14 – Passeando até à Suiça 2012 – Aosta – Monstreux – Sion

7 de Agosto de 2012 – continuação da continuação!

Então o resto do dia foi mais um “andar para a frente e para trás” espetacular!

Aosta é uma cidade muito interessante, mesmo pertinho do Tunel du Mont Blanc (um túnel que nunca quis fazer de moto, cruzes!). a cidade está cheia de vestígios romanos e é a capital do belissimo Vale de Aosta (que ainda hei-de visitar em pormenor, um dia que esteja menos calor!)

A Collegiata di Sant’Orso é um conjunto do séc. XI que quero visitar mais calmamente, pois é extraordinário e diferente do que se construiu por cá na mesma época.

Naquele dia estava fechada e apenas pude visitar o espaço de culto, pois o claustro estava fechado, o que foi um oásis de frescura junto dos quase 40º grau que se faziam sentir lá fora!

Curioso que, no altar tem uma “janela” no chão que nos permite ver um mosaico do sec XII por baixo, que foi descoberto apenas há 12 ou 13 anos!

O mais bonito (e mais fresco) foi a cripta, que tem sempre um efeito curioso sobre mim! Normalmente é a parte mais antiga de uma igreja e este deve ser da época do mosaico, sec. XII.

Se pensarmos que é do tempo da fundação da nossa nacionalidade!
Lindo!

E voltei para o calor infernal e para as ruas pitorescas e cheias de gente!

Encontra-se este tipo de esculturas também pela Suiça, quando têm de derrubar uma árvore, fazem por vezes com o seu tronco ainda ligado à terra, esculturas que resultam parecidas com tótemes, muito giras!

Estão em escavações sob a Porta Pretoria, a porta da cidade romana que se chamou Augusta Praetoria Salassorum, e que foi construi da no ano 25 aC!

A gente passa pela porta e assiste aos trabalhos de varanda!

Ali ao lado fica o teatro romano, onde havia também um anfiteatro, o que faz da cidade romana uma grande e extensa cidade de grande importância!

O calor estava a torrar-me os miolos, mesmo com o chapéu! Eu não iria mais longe… Aosta lá ficará para quando eu voltar, esperando que o calor seja menos sufocante!

Devia ter feito como os chinocas fazem que visitam as cidades de guarda-chuva, assim o sol não chegaria com tanta força até mim!
O glaciar, lá ao longe, por cima das casas, estava a chamar-me para o fresquinho!

Voltei para a moto, por ruas muitos giras, cheias de artesanato e souvenirs.

E voltei ao paraíso! Lá em cima estava uma temperatura agradável, comparada com o calorão de Aosta, cerca de 24º, o que resultava fresquinho!

A festa tinha acabado e, se não tivesse estado nela, nem perceberia que tinha sequer existido! Reinava a paz e o sossego por ali!

Então fui visitar o Hospice de St Bernard por dentro.

Ali foram recebidos peregrinos e viajantes que atravessavam de ou para Itália, pois o caminho (Pass) é a distancia mais curta entre os 2 países!

Napoleão passou por ali em 1800 com as suas tropas a caminho de Itália, por isso há quem lhe chame rota imperial.

Lá dentro os espaços religiosos são bonitos e típicos da época, a igreja com decoração barroca é dedicada a Saint Nicolas.

Cá fora, patinhas amarelas de São Bernardo guiam-nos para caminhos a percorrer, muito giras! Claro que tirei uma foto à minha Magnífica junto à placa, para memória futura! (as patinhas amarelas vêm-se no chão junto à moto)

E desci o Pass…

Há dias cheios de beleza e que ainda por cima parecem nunca mais acabar!

Quando desci do St Bernard Pass o sol estava tão alto e ainda faltava tanto para anoitecer, que pus-me a pensar “como é que eu já fiz tanto e ainda tenho tanto tempo para mais?”

Perguntei ao meu Patrick o que havia por ali perto para eu ver, antes de voltar lá para baixo e ele “falou-me” de um lago: Champex-lac em Verbier – St Bernard! (quem inventou o GPS deverá ter direito ao céu!)

Aquele nome não me era estranho, tinha ideia que era coisa bonita… bem por ali acho que tudo é bonito! E lá fui!

O lago é bonito e havia gente relaxadamente na relva junto à água, onde me fui estender também, não sem antes comprar algo fresco para me acompanhar. Uma escultura curiosa de um coelho humanoide olhava para nós, dentro da água.

Pus-me a brincar com os miúdos, tirei as botas e fui chapinar na água com eles! Eheheh

Continuava a ser dia claro quando voltei à estrada. A descida parecia uma linha num bolso, na imagem do GPS!

Pelo GPS faltavam 3 horas para o sol se por, por isso decidi ir vê-lo a um lugar muito especial, daria tempo, porque naquele pais é tudo perto!

Passei por muitos motociclistas simpáticos e cordiais que circulavam perfeitamente ordenados! Muito bem!

Passei por carros “especiais de corrida” que por ali existem em número remarcável!

Passei pelo Château d’Aigle, do sec. XII, onde hoje funciona o Museu da Vinha e do Vinho.

Mas eu só queria rodeá-lo e aprecia-lo de todos os ângulos, porque é lindo!

Chama-se Castelo da Águia porque fica numa comuna que se chama mesmo Águia

E continuei até Montreux! Era ali que eu queria ir ver o sol descer!

Junto à cidade de Montreux há uma pequena estrada que sobe o monte, até perto de um rochedo que fica lá no topo, le Rochers-de-Naye!

Encontrei o caminho com uma facilidade espantosa e comecei a subi-lo e a fotografar cada etapa da subida!

O Lac Leman consegue fascinar-me em qualquer ângulo, mas naquele dia deixou-me em êxtase!

Cheguei ao fim do caminho e fiquei ali, a olhar…

O rochedo fica mais acima um bom bocado, mas só se pode aceder a ele depois de uma longa caminhada quase a pique! Não era coisa para mim e, o que via dali para o lago… era suficiente deslumbrante!

Há placas indicativas para os caminhantes informando dos trilhos

Mas eu fiquei ali, quieta, mais a minha Magnifica, a deslumbrar-me apenas…

Ainda olhei para trás na descida, o rochedo esta ali, tão perto!

Mas a beleza que eu procurava estava para baixo, não para cima!

E o sol ainda não se pusera!

Decidi descer e vir cá abaixo vê-lo do nível das aguas, assim não teria de descer às escuras!

Agora entardecia mais rapidamente!

Fui passear para junto do Château de Chillon, o castelo mais emblemático da Suíça e um dos mais conhecidos do mundo.

Foi construído sobre um rochedo no lago por isso este faz de fosso para o castelo!

Construído no séc. XII, mas com antecedentes bem mais antigos que podem ser visitados no seu interior.

Visitei-o há muitos anos, agora o que eu procurava não era vê-lo por dentro (até porque já estava fechado)! Eu queria vê-lo por fora com o lago e o pôr-do-sol…

Deslumbrante!

Então acabei o meu dia numa corrida até Sion onde fiz uma festa com os amigos que fizera na pousada de juventude, a que se juntou um grupo de motociclistas holandeses que iriam descer, no dia seguinte, até Nice, o caminho inverso ao que eu fizera dias antes.

Fizeram todo um espanto por eu andar por ali sozinha com uma moto tão grande! Nem queriam acreditar onde eu iria a seguir!

Fim do nono dia de viagem!

13 – Passeando até à Suiça 2012 – Grand San Bernad Pass, Aosta

*

7 de Agosto de 2012 – continuação

O dia continuava lindo e era tão cedo ainda! Toca a seguir por ali fora, pois iria voltar a subir as montanhas do outro lado!

Lá ao fundo, depois de Martigny, os montes são famosos!

A estrada começa a encaracolar sobre si própria

E sobe-se, rodopia-se e volta-se a subir

Até aos 2473 metros de altitude!

Cheguei ao topo e nem parei no Hospice du Grand St. Bernard, passei o lago, passei a fronteira italiana e segui! Estava a saber-me tão bem a estrada!

Mas acordei para o mundo ao olhar a estrada que me esperava do lado italiano, “que me lembre não há de comer aqui perto para este lado e eu estou cheia de fome!”

Dei meia volta e voltei para trás, tinha de comer primeiro e eu vira uma festa com comida junto da fronteira!

Foi a decisão mais acertada que podia ter tomado! Juntei-me à festa, fiz amizade com um lindo e simpático São Bernardo e tudo!

O cãozinho era um fofinho!

O São Bernardo é uma raça muito antiga que vem desde os Romanos e que os monges do Hospice protegeram e conservaram desde o sec XVII.

O cão tomou o nome do Hospice onde foi treinado para defender o local mas também para salvar pessoas perdidas ou soterradas nas neves. Faziam estes resgates em grupos de 3 ou 4 cães, que aqueciam as vítimas com os seus corpos enquanto um deles ia buscar ajuda humana.

O verdadeiro cão tem o pelo curto (como este), existe uma variação provocada pelo cruzamento com o Terra Nova, com o pelo longo que torna o cão inútil para andar na neve, já que a neve cola ao pelo e o torna demasiado pesado para qualquer missão!

Hoje o cão mais usado nos resgates nos Alpes é o Pastor Alemão, por ser mais pequeno e leve e ter um faro equivalente.

E lá tirei as primeiras fotos ao Hospice do outro lado do lago!

Um grupo muito simpático de italianos e suíços estavam na mais alegre festa, a festa da amizade! Vestidos em trajes de época, dançavam e riam e brincavam com as pessoas! Uma animação!

Havia uma espécie de balcão onde se servia comida. Aproximei-me “Isto é a festa da amizade? E posso ser vossa amiga?” perguntei “claro!” respondeu um dos senhores “então posso comer convosco? Quanto custa?” , “custa quanto quiser dar” respondeu ele.
A comida cheirava divinalmente!

Havia um garrafão em cima do balcão onde tínhamos de por o dinheiro pelo gargalo!

Andava toda a gente atrás de dinheiro para por no garrafão! Lá pus uns 6 ou 7 francos e siga com o tabuleiro recheado!

Aquilo era mesmo bom! O acompanhamento era uma massa tipo polenta que combinava super-bem com a carne estufada!

O vinho era ótimo e à discrição! Estava em grandes garrafas de 1,5l espalhadas por todas as mesas! Ao tempo que eu não bebia vinho! Que bem que me soube!

Eu estava preocupada porque a festa era mesmo à beirinha da fronteira e os polícias viram-me sentar e comer e beber… para depois pegar na moto e seguir o meu caminho! Estava a pensar que eles podiam-me mandar parar e não deixar seguir, quando se juntaram a mim, na minha mesa!

Juntaram-se na minha mesa também os bailarinos, todos bem vestidos e animados!

Fartamo-nos de falar, soube que vinham de Aosta, ali perto em Itália, onde eu queria ir. Foram horas de paleio, risota, comida e bebida, até que tive de me ir embora! Despedi-me com uma fotografia da mesa!

E outra do lago, embora eu soubesse que lá voltaria a passar no regresso de Aosta.

E segui pelo Passo que a partir dali se chama Passo del Grand San Bernardo, pois estamos em Itália

Com o famoso Vale de Aosta a aparecer mais à frente

O calor tornava-se infernal lá em baixo o que tornava a paisagem glaciar mais surrealista!

E cheguei a Aosta meio derretida e com a blusa colada às costas. Iria dar uma volta pela cidade mas estava decidida a pôr-me a andar dali antes que caísse para o lado com o calor!

(continua)

12 – Passeando até à Suiça 2012 – Sion – Montanhas e vinhas!

7 de Agosto de 2012

Pois é, quando o dia acorda lindo e eu acordo na Suíça nunca sei muito bem o que me apetece fazer para além de passear para um lado e para o outro! Como sempre que não sei para onde ir, acabei por ir para todo o lado!

O mapa geral do que fiz nesse dia mostra como andei para um lado e para outro mas, a verdade, é que fui ver do que mais bonito se pode ver em 12 horas!

Primeiro fui passear pelo meio das vinhas que se estendem pela encosta dos montes em redor, não apenas de Sion, mas de todo o imenso vale! Por isso é melhor apresentar o mapa por partes!

De lá de cima: Sion com as suas colinas proeminentes acima da cidade.

Parecem duas maminhas ali no meio da planície, bem visíveis numa imagem panorâmica! Deslumbrante o que os caprichos da natureza podem fazer!

As estradinhas entre as vinhas são alcatroadas e muito giras de se fazer. A paisagem então, é qualquer coisa de extraordinário!

Depois engrenei por uma ruela que prometia ser interessante, pelo menos o meu Patrick dizia que era toda aos SS por ali acima! A paisagem começou a mudar e as altas montanhas a aparecer, lá ao fundo! Lindo! Era mesmo isso que eu procurava!

Eu gosto de experimentar os pequenos passos de montanha desconhecidos do turismo, normalmente são ruinhas frequentadas por ciclistas, estreitas e ingremes, e eu gosto disso!

Apetece parar a cada momento para tirar mais uma foto, para usufruir calmamente do momento!

Uma indecisão, por vezes, entre curtir a condução, ou curtir a paisagem! Vai-se tentando fazer as duas coisas!

Escolhi uma outra ruinha e subi! Seguiria pelo Col du Sanetsch até à barragem.

Um caminho muito bonito que só tem um defeito, não ter saída! Por isso somos obrigados a regressar pelo mesmo caminho… isto é, mais ou menos o mesmo caminho!

Finalmente, ao fim de tantos anos a passear pelas montanhas, consegui fotografar uma Marmota! Tão fofinha! Eu já as tinha visto, mas nunca tinha conseguido fotografar uma, pois são irrequietas e rápidas! Desta vez eu fui mais rápida do que ela! 😀

E lá estava o lago provocado pela barragem de Sanetsch.

Achei curioso ainda ter uns farrapinhos de neve na encosta do monte!

Há sempre um rochedo com uma cruz por aquelas terras, se não for no monte é no meio de um lago!

E a bandeira! Num país com tantas fronteiras, às vezes faz jeito a bandeira, para termos a certeza que ainda estamos na Suíça! Ali não era o caso.

Subindo ao topo do monte, logo acima da barragem, vemos a paisagem que fica do outro lado! Há ali um teleférico que leva e traz pessoas de lá de baixo do vale de outro lado. Lindo!

Cá em baixo a minha Magnífica conversava com uma amiga Deauville!

O que eu acho giro é encontrar autocarros que fazem estes caminhos! E é giro também passar por eles e termos ambos de “encolher a barriga” para passarmos! Os condutores de autocarro são supersimpáticos e até saem um pouco da rua, se puderem, para não perturbar quem passa!

Voltei a descer o col, agora mais cuidadosamente para fotografar o caminho e a paisagem. No regresso as curvinhas eram mais visíveis, até foi giro voltar a faze-lo!

Acho sempre mais fácil e interessante fazer um Pass em subida, pois não necessito de usar tanto o travão e a condução é mais equilibrada, mas para fotografar é descendo, sem dúvida, que se fazem os melhores enquadramentos!

Na subida tinha passado por este restaurante giro mas, como estava fechado, segui. Mas na descida não resisti! Tão giro!

E não é só por cá que há terras com nomes curiosos ou bizarros! Ali cheguei a Le Nez, que é o mesmo que dizer que cheguei a O Nariz!
Não sei se era o nariz do monte, ou da terrinha!

Logo a seguir voltei a encontrar o vale de vinha!

E foi por entre o vinhedo que eu fui percorrendo o caminho que me levaria a um outro Pass.

Porque ali pela encosta as paisagens são muito bonitas! Podem-se ver os glaciares e altos picos nevados, ao mesmo tempo que em primeiro plano se vê uma paisagem de verão!

Aquele vinho tem de ser bom, inspirado por tanta beleza envolvente!

E crescendo e amadurecendo, não só nas encostas, mas também nas “paredes” rochosas dos montes! Aquilo é trabalho de alpinistas!

O vinho do Valais, tal como a fruta (alperces) é muito famoso, já provei e gostei!

Vinha e montanha!

(continua)

9 – Passeando até à Suiça 2012 – La Haute route des Alpes – Col du Galibier

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5 de Agosto de 2012

O dia amanheceu meio solarengo, meio enevoado e pingão. É verdade, isso acontece a cada passo nas altas montanhas. Naturalmente que o lado solarengo chamava muito mais alto por mim mas, azar dos azares, era pelo lado pingão que eu devia seguir! Ainda pensei em contrariar o percurso mas eu teria de ir apanhar a chuva de uma maneira ou de outra, não adiantava dar uma volta maior, por caminhos menos bonitos!

Por isso dei por ali umas voltas, retive a respiração e mergulhei! Iria ver o Lago Leman ainda naquele dia…

A cidade de Briançon é muito bonita de apreciar de longe, com o forte sobre uma colina mais elevada e a cidadela mais em baixo, parece um cenário!

Uma pena os fios, sei lá de quê, que estragam um enquadramento destes!

Ao longe o conjunto da “ville Haute”, o forte do castelo, o forte des Salettes e o forte des Têtes.
Com uma longa história de guerra e defesa da fronteira francesa, passou por momentos históricos fortes, desde a idade média, passando pelas guerras mundiais e chega aos nossos dias como cidade de ski e desportos de inverno e cheia de monumentos únicos e classificados!

E segui para o lado do tempo ruim, para o col du Galibier, esperando que a chuva não fosse tanta que me impedisse de ver e fotografar um pouco…

Então comecei a encontrar uma infinidade de motos! Parece que de repente toda a gente ia para onde eu ia!

Depois entendi… era domingo e o povo tinha tirado o dia para ir correr para ali! Ultrapassei e fui ultrapassada diversas vezes por esta moto bizarra, que era mais uma moto de 4 rodas do que verdadeiramente uma moto 4! O tipo devia ficar muito incomodado sempre que eu ia à frente dele pois esforçava-se para caramba para voltar a vir-se meter na minha frente! Por vezes obrigou-me mesmo a travar para ele entrar!

Não me lembro nunca de me ter sentido tão pressionada por outros motociclistas para os deixar passar para o espaço à minha frente onde por vezes não cabia ninguém… detestei a sensação! Não sei se era por eu ser a única moto com um “P” atrás, ou se era por ser mulher, ou se era por a minha Magnifica ser a única no seu estilo/tamanho por ali… só sei que detestei!

Um dos que me apertou, ao ponto de quase me tocar na roda da frente, encontrei-o no chão umas curvas mais à frente! No final da aventura, contando com os 2 acidentes do dia anterior, tinha passado por 6 motos viradas de pernas para o ar, 2 das quais com pendura incluída… Ainda bem que a estrada valia a pena ou ter-me-ia arrependido de a ter feito naquele dia!

Então encontrei a chuva! E foi ela que afastou todo aquele “mosquedo” de mim! (obrigada São Pedro) De repente vi-me sozinha na estrada, apenas eu e alguns carros, as motos iam ficando paradas aos grupos aqui e ali, já não havia mais heróis capazes de se meterem à minha frente? Não, porque chovia bastante, o vento era forte e eu aproveitei para seguir em paz!

E constatei uma triste realidade para um(a) motociclista, que os automobilistas eram muito mais cuidadosos e atenciosos para mim do que todos aqueles motards! Faziam o esforço por se chegar para a beirinha cada vez que eu me aproximava, davam-me pisca a mandar-me passar e tudo! Veio-me diversas vezes à mente aquelas tretas que circulam no Facebook de que motociclista é boa pessoa, é solidário, é amigo, segue códigos de conduta, é irmão… é muitas vezes reles, mal criado e arrogante, cá e lá… infelizmente! E foram os enlatados os melhores colegas de estrada que podia ter tido por ali!

E segui na maior paz, apesar da chuva e dos trovões em cima de mim, é que o São Pedro não parava de me tirar fotografias, eu bem via os flashes!

Cheguei lá acima sozinha! Havia lá um ciclista acampado, alguns carros e a minha Magnífica!

Ninguém na longa e ziguezagueante rua! Não havia mais heróis!

Por muito tempo apenas se via um carro aqui e outro ali e a paisagem era linda!

É tão bonito quando para de chover e o sol volta, a estrada brilha e o céu fica límpido!

As esculturas em feno são comuns, a cada ano vejo-as pelas estradas Francesas, os camponeses são artistas!

Passei em Valloire mas nem parei! Aquilo estava cheio de motos paradas por causa da chuva e eu já estava fartinha de motos e habilidades!

Só voltaria a parar quando chegasse ao lago Leman…

(continua)

8 – Passeando até à Suiça 2012 – La Haute route des Alpes – Col de la Bonette

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4 de Agosto de 2012 – continuação

A princípio a estrada é quase banal, escarpa aqui, monte ali e nada mais denuncia o que ela será mais à frente! Eu nunca tinha feito a “ponta” sul por isso tinha de ir atenta, mas a estrada é fácil de encontrar e de seguir, porque está muito bem sinalizada e, mesmo quando a gente não tem a certeza se fez a boa escolha num entroncamento, uma nova placa aparece logo à frente a desfazer as dúvidas!

Então vamo-nos afastando de Nice e vamo-nos aproximando da beleza da natureza em estado puro!

E há momentos de dilema, curtir a estrada ou apreciar os encantos da paisagem? Vou tentando fazer um pouco de tudo, tirando fotos pelo meio!

A estrada é suficiente longa para permitir um pouco de atenção a tudo o que nos vai rodeando mas, por vezes, tive de parar abruptamente porque um recanto da paisagem me prendeu pelo canto do olho!

No seculo XIX viviam nestas casas cerca de 800 soldados que defendiam a zona fronteiriça, é o Camp des Fourches. No inverno apenas um pequeno grupo de homens ficava ali isolado do mundo pela neve e só conseguiam passar de casa em casa por tuneis feitos na neve alta e densa com tabuas de madeira. Chamavam-lhes “les Dilabes Bleus” (os diabos azuis) pela sua coragem e audácia de ali ficarem e caçarem e viverem!

A estrada parece traçada nos recantos mais bonitos da cordilheira!

Há momentos em que olhamos para trás e vemos o caminho percorrido, serpenteando pelo monte acima!

Então chegamos ao cume

A estrada é mítica para ciclistas e às vezes temos a sensação de que eles sentem que ela lhes pertence! Tive de pedir para se afastarem um pouco para fotografar o “menir” que assinala o ponto máximo mas, mesmo assim, tive de gramar com as biclas lá encostadas!

Mas o encanto contínua, numa nova sequencia de curvas e encantos

A estrada continuava a serpentear por ali fora, linda!

E fui surpreendida pelo primeiro acidente da viagem. Vi as pessoas ao longe e não percebi o que se passava, até passar perto… uma moto de pernas para o ar e um casal meio em mau estado na berma… Eu não teria tirado a foto se soubesse o que se passava, mas não apanhei os feridos, o que foi menos mal…

Mais à frente fica o Forte de Tournoux encrustado no monte. É conhecido por lembrar os templos do Tibete mas, na realidade, é uma construção do fim do sec XVIII e tinha como finalidade proteger a França contra os Italianos.

Tem visitas guiadas e deve ser interessante visita-lo, mas subir todo o monte por escadas estava fora de questão!

E lá andavam os ciclistas por tão belas paisagens a pedalar

A estrada torna-se perigosa quando deixa de ser “cadenciada” por curvas e os condutores se entusiasmam com as retas, sem pensarem que, depois de uma reta há sempre uma curva!

Depois há momentos em que ela parece uma linha num bolso, de tanta volta que dá sobre si própria!

E quanto mais voltas dá mais bonita é a paisagem!

E cheguei a Briançon, onde passaria a noite.

Briançon pertence ao Departamento dos Altos-Alpes e é a cidade mais alta de frança e a segunda mais alta da Europa, depois de Davos na Suíça.

Porque fica ali tão perto da Itália é uma cidade bastante fortificada, com uma cidadela cheia de interesse e edifícios classificados pela Unesco.

Fui para o hotelzinho, onde rapidamente a minha motita arranjou uma filinha de amigas!

Comi uma pizza divinal e brinquei um pouco com a minha máquina, que as nuvens acima da montanha estavam inspiradoras!

Fim do sexto dia de viagem!