19. Passeando por caminhos Celtas – o regresso a Glen Coe e à Isle of Skye!

13 de agosto de 2014

Oh, quando eu abri os olhos e vi que estava sol, saltei da cama sem nem para o relógio olhar, tomei o meu “very-fast-duche” e saí a correr! Ainda não eram 7 horas da manhã e eu já andava na rua! E que lindo dia me esperava!

Depois de toda a chuva e de todo o aborrecimento do dia anterior, qualquer nesga de céu azul faria a minha felicidade!

Passei à porta do stand da Honda onde a minha Magnifica esteve internada

E segui, antes que a Ninfa se desse ao luxo de querer fazer uma visita!

Claro que passei pelo Riverside Museum, que estava a ser inaugurado da última vez que lá passei!

Muito interessante a construção, sobretudo com o sol a fazer reflexos nos vidros da entrada! Uma extensão do Glasgow Museum of Transport que, claro estava fechado àquela hora, o que me permitiu meter a moto onde quis para fotografar!

E fui fazendo uma visita às construções mais futuristas da cidade, que tinha já visto um dia, mas no autocarro panorâmico!

O Scottish Exhibition and Conference Centre, tattoo para os amigos!

A bola gigante que integra o Glasgow Science Centre

Com a moto por perto vê-se melhor a sua real dimensão!

E a construção meio arredondada, meio plana de vidro, do corpo principal do Centre, com vista para o rio Clyde.

Tudo aquilo fica no cais de Glasgow, o Glasgow Harbour. Ali ao lado está o edifício quadrado, tão vulgar perto das construções futuristas, da BBC Scotland.

E rumei para norte, o dia em que eu iria voltar a Skye era um dia de sol! Quanta alegria!

Pouca estrada depois cheguei à margem do Loch Lomond e foi delicioso.

Parei vezes sem conta, voltei para trás em alguns momentos, fotografei, sentei-me sem nada fazer, apenas a olhar e desenhei…

Uma espécie de euforia silenciosa percorria o meu coração, 3 anos antes eu prometera a mim mesma voltar ali de moto, depois de ter visitado o lago em mini-coach, quando a Magnifica avariou.

Nada foi tão sentido como desta vez, em que pude decidir o que fazer a cada segundo, a cada batida do meu coração. É essa liberdade que me preenche e me faz querer voltar aos lugares sozinha, em silêncio com todo um mundo que preenche o meu imaginário e alegra o meu encantamento!

Saia da estrada principal e deixava a minha bonequinha a todo o momento para ir ver de perto as perspetivas deslumbrantes do lago!

E as margens têm também os seus encantos, casinhas de bonecas autênticas sucedem-se fazendo apetecer entrar e apreciar o mundo visto de lá!

Atravessava depois o Queen Elizabeth Forest Park, onde montes de gente caminhava ou se preparava para caminhar por todos os lados! O tempo começava a ameaçar chuva de novo e o frio era bastante! Tive de parar para tomar algo quente e encher-me de roupa!

A passarada não tem medo de ninguém e foram vários os passaritos que vieram depenicar as migalhas do meu pão!

O sol não voltou cheio de força, mas também não choveu, foi espreitando aqui e ali enquanto eu me fui aproximando de Glen Coe!

Oh aquelas paisagens sempre me fazem sonhar!

Montes que são ondas vertiginosas e me fazem parar a todo o momento, a cada vez que lá passo!

Uma das minhas ânsias era voltar ali e desenhar e foi o que fui fazendo a cada vez que parava e não havia ninguém por perto!

Porque às vezes havia chineses aos magotes, que se espalhavam pela paisagem para se fotografarem uns aos outros lá no meio. Uma chatice porque aquela paisagem é quase sagrada e merecia uma silenciosa contemplação!

Então a minha moto despertava-lhes a atenção e, de repente, parecia tão interessante como toda beleza que nos envolvia!

E enquanto eu apreciava a paisagem deslumbrante, um monte deles apreciava a minha moto, tiravam fotos junto dela e tudo, como se fosse a maior atração da Escócia! Pediam-me para montar, e eu deixava, desde que deixassem a paisagem livre de gente para mim!

O tempo que eu andei por ali a passear!

Não havia muitos carros e as pessoas que caminhavam eram insignificantes no meio da grandiosidade da planície.

O Glen Coe é um vale encantado… é o que sinto ao passear por ele!
Grandioso, frequentemente considerado um dos lugares mais espetaculares e belos da Escócia, desta vez eu quis vê-lo de outros ângulos.

Desviei-me da estrada nacional que toda a gente faz, não há muitas para escolher por ali e as que há não têm saída, mas vale a pena ir por qualquer uma e apreciar o silêncio feito de encantos que aqueles recantos têm para nos dar.

E o céu já não estava azul… mas as nuvens podem ser também inspiradoras, sobretudo quando se passeia por um Glen que, como dizem por lá, “shows a grim grandeur”!

Fui parando, fui andando, fui fotografando e fui desenhando e tive vontade de ficar a cada paragem.

E a paz que eu senti da primeira vez que ali andei voltou a acontecer e a vontade de voltar instalou-se quando eu estava apenas a chegar!

Uma das coisas que eu mais queria era estar com tempo e calma na ilha de Skye e desenhar e pintar aqueles vales de Glen Coe. Era essa uma das grandes motivações da viagem que me levou da Irlanda para a Escócia. E eu dei-me o tempo necessário para o fazer, mesmo que o tempo não ajudasse.

Mas o tempo ajudou e eu pude estar em cada sito, e não apenas passar, e fotografar e desenhar e viver aqueles pequenas grandes emoções que parecem querer explodir no peito, quando as paisagens se sucedem quase irreais de tão perfeitas e belas.

Alguém exclamava de cá, no meu Facebook, “Escócia outra vez?”

E eu respondia mentalmente “A beleza não tem «outra vez» tem «sempre»!”

(continua)

18. Passeando por caminhos Celtas – mais um azar em Glasgow…

12 de agosto de 2014

O tempo não melhorou nadinha de ontem para hoje, a bem dizer piorou e muito, isso sim!

É deprimente acordar com um dia cheio de chuva e humidade, de cima a baixo, um dia daqueles em que nem é bom pensar sequer em tirar a máquina fotográfica para fora, sob pena de a humidade no ar dar cabo “dos seus rolamentos”!
M%//()%$da!

De novo me punha a questão, “saio ou fico no choco, a ver a água correr pelos vidros da janela?”
Decidi sair, eu decido sempre sair, na esperança de que algures, a uns quilómetros dali, o tempo esteja melhorzito… não estava e eu iria mesmo arrepender-me de ter saído de casa…

..  fui para sul!

Uma coisa que eu gosto é conduzir à chuva. Aprecio aquela sensação de atravessar o temporal sem me molhar, ouvindo musica confortavelmente, ao mesmo tempo que sinto a chuva bater em mim e o vento abanar um pouco a moto. Mas só aprecio esta sensação quando me convenço de que nada mais haverá para fazer, e foi o que aconteceu naquele dia.

O tempo não melhoraria em direção nenhuma que eu fosse, por isso decidi passear um bocado à chuva, voltar para Glasgow e enfiar-me “em casa” a escrever e a desenhar e pronto.

Há um encanto na natureza em reboliço que eu fui apreciando, percorri ruínhas estreitas que me levaram para longe de cidades ou aldeias, alegremente cantarolando ao som da música, até que precisei de abastecer… e foi aí que começou o pesadelo.

Estava numa pequena localidade e a bomba era quase a única coisa que havia ali para ver. Foi ao sair dela que eu senti algo de diferente na moto.

“Puxa, a rua é bem torta por aqui!” foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando ela oscilou. Mas a rua era mesmo uma ruela por isso não estranhei de todo. Acelerei, reduzi, travei e aparentemente estava tudo bem, por isso siga para o monte…

Mas ou a rua era cada vez mais torta ou a moto não estava mesmo bem!
Eu estava já no meio de lado nenhum quando processei o que não quisera processar antes… eu tinha um pneu furado!

Quando a gente teve 11 furos numa moto durante apenas um ano e meio, como me aconteceu com a minha Africa Twin, a gente sabe muito bem qual é a sensação, eu apenas não quisera acreditar, até porque num pneu tubeless demora a perceber-se um furo. Na Africa Twin sentia-se logo pois quando a camara de ar fura o pneu vai-se abaixo rapidamente e pronto!

Ora eu estava algures na Galloway Forest, com uma moto de 326kg nas mãos com o pneu de trás furado, um temporal infernal cheio de vento e chuva e Glasgow a quilómetros de distância…

Não parei sequer para ver o pneu, enquanto eu conseguisse controlar a moto eu iria seguir. A sensação era que, se parasse a olhar para a moto, perderia o ar do pneu sem avançar dali para fora, por isso eu queria continuar, como quando uma moto deixa de funcionar e a gente a deixa continuar rolando até perder de todo a velocidade e parar por ela! E assim fui andando, quase sem reduzir a velocidade, por milhas e milhas!

Eu sentia a moto oscilar, como se a rua estivesse cheia de buracos e eu não conseguisse seguir a direito, mas o que me começou a perturbar mesmo foi o barulho do pneu vazio! Era horrível e assustador! Comecei a fazer filmes de terror, imaginando a jante a trilhar o pneu, este a esmagar-se para um lado e para o outro e a moto a descontrolar-se!

Calma, um dia eu conduzi a minha Varadero por centenas de quilómetros com o pneu de trás furado, por isso eu faria o mesmo com a minha Ninfa, e ponto final! Pus a musica mais alto, para não ouvir o barulho do pneu, e segui cantarolando, o que ajuda a relaxar!

Mais de 20 milhas depois cheguei a uma localidade, Maybole! As pessoas olhavam para a moto, tal era o barulho que o pneu vazio fazia! Havia uma oficina numa estação de serviço, fui pedir ajuda!

Só aí eu vi o pneu… e vi o furo, ou antes, o que provocava o furo, e processei que 20 milhas são mais de 30 km, a distância que eu já percorrera com o pneu assim!

Os homens não queriam acreditar que eu conduzira a moto desde a Galloway Forest até ali com tamanha monstruosidade enfiada no pneu!

Não me podia resolver o problema, pois não trabalhavam com motos, por isso encheram-me o pneu e indicaram-me uma oficina mais à frente umas milhas onde me ajudariam a seguir mais para frente.

A oficina seguinte também era de carros, por isso não me resolveriam o problema lá, mas o responsável/dono era um tipo muito simpático, que ficou impressionado por me ver ali sozinha, com aquela moto enorme, depois de a conduzir por tantas milhas com o pneu assim e deu uma grande ajuda. Ele também era motard e iria tentar remover o parafuso e pôr um remendo provisório que aguentasse o ar dentro do pneu para eu poder ir até à cidade seguinte e aí sim, trocar o pneu!

Fui dar uma pequena volta pela localidade, comer algo, relaxar!

Quando voltei a moto estava com o pneu em cima! Oh maravilha!! E o senhor deu-me um presente… a principio não entendi o que ele me dera para a mão, foi preciso ele dizer-me que aquilo era o parafuso monstruoso que estava enfiado no meu pneu! Céus!

“siga por umas 4 ou 5 milhas e encontra uma oficina de pneus, peça para lhe verem a pressão e lhe indiquem a oficina que fica na estrada X” dizia o senhor “tenha cuidado, não vá para Glasgow, porque o que eu fiz é muito provisório e pode sair a qualquer momento!”

“Go on and good luck brave girl!” terminou ele, erguendo o polegar para mim…


E foi um percurso em estafeta, seguindo indicações de oficina em oficina, onde me verificavam o pneu e me indicavam a oficina seguinte, até chegar a Ayr, num “Turn left, go straight and left again!” lá estava a ultima oficina para onde cada um me foi guiando, como se estivessem coordenados entre si: uma oficina Honda!

Fui recebida com simpatia, mas só tinham um mecânico a trabalhar, por isso teria de esperar até às 3 horas para ser atendida. “No problem”, com a bosta de tempo que estava a pressa não era nenhuma! Alem de que passava da 1.00 hora e eu tinha de comer, o esforço e a preocupação sempre me enchem de fome!

Senti-me vaidosa porque a minha bonequinha despertou a atenção de quem estava, várias pessoas a vieram ver a elogiar! Era a única Pan no estacionamento e era a mais bonita moto que lá estava! A mim chamaram-me “the best rider in the world” porque cheguei com ela ali depois de mais de 40 milhas de Estrada com o pneu furado!

“Glasgow ficará para sempre lembrada como a terra do azar para mim! Se alguma vez eu disser que vou voltar à Escócia, por favor alguém me lembre de não ficar em Glasgow, apenas passar e andar!
Apenas falhou por uns 7 dias para ser exatamente 3 anos depois do tal dia 19 de agosto de 2011, quando o primeiro azar se manifestou…
Pois, e hoje foi dia de azar de novo!
Às vezes perguntam-me como farei eu se tiver um azar em viagem, estando sozinha, uma avaria um furo, qualquer coisa!
Uma avaria, tive-a cá no tal dia 19 de agosto e resolvi-a com a minha seguradora e a gente daqui.
Um furo, tive-o hoje e resolvi-o conduzindo por mais de 40 milhas até chegar onde me pudessem ajudar. Gente simpática, de oficina em oficina, lá me foram mantendo o pneu suficientemente alto para a jante não chegar ao chão, até chegar a uma oficina Honda em Ayr.
O furo? Era uma enormidade, o que foi mantendo um pouco de ar foi o próprio parafuso que o provocou. Um parafuso enorme que atravessou o pneu em dois sítios, por onde entrou e por onde saiu a ponta!
O parafuso era uma coisa monstruosa!
Tudo está bem quando acaba bem… espero!”

E fui passear por Ayr!

É uma cidade muito antiga e interessante, não fora a situação que lá me levara e o péssimo tempo que me recebera, e teria sido uma visita muito interessante a uma bonita cidade!

Foi uma alegria, porque apesar do mau tempo as ruas estavam cheias de gente e isso era tudo o que eu precisava naquele momento para me distrair e alegrar um pouco!
A Wallace Tower é quase como a torre dos Clérigos no Porto, vê-se de todos os cantos da cidade!

Deu para comer e passear, ver montras, visitar o posto de turismo e o rio Ayr, que dá o nome à cidade!

Quando voltei estava a minha bonequinha na “mesa de massagens” toda contente!

Foi quando o senhor que me atendera me veio dizer que o meu pneu da frente estava muito gasto para eu fazer todo o caminho que ainda me faltava fazer naquela viagem, por isso não me queria deixar ir embora assim e me aconselhava mudar também o pneu da frente!

Fiquei a olhar para ele! Como é que ele sabia o caminho que eu estava a fazer se eu nada lhe dissera a propósito! Então ele explicou que foi para a internet procurar pelo nome que está nos autocolantes da moto e descobriu o meu blogue “Passeando pela vida” onde estava o desenho da minha viagem.

Ora, mesmo não sabendo se eu estava na ida ou na volta, já que naquela zona a viagem cruzava sobre si própria, percebeu que eu estava muito longe de casa e que o meu pneu da frente não aguentaria de qualquer maneira, trazer-me em segurança até cá, por isso o melhor era mudar o pneu ali, pondo o par do que me estava a pôr atrás, e eu não teria mais com que me preocupar até casa!

E deixaram-me estar junto da moto e ver tudo o que faziam. pude ver os estragos do furo de perto..

E ver, por dentro, o remendo que o outro senhor fizera. injetara uma matéria tipo borracha que soldara o furo provisoriamente.

Aqueles escoceses são mesmo como nós, gente simpática que sabe conversar e argumentar. Fez-me um preço de amigo e pôs-me o par de pneus Michelin, um pneu novo que ele diz ser especialmente bom para chuva e inverno, e que eles usam muito por lá por causa do clima…

A verdade é que o piso dos pneus é muito diferente do que estou habituada com os Bridgestone!

280£ e não se fala mais disso!

Toca a pôr o pneu da frente, porque o outro estava mesmo bastante gasto e eu sabia que teria de o trocar algures mais dia, menos dia, por isso fi-lo ali mesmo e pronto!

E o pneu da frente ainda tem um piso mais curioso que o de trás!

Uma voltinha para ver se está tudo bem e a minha bonequinha estava pronta para enfrentar o mundo… se não encontrasse outro parafuso mafioso pelo chão, claro!

Se a cada vez que eu for à Escócia eu for tomar um chá a uma oficina Honda nova, o melhor é eu pensar em não ir lá muito frequentemente!

Despedi-me antes que começasse a querer comprar bugigangas pela loja e fui embora.

Uma belíssima bosta de tempo esperava-me para me acompanhar até Glasgow!

Não segui imediatamente para Glasgow, quando estou longe e vou a uma oficina com a moto, nunca parto a correr dali para longe, pode alguma coisa não estar bem com ela e eu quero estar perto para poder voltar à oficina se for necessário. Por isso fui dar uma volta… para o cemitério da terra!

Ok, eu sei que normalmente as pessoas não passeiam em cemitérios, mas eu gosto! E por lá parece que toda a gente gosta de passear em cemitérios também, por isso até me enquadro na mentalidade deles!

E uma coisa que me chamou a atenção e me fez entrar foi o cemitério dos bebés!

Eu sempre acho que a morte não é coisa de criança ou bebé, por isso sempre achei os cemitérios “normais” muito “pesados” para uma criança pequena! E ali eles têm um jardim todo enfeitado para as criancinhas, como se elas pudessem querer brincar a qualquer momento e nada lhes faltasse.

O ambiente enterneceu-me e foi isso que me fez ir ver de perto! Muito bonito…

E como por aquele país se passeia pelo cemitério como por um jardim, pode-se também conduzir por ele e foi o que eu fiz!

Lá estavam as cruzes celtas, aqui e ali. E o ambiente era muito bonito para se passear mesmo!

Ainda bem que se podia andar por ali de moto, porque aquilo era mesmo muito grande para se visitar a pé!

Finalmente lá segui para Glasgow, quando me certificara já de que tudo estava bem com a minha motita!

A Glasgow Cathedral é uma construção impressionante que eu não tinha visitado da última vez que estive na cidade e, infelizmente, desta vez encontrei-a fechada! Pousei a moto num canto e fui explorar a zona, já que a igreja estava fora de questão!

O edifício é lindo, é gótico e é a única catedral que sobreviveu ilesa à reforma religiosa escocesa. Foi construída no séc. XII, dedicada a Saint Mungo, e hoje não é católica.

Por trás, depois de atravessarmos uma ponte pedonal, fica a Glasgow Necropolis, que se estende por uma grande colina em construções extraordinárias que fazem dela muito mais que um mero cemitério.

E sim, fui visitar mais um cemitério! 😀

Aquilo é um verdadeiro jardim de esculturas imponentes e impressionantes!

E juntei mais duas ou três cruzes celtas à minha já extensa coleção… tão lindas!

Um jardim vitoriano que é um memorial aos patriarcas e comerciantes da cidade e que contém os restos dos grandes nomes da época. Hoje é um dos cemitérios mais importantes da Europa e é, por isso, uma grande atração para os visitantes do Reino Unido!

Com o tempo escuro e chuvoso a visita ao local tornou-se muito mais inspiradora e as perspetivas da cidade e da catedral eram espantosas, para quem olhava lá de cima. Inspirador!

E foi o fim de um dia esgotante, fui-me enfiar no bar do hostel a comer e a beber porque estes dias em que nada se faz para além de apanhar chuva e resolver problemas, esgotam um viajante!

E foi o fim do 15º dia de viagem…

17. Passeando por caminhos Celtas – do outro lado… a Escócia

11 de agosto de 2014

Foi tudo muito estranho naquela manhã, como eu stresso sempre que tenho de embarcar a moto num ferry, levantei-me cedo para ir com calma até ao porto, que, estupidamente, não me lembrara de procurar no dia anterior! A minha ideia era ter todo o tempo do mundo para o procurar, trocar o papel de reserva pelo bilhete e embarcar sem stress.

Nada disso aconteceu, toda a gente parecia querer conversar comigo ao pequeno-almoço. Fazendo perguntas, querendo saber do que eu já vira na minha viagem e por aí fora! Acho que se tinha espalhado a ideia de que eu era uma grande viajante de moto, que viajava sozinha e já vira “mundos e fundos”. Valha-me Deus, tive de desiludir aquela gente e dizer-lhes que nada de especial se passava, eu apenas estava a fazer uma viagem muito menos impressionante do que outras que já fizera.

Não adiantou nada, continuaram as perguntas e, se eu não me pusesse a andar, ainda estaria lá hoje a contar histórias de tudo o que vira e vivera pela estrada fora!

Gente simpática com quem gostei de falar, não fora o meu stress em descobrir o porto e tratar de tudo a tempo. O caminho que eu faria naquele dia inspirava toda a gente…

Quando finalmente consegui seguir foi tudo uma correria. Primeiro a porta do porto que me aparecia não era aquela onde ficava o meu cais de embarque, depois entrei onde não devia e não conseguia sair! Oh pânico, com o tempo a escoar-se! “calma que é para lá estar 1 hora antes, por isso tenho essa hora a meu favor, posso ser a ultima a embarcar!”

Um guarda viu-me chegar de dentro do porto, e veio ver o que eu queria. O torniquete estava fechado e eu não podia sair! O senhor foi muito simpático, fez o desenho num mapa do caminho que eu tinha de fazer até ao Belfast Port – Victoria Terminal com direito a um livrinho sobre o que ver em Belfast. Muito bom, sobretudo quando eu já prometera a mim mesma lá voltar um dia.

As suas indicações foram tão precisas que eu, que já estava a ficar atrasada, acabei por chegar cedo ao terminal! É sempre assim, por isso eu sempre acho que stressar é uma perda de tempo!

E a minha bonequinha ficou ali sozinha, no meio de um parque infinito!

É assim que eu gosto, chegar cedo e explorar o local com calma, musica nos ouvidos e máquina em punho.

Não chovia por isso deu para eu andar mesmo por todo o lado e meter conversa com as pessoas do porto e tudo!

Quando os carros e os camiões começaram a chegar as perspetivas do parque de embarque eram cada vez mais interessantes. Comecei a perceber que eu seria a única motard a bordo!

Tudo o que eu queria é que o tempo se mantivesse estável do outro lado do mar… não queria nada ser recebida com chuva na Escócia!

Mandaram-me entrar sozinha! Que sensação de “star” só faltava o tapete vermelho!

Tratamento VIP para a minha Ninfa!

E demorou para caramba a começarem a entrar os carros! Parecia que eu seria a única a partir!

“O mar e as águas sempre me fascinam, eu poderia contar aos milhares as fotos que capto desses encontros com paisagens que me cativam com lagos, rios e mares! Naquele dia eu juntava mais um mar e uma travessia ao meu mundo de experiencias inesquecíveis: o Irish Sea. Uma faixa de Atlântico entre as duas ilhas que separa, por vezes, dois climas tão diferentes como se atravessássemos todo um planeta! Naquela travessia assim foi, em Belfast o tempo estava cheio de nuvens inspiradoras, com o sol a espreitar e provocar enquadramentos fantásticos, em Cairnryan e pela Escócia até Glasgow, o céu ameaçava cair com toda a força em cima de mim… o que acabou por acontecer mesmo.
Mas o mar, oh o mar era lindo, quase irreal, uma cor e uma calma inesperada num espaço longo entre duas grandes porções de terra que me tinham feito imaginar turbulência e ondulação fortes. Tenho de explorar melhor aquele mar e as ilhas que nele se encontram…”

(in “Passeando pela vida” – a pagina)

Naquela viagem fiz amizade com 2 senhoras de idade que viajavam sozinhas, eram irmãs e vinham da Austrália. “Não há idade para se conhecer o mundo!” dizia a mais faladora. Muito inspiradora a conversa que mantivemos, fiquei com vontade de ir até à outra ponta do planeta visita-las um dia!

A viagem foi curta e eu podia ver a chuva à minha espera, lá fora. Por isso já sai do ferry, toda empacotada no fato de chuva… uma pena!

Detesto não poder parar e ver o que há, como tudo é. É uma frustração entrar num país e nem poder ver como é a entrada! Já me acontecera isso ao entrar na República da Irlanda, depois na Irlanda do Norte e agora na Escócia! Raios de chuva!

Mas na Escócia a chuva viria a revelar-se bastante inspiradora! Entre umas nuvens e outras eu teria tempo de captar enquadramentos muito curiosos, com nuvens monstruosas, por vezes, o que me agrada sempre!

Logo ali fica Kirkoswald, uma aldeia muito fofinha onde o mau tempo e a ventania pareciam nada perturbar!

Aproveitei uma aberta para desenhar uns cavalos muito simpáticos, de jaqueta vestida, que encontrei num campo. Faltava-me um cavalo na minha coleção de animais, que já contava com ovelhas, vacas normais e vacas cabeludas, patos, cisnes e um esquilo que se metera comigo algures!

E os cemitérios com as suas igrejas em ruinas, continuavam a fascinar-me! Iria visitar mais uns quantos pela Escócia fora!

Mais à frente ficava a Crossraguel Abbey, uma construção do séc. XIII em ruinas. Tinha de pagar bilhete para visitar! Como? Com aquele tempo foleiro, pagar para andar à chuva a ver ruinas? Nem pensar!

Vi-a da rua e pronto! Se eu fosse a pagar para ver todas as ruinas que me aparecessem no caminho, precisaria de um orçamento de viagem inteiro só para isso!

Ok, tive pena porque era muito bonita, mas nem um céu azul eu tinha para fazer umas fotos decentes, por isso, fotografei da rua e segui caminho!

Só parei em Glasgow. O tempo piorara, com chuva mais intensa e rajadas muito fortes de vento, o que tira um bocado o prazer de conduzir.

Glasgow… já fui infeliz ali, quando em 2011 a minha motita avariou e eu fiquei tão desamparada sem ela. Estacionei a Ninfa junto do parque onde a Magnífica colapsou naquela época. Não me apetecia nada pôr esta moto no lugar onde a outra se sentiu tão mal!

O parque era aquele edifício amarelo às riscas e lembro-me de estar lá dentro, espreitar cá para fora e ver um estacionamento para motos, onde havia uma Pan European estacionada. Desta vez foi a minha moto que ficou no estacionamento da rua!

Fiquei hospedada no mesmo hostel onde fiquei há 3 anos e, como quem chega a casa, fui passear pela cidade ao anoitecer. Afinal eu acabei por conhecer bem aquelas ruas em dias de espera que ali passei…

A ponte pedonal sobre o rio Clyde fica particularmente bonita de noite, com iluminação em vermelho!

E o rio, com as luzes da cidade, é sempre tão bonito!

Fui passeando pela zona comercial The City Centre, muito inspiradora com as luzes!

Encontrei edifícios que conhecera durante o dia e que de noite eram bem curiosos!

E the George Square, a praça principal de Glasgow, onde 3 anos antes vira a “lavoura” das filmagens com Brad Pitt do filme dos zombies que estriou há cerca de um ano por cá! !

Acabara por se pôr uma noite bonita e havia gente a passear por ali e a tirar fotos como eu. Lá estava o mausoléu aos heróis de Guerra da cidade.

Eu já fotografara aqueles leões e voltei a faze-lo. São giros!

Eu gosto de fotografar de noite, quando as luzes provocam enquadramentos dramáticos!

“Há 3 anos, quando me passeava pela Queen’s Street, em Glasgow, deparei-me pela primeira vez com a Gallery of Modern Art – GoMA, um edifício neoclássico imponente! Eu gosto bastante daquele estilo, por isso admirei a construção em todos os ângulos! Em frente fica a estátua equestre do Duke de Wellington e ostentava na época um cone de trânsito na cabeça! Pensei que tivesse sido um ato de vandalismo, depois acabei por descobrir que aquilo era arte e desta vez descobri que é um símbolo! Representa a atitude de despreocupação da cidade em relação à autoridade. Aquele cone já foi substituído por diversas vezes para manutenção, já foi pintado para comemorações, (dos jogos olímpicos, por exemplo) e já foi substituído por um chapéu (para honrar patrocínios da equipa de futebol)! Desta vez, ao voltar ali, lá estava o cone às riscas vermelhas e brancas na cabeça do homem e a novidade é que o cavalo também tinha direito a um só para si, em amarelo! Aqueles escoceses batem mal!”

(in “Passeando pela vida” – a Página)

E fui dormir… esperando secretamente que o tempo se mantivesse suficientemente estável para me permitir dar umas voltas por ali e depois seguir para norte sem muita chuva, nem céus depressivos de nevoas até ao chão… Desta vez eu queria ver a Escócia sem preocupações, nem avarias, nem aborrecimentos…

Não seria bem assim, mas eu ainda não sabia!

E foi o fim do 14º dia de viagem!

16. Passeando por caminhos Celtas – tanta chuva, Armagh … Belfast e o Titanic!

10 de agosto de 2014

E a chuva ficou até ao dia seguinte!

Depois de um serão de grande algazarra no hostel, onde meio às escuras no pequeno pátio, montes de hóspedes divertidos foram contando as sua histórias, por entre cerveja e hambúrgueres, a animação perdeu-se de manhã! Fomo-nos amontoando à porta do hostel olhando para um dia cinzento, cheio de chuva e com visibilidade nula!

Um grupo de mochileiros tinha deixado a Calçada dos Gigantes para visitar naquele dia e estavam todos inconsoláveis, pois para norte o tempo estava ainda pior, dizia na meteorologia!

No dia anterior alguém comentara que eu fizera mal em ir logo a correr explorar o norte, devia ter passeado por perto para descansar, pois não havia pressa em ir à Calçada… hoje todos olhavam para mim com um “tu é que fizeste bem!” já que ninguém ali veria mais aquelas paisagens tão cheias de sol como eu vira, apenas no dia anterior!

“Num país de chuva há que saber aproveitar o sol!” respondera eu na noite anterior… acho que aquela gente aprendeu isso comigo naquele dia!

Ora bem, mas eu tinha de decidir o que fazer com tanta chuva! Se para norte estava péssimo e para sul/este a coisa prometia algumas abertas, eu tentei aquele lado, pois então!

Mas as promessas de “abertas” não se viriam a realizar durante o meu caminho, e eu cheguei a Armagh debaixo do mesmo diluvio que estava em Belfast!

Chamam-lhe a cidade das catedrais e, ao chegar, parei junto da primeira igreja que me apareceu aberta. Eu tinha de sair da chuva, era domingo e estava tudo fechado, só me restava enfiar-me numa igreja mesmo!

Apercebi-me que estava por ali muito movimento, dois homens na porta receberam-me com muita simpatia e eu perguntei se podia visitar a igreja. Claro que sim, mas venha por aqui que vou leva-la ao andar de cima onde tem menos gente. Fiquei intrigada onde me levavam, toda empacotada de fato de chuva vestido, cinta por cima para prender toda a roupa, capacete debaixo do braço a pingar para o chão, como toda eu pingava, e o chapéu a pesar já uns 2 kg de água que o ensopavam. Mas lá fui, pelas escadas acima imaginando onde iriam dar!

E escrevia eu na minha página no Facebook nesse dia:

“Hoje o dia acordou com um mau feitio terrível e parece que toda a chuva, que foi ameaçando cair nos últimos dias, decidiu cair hoje, desde muito cedo pela manhã, sem parar! É sempre difícil decidir o que fazer nestas situações, apetece ficar no choco mas, ao mesmo tempo, é uma pena não sair e aproveitar o que se puder! Então peguei na motita e fui até Armagh, a cidade das catedrais, como lhe chamam! Chovia tanto que entrei na primeira igreja/catedral que encontrei, a Presbetyrian Church e foi muito bonito! Fui recebida com toda a simpatia por dois senhores que estavam à porta, estava a começar a celebração e eu pensei que me mandassem embora, mas não, convidaram-me a entrar, conduziram-me ao andar superior. Pensava que era o coro mas, na realidade era um nível superior que rodeava toda a nave e onde outras pessoas acompanhavam a celebração. Fiquei até ao fim e adorei. Tudo o que foi dito e mostrado foi bonito, cheio de humor e alegria, havia miúdos também e o clima era tão simpático. No fim conduziram-me até ao “pastor” (não sei se se chama assim) que me agradeceu a visita e me perguntou se eu me tinha sentido bem. Outras pessoas me cumprimentavam, claramente sabiam que eu não era dali, eu estava cheia de roupa, com fato de chuva vestido e capacete no braço e tudo! Pediram-me para assinar o livro de visitas … uma experiencia para não esquecer!”

A princípio apenas tirei o chapéu e fiquei ali, de pé, com o capacete na mão, mas as pessoas olhavam para mim e faziam-me sinal para eu me sentar. E foi o que fiz, pousei o capacete e o chapéu na beira da janela e fui-me sentar junto das pessoas e o que era para ser uma visita rápida tornou-se num experiencia simpática e curiosa! A minha primeira visita a uma igreja presbiteriana, com direito a assistir a uma celebração e tudo!

Quando terminou a celebração pude fotografar o que quis, com direito a cumprimentos simpáticos das pessoas, que não mostraram qualquer estranhamento nas minhas vestes e os comentários eram do tipo “Bloody rain for a biker!”

E o raio da chuva estava lá, no mesmo sítio quando saí, horas depois! Bem só restava procurar um sítio para me refugiar, um café, outra igreja, sei lá! Não estava dia para passear e tirar fotos, isso já dera para entender, o tempo não melhoraria!

Então encontrei a catedral de Saint Patrick, a católica, pois há outra protestante com o mesmo nome.

Ela fica numa colina destacada, com um lindo relvado em degraus, com uma magnífica escadaria a subir aquilo tudo. Estava aberta, toca a subir por ali acima.

A catedral é deslumbrante! Foi construída entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX em estilo neogótico, para substituir a anterior catedral medieval dedicada ao mesmo Saint Patrick, mas que fora tomada pela igreja da Irlanda, aquando da reforma religiosa. Por isso a cidade tem 2 catedrais, o que contribui para o seu cognome!

E a igreja é linda, embora haja vozes discordantes que se referem aos melhoramentos e alterações que sofreu ao longo dos anos 80 e 90, em que muita coisa foi alterada, como o altar original! Como não vi antes não sei avaliar… mas gostava de ver como era esse altar neogótico que foi retirado…

Quando olhei para o teto, ricamente trambalhado, não consegui evitar de percorrer todo o espaço, não apenas a nave, de nariz para o ar, a olhar!

Lá fora chovia copiosamente e o ambiente dentro da catedral era tão descontraído e acolhedor, que eu fiquei por ali uma infinidade de tempo, até sentir vertigens de tanto olhar para cima!

Por cima da porta não há uma rosácea, tão característica das igrejas góticas, há uma grande janela que, ao fazer contraluz, se torna muito interessante, com os anjos a fazer efeito de sombra chinesa! Desenhei aquilo, está algures num livrinho que tenho de procurar!

O ambiente de uma grande igreja sempre me fascina, sobretudo quando ninguém me perturba nem me questiona e me deixam estar por ali, com a música nos ouvidos e os livrinhos para desenhar! Ok, pronto, não sou só rato de cemitérios a catar tumbas, também sou rato de igreja a catar altares!

O inferno molhado continuava lá fora…

Armagh aos meus pés, é a cidade menos populosa da Irlanda do Norte, a segunda da irlanda e a quarta de todo o Reino Unido! Não se nota nada, com aquele temporal nem que houvesse por ali a maior multidão a viver, não se notaria, pois estaria tudo fechado em casa! Só um maluco como eu é que sairia à rua!

Eu podia ver a catedral se Saint Patrick, a medieval, no topo da outra colina em frente.

“Será que vale a pena «nadar» até lá para a ver?

Oh pá, molha por molha, já que estás na rua mesmo vai lá, pois então!

A igreja tem origem no séc. V e foi o próprio St. Patrick, o tal, o primeiro santo da Irlanda, que colocou a primeira pedra para a sua construção!

Ela foi destruída e reconstruida 17 vezes ao longo da sua história e hoje há nela muita coisa bem posterior às suas primeiras características românicas.

Achei tanta piadinha às almofadas de ajoelhar que tive de experimentar uma, era fofinha!

Metade do seu encanto foi-se com as remodelações, mas é ainda uma igreja muito interessante!

É por fora que ela conserva mais da sua “raça”!

E por falar em cá fora… a chuva não desarmava nem por nada!

Parei apenas um pouco na cidade, aquela cruz na berma da estrada não me deixou indiferente, afinal Irlanda do Norte também é Irlanda e também é celta!

E ao lado um mural, pois, a Irlanda do Norte é toda destas coisas! Ainda lá hei-de voltar com tempo para explorar e conhecer todos os murais possíveis, que são mais que muitos pelo país todo!

Quando o meu mp3 deixou de funcionar e começou a mostrar mensagens bizarras no seu visor, eu percebi o quando a humidade estava a afetar o meu dia!

Então amuei e voltei para Belfast sem nem olhar mais para o lado! Não valia a pena ir mais longe, nem valia a penar parar em lado nenhum, a chuva era tão serrada e o tempo estava tão húmido, que só pegava na máquina fotográfica e a lente ficava toda embaciada!

Por isso decidi ir-me meter dentro de um espaço onde eu pudesse ficar o resto da tarde sem me chatear mais!

E sim, fui visitar o Tinatic Centre! Como eles dizem, fui visitar “the birthplace of Titanic”

Escrevia eu no meu facebook naquele dia:

“O temporal não me deu paz todo o santo dia, lixei o meu mp3 com a chuva e tudo! Então amuei e fui-me enfiar no Titanic! Parece que estou a fazer o maior sucesso por aqui, não falta quem se ofereça para me tirar fotos! eheheheh

Bem, acho que vou comprar mais cerveja que esta bosta de tempo está a deprimir-me!”

Muito tempo depois os estaleiros Harland and Wolff voltaram à vida com o centro Titanic no local rebatizado de “Titanic Quarter” em 2001.

A construção é impressionante e faz justiça aos grandes gigantes marítimos que foram ali construídos, lembrando 4 proas de grandes navios. Estava chuva, uma pena, porque aquele imenso edifício merecia um céu deslumbrante por trás! Faz um efeito visitar um local onde tanta gente trabalhou arduamente por tempo demais, para que o produto do seu trabalho fosse a morte de tanta outra gente também…

O interior do edifício é espaçoso e acolhedor, com uma atmosfera entre o ambiente de feira provocado pelos turistas ruidosos, e o ambiente solene deixado pela história que o local encerra…

Para além dos objetos da época expostos, são recriados ambientes e sensações para permitirem aos visitante entender um pouco da dimensão e condições de trabalho no estaleiro ali montado na época.

Mapas, planos, projetos, desenhos, fotos e tantas outras coisas fazem-nos reviver uma das histórias mais conhecidas no mundo!

Ah, e maquetas também, como aquela que mostra como era o estaleiro antes de começar a construção do grande barco.

Há mesmo um percurso, numas gondolas suspensas, que nos levam numa viagem cheia de voltas e reviravoltas pela obra, onde se pode ver como os homens trabalhavam sem quaisquer condições, ou equipamento próprio.

E o lançamento do barco é feito virtualmente num recato, onde a cadeia de corrente em tamanho real é impressionante, e cobre todo o espaço ladeado de vidro, sobre o real local do lançamento na época!

Por muito que a gente veja e leia, ali tem-se mais a noção da verdadeira dimensão das coisas….

O fim da história já todos o conhecemos há mais de um século…

Cá em baixo há uma cafetaria e um restaurante, onde se podem comer coisas interessantes, o que foi muito útil para ganhar coragem para voltar para a chuva!

E não pude deixar de dar uma volta pelo espaço do estaleiro, hoje chamado de “Titanic Quarter”

E ver o edifício de todos os ângulos

E a minha bonequinha também teve direito a uma foto junto do grande título!

E fui para casa, que de chuva já tinha levado a minha dose para me pôr a inventar mais e foi o fim do 13º dia de viagem!

15. Passeando por caminhos Celtas – a calçada dos gigantes e os castelos

9 de agosto de 2014

Quando acordei e vi que o dia estava lindo fiquei impaciente! Uma coisa que a vida me ensinou foi a aproveitar cada dia de sol que me aparece em tempo de chuva, por isso tratei de me pôr a andar antes que alguma reviravolta me levasse a oportunidade de ver o que de mais importante me levou até ali!

Peguei na moto e pus-me a andar para norte, sem inventar de parar aqui e ali. Lá em cima eu tinha coisas demasiado importantes para ver para me permitir perder a oportunidade no cruzamento com uma qualquer nuvem mal disposta!!

O que sempre me fez querer visitar a Irlanda do norte foi a Giants Causeway por isso destinei todo o meu tempo à exploração do local. Falaram-me que deixava a moto não sei onde e caminhava pelo penhasco até encontrar a descida da falésia e tal, visitava a coisa e voltava a subir por ali fora…

Decidi que não iria fazer a coisa como um ladrão que se escapa por entre quem paga bilhete, e fui até ao Giant’s Causeway Visitor Centre. O preço não é muito elevado a visita faz-se como eu gosto, cada um com o seu áudio-guia a passear por conta própria! E a informação e história que nos é contada é interessante, fácil de acompanhar e pertinente!

O edifício é muito interessante, tendo como inspiração clara os blocos verticais da calçada, cria um ambiente simpático a quem chega.

Um casal espanhol chegava na sua scooter e acharam que eu era uma supermulher qualquer por andar por ali de moto sozinha! Eles estavam de roulotte e a scooter era o elo de ligação do seu “caracol” ao mundo, onde não poderiam andar com tal carripana.

E fui passeando e ouvindo histórias, pela rua junto ao mar, em praias de pedras e pedregulhos…

Histórias de nomes que foram dados às pedras, como o camelo que se vê do outro lado da primeira baía.

E vê-se mesmo o dito camelo!

Depois da curva, ao fim da primeira baía, começam-se a ver ao longe as primeiras pedras em “agulha”, para lá da calçada, ao longe.

Na zona há pedras semelhantes às da calçada em vários locais, já que foi um fenómeno de arrefecimento da lava que provocou a formação dos blocos

Fui saindo do caminho alcatroado e passeando pelo meio das pedras junto ao mar, ao som das explicações, bastante interessantes e bem narradas do áudio-guia.

E a calçada foi-se tornando próxima, com os seus blocos impressionantes a fazer muros…

Os blocos hexagonais, às vezes pentagonais ou octogonais, estão tão perfeitamente encaixados entre si, como num puzzle da natureza. A gente sobe por eles, como se degraus fossem e a paisagem é quase surrealista!

Dizem que são mais de 40 000 colunas prismáticas de basalto que por ali há! Não sei como as contaram mas acredito que sejam essas todas já que há tantas e continuam pelo mar dentro!

O fenómeno deu-se há mais de 60 milhões de anos, quando uma erupção vulcânica provocou a disjunção colunar do basalto das grandes massas de lava provocando a calçada que conhecemos hoje. Choques de temperaturas fizeram-na solidificar daquela maneira!

Escrevia eu no meu facebook:

“The Giant’s Causeway ou A Calçada dos Gigantes é aquele pormenor da natureza que eu tinha de ver há tempo demais! Já em 2011 eu queria lá ir e não foi de todo possível, mas desta vez eu vi-a… um encontro quase surrealista para mim, embora eu soubesse muito bem o que iria ver. As pedras brotam do chão como esteios esculpidos pelo homem e diz a lenda que o foram mesmo, mas por um gigante Irlandês que queria confrontar com um gigante escocês! Ora quando o gigante escocês veio até à Irlanda o irlandês pode constatar que ele era enorme e muito mais poderoso do que ele próprio! Pânico total! E foi a sua mulher quem salvou a situação, vestindo-o de bebé, apresentou-o ao gigante escocês como sendo o seu filhote! Ora o outro vendo um filhote tão grande apavorou-se imaginando a dimensão do pai da criança! Pânico para ele também! Então voltou a correr para o seu país, partindo tudo o que podia da calçada para que o outro não pudesse segui-lo! E por isso a calçada se estende sobre o mar até desaparecer, e daí os 40 mil blocos hexagonais de basalto! A história é contada num filme de animação muito engraçado no Visitor’s Center. Acho que tirei por ali umas vinte mil fotos…”

E lá está ela a entrar no mar, na direção da Escócia, como conta a historinha!

“A calçada destaca-se do chão em blocos que atingem vários de metros de altura sobre nós e a gente sobe pelas pedras e caminha sobre ela. É irregular de uns lados e plana de outros, como paralelos hexagonais que se encaixam mas saem aqui e ali. Formam mesmo paredes e desníveis curiosos. Mas quando nos afastamos, percorrendo o caminho que nos leva pela encosta até onde os nossos olhos se perdem entre o mar e a escarpa quase em estado puro, e olhamos para trás… ela lá está ao longe, com pequenos pontos de cor formados pelas pessoas que lhe caminham por cima. Faço zoom com a minha maquina e é espantoso o que ela é, vista assim de longe! E entendo tão bem porque foi chamada de construção de gigantes!”

O que eu caminhei por ali, sempre com a calçada no horizonte!

E no outro lado da baía lá estão eles de novo, os blocos em alinhamentos como esteios, a formar paredes!

Não faltava gente a caminhar por ali comigo. Um percurso longo mas muito bonito e interessante de se fazer!

Depois subi a escarpa, pela escada bem ingreme e voltei para a moto por cima com a falésia sempre ao meu lado!

Ao chegar ao estacionamento o casal espanhol que chegara comigo estava se partida e um grupo de motos chegava! Uma animação, entre uns que se despedem e outros que chegam e se apercebem que eu estou sozinha! Gente boa com direito a muita conversa!

Finalmente, depois de muita conversa do tipo “de onde vens?” ou “ Onde estão os teus amigos?” (esta será para sempre pergunta numero 1 de todas as minhas viagens!) ou ainda “Como chegaste até aqui sozinha com uma moto tão grande e pesada!”, depois de umas gargalhadas, de muitos cumprimentos e apertos de mão, lá segui para leste. Mais à frente, na costa encontra-se a ruina do Dunseverick Castle.

O castelo é muito antigo, do séc. V, e diz-se que já foi visitado por Saint Patrick , o bispo da Irlanda!

Fica numa saliência num recorte da costa, quase uma pequena península, um ambiente muito romântico!

Mas por ali tudo é encantador e algo romântico mesmo!

Praias de areia branca, que não são nada comuns por aqueles lados, enchem de magia todo o percurso!

Localidades bem pequeninas, de casinhas brancas, destacam-se do verde a cada momento, como ilustrações de livros de poemas!

E cheguei a Carrick-a-rede rope bridge…

Quem anda por aqueles lados vai sempre ver a famosa ponte de rede e, como seria de esperar, estava uma bela fila para a visitar. Um motard estava junto da sua moto quando cheguei e foi paleio até dizer chega. Ficou fascinado comigo e com a minha moto, tiramos fotos juntos e tudo, para mostrarmos aos amigos!

Conversa pegada e acabei por decidir deixar a ponte para outra vez. Não me apetecia pagar para caminhar até ela, encontra-la cheia de gente e voltar para trás!

Pus-me a inspecionar a redondeza cheia de encantos

E vi, ao longe, depois das ilhas e das nuvens… a Escócia!

Um pouco de zoom e lá estava ela!

A sensação de ver o outro lado do mar fascinou-me mais do que qualquer ponte. Se pensarmos na dificuldade de se encontrar tempo de sol, com atmosfera suficientemente límpida para se poder ver tão longe, entende-se melhor a minha alegria!

Então andei por ali a passear, por pequenas aldeias piscatórias, voltando agora para Este no mapa. Havia outro castelo que eu queria ver, por isso fui explorando a costa no sentido inverso, deliciando-me com o sol e com as paisagens!

Ballintoy, uma pequena vila que quase vai desaparecendo ao longo dos tempos, tendo cada vez menos população!

Com uma envolvência extraordinária e uma igreja linda!

E então cheguei a mais um dos sítios que eu queria tanto visitar!

O castelo medieval de Dunluce fica logo a seguir a The Giant’s Causeway, foram até usadas pedras da calçada na sua construção e podem-se ver no meio das outras se se olhar com atenção!

É um daqueles castelos que aparece por todo o lado quando se busca pela palavra “castelo” no Google! E lá estava ele, num promontório sobre o mar, a casa do Clan MacDonnell de Antrim. Pensa-se que o Dunluce Castle terá sido a inspiração para Cair Paravel, o castelo dos reis das Crónicas de Nárnia!

Aquele castelo sempre me fascinou e eu fui até ele para o visitar mas, ao olhar para ele, sentei-me a desenhar e não visitei coisa nenhuma! Afinal o mais espetacular dele vê-se de fora!

Está ali, periclitante no limite do penhasco parecendo tão frágil!

Mais uma longa pausa, um desenho ou dois, um milhão de fotos e aquela sensação de estar perante uma celebridade muito antiga…

Eu queria que o sol estivesse de outro ângulo para o poder ver melhor…

Mas não iria esperar até ao entardecer para o sol “se virar” por isso continuei a explorar a costa…

E há mais rios castanhos por aquelas terras, não é só na República da Irlanda!

E os recortes que a terra desenha sobre o mar são fascinantes!

Eu chegava-me perto! Pousava a moto e caminhava até ao precipício, voltava a sentar, voltava a desenhar e a sensação de estar viva e feliz era tão intensa que quase beirava a euforia!

Lá me fui dirigindo para Belfast saboreando as estradinhas mais estreitinhas que fui encontrando! É assim que gosto de viajar!

Então, no meio de lado nenhum, ou antes, no meio de um lugarejo minúsculo, apareceu-me um castelo!

Ui, se eu tivesse de viver num país assim, onde há um castelo em cada esquina, eu não iria parar em casa nunca, até não haver mais nenhum castelo para procurar!

Era o Caulfield castle, do séc XVI, que o que teve de mais encantador foram os enquadramentos que permitiu, com jogos de sombra e luz, com o verde da relva a criar contrastes impressionantes!

O que eu gosto destes momentos solenes!

E o dia estava a chegar ao fim, embora o sol ainda estivesse alto. Tempo para uma pausa junto ao grande Loch Neagh

De baixo do sítio onde parei e me sentei vinha uma restolheira, grande algazarra mesmo! Quando espreitei, era uma grande patada!

Palravam com uma intensidade que parecia mais uma discussão entre eles! Tão giros!

Fiquei ali uma série de tempo a aprecia-los e até desenhei alguns!

Estava já perto de Balfast e podia perceber que as grandes nuvens me esperavam mais à frente!

E foi o diluvio total!

Parei rapidamente numa paragem de autocarro e abriguei-me. É nesses momentos que eu percebo o quanto é importante aproveitar bem o sol… enquanto ele se mostra!

Como uma chuvada tropical, o temporal afastou-se e deixou para trás um lindo arco-iris!

E fui para casa e foi o fim do 12º dia de viagem!