31. Passeando pelos Balcãs… – A Roménia encantadora…

24 de agosto de 2013

Depois de tudo o que me foram dizendo sobre a Roménia, de como tinham sido assaltados por lá ou como me iriam roubar a moto e vende-la às peças e tal eu, por via das dúvidas, tratei de encontrar um hostel com parque para motos!

Curiosamente ao chegar ao local não vi sinais de garagem ou outro tipo de parque privado por perto, certamente seria noutro local próximo. Perguntei na receção onde era o parque privado para as motos. “A moto, mete-se cá dentro!” exclamou o rececionista.

“Cá dentro?” Eu entrara realmente por um pátio estreito e comprido, mas a minha moto não passaria sequer o portão! “Cá dentro? – exclamei – mas ela não cabe!”

“Cabe sim, já metemos cá dentro tanta moto!”

“Pois, mas a minha não cabe, não passa sequer na porta!”

O rapaz olhava para mim incrédulo, imagino que na sua cabeça pensaria que eu devia ser uma aselha para não conseguir meter a moto onde tantos motards haviam já metido as suas!

“Onde está a moto?” – quis saber ele como quem vai tirar as teimas e mostrar-me que eu estava enganada. Espreitou pela janela e viu a minha Ninfa bem de cima, acho que a perspetiva dali a tornou ainda mais imponente.

“Ah, não cabe não!” – exclamou espantado!

Claro que não cabia eu sei muito bem a moto que tenho! E ficou ali a olhar para a moto de boca aberta e olhos arregalados. “E veio até aqui sozinha numa moto tão grande?”

Então chegou-se o responsável pelo lugar para espreitar para a moto também.

“ Não há qualquer problema, a moto pode ficar na rua sem que corra perigo!” – disse ele.

“Olha que eu tenho de ter moto para voltar para casa!” – exclamei eu, ao mesmo tempo que pensava em todas as pessoas que me avisaram para nunca deixar a moto na rua pois acordaria sem ela!

A moto ficou na rua sim, mesmo por baixo da minha janela, e ninguém lhe tocou, nem naquela noite nem na seguinte…

**

De manhã eu só queria passear pelo país!

O tempo estava a mudar, já não estava tanto calor e o céu ameaçava encher-se de nuvens a todo o momento! Mas nada me impediria de ir dar uma bela volta de reconhecimento do local!

O país é grande e com clima variado, sai-se debaixo das nuvens e lá está o sol aberto de novo!

Só encontrei ruas limpas e paisagens bonitas! Será que o feio se afastou todo de mim?

Oh as igrejas! Coisas lindas e diferentes onde ninguém me impedia de entrar ou fotografar!

Achei um piadão àquelas torres torcidas!

As pessoas pareciam honradas pela minha visita, sorriam e faziam sinal para eu visitar à vontade!

Os símbolos religiosos deles são muito bonitos, peças de madeira muito bem trabalhadas, como totems!

Cheguei a Câmpina e encontrei outro santuário!

Eu não conseguia resistir a visitar aqueles santuários lindíssimos revestidos de pinturas extraordinárias!

A forma como tudo é pintado em cores vivas contando histórias, faz de cada local religioso um autêntico livro de histórias!

Depois a ruas são boas e, frequentemente, não têm passeios! Em vez disso têm as valetas relvadas com pontesinhas de cimento ou pedra nas passagens para as casas, que nunca têm a porta da entrada direta para a rua!

E as casinhas são mesmo diferentes, frequentemente com telhados de metal, recortados e trabalhados! Por vezes as construções parecem mesmo grandes casas de brincar, de tão queridinhas que são!

Cheguei a Sinaia, onde havia 2 ou 3 coisas que eu queria ver. As pessoas foram muito convincentes ao indicarem-me mais um mosteiro, o Mosteiro de Sinaia, como “a não perder”!

Na realidade há uma igreja nova e uma igreja velha ali, num mosteiro onde vive um grupo de 13 monges.

A igreja nova é do séc. XIX e é muito bonita!

É uma arquitetura diferente da que estamos habituados, olhe-se para aquelas colunas lindíssimas, todas trabalhadas que até parecem bordadas!

Lá estavam os fieis em filinha para rezarem ao seu santo predileto! E beijam-no, e tocam-lhe, e voltam beijar a imagem e as mãos, e por ali ficavamm neste ritual de beija e toca!

Sai-se da igreja e em frente, depois de uma passagem que atravessa o edifício, encontra-se a igreja velha, do séc. XVII.

Não posso deixar de admirar as pessoas que viajam de mochila às costas e catam tudo!

E era tão bonita! Fazia lembrar as igrejas dos mosteiros de Meteora!

Tudo era encantador naquela igreja!

Pormenores de encanto …

E as casinhas em redor? Eram um encanto, pareciam de brincar, por todo o lado!

Ali ao lado sobe-se ao monte até à Cota 1400

E lá de cima via-se toda a redondeza! O castelo de Bran fica ali para a frente uns quilómetros!

A rua que eu estava a fazer andava por todos os lados! Mais uma que, se fosse na Suiça ou na Itália, teria o nome de Col de qualquer coisa e uma tabuleta em cada curva a contabilizar quantas curvas há para fazer!

Fui até ao castelo de Peles.

Chega-se a um parque lindíssimo, com construções extraordinárias e o castelo fica ali dentro, um pouco mais à frente!

Ali há cafés e lojinhas de recordações e gente simpática que ficou a olhar para mim, como se eu fosse um ET que chegou! Nada que um sorriso e um ar simpático não quebrasse!

Ali fiz amizade com um grupo de motards que não conseguia disfarçar o espanto por me ver!

Estavam todos em motos de pista e a minha Ninfa parecia um autocarro perto das deles! Acho que eles não acreditaram muito que eu vinha de tão longe sozinha, alguns estavam sempre a olhar em volta e a perguntar se os meus amigos não viriam mesmo ali ter!

Com a conversa acabei por demorar muito tempo e optar por não visitar o castelo decidindo ir visitar antes o castelo de Bran… o que acabou por não ser a melhor escolha…

Afinal o Castelul Peles é aquele encanto que só se encontra em filmes e histórias de fadas e princesas! Dizem que é um dos mais belos castelos da Europa, eu acho-o um encanto! É um castelo “recente”, romântico lá pelos finais do séc. XIX e ali viveu o rei Carol I, o fundador da moderna Roménia.

Estava muita gente por ali em visita quer ao castelo quer ao parque.. e eu vou ter de lá voltar para o visitar por dentro!

Toda a envolvência é linda, com construções tão encantadoras como ele e gente simpática. Tinha pousado a moto num sítio ingreme e, quando ia sair, ela não recuava, pois enfiou a roda traseira numa reentrância provocada pelo ralo da água. Toda a gente ficou a olhar sem saber o que fazer, então veio um segurança e empurrou-me para trás, fazendo pressão na frente da moto! Agradeci-lhe tanto, ele apenas fez um gesto de adeus “you’re welcome!” respondeu com um largo sorriso! Toda a gente ficou satisfeita por eu sair sã e salva do “buraco”. As pessoas acenaram-me adeus quando parti!

Toda a zona estava cheia de gente e era compreensível, afinal tudo é lindo por ali, com castelinhos e construções lindas a espreitar aqui e ali!

Havia polícia por todos os lados a organizar o trânsito, agentes simpáticos que não prejudicavam as motos, embora os motards romenos (os que encontrei pelo menos por ali) não fossem muito aventureiros, e seguiam ordeiramente na fila dos carros! Eu não me contive a maior parte das vezes e fui furando e ninguém me impediu de o fazer!

(continua)

30. Passeando pelos Balcãs… – E cheguei a Bucareste!

23 de agosto de 2013

Naquele serão eu estive a beber cerveja e a comer pizzas até às tantas. O hostel tinha a modalidade “faça você mesmo a sua piza” e estavam por lá uns malucos que se fartaram de as fazer para toda a gente. As cervejas eram enormes e deliciosas, por isso não me faltou nada para ser feliz, a considerar que estava a tratar de recuperar o peso que perdera!

O hostel ficava numa ruela sem transito e eu pensei que não haveria qualquer problema em deixar a moto na rua, mas fui vivamente aconselhada a mete-la no quintal ao lado, porque na rua nada era seguro! Oh valha-me Deus, afinal tudo aflito que eu ia à Roménia, que lá roubam e assaltam e afinal na Bulgária já não posso deixar a moto numa rua longe de tudo porque não é seguro?

Logo ao lado, depois da sebe, ficava a zona do forno e das mesas corridas onde a gente fazia e comia pizas! Ninguém ficou indiferente às manobras da moto e a conversa foi naturalmente para de onde vinha eu de moto! Havia lá muita gente da Austrália, um pequeno grupo de rapazes viajava por um mês pela Europa, pelo que percebi, para beber e participar em todo o tipo de festas! Dizia-me um que viajar de moto devia ser a coisa mais aborrecida do mundo porque, além de nos cansarmos, não podíamos beber! Mas eu estava a beber, respondi-lhe eu com a minha cerveja, que parecia quase de litro, na mão! “pois mas não te podes embebedar!”!

Oh rapaz eu para beber não venho tão longe! Não falta o que beber na minha terra, não tenho necessidade de correr a Europa de bebedeira em bebedeira! A verdade é que só falavam do que se bebia aqui e ali, e que em Sofia as bebidas são mais baratas que em Varna e, tarde da noite saíram, chamaram vários táxis, e foram todos para Varna enfrascar mais um pouco!

A verdade é que no dia seguinte de manhã ninguém acordava para vir servir o pequeno-almoço nem para abrir as portas para eu sair!

Estava farta de estar ali, um mundo de excessos nunca foi o meu mundo, sobretudo quando são excessos que me tiram a consciência e me privam de viver o dia! Quando me quiser embebedar fá-lo-ei na minha casa, pois assim vou para a cama e nem faço cenas, nem perco nada da vida… opinião minha, claro!

Este foi um dia grande para mim, de repente iria realizar dois dos grandes objetivos da minha viagem! Eu sei que podem parecer meio malucos esses meus objetivos, mas há coisas simples que significam muito para mim, mais do que estar em algum momento histórico em algum lugar! Vou só, e é nessa “solidão” que eu me realizo ao sentir-me onde desejei ir!

O primeiro objetivo era nadar no Mar Negro! Claro, com tanta vontade de o ver não podia deixar passar a vontade de o tocar!

Lá estava ele, deslumbrante e nada negro….

Ele chama-se negro porque é mais escuro do que outras águas de outros mares ou cursos de água, uma coloração escura provocada pela composição das suas águas e da vegetação submarina que existe nele. Dizem que as suas águas são menos salgadas que as do Mediterrâneo e outros mares! Ao mergulhar soube-me a água salgada na mesma, teria de ir num instante ao Mediterrâneo provar as suas águas para comparar!

Pousei a moto, rapei da toalha e fui nadar! Eheheh

As pessoas ficavam a olhar para mim e para ela com admiração, contei que ninguém lhe tocaria e assim foi! Ela impôs respeito pois então!

As praias eram deliciosas e a água fresca! Àquela hora da manhã já estava calor suficiente para a frescura das águas ser tão bem vinda!

Que bem que me soube! Num bar em frente à praia fizeram-me uma festa quando fui mudar-me, ninguém falava língua que eu entendesse mas fartaram-se de me dizer coisas, de me cumprimentar levantando o polegar no ar, presumi que eram gestos de admiração… (se fosse de desaprovação levantariam o dedo médio, não?)

E segui fresca e revigorada por terras com nomes muito curiosos, em percursos desorganizados! Fui por onde me apeteceu, dando voltas sem sentido, apenas para ver e espreitar um pouco do que houvesse no meu caminho, porque não queria parar muito, mas queria pôr o olho ao país pois quero lá voltar com mais tempo, um dia!

Fui ter a uma saliência no mapa sobre o mar em Kavarna, um sítio histórico num local deslumbrante!

Ao chegar lá havia uma cabine com um rapaz a cobrar bilhetes! Oh valha-me Deus que não tenho dinheiro do vosso para pagar! “Oh, I don’t have noney to pay you!” ele ficou a olhar para mim, sorriu e fez-me sinal “No problem, go on!” fiquei espantada a olhar, enquanto ele me mandava seguir! Gente boa!

E fui explorar ruínhas daquelas que eu gosto tanto! Kavarna foi fundada no séc. V aC pelos gregos e eu queria ir ver como era o que chegou até nós…

Dali a perspetiva sobre o mar é um espanto! Momentos espantosos!

Ali dentro há uma propriedade militar e as ruinas de séculos e séculos de história, mas foram as pessoas que me encantaram! Olhavam-me com espanto, eu ia toda vestida de preto e isso parecia atrair as atenções! Então eu sorria para elas e elas abriam grandes sorrisos também! Não há nada que um sorriso não derreta!

Nada podia comprar porque continuava a não ter dinheiro, o lev nunca chegou a entrar no meu bolso, ou acabaria por trazer mais moedas de sobra no fim do caminho! O que comprei e paguei na Bulgária foi sempre com cartão, mas ali não havia multibanco!

Então uma senhora ofereceu-me água! Genial! Gente tão simpática!

Estive por ali sentada a apreciar a paisagem e a curtir a companhia das pessoas, que estavam muito preocupadas porque eu estava tão perto do penhasco e o chapéu podia ser levado por ali abaixo pelo vento!

Mostrei-lhes que o meu chapéu tem um elástico que me permite prende-lo à cabeça quando está vento! Ah as caras das senhoras espantadas como quem diz “Claro! Por isso está ai em cima tão direitinho com este vento!” e riam-se!

Acabei por fazer um desenho no local, com elas a olhar! Eu nunca faço isso, normalmente desenho “em privado” mas ali apeteceu-me e elas adoraram, sacaram todas dos telemóveis e tiraram-lhe fotos!

Ainda tive direito a uma mão cheia de figos e uvas e tudo! E fui embora com um sorriso enorme porque encontrar gente boa faz tão bem ao coração!

Segui pela berma do mar, mas a minha finalidade era seguir para Bucareste sem parar mais! Há momentos em que só me apetece seguir caminho e a minha obrigação é atender aos meus próprios desejos, mais do que a roteiros ou planos pré-estabelecidos!

E começaram a aparecer as placas que eu esperava! Wow!

A fronteira passou-se na maior paz e serenidade! Cheguei, espantei e segui! Apenas mostrei a capa do meu passaporte e ninguém me incomodou mais, afinal estava na comunidade Europeia de novo!

Achei a operação tão simples que fiquei um pouco ali a olhar para uns e para outros, enquanto a fila dos carros não andava nem desandava. Dois polícias deram a volta à moto e fizeram-me sinal levantando o polegar! Adoraram a moto e parece que adoraram ter uma cliente feminina por ali. “Your friends?” perguntou um “My friends are in Portugal! I’m here alone!”

Adorei o seu “Alone?? Wow! Go on and enjoy our country!”

E o mar Negro era cada vez menos negro, e voltou a apetecer-me mergulhar nele!

Constanţa tem as placas de sinalização da cidade mais originais que encontrei! Enormes barcos marcam a entrada e a saída da cidade!

Apenas dei voltas pela cidade sem desmontar da moto. Ali era o ponto em que eu deixaria o mar Negro para trás e seguiria para o interior do país até Bucareste!

As capelinhas nas bermas das estradas fascinaram-me! Pequenas joias ali, abertas, onde toda a gente podia entrar e, mesmo assim, perfeitas e limpas! Isto mostra muito de um povo que pode entrar e estragar mas respeita! Lembrei-me de quantas capelinhas, bem menos interessantes, existem por cá e estão fechadas a 7 chaves contra o vandalismo!

Então, se calhar, aquele país não está assim tão entregue a gente duvidosa como se pensa frequentemente por cá…

A minha bonequinha em solo romeno! Fica tão bem!

Uma coisa que me despertava o interesse era a arquitetura daquele país e foi aparecendo um pouco do que desejava! Ah aqueles telhados!

De repente a vontade de chegar à capital era grande, queria lá chegar de dia e vê-la naquele dia ainda! Por isso corri!

E de repente deixei de me sentir uma perfeita analfabeta, que nada consegue ler, e consegui entender que havia ali uma autoestrada sem portagens! Boa, segui por ela!

O romeno é uma língua latina por isso consegue-se entender muitas coisas escritas, sobretudo!

E cheguei a Bucareste!

Cidade grande e grandiosa! Cidade espantosa, de trânsito ordeiro, motards simpáticos e estradas limpas! Afinal onde está a Roménia porca, decadente e cheia de ciganos? Certamente fora de Bucareste, porque ali eu sentia-me numa cidade demasiado ordeira!

Que falta me fez conduzir por aquelas avenidas como em Istambul! Ui, seria uma alucinação! Mas tive de seguir calmamente em fila e sem furar muito pelo meio do trânsito que ali parece que não se usa muito…

Uma cidade monumental sem buracos por todos os lados, ou sequer obras a perturbar a paisagem ou a condução!

Quando fui a um minimercado comprar comida para fazer um picnic encontrei gente conhecida no teatro em frente! Que bem que soube!

Como é possível passear por uma cidade daquelas sem encontrar obras por todo o lado? Eu nem sabia que isso existia!

E lá estava a grande avenida que leva até ao extraordinário parlamento! Linda!

Parei ali a moto e não havia ninguém parado fora do lugar! Não havia segundas filas nem transito embaraçoso por todos os lados!

Lá estava o parlamento! O famoso que eu não visitei mas terei de o fazer quando lá voltar! Afinal é o palácio maior do mundo depois do Pentágono, disseram-me lá e confirmei na net!

Está no Guinness, no entanto, como o maior, o mais caro e o mais pesado edifício administrativo do mundo!

Está decidido tenho de lá ir vê-lo por dentro um dia destes!

Acabei o dia junto de um bando de artistas de rua que faziam um grafiti na parede degradada de um edifico bem interessante! A solução de pintar aquela parede pareceu-me genial. Eles eram apoiados e tinham direito a grua e tintas e tudo! Ui, o que me apeteceu meter a mão na obra! Foi um serão agradável com direito a comidinha e cerveja e tudo, juntei o meu picnic ao deles e fizemos uma festa!

E foi o fim do 26º dia de viagem!

29. Passeando pelos Balcãs… – Finalmente o mar Negro!

23 de agosto de 2013

Mais um dia de estrada, mais uma travessia alucinante de Istambul!

Eu gosto de despedidas, gosto de sentir que estou a ir embora, que me importo com isso! Gosto de olhar em volta e tentar reter na memória tudo o que os meus olhos conseguirem abarcar e o meu coração memorizar e depois partir, com esses momentos fugidios acumulados à minha história.

E quando deixo um sítio que gostei de conhecer, planeio como e onde fazer a despedida. Naquele dia, claro que estava determinada a levar a minha motita até ao outro lado do Bósforo, para que ela pusesse as rodas na Asia!

Ao pequeno-almoço vi-me rodeada de coreanos, que estavam muito curiosos a meu respeito! Diga-se de passagem que eu parecia um gigante perto deles, sobretudo das raparigas, pequeninas e miudinhas! Uma delas, que falava muito bem inglês, fartou-se de me fazer perguntas, sobre como era viajar de moto e maravilhava-se com as respostas que eu lhe dava “you inspire me!” repetia ela arregalando os olhos!

Dizia ela que de repente lhe apetecia também ter uma moto e viajar assim por conta própria como eu!

Fizeram-me uma festa quando me preparava para sair, o rapaz da receção estava maravilhado com o meu chapéu também! Mas lá fora é que era o espanto! Aquela gente nem se aproximava da minha moto, só a miúda que me fizera todas as perguntas se aproximou e me pediu para tirar uma foto junto da moto. Depois percebi que ela queria que eu ficasse também. Ela era mesmo miudinha junto de mim, quando me cumprimentou de mão, a sua mãozita era tão pequena e fina que me questionei se seria suficientemente grande para segurar o volante de uma moto!!

Aquilo foi mais uma sessão de fotografia de modelo. Acabei por tirar uma para mim também, pois então!

Ao fim da rua a gente voltava à esquerda e chegava ao meio do jardim onde de um lado se via a Mesquita Azul…

e do outro a Hagia Sophia! Claro que aproveitei para registar o momento em que a minha motita ficou ali no meio de tais cenários!

Desci até ao Bósforo… era por ali que eu queria passar os últimos momentos antes de partir, de um lado e do outro!

Ao longe podia ver a ponte do Bósforo. Aquela ponte tem um trânsito diário impressionante, por isso cerca de 2 meses depois de eu ir embora dali inaugurava o túnel ferroviário do Bósforo, à prova de terramoto, para reduzir a circulação sobre a ponte. Curioso que por lá não se via nenhuma lavoura de obras!

E atravessei a ponte! Wow, que momento! A minha Ninfa estava a entrar na Ásia! Eheheheh

O stop em turco é giro! Coisas que fui aprendendo pelo caminho!

Ora e lá estava a Europa vista da Ásia! Que satisfação infantil, afinal é tudo igual, mas cá dentro é aquela satisfação de “estou na Ásia!”

Despedi-me de Istambul do outro lado do Bósforo, ao longe a mesquita Azul com os seus 6 minaretes e a Hagia Sophia, imponente, acima de tudo… as águas azuis do canal encheram de encanto aqueles momentos que foto nenhuma, ou desenho algum, conseguiu reter… mais um momento histórico na minha história!

E voltei à estrada para seguir o meu caminho!

Conduzir por Istambul é a alucinação completa, as motos circulam pela faixa de segurança sem qualquer problema, ultrapassando tudo e todos!

Eu sempre gostei de conduzir no meio do trânsito, eu sei que é perigoso e tal, mas é tão revigorante! Acho que sinto tanto prazer em conduzir pelo meio de lado nenhum, por entre paisagens deslumbrantes e estradinhas sem ninguém, como pelo trânsito caótico de uma grande cidade. Sobretudo se essa grande cidade é Istambul, onde as motos têm liberdade de seguir por onde puderem.

Lembro-me de ter cuidado ao pôr os pés no chão, a cada vez que parava um pouco, não fosse algum carro passar-lhes por cima!

Depois de conduzir em Istambul, nenhuma outra cidade nesta viagem me deu tanto prazer de condução!

Ora eu queria parar no meio da ponte, fosse como fosse, nem que tivesse de simular uma pequena avaria na moto!

Mas não foi preciso, bastou encostar um pouco e pimba…

“Este foi o momento em que a Ninfa foi grande, parei no meio da ponte que atravessa o canal do Bósforo e ela ficou com uma roda em cada continente! Ao fundo fica o mar Negro, atrás de mim fica o mar de Mármara, do lado esquerdo fica a Europa, do lado direito a Ásia… momento para recordar, quando eu pus as rodas pela primeira vez na Asia!”

E pronto, adeus Istambul!

Uma coisa curiosa é que os polícias tinham sempre motos muito giras!

Segui para a Bulgária… iria ver finalmente o “meu” Mar Negro!

Depois de umas estradinhas giras, pelo meio de lado nenhum, eu estava a ficar cheia de sede! Encontrei uma pequena localidade e fui a um minimercado comprar algo para comer e beber. A senhora (a da bata azul) ficou visivelmente atrapalhada com a minha presença. Queria a todo o custo comunicar comigo.

Não me entendia, eu não a entendia a ela, e ela olha cá para cima, para mim, e ria-se nervosamente! Eu queria dizer-lhe que não era preciso falarmos, pois eu procuraria o que queria, mas não havia maneira de me fazer entender.

Então ela foi buscar uma miúda que, pelo que percebi, era suposto saber inglês! Mas só sabia dizer “yes” e “no”. Desataram a rir-se as duas!

E foi chamar outra… que ainda sabia menos inglês que a anterior. Eu já só me ria com a borga que elas faziam em redor de mim. Não faço ideia do que diziam, mas visivelmente estavam fascinadas com a minha dimensão perto delas, pois eram todas baixinhas!

Então chegou a mais gordinha e a maior de todas, mais risadas, mais brincadeira entre elas, quando esta ultima se pôs a medir-se por mim. Era mais baixa também.

Acabei por pegar no que queria e pagar pelos números que me mostraram na calculadora, que era o que bastava ter feito desde o início!

Mas giro foi quando eu me preparei para partir e montei na moto! Pareciam crianças em volta de mim a mexer em tudo! Então o GPS fascinou todas! Pelos seus gestos percebi que perguntavam o que era aquilo, “TV?” diziam elas! Eheheh

Mostrei o mapa e o sítio onde estávamos, não sei se todas entenderam mas a mais gordinha parecia radiante e fascinada, acho que entendeu o que era aquilo!

Quando dei por ela a rua estava cheia de gente, vários homens tinham-se aproximado um pouco, cheios de curiosidade, mas aquele era um momento feminino, nenhum chegou muito perto!

Pus a moto a funcionar e elas fugiram todas para o passeio, acenei-lhes com a mão, elas acenaram também e fizeram tanta festa que apontei-lhes a máquina fotográfica…

Achei que iriam tapar as caras, voltar-se de costas, sei lá, reclamar, mas para meu espanto, juntaram-se todas num montinho em pose para a foto! Liiindas! Adorei-as!

Eu diverti-me tanto que lhe atirei um beijo com a mão, entre a algazarra que faziam! Que momento giro com todas a atirar-me beijos também!

E logo a seguir comecei a ver placas a indicar… Bulgaristão!

Eu não fazia ideia que por ali a Bulgária se chamava Bulgaristão! Tive um súbito delírio de estar perto de países com Paquistão, Cazaquistão ou Afeganistão! eheheh

Estava o calor do costume quando cheguei à fronteira, e sair da Turquia não era tão simples como sair de um país qualquer! Voltei a andar de guiché em guiché, a preencher papeis sobre o que eu estive a fazer no país, onde estive, onde dormi, quanto paguei e o que gastei! Gente simpática que me ajudou a preencher tudo, pois os papéis eram complexos, até me pediram desculpa por não terem papeis na minha língua, “não se preocupem que Espanha que é ao lado de Portugal também não tem nada em português e eu lá me desenrasco!”. Preenchi os papeis espanhóis, pois então!

Segui para a fronteira búlgara, bolas, fiquei no fim de uma fila de carros, na seca e no calor!

Mas os búlgaros são gente boa, um polícia aduaneiro veio lá do fundo até mim. Pensei que já ía “levar nas orelhas” por estar a tirar fotos dentro da fronteira, que já se sabe é proibido! Mas não, veio-me buscar! Curioso que podia ter-me chamado lá do fundo com um gesto de mão e não o fez, veio à minha beira buscar-me, literalmente. Mandou-me seguir para a frente e mostrar o passaporte ao colega e seguir, que não me metesse de novo na fila!

E assim foi, parei, mostrei o passaporte, e segui com direito a continências e tudo, enquanto aqueles carros todos ficaram ali!!

Segui animada pela sensação agradável que ter sido bem tratada à partida da Turquia e bem recebida à chegada à Bulgária! Até senti uma pontinha de remorsos por não ter incluído uma visita mais detalhada ao país, por isso terei de lá voltar para compensar essa falha!

E lá estava o Mar Negro…. a completar os 7 mares que visitei nesta vieagem:

o Mar Mediterrâneo,
o Mar Lígure,
o Mar Adriático,
o Mar Jónico,
o Mar Egeu,
o Mar de Marmara
e agora o Mar Negro!

«Há ideias que me vêm à memória de vez em quando, a que eu chamo sonhos, mas são apenas vontades e eu tinha o “sonho” ou a vontade de ver o Mar Negro há muito tempo! Desde pequena que o nome me inspirou e me fez desejar lá ir. Não esperava nada mais que um mar, por isso nem sequer tinha receio de me desiludir, o que ele fosse seria fantástico para mim, apenas por pensar “estou no Mar Negro!”. E assim foi, depois do Mar de Marmara, depois da Turquia e do Bósforo, lá estava ele, às portas da Bulgária, a caminho da Roménia, sem nada de especial para além dele mesmo. Parei, aninhei-me na berma da estrada, senti o seu cheiro a maresia e, fechando os olhos, pensei “eu estou aqui!”…»

Todo o caminho a partir dali foi lindo e uma aventura também!

Uma estrada estreita e toda estragada, com depressões profundas, sem que o alcatrão estivesse esburacado, o que queria dizer que tinha de ir com toda a atenção pois podia nem ver as covas até cair nelas!

Cavalos selvagens atravessavam a rua placidamente a qualquer momento e eu já nem sabia se o pior já tinha passado ou estava para vir!

A dada altura passei por um jeep que vinha em sentido contrário, era Búlgaro. Vi pelo retrovisor que um senhor saía e me fazia sinal! “Queres ver que não posso passar e tenho de voltar para trás!?” Ele veio-me perguntar se o caminho de onde eu vinha estava bom, entendi pelos gestos pois ele não dizia uma palavra que eu entendesse!

Acenei com a cabeça que sim apontando com a mão, siga à vontade que, com um carro desses passa por todo o lado, pois se eu passei com esta moto!

Agradeceu-me muito e seguiu caminho. Achei no mínimo curioso que fosse eu, vinda de tão longe e acabada de chegar ao país, a dar indicações a gente de lá! Eheheh

Cheguei a Varna ao fim da tarde, mas não me apeteceu ver a cidade, queria comer e beber e nada fazer! E assim foi!

E foi o fim do 25º dia de viagem!

28. Passeando pelos Balcãs… – Constantinopla, capital de grandes impérios entre dois continentes!

22 de agosto de 2013 – continuação

Era impossível eu não me apaixonar pela grande cidade de Istambul!

“A Cidade”, como lhe chamaram vários povos, como se mais nenhuma cidade houvesse para além dela!

Já foi chamada de Bizâncio, de Nova Roma, de Constantinopla, de Kostantiniyye e, finalmente, Istambul!
Já foi capital de tantos impérios como:
o Império Romano (durante o séc. IV),
o Império Bizantino (do séc. IV ao séc. XIII),
o Império Latino (durante o séc. XIII),
o Império Bizantino de novo (do séc. XIII ao séc. XV)
e finalmente o Império Otomano (do séc. XV ao séc. XX)

Fica ali, entre o Mar Negro e o Mar de Marmara, entre a Europa e a Asia, e é a única cidade do mundo que se divide entre dois continentes!

E eu fui para a beira do canal… o Bósforo, aquele que divide a cidade em 2 e liga o mar Negro ao Marmara! Passei ali o resto da manhã por entre mercados, restaurantes e povo pelas ruas aos montes! Pertinho fica a ponte Gálata, que atravessa o estuário do Corno de Ouro, onde fica o coração da cidade.

E fui visitar a mesquita Mesquita Yeni

O edifício é do séc. XVI, parece que tudo ali é de há muitos séculos atrás!

É muito bonito e vale a pena ser visitado! Cheguei-me à porta preparada para o ritual de tirar botas, tirar chapéu, embrulhar-me em panos e entrar. As botas eu tirei-as mas quando ia tirar o chapéu um dos senhores que estão à porta a ajudar os turistas disse-me que não precisava tirar o chapéu! “Mas eu quero entrar na mesquita!” expliquei eu “Claro, mas não precisa tirar o chapéu! Entre assim que lhe fica muito bem!” “sem véu?!” “Sim, o chapéu é como um véu!” explicou ele!

Fantástico, não precisei de andar por ali armada em nossa Senhora, a lutar com o pano que cai a cada movimento!

A mesquita é muito bonita por dentro, com o imenso tapete azul a cobrir totalmente o chão, com desenhos extraordinários! Aquilo terá sido feito ali dentro mesmo? É que todo ele é feito à medida do piso da mesquita!

Na realidade tem parecenças com a mesquita azul, mas tem pormenores que eu achei surpreendentes, como estar aberta ao público enquanto estavam em oração, ou reflecção ou algo do género!

Pelo menos estava lá o homem e falar e toda a gente a ouvir!

E o desenho do tapete era muito bonito!

Os homens entram na grande nave, os turistas ficam do lado de fora de uma barreira de madeira e as mulheres que rezam ficam à porta atrás daquelas grades bem fechadinhas de madeira! Uma fulana toda coberta por panos, que ia a entrar para ali, viu-me a espreitar e perguntou-me o que é que eu queria, que ali era o seu espaço de oração.

Não gostei muito dos seus modos e não resisti a perguntar “Ah, e rezam ai atrás das grades porquê? Vocês mordem é?”

Fui-me embora antes que ela me fulminasse completamente com o olhar! Eheheh

Cá fora as pessoas lavavam as mãos e os pés e a cabeça e mais o que pudessem, que estava muito calor. Aproveitei para fazer o mesmo, embora tenha ficado com a ideia de que não tinha direito a fazer tal, pelo menos era a única mulher a pôr mãos e pés na água. Ninguém me disse nada e eu pus também a cabeça!

Logo ali em frente ficam mercados e feiras de tudo, para onde eu fui pois estava fresquinho lá dentro! E o que eu me fartei de petiscar frutos secos e roer pequenos petiscos que me ofereciam!

Ali os doces são muito doces, frequentemente baseados em amêndoa ou noz, come-se um pouco e bebe-se uma grande golada de água e até sabe bem!

Escusado será dizer que bebi uma garrafa de água de 1.5 l enquanto andei por ali nas experiencias alimentares!

Os vendedores são divertidos e brincavam frequentemente comigo, eu ia-lhes respondendo à letra à medida que ia passando e explorando as novidades. Então encontrei numa mercearia um cartaz que me fez partir a rir!

Estava lá em cima, no meio das tralhas. O homem ao ver-me a rir perguntou-me se eu falava espanhol. Não falo mas entendo, por isso estive ali na cavaqueira com ele sobre sogras e venenos e, pimba, mais uns frutos secos para eu provar!

E eles têm aquilo tudo tão bem apresentado! Parece tudo artificial de tão perfeito!

O povo por ali era aos magotes, não só turistas mas também gente nas suas compras diárias!

Voltei à ponte, ao longe podia ver a famosa Torre Gálata, do séc. XIV, que eu não visitaria, não desta vez!

A trapalhada era muita ali junto à ponte Gálata.

Olha-se em volta e vêm-se diversas mesquitas, muita gente e imenso trânsito!

Junto a ela há vendedores de todo o tipo de bugigangas para comer e, por baixo dela, há restaurantes onde me fui encher de comida!

Comi lulas grelhadas acompanhadas com uma enorme cerveja! Inesperado, não imaginei que me oferecessem uma cerveja tão deliciosa por aquelas paragens!

Voltei ao centro histórico da cidade onde fica a mesquita Azul e pensei em visitar o Palácio de Topkapi, o palácio dos soltões que hoje é um museu!

Mas aquilo estava tão cheio de gente e as filas para comprar o bilhete eram de perder de vista!

Foi das coisas que eu tive pena de não visitar… mas teve de ficar para outra vez! Passar horas ali na fila, sob um calor escaldante, estava completamente fora de questão!

Ainda estive ali pelo jardim um pouco, a apreciar cenas giras e a beber mais uma garrafa de água gelada. Estava a ver quando é que o gato esfarrapava o pássaro e o cão esfrangalhava o gato… mas afinal eles eram amigos!

E tinha o resto do dia todo para nada fazer, não é fantástico?

Ali mesmo pertinho da Hagia Sophia fica mais uma das 23 mesquitas da cidade, antiquíssima do séc. XV.

Que eu não visitei porque fiz amizade com um senhor que estava ali ao lado a desenhar. Os desenhos dele não eram geniais, mas ele era muito simpático!

A seguir percorri a Praça Sultanahmet onde se situava o Hipódromo de Constantinopla, uma longa praça ao lado da Mesquita Azul.

Ali encontram-se 3 obeliscos trazidos para embelezar a praça na época da sua construção.

O mais extraordinário para mim é o obelisco do Templo de Karnak em Luxor no Egito, datado de 1490a.c., que foi trazido para Istambul pelo Imperador Teodósio no ano de 390.

Oh, que sensação estar perante uma “peça” do templo de Luxor, onde se calhar eu nunca irei!

Outro é a coluna de Constantino do século X que originalmente era revestida com placas bronze dourado, mas que foi bastante danificado na época das cruzadas e hoje está com a pedra à vista.

E ainda há a Coluna Serpentina que veio da Grécia, onde tinha sido construída para celebrar a vitória dos Gregos sobre os Persas, durante as Guerras Médicas.

E fui visitar de novo a Mesquita Azul que fica ali mesmo ao lado, aquilo não estava muito calmo mas eu queria acabar um ou dois desenhos que deixara a meio no dia anterior, por isso sentei-me no tapete fofinho e desenhei mais um pouco, que se lixasse quem olhasse!

As mesquitas até podem ser parecidas, mas aquela é um espanto! Aquelas abobadas são verdadeiramente vertiginosas!

Havia gente muito interessada no que eu estava a desenhar e eu muito interessada em quem estava por ali, de vez em quando também gosto de pôr pessoas nos meus desenhos!

Fiquei ali muito tempo em longos momentos de paz e serenidade, sem pressa de ir a lado nenhum, apenas estar! Quando sai dei a volta à mesquita, por ruelas encantadoras de casinhas muito giras.

Numa loja de tapetes uns homens meteram conversa comigo, queriam saber quem eu era, de onde eu vinha. Acharam curiosa a minha maneira de vestir e o facto de usar chapéu!

Um queria levar-me a ver a mesquita de cima da loja, a partir do terraço. Então veio o dono da loja e, espanto, falava português! Dizia ele que tinha negócios no Brasil, por isso falava português, sim senhor! Mais uma hora na cavaqueira, que culminou com uma visita à loja, onde ele me fez uma pequena pulseira em fio de seda turquesa, que tirou de um tear de tapetes!

“Isto será como uma pulseira de sorte que te vai acompanhar até ao fim da tua viagem, sem que nada de mal te aconteça! Depois não a tires, deixa que ela caia por si!” disse-me ele, e a verdade é que ela ainda cá anda no meu pulso!

A mesquita era logo ali atrás

E a minha pousada também! Fui até lá tomar um banho e fiz amizade com uma italiana que falava muito bem francês e foi com ela que passei o serão a comer melancia e a passear pelos jardins junto à mesquita e pela Praça Sultanahmet.

E foi o fim do 24º dia de viagem!

27. Passeando pelos Balcãs… – Istambul, Bizâncio, Constantinopla, capital de grandes impérios entre dois continentes!

22 de agosto de 2013

Desde o início que havia duas ou três coisas que eu queria ver e fazer em Istambul e, mesmo não tendo muito tempo para visitar a cidade, passei lá o tempo suficiente para cumprir essa vontade!

Eu sabia que aquela é apenas a cidade maior da Europa e uma das maiores do mundo com tanta coisa para ver que todo o tempo que eu tinha seria pouco, por isso procurei cumprir os meus principais objetivos deixando o resto para uma futura visita! É sempre mais fácil quando a cabeça se organiza antes em vez de ficar no meio da confusão tentando decidir o que fazer a seguir.

Ora uma das coisas que eu queria muito visitar ali era a Cisterna da Basílica, fica ali ao ladinho da Basilica de Hajia Sophia, onde há umas casinhas tão bonitas que nem parecem coisa de lá!

E lá estava ela, do outro lado da rua!

Aquilo quase passa despercebido, não fossem as várias pessoas que se vão enfileirando na berma da estrada para a visita e, contra o que se espera, anda-se um pouco, desce-se umas escadas e… lá está ela!

“Desde a primeira vez que eu vi uma foto da Cisterna de Istambul, que eu decidi que tinha de cá vir vê-la… hoje eu vi-a! Linda, misteriosa, antiga…. A “Yerebatan Sarnici” construída na época bizantina (séc. VI) tem qualquer coisa como 336 colunas e podia comportar 30 milhões de litros de água!! Esta água vinha desde a floresta de Belgrado e era armazenada aqui para fornecer a cidade o que lhe permitiria grande autonomia em caso de seca! Também aqui foi rodado um filme do James Bond! Maravilhei-me ali dentro, como dentro de uma catedral!”

Não consigo descrever o deslumbramento quando encontro o que procurava ver há tempo demais! É como se, de repente, estivesse perante uma personalidade, uma entidade!

Foi muito bom ser das primeiras pessoas a entrar, pois assim pude ver e parar e fotografar de todos os ângulos sem multidões na minha frente a encher-me as foto de “ruidos”!

Dei-lhe a volta, fotografei de todos os ângulos e a vontade era ficar mais um pouco, voltar a dar a volta, voltar a olhar de lá para cá e de cá para lá…

A água tem peixinhos que a gente pressente na escuridão!

O restauro e a iluminação foram perfeitos! Se tentarmos fotografar aquilo som flash percebemos que a iluminação lhe dá todo o encanto e mistério que vemos!

Aqui e ali uma coluna diferente chama a atenção. Afinal a cisterna foi construída rapidamente usando colunas já existentes, vindas de diversos templos da Asia Menor, por isso naturalmente, sendo mais de 300, não serão todas iguais!

E lá bem no fundo, depois de toda a “colunata” há 2 bem diferentes, com cabeças de Medusa na base, onde toda a gente quer ser fotografado. Na realidade são colunas romanas que exemplificam bem a mestria da escultura e arquitetura romana! O mistério permanece sobre as posições que as duas cabeças ocupam lá nas bases das colunas!

Uma de lado…

Outra ao contrário!

Lá em baixo há um café e tudo, mesmo por baixo da saída da Cisterna! Deve ser curioso trabalhar ali, isso é que se pode chamar viver na obscuridade, a servir copos de leite e sumos, nada de cerveja!

Simplesmente não conseguia tirar os olhos da beleza do espaço…

Do outro lado fica a Basílica de Hagia Sophia …

Hagia Sofia quer dizer Sagrada Sabedoria! A Basílica, que já foi catedral de Constantinopla, começou sendo Ortodoxa, depois foi Católica, depois Islâmica e, finalmente, hoje é um museu.
Foi consagrada no dia de Natal do ano 537, o que a faz ter quase 1500 anos! E é linda!

Entrei ali e deslumbrei-me, todo o piso é feito de enormes placas de mármore, gasto e estalado dos muitos séculos de uso, e tudo em volta me inspirava um enorme respeito…

O edifício mostra desgaste, uma pena imaginar se aquilo se perde!

O vão é enorme, por baixo da grande cúpula… quantos séculos de história ali se contam naquele espaço…

Sobe-se para o andar de cima por uma rampa empedrada e não por uma escada!

A Basílica está em recuperação e podem-se ver fotos do espaço coberto por ali.

É reconfortante ver que está tudo a ser restaurado, porque é urgente preservar tudo aquilo antes que seja tarde demais!

Sentia-me no coração da história de Istambul…

Pelas janelas podia ver o exterior e não queria sair dali mais!

Há mosaicos ali do séc. XI e XII!!! Uma coisa deslumbrante que não se encontra em qualquer lado!

E o chão de mármore, continua infinito pelo piso superior, em lajes imensas!

Numa das entradas há uma coluna com um buraco onde a gente mete o dedo e tem de dar a volta toda à mão com ele lá enfiado! Seguramente que eu teria conseguido a proeza pela agilidade de mãos e pulsos que tenho… não fosse ter de usar precisamente o polegar que tenho avariado!

O ambiente cá fora estava lindo, com aquele sol deslumbrante, mas muito calor já!

Apetecia que aquelas fontes estivessem a jorrar água com força e enfiar os pés lá dentro… mas aquilo é só para olhar, há muito que deixou as suas funções!

E pronto, tinha viajado ao passado e visitado algumas das coisas que tanto me chamavam e me levaram ali, parei e sentei cá fora, fiz mais um desenho ou dois da mesquita Azul do outro lado do jardim e da Hagia Sophia pertinho de mim.

Sentia-me tão feliz que de repente nem sabia mais o que me apetecia fazer!

Eu não queria de todo pegar na moto naquele dia, ela estava muito bem estacionada da pousada e precisava de paz, depois de tanto quilómetro, tanto calor e tanto esforço! Por isso apanhei um autocarro e fui dar uma volta pela cidade! Fixe, deixar a condução na mão de profissionais enquanto descansava as minhas mãos!

E com isso, eu, que nunca ando de 4 rodas, a primeira vez que passei a ponte do Bósforo, fi-lo de autocarro e não de moto! Eheheh

(continua)