24. Passeando por caminhos Celtas – subindo até John o’ Groats

16 de agosto de 2014

Não se pode fugir eternamente da chuva, ela acaba sempre por nos apanhar, mais aqui ou mais ali. E pelas terras altas é mesmo assim, o sol é uma sorte que temos de aproveitar bem. Isto para dizer que uma bela bosta de tempo me esperava, justamente quando eu me preparava para subir o país até ao topo norte.

E eu queria passar em alguns sítios com calma e bom tempo… nada feito!

A minha motita dormira ao relento e espreitava para mim, por entre a folhagem do jardim com um “vamos lá embora?”

Eu fizera amigas naqueles dias, gente boa com quem eu falei sei lá quantas línguas. Mulheres que viajavam sozinhas, tal como eu, arrastando as suas malas e mochilas pelo reino fora. É tão gratificante falar com gente inteligente que viaja para ver, visitar e descobrir! Fomos constatando que eu via tanta coisa mais que qualquer uma delas num dia apenas! O facto de eu ter rodas próprias permitia-me andar por todo o lado ao sabor da minha vontade, sem esperar por transporte ou caminhar por distâncias demasiado longas e sem interesse, para alcançar algo imperdível mais à frente!

Uma delas teve direito a selfie e tudo, depois de um belíssimo pequeno-almoço para aquecer a alma e nos preparar para a luta com o mau tempo!

O plano para aquele dia era subir, subir e subir, pelo mapa acima!

O sol não conseguia romper as nuvens e o espectáculo que dava na travessia da ponte de Skye era surreal!

“Hoje, ao passar a ponte de Skye, o tempo ainda não se decidira se iria estar bom ou mau e o espetáculo que a sua indecisão dava era deslumbrante! Parei a moto numa nesga na berma da estrada e captei um pouco do que os meus olhos viam… Belíssima ilha, belíssimo pais, belíssimo momento!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Fui andando em direcção a Invernes por caminhos que eu sabia eram lindos mas tudo o que via eram paisagens de mistério! Ok, lindas na mesma, mas misteriosas!

Há sempre um sentimento de desolação quando o tempo está tão encoberto, como se eu me sentisse perdida no meio de lado nenhum, sem muita noção de onde ir!

Acabei por ir passear para Invernes, embora não tivesse a certeza se valeria a pena!

Mas valeu!

Estava cheia de gente e animação o que me aconchegou o coração depois de tantos quilómetros de solidão no meio da chuva e nevoeiro!

Dediquei a minha atenção aos pormenores, pessoas que tocavam realejo, pessoas que faziam esculturas de areia no chão, jovens marinheiros que participavam numa campanha solidária de angariação de fundos….

Adorei o ambiente da cidade, tão diferente do ambiente que ali encontrei 3 anos antes, mesmo na época tendo estado ali com sol, a cidade estava bem menos viva!

O rio Ness, que liga o Loch Ness ao mar, atravessando Invernes… será aquela porta que permite ao Nessy ir passear para longe do lago a cada vez que o tentam captar no fundo das águas e não o encontram! Acho que o mistério existe porque o bichinho é muito inteligente! 😀

E fui até ao castelo, onde fiz amizade com uns rapazes acrobatas que estavam a ensinar a um grupo de miúdos habilidades de Parkour. Fartei-me de os fotografar!

O castelo fica no meio do movimento da cidade com o rio de um lado e a estrada do outro. Nada de coisa isolada no topo de uma colina distante!

Em frente fica a estátua de Flora MacDonald, a heroína escocesa que eu visitei no cemitério em Skye, descobria eu na época:

“Mas o que faz este cemitério ser famoso é o jazigo de Flora MacDonald, que viveu no séc. XVIII e ficou na história como uma heroína porque ajudou Charles Edward Stuart, conhecido por “Bonnie Prince Charlie”, quando este tentou reclamar o trono de Inglaterra. Não foi bem-sucedido e Flora foi presa na Torre de Londres. Mais tarde foi libertada e emigrou para a América, mas foi morrer à sua terra, onde é até hoje aclamada pela sua coragem.

Diz-se que no seu funeral estiveram presentes 3.000 pessoas (uma enormidade para uma ilha tão deserta ainda hoje) e que estas pessoas beberam 300 litros de whisky, há que afogar a dor!”

(in Passeando até à Escócia – 2011)

O rio visto dali é muito bonito, com a cidade de ambos os lados…

Coisas giras que fui encontrando pela cidade. Reajo sempre que encontro a nossa bandeira, claro!

Desta vez num bar onde tomei mais um pequeno-almoço! É um pormenor que eu aprecio, o facto de servirem pequenos-almoços durante todo o dia, o que é uma grande coisa, considerando que ele é composto por comida consistente, tipo almoço e se não houver mais nada que agrade para comer, um pequeno-almoço composto de tanta coisa é muito bem-vindo!

Lá me fui preparando para seguir viagem, olhando para tras e pensando na pena que era não ter um pouco de sol!

Então passei junto da catedral e constatei que nunca lá tinha entrado!

Um grupo de turistas ingleses estava a descer do seu autocarro e fizeram-me uma festa, a mim e à moto. Aproveitei a algazarra e parei ali mesmo, em cima do passeio.

A Saint Andrew Cathedral of Invernes é neogótica, do séc. XIX e é linda! Construída em pedra vermelha, no exterior e granito no interior

Consegui entrar e visitar antes que os turistas enchessem aquilo tudo!

Aquela foi a primeira catedral a ser construída na Grã-Bretanha depois da Reforma! Histórica por isso!

E vesti de novo o fato de chuva e segui para norte!
Havia réstias de sol, ou seria a cor das searas que fazia parecer?

A verdade é que aquele amarelo provocava cenários fantásticos com o céu cinzento a contrastar! O tempo de chuva pode proporcionar momentos únicos, se a atmosfera se mantiver límpida e foi o que aconteceu a partir de Invernes, o sol nunca veio com força, mas a chuva também não e as paisagens tornaram-se inesquecíveis e únicas!

E sim, uma nesga de sol lá aparecia de vez em quando!

“Invernes sempre será um nome que provoca efeito sobre mim, a cada vez que o repita na minha mente, a cada vez que passe na cidade. Um nome que existe no meu imaginário desde sempre e que demorei a conhecer de perto. Capital da região de Highland, tão mítica para mim quanto a cidade. Desta vez eu segui para norte, ali onde a estrada ladeia o mar por quilómetros sem fim. O céu estava cheio de nuvens inspiradoras e a luminosidade era surreal. A Escócia sempre me recebe com momentos incomparáveis de rara beleza, e ali não foram apenas momentos foram horas e quilómetros de encantamento absoluto!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Pude tirar o fato de chuva logo a seguir, o tempo estava a ajudar!

Então ao longe algo prendeu a minha atenção!

Eu sabia que a Escócia tinha petróleo perto e até que Aberdeen era conhecida como “capital do petróleo da Europa”, porque tem explorações no Mar do Norte e tal, mas não esperava ver poços de petróleo ali, assim, olhando da estrada para o mar, tão perto de Invernes!

Eu nem fazia ideia que ali também se explorava o bendito ouro negro!

Por isso fiquei a olhar quando apareceu aquela enorme construção flutuante, num braço de mar que me pareceu tão estreito!

Que bizarra combinação, um poço de petróleo com uma zona do planeta tão bonita e tão pouco intervencionada pelo ser humano, se pensarmos nas poucas estradas que por ali existem e na pouca população que aquele país tem.

Fiquei a olhar, como uma criança que descobre que o homem do saco afinal existe!

Fui-me enfiar no Dunrobin Castle para encher a minha memória de encanto outra vez e esquecer o petróleo!

O senhor da entrada foi-me dizendo para eu ir direta ao jardim para ver a apresentação dos falcões. Não sabia se tinha entendido bem o que ele me dissera mas ao ser recebida pelos simpáticos bichinhos, percebi logo que entendera sim!

Falcão, águia, gavião, milhafre e por ai fora, para não falar dos mochos e corujas… são aves que me fascinam!

Eles ficavam tão quietinhos que consegui desenhar rapidamente um!

Desenhei este passarinho de olhos grandes! Claro que tive de retocar tudo de memória depois, mas foi tão giro, ele ali quietinho a olhar para mim…

Podia ver o castelo lá ao longe, para lá das pessoas e dos voos rasantes das aves!

O castelo é imponente visto dos jardins, eu sempre me maravilho com um castelo…

O mar fica logo ali atrás, quase irreal para lá dos portões!

O castelo é conhecido como uma jóia das Highlands, e embora tenha origens medievais, o aspeto que tem hoje é renascentista de inspiração francesa.

Não se pode fotografar lá dentro, não sei porquê! Roubei uma ou outra foto e deixei-os para lá com os seus interiores infotografáveis!

Vê-se claramente que aquilo tudo vem de épocas em que não existia protectora dos animais nem qualquer preconceito em caça-los e depena-los!

Mas o museu, no jardim, ainda é mais chocante nesse aspeto!
Eu fui lá para ver as pedras gravadas dos Pictos, mas fui ficando chocada com os animais embalsamados que ali existem!

Foi da maneira que eu entendi que sou bem mais pequena que o pescoço de uma girafa!

O tempo não melhorava de novo, por isso despedi-me do local com mais um ou dois postais e segui caminho!

O castelo é muito mais bonito visto da parte de trás do que na entrada!

Enquanto esperava que a chuva parasse…

E voltou a brincadeira entre o sol e a chuva, que me foi permitindo curtir o caminho, cheio de paisagens encantadoras!

As casinhas a encantarem-me e a enriquecer a minha colecção de exemplares de todos os lados onde vou!

Então a estrada “chega-se” à berma do mar e segue por ali acima em sucessões de paisagens deslumbrantes!

Havia momentos em que eu tinha de parar, pois a sensação era de que atravessava um cenário quase artificial de tão bonito que era!

E a vantagem do tempo húmido é que, quando há sol à espreita, cria momentos únicos como arcos-íris que se movem connosco até se tornarem irreais!

Isso foi o que aconteceu a dado momento quando um arco-íris se formou na minha frente e, naturalmente, se afastava à minha aproximação até se “enfiar” no mar!

Deslumbrei-me!

“A natureza presenteia-nos com os espetáculos mais deslumbrantes quando menos esperamos. Quantos arcos-íris eu já vi na minha vida? Quanto eu já vi nesta viagem? Quantos eu vi hoje? Mas aquele foi de cortar a respiração! Eu via-lhe o fim, como se ele tivesse sido ali colado para mim! Parei de repente, olhei em volta, e não havia mais ninguém por perto a presenciar tal espetáculo. Que coisa linda! A escassos quilómetros do mítico John O’ Groats, tudo conspirava para que a minha visita ao local fosse inesquecível… e foi mesmo!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Então cheguei…

John o’ Groats é uma aldeiazinha no topo das Highlands que é considerada o ponto mais a norte de toda a Grã-Bretanha, no entanto não é! Esse ponto fica ali perto em Dunnet Head.

Desta vez eu queria ir ali! Queria passear por aquelas falésias, sentar e parar de pensar!

Na próxima vez que ali for, quando eu for embarcar para visitar as ilhas a norte, aí eu visitarei Dunnet Head….

E depois de horas a catar as falésias lá fui conhecer a famosa placa que indica que estamos no princípio ou no fim de um caminho, dependendo de onde vimos de para onde vamos!

E não, não paguei para ter uma foto junto da placa que é de pôr e tirar apenas para sacar as librar aos turistas!

Interessou-me mais a John o’ Groats House”, mesmo ali ao lado!

E fui para casa, que naquele dia era em Thurso, e foi o fim do 19º dia de viagem.

23. Passeando por caminhos Celtas – de Skye à procura do sol

15 de agosto de 2014

Ao acordar o tempo estava tão ranhoso que eu nem sabia em que direção ir! Tentei descobrir onde andava o sol para não ir na direção errada e passar uma bosta de dia enfiada num fato de chuva a ver coisa nenhuma para além de chuva e nevoeiro!

O que eu queria ver estava visto, eu tinha aproveitado bem o sol até ali, por isso qualquer direção que eu fosse seria boa para mim!

Quando passo no Eilean Donan Castle nunca consigo ficar indiferente, entro de fugida no parque e dou uma olhada, ele estava lindo!

E fui seguindo na direção de Loch Nesse. Eu tinha de lá ir, estando tão perto, para vê-lo mais uma vez!

As suas águas são negras de tão profundas e a sua configuração é longa, estendendo-se ao longo da falha geológica, a Falha de Great Glen, por cerca de 40 km!

Há recantos espantosos no lago, onde as aguas negras formam espelhos

E há o Loch Ness Centre & Exhibition, que desta vez eu fui visitar e… honestamente não vale a pena! Pequenos filmes de documentários criados, alongando a história de sala em sala, com efeitos visuais básicos e primários, criados apenas com a finalidade de prender o visitante e convence-lo de que valeu a pena pagar o bilhete… mas não valeu, de todo! Enfim…

O tempo estava fraco e deprimente, estava na hora de rumar para sul, a ver se tinha mais sorte na minha busca pelo sol.

E, ao meter-me por ruelas, lá estavam as minhas amigas vaquinhas de franja!

São tão simpáticas e bonitinhas que voltei a desenhar mais uma ou duas!

Apetece mesmo brincar com elas como se fossem cães!

O tempo estava a ameaçar chuva e eu desorientei-me! Nem sabia mais o que fazer, queria visitar o Urquhart Castle que fica logo ali, numa saliência do terreno sobranceira ao Loch Ness, mas a multidão era tanta e o tempo tão reles, que desisti! Em dias de sol ou, pelo menos, de boa visibilidade, ele tem uma boa vista sobre o lago, mas naquele dia nada se veria, para além da quantidade de pessoas que por ali andava, por isso decidi ir para sul, à procura do sol!

Passeando pela margem do Loch mais famoso da zona…

O Nessie não quis nada comigo e não se mostrou para mim…

As águas daquele lago são tão negras quanto espantosas!

“O Loch Ness estava triste e só. O lago é tão profundo que as suas águas são negras e sombrias e, naquele dia, pareciam mesmo mais negras do que nunca. Uma ponta de tristeza apoderou-se de mim, eu queria tanto ter um pouco de sol naquele momento… parei num recanto da sua margem e procurei que a cor das flores animasse o meu enquadramento. Revivi a ultima vez que ali passei, quando partia para casa e o tempo estava cinzento, depois de vários dias de sol radioso. Afinal são apenas perspetivas e sensações diferentes sobre o mesmo local… mas que fazem um efeito sobre mim!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Ele é tão profundo que se perde a visibilidade rapidamente nos seus mais de 200 metros de profundidade e na turfa que o escurece! Por isso o Nessie se esconde tão bem lá no fundo da escuridão do lago! 😀

E ao longo da falha geológica outros lagos se alinham, estreitos e compridos, como o Loch Ness.
O Loch Lochy e o Loch Linnhe seguem-se em filinha…

E não havia maneira do céu se abrir e aparecer um pouco de sol, por isso fui descendo o mapa, com a paisagem sombria mas linda a acompanhar a minha busca!

Aos poucos comecei a pressentir uma luminosidade agradável por trás das nuvens cinzentas, andava eu a explorar rios e riachos que ladeiam o Loch Linnhe!

E voltei a passar pelo Castle Stalker. Ainda olhei para ele, mas eu passaria ali de novo no regresso e podia ser que aí me desse para parar e desenhar!

Porque eu tinha outro castelo em mente naquele momento, o Dunstaffnage Castle.
Havia motos e sol e um relvado delicioso à minha espera! Só por isso já valera a pena ter ido até ali!

O castelo fica junto à Baía com o mesmo nome, numa curva entre a foz do Loch Etive e o Loch Linnhe, Lin para os amigos.

É que por aquelas terras os lagos têm foz, desaguam uns nos outros e alguns são até lagos-mar, isto é, abertos para o mar!

O castelo é uma construção do séc. XIII, cheio de história.

Depois do caminho ladeado de uma relva perfeita e fofa, lá estava ele, em cima de um grande rochedo que mais parecia ter sido arrancado de um lado qualquer e levado para ali, com o castelo em cima e tudo.

O conjunto apenas não parecia ter nascido ali!

Mas nasceu!
Ali foi o reduto do clã MacDougall, no tempo das lutas pela independência da Escócia e foi mesmo tomado por Robert the Bruce, rei da Escócia e sucessor de William Wallace, o mesmo do Bravehart, na luta pela libertação do país do jugo da Inglaterra.

O Castelo não tem muito o que ver lá dentro, o seu encanto está no exterior e nos enquadramentos que permite!

Com a baía ao longe e um pouco de sol a animar!

É isso que me aborrece, cobrarem bilhete para vermos meia dúzia de muros em pé! Outros castelos mostram muito mais e são de visita libre! Não entendo o critério!

Pronto, ok, tive a honra de pisar o solo que Robert the Bruce pisou, mas ele também pisou o jardim e esse era de borla para visitar!

E, do jardim, o Castelo era bem mais interessante do que do interior!

Oh, eu tinha de aproveitar o sol!
Sentei-me por ali, no relvado fofo, e fui desenhando, uma e outra perspetiva, com o sol a aquecer-me as costas!

Ali ao lado fica a capela do Castelo.

E já que tinha pago bilhete para andar por ali, fiz um belissimo picnic no meio da relva, com o sol a animar o momento! Ao menos gozei o bilhete e aproveitei o sol!

Quando finalmente me decidi voltar para casa, ainda fui podendo ver perspetivas da baía e do Castelo, muito bonitas!

Voltei a passar no Castle Stalker, como imaginara na ida e, embalada pelos desenhos que fizera em Dunstaffnage, finalmente desenhei o castelinho no meio da água!

Os lagos estão por todos os lados e até me dei ao luxo de escolher quais acompanhariam o meu regresso a Skye!

As nuvens cinzentas estavam no mesmo sitio à minha espera…

E fui para casa, que seria ainda em Skye naquele dia…

E foi o fim do 18º dia de viagem.

22. Passeando por caminhos Celtas – ainda a bela Ilha de Skye…

14 de agosto de 2014 – continuando

A estrada fica perto do limite da terra e do início do mar e recorta-se em falésias impressionantes que a gente pode ver enquanto conduz calmamente. Mas eu queria chegar até perto do mar, ver os limites da terra junto da ponta dos meus pés, por isso procurei no meu GPS onde estava uma ruela que me levasse até lá.

Não faltam por ali ruelas, mas que não vão a lado nenhum, para além das casitas das pessoas, no meio da planície. Era preciso escolher uma que fosse para mais longe da rua principal e para mais perto da falésia.

Lá estava ela, estreita e a perder-se de vista pelo meio dos campos, e o que me esperava era tão lindo quanto eu suspeitara e a sensação muito mais espantosa do que sonhara…

Só o silêncio era música de fundo apropriada para aquele momento…

Sentei-me na berma do precipício agradecendo o facto de não ter vertigens e perdi-me em momentos de puro prazer para os sentidos…

Muito tempo depois voltei para a moto, podia vê-la à minha espera, depois de um terreno “minado” com buracos de patas de vaca, que formavam poças de água e ficavam escondidos por baixo da relva espeça e onde eu ia enfiando os pés, a todo o momento…

E o caminho continuava contornando a ilha, cheio de beleza.

Voltei a sair da estrada mais comum, onde anda toda a gente que visita a ilha, para seguir por ruelas encantadoras e estreitinhas, mais à frente, ali, onde a ilha se recorta e retorce para uma enorme saliência e direção a norte de novo!

Havia miúdos na rua que me fizeram uma festa ao passar, e havia casinhas com telhados de colmo e o mar ali à beira, com terra do outro lado…

Havia vacas no pasto e eu pousei a moto para ir por ali abaixo!

mas as vaquinhas não eram das peludas, não tinham graça… voltei a parar vezes sem conta por causa delas até as encontrar!

The Two Churches Walk aparece na berma da ruínha.

Um percurso aconselhado que leva de uma igreja até outra passando pelos cemitérios inspiradores… mais cemitérios! Eu continuava o meu percurso de rato de cemitério?

Mas não fiz a caminhada, apenas visitei aquele cemitério e a St Mary’s Church porque me fascina sendo o lugar de enterro do clã MacLeod.

O cemitério em seu redor é espantoso (para mim) com a relva fofa por todo o lado e as tumbas espalhadas de forma alectória, pelo menos aparentemente, já que não se percebe nenhuma ordem ou vestígio de enfileiramento.

E lá estava a igreja dos MacLeod! Puxa, que sensação!

E estava a cruz celta também…

Havia outras cá fora.

Alguns nomes conseguem-se ler ainda e eu dediquei-me aos Mac que são mato por ali:
MacKenzies, MacSweens, MacLeans, MacDonalds, MacAskills, MacPhies, MacRailds,MacKinnons

E seguindo começava a ver o enorme Cuillin Ridge…

Eu iria vê-lo por muito tempo no meu caminho, como acontecera da ultima vez que estive na ilha, mas ainda não seria desta vez que eu iria até ele…

e então, num pasto na berma da estrada lá estava elas, a minha vaquinhas queridas!

“Um dia eu dei-me conta de que ainda não tinha visto as minhas vaquinhas adoráveis! Distraida com tudo eu nem sabia se tinha já passado por alguma, porque normalmente elas estão no meio de rebanhos de vacas “normais” e nem devia ter dado por elas. Que pena! Então, meti-me por ruelas e de repente elas estavam por todos os lados, mesmo em rebanhos só de vaquinhas peludas, todas da mesma raça. Acho mesmo que devem ser mais inteligentes que as outras, ou então, o facto de terem tanto pelo fê-las desenvolver capacidades diferentes, como não se coçarem sacudindo a cauda e sim usando a pata de trás, como os cães! Tão queridinhas, ficavam ali a olhar para mim, por entre a espessa franja, como se esperassem pela foto. Adoro-as!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

Com um ventinho a afastar a franja a gente pode ver que têm uma carinha parecida com as outras!

Mas com a franja no lugar quase nem parecem vacas, lembram mesmo cachorros grandes! Então quando se põem a coçar as orelhas são deliciosas!

Logo a seguir estava a quietude de um caminho que ninguém faz e de uma paisagem que é de um paraíso.

“Há momentos de mar inesquecíveis na minha história, porque sempre ele me chama cá dentro, desde o dia em que eu nasci em frente a ele! O mar e o sol, o mar e as nuvens, paro na berma da rua estreita e fico a olhar. Não vem ninguém, por aquelas ruínhas estreitas parece nunca vir ninguém, o que me permite sempre abandonar a moto e descer pelos campos, andar pelo meio das vacas, aproximar-me da falésia e apreciar o momento, como se o tempo parasse e nada mais houvesse para fazer na minha vida. Momentos de paz!”

(in “Passeando pela vida” – a página)

E as ovelhas estão por todos os lados, dando um toque de branco a todo aquele verde!

E de novo o Cuillin Ridge ao fundo!

Um cadeia de montes impressionante, não tanto pela sua altura mas mais pela sua imponência e localização, sendo um dos 40 pontos das National Scenic Areas da Escócia. E é mesmo um conjunto cénico!

A minha motita ficava parada na berma de qualquer estrada enquanto eu me perdia em explorações pelos terrenos fora…

Numa próxima visita à ilha eu irei até lá, eu quero ver aquele monte de perto…

Desta vez eu estava cheia de fome e queria comer antes do sol se pôr.

Não, eu não me iria transformar em lobo ao anoitecer, nem temia que alguém se transformasse! Eu apenas queria ver um pôr-do-sol muito especial…

Por isso fui jantar ao restaurante junto da pousada de juventude, onde tinha net e tudo. A comida era muito boa, 3 mini hambúrgueres deliciosos com uma cerveja local a acompanhar!

Gostei do aspeto do prato, uma rodela em ardósia, muito bem arranjadinho !

E segui para o Eilean Donan Castle, que eu não podia perder aquele dia lindo, que tanto desejara e por que tanto suspirara!

“A hora estava a chegar e o Eilean Donan Castle ficava a pouco mais de 15 milhas do meu hostel em Skye, por isso fui para lá. Eu sabia que não me podia dar ao luxo de desperdiçar um fim de dia tão fantástico como aquele se tornara! E o entardecer que me esperava era muito mais encantador do que eu pudera desejar, porque o céu estava cheio de nuvens translucidas, que se transformavam em rendas luminosas penduradas no céu com o sol como fundo. Nada mais me importou para além do que os meus olhos viam e fiz vários desenhos sem nem me preocupar com quem se aproximava e olhava. Simplesmente eu não conseguia quebrar o encantamento, nem impedir-me de captar compulsivamente cada momento mágico que o sol encenava para mim, à medida que se ia indo embora…”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

Eu queria tanto captar o que via, imortalizar aquele momento….

Da última vez que ali estive desenhei-o de fugida, encostada ao muro, da parte de fora, como quem rouba algo! Mas desta vez foi uma alegria!

Rapei do meu livrinho, dos pinceis e das canetas e desenhei sobre a moto um pouco do que via…

E o sol reservara-me os cenários que eu tanto queria encontrar! Uma das razões porque eu decidira ficar 3 noites da Ilha de Skye era para ter mais probabilidades de encontrar um belo pôr-do-sol no castelo e ele não me fez esperar!

Eu não tinha a certeza se queria visitar o castelo por dentro! Ele está sempre cheio de gente e se eu o visitasse seria apenas para poder atravessar a ponte e chegar perto da construção! Então tive uma surpresa, depois de encerrarem as visitas a ponte está aberta e a gente pode ir até à ilhota, passear em torno do castelo e tirar as fotos que quiser! WhoW!

Era tudo o que eu queria!

Deu tempo para desenhar em técnicas diferentes e tudo!

Porque tudo ali é inspirador!

Demorei todo o tempo do mundo a atravessar aquela ponte, com a máquina ao peito e sempre parando para desenhar ou fotografar!

O sol completava o quadro e criava novos enquadramentos a cada minuto que passava, no seu caminho para o crepúsculo! Que coisa linda!

Uns espanhóis usando kilt fotografavam-se em todos os cantos e esquinas.

Andei por ali a passear um pouco, a luminosidade do sol poente era extraordinária e proporcionava enquadramentos muito bonitos!

E voltava ao castelo…

com o sol já no seu ocaso…

Segui para Skye quase contrariada! O quanto me custou deixar aquele entardecer perfeito! Ao longe eu via a ponte de Skye e parei para a fotografar…

Parei quantas vezes?

Há momentos que eu queria que fossem, senão eternos, muito duradoiros! Eu queria ficar ali por muito tempo, por muitos desenhos, por muitos momentos de paz! Eu queria …

“Momentos de paz, era tudo o que eu procurava nesta viagem, e encontrei verdadeiros momentos de encantamento! Sonhos que se realizam, sem pressas, sem lamentos, sem ansiedade, porque o que não vir não me fará falta, se eu viver bem o que vou conseguindo ver! A Ilha de Skye ficará para sempre gravada nas minhas memórias de viagem!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

E foi o fim do 17º de viagem….

21. Passeando por caminhos Celtas – the beautiful Isle of Skye…

14 de agosto de 2014

“Um dia eu elegi a Iha de Skye como um dos paraísos do meu coração. Desde esse dia eu quis lá voltar e sentir de novo, sem pressas, tudo o que me apaixonara. Este ano eu voltei e as emoções foram mais fortes ainda e eu vou querer lá voltar de novo! Há uma paz por ali, que eu apenas pressenti há 3 anos atrás, e que desta vez me preencheu! Deixava a moto na berma da estrada e percorria caminhos, que eram apenas vestígios, no meio dos campos privados, e a falésia era logo ali. Um arrepio de êxtase percorria a minha espinha e eu sentava-me, apenas a contemplar. Quanta beleza pode encerrar um momento de solidão e paz? Toda a beleza do mundo…”

(in “Passeando pela vida” – a página)

E eu estava lá a dormir!

Por isso dar a volta à ilha seria como dar a volta ao jardim do meu hostel!

Na realidade eu passaria todo o dia a explorar caminhos que me tinham deixado curiosa desde a última vez que ali estivera, por isso, chovesse ou fizesse sol, eu iria andar pela ilha até anoitecer!

O dia não estava a coisa mais solarenga, mas não estava a chover o que já era uma grande coisa!

Todos os caminhos são lindos por ali, em cada curva do caminho, um lago, um braço de mar, uma montanha, aparecem para tornar tudo mais irreal e fantástico. E o céu meio encoberto? Apenas acrescenta um toque de mistério e encanto ao quadro!

E o silêncio da manhã? Apenas torna tudo mais irreal ainda…

Uma das coisas que eu aprecio em Skye, e um pouco por toda a Escócia, é a sensação de andar a passear sozinha por um jardim infinito, porque onde houver uma ruínha, um caminho ou um trilho eu posso ir, sem que uma multidão de turistas enlouquecidos perturbe o meu passeio! E isso é fantástico!

Quando cheguei a Portree, embora tivesse feito pouco mais de 25 milhas, tinha já a sensação de ter feito centenas de quilómetros, por tantos caminhos e paisagens cheios de beleza que passara!

O tempo não prometia chuva, apenas havia que esperar que o ceu se abrisse um pouco para que toda a paisagem se iluminasse!

Uma coisa que eu aprendi é que não vale a pena pedir café naquele país, pois é sempre uma experiencia horrível tentar beber uma mistura mal saborosa servida em doses de litro! Por isso eu pedia sempre chá…

Parei no cafezinho central onde já me habituei a ficar um pouco. Também não há muita escolha por ali. Portree é a principal e maior cidade da ilha, onde vive mais de um terço de toda a população de Skye, por isso não há muito por onde escolher para se parar e tomar algo quente!

O porto da cidade é muito bonito, com casinhas coloridas alinhadas e um ponto privilegiado para o apreciar, no outro lado, elevado sobre a colina!

Passeei um pouco por ali, antes de seguir para o meu passeio pela ilha…

Não há muitas estradas para se escolher, apenas se segue a única na nossa frente e a paisagem vai-se revelando como uma sequência de cenários de encantar, provocando uma enorme vontade de parar a qualquer momento e simplesmente olhar!

Ao longe o The Old Man of Storr, aquela colina é inconfundível, com os pináculos de pedra espetados para o céu!

Um dia tenho de subir até ali!

Há caminhos que se percorrem até à grande pedra, só tenho de ir preparada para a caminhada, sem pressas nem pesos! Desta vez estava fora de questão faze-lo porque a vontade era de explorar outros caminhos, mais à frente, que me estavam a chamar mais!

Dali a paisagem era deslumbrante, com o sol a querer aparecer e a provocar efeitos de contraluz na máquina, por isso eu podia imaginar que, vista lá de cima, deveria ser de cortar a respiração!

E um dos encantos de Skye são os recortes vertiginosos da costa sobre o mar. A gente pode vê-los da estrada a cada passo!

Mas pode também caminhar até às bermas, de vez em quando!

Claro que eu fui parando nos pontos turísticos, onde toda a gente pára, e há tabuletas explicativas sobre o que se está a ver e tal, mesmo já lá tendo estado!

Porque também não é por acaso que foram decretados como pontos de interesse! As paisagens captadas dali são um espanto! E, se olharmos em redor, de um lado temos a falésia e o mar, mas atrás de nós continua visível o Old Man of Storr ao longe.

Havia gente por ali a caminhar e a fotografar a paisagem como eu, mas eu queria mais! Eu queria ver outras perspetivas, outras encostas! Por isso segui até onde ninguém estava, ninguém vai se não souber onde é, pousei a moto e subi! Um caminho quase impercetível através de um terreno privado, que subia bem acima do nível da estrada. Um espacinho entre os toros que seguravam a rede que delimitava a propriedade, permitia que passasse uma pessoa não muito gorda! E eu passei!

E lá em cima estava… a beleza e a paz absoluta…

Do outro lado daquele “morro” elevado, estava a falésia impressionante, onde de um lado estava o mar e do outro, um lago, criando a sensação de impossibilidade que só uma imagem fantástica consegue provocar em nós!

Que coisa linda, que momento exuberante! Com o mar muito abaixo dos meus pés, lindo!

No regresso para a moto quase não encontrava o caminho, depois de ter andado por ali não estava fácil descobrir a abertura na vedação para descer para a rua!

Mais à frente fica the Kilt Rock viw, onde toda a gente para, e voltei a encontrar os turistas todos que não se veem nas ruas mas estão nestes pontos!

Um grupo de motards ingleses veio falar comigo, gente simpática que ficou um pouco deslumbrada ao descobrir que eu estava mesmo ali sozinha, vinda de tão longe, com uma moto tão grande!

Trocamos informações sobre o que ver e o que já tínhamos visto e descobrimos que eu conhecia muito do seu país! Fiquei orgulhosa de mim! (Puxa, não tenho nenhuma foto do momento! Eu bem digo que sou tímida e ninguém acredita!

Na realidade eu tenho dificuldade em fotografar as pessoas com medo que elas não gostem! 😦 )

O nome Kilt Rock vem da associação das colunas de basalto verticais às pregas de um kilt, com cortes de pedra horizontais a formar o padrão, o tartã. Inicialmente eu pensava que era a catarata que era associada à saia, mas depois percebi que, embora ela possa ajudar, é a falésia que provoca o nome!

Estava a chegar ao ponto que eu queria explorar devidamente.

Ok, “devidamente” mas sem caminhada, que terá de ficar para uma próxima vez, (quem sabe quando eu voltar para ir até ao Old Man of Storr), mas com uma estrada magnífica para fazer!
Fosse ela mais longa que eu a percorrê-la-ia repetidas vezes na mesma!

Chega-se a Quiraing, anda-se por ali um pouco, as casinhas são encantadoras, fazem-se algumas fotos lindas, que mais parecem tiradas de um livro de encantar. Ok, alguns desenhos também, que aquelas casinhas têm de fazer parte da minha coleção de “desenhos de casas lindas de todos os países que visitei”!

E… a montanha me espanta, de novo, logo a seguir!

“A sensação de voltar a um sítio que me encantou é aquela que nos faz sentir conhecedores dos encantos que nos cativaram, de fazer caminhos que já percorremos e seguir por aqueles que nos chamaram a atenção mas não pudémos ver, porque o encanto estava por todo o lado e havia que fazer escolhas.

Passear por Quiraing até ao cume Trotternish foi atravessar o coração de Skye, cheio de silêncio e deslumbramento, como se nada nem ninguém conseguisse nunca perturbar toda aquela imensa paz! As vezes que eu parei, apenas para olhar, apenas para estar? As vezes que eu parei para fotografar, desenhar… fui e voltei, de um lado da ilha até ao outro e a cada perspetiva novos encantos se revelaram… um pouco do meu coração ficou ali, para sempre!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

E apenas o silêncio é digno de acompanhar tal paisagem! Acho que esse silêncio se pode sentir mesmo nas fotos…

Havia gente por ali, muitas pessoas param os carros e vão caminhar até ao cume, mas a montanha apenas tudo silencia e nada mais se ouve para além do leve som do vento….

Parei, desenhei, fotografei, segui até ao outro lado da ilha…

e voltei pelo mesmo caminho, só para ver tudo de outro ângulo!

Eu tive vontade de caminhar por aquela montanha com todos os caminhantes que ali se reuniam, e seguiam e… mas eu não podia!

Como conseguira depois continuar a conduzir com as pernas doridas? Para o fazer tenho de ficar tempo suficiente por lá depois, para recuperar do desgaste da caminhada, por solos íngremes e difíceis…

Não faz mal, eu vou voltar e vou escalar aquilo! Assim a vida mo permita!

E segui para Quiraing, para continuar as minhas explorações deslumbrantes!

Oh, aquela estrada é linda….

Pelo caminho, alem do milhão de fotos que fui tirando, ainda pude acrescentar mais uma ovelha ou uma vaca à minha coleção de animais desenhados em viagem!

Os bichos naquele país são uns atrevidos, não têm qualquer medo do ser humano e ficam assim, pasmados a olhar! E eu aproveito-me do seu ar de espanto para os desenhar!

E no meio de lado nenhum… há uma cabine telefónica! Não é espantoso?

De regresso ao ponto de partida, com o mar em baias encantadoras em Quiraing…. As pessoas olham para mim com curiosidade!

Eu sorrio e solto um “hello”, recebo logo um sorriso como resposta, acompanhado com um aceno de mão. As pessoas simples são iguais em todos os países!

(continua)

20. Passeando por caminhos Celtas – ainda Glen Coe e a Isle of Skye…

13 de agosto de 2014 – continuando

Os lagos sucedem-se e as pequenas povoações quase não se percebem na imensidão da paisagem. Casinhas pequenas, que se alinham discretamente junto a ruínhas estreitas, como se tivessem sido postas ali apenas para embelezarem o quadro. Claro que quando se vê uma casinha pitoresca com 2 motos à porta, ninguém consegue ficar indiferente!

Do outo lado da rua ficava o Loch Lochy, com uma luminosidade quase sobrenatural a torna-lo espetacular!

E de lago em lago fui-me deliciando de beleza! Desviei-me do meu caminho em busca de algo…

Cada enquadramento é um quadro perfeito que merecia ser pintado e tornado eterno na minha memória…

… mesmo o céu não estando azul, mesmo as nuvens ameaçando derramar-se a qualquer momento!

E encontrei-o, o Castle Stalker! Aparece numa curva da estrada, quando nada mais há no nosso lado direito e o lago fica livre no nosso raio de visão. Lá estava ele lá em baixo!

“Eu desviei-me bastante do meu caminho só para ir até ao Loch Laich encontrar o Stalker castel! Ele foi uma fortaleza do séc. XIV e conservou até hoje o seu ar de torre fortificada que lhe dá um toque de mistério. Da rua a gente vê-o lá em baixo, numa pequena ilhota de maré, e é inevitável parar e ficar a olhar! A minha motita serviu de suporte para eu o desenhar e perdi-me no tempo contemplando-o. Não estava aberto a visitas mas o seu encanto está também na paisagem que o envolve, se calhar mais que no seu interior… tão lindo, tão perfeito no seu enquadramento”

(in “Passeando pela vida” a página)

Eu iria passar ali de novo, por isso segui na direção de Fort Williams, porque a paisagem chama para continuar

com o Loch Linnhe, sempre encantador, a acompanhar o meu caminho!

O Commando Memorial estava cheio de gente, ao contrário da última vez que ali estive em que o pude visitar sozinha, com um sol inspirador como companhia!

Embora a magia que sentira da última vez se tenha perdido, com a presença de tanta gente, foi gratificante a sensação de que os homens a quem o memorial é dedicado não estão esquecidos…

O Memorial foi dedicado aos soldados que perderam a vida na II Guerra e posteriormente foi adicionado o Garden of Remembrance, onde têm vindo a ser colocadas as cinzas dos sobreviventes da mesma guerra.

Ali também têm sido colocadas as cinzas, e objetos de homenagem, de outros soldados que morreram em guerras mais recentes, como a Guerra das Maldivas, a Guerra do Afeganistão ou a Guerra no Iraque!

É grandiosa a escultura…

O povo chegava aos magotes, agora camionetas de turistas, mais do que gente devota ao local!

Segui para Skye com o sol a brincar com as nuvens e e o lago e a fazer parecer o crepúsculo, quando ainda havia tanto dia para viver!

Quando eu fiz aquele caminho da última vez, era de manhã cedo e eu sentia-me a entrar num mundo paradisíaco, em que tudo conspirava para me maravilhar!

Desta vez era fim de tarde a sensação era a mesma! Não há hora para aquele caminho nos surpreender mais ou mesmos, simplesmente é maravilhoso!

O Loch Loyne é apenas uma nesga de água no meio de tantos outros lagos que por ali há, mas a sua beleza é impressionante, porque pode ser visto da berma da estrada, com os montes a enquadra-lo tão perfeitamente que, se tivesse sido deliberadamente desenhado para ser belo, não teria ficado melhor!

Mesmo quando o sol e as nuvens o tentam tornar sombrio, nada perturba o seu encanto!

Coisas curiosas que encontro na berma da estrada! Se alguém ali ainda está à espera de um lembrete daqueles, já deverá ter pregado muito susto a muita gente pelo país acima! Eheheheh

O caminho de Skye é mesmo o caminho do céu!

E a placa esperada, aquela onde a minha Magnifica também teve a sua foto histórica! Skye à vista!

A seguir fica o Eilean Donan Castle…

Um dos castelos do meu coração mesmo antes de o conhecer! Eu queria vê-lo ao entardecer, sem multidões por perto e, se possível, com um céu lindo, um pôr-do-sol e iria voltar ali mal o céu estivesse do meu agrado… esperando que isso acontecesse durante os dias que destinara para estar por perto!

Por isso estive ali um pouco, tirei algumas fotos mas nem tentei desenhar. Havia multidões de gente e o ambiente não era inspirador, por isso!

Fui andando e olhando-o de longe

“Deus queira que haja um dia, um momento apenas, em que eu o possa ver como quero, enquanto estou perto…”

era tudo o que eu conseguia pensar, enquanto me custava seguir o meu caminho sem o ter desenhado uma vez sequer…

Então, quando a multidão não se interessava mais pela paisagem, a ponte de Skye aparecia ao longe!

“ Eu podia ver a ponte de Skye ao longe, por entre a penumbra do entardecer, e as nuvens tornavam-na quase misteriosa. Do outro lado a ilha de Skye parecia apenas a outra margem de um rio, de um lago! Chamam àquelas águas Loch Alsh, mas é um braço de mar que separa a ilha da Escócia e divide um paraíso em dois! Eu estava perto do meu destino e não me apressava em chegar, parei a moto mais uma vez, sentei-me na beira do muro e fiquei ali muito tempo, a ver a noite chegar. Eu sabia que precisava daqueles momentos para reviver sensações, matar saudades e criar novas memórias… A serenidade que sinto por aqueles caminhos é feita de um encanto que não se esgota em pequenas visitas, por isso eu quis voltar e por isso voltarei, seguramente, de novo…”

(in “Passeando pela vida” a página)

A minha casa era do outro lado da ponte…

E foi o fim do 16º dia de viagem…. dormindo no paraíso!