20. Passeando pela Grécia/Balcãs – de Ljubljana até Zone

7 de setembro de 2022

Há momentos numa viagem que são difíceis de gerir.

Por um lado, tenho de seguir para casa, por outro lado quero ficar…

Há tanta coisa que eu quero ver e não posso, que tudo o resto parece secundário, como a dor no meu pulso, o trabalho que me espera, ou as saudades de casa. É nestes momentos que sinto que não devo ser normal, quando todo o tempo do mundo me parece pouco para realizar tudo o que quero…

Um dia, numa viagem qualquer, eu comentei que as coisas já sabiam a saudade e alguém respondeu que era compreensível que eu estivesse com saudades de casa… mas o que já me sabia a saudade era a própria viagem, porque se aproximava do fim.

Hoje eu estava nesse espirito…

Olhando pela janela do corredor podia ver lá em baixo a minha moto e isso perturbava-me tanto…

No dia anterior, para guardar a moto no pátio, eu percorrera um carreiro estreito em lajes de pedra, que alargava apenas um pouco no extremo, onde eu a parara, tudo o resto era gravilha!

Mas não havia espaço para dar a volta sem pisar a gravilha e eu não tinha habilidade para manobrar avançando e recuando até dar a volta, pois a minha mão esquerda não seria capaz de segurar o guiador.

Manobrar a moto à mão, então, estava completamente fora de questão, pois se eu nem conseguia pegar direito no capacete e tinha de o enfiar na cabeça essencialmente com a mão direita!

Então andava pelo hostel apreciando todos os recantos, enquanto mantinha o meu pulso esquerdo no gelo e ginasticava a mão, a ver se ela acordava e recuperava um pouco de força e mobilidade.

Por isso custou-me sair dali e fui aproveitando o espaço até me sentir suficientemente corajosa para partir.

Aquele dia não seria cheio de descoberta, seria mais como percorrer um caminho, por isso havia tempo para apreciar de perto a tão famosa transformação da prisão em hostel, com uma decoração muito zen

O recanto de apoio à cozinha dos hospedes era tão original quando bonito. Na realidade, em vez da mesa e os bancos sobressaírem, estava escavados no chão.

Não sei se foi um aproveitamento de uma configuração já existente ou se foi um trabalho de design original, mas que resultou muito interessante, resultou!

Finalmente a minha mão fechou, eu enchi-me de coragem e arrisquei tirar a moto para a rua.

Eu, que sempre tive os pulsos tão frágeis e tão pouca força nas mãos, percebia agora o quanto a habilidade e experiência são, por vezes, mais importantes que a força!

Dei a volta por cima da gravilha, usando a força da mão direita, enquanto a esquerda apenas seguia pousada no guiador.

Tive de o fazer em piloto automático, sem pensar muito, para não deixar os receios tomarem conta de mim, e foi limpinho!

E segui para Kamnik, uma encantadora cidade situada no vale do Rio Kamniška Bistrica, aos pés dos Alpes eslovenos. Dizem que é uma das mais bonitas cidades medievais da Eslovénia.

Sempre sorrio com as placas de “zona” daquele país!

mania de escrever zona com um “c”!

Šutna é a rua principal que atravessa a zona mais pitoresca da cidade. Está repleta de casas fofinhas coloridas e lojas pitorescas.

A Igreja Paroquial da Imaculada Conceição de Maria é o principal templo da cidade, de arquitetura de influência barroca, com linhas elegantes e fachada imponente.

Sempre acho piada como as igrejas parecem rebeldes, ao não estarem posicionadas no alinhamento das casas! Na realidade o seu alinhamento não obedece ao das casas e sim ao do sol, tendo sempre o altar virado a nascente e o portal a poente, para que os fieis caminhem da escuridão para a luz.

Porém isso faz com que seja difícil, por vezes, fotografar uma igreja de manhã, pois corre-se o risco de a apanhar em contraluz!

Era um pouco estranho para mim encontrar ruas completamente vazias. Não gosto de ruas cheias de turistas, mas ruas sem ninguém é um pouco desolador também!

Provavelmente noutras cidades haveria muita gente ainda, mas ali não é um sitio muito turístico, por isso não se via vivalma!

A Glavni trg é a praça principal da cidade. Encantadora sem ser demasiado decorada, como praças de noutras cidades, que são claramente desenhadas para turista ver. A simplicidade elegante da decoração apenas realça a verdadeira essência do local, tornando-o ainda mais especial para quem o visita.

Há ali um charme e autenticidade, combinando perfeitamente a atmosfera acolhedora da praça com a serenidade da cidade.

E ao fundo fica o lindissimo café Kavarna Kalipso!

Aquela fachada chamou-me a atenção desde a primeira vez que pesquisei sobre Kamnik. Ok, não fui lá por causa do café, mas estando lá, tinha de o encontrar e desenhar!

A casa chama-se Maistrova e tinha acabado de ser restaurada pouco antes de eu chegar. Eu pensei até que ainda a iria encontrar em obras, mas ela tinha-se vestido a tempo para mim!

Na realidade meses antes, tinha sido concluído o restauro da fachada da casa, como parte do projeto de reestruturação da praça principal da cidade.

Antes do restauro, a fachada era bege acinzentado, com elementos decorativos laranjados. Após a renovação, as novas cores da fachada geraram confusão por parecerem completamente novas e inadequadas. Mas, na realidade, as cores foram escolhidas conforme o original, antes do desgaste do tempo e a ação do sol.

Para mim ficou perfeita!

Ao lado fica o Caferacer Bar, onde eu tomei um café, um bom sitio para apreciar a fachada do Kavarna Kalipso!

Não havia motos nem motards à vista, apenas eu!

No topo da colina do Calvário, que pertence ao Mali grad, fica a Capela de Santo Eligius, ou Kapela Svetega Eligija.

Mali grad quer dizer, literalmente, castelo pequeno.

O portão para a capela estava aberto, mas tudo o resto estava fechado. Acho que é a desvantagem de se passear fora de época, ele só abriria muito mais tarde.

A capelinha empoleirada lá na ponta da colina, estava fechada também.

Felizmente as paisagens estão sempre abertas e dali podia verboa parte da cidade.

Fiquei surpreendida com a fidelidade da foto e de todas as explicações. Às vezes estes painéis são tão diferentes do que a gente vê na nossa frente, que se demora um pedaço até se descobrir onde está cada coisa!

Dali podia ver-se como as montanhas estavam perto.

A moto estava no outro extremo da rua Šutna. Estava na hora de pegar nela e seguir caminho.

Antes de sair do país tinha de encher o deposito, que a gasolina em Itália é sempre um roubo! Na realidade, comprovaria mais tarde que ela estava “só” mais cara 40 cêntimos por litro em Itália!

A Eslovénia continua a fascinar-me, podia sentir isso à medida que me aproximava da saída. Ainda há muitos mistérios, lendas e belezas naquele país a chamarem a minha atenção. Um dia terei de voltar!

Um dia terei de voltar!

Onde há monte há motociclistas e os avisos para que tenham cuidado começam a aparecer.

Ali diz: Secção de estrada perigosa.

E, ao dar uma olhada ao meu Ambrósio, podia perceber que tinha montanha gira para fazer. Os Alpes Julianos estavam tão perto e, infelizmente, eu não os iria atravessar, mas pude pelo menos ter um vislumbre!

Ora vamos lá Itália!

É sempre tão pouco interessante atravessar aquela zona de Itália, até chegar aos Alpes, mas eu não estava com disposição para andar a dar voltas em busca da montanha. Tinham previsto chuva para a zona onde eu pernoitaria e eu queria chegar lá antes dela, pois aquilo é bonito e montanhoso e não teria qualquer graça subir em meio à tempestade!

Enquanto as estradas eram vazias e distantes, a coisa teve piada, mas depois começam a aparecer as cidades e as estradas pilhadas de carros. Eu tinha consciência de que estava a passar perto de cidades muito movimentadas, como Pádua e Verona…

Estava tão perto de Veneza! Ui, aos anos que eu não passo lá!

É aquela sensação de estar perto de tanta coisa que quero ver ou rever e não posso. Uma pena!

O pior que me podia acontecer ainda, era ter de conduzir no meio do transito, e eu fazia tudo por evitar usar a embraiagem. Na realidade, naquela viagem, eu vinha usando e abusando da 4ª mudança, aquela que me permitia fazer mais coisas sem ter de mudar. Subi, desci, curvei e acelerei por dias a fio usando basicamente a 4ª.

Agora ia no meio de trânsito lento por quilómetros, rezando para que me deixassem usar pelo menos a 5ª, sem ter de baixar!

E finalmente cheguei à estrada de Zone.

Eu já lá tinha estado uns anos antes, com uma CrossTourer, quando regressava da Islândia, por isso sabia que a estrada era fixe, com curvas e subidas excelentes para a minha 4ª mudança.

É, parece que qualquer terra pode ficar no caminho da Islândia. Neste caso no regresso da Islândia, quando eu decidi que seria uma boa ideia passar pelos Alpes Italianos, pelas Dolomitas e pelo lago de Garda!

Zone fica na montanha, nos Pré-Alpes de Bréscia, conhecidos em italiano como Prealpi Bresciane, com vista para o Lago d’Iseo.

E fiquei no mesmo albergue da ultima vez. Eu lembrava-me bem, mas não contava que se lembrassem de mim!

“Ainda da série, quanto tempo as pessoas se recordarão de nós após a nossa passagem, aqui fui recebida com um alegre ” questa è la tua seconda volta qui!” e um enorme sorriso a acompanhar a exclamação! Eu já não me lembrava bem quando cá estive, mas a senhora lembrou-me que a minha moto era preta. Puxa, sabe bem que se recordem de mim depois de tanto tempo e tanta gente que aqui passou…” in Facebook

Depois lembrei-me que a moto não era totalmente preta, tinha o deposito vermelho. A senhora lembrava-se que era uma moto alta e que eu apanhara muita chuva. Eu sei, e hoje quase a apanhava outra vez!

Lembrava-me da paisagem da janela do meu quarto, que era o mesmo.

Será que o hostel só tinha um quarto?

Eu tinha percebido da ultima vez que muita gente se alojava ali para praticar desportos de montanha, subir os trilhos e relaxar. Já da outra vez eu era a que estava de passagem, que vinha de mais longe e que ia para mais longe também!

Desta vez a história repetia-se!

Aquelas paisagens deslumbravam-me! Não me admirava que houvesse quem fosse para ali só por causa delas!

É sempre curioso como uma terra estranha se torna, depois de uma viagem, terra conhecida! E era isso que eu sentia, que passeava por terra conhecida, tentando descobrir algum recanto novo.

A igrejinha é muito fofa, da ultima vez estava fechada, mas desta vez consegui vê-la por dentro. Pareceu-me que era consagrada a S. Pedro, a considerar pelo santo que está no altar, vestido de escuro e com barbas e cabelo branco!

Irónico se o santo padroeiro for o S. Pedro, pois parece que por ali chove que se farta! O santo não tem consideração pelos seus fieis?

Eu e o meu braço, todo folclórico, com as fitas de drenagem neuromuscular azuis para dar um pouco de cor ao conjunto.

Regressei à base, antes que o temporal se instalasse. No hostel tinham avisado que vinha aí muito mau tempo, a confirmar as previsões que eu vira no meu telemóvel.

A comida estava deliciosa!

Aquela carne estava um luxo, acho que apenas como carne com aquela qualidade e grelhada exatamente no ponto, lá ou cá! Como se em mais país nenhum conseguissem entender como ela se prepara!

Então um fulano entrou no restaurante e pôs-se a falar com outro que estava numa mesa perto da minha. Percebi, pela conversa, que o homem que tinha entrado era português, por isso falei…

Eu, que fico sempre no meu canto, que nunca revelo quem sou nem de onde sou a outros portugueses, disse que era portuguesa. Ele veio sentar-se na minha mesa, o que já me deixou meio desconfortável, mas lá nos pusemos à conversa e tudo correu bem, até eu falar do meu moçoilo…

O homem ficou em choque, então eu tinha marido e andava por ali sozinha?

– Não está certo, não está correto, não pode ser! – dizia abanando a cabeça negativamente.

– Mas então porquê? Eu não ando a fazer nada de errado!

– Mas um casal tem um compromisso, têm de andar os dois! – defendia ele

– Como isso? O meu homem não gosta de viajar e viajar é um dos grandes objetivos da minha vida, não dá para andarmos juntos!

– Não importa, têm de arranjar um entendimento porque vocês têm um compromisso!

Eu olhava-o incrédula!

– Temos o compromisso de nos fazermos infelizes um ao outro? E se eu fosse um homem, para si já estaria tudo bem, certo?

– Bem, não, sim, talvez…

Peguei nas minhas coisas e fui embora, prometendo a mim mesma manter a boca calada, como sempre faço quando percebo portugueses por perto…

Então a tempestade começou, para complementar o meu aborrecimento pela conversa que eu não pedi, mas tive de aturar.

A cada trovão que explodia o céu se iluminava mostrando o perfil dos montes em redor, num espetáculo que me fascinou e me fez esquecer o estupido lá de baixo.

As noites de tempestade sempre me fascinaram, mesmo quando as apanho na estrada. Mas ali, protegida, com uma janela privilegiada para ver o espetáculo, foi o máximo!

Além dos flashes que iluminavam tudo, a chuva tornou-se violenta, curiosamente sem qualquer vestígio de vento!

E lá fui dormir quando o espetáculo terminou, esperando que o São Pedro tivesse gasto a água toda e não houvesse mais para amanhã!

1. Suíça, Itália e ilhas 2018

Cucu!

Este ano voltarei a acrescentar algumas linhas no meu mapa de viagens, por zonas nunca antes desenhadas! Não, não irei ao fim do mundo nem onde nunca ninguém foi, apenas onde eu ainda não passei, nada mais!

Mas as novidades não ficam por aí…

Desde sempre eu convido o meu moçoilo a acompanhar-me e desde sempre ele me responde que não aguentaria uma viagem “das minhas”. E eu prometo desenhar uma viagem especialmente para ele e que iremos à Suíça, que é o país do meu coração, é lindo e pequeno onde se vê muita coisa linda sem andar demais… Ora este ano ele virá comigo!

Assim nos primeiros 13 dias eu terei companhia, que será a linha verde do meu mapa. Connosco virá o nosso amigo Filipe Marques, que já me acompanhou nos primeiros dias da minha viagem à Noruega, no ano passado, e se mostrou uma boa companhia de viagem. Então seremos 3 em 2 motos!

No fim da linha verde estaremos em Turim e será o último dia juntos, porque ambos terão de voltar para casa… mas eu não! Então enquanto os rapazes voltam para Portugal eu sigo o meu caminho!

Então começa a linha azul, onde eu estarei por conta própria, pronta para explorar o sul da Itália, a Sicília, a Sardenha e a Córsega, a solo!

Lindo! Heim?

10. Passeando pelos Balcãs… – San Marino, Imola, Bled

6 de agosto de 2013

Este foi um dia para percorrer mais uma grande distância. Queria ver uma ou duas coisas por ali perto mas o destino era outro país.

San Marino era uma daquelas terras que eu queria visitar. Sempre me despertou a curiosidade conhecer um dos países mais pequenos do mundo!

Dizem que é o 5º mais pequeno do mundo com apenas 61 km² de área e o 3º mais pequeno da Europa, depois do Vaticano com 0,44 km², e do Mónaco com 1,95 km²!

Adorei a designação completa de San Marino: Serenissima Repubblica di San Marino! E na realidade é mesmo sereníssima! Um enclave que é como uma ilha rodeada por Itália, é a população mais pequenita do Concelho da Europa! Olha-se de longe e vê-se o penhasco em que fica empoleirada e apetece mesmo lá ir!

Não se pode circular pelas ruas ingremes que sobem a encosta do monte, mas pode-se ir até bem perto e depois não custa nada caminhar por ali acima e por ali abaixo! As pessoas são simpáticas e, aquela hora da manhã, quando lá andei, não estava ainda inundada de turistas, por isso foi um passeio pelo topo do morro, que sobressai na imensa planície em paisagens deslumbrantes! Um elevado recanto encantador!

A ignorância é grande e eu não conseguia entender onde poderia estar o circuito de San Marino!

Aquilo é tudo tão justinho e ingreme que não caberia ali um circuito de Formula 1!

Claro que me pus a imaginar como seria uma alucinação uma corrida de moto por aquelas ruelas, um espanto, seguramente!

Lá de cima pode-se ver um mar que rodeia o penhasco, mas um mar de casas e paisagem, como se San Marino fosse uma ilha rodeada de Itália por todos os lados!

Ali ao lado fica o posto de turismo, onde perguntei onde ficava o autódromo onde se realiza o Grande Prêmio de San Marino. Fiquei a saber que nem é ali perto sequer, como eu imaginara! Na realidade realiza-se em Imola, no autódromo de Enzo e Dino Ferrari, perto de Bolonha.

Ok, Bolonha até ficava no meu caminho, vou lá passar e ver como aquilo é!

Entretanto continuei a explorar as ruelas encantadoras.

E no meio do intrincado trajeto de ruelas estreitas chega-se à basílica, numa praça empoleirada na encosta.

A Basilica di San Marino é naturalmente dedicada a São Marino, o fundador da republica!

É neoclássica, um estilo sóbrio que me fascina, pois foi construída no séc. XIX, quando a anterior construção, muito antiga com cerca de 15 séculos, entrava em colapso!

A sensação é de que estamos a passear por uma cidade e não por um país!

As torres são 3 e serviram para defender a república de ataques dos povos vizinhos, entre eles os que vinham de onde eu vinha: Rimini!

O calor era já tanto que comecei a não querer andar muito mais! O que me valia era o meu lenço que eu molhava em todas as fontes para limpar e refrescar o rosto já febril!

Peguei na moto e pus-me a andar, ao conduzir o calor suporta-se melhor!

Queria passar em Imola, por isso no caminho passei pela terra de uma amiga do Facebook! Não a encontrei, mas passei perto.

O calor não me deixava sequer raciocinar, não havia ninguém na rua para eu perguntar e descobri, só depois, que era mais à frente um bocado…

Não foi desta que vi a terra da minha amiga Franca Bagnari!

Fui embora frustrada mas agradecendo o vento que a moto provocava em mim ao andar, já que não corria a menor aragem e a temperatura passava os 42º….

Mais à frente cruzei com um castelinho encantador todo em tijolo! Aquele país é cheio de surpresas!

O castelinho na realidade é considerado uma joia de entre as fortificações do séc. XV em Itália!
Chamam-lhe La Rocca di Bagnara e é lindo!

E tem um jardim com sobras deliciosas para eu parar e refrescar-me com uma deliciosa e gelada garrafa de água de um litro e meio!

Imola fica logo à frente!

Tal como eu imaginava, não faltam indicações que falam do autódromo! E lá estava ele!

Coisas de carros não são o que mais me apaixona, por isso pouco ou nada sabia do autódromo! Nem sabia que ele não era perto de San Marino!

Mas as histórias e os mitos desses locais atraem-me por isso fui juntando as que descobri por lá e as que catei naqueles dias… Afinal tratava-se do autódromo com o nome do fundador da grande marca italiana e onde morreu Ayrton Sena em 1994…

Estava tudo deserto por ali, mas podia-se andar à vontade pelas bancadas… pena não se poder ir até à pista…

Enzo, o criador da marca Ferrari, e Dino, Alfredino Ferrari, o seu filho que deu o nome a um modelo da marca, sofria de uma doença muito complicada e que o vitimou, distrofia muscular…

Na entrada principal tem uma escultura curiosa com uma série de carros que saem de dentro uns dos outros.

Pus a moto a beira e fui tirar fotografias para o meu moçoilo ver e para os meus amigos que me pediram fotos do circuito!

Fotos a acrescentar à minha pequena coleção de grandes circuitos:

Estoril – Portugal
Portimão – Portugal
Silverstone – Reio Unido
Nurburring – Alemanha
Enzo e Dino Ferrari – Italia

Não está mal para quem nem aprecia carros!

O calor estava infernal! Dei-me conta de repente de que as mãos suadas não entravam nas luvas, a roupa estava colada às costas e a moto escaldava. Era o suplício total.

Tinha de conduzir ou morreria naquele ar escaldante e parado que parecia estar a sacar toda a água do meu corpo. Se não partisse rapidamente acho que cairia para o lado inanimada!

E foi o que vi uns quilómetros à frente, quando o termómetro da minha moto oscilava entre os 42 e os 43 graus! O trânsito estava lento e em fila de pára-arranca, eu fui furando até que vi um pequeno aparato policial. Pensei que era uma operação stop, por isso deixei-me ficar muito educadamente na fila dos carros. Mas ao passar perto é que vi que não era nada disso!

Um grupo de polícias estava realmente parado na entrada de uma rotunda, mas não era operação stop nenhum! Um deles tinha simplesmente desmaiado na moto! Um frio percorreu a minha coluna!

As motos estavam paradas na berma da estrada e eles estavam em volta do colega estendido na relva da berma da estrada. Um segurava um guarda-chuva que protegia o desfalecido e os outros abanavam-no. A sua moto estava meio reclinada na rua…

Comecei a temer pela minha segurança, afinal eu tenho a tensão arterial muito baixa e aquilo não podia acontecer comigo!

Segui para a Eslovénia rezando para que o calor não me fizesse mal.

O entardecer e a montanha sossegaram o calor que me afligia tanto! Apenas olhar para a paisagem verde e cheia de sombras me refrescava a mente!

Como eu gosto daquele país!

Cheguei a Bled cheia de fome e obcecada com a comida! Eu não podia continuar a encher apenas a barriga de líquidos e arriscar-me a enfraquecer por não ter vontade de comer, porque o calor derrubar-me ia!

Fiquei ali, no meu restaurante de eleição na cidade, sobre o lago e com direito a musica ao vivo. A comida é sempre ótima e a cerveja deliciosa!

E foi o fim do 8º dia de viagem!

9. Passeando pelos Balcãs… – La Spézia, San Gimignano, Siena, Rimini

5 de agosto de 2013

Haveria muita coisa que eu gostaria de ver no meu caminho… há sempre!

Mas não voltei a Florença, nem a Pisa, apenas segui por onde tinha traçado o meu caminho. Por vezes dá jeito ter um percurso pensado para que não fique ali, como o tolo no meio da ponte a querer seguir todas as placas.

Afinal, se tudo correr bem, não faltarão oportunidades para voltar a Itália e catar mais um pouco ou voltar a sítios já antes visitados! Por vezes perguntam-me como giro o que quero ver quando afinal queria era ver tudo! Giro assim, com a promessa dentro de mim de que vou voltar!

Quando a gente faz uma viagem de vez em quando poderá ter essa dificuldade, de saber o que ver, porque não sabe quando voltará, mas Itália começa a ser uma daquelas terras que eu nunca visitei de fio-a-pavio mas onde passo tão frequentemente e por tantos trajetos diferentes, que já é um dos países que mais visitei e de que conheço mais!

Não havia nada de especial que eu quisesse ver em La Spézia, mas não resisti a ir ver uma construção religiosa muito interessante e bizarra que me apareceu na berma da estrada!

Uma igreja redonda, no meio dos prédios, ou mesmo em cima deles!

Descobri que é a Cattedrale di Cristo Re, (não sabia que eles diziam Re e não Rei!) que foi projetada nos anos 20 mas apenas consagrada nos anos 70, depois de muita lavoura, de guerras, atrasos, reestruturações do projeto inicial, e vários arquitetos se debruçarem sobre ela!

A construção é redonda e sem janelas visíveis, o que provoca uma luminosidade curiosa e inspiradora!

Há dois tipos de igrejas/catedrais que me fascinam, as muito antigas, desde o início da cristandade até ao final do gótico, e as muito modernas, para a frente do final do séc. XIX início do séc. XX! No entretanto, entre umas e outras, as renascentistas, barrocas e tal, são interessantes mas não me provocam as mesmas sensações… manias!

Tem no meio do teto, aquilo a que eles chamam um olho, extraordinário! E a sensação que provoca é única!

E siga para San Gimignano!

Há muita coisa que eu ainda quero visitar na Toscana e uma delas era esta terrinha medieval, com as suas torres que lhe dão o nome de Cidade das Belas Torres!

A cidadezinha estava cheia de gente, o calor era insuportável e havia momentos em que eu não tinha mais a certeza se queria visitar a cidade, ou andar de moto ou deixar-me cair para o lado! Acho que parei em todas as esplanadas para beber mais qualquer coisa, a cada vez que os meus miolos pareciam ir começar a fumegar!

Realmente as torres são muitas por ali, a gente pode vê-las em todas as praças a espreitar lá de cima!

A Praça Cisterna tem o poço no meio e os turistas entretêm-se a atirar moedas lá para dentro!

Fez-me lembrar o guia do Palácio de la Aljaferia em Saragoça que, junto ao poço Da Torre do Trovador, dizia que os turistas adoram atirar moedas para todos os poços que encontram, por isso se alguém o quisesse fazer e não tivesse moedas ele aceitava cartão de crédito! Eheheheh

E é verdade e quase patético, encontram-se moedas em tudo o que é poço, lago, ou pocinha de água por essa Europa fora!

Tinha de seguir o meu caminho porque, apesar de tudo, era menos penoso conduzir moto do que caminhar debaixo de 40 tórridos graus de temperatura! Ao longe podiam-se ver as torres irregulares da cidade!

Ainda parei em Siena!

Estava a precisar demais de voltar a beber qualquer coisa!

Por aqueles dias eu já quase não comia durante o dia, apenas bebia, bebia e voltava a beber! A sensação de que a água aquecia rápido demais fazia-me parar a cada momento para a beber antes que ela aquecesse, lá trás na mala, que mais parecia um forno.

Siena, aquela cidade tão antiga que a sua história quase se perde na história! Fiz amizade com um pintor de rua que estava a pintar uma imagem religiosa no chão.

O sol ajudava a valorizar as cores e a tornar a obra mais viva e interessante, mas estava a torrar os miolos ao homem!

Depois é caminhar pelas ruas antigas e estreitas, com praças que se abrem rodeada de construções que são autênticos monumentos grandiosos e que estão por todos os lados. Aliás, a cidade é conhecida por isso mesmo, pela harmonia e magnificência da sua arquitetura que faz do seu centro histórico um autêntico museu ao ar livre!

E de repente, por umas “portas” aparentemente pequenas, entra-se na grande e ampla Piazza del Campo, com o Palazzo Pubblico e a sua enorme torre ao fundo.

Parei logo ali a tomar uma grande cerveja gelada à sombra! A paisagem e a possibilidade de apreciar detalhadamente o que me envolvia justifica perfeitamente a fortuna que uma cerveja custa por ali!

A Torre dei Mangia tem 88 metros de altura e as suas paredes têm 3 metros de espessura mas, o que me fascinou mais foi a história do seu nome! Dizem que ela deve o seu nome à alcunha do seu primeiro guarda “Mangiaguadagni” que gastava tudo o que tinha em comida!

Como eu entendo o senhor!

Isso fez-me lembrar quando há uns tempos eu dizia que gastava tanto para comer sozinha como uma família de 3 ou 4 pessoas e que, se eu engordasse na proporção do que como, já não caberia nas portas! Eheheheh

Fui ver aquilo de perto mas estava decidida a não entrar para ver interiores!

Por isso pus-me a apreciar o pátio interior e a brincar com perspetivas vertiginosas!

Uma guia giríssima, vestida como uma princesa, com uma sombrinha rendada prendia mais a minha atenção que a do grupo que lhe pagava os serviços!

Diz a lenda e a mitologia romana que Siena foi fundada por Sénio, filho de Remo, e isso é visível pela cidade já que há estátuas, gravuras e relevos representando os irmãos Romulo e Remo a serem amamentados pela loba, por todo o lado, como acontece em Roma.

A catedral estava cheia de gente, à fila e ao sol para a visita! Eu, ao sol, para visitar o quê? Nem pensar! Estão 40 graus e eu não morro por visitar coisa nenhuma! Por isso olhei-a por fora, debaixo de uma sombra, e mais nada!

A catedral é lindíssima, em gótico italiano, com os mármores policromados e tal, mas terei de a visitar noutra altura…

Bebi mais uma garrafa de água gelada por ali, a minha barriga já chocalhava com tanta coisa que eu já bebera, e segui pelas sombras nas ruelas estreitinhas da cidade.

Claro que ao chegar perto da moto já estava a morrer de calor e de sede de novo! Fui a uma lojita comprar mais uma garrafa de água. Não consegui abri-la, agarrei com a mão direita e torci com a esquerda e não consegui… voltei lá dentro e pedi ao senhor que ma abrisse! Ele ficou estupefacto “Então você conduz aquela moto grande e não abre uma garrafa de água?” – exclamou!
“Pois é, tenho a minha mão direita doente!” – expliquei eu e mostrei o meu dedo polegar inchado e paralisado. O homem ainda ficou mais escandalizado “E vem de tão longe com a mão assim naquela moto?!” – e arregalava os olhos incrédulo. “Não tem problema, eu consigo conduzir assim só não consigo abrir uma garrafa de água, mas isso não falta quem faça por mim!”

Segui viagem rezando dentro do meu capacete, que mais parecia um forno, por um pouco de ar fresco!

“Valha-me Deus oh S. Pedro, manda-me um pouco de ar fresco antes que eu morra esturricada!” – cantarolava eu dentro do capacete, quando estava mais fresco lá dentro, com a viseira fechada, do que cá fora!

Estranhei o céu azul, que parecia meio basso mais ao longe. Será nevoeiro? Isso é que era fixe desde que fosse fresco! Mas claro que não devia ser nevoeiro, afinal o céu mantinha-se azul, apenas basso, fosse pelo que fosse.

Mas qualquer dúvida foi imediatamente esclarecida à medida que fui andando! Grossas pingas começaram a cair, como torpedos em cima de mim! “Chuva?” sim cada vez mais forte, pingas que “enchiam baldes”!

De repente entendi que, ou parava para guardar a maquina fotográfica, ou iria expô-la a um banho. E assim foi, parei na berma da estrada e, tão depressa guardei a máquina, começou o diluvio! Chuva tão intensa que em breves momentos me molhou toda, enquanto eu vestia o blusão. Oh que bem que soube, a temperatura desceu vertiginosamente e a rua virou um pequeno rio. Eu quis dançar no meio da rua!

O céu não deixou de ser azul, a nuvem mijona não era negra, a temperatura desceu para os 23 graus e eu segui caminho naquele temporal surrealista!

Uns 10 ou 15 km à frente tudo era sol e calor, voltei aos 40 graus e tudo secou em mim, como se nada tivesse acontecido!

“Oh S. Pedro, se realizas assim os sonhos de quem te pede vou recorrer mais vezes a ti!”

Cheguei a Rimini ao entardecer, onde um ambiente noturno de praia me esperava, numa festa constante. O hotel era gerido e assistido por pessoal russo muito simpático que me tratou muito bem e acomodou a minha motita nas traseiras do edifício, longe de olhos curiosos.

E fui-me encher de comida pois começava a ter receio de ficar fraca de apenas beber e pouco comer!

Aquela terra é uma animação de música nas ruas e esplanadas e montes de movimento! A noite estava bem mais fresca e agradável que o tórrido dia, por isso deixei-me estar por ali a curtir o ambiente e a falar com uns e com outros!

E foi o fim do 7º dia de viagem.

8. Passeando pelos Balcãs… – Les Cinque Terre

4 de agosto de 2013

A minha ida a La Spézia tinha uma única finalidade… que afinal eram cinco!

Fui para ali para visitar as Cinque Terre! Dizem que aquelas terras se visitam de barco, porque se tem perspetivas únicas sobre elas mas, como eu costumo dizer, quem decretou isso, provavelmente nunca as fez de moto senão mudaria um pouco o seu discurso, do tipo “As Cinque Terre visitam-se de barco ou de moto!” e aí sim, eu assinaria por baixo!

Estas cinco aldeias piscatórias, estão encravadas na encosta rochosa e ingreme da costa, com poucos acessos e as praias sem areia! Tudo é pedra e água por ali! As ruelas que levam a cada uma, e de umas para as outras, é ziguezagueante, deformada, como eles avisam, e por vezes em muito mau estado já que as intempéries mais invernosas as vão destruindo com enxurradas de água que corre violentamente pela encosta até ao mar.

Decidi começar pela mais longínqua em relação a La Spezia. Entenda-se que este “longínqua” se refere a apenas 32km de distancia! E fui até Monterosso Al Mare, depois viria de terra em terra até chegar de novo a La Spézia!

Os enquadramentos encantadores não se fizeram esperar! O mar ao fundo e as montanhas logo a seguir, sem dar tempo a procurarmos pelas praias pois elas não existem!

A vantagem de se ir por terra e de moto é que a qualquer momento a gente encosta um pouco e apanha perspetivas espantosas da costa!

Por isso bem antes de chegar ao destino eu já conseguia vislumbrar a cada curva do caminho a aldeia que queria visitar!

Ao chegar-se lá, pousa-se a moto no meio da multidão de scooters e toca a caminhar por entre o casario vertiginoso e colorido! Aquilo é mesmo bonito porque não é feito para turista ver, é como as pessoas fizeram que fosse ao longo dos tempos e agora a gente vai lá ver!

Uma das coisas que me encantou por ali foram as cores vivas, quase berrantes por vezes, e o ar de “normalidade” que tudo tinha, desde pessoas que lavam e esfregam na rua até barcos “estacionados” na berma do caminho, encostados às casas, com toda a naturalidade!

Gente muito religiosa, as igrejas às risquinhas estavam cheias àquela hora, com povo devoto a enche-las, apesar do calorão que se fazia sentir lá dentro! Estava bem mais fresco cá fora!

Então chega-se à Piazza Garibaldi e logo a seguir fica o mar e aquele é o único areal nas cinque Terre! Ainda estava vazio, nem todo o turista e banhista se levanta cedo como eu!

Andei por ali de nariz no ar, pois muito do encanto está nas casinhas encavalitadas que quase se tocam lá no alto!

A aldeia seguinte seria Vernazza.
Segui o seu caminho e a dada altura conseguia já vê-la e tudo mas, de repente a estrada estava cortada! Andei por ali a experimentar pois por vezes até dá para uma moto passar, mas a dada altura não havia mais estrada! Tinha desaparecido de todo e restava apenas um caminho muito manhoso e extenso, cheio de buracos, cascalho e descidas ingremes!

Não meti ali a moto! O meu problema não era só o ir por ali abaixo, era também o regressar e subir aquilo a pique com uma moto de 320 kg a resvalar! Por isso tentei uma outra ruela, que também anunciava que estava cortada mais à frente! Estava melhor que a anterior mas nada fácil de fazer com a minha Ninfa, por ser muito extensa, irregular e esburacada para além do cascalho, por isso fiquei ali a decidir se devia ou não arriscar.

Então apareceu um fulano numa maxi-scooter, ficou um bocado a olhar e propôs, eu ajudava-o a passar e depois ele ajudava-me a mim! Boa, assim já arrisco, disse eu!

Ora o homem mete-se por ali fora, eu a segurar a moto pela traseira e nem assim ele a segurou e pimba, no meio do chão!

“Mas então você não sabe andar fora de estrada?” – perguntei eu
“ Nunca andei pois tenho um medo de morte!”

Oh valha-me Deus, e vem-me com propostas de ajude-me ai que eu passo? E o pior de tudo, não tinha força para levantar a moto do chão, fui eu quem fez o maior esforço senão ele ainda lá estaria hoje a puxar por ela!

Bem, se nem com a tua podes como poderás com a minha?
Peguei na minha motita e fui mas é dar a volta a todo o circuito e tentar chegar a Vernazza vinda de Lá Spézia. Se desse veria a terrinha, se não desse veria as outras todas e pronto!

E ainda me dizem que eu não devo viajar sozinha, e seria melhor levar alguém assim, que em vez me ajudar teria de ser ajudado por mim?

Voltei aos bons caminhos porque por ali as ruínhas são muito bonitas… quando não estão todas lixadas!

Voltei a la Spézia e, quem vai dali pode fazer a via panorâmica que nos permite ver toda a cidade com o porto e a montanha ao fundo!

Julgo que é o ângulo mais bonito para se apreciar a cidade!

E lá estava a primeira aldeia para quem vem da cidade: Riomaggiore

Tão visível lá de cima que fiquei ali debruçada sobre a berma a aprecia-la!

Mais uma vez a gente deixa a moto junto à multidão de motos e scooters e vai por ali abaixo, pelas ruelas estreitas, apreciando perspetivas deliciosas do conjunto!

A casa do Município estava toda pintada com murais de mar e mitologia muito bonitos! Espero que estejam a pensar restaura-los pois a tinta começava a estalar!

E as ruínhas e caminhos por entre as casas, com degraus e passagens cobertas por elas, mais pareciam entradas particulares!

Quando o calor era já insuportável e o sol ameaçava torrar-me a mioleira… o mar apareceu ao fundo de um caminho estreitinho por entre casa! Oh visão do paraíso!

Meio como quem se precavém para o que não vai acontecer e se prepara para o que não vai fazer, eu pusera o fato de banho na bolsa de cinta, muito enroladinho… e agora ele berrava por mim lá dentro!

A frescura das águas berrava também por mim! Mas como fazer? Não havia condições de vestir o fato ali perto e ir para a água!

Então uma senhora provocou-me “vá nadar!” ao ver-me ali tão sôfrega a olhar para o mar “não tem fato?” sim tenho, tirei-o da bolsa e mostrei-o, mas como o visto por aqui?

Italiano é desenrascado como português! Então ela chamou a filha (acho eu) e, depois de catarem nos sacos, deram-me um vestido de alças, daqueles que eu nunca usei na vida, tipo franzido no peito e solto e comprido até aos pés, e disse-me para eu me trocar dentro dele!

Oh santinha, vou pôr uma velinha por ti em algum lado!

Deixei-lhes as minhas coisas a guardar e fui nadar! Saltei direta do penhasco para a água como os miúdos estavam a fazer! Huuuuuum delicia!

No fim nem precisei me limpar, vesti a roupa por cima do fato molhado e fui passear pela aldeia com o rabo molhado ainda! Que bem que soube!

A senhora ficou minha fan, falamos um bom bocado de onde eu vinha, para onde eu ia e, no fim, deu-me o vestido, para que eu não morresse de calor onde houvesse mar, porque a Itália estava sob uma vaga de calor muito forte! Mas não era só a Itália, era toda a Europa e o vestido veio a revelar-se útil noutras situações semelhantes!

É nestes momentos que eu acho que deveria comer um gelado, que era o que toda a gente fazia por ali… mas tive de me reduzir a muita água e alguma cerveja já que não gosto de gelados…

Estavam 39/40, tudo irradiava calor e um pormenor me enterneceu! A cada fonte, a cada chafariz, uma taça estava disponível para dar de beber aos animais! A princípio pensei que era da loja ao lado, para o seu cão, mas depois percebi que era para toda a gente pois existiam em todos os pontos de água! Um gesto tão simples e tão grandioso! Quanto cão e gato vi ser saciado e quantos ficavam ali à espera que alguém lhe enchesse a pia! Lindo!

E segui para Manarola que é logo à frente!

O mesmo clima, o mesmo ambiente, o mesmo calor, o mesmo mar e um novo mergulho!

Ali eu já fui direta à água! Tinha o fato vestido, foi só tirar a roupa, meter tudo dentro do chapéu e entregar a uma velhota para cuidar!

Lá de baixo eu via a velhota a espreitar, pensando com os seus botões que eu devia bater muito mal!

Só não tinha levado a toalha comigo, tinha ficado na mota, mas também não fazia falta, com todo o sol e calor que estava até sabia bem secar o corpo ao ar!

Aquela vidinha já estava a fazer fome e fui comer um peixinho aos pacotes ali perto, que me tinha chamado tanto a atenção! Uma fritada deliciosa!

Podia passar por ali todas umas férias! Que perfeito ambiente!

E segui pela costa apreciando as terrinhas encavalitadas nos extremos dos penhascos com vista privilegiada para o mar!

Vi Corniglia ao fundo, para mim a menos interessante das 5 terras!

Ali foi só para beber mais qualquer coisinha que o calor estava a sacar toda a água de mim e eu tinha de repor o stock!

As ruelas estavam cheias de gente a lambuzar-se de gelados!

E a minha motita a espantar toda a gente no meio das colegas mais pequenas!

Finalmente voltei a aproximar-me de Vernazza, aquela que estava inacessível pelos caminhos lá de cima, deixou-me aproximar pelo caminho que vinha de Corniglia! Maravilha!

Ao aproximar-me da aldeia pude perceber a dimensão do estrago nas ruas de acesso! Entendi então que se tivesse persistido em desce-las poderia mesmo ter-me virado de pernas para o ar, porque o estrago era muito grande e muito extenso e as obras estavam a decorrer até à entrada da aldeia, com direito a terra, pó e buracos com fartura!

Entrando na aldeia, era a paz e a alegria!

E mais multidões a comer gelados por todos os lados!

Oh mar bendito, depois da caminhada, da poeirada e do calorão… claro, voltei a tirar a roupa, a meter tudo dentro do chapéu, a dar a uma velhota para guardar e pimba, mar!

Eu já nem me preocupava se me iriam roubar a maquina fotográfica ou a bolsa, eu só pensava no fresquinho da água!

Pela aldeia as pessoas faziam filas para encher as garrafas de água nas fontes! Eu sentia-me fresca, com o rabo ainda molhado do banho e uma cerveja fresquíssima a acompanhar!

E fui passear um pouco, que não sou pessoa de ficar horas num lugar a apanhar sol e calor!

La Spézia lá estava com o pessoal simpático do hotel que se fartava de falar comigo e achava graça à pronúncia portuguesa e se punha a encontrar semelhanças entre as duas línguas!

E foi o fim do 6º dia de viagem!