40. Passeando por caminhos Celtas – Até aos Picos da Europa

30 de agosto de 2014

O norte de Espanha era o fim do meu caminho celta. Eu não iria à Galiza, ultimo recanto celta antes de chegar a Portugal, mas iria às Astúrias, simplesmente eu queria acabar os meus dias de viagem ali, num dos recantos mais bonitos que conheço!

O meu mapa celta ficaria praticamente concluído nos dois dias seguintes e isso, se por um lado me enchia de satisfação, como sempre acontece quando concluo uma epopeia sem acidentes nem incidentes, por outro lado enchia-me de nostalgia… e os Picos da Europa seriam o sitio perfeito para eu parar, relaxar e passear um pouco, tão perto do céu, tão no meio do paraíso!

O dia acordou ranhoso mas mesmo assim eu não teria de correr por ali baixo até ao meu destino seguinte sem nada ver!

Dax estava ali à mão de semear e eu nada vira no dia anterior, por isso fui passear pela cidade! A cidade é conhecida como termal, portanto com vestígios romanos, como em todos os recantos da Europa onde há termas!

Junto da igreja havia feira, também é costume haver feiras ao fim-de-semana junto das igrejas, hábitos medievais a maior parte das vezes!

A igreja, que é uma catedral, a Cathédrale Notre-Dame de Dax, estava fechada mas a feira estava aberta e muito interessante.

Oh, o aspeto que a comida tinha já aquela hora da manhã! Apetecia atacar logo um frango assado ou um prato de paelha!

E os queijos! Oh os queijos franceses sempre me tiram do sério!

Mas eu ia tomar o pequeno almoço, não ia almoçar ainda, era muito cedo!

Foi curiosa a sensação de estar em casa que se gerou!

Sentei-me numa esplanada onde, pelo que me apercebi depois, toda clientela era gente da feira e por isso amigos e conhecidos entre si. Ficaram muito espantados a olhar para mim enquanto pousava amoto ali ao lado, até deram pareceres onde eu podia encosta-la sem perturbar. Depois quando me sentei e pedi um croissant e um café e o dono do café disse que já não tinha mais croissants os vizinhos das outras mesas deram-me dos deles, que não tinham comido.

“Mangez, vous avez besoin d’énergie pour conduire cet avion la!”

E foi na mais amena cavaqueira que eu me enchi de croissants e queijo e fiambre e sumo de laranja e tudo e não saia mais dali se não me forçasse a afastar com um adeus respondido por uma dúzia de mãos no ar!

Gente simples é gente boa em todos os países! Adorei-os!

A voltinha da praxe pela cidade foi feita de moto. É sempre assim, dou umas voltas por um lado e pelo outro, encontro o que procuro, paro um pouco…

Os morais sempre me fazem parar! Sempre que encontro “trompe l’oeil” eu paro!

Alguns são tão bem feitos que confundem mesmo os olhos, que vêem gente em janelas que não existem ao lado de gente que existe em janelas reais!

E lá estavam as termas romanas!

À saída da cidade, o touro!
As touradas e largadas de touros não são exclusividade peninsular, na França também são muito apreciadas, sobretudo por ali, pelo país basco francês!
As festas de Dax são parecidas com as de Bayonne, toda a gente veste de branco com faixas vermelhas, soltam-se touros e toda a gente corre em loucura pelas ruas, ao estilo do Festival de San Fermin em Pamplona e Navarra.

E por falar em Bayonne, era para lá que eu iria a seguir!

Ficava mesmo no meu caminho!

O dia estava cinzento, o que era uma pena, pois aquela cidade com sol é uma delícia! Assim o rio Adour estava meio tristinho com a cidade em seu redor menos colorida do que habitualmente!

A catedral sempre me despertou o interesse e nunca a tinha conseguido ver por dentro!

Sempre que passei em Bayonne havia festa e gente pelas ruas e a catedral estava fechada!

Mas desta vez a festa ia longe e estava mesmo à minha espera: aberta e sozinha!

A Catedral de Sainte-Marie de Bayonne é uma construção gótica extraordinária! Demorou uma eternidade até estar pronta, desde o séc. XIII quando começou a sua construção, com uns 4 séculos para acabar o corpo e mais 2 para terminar as torres! Como outras construções pela Europa, demorou para caramba a reunir as condições para a irem terminando!

Aquele teto, como sempre numa construção gótica, lindo!

E o claustro!

Como eu queria vê-lo…

Não havia ninguém por ali, embora o claustro tenha saída direta para rua, e eu sentei-me no chão e fiquei ali a olhar!

O centro do claustro é relvado e a igreja é visível dali como não é da rua, já que as casas estão muito perto e não dão ângulo para a ver!

Não resisti a tomar um café ali mesmo, numa esplanada junto ao edifício e curtir a sua presença tão perto!

E ali mesmo, nos recantos formados pelo próprio edifício da catedral, estava gente a vender as suas pinturas!

Pinturas para todos os gostos, incluindo o mau gosto!

Depois vinham as ruinhas, lindas, ladeadas de casa altas e coloridas!

Eu adoro aquelas ruas!

Com gente “maluca” sempre em festa algures! Pelo menos é assim sempre que ali passo!

A sensação de estar ali sempre se assemelha para mim a estar numa cidade espanhola!

Cheia de gente animada e viva e ambiente de festa, mesmo quando a festa já foi há tempos!

Apreciar a cidade de longe, do outro lado do rio…

Passear pelos seus recantos e descobrir pormenores curiosos…

Era tudo o que eu queria fazer há algum tempo, por isso desta vez eu passei lá no fim de viagem e não no início, quando apanho sempre as festas da cidade no auge!

A minha menina ainda encontrou uma prima antes de partirmos de Bayonne! 😀

O caminho é sempre o mesmo, por ali, e faço-o como se fosse uma rotina infinitas vezes repetida… e é! Quantas vezes já passei em Saint-Jean-de-Luz…

Depois entra-se em Espanha, quando a praia alterna com a montanha…

A foz do rio Agüera em Oriñón, sempre impressionante!

E a estrada encantadora que me levaria ao meu destino!

Chegar ali, depois de uma viagem cheia de coisas encantadoras, foi como colocar calmamente a cereja em cima do bolo!

Perdi-me pelos montes, como sempre me perco quando ando pelos Picos da Europa! São simplesmente caminhos por onde vale a pena e apetece perder-me!

Até que decidi subir até onde eu iria dormir!

As nuvens iam ficando ao meu nível… ou eu ao nível delas! Ali eu podia dizer que andava mesmo com a cabeça nas nuvens!

Eu queria subir e ficar, ter tempo para parar, ficar quieta, curtir aquele paraíso, naquele sitio onde eu já não ia há muito tempo!

Porque, como todos os sítios onde eu passo com frequência, eu alterno as zonas que visito, para que não me farte, para que haja sempre algo que eu não vejo há tempos, quando volto a passar!

O tempo que eu demorei a percorrer aqueles caminho de encanto, as vezes que eu parei, apenas para olhar, por vezes até me esquecendo de fotografar!

O sol punha-se e eu chegava a casa, que naquele dia seria em Sotres! Aos anos que eu não ía ali!

E foi o fim do 33º dia de viagem…

Entrevista na Casa da Sé, Guarda, no dia 29 de março de 2015

Durante a minha recente estadia na Guarda, o Hugo Branco e o Daniel Martins fizeram-me uma entrevista, sobre viagens e tanta outra coisa que nem sei dizer mais sobre o quê!

Estávamos no meu domingo: o domingo de Ramos!

Adorei o resultado final e, sobretudo, as animações! Fantástico!

Parabéns à equipa da Casa da Sé Guarda!

39. Passeando por caminhos Celtas – Descendo a França da Bretanha até à Aquitânia

29 de agosto de 2014

Um belo sol me despertou no dia seguinte! Que bom, para cobrir grandes distâncias a companhia do sol é sempre bem-vinda!

A casa onde eu estava hospedada estava em obras e fui acordada por alguém que esgravatava na parede do lado de fora.

Espreitei e aquilo deu quase uma cena tipo Romeu e Julieta, com o rapaz no andaime a conversar comigo na janela. Simpático, cobriu-se de desculpas por me ter acordado.

“Sem problema senhor, eu tenho mesmo de partir!”

Porque tem de ser tão perturbador o regresso a casa?

Porque não hei-de ser como toda a gente que, a certo momento, está farto de viajar e quer voltar para o ninho?

É claro que eu gosto de voltar a casa mas, a consciência de tudo o que eu gostaria de ver ainda é tão grande, que eu quero sempre continuar mais um pouco!

Naquele dia eu iria apenas descer a França, sem mais nada para fazer ou ver, apenas descer… e não é fácil descer um pais lindíssimo sem parar a cada quilómetro para ver mais um pouco! Por isso eu pus o meu GPS a pensar por mim, a levar-me por estradas secundárias, evitando tudo o que pudesse perturbar o meu caminho, e desci!

Voltei a passar na igreja de Pipriac, por uma questão de, já que não vou ver nada no caminho ao menos vejo a igreja da terrinha!

E aquela visita deu conversa para caramba com os senhores das lojas ali perto a fazerem-me imensas perguntas e a tirarem fotos à minha moto.

E então seguiu-se um percurso cheio de tudo e de coisa nenhuma!

Por entre searas e vinhas, campos e planícies adornadas com nuvens tão inspiradoras que nada mais me apetecia fazer senão conduzir, deixando a moto deslizar em movimento fluido e absorver tudo o que a minha memória conseguisse, porque o que via seria registado no meu mundo das sensações, não no das recordações históricas!

“Paisagem inspiradora é uma estrada cheia de possibilidades, de descobertas para fazer ou de sensações para despertar! E eu queria ter uma estrada no meu caminho, para fazer de novo amanhã, voltar a sentir que as minhas rodas me levam por onde eu quiser, a mim e aos meus sonhos. E quanto tudo parece tão longe e impossível, há sempre uma imagem gravada de espanto na minha memória, quando os céus me inspiraram e o horizonte me acolheu…”

(in Passeando pela vida – a página)

Cognac, quando as paisagens deixam de ser apenas searas e passam a ser também vinhas….

É tão inspirador viajar com paisagens deslumbrantes e céus impressionantes…

Entrei em Cognac, estava na hora de comer qualquer coisa e, para minha alegria, havia no centro um stand Honda!

A minha bonequinha já levava mais de 12.000 km de viagem sem nada pedir para além de gasolina mas, como já é hábito em todas as viagens que faço, uma luz vinha fundida há uma série de quilómetros!

Eu tenho de aprender de uma vez a trocar uma lâmpada, pois é coisa fácil e necessária, já que há sempre uma que me abandona pelo caminho!

“Como sempre a minha bonequinha ficou ceguinha de um olho há uma série de dias! Isso sempre me aconteceu em todas as motos e em todas as viagens! Mas desde que na Áustria fui a um concessionário Suzuki e quase me desmontaram a frente da moto, demoraram 2 horas a trocar a lâmpada, paguei 36€ e ainda levei o recado de que é muito difícil mudar uma lâmpada na minha moto… desta vez esperei por uma oficina Honda!
10 minutos e 6€ depois estava ela toda alegre e radiosa, com uma olhadela às pastilhas, ao óleo e à pressão dos pneus!
Honda é Honda, não há como a casa mãe! <3”

(escrevia eu no meu mural do Facebook)

A simpatia e prontidão com que fui atendida agradou-me bastante, um respeito por quem viaja e tem de continuar o seu caminho, sem que com isso me fizessem pagar excessivamente, como uma taxa de urgência! Apreciei muito!

Gosto de ver a minha bonequinha no meio de outras motos e mesmo assim acha-la a mais linda!

Linda!

E estava na hora de partir de novo…

e vieram mais vinhas, mais planícies, mais searas, até eu chegar a Dax…

Cheguei ao local onde ficaria hospedada e não me apeteceu sair mais.

Eu conheço a sensação de fim, de “não me apetece ver mais senão sinto mais que está a acabar” e foi o que me aconteceu ali. Fechei-me no quarto como uma acção de protesto contra mim mesma, contra a inevitabilidade da vida, contra a sensação de “tenho de amuar e mainada!”

E foi o fim do 32 dia de viagem…

38. Passeando por caminhos Celtas – Normandia… as praias do desembarque 70 anos depois…

28 de agosto de 2014

O dia seguinte foi como uma oração!

Não importava se eu já tinha estado na Normandia, se já tinha visitado uma ou outra praia do desembarque, nada importava, apenas importava voltar lá e fazer todo o percurso como uma via-sacra, um caminho sagrado.

O aspeto do que eu queria ver era simples, famoso e cheio de indicações…

Mas algumas voltas que eu daria seriam bem mais complexas, cheias de caminhos incógnitos ou esquecidos e sem quaisquer indicações, muitas das vezes, para além dos vestígios ainda hoje visíveis, de tudo o que por ali se passou!

Desenhei o meu próprio caminho e fui seguindo…

Não me importava que sequencia fazer, que museus visitar, que rituais seguir, apenas me importava ver e sentir cada pedaço de caminho que eu fizesse, cada ponto que eu alcançasse!

Não quero fazer uma lição de história, porque essa toda a gente a sabe, ou pode saber, basta ir até ao Google e pesquisar um pouco, não muito, que tudo surgirá em catadupa.

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O meu pequeno apartamento em Pipriac tinha este aspeto:

Ali tracei o meu destino daquele dia, com a senhora da casa muito preocupada porque eu iria para muito longe com a moto e ameaçava chover!

“Oh minha senhora, não se preocupe que à chuva estou eu bem habituada! Só é pena pois não dá jeito para fotografar ou desenhar!”

“Vai para tão longe não terá tempo para fotografar, desenhar e voltar hoje ainda!” – insistia ela

“Tenho sim, tempo para isso e muito mais, confie em mim!”

E é claro que tive!

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As memórias estão marcadas pelo caminho nas mais variadas formas…

“ As guerras não fazem os grandes homens, mas revelam a grandeza dos homens justos.”

Escultura dedicada a “Todos os abriram o caminho da liberdade no dia D”

O tempo estava bem melhor do que ela ou eu pensamos e a ameaça de chuva apenas trouxe mais encanto e mistério ao meu percurso com nuvens inspiradoras sobre o mar impressionante!

E as praias do desembarque estavam deslumbrantes…

Utah, era uma das praias que eu não tinha visitado ainda e pude caminhar pelas suas areias, levar a moto quase até elas!

Anda-se por ali e, tal como as placas anunciam, aquilo é um museu a céu aberto! Os vestígios do “Mur de L’Atlantique” são tantos, com as baterias bem visíveis, na borda das praias, nas bermas das estradas ou mesmo em plena água…

Como se pode pensar em guerra, morte e destruição quando se tem uma visão tão privilegiada sobre o mar?

E a rua segue junto ao mar, placidamente como se nada se tivesse passado ali, até voltarmos a cruzar com mais um Ponto Fortificado, como aparecem referenciados… por todo o lado!

“O seu sacrifício, a nossa liberdade”

Havia gente muito surpreendida com a minha moto! Fizemos amizade e descobrimos que eles vinham de onde eu vinha, da Irlanda, apenas eles eram mesmo de lá e tinham chegado de ferry, enquanto eu vinha de dar uma volta bem maior!

Logo ali fica Sainte-Mère-Église.

Havia por lá uma série de motards! E havia festa também. Eu preferi ir ver primeiro as coisas sérias.
Eles tinham ar de quem estava a beber há um bom bocado e eu não me podia render a essas tentações, ou a policia que também andava por ali, não me deixaria partir depois!

Sainte-Mère-Église ficava no meio de toda a batalha e por isso ficou conhecida por ser a primeira cidade a ser libertada, para além da célebre história do para-quedista que ficou pendurado na torre a igreja, quando o seu para-quedas se engatou nas saliências de pedra da torre!

O John Steele, era o homem, fez-se de morto e ficou ali em cima por muito tempo, até virem socorre-lo. Foi capturado pelos alemães, mas acabou por se libertar e ficar para contar a história!

Hoje está um boneco lá em cima, pendurado pelo para-quedas a lembrar o momento!

Claro que fui ver a famosa igreja por dentro!

Na rua, junto do sitio onde pousamos as motos, havia uma exposição de fotografia que assinalava cada ano desde 1944 até 2014 em 70 fotos marcantes!

Claro que me dei ao cuidado de as captar todas, uma a uma, para mais tarde relembrar qual retratou cada ano…

A minha bonequinha fez mais amizade com as motos dos irlandeses do que eu com eles!

Eles estavam todos ao monte a comer e a beber, numa esplanada. Eu apenas os cumprimentei e a festa era tão ruidosa, que eu nen me aproximei muito, fui direta a uma tenda que vendia salsichas gigantescas grelhadas na brasa e deliciei-me sem quebrar o sentimento de introspeção que vinha vivendo e queria continuar a viver! Sorry guys!

E então voltei ao Cemitério e Memorial Americano em Omaha Beach…

É daqueles sítios que me puxam para visitar a cada vez que passo perto e naquele dia fazia ainda mais sentido…

Havia muita gente por lá e o silêncio era surpreendentemente absoluto…

… como quem entra numa catedral onde se vela um corpo… ali velavam-se cerca de 10.000 corpos…

Acho que se “ouve” o silêncio até nas fotos…

O efeito das cruzes é tão forte que é impossível ficar indiferente!

“E eu voltei lá de novo este ano!
Eu tinha de voltar! Simplesmente eu não podia passar perto sem voltar…
E cada vez que eu volto a um sítio levo na mente e no coração o que me fez falta ver em visitas passadas, então eu entrei no espaço e fui andando, sem ligar ao que toda a gente liga, sem ver o que toda a gente vê, até às cruzes, as infinitas cruzes… e fiquei ali, como quem acorda de repente, apenas olhando em redor. Quanta beleza, quanta dor, quanta história anónima, particular e incógnita, quanta vida ali perdida… Sentei-me entre todas as cruzes e fiquei, apenas fiquei, o tempo que o meu coração me pediu que ficasse…”

(in Passeando pela vida – a página)

Tive de me forçar a sair dali, eu não iria passar o resto do dia a passear pelo meio de um mar de cruzes de mármore!

Pertinho fica a Omaha beach…
As praias tomaram os nomes de código no dia do desembarque e permaneceram até hoje, como homenagem ao mar de homens que ali lutou ou morreu.

“Les Braves, o memorial de guerra na areia de Omaha Beach, uma escultura cheia de significado que resiste às marés desde 2004, quando o dia D, o desembarque na Normandia, comemorava 60 anos. Ali se lembram os americanos caídos em batalha em 3 conjuntos de curvas e colunas em aço inoxidável: as asas da esperança, a elevação da liberdade e as asas da fraternidade. Um monumento que foi criado para ser efémero e se tornou definitivo, como tantas vezes foi acontecendo na história das cidades e dos eventos, como o Atomium em Bruxelas ou a Torre Eiffel em Paris…
Fui vê-lo de novo, o mar estava calmo e baixo, por isso passeava-se na areia, pessoas em cadeiras de rodas visitavam o local, tinham ar de combatentes ou familiares. O ambiente que se vivia era ainda de comemoração dos 70 anos do dia D, fotos lembravam-no em diversos pontos na entrada da praia. Como quem visita um cemitério, o ambiente era palpavelmente grave…”

(in Passeando pela vida – a página)

E havia pessoas que visitavam os locais como eu, mas com uma dificuldade e uma ligação emocional bem mais forte que a minha! Havia gente que perdeu gente ou lutou ali na época e voltava lá, naquele dia… não consegui evitar que uma tristeza profunda se apoderasse de mim…

E eu andava e parava tantas vezes, a cada vez que algo me chamava a atenção, e por ali tudo chama a atenção! Tanto vestígio do passado, tantas exposições de fotos, tantos memoriais, tantas coisas que foram deixadas para trás no tempo da guerra e que estão onde ficaram e onde pertencem….

Na bateria de Longes fui recebida com tanta simpatia, como se achassem que eu os honrava coma minha visita…

tanta gente por ali e tanto silêncio…

As praias estão cheias de restos do passado, podem-se ver até no mar…

A Juno beach foi a mais difícil de encontrar, porque não está bem sinalizada como as outras. Na realidade ela, e todas as praias, estendem-se seguidas umas às outras desde Utah até Sword, e a Juno por vezes sem areia, sem memorial algum….

Mas o mar acusa-a facilmente, cheio de blocos de cimento que pertenceram ao Muro do Atlântico…

E depois de muitos quilómetros, muitas voltas, os últimos memoriais…

“No dia D, na manhã do dia 6 de Junho de 1944, no sector de “Sword beach”, como sempre fizeram os escoceses por muitas gerações, o general da brigada Lord Lovat, chefe da 1ª Brigada Especial em Serviço, mas também chefe do Clan das Highlands, ordenou ao seu tocador pessoal, Bill Millin, que tocasse a sua gaita de foles, enquanto os seus comandos desembarcavam. Por trás do tumulto da batalha, o som da música anunciava a libertação, com o “pipper” abrindo o caminho. Naquele dia os dois se tornaram lendas!”

E a França rende-lhes homenagem com uma escultura inspiradora!

E o fim do percurso tinha de ser em Caen, junto do seu memorial e museu…

Ali se encontram tantas coisas em memória daqueles dias e enaltecendo a paz… ali se encontra também uma das reproduções de autor da celebre pistola com um nó no cano, “No violence”

E fui para casa, com um céu a ameaçar cair-me em cima, para completar o quadro triste que fui construindo ao longo do dia…

Mas em Pirpriac estava um belo pôr-do-sol que me alegrou o serão!

A dona da casa tinha estado todo o dia a fazer chouriças e recebeu-me com animação, mostrando-me a obra num forno que ela tinha no quintal! Curiosa a facilidade com que por ali se fazem estas coisas, mesmo vivendo numa cidade!

Quando subi até casa só queria estar com alguém!

É nestes momentos que o Facebook me faz tanta companhia! Havia muita gente conhecida on-line que me aconchegou o coração, celebramos on-line e tudo, com um copo de vinho, eu lá e os meus ciber-amigos cá!

E foi o fim do 31 dia de viagem! “Amanhã” eu desceria todo o país até ao norte de Espanha, onde fica a zona mais celta da Península Ibérica: as Astúrias e os Picos da Europa!

37. Passeando por caminhos Celtas – Um pouco da Bretanha encantadora

27 de agosto de 2014

E pronto, o Reino Unido estava para trás e eu estava de volta à bela França!
Sempre me encanto com os encantos daquele belo país e a Bretanha continua a ser um recanto que me intriga e atrai, pela sua beleza e história.

Eu estava hospedada numa “maison d’hôtes” muito curiosa, num apartamento no sótão de uma casa muito antiga e inspiradora. As vezes que eu fotografei aquelas escadas!

E, tal como eu imaginara ao fazer uma reserva para 3 noites, era o sitio ideal para eu estar só, poder tirar as malas da moto, espalhar todas as minhas coisas por todo o lado e poder cozinhar! Esse pormenor de poder cozinhar fez-me tão feliz, depois de tanto tempo desejando comida de panela decente!

A dona da casa era muito simpática e foi-me dando coisas da horta que cultivava nas traseiras, batatas, cebolas e tomates, e eu fui fazendo os meus petiscos com tanta vontade que quase não precisaria de prato, à quantidade de vezes que ia depenicando da panela!

Depois de muita conversa ilustrada de mapas e prospectos de divulgação turística da zona, eu tinha 3 ou 4 coisas para ver naquele dia.

E a Normandia ficaria para o dia seguinte…

Pipriac era o nome da terra onde eu estava, bem no meio da zona que eu queria explorar naqueles dias. As pessoas ficavam a olhar para mim quando eu passava. Deduzi que não estavam muito habituadas a ver alguém de capacete enfiado a visitar igrejas…

Mas como ninguém me disse nada e eu só queria dar uma espreitadela, foi mesmo de capacete na cabeça que visitei a igreja sim senhor! Acho que não há lei eclesiástica que diga que isso é pecado… digo eu!

E segui para uma terrinha chamada La Gacilly onde decorria um festival de fotografia…
Oh, La Gacilly é uma vilazinha encantadora, com casinhas de pedra, a lembrar as casinhas de xisto do Piódão, com os caixilhos das portas e janelas em corres vivas, e muitas árvores, trepadeiras e jardins por todos os lados!

E como se não bastasse, realiza desde há mais de 10 anos um grande festival de fotografia ao ar livre que estava a decorrer!

E estavam lá fotos de Robert Capa, o grande fotografo que guerra que eu tanto admiro!

E o país convidado era os Estado Unidos, com fotos fantásticas, como as de Steve McCurry!

Perdi-me por ali, a ver a exposição que estava por todos os lados, ruelas e jardins, e a desenhar aqui e ali uma casinha mais encantadora ou um recanto mais pitoresco!

Porque as casinhas são mesmo muito bonitinhas por ali e apetece parar em cada recanto e desenhar!

Depois de horas a catar o mundo da fotografia e as ruelas de casas em xisto, a vilazinha que visitei a seguir ainda me encantou mais!

“Rochefort-en-Terre figura entre os “Plus Beaux Villages de France” e isso é garantia de “coisa bonita” mas ao chegar-se lá, rapidamente se percebe que ela é muito mais que bonita: é encantadora! Há uma harmonia extraordinária entre os diversos estilos arquitetónicos que se foram acumulando e justapondo ao longo dos séculos, desde a formação do local lá pelo séc. XII. Construções góticas, renascentistas e posteriores, convivem perfeitamente para um ambiente idílico de conto de fadas. Andei por ali muito tempo, o dia estava lindo e a vontade de captar tudo não me deixava ir embora. Nem sei quanto desenhos fiz, mas fotos foram tantas!”

(in Passeando pela vida – a página)

Algumas casas ficaram associadas aos desenhos que fiz! Uma sensação curiosa que experimento hoje ao olhar as fotos!

casinhas medievais que “coabitam” com casinhas mais recentes, renascentistas…

Formando um conjunto encantador por toda a povoação!

com direito a castelinho medieval e tudo a completar o conjunto!

A igreja de Notre-Dame-de-la-Tronchaye, numa mistura do estilo românico e gótico, a condizer com a redondeza!

“Sentir que uma viagem se aproxima do fim é sempre penoso para mim! Podem dizer que as saudades de casa têm de apertar, que eu tenho de ter vontade de voltar, que o meu coração tem de estar cá e não lá onde eu quero andar… Mas a verdade é que eu quero sempre continuar, com saudades, com vontades, com tudo, eu apenas quero continuar! Então não perco o entusiasmo, nem a vontade de ver tudo até ao fim e os últimos dias de uma viagem são aproveitados com a mesma intensidade que os primeiros, como quem vive a vida até ao ultimo momento! Assim me aconteceu quando cheguei a Rochefort-en-Terre, depois de um longo percurso de tantos quilómetros e tanta coisa explorada, eu me encantei! E sentei-me na berma de um vaso de flores, que era uma peça só esculpida num bloco de granito, na Place du Puits, e deixei-me ficar, apenas olhando. Desenhei, conversei e quis que aquele momento nunca mais acabasse e ele tornou-se eterno…”

(in Passeando pela vida – a página)

O dia não ficaria sempre assim bonito, por isso eu aproveitei o mais possível aqueles momentos de sol, apreciando as paisagens, conversando com as pessoas e finalmente partindo para uma terra mais à frente! Era cedo e eu tinha vontade de ver mais!

Redon lembra-me sempre o pintor simbolista francês, mas ali era uma cidade, com um centro histórico muito pitoresco!

Aquelas casinhas todas tortas, com os travejamentos exteriores sempre me prendem a atenção!

Fica ali no limite entre 2 províncias, o Loire Atlantique e o Lille et Vilaine e fica também numa confluência dos rios Vilaine e  Oust, que mais parecem canais que quase dão a volta à cidade!

E há comportas e eclusas para gerir o fluxo das águas e tudo! Mesmo assim dizem que no inverno não é raro inundar-se aquilo tudo!

A igreja tem uma torre que não lhe pertence! Sim isso existe! Aquela torre está fora da igreja mesmo!

O corpo da igreja é essencialmente românico e a torre é gótica, um grande incêndio acabou por provocar a separação das partes e hoje a torre está ali, sozinha, mas de pé!

Uma beleza natural como eu aprecio, sem grandes intervenções posteriores que impeçam de apreciar a construção original…

O tempo estava a pôr-se ranhoso lá fora e isso impedia-me de explorar pormenores que aprecio, como uma série de grafitis que encontrei num recanto meio abandonado. Sempre provocam em mim aquele efeito da saudade de pegar nas tintas ou nos sprays e desatar a desenhar em grande…

E quando o dia já estava a meter água, passei em Roche-Bernard! Uma pena pois teria apreciado tudo muito melhor sem chuva, claro!

E segui para Guérande, uma cidade medieval que eu queria muito visitar! É conhecida por ter duas paisagens contrastantes, uma branca, por causa das suas salinas, e outra negra por causa da turfa!

O centro histórico é muralhado e é lindo por dentro! Claro que com a chuva que já era muita, fui-me refugiar na igreja!

A origem da igreja é tão antiga que se perde na mistura de restauros e reconstruções posteriores, mas continua linda e mostrando um pouco do românico, do gótico e até de pormenores anteriores!

Com o mau tempo lá fora deu para apreciar alguns pormenores com muita calma!

Mas eu tinha de sair da igreja, por isso à primeira aberta fui explorar as ruelas cheias de gente e guarda-chuvas e outras curiosidades!

Quantas vezes ando à procura de um porquinho mealheiro e não encontro nenhum e ali havia tantos!

Coisas que encontrei por lá e que fizeram tanto sentido!

A muralha é impressionante! Não é muito alta mas é perfeita e muito bem conservada!

E fui embora, meio amuada com o tempo que se voltara contra mim de novo!

E de repente passei por um castelo encantado… ou pelo menos encantador!

“Eu nunca consigo ficar indiferente a um castelo que avisto no meu caminho, paro sempre, olho sempre, tento sempre saber algo mais sobre ele e, se não puder aproximar-me, fico ali como uma adolescente a apreciar o seu ídolo inatingível até a consciência me fazer pegar na moto e seguir o meu caminho! Tudo isso voltou a acontecer quando pelo canto do olho eu vi o Château de la Bretesche “passar” ao longe, para lá de um lago que surgiu no espaço entre as árvores que faziam um muro, do lado esquerdo da rua que eu percorria! É uma construção medieval do séc. XIV que foi restaurado no séc. XIX. Que coisa linda! Mas quando descobri o que ele é hoje ainda fiquei mais fascinada! Ele foi vendido a uma empresa particular que o transformou em diversos apartamentos, onde vive gente! Ui, viver ali seria como viver num conto de fadas todos os dias, com direito a lago, jardins e até um campo de golfe com 18 buracos… céus, eu teria de deixar de viajar, só para desfrutar a sério da minha casa!”

(in Passeando pela vida – a página)

Que coisa linda!

E depois de muito fotografar e desenhar o castelinho lá segui para casa, desejando do fundo do coração que o tempo melhorasse porque no dia seguinte eu queria ir percorrer as praias do desembarque e a chuva não seria boa companhia…

E eu que nem sou grande apreciadora de chocolate, fui-me deliciar com um bom vinho, um jantar à minha maneira e chocolate com avelãs para sobremesa! Como eu gosto da França, onde há tudo o que eu gosto de comer!

E foi o fim do 30º dia de viagem…