26. Passeando por caminhos Celtas – até Manchester…

18 de agosto de 2014

Tal como predito pelo meu amigo da receção, no dia seguinte chovia a potes!
Ele era chuva por todo o lado, só me restava enfiar o fato de chuva e continuar a descer o país sem nem olhar para o lado… uma pena…

Voltei de desenhar o interior da sala de estar onde passei todo o tempo que o tempo não me deixava sair. Acho que nunca tinha desenhado tantos interiores como desta vez!

Porque os exteriores estavam uma sopa!

Por ali tudo é verde e até é fácil de entender porquê, com tanta humidade e chuva…
Os bichinhos são bem tratados por aquelas terras, há comida para os pássaros nas árvores

e há coelhos a passear por ali como se fosse a coisa mais natural, em plena harmonia com os patos que entravam quase pela casa dentro à procura de comida!

Lá tratei de partir, depois de um pequeno-almoço tomado a espreitar de janela em janela…

O lago que me levara ali estava cinzento e triste, era mesmo do outro lado da rua e eu nem o vira ainda…

Como tudo deve ser bonito por ali e eu nada vi…

Há mesmo paisagens surreais que eu queria ver, mas apenas as vislumbrei levemente, no meio do mau tempo!

E a estrada na minha frente parecia o caminho da tempestade!

Mesmo assim eu não desci tão direta assim, fui-me encostando à costa leste, já que tinha de seguir sem paragens que fosse tenho algo para ver, como o mar do norte!

Claro que aquele caminho não foi uma escolha inocente!
Havia uma réstia de sol por aqueles lados na meteorologia da manhã, e havia também algo que eu queria ver, nem que fosse de passagem!

“Finalmente fui até ao Castelo de Alnwick, lindo, antigo, medieval mas, não importa quanta história ele conta, a sua mais recente fama o tornou mundialmente conhecido, quando emprestou os seus exteriores para as filmagens de Hogwarts, o castelo do Harry Potter. Embora muita coisa tenha sido inventada e criada em desenho digital, a alma do castelo permanece no filme, pude senti-lo hoje. Estava cheio de famílias com miúdos, havia atividades engraçadas e bastante realistas para alegria da pequenada e os relvados, fofos como almofadas, serviam de alcatifa onde toda a gente se sentava a todo o momento, até eu, aproveitando o lindo sol que espreitava finalmente entre as nuvens!”

(in Passeando pela vida – a página)

A chuva tinha parado e quando eu entrei no castelo, ninguém diria que tinha sequer chovido!

Depois da chuva, depois de nada ver por tanto tempo, o Castelo de Alnwick foi um paraíso de luz e alegria na minha viagem, apesar de estar cheio de gente e de as nuvens logo se voltarem a fechar.

Não, não se pode fotografar lá dentro… eu sei, sou uma fora da lei, pois roubei uma ou duas fotos para a posteridade!

Que bem que me soube ver o sol em tão bonito lugar pelo tempo suficiente para me animar a alma!

Andei por ali, sentei-me no relvado fofo, subi às torres, desci ao rio…

nada me fazia lembrar o Harry Potter, porque tudo era alegria e luz por ali, a não ser as animações e encenações que faziam os mais pequenos delirarem e sonharem, por mundos de magia a que aquele castelo serviu já de cenário…

Lá estava o rio e a ponte que eu queria atravessar! Lá de baixo a perspectiva sobre o castelo devia ser linda!

Nuvens gigantes aproximavam-se rapidamente e eu nem iria ver os jardins. Tratei de dar a volta ao circuito de regresso para ir ver o castelo por fora e pôr-me a andar, antes que a chuva voltasse a apanhar-me!

Uma escultura imponente de Sir Henry Percy, um herói do séc. XIV nas guerras anglo-escocesas, fica entre o mundo da brincadeira e o jardim de relva fofa e verde.

Deixei os jardins para outra visita (eu sei que são lindos e imperdíveis) porque o que eu queria ver era a ponte e a perspectiva que Turner tomou para a sua pintura desde a ponte, lá em baixo! Manias!

E realmente lá de baixo as perspectivas do castelo são encantadoras e voltei a sentir a atmosfera do Harry Potter ali!

Mais um milhão de fotos, um desenhito ou dois… e parti de novo!

Havia mais coisas que eu queria ver…

“Um dia eu ía a passar e vi-o, the Angel of the North, mas eu seguia para norte, na A1, e como se conduz pela esquerda, ele ficava à minha direita e eu nem tive tempo de raciocinar para sair algures para o ir ver… uma pena! Desta vez eu vinha no sentido contrario e lá estava ele de novo. Rapidamente saí na primeira oportunidade, tinha mesmo uma placa a indicar que era por ali que eu devia sair! Tinha parado de chover, o céu estava cheio de nuvens e sombras, e o Angel estava ali, maior do que a lente da minha máquina parecia poder captar, lindo. Uma escultura extraordinária de um anjo com 20m de altura, com longas asas que impressionam pela sua excessiva dimensão, mais de 50m de asas, o que as faz muito maiores que a altura total do corpo. Construído entre 1995 e 1998, fazia parte das coisas que eu queria muito ver, desde o seu primeiro dia de “vida”… desta vez eu vi-o!”

(in Passeando pela vida – a Página)

O contraluz que a imensa escultura desenhava contra o azul do céu, fascinou-me!

Nervuras de metal decoram todo o comprimento do corpo conferindo-lhe uma ideia de robustez bem necessária para suportar todo aquele peso!

Grandiosa! Conhecia-a tão bem a escultura… e de repente não conhecia nada, ficava ali a olhar aquele enorme gigante, em perfeito êxtase!

E o raio da chuva voltou a apanhar-me no caminho e acompanhou-me por ali fora até chegar a Manchester! Nada a fazer senão levar com ela!

Manchester era uma cidade que eu ainda não tinha visitado, a segunda cidade da Inglaterra, cheia de história e música, afinal é o berço de varios músicos/ bandas míticos.
Alguns que me lembro são sobejamente conhecidas, como os New Order, Joy Division, Simply Red, The Smiths ou Oasis!

Dei uma pequena volta pelo centro da cidade, só para ver como era, pois no dia seguinte é que eu visitaria a coisa melhor!

E fui para casa, que era ali perto e tinha um mural lindissimo pintado na enorme parede em tijolo!

Aliás iria encontrar diversos murais por ali, a lembra um pouco Belfast!

E foi o fim do 21º dia de viagem, com uma espécie de oração “que amanhã não chova, que amanhã esteja sol”.

25. Passeando por caminhos Celtas – descendo a Escócia…

17 de agosto de 2014

Um regresso é sempre triste para mim e, naquele momento, eu sentia que começava o meu regresso! Talvez porque estava no ponto mais a norte da minha viagem e a partir dali tudo seria descida até casa… embora estivesse ainda a 14 dias do fim da minha viagem!

Tudo o que eu esperava era que houvesse um pouco de tempo seco para que as minhas memórias da descida das Highlands fizessem justiça ao meu caminho…

Eu planeara fazer outros percursos, diferentes do que fizera na subida, mas o tempo incerto mudaria os meus planos e eu redesenhei o meu percurso de acordo com o sítio onde as nuvens e o mau tempo estavam, o que acabou por dar um refazer a mesma estrada do dia anterior. Isso não me entristeceu minimamente, já que o caminho da costa é encantador e ver a paisagem de outro ângulo, enquanto conduzia, deslumbrar-me-ia de novo!

E o tempo estava bastante ruim em Thurso. A minha motita dormira no quintal dos vizinhos e estava bem molhada. Aproveitei ela ter estado de molho toda a noite para lhe limpar o lixo!

A cidade tem os seus encantos mas o mau tempo nem permitia aprecia-los devidamente. Passeei um pouco junto ao mar tentando entender se o tempo mudaria ou não!

Não havia vivalma nas ruas, o que tornava tudo mais triste ainda. Puxei do telemóvel e só então entendi que era domingo… eu nunca sei a quantas ando quando ando em viagem! Bolas! Claro que estava tudo desoladamente só, com aquela bosta de tempo e sendo domingo!

Como não havia (quase) ninguém pelas ruas da cidade aproveitei para me meter por recantos, subir passeios e quase entrar nos quintais das pessoas, para ver o que havia sem descer da moto, Esse “quase ninguém” é para os senhores que caminhavam, todos encasacados, e pararam meio aparvalhados a olhar para mim, a fazer malabarismos com a moto pela beirinha dos passeios e a passar entre o muro do cais e os mecos das amarras, onde a minha motita parecia grande demais para passar.

“You’re a sweet crazy girl, you know?!” disse um deles è minha passagem

“You’re not supposed to be there looking at me!” respondi-lhe eu! ahahahah

Se há dias em que me apetece conduzir, arriscar um pouco, procurar caminhos inusuais, aquele era um deles, mesmo o tempo não estando a ajudar muito! Por isso meti-me por ruelas que nem eu sabia onde ia dar, mas que prometiam perspectivas diferentes do meu caminho.

Pássaros, muitos pássaros, pareciam corvos (eu adoro corvos) levantavam voo à minha aproximação e voavam perto de mim! Sentia-me no meio de um filme de Hitchcock.

Caminhos que me levavam pelo meio dos campos de cultivo e de pasto, sem ninguém para além de pássaros!

Torre de Harold, construída no séc XVIII, fica ali, no meio de lado nenhum, campos a toda a volta, visível a longas distâncias porque está numa elevação com o mar abaixo. É um mausoléu, embora digam que os corpos não estão lá dentro.

Mais uma curva e não havia mais alcatrão, apenas terra batida e o caminho que desaparecia. Pousei a moto e fui se dava para seguir.

Fui seguindo na direcção de John o’Groats, já que tinha de apanhar chuva, que fosse pelo caminho mais bonito, já que pelo interior a coisa estava negra!

Eu sempre fico impressionada com os enquadramentos que os cemitérios por aquelas bandas permitem, com o mar ao fundo! Continuava o meu trabalho de rato de cemitério a catar tumbas em Canisbay.

Jon o’Groats estava só mas com boa visibilidade…

Até desatar a chover e eu nem conseguir mais fotografar decentemente! Apareceu um perdido, como eu, um suíço muito bem-disposto que reclamava para os céus “Eh toi lá haut, arrête cette pluie je ne sais pas si je pourrais revenir ici!”

Fartei.me de rir com ele “deixe lá, é mais um motivo para cá voltar!

Ele ficou por lá na esperança que o tempo melhorasse, mas acho que não iria ter grande sorte, a considerar pelo céu pesado que se instalou. Eu despedi-me do local e vim embora…

E comecei a descida, com uma plateia que ficava muito espantada a olhar para mim, cada vez que eu parava para dar uma olhada na encosta!

Era só eu parar e a multidão parava de comer e olhava toda para mim! Que sensação!

O tempo realmente melhorava à medida que eu ia descendo, o que era fantástico pois ia-me permitindo ver e registar.

E o tempo incerto permitia cenários verdadeiramente extraordinários, que um dia de sol nunca permitiria!

Deslumbrei-me a cada quilómetro!

Aquele mar parecia de prata a cada vez que as nuvens se tornavam um pouco menos espessas e deixavam a claridade passar!

Castelinhos, torres e casa senhoriais… um conto de fadas!

As pingas de chuva faziam estragos nas minhas fotos, mas a paisagem valia o risco…

Então vi um castelo!

“Ao longe vê-se mais uma torre, procuro o caminho até ela, não é evidente, porque parece que é acessível por várias ruelas que aparecem no entretanto, mas nenhuma delas se aproxima. Na realidade não há uma rua até lá, há um caminho privado, dentro de portões, dentro da propriedade. Não sei o que fazer, não há ninguém por perto e o portão está aberto para uma longa alameda… Da rua não se vê o castelo, por isso decido armar-me em turista inconsciente e entrar com a moto por ali dentro. A teoria é sempre a mesma, se me puserem fora eu vou, mas levo comigo tudo o que consegui ver! E ninguém me pôs fora, ninguém apareceu, e eu passeei com a moto pela propriedade sem qualquer impedimento. O castelo é chamado de torre, the Ackergill Tower, pode ter sido construído antes mas só aparece mencionado no séc. XVI, e tem uma lenda que conta que o seu primeiro proprietário raptou uma belíssima rapariga que, para escapar dos seus avanços, caiu do topo da torre, desde então diz-se que o seu fantasma ainda é visto de vez em quando. Se é assim, não parece assustar muita gente, pois o castelo é hoje um local de realização de eventos e não consta que noivos ou convivas temam a intromissão da rapariga nas suas festividades!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Lá estava ele!

Quando se fala de um sítio, de uma cidade, de um país, há sempre uma imagem que me vem à memória e, quando se fala de Escócia, essa imagem é sempre de um castelo. Um qualquer, mesmo inexistente, mesmo construído pelo meu imaginário. Este, que eu nunca vira, é tão parecido com tantos castelos que já desenhei na minha cabeça ao pensar naquele país…

Senti-me no meio de um cenário de filme! A atmosfera junto de uma construção daquelas sempre me fascina!

Claro que não pude deixar de captar a minha bonequinha naquele ambiente!

E eu sabia que o meu crédito de tempo aceitável estava a chegar ao fim, as nuvens eram negras por todo o lado! Tinha de aproveitar enquanto aquele céu todo não começasse a cair-me em cima!

Parei um pouco em Wick, tinha de comer qualquer coisa…

“A minha descida pelas Highlands foi linda e cheia de nostalgia. Cenários grandiosos de céus e mar deslumbrantes me fizeram companhia, com a terra no meio a servir-me de suporte paradisíaco. Quanto tempo demorei eu a percorrer aqueles caminhos? Todo o tempo do mundo até a chuva tomar conta de tudo… Quantas vezes voltarei eu àquele país? Seguramente algumas mais, assim a vida mo permita, porque há sentimentos e sensações que precisam de ser revividos e alimentados ou definharão quem os sente!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Então vi-as!

Um pasto cheio delas!

Lindas, fofinhas, simpáticas!

Parei de repente, larguei da moto e fui vê-las de perto!

Não resisti, saltei a cerca e fui mais perto!

São umas queridas! Apetecia mesmo trazer uma para casa comigo!

E as filhotas? Pareciam grandes cachorrinhos!

E uma fotografia de família para terminar!

Estava a aproximar-me de Invernes e o Dunrobin Castle a aparecer de novo, por cima das árvores na berma da estrada!

E foi quando o temporal foi tanto que eu tive de parar e guardar a máquina fotográfica. E ainda bem que o fiz… porque foi o verdadeiro dilúvio, à medida que me aproximava do Cairngorms National Park, onde eu iria pernoitar, junto ao Loch Morlich … já imaginando que nada veria da região que é tão linda…

E assim foi!

Uma luta renhida com o temporal, sem vontade de parar em lado nenhum. O nevoeiro era cerrado e até ao chão, nada se via para além de uns 4 ou 5 metros à frente da moto. Carros, camiões e autocarros enchiam o pouco espaço de visibilidade na minha frente de spray sujo de terra, que dificultava ainda mais a minha condução. E paravam, e abrandavam, que o tempo não estava para brincadeiras! E eu que tinha de fazer o percurso a mais velocidade por causa do vento que me abanava, lá ia ultrapassando uns e outros, ao som da minha música aconchegante, que me fazia sentir agasalhada e protegida, dentro do meu fato de chuva que nada deixava entrar…

Quando cheguei à pousada fui recebida por gente muito simpática que me indicou um “drying room” onde pude pôr toda a minha roupa a secar, capacete e tudo! Fantástico!

Ter um “drying room” queria dizer que eles tinham muita chuva por ali? Sim, sempre, quase todos os dias, verão e inverno! Que fixe, queria dizer também que haveria pouca esperança de, no dia seguinte, ver o que quer que fosse então! Pois, seguramente, a meteorologia já andava a dizer que a chuva estaria por lá mais uma semana, nada de novo, é sempre assim!

Merda!

Amuei e fui-me meter numa ponta da sala de jantar, que parecia um aquário ao contrário, vidro com a água do lado de fora…

E foi um serão muito giro e agradável com longas conversas, cerveja da terra e muitos desenhos de interior, do tipo que não costumo fazer nas minhas viagens, mas que ali me fizeram bastante companhia. Às vezes é assim, quando não há mais nada para fazer, desenha-se…

E foi o fim do 20º dia de viagem.

24. Passeando por caminhos Celtas – subindo até John o’ Groats

16 de agosto de 2014

Não se pode fugir eternamente da chuva, ela acaba sempre por nos apanhar, mais aqui ou mais ali. E pelas terras altas é mesmo assim, o sol é uma sorte que temos de aproveitar bem. Isto para dizer que uma bela bosta de tempo me esperava, justamente quando eu me preparava para subir o país até ao topo norte.

E eu queria passar em alguns sítios com calma e bom tempo… nada feito!

A minha motita dormira ao relento e espreitava para mim, por entre a folhagem do jardim com um “vamos lá embora?”

Eu fizera amigas naqueles dias, gente boa com quem eu falei sei lá quantas línguas. Mulheres que viajavam sozinhas, tal como eu, arrastando as suas malas e mochilas pelo reino fora. É tão gratificante falar com gente inteligente que viaja para ver, visitar e descobrir! Fomos constatando que eu via tanta coisa mais que qualquer uma delas num dia apenas! O facto de eu ter rodas próprias permitia-me andar por todo o lado ao sabor da minha vontade, sem esperar por transporte ou caminhar por distâncias demasiado longas e sem interesse, para alcançar algo imperdível mais à frente!

Uma delas teve direito a selfie e tudo, depois de um belíssimo pequeno-almoço para aquecer a alma e nos preparar para a luta com o mau tempo!

O plano para aquele dia era subir, subir e subir, pelo mapa acima!

O sol não conseguia romper as nuvens e o espectáculo que dava na travessia da ponte de Skye era surreal!

“Hoje, ao passar a ponte de Skye, o tempo ainda não se decidira se iria estar bom ou mau e o espetáculo que a sua indecisão dava era deslumbrante! Parei a moto numa nesga na berma da estrada e captei um pouco do que os meus olhos viam… Belíssima ilha, belíssimo pais, belíssimo momento!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Fui andando em direcção a Invernes por caminhos que eu sabia eram lindos mas tudo o que via eram paisagens de mistério! Ok, lindas na mesma, mas misteriosas!

Há sempre um sentimento de desolação quando o tempo está tão encoberto, como se eu me sentisse perdida no meio de lado nenhum, sem muita noção de onde ir!

Acabei por ir passear para Invernes, embora não tivesse a certeza se valeria a pena!

Mas valeu!

Estava cheia de gente e animação o que me aconchegou o coração depois de tantos quilómetros de solidão no meio da chuva e nevoeiro!

Dediquei a minha atenção aos pormenores, pessoas que tocavam realejo, pessoas que faziam esculturas de areia no chão, jovens marinheiros que participavam numa campanha solidária de angariação de fundos….

Adorei o ambiente da cidade, tão diferente do ambiente que ali encontrei 3 anos antes, mesmo na época tendo estado ali com sol, a cidade estava bem menos viva!

O rio Ness, que liga o Loch Ness ao mar, atravessando Invernes… será aquela porta que permite ao Nessy ir passear para longe do lago a cada vez que o tentam captar no fundo das águas e não o encontram! Acho que o mistério existe porque o bichinho é muito inteligente! 😀

E fui até ao castelo, onde fiz amizade com uns rapazes acrobatas que estavam a ensinar a um grupo de miúdos habilidades de Parkour. Fartei-me de os fotografar!

O castelo fica no meio do movimento da cidade com o rio de um lado e a estrada do outro. Nada de coisa isolada no topo de uma colina distante!

Em frente fica a estátua de Flora MacDonald, a heroína escocesa que eu visitei no cemitério em Skye, descobria eu na época:

“Mas o que faz este cemitério ser famoso é o jazigo de Flora MacDonald, que viveu no séc. XVIII e ficou na história como uma heroína porque ajudou Charles Edward Stuart, conhecido por “Bonnie Prince Charlie”, quando este tentou reclamar o trono de Inglaterra. Não foi bem-sucedido e Flora foi presa na Torre de Londres. Mais tarde foi libertada e emigrou para a América, mas foi morrer à sua terra, onde é até hoje aclamada pela sua coragem.

Diz-se que no seu funeral estiveram presentes 3.000 pessoas (uma enormidade para uma ilha tão deserta ainda hoje) e que estas pessoas beberam 300 litros de whisky, há que afogar a dor!”

(in Passeando até à Escócia – 2011)

O rio visto dali é muito bonito, com a cidade de ambos os lados…

Coisas giras que fui encontrando pela cidade. Reajo sempre que encontro a nossa bandeira, claro!

Desta vez num bar onde tomei mais um pequeno-almoço! É um pormenor que eu aprecio, o facto de servirem pequenos-almoços durante todo o dia, o que é uma grande coisa, considerando que ele é composto por comida consistente, tipo almoço e se não houver mais nada que agrade para comer, um pequeno-almoço composto de tanta coisa é muito bem-vindo!

Lá me fui preparando para seguir viagem, olhando para tras e pensando na pena que era não ter um pouco de sol!

Então passei junto da catedral e constatei que nunca lá tinha entrado!

Um grupo de turistas ingleses estava a descer do seu autocarro e fizeram-me uma festa, a mim e à moto. Aproveitei a algazarra e parei ali mesmo, em cima do passeio.

A Saint Andrew Cathedral of Invernes é neogótica, do séc. XIX e é linda! Construída em pedra vermelha, no exterior e granito no interior

Consegui entrar e visitar antes que os turistas enchessem aquilo tudo!

Aquela foi a primeira catedral a ser construída na Grã-Bretanha depois da Reforma! Histórica por isso!

E vesti de novo o fato de chuva e segui para norte!
Havia réstias de sol, ou seria a cor das searas que fazia parecer?

A verdade é que aquele amarelo provocava cenários fantásticos com o céu cinzento a contrastar! O tempo de chuva pode proporcionar momentos únicos, se a atmosfera se mantiver límpida e foi o que aconteceu a partir de Invernes, o sol nunca veio com força, mas a chuva também não e as paisagens tornaram-se inesquecíveis e únicas!

E sim, uma nesga de sol lá aparecia de vez em quando!

“Invernes sempre será um nome que provoca efeito sobre mim, a cada vez que o repita na minha mente, a cada vez que passe na cidade. Um nome que existe no meu imaginário desde sempre e que demorei a conhecer de perto. Capital da região de Highland, tão mítica para mim quanto a cidade. Desta vez eu segui para norte, ali onde a estrada ladeia o mar por quilómetros sem fim. O céu estava cheio de nuvens inspiradoras e a luminosidade era surreal. A Escócia sempre me recebe com momentos incomparáveis de rara beleza, e ali não foram apenas momentos foram horas e quilómetros de encantamento absoluto!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Pude tirar o fato de chuva logo a seguir, o tempo estava a ajudar!

Então ao longe algo prendeu a minha atenção!

Eu sabia que a Escócia tinha petróleo perto e até que Aberdeen era conhecida como “capital do petróleo da Europa”, porque tem explorações no Mar do Norte e tal, mas não esperava ver poços de petróleo ali, assim, olhando da estrada para o mar, tão perto de Invernes!

Eu nem fazia ideia que ali também se explorava o bendito ouro negro!

Por isso fiquei a olhar quando apareceu aquela enorme construção flutuante, num braço de mar que me pareceu tão estreito!

Que bizarra combinação, um poço de petróleo com uma zona do planeta tão bonita e tão pouco intervencionada pelo ser humano, se pensarmos nas poucas estradas que por ali existem e na pouca população que aquele país tem.

Fiquei a olhar, como uma criança que descobre que o homem do saco afinal existe!

Fui-me enfiar no Dunrobin Castle para encher a minha memória de encanto outra vez e esquecer o petróleo!

O senhor da entrada foi-me dizendo para eu ir direta ao jardim para ver a apresentação dos falcões. Não sabia se tinha entendido bem o que ele me dissera mas ao ser recebida pelos simpáticos bichinhos, percebi logo que entendera sim!

Falcão, águia, gavião, milhafre e por ai fora, para não falar dos mochos e corujas… são aves que me fascinam!

Eles ficavam tão quietinhos que consegui desenhar rapidamente um!

Desenhei este passarinho de olhos grandes! Claro que tive de retocar tudo de memória depois, mas foi tão giro, ele ali quietinho a olhar para mim…

Podia ver o castelo lá ao longe, para lá das pessoas e dos voos rasantes das aves!

O castelo é imponente visto dos jardins, eu sempre me maravilho com um castelo…

O mar fica logo ali atrás, quase irreal para lá dos portões!

O castelo é conhecido como uma jóia das Highlands, e embora tenha origens medievais, o aspeto que tem hoje é renascentista de inspiração francesa.

Não se pode fotografar lá dentro, não sei porquê! Roubei uma ou outra foto e deixei-os para lá com os seus interiores infotografáveis!

Vê-se claramente que aquilo tudo vem de épocas em que não existia protectora dos animais nem qualquer preconceito em caça-los e depena-los!

Mas o museu, no jardim, ainda é mais chocante nesse aspeto!
Eu fui lá para ver as pedras gravadas dos Pictos, mas fui ficando chocada com os animais embalsamados que ali existem!

Foi da maneira que eu entendi que sou bem mais pequena que o pescoço de uma girafa!

O tempo não melhorava de novo, por isso despedi-me do local com mais um ou dois postais e segui caminho!

O castelo é muito mais bonito visto da parte de trás do que na entrada!

Enquanto esperava que a chuva parasse…

E voltou a brincadeira entre o sol e a chuva, que me foi permitindo curtir o caminho, cheio de paisagens encantadoras!

As casinhas a encantarem-me e a enriquecer a minha colecção de exemplares de todos os lados onde vou!

Então a estrada “chega-se” à berma do mar e segue por ali acima em sucessões de paisagens deslumbrantes!

Havia momentos em que eu tinha de parar, pois a sensação era de que atravessava um cenário quase artificial de tão bonito que era!

E a vantagem do tempo húmido é que, quando há sol à espreita, cria momentos únicos como arcos-íris que se movem connosco até se tornarem irreais!

Isso foi o que aconteceu a dado momento quando um arco-íris se formou na minha frente e, naturalmente, se afastava à minha aproximação até se “enfiar” no mar!

Deslumbrei-me!

“A natureza presenteia-nos com os espetáculos mais deslumbrantes quando menos esperamos. Quantos arcos-íris eu já vi na minha vida? Quanto eu já vi nesta viagem? Quantos eu vi hoje? Mas aquele foi de cortar a respiração! Eu via-lhe o fim, como se ele tivesse sido ali colado para mim! Parei de repente, olhei em volta, e não havia mais ninguém por perto a presenciar tal espetáculo. Que coisa linda! A escassos quilómetros do mítico John O’ Groats, tudo conspirava para que a minha visita ao local fosse inesquecível… e foi mesmo!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Então cheguei…

John o’ Groats é uma aldeiazinha no topo das Highlands que é considerada o ponto mais a norte de toda a Grã-Bretanha, no entanto não é! Esse ponto fica ali perto em Dunnet Head.

Desta vez eu queria ir ali! Queria passear por aquelas falésias, sentar e parar de pensar!

Na próxima vez que ali for, quando eu for embarcar para visitar as ilhas a norte, aí eu visitarei Dunnet Head….

E depois de horas a catar as falésias lá fui conhecer a famosa placa que indica que estamos no princípio ou no fim de um caminho, dependendo de onde vimos de para onde vamos!

E não, não paguei para ter uma foto junto da placa que é de pôr e tirar apenas para sacar as librar aos turistas!

Interessou-me mais a John o’ Groats House”, mesmo ali ao lado!

E fui para casa, que naquele dia era em Thurso, e foi o fim do 19º dia de viagem.

23. Passeando por caminhos Celtas – de Skye à procura do sol

15 de agosto de 2014

Ao acordar o tempo estava tão ranhoso que eu nem sabia em que direção ir! Tentei descobrir onde andava o sol para não ir na direção errada e passar uma bosta de dia enfiada num fato de chuva a ver coisa nenhuma para além de chuva e nevoeiro!

O que eu queria ver estava visto, eu tinha aproveitado bem o sol até ali, por isso qualquer direção que eu fosse seria boa para mim!

Quando passo no Eilean Donan Castle nunca consigo ficar indiferente, entro de fugida no parque e dou uma olhada, ele estava lindo!

E fui seguindo na direção de Loch Nesse. Eu tinha de lá ir, estando tão perto, para vê-lo mais uma vez!

As suas águas são negras de tão profundas e a sua configuração é longa, estendendo-se ao longo da falha geológica, a Falha de Great Glen, por cerca de 40 km!

Há recantos espantosos no lago, onde as aguas negras formam espelhos

E há o Loch Ness Centre & Exhibition, que desta vez eu fui visitar e… honestamente não vale a pena! Pequenos filmes de documentários criados, alongando a história de sala em sala, com efeitos visuais básicos e primários, criados apenas com a finalidade de prender o visitante e convence-lo de que valeu a pena pagar o bilhete… mas não valeu, de todo! Enfim…

O tempo estava fraco e deprimente, estava na hora de rumar para sul, a ver se tinha mais sorte na minha busca pelo sol.

E, ao meter-me por ruelas, lá estavam as minhas amigas vaquinhas de franja!

São tão simpáticas e bonitinhas que voltei a desenhar mais uma ou duas!

Apetece mesmo brincar com elas como se fossem cães!

O tempo estava a ameaçar chuva e eu desorientei-me! Nem sabia mais o que fazer, queria visitar o Urquhart Castle que fica logo ali, numa saliência do terreno sobranceira ao Loch Ness, mas a multidão era tanta e o tempo tão reles, que desisti! Em dias de sol ou, pelo menos, de boa visibilidade, ele tem uma boa vista sobre o lago, mas naquele dia nada se veria, para além da quantidade de pessoas que por ali andava, por isso decidi ir para sul, à procura do sol!

Passeando pela margem do Loch mais famoso da zona…

O Nessie não quis nada comigo e não se mostrou para mim…

As águas daquele lago são tão negras quanto espantosas!

“O Loch Ness estava triste e só. O lago é tão profundo que as suas águas são negras e sombrias e, naquele dia, pareciam mesmo mais negras do que nunca. Uma ponta de tristeza apoderou-se de mim, eu queria tanto ter um pouco de sol naquele momento… parei num recanto da sua margem e procurei que a cor das flores animasse o meu enquadramento. Revivi a ultima vez que ali passei, quando partia para casa e o tempo estava cinzento, depois de vários dias de sol radioso. Afinal são apenas perspetivas e sensações diferentes sobre o mesmo local… mas que fazem um efeito sobre mim!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Ele é tão profundo que se perde a visibilidade rapidamente nos seus mais de 200 metros de profundidade e na turfa que o escurece! Por isso o Nessie se esconde tão bem lá no fundo da escuridão do lago! 😀

E ao longo da falha geológica outros lagos se alinham, estreitos e compridos, como o Loch Ness.
O Loch Lochy e o Loch Linnhe seguem-se em filinha…

E não havia maneira do céu se abrir e aparecer um pouco de sol, por isso fui descendo o mapa, com a paisagem sombria mas linda a acompanhar a minha busca!

Aos poucos comecei a pressentir uma luminosidade agradável por trás das nuvens cinzentas, andava eu a explorar rios e riachos que ladeiam o Loch Linnhe!

E voltei a passar pelo Castle Stalker. Ainda olhei para ele, mas eu passaria ali de novo no regresso e podia ser que aí me desse para parar e desenhar!

Porque eu tinha outro castelo em mente naquele momento, o Dunstaffnage Castle.
Havia motos e sol e um relvado delicioso à minha espera! Só por isso já valera a pena ter ido até ali!

O castelo fica junto à Baía com o mesmo nome, numa curva entre a foz do Loch Etive e o Loch Linnhe, Lin para os amigos.

É que por aquelas terras os lagos têm foz, desaguam uns nos outros e alguns são até lagos-mar, isto é, abertos para o mar!

O castelo é uma construção do séc. XIII, cheio de história.

Depois do caminho ladeado de uma relva perfeita e fofa, lá estava ele, em cima de um grande rochedo que mais parecia ter sido arrancado de um lado qualquer e levado para ali, com o castelo em cima e tudo.

O conjunto apenas não parecia ter nascido ali!

Mas nasceu!
Ali foi o reduto do clã MacDougall, no tempo das lutas pela independência da Escócia e foi mesmo tomado por Robert the Bruce, rei da Escócia e sucessor de William Wallace, o mesmo do Bravehart, na luta pela libertação do país do jugo da Inglaterra.

O Castelo não tem muito o que ver lá dentro, o seu encanto está no exterior e nos enquadramentos que permite!

Com a baía ao longe e um pouco de sol a animar!

É isso que me aborrece, cobrarem bilhete para vermos meia dúzia de muros em pé! Outros castelos mostram muito mais e são de visita libre! Não entendo o critério!

Pronto, ok, tive a honra de pisar o solo que Robert the Bruce pisou, mas ele também pisou o jardim e esse era de borla para visitar!

E, do jardim, o Castelo era bem mais interessante do que do interior!

Oh, eu tinha de aproveitar o sol!
Sentei-me por ali, no relvado fofo, e fui desenhando, uma e outra perspetiva, com o sol a aquecer-me as costas!

Ali ao lado fica a capela do Castelo.

E já que tinha pago bilhete para andar por ali, fiz um belissimo picnic no meio da relva, com o sol a animar o momento! Ao menos gozei o bilhete e aproveitei o sol!

Quando finalmente me decidi voltar para casa, ainda fui podendo ver perspetivas da baía e do Castelo, muito bonitas!

Voltei a passar no Castle Stalker, como imaginara na ida e, embalada pelos desenhos que fizera em Dunstaffnage, finalmente desenhei o castelinho no meio da água!

Os lagos estão por todos os lados e até me dei ao luxo de escolher quais acompanhariam o meu regresso a Skye!

As nuvens cinzentas estavam no mesmo sitio à minha espera…

E fui para casa, que seria ainda em Skye naquele dia…

E foi o fim do 18º dia de viagem.

22. Passeando por caminhos Celtas – ainda a bela Ilha de Skye…

14 de agosto de 2014 – continuando

A estrada fica perto do limite da terra e do início do mar e recorta-se em falésias impressionantes que a gente pode ver enquanto conduz calmamente. Mas eu queria chegar até perto do mar, ver os limites da terra junto da ponta dos meus pés, por isso procurei no meu GPS onde estava uma ruela que me levasse até lá.

Não faltam por ali ruelas, mas que não vão a lado nenhum, para além das casitas das pessoas, no meio da planície. Era preciso escolher uma que fosse para mais longe da rua principal e para mais perto da falésia.

Lá estava ela, estreita e a perder-se de vista pelo meio dos campos, e o que me esperava era tão lindo quanto eu suspeitara e a sensação muito mais espantosa do que sonhara…

Só o silêncio era música de fundo apropriada para aquele momento…

Sentei-me na berma do precipício agradecendo o facto de não ter vertigens e perdi-me em momentos de puro prazer para os sentidos…

Muito tempo depois voltei para a moto, podia vê-la à minha espera, depois de um terreno “minado” com buracos de patas de vaca, que formavam poças de água e ficavam escondidos por baixo da relva espeça e onde eu ia enfiando os pés, a todo o momento…

E o caminho continuava contornando a ilha, cheio de beleza.

Voltei a sair da estrada mais comum, onde anda toda a gente que visita a ilha, para seguir por ruelas encantadoras e estreitinhas, mais à frente, ali, onde a ilha se recorta e retorce para uma enorme saliência e direção a norte de novo!

Havia miúdos na rua que me fizeram uma festa ao passar, e havia casinhas com telhados de colmo e o mar ali à beira, com terra do outro lado…

Havia vacas no pasto e eu pousei a moto para ir por ali abaixo!

mas as vaquinhas não eram das peludas, não tinham graça… voltei a parar vezes sem conta por causa delas até as encontrar!

The Two Churches Walk aparece na berma da ruínha.

Um percurso aconselhado que leva de uma igreja até outra passando pelos cemitérios inspiradores… mais cemitérios! Eu continuava o meu percurso de rato de cemitério?

Mas não fiz a caminhada, apenas visitei aquele cemitério e a St Mary’s Church porque me fascina sendo o lugar de enterro do clã MacLeod.

O cemitério em seu redor é espantoso (para mim) com a relva fofa por todo o lado e as tumbas espalhadas de forma alectória, pelo menos aparentemente, já que não se percebe nenhuma ordem ou vestígio de enfileiramento.

E lá estava a igreja dos MacLeod! Puxa, que sensação!

E estava a cruz celta também…

Havia outras cá fora.

Alguns nomes conseguem-se ler ainda e eu dediquei-me aos Mac que são mato por ali:
MacKenzies, MacSweens, MacLeans, MacDonalds, MacAskills, MacPhies, MacRailds,MacKinnons

E seguindo começava a ver o enorme Cuillin Ridge…

Eu iria vê-lo por muito tempo no meu caminho, como acontecera da ultima vez que estive na ilha, mas ainda não seria desta vez que eu iria até ele…

e então, num pasto na berma da estrada lá estava elas, a minha vaquinhas queridas!

“Um dia eu dei-me conta de que ainda não tinha visto as minhas vaquinhas adoráveis! Distraida com tudo eu nem sabia se tinha já passado por alguma, porque normalmente elas estão no meio de rebanhos de vacas “normais” e nem devia ter dado por elas. Que pena! Então, meti-me por ruelas e de repente elas estavam por todos os lados, mesmo em rebanhos só de vaquinhas peludas, todas da mesma raça. Acho mesmo que devem ser mais inteligentes que as outras, ou então, o facto de terem tanto pelo fê-las desenvolver capacidades diferentes, como não se coçarem sacudindo a cauda e sim usando a pata de trás, como os cães! Tão queridinhas, ficavam ali a olhar para mim, por entre a espessa franja, como se esperassem pela foto. Adoro-as!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Com um ventinho a afastar a franja a gente pode ver que têm uma carinha parecida com as outras!

Mas com a franja no lugar quase nem parecem vacas, lembram mesmo cachorros grandes! Então quando se põem a coçar as orelhas são deliciosas!

Logo a seguir estava a quietude de um caminho que ninguém faz e de uma paisagem que é de um paraíso.

“Há momentos de mar inesquecíveis na minha história, porque sempre ele me chama cá dentro, desde o dia em que eu nasci em frente a ele! O mar e o sol, o mar e as nuvens, paro na berma da rua estreita e fico a olhar. Não vem ninguém, por aquelas ruínhas estreitas parece nunca vir ninguém, o que me permite sempre abandonar a moto e descer pelos campos, andar pelo meio das vacas, aproximar-me da falésia e apreciar o momento, como se o tempo parasse e nada mais houvesse para fazer na minha vida. Momentos de paz!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

E as ovelhas estão por todos os lados, dando um toque de branco a todo aquele verde!

E de novo o Cuillin Ridge ao fundo!

Um cadeia de montes impressionante, não tanto pela sua altura mas mais pela sua imponência e localização, sendo um dos 40 pontos das National Scenic Areas da Escócia. E é mesmo um conjunto cénico!

A minha motita ficava parada na berma de qualquer estrada enquanto eu me perdia em explorações pelos terrenos fora…

Numa próxima visita à ilha eu irei até lá, eu quero ver aquele monte de perto…

Desta vez eu estava cheia de fome e queria comer antes do sol se pôr.

Não, eu não me iria transformar em lobo ao anoitecer, nem temia que alguém se transformasse! Eu apenas queria ver um pôr-do-sol muito especial…

Por isso fui jantar ao restaurante junto da pousada de juventude, onde tinha net e tudo. A comida era muito boa, 3 mini hambúrgueres deliciosos com uma cerveja local a acompanhar!

Gostei do aspeto do prato, uma rodela em ardósia, muito bem arranjadinho !

E segui para o Eilean Donan Castle, que eu não podia perder aquele dia lindo, que tanto desejara e por que tanto suspirara!

“A hora estava a chegar e o Eilean Donan Castle ficava a pouco mais de 15 milhas do meu hostel em Skye, por isso fui para lá. Eu sabia que não me podia dar ao luxo de desperdiçar um fim de dia tão fantástico como aquele se tornara! E o entardecer que me esperava era muito mais encantador do que eu pudera desejar, porque o céu estava cheio de nuvens translucidas, que se transformavam em rendas luminosas penduradas no céu com o sol como fundo. Nada mais me importou para além do que os meus olhos viam e fiz vários desenhos sem nem me preocupar com quem se aproximava e olhava. Simplesmente eu não conseguia quebrar o encantamento, nem impedir-me de captar compulsivamente cada momento mágico que o sol encenava para mim, à medida que se ia indo embora…”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Eu queria tanto captar o que via, imortalizar aquele momento….

Da última vez que ali estive desenhei-o de fugida, encostada ao muro, da parte de fora, como quem rouba algo! Mas desta vez foi uma alegria!

Rapei do meu livrinho, dos pinceis e das canetas e desenhei sobre a moto um pouco do que via…

E o sol reservara-me os cenários que eu tanto queria encontrar! Uma das razões porque eu decidira ficar 3 noites da Ilha de Skye era para ter mais probabilidades de encontrar um belo pôr-do-sol no castelo e ele não me fez esperar!

Eu não tinha a certeza se queria visitar o castelo por dentro! Ele está sempre cheio de gente e se eu o visitasse seria apenas para poder atravessar a ponte e chegar perto da construção! Então tive uma surpresa, depois de encerrarem as visitas a ponte está aberta e a gente pode ir até à ilhota, passear em torno do castelo e tirar as fotos que quiser! WhoW!

Era tudo o que eu queria!

Deu tempo para desenhar em técnicas diferentes e tudo!

Porque tudo ali é inspirador!

Demorei todo o tempo do mundo a atravessar aquela ponte, com a máquina ao peito e sempre parando para desenhar ou fotografar!

O sol completava o quadro e criava novos enquadramentos a cada minuto que passava, no seu caminho para o crepúsculo! Que coisa linda!

Uns espanhóis usando kilt fotografavam-se em todos os cantos e esquinas.

Andei por ali a passear um pouco, a luminosidade do sol poente era extraordinária e proporcionava enquadramentos muito bonitos!

E voltava ao castelo…

com o sol já no seu ocaso…

Segui para Skye quase contrariada! O quanto me custou deixar aquele entardecer perfeito! Ao longe eu via a ponte de Skye e parei para a fotografar…

Parei quantas vezes?

Há momentos que eu queria que fossem, senão eternos, muito duradoiros! Eu queria ficar ali por muito tempo, por muitos desenhos, por muitos momentos de paz! Eu queria …

“Momentos de paz, era tudo o que eu procurava nesta viagem, e encontrei verdadeiros momentos de encantamento! Sonhos que se realizam, sem pressas, sem lamentos, sem ansiedade, porque o que não vir não me fará falta, se eu viver bem o que vou conseguindo ver! A Ilha de Skye ficará para sempre gravada nas minhas memórias de viagem!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

E foi o fim do 17º de viagem….