28. Passeando por caminhos Celtas – descendo o País de Gales até Cardiff…

19 de agosto de 2014 – continuando

Peguei na moto e segui para Liverpool!

Nem sei há quantos anos queria lá passar, por nada em especial, apenas porque é uma cidade e um nome que trago no meu imaginário desde sempre, talvez porque deve ter sido das primeiras cidades Inglesas de que ouvi falar, um dia, quando o meu mundo ainda terminava bem perto da minha casa.

Como muitas outras cidades que visitei na minha vida apenas porque o seu nome não me saiu da cabeça por toda a minha vida até eu lá conseguir ir, como Budapeste, Cracóvia ou Bucareste… ou Leninegrado onde ainda irei!

Bem, Liverpool é afinal a terra dos Beatles, por exemplo, e só por isso eu queria lá passar, e pronto!

Fui entrando pela cidade sem nada que me prendesse a atenção até cruzar com uma igreja em ruinas! Não é muito comum cruzar-se com uma igreja em ruinas no centro de uma grande cidade, mas naquele país as igrejas têm uma simbologia bem diferente da que tem por cá, por isso tudo é possível!
Parei e fui ver!

A ruina ganhou um significado especial quando me aproximei e entendi a sua história!

Tratava-se da St Luke’s church, uma igreja neogótica do final do séc. XIX, que foi profundamente danificada durante o bombardeamento, chamado de Liverpool Blitz, quando a cidade foi atacada pelos alemães em 1941.

Liverpool foi a segunda cidade do Reino Unido mais atacada e danificada durante a II Grande Guerra, depois de Londres, devido ao seu importante porto que os alemães queriam neutralizar…

Hoje a Igreja de St Luke permanece como um memorial às 4.000 vítimas daquele ataque. Os jardins estão bem tratados e o espaço é usado para eventos culturais, como concertos, recitais e coisas do género.

Cartazes colados em seu redor sensibilizam a população para ajudar a manter a igreja de pé!

E de igreja em igreja, na realidade aquela que eu queria mesmo ver na cidade, era a catedral!

“A catedral de Liverpool é um edifício espantoso! Com quase 190 m de comprimento é a catedral mais comprida do mundo mas, quando a gente entra, não é o seu comprimento que impressiona, é o seu espaço amplo e a sensação de altura infinita, ao ponto de não se ter ângulo para a enquadrar completamente na máquina fotográfica! Um neogótico impressionante do século passado, com um ambiente que surpreende, onde o espaço religioso convive com exposições de pintura, uma cafetaria e uma loja. Toda esta vida torna o enorme edifício bem menos austero, porque as suas diversas alas podem ser quase opressoras, ao estilo das antigas igrejas góticas. Explorei tudo com a calma e o deslumbramento que o espaço provoca e mesmo desenha-lo não era fácil…”

(in Passeando pela vida – a página)

“Entrei ali e tudo o que eu vira em livros e na net pareceu uma brincadeira de meninos! A catedral de Liverpool é simplesmente grandiosa! Por momentos eu nem sabia em que direcção ir, ela é tão ampla, tão alta e tão vazia! Não conseguia entender para que lado era o altar, as cadeiras estavam tão longe que nem percebi logo para que lado estavam voltadas. Depois, na dúvida de não saber para onde ir ou olhar, ergui os olhos e segui o seu teto impressionante, porque pelo teto tudo leva ao transepto, ao altar e à abobada no cruzamento das naves, que era tão alta quanto a imensa torre que se via ao longe! Sentei-me por ali no meio e fiquei a admirar a vertiginosa altura por cima de mim e os efeitos que a luz provocava na imensa torre… momentos de espanto!”

(in Passeando pela vida – a página)

A descontracção com que se passeia por ali, por entre conversas murmuradas mas sem qualquer preocupação!

Homens e mulheres, usando batinas vermelhas, conversam com quem visita de forma natural, explicando pormenores de história e religião e as luzes desenham ambientes surreais no grandioso espaço sem nos oprimir!

Dentro da catedral fica a Lady Chapel, uma obra mais pequena e pormenorizada, contrasta com a grandiosidade do corpo principal da catedral e é linda!

A sensação era incrível, de ter entrado numa igreja dentro de outra igreja, com a estranheza de um “será que eu saí da catedral sem dar por ela’”

A semipenumbra do espaço fascinou-me realmente!

Claro que a catedral estava lá, logo à saída da porta da capela, eu apenas tinha entrado num mundo dentro de outro mundo!

E ali se fazem exposições, concertos, jantares, festas! Havia obras artísticas nos altares laterais muito interessantes!

E havia uma espécie de arvorezinha dos desejos, onde eu coloquei um coraçãozinho que sarrabisquei, lembrando-me de tanta coisa e tanta gente ao faze-lo, como quem põe uma vela por alguém!

O edifício é grandioso e vermelho e pode ser visto de muito longe na cidade!

E depois de um banho de igreja não me apetecia ver muito mais coisas, apenas passear pela cidade e apreciar os seus pormenores!

Tomei um café (mais ou menos horroroso) num café com o nome da minha terra!

E passei pelos estádios de futebol lá da terra, aqueles que em Manchester não queriam que eu visitasse!

O mítico Liverpool Football Club, o Anfield, construído nos finais do séc. XIX… e não, não fui visita-lo por dentro! Nem só de estádios se faz uma viagem!

E de passagem fui também ao Everton, que é logo à frente, rivais e vizinhos!

E não, também não o fui visitar!
Pronto, eu prometi em Manchester que não visitaria o Liverpool por isso terá de ficar para outra passagem pela zona!

Memoriais a grandes jogadores, Dixie Dean, o maior artilheiro do clube “um dos maiores avançados centro da sua era” dizem ainda hoje.

As paredes cheias de plaquinhas comemorativas!

Há sempre vida onde há futebol “You’ll never walk alone”

Passeei um pouco pelo tão desejado porto da cidade, no tempo da guerra por ser um bom porto, hoje por ter muitas atrações, de festas e comes-e-bebes!

Estava um belo dia para se beber uma cerveja numa esplanada, mas eu não o faria! A campanha anti-álcool estava na rua com toda a força e eu ainda tinha uma série de quilómetros para fazer!

Ao longe a catedral parecia um fantasma avermelhado que tudo observava!

Pelos caminhos do porto podia-se apreciar o mar e as nuvens magníficas!

E depois da King’s Dock era a saida da cidade ou, pelo menos, do centro da cidade, com coisas que me chamavam a atenção, mesmo por trás dos carros!

Havia muito tempo que eu percebera que não adiantava nada pedir café, é uma bosta mesmo, por isso parei para um chazinho! Afinal estamos na Inglaterra “time for a cuppa!”

Ainda dei dois dedos de paleio com 2 motards que apareceram entretanto e se deslumbraram comigo, por causa da minha motita, que eu e ela fazíamos um conjunto muito bonito! Wow, nunca imaginei ouvir piropos de ingleses, os sérios, cínicos e distantes! Que nada, boa gente!

Havia um sítio onde eu queria ir antes de seguir para Cardiff, um sítio onde eu queria ir desde a última vez que andei por ali, há 3 anos, e me distraí com outras coisas no lado leste da ilha. Desta vez eu iria lá nem que chegasse a Cardiff a meio da noite!

Caernarfon e o seu castelo!

“O Caernarfon Castle tinha ficado para trás nas minhas escolhas da ultima vez que estive no País de Gales, mas desta vez eu fui vê-lo. É uma fortaleza medieval bem no meio de Caernarfon. O castelo embora tenha aquela aparência de construção robusta e completa, não tem muito mais do que as muralhas intactas. A sua história conturbada de guerras e batalhas, desde a sua construção no séc. XIII, é rica e está ligada à história do país até ser deixado ao abandono e só no século XX voltou à sua imponência e beleza, agora como muralha e ruína deslumbrante! Eu queria vê-lo e enquadra-lo na sua redondeza, por isso fartei-me de dar voltas em seu redor, até parar no outro lado do rio Seiont, sentar-me e admira-lo… Que lindo dia se pusera, e permitiu que eu viajasse um pouco pela história enquanto o desenhava e fotografava em momentos que ficaram na minha memória para sempre!”

(in Passeando pela vida – a página)

A ponte que atravessa o rio é basculante, não vi muitas pontes assim na minha vida e foi curioso ficar ali a vê-la rodar sobre si própria para deixar passar os barcos!

Apesar de atravessar a ponte eu queria ir aquele lado com a moto!

Por isso voltei à cidadezinha para a buscar e ir procurar o caminho!
O ambiente era muito agradável por ali, com pessoas que passeavam calmamente e comiam gelados… e eu que não gosto de gelados, limitei-me a ficar a olhar! Ok, sai mais um chá!

Encontrei uma das casas com 3 frentes mais estreitinhas da minha vida! Parecia um livro de pé!

Enquanto se toma um chá quente aprecia-se muito mais coisas do que quando se come um gelado! Só pelo tempo de espera para que arrefeça, dá para ver tudo o que nos rodeia!

E lá peguei na moto e fui ver o castelo do outro lado do rio!

E por cima dos campos de milho!
Eu sabia que ele estaria naquela direcção, bastou pôr-me de pé em cima da moto, e ele lá estava!

E continuei a escolher percursos de sonho até ao meu destino!
Porque viajar é como viver, o facto de sabermos qual o nosso destino, não quer dizer que façamos o caminho de toda a gente, nem o mais fácil, ou o mais rápido! Porque não fazer o mais bonito?

E eu escolhi descer o país por Beddgelert, por ruelas antigas, entre aldeias perdidas nos montes!

Esta aldeiazinha lindíssima tem uma lenda que lhe dá o nome e eu queria ver de perto a sua beleza!

Na realidade Beddgelert quer dizer Gelert’s Grave – sepultura de Gelert.

Diz a lenda que Gelert foi um cão que o rei João de Inglaterra ofereceu ao Príncipe de Gwynedd em Gales. Ora um dia o príncipe chegava da caça quando viu o berço do seu filho tombado e o bebé desaparecido. Quando o cão aparece com a boca cheia de sangue ele saca da espada e mata-o, acreditando que ele matara o seu filho. Mal o cão solta o seu uivo de morte o príncipe ouve o choro do seu bebé e então percebe que há um lobo morto no chão do quarto. Cheio de remorsos por ter morto o cão salvador do seu filho, sepulta o cão com uma grande cerimónia no local onde fica hoje a aldeia, mas continua a ouvir o seu uivo, e a partir daquele dia ele nunca mais voltou a sorrir.

Embora a lenda seja triste a verdade é que a aldeia é linda e estava cheia de gente bem disposta que começou a acenar-me a cada vez que eu passava, já que eu andei para lá e para cá com a moto à procura de onde a parar! Acabei por a parar bem no meio da ponte e pronto!

E as paisagens por ali são verdadeiramente exuberantes!

Uma simples estrada era um postal ilustrado feito de beleza! Bastava erguer a máquina e disparar, pois todas as fotos ficariam lindas, com o céu azul e as nuvens inspiradoras!

A verdade é que, naquele país, basta estar um pouco de sol, que tudo é lindo!

E fui para casa, que naquele dia seria em Cardiff!

E foi o fim do 22º dia de viagem

27. Passeando por caminhos Celtas – Até Cardiff, a capital do País de Gales!…

19 de agosto de 2014

Trouxe a minha bonequinha até à porta do Hostel para lhe colocar a mala que tinha de carregar desde o 3º andar até à porta. As pessoas são sempre tão simpáticas quando vêm uma menina a carregar uma grande mala e não faltam cavalheiros que se ofereçam para me ajudar.

Manchester era um nome que eu trazia na minha lista de vontades, talvez apenas pelo nome, talvez apenas pela música e músicos que dali saíram, mas simplesmente estava na lista “a visitar”!

Depois, como é sabido, eu adoro conduzir no trânsito, nunca me nego a meter a minha motita gordinha pelo meio dos carros, numa gincana de arranca e para, fura e segue, como faço no Porto ou em Lisboa! Por isso quando me recomendam que evite as cidade eu nada digo e faço exactamente o contrário! E que bom que é “surfar” com uma moto “gigante” por entre a confusão!

E fui até ao centro, não era muita coisa que eu queria ver, apenas queria sentir a cidade em torno de mim. Contra o que seria de esperar, fui até Albert Square, porque o que me prendia a tenção não era uma igreja ou uma catedral, era antes a Town Hall.

Aquele edifício é deslumbrante e eu ia preparada para tentar tudo para o visitar… não foi preciso! Apenas me deixaram entrar e pronto, sem que fosse necessária qualquer pressão ou argumentação da minha parte! Eu adoro aquela gente prática e sem “frufruzices”!

O edifício é neogótico e ali funciona o governo local, como uma câmara municipal deve ser!

Claro que só andei nos corredores e espaço públicos, mas que lindo aquilo é tudo!

Ninguém me incomodou enquanto andei por ali! Pessoas passavam, no seu percurso de trabalho, e sorriam para mim por eu andar ali maravilhada a olhar!
“It’s beautifull, isn’t it?” perguntava alguém a cada passo
“Oh yes, you are privileged to work here!”

O edifício tem ligações por corredores passadiços para o edifício lateral, onde funcionam outros serviços, a lembrar os corredores da idade média que também atravessavam ruas!

Então depois de muitas voltinhas por ali, lá fui ver a catedral!

É sempre uma surpresa entrar numa catedral inglesa, tudo se pode encontrar lá dentro sem ser um tradicional ambiente de culto! A porta de entrada estava decorada com bordados pendurados em tiras infinitas!

Numa igreja por vezes encontra-se um bar, com mesas e gente a lanchar, outras vezes encontra-se uma sala de exposições….

E ali havia algumas obras curiosas, como candelabros criativos,

ou trabalhos imensos de bordados em cores chamativas!

Os vitrais são inspiradores e modernos, lindos!

E o local de culto está lá na mesma, numa nave lateral!

A catedral, mais propriamente, Cathedral and Collegiate Church of St Mary, St Denys and St George, é gótica na sua origem, com muitas reformas e transformações ao longo da sua vida conturbada por momentos religiosos menos favoráveis, e momentos de guerra também. Mas lá está ela, linda, como se nada fosse!

Nasceu católica e hoje é anglicana.

E depois da história, e embora eu nem seja muito dada a futebóis, fui ver outra catedral que levava na minha lista de vontades!

Eu tinha de ir ver o estádio do Manchester!
Cheguei lá e havia chineses por todos os lados! Eu não sei se eram mesmo chineses, mas que tinham os olhos em bico, isso tinham!

Aproximei a moto e um segurança veio ter comigo, perguntar-me onde eu queria ir com ela. Expliquei que só queria tirar uma foto sem gente nem carros na frente. Ele perguntou de onde eu era, respondi que era portuguesa. O seu rosto iluminou-se “Portuguese? Great! Of course you will take your photo with your bike!” e desatou a enxotar os chineses do meu caminho para que a moto ficasse sozinha!

Mas o efeito do “I’m portuguese” ainda iria fazer-se notar mais à frente!
Pousei a moto no meio dos carros e fui tentar visitar o estádio.

As chinesas revelaram-se úteis ao tirarem-me uma foto, claro que depois de eu lhes ter tirado uma dezena delas também!

Um estádio é sempre aquela construção imensa que me fascina!

Pude vê-lo numa maquete na loja, mas eu queria mesmo visita-lo por dentro!

Então depois de muito catar pelos corredores laterais onde ficam as portas para as bancadas, cheguei à grande porta lateral, a sir Alex Ferguson Stand, onde fica o museu. Estavam 2 homens muito simpáticos à porta, que depois percebi que eram guias do estádio.

Dirigi-me a eles, eu queria visitar o estádio, mas tinha deixado a carteira na moto, do outro lado, junto da porta principal. De onde era eu? De Portugal! Fantástico! Quanto tempo tinha para visitar o estádio? Pouco! Sem problema, era só ir buscar a moto para ali e eles me fariam uma visita guiada cirúrgica, aos pontos mais importantes do estádio, sem que eu tivesse de demorar toda a hora e meia da visita que os chineses estavam a fazer! Genial!

E assim foi, trouxe a moto até à porta, um segurança veio-me receber, guardou-me o capacete e tudo, e eu fui visitar aquilo tudo como visitante VIP, sozinha com um guia e com tarifa reduzida, enquanto os chinocas andavam em bandos de muitos. Eu podia vê-los do outro lado do campo enquanto eu estava na bancada VIP!

O meu guia era simpático, contava histórias interessantes e fazia-me perguntas também. Apanhei-o numa foto!

Ele ofereceu-se para me fotografar também. Parecíamos velhos amigos!

O espaço amplo de um estádio sempre provoca em mim uma sensação forte, de pequenez, quase de êxtase! Se juntar a essa sensação o mítico do local, então entende-se melhor o mundo de sensações que passou por mim, ali!

Então depois veio o museu… toda a história de um grande clube e um grande estádio em infinitas memórias!

E lá estava o Ronaldo…

E as taças aos milhares!

Quando saí parece que caí num outro mundo!
O segurança veio trazer-me o capacete e pôs-se ali à conversa comigo.

“So you’re portuguese? Oh Ronaldo, Ronaldo, come back please!” Dizia ele!

Perguntou-me onde ía eu a seguir, disse que ía para Liverpool. O homem ficou alarmado

“Don’t go! Don’t go to Liverpool! Liverpool is shit!”

Oh valha-me Deus que a rivalidade futebolística não era para aqui chamada! Expliquei que ia a ver a cidade, que não ia ver os seus estádios e seguiria para sul, para Cardiff.

“Cardiff is too far, too many miles away from here, go straight to there, don’t go to Liverpool, Liverpool is shit!”

Adorei a conversa do homem, dizem que os ingleses são pouco expressivos mas há momentos em que o são e muito! Adoro-os!

E fiquei com uma fita muito bonita de Manchester como recordação daquela visita que adorei!

(continua)

26. Passeando por caminhos Celtas – até Manchester…

18 de agosto de 2014

Tal como predito pelo meu amigo da receção, no dia seguinte chovia a potes!
Ele era chuva por todo o lado, só me restava enfiar o fato de chuva e continuar a descer o país sem nem olhar para o lado… uma pena…

Voltei de desenhar o interior da sala de estar onde passei todo o tempo que o tempo não me deixava sair. Acho que nunca tinha desenhado tantos interiores como desta vez!

Porque os exteriores estavam uma sopa!

Por ali tudo é verde e até é fácil de entender porquê, com tanta humidade e chuva…
Os bichinhos são bem tratados por aquelas terras, há comida para os pássaros nas árvores

e há coelhos a passear por ali como se fosse a coisa mais natural, em plena harmonia com os patos que entravam quase pela casa dentro à procura de comida!

Lá tratei de partir, depois de um pequeno-almoço tomado a espreitar de janela em janela…

O lago que me levara ali estava cinzento e triste, era mesmo do outro lado da rua e eu nem o vira ainda…

Como tudo deve ser bonito por ali e eu nada vi…

Há mesmo paisagens surreais que eu queria ver, mas apenas as vislumbrei levemente, no meio do mau tempo!

E a estrada na minha frente parecia o caminho da tempestade!

Mesmo assim eu não desci tão direta assim, fui-me encostando à costa leste, já que tinha de seguir sem paragens que fosse tenho algo para ver, como o mar do norte!

Claro que aquele caminho não foi uma escolha inocente!
Havia uma réstia de sol por aqueles lados na meteorologia da manhã, e havia também algo que eu queria ver, nem que fosse de passagem!

“Finalmente fui até ao Castelo de Alnwick, lindo, antigo, medieval mas, não importa quanta história ele conta, a sua mais recente fama o tornou mundialmente conhecido, quando emprestou os seus exteriores para as filmagens de Hogwarts, o castelo do Harry Potter. Embora muita coisa tenha sido inventada e criada em desenho digital, a alma do castelo permanece no filme, pude senti-lo hoje. Estava cheio de famílias com miúdos, havia atividades engraçadas e bastante realistas para alegria da pequenada e os relvados, fofos como almofadas, serviam de alcatifa onde toda a gente se sentava a todo o momento, até eu, aproveitando o lindo sol que espreitava finalmente entre as nuvens!”

(in Passeando pela vida – a página)

A chuva tinha parado e quando eu entrei no castelo, ninguém diria que tinha sequer chovido!

Depois da chuva, depois de nada ver por tanto tempo, o Castelo de Alnwick foi um paraíso de luz e alegria na minha viagem, apesar de estar cheio de gente e de as nuvens logo se voltarem a fechar.

Não, não se pode fotografar lá dentro… eu sei, sou uma fora da lei, pois roubei uma ou duas fotos para a posteridade!

Que bem que me soube ver o sol em tão bonito lugar pelo tempo suficiente para me animar a alma!

Andei por ali, sentei-me no relvado fofo, subi às torres, desci ao rio…

nada me fazia lembrar o Harry Potter, porque tudo era alegria e luz por ali, a não ser as animações e encenações que faziam os mais pequenos delirarem e sonharem, por mundos de magia a que aquele castelo serviu já de cenário…

Lá estava o rio e a ponte que eu queria atravessar! Lá de baixo a perspectiva sobre o castelo devia ser linda!

Nuvens gigantes aproximavam-se rapidamente e eu nem iria ver os jardins. Tratei de dar a volta ao circuito de regresso para ir ver o castelo por fora e pôr-me a andar, antes que a chuva voltasse a apanhar-me!

Uma escultura imponente de Sir Henry Percy, um herói do séc. XIV nas guerras anglo-escocesas, fica entre o mundo da brincadeira e o jardim de relva fofa e verde.

Deixei os jardins para outra visita (eu sei que são lindos e imperdíveis) porque o que eu queria ver era a ponte e a perspectiva que Turner tomou para a sua pintura desde a ponte, lá em baixo! Manias!

E realmente lá de baixo as perspectivas do castelo são encantadoras e voltei a sentir a atmosfera do Harry Potter ali!

Mais um milhão de fotos, um desenhito ou dois… e parti de novo!

Havia mais coisas que eu queria ver…

“Um dia eu ía a passar e vi-o, the Angel of the North, mas eu seguia para norte, na A1, e como se conduz pela esquerda, ele ficava à minha direita e eu nem tive tempo de raciocinar para sair algures para o ir ver… uma pena! Desta vez eu vinha no sentido contrario e lá estava ele de novo. Rapidamente saí na primeira oportunidade, tinha mesmo uma placa a indicar que era por ali que eu devia sair! Tinha parado de chover, o céu estava cheio de nuvens e sombras, e o Angel estava ali, maior do que a lente da minha máquina parecia poder captar, lindo. Uma escultura extraordinária de um anjo com 20m de altura, com longas asas que impressionam pela sua excessiva dimensão, mais de 50m de asas, o que as faz muito maiores que a altura total do corpo. Construído entre 1995 e 1998, fazia parte das coisas que eu queria muito ver, desde o seu primeiro dia de “vida”… desta vez eu vi-o!”

(in Passeando pela vida – a Página)

O contraluz que a imensa escultura desenhava contra o azul do céu, fascinou-me!

Nervuras de metal decoram todo o comprimento do corpo conferindo-lhe uma ideia de robustez bem necessária para suportar todo aquele peso!

Grandiosa! Conhecia-a tão bem a escultura… e de repente não conhecia nada, ficava ali a olhar aquele enorme gigante, em perfeito êxtase!

E o raio da chuva voltou a apanhar-me no caminho e acompanhou-me por ali fora até chegar a Manchester! Nada a fazer senão levar com ela!

Manchester era uma cidade que eu ainda não tinha visitado, a segunda cidade da Inglaterra, cheia de história e música, afinal é o berço de varios músicos/ bandas míticos.
Alguns que me lembro são sobejamente conhecidas, como os New Order, Joy Division, Simply Red, The Smiths ou Oasis!

Dei uma pequena volta pelo centro da cidade, só para ver como era, pois no dia seguinte é que eu visitaria a coisa melhor!

E fui para casa, que era ali perto e tinha um mural lindissimo pintado na enorme parede em tijolo!

Aliás iria encontrar diversos murais por ali, a lembra um pouco Belfast!

E foi o fim do 21º dia de viagem, com uma espécie de oração “que amanhã não chova, que amanhã esteja sol”.

25. Passeando por caminhos Celtas – descendo a Escócia…

17 de agosto de 2014

Um regresso é sempre triste para mim e, naquele momento, eu sentia que começava o meu regresso! Talvez porque estava no ponto mais a norte da minha viagem e a partir dali tudo seria descida até casa… embora estivesse ainda a 14 dias do fim da minha viagem!

Tudo o que eu esperava era que houvesse um pouco de tempo seco para que as minhas memórias da descida das Highlands fizessem justiça ao meu caminho…

Eu planeara fazer outros percursos, diferentes do que fizera na subida, mas o tempo incerto mudaria os meus planos e eu redesenhei o meu percurso de acordo com o sítio onde as nuvens e o mau tempo estavam, o que acabou por dar um refazer a mesma estrada do dia anterior. Isso não me entristeceu minimamente, já que o caminho da costa é encantador e ver a paisagem de outro ângulo, enquanto conduzia, deslumbrar-me-ia de novo!

E o tempo estava bastante ruim em Thurso. A minha motita dormira no quintal dos vizinhos e estava bem molhada. Aproveitei ela ter estado de molho toda a noite para lhe limpar o lixo!

A cidade tem os seus encantos mas o mau tempo nem permitia aprecia-los devidamente. Passeei um pouco junto ao mar tentando entender se o tempo mudaria ou não!

Não havia vivalma nas ruas, o que tornava tudo mais triste ainda. Puxei do telemóvel e só então entendi que era domingo… eu nunca sei a quantas ando quando ando em viagem! Bolas! Claro que estava tudo desoladamente só, com aquela bosta de tempo e sendo domingo!

Como não havia (quase) ninguém pelas ruas da cidade aproveitei para me meter por recantos, subir passeios e quase entrar nos quintais das pessoas, para ver o que havia sem descer da moto, Esse “quase ninguém” é para os senhores que caminhavam, todos encasacados, e pararam meio aparvalhados a olhar para mim, a fazer malabarismos com a moto pela beirinha dos passeios e a passar entre o muro do cais e os mecos das amarras, onde a minha motita parecia grande demais para passar.

“You’re a sweet crazy girl, you know?!” disse um deles è minha passagem

“You’re not supposed to be there looking at me!” respondi-lhe eu! ahahahah

Se há dias em que me apetece conduzir, arriscar um pouco, procurar caminhos inusuais, aquele era um deles, mesmo o tempo não estando a ajudar muito! Por isso meti-me por ruelas que nem eu sabia onde ia dar, mas que prometiam perspectivas diferentes do meu caminho.

Pássaros, muitos pássaros, pareciam corvos (eu adoro corvos) levantavam voo à minha aproximação e voavam perto de mim! Sentia-me no meio de um filme de Hitchcock.

Caminhos que me levavam pelo meio dos campos de cultivo e de pasto, sem ninguém para além de pássaros!

Torre de Harold, construída no séc XVIII, fica ali, no meio de lado nenhum, campos a toda a volta, visível a longas distâncias porque está numa elevação com o mar abaixo. É um mausoléu, embora digam que os corpos não estão lá dentro.

Mais uma curva e não havia mais alcatrão, apenas terra batida e o caminho que desaparecia. Pousei a moto e fui se dava para seguir.

Fui seguindo na direcção de John o’Groats, já que tinha de apanhar chuva, que fosse pelo caminho mais bonito, já que pelo interior a coisa estava negra!

Eu sempre fico impressionada com os enquadramentos que os cemitérios por aquelas bandas permitem, com o mar ao fundo! Continuava o meu trabalho de rato de cemitério a catar tumbas em Canisbay.

Jon o’Groats estava só mas com boa visibilidade…

Até desatar a chover e eu nem conseguir mais fotografar decentemente! Apareceu um perdido, como eu, um suíço muito bem-disposto que reclamava para os céus “Eh toi lá haut, arrête cette pluie je ne sais pas si je pourrais revenir ici!”

Fartei.me de rir com ele “deixe lá, é mais um motivo para cá voltar!

Ele ficou por lá na esperança que o tempo melhorasse, mas acho que não iria ter grande sorte, a considerar pelo céu pesado que se instalou. Eu despedi-me do local e vim embora…

E comecei a descida, com uma plateia que ficava muito espantada a olhar para mim, cada vez que eu parava para dar uma olhada na encosta!

Era só eu parar e a multidão parava de comer e olhava toda para mim! Que sensação!

O tempo realmente melhorava à medida que eu ia descendo, o que era fantástico pois ia-me permitindo ver e registar.

E o tempo incerto permitia cenários verdadeiramente extraordinários, que um dia de sol nunca permitiria!

Deslumbrei-me a cada quilómetro!

Aquele mar parecia de prata a cada vez que as nuvens se tornavam um pouco menos espessas e deixavam a claridade passar!

Castelinhos, torres e casa senhoriais… um conto de fadas!

As pingas de chuva faziam estragos nas minhas fotos, mas a paisagem valia o risco…

Então vi um castelo!

“Ao longe vê-se mais uma torre, procuro o caminho até ela, não é evidente, porque parece que é acessível por várias ruelas que aparecem no entretanto, mas nenhuma delas se aproxima. Na realidade não há uma rua até lá, há um caminho privado, dentro de portões, dentro da propriedade. Não sei o que fazer, não há ninguém por perto e o portão está aberto para uma longa alameda… Da rua não se vê o castelo, por isso decido armar-me em turista inconsciente e entrar com a moto por ali dentro. A teoria é sempre a mesma, se me puserem fora eu vou, mas levo comigo tudo o que consegui ver! E ninguém me pôs fora, ninguém apareceu, e eu passeei com a moto pela propriedade sem qualquer impedimento. O castelo é chamado de torre, the Ackergill Tower, pode ter sido construído antes mas só aparece mencionado no séc. XVI, e tem uma lenda que conta que o seu primeiro proprietário raptou uma belíssima rapariga que, para escapar dos seus avanços, caiu do topo da torre, desde então diz-se que o seu fantasma ainda é visto de vez em quando. Se é assim, não parece assustar muita gente, pois o castelo é hoje um local de realização de eventos e não consta que noivos ou convivas temam a intromissão da rapariga nas suas festividades!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Lá estava ele!

Quando se fala de um sítio, de uma cidade, de um país, há sempre uma imagem que me vem à memória e, quando se fala de Escócia, essa imagem é sempre de um castelo. Um qualquer, mesmo inexistente, mesmo construído pelo meu imaginário. Este, que eu nunca vira, é tão parecido com tantos castelos que já desenhei na minha cabeça ao pensar naquele país…

Senti-me no meio de um cenário de filme! A atmosfera junto de uma construção daquelas sempre me fascina!

Claro que não pude deixar de captar a minha bonequinha naquele ambiente!

E eu sabia que o meu crédito de tempo aceitável estava a chegar ao fim, as nuvens eram negras por todo o lado! Tinha de aproveitar enquanto aquele céu todo não começasse a cair-me em cima!

Parei um pouco em Wick, tinha de comer qualquer coisa…

“A minha descida pelas Highlands foi linda e cheia de nostalgia. Cenários grandiosos de céus e mar deslumbrantes me fizeram companhia, com a terra no meio a servir-me de suporte paradisíaco. Quanto tempo demorei eu a percorrer aqueles caminhos? Todo o tempo do mundo até a chuva tomar conta de tudo… Quantas vezes voltarei eu àquele país? Seguramente algumas mais, assim a vida mo permita, porque há sentimentos e sensações que precisam de ser revividos e alimentados ou definharão quem os sente!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Então vi-as!

Um pasto cheio delas!

Lindas, fofinhas, simpáticas!

Parei de repente, larguei da moto e fui vê-las de perto!

Não resisti, saltei a cerca e fui mais perto!

São umas queridas! Apetecia mesmo trazer uma para casa comigo!

E as filhotas? Pareciam grandes cachorrinhos!

E uma fotografia de família para terminar!

Estava a aproximar-me de Invernes e o Dunrobin Castle a aparecer de novo, por cima das árvores na berma da estrada!

E foi quando o temporal foi tanto que eu tive de parar e guardar a máquina fotográfica. E ainda bem que o fiz… porque foi o verdadeiro dilúvio, à medida que me aproximava do Cairngorms National Park, onde eu iria pernoitar, junto ao Loch Morlich … já imaginando que nada veria da região que é tão linda…

E assim foi!

Uma luta renhida com o temporal, sem vontade de parar em lado nenhum. O nevoeiro era cerrado e até ao chão, nada se via para além de uns 4 ou 5 metros à frente da moto. Carros, camiões e autocarros enchiam o pouco espaço de visibilidade na minha frente de spray sujo de terra, que dificultava ainda mais a minha condução. E paravam, e abrandavam, que o tempo não estava para brincadeiras! E eu que tinha de fazer o percurso a mais velocidade por causa do vento que me abanava, lá ia ultrapassando uns e outros, ao som da minha música aconchegante, que me fazia sentir agasalhada e protegida, dentro do meu fato de chuva que nada deixava entrar…

Quando cheguei à pousada fui recebida por gente muito simpática que me indicou um “drying room” onde pude pôr toda a minha roupa a secar, capacete e tudo! Fantástico!

Ter um “drying room” queria dizer que eles tinham muita chuva por ali? Sim, sempre, quase todos os dias, verão e inverno! Que fixe, queria dizer também que haveria pouca esperança de, no dia seguinte, ver o que quer que fosse então! Pois, seguramente, a meteorologia já andava a dizer que a chuva estaria por lá mais uma semana, nada de novo, é sempre assim!

Merda!

Amuei e fui-me meter numa ponta da sala de jantar, que parecia um aquário ao contrário, vidro com a água do lado de fora…

E foi um serão muito giro e agradável com longas conversas, cerveja da terra e muitos desenhos de interior, do tipo que não costumo fazer nas minhas viagens, mas que ali me fizeram bastante companhia. Às vezes é assim, quando não há mais nada para fazer, desenha-se…

E foi o fim do 20º dia de viagem.