por essas terras celtas que tanto me chamam há tempo demais!

O meu plano A era outro, mas irrealizável para já, por isso sai o plano B, que será memorável!

Desta vez, baseada no “queres que te faça um desenho?” para ilustrar um pouco do que quero fazer fiz mesmo um desenho!

Digam-me que não está um desenho lindo!

Ora o desenho mais perfeitinho, apenas contendo os pontos onde dormirei, feito no Google maps, ficou assim!

O desenho que fiz à mão, lá em cima, é mais próximo das voltinhas que darei na realidade, o que fará com que esta volta vá dos 8.000km, do Google maps, para uns 13 ou 14.000 na estrada, depois de muito floreado o percurso!

Será isto o meu mês de agosto… desejem-me sorte!