14. Passeando por caminhos Celtas – de Dublin até Belfast

8 de agosto de 2014

O dia estava uma bosta e eu iria sair da República da Irlanda para a Irlanda do Norte sem poder levar comigo as paisagens mais encantadoras… simplesmente porque nada se via do fim da rua para a frente! Uma pena!

Quando isto acontece nunca sei muito bem o que fazer, ir direta por ali acima ou tentar dar uma volta procurando alguma aberta nas nuvens cerradas? Decidi pela segunda hipótese, dar uma voltinha antes de seguir para Belfast!

Segui para a Upper Lake region of Glendalough, um recanto encantador que eu não queria deixar de visitar antes de partir. Glendalough, em irlandês “Gleann Dá Loch” significa “vale de dois lagos”, é um vale glaciar que é conhecido pelo seu mosteiro medieval do séc. VI.

Eu não sabia se o veria, pois o tempo estava mesmo miserável, mas eu iria tentar!

A paisagem por ali é linda e seguramente que, com um dia de sol, seria deslumbrante!

Apesar de por vezes a humidade no ar ser altíssima e a visibilidade quase nula, passear por aqueles caminhos era ainda um prazer! Sem ninguém na única rua que rasgava a montanha, com os tons verde intenso, que pareciam ativados pela humidade, era a sensação de estar sozinha no meio do mundo! Tão bom!

O rio Inchavore acompanhou boa parte do meu caminho e eu voltaria a passar por ele no regresso, podia perceber pelo mapa, por isso olhei-o na sua descida pelo vale, em catarata e depois iria ve-lo mais de perto na volta!

Era imponente a forma como ele escorregava por ali abaixo, assim de repente, sem que a gente suspeitasse vendo-o de cima!

Finalmente cheguei ao Lower loch. Apesar de o dia estar cinzento o verde era intenso e a água parecia um espelho!

São aqueles momentos em que apetece parar e ficar, simplesmente, a olhar!

Não sei quanto tempo fiquei por ali, o lago nem ficava no meu caminho, nem tinha seguimento, o caminho apenas levava ao outro lago. Eu fui ali por ele e por ele ali fiquei.

Eu não sabia, mas aquele recanto de paraíso, seria a ultima coisa que eu veria da República da Irlanda…

Eu vira ao passar para o lago a torre redonda tão característica, o mosteiro seria mesmo ao lado, seguramente!

Lá estava a relva fofinha e muito verde, a parecer irreal, um cenário de um filme qualquer, com cenas a puxar para o tenebroso, já que cemitério lembra sempre ambientes desses!

Mas não havia nada de tenebroso no local, apenas muito de histórico, isso sim!

A catedral é do mais antigo que há, da época da transição da cultura celta para a cultura cristã e mantem-se totalmente original, o que é espantoso!

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E foi mais uma visita sagrada, pelo antigo e histórico que continha! Eu nunca fico indiferente a essa carga histórica de um local tão antigo…

Logo ao lado fica a cruz de Saint Kevin que, embora pareça mais pobre que todas as que vi, é simplesmente extraordinária porque é esculpida numa única pedra de granito, um monólito. Tem 2.5m de altura e é um dos primeiros exemplares da combinação da cruz céltica com a cruz cristã, num esforço dos monges em receber a cultura pagã no seio da cultura cristã, incluindo e aceitando o círculo que representa o sol, venerado pelos celtas.

Há uma lenda que diz que quem conseguir abraçar a cruz de St Kevin e tocar os dedos do outro lado, fechando o círculo, verá os seus desejos realizados. Mais uma vez nada tentei e nada pedi… uma pena pois eu tenho os braços compridos e certamente conseguiria dar a volta à cruz com eles e tocar os dedos do outro lado. Sim, porque parece fácil porque não há ninguém perto da cruz na foto, senão ver-se-ia como ela é grande e grossa!

Por entre tumbas de lápides inclinadas pelo passar do tempo e a vegetação que levanta a terra, chega-se à Igreja de São Kevin, o fundador do mosteiro e o primeiro santo irlandês.

E logo a seguir um riacho de águas escuras…

olhando bem eu achei que as águas eram mesmo castanhas! Curioso!

E a “Monastic City” como lhe chamam é fantástica! Estivesse um pouco mais de sol e seria um encanto, assim foi um encanto misterioso, por entre brumas e gotas de agua que molhavam os meus pés e faziam as varias pessoas que visitavam o local, enfeitarem-se com capas de plástico coloridas!

Havia sítios onde eu tinha de passar por baixo das lápides das tumbas,

que coisa mais inspiradora!

O tempo piorava a olhos vistos e começava a chover a sério, só para encher a minha despedida de tristeza!

Não haveria condições para visitar mais nada, só me restava seguir para a Irlanda do Norte a ver se o tempo melhorava para lá. Mas a Republica da Irlanda ficou-me no coração e a vontade de ver muito mais, procurar, descobrir e viver histórias antigas, uma sensação que tenho de voltar a sentir!

Uma certa nostalgia acompanhava-me já ao fazer-me à estrada.

Parei um pouco para apreciar o rio Inchavore que vira em catarata na ida para Glendalough.

E sim, ele é castanho!

“O tempo estava cinzento, uma pena porque a paisagem por ali merecia pelo menos um céu cheio de nuvens revoltas e inspiradoras, com nesgas de azul por trás… mas estava cinzento, com promessas de chuva a cada momento. E os montes inspiravam-me, com lagos a aparecer a cada momento, na solidão do meu caminho. Que coisa linda é o Wicklow Mountains National Park, podia passear-me por ali por muitos dias seguidos e encantar-me sempre. Então parei junto do rio e… espantei-me! O rio Inchavore é castanho! Ainda pensei se poderia ser apenas influencia da sombra da vegetação, do reflexo sei lá do quê! Mas não, a gente aproxima-se, desce até ele, e as suas águas são mesmo daquela cor! Impressionante!”

Coisa estranha olhar para um rio da cor do chá! Não, aquilo é mais da cor do café!

Eu conhecia rios de águas brancas, de águas azuis turquesa, de aguas verdes… agora posso dizer que também os conheço com águas castanhas!

Claro que fui investigar a razão daquela cor e, a cor castanha é provocada pela turfa que há por aquelas terras, e é muita, o que torna a água castanha e ácida e a vida aquática não é muito rica por causa disso, mas existe e até há espécies raras a viver nela! Claro que sendo eu meio fora das biologias e ciências, imaginei logo que uma água acida teria uma espécie de sabor a limão! Associação lógica não? Eheheheh

Muito curioso!

Acabei por ficar por ali mais um pouco, a chuva parara e eu fui desenhando umas ovelhas que estavam muito quietinhas em pose para mim, para juntar à minha coleção de animais dos meus percursos!

E a seguir lá estava a estrada magnífica que precisava tanto de um céu azul por cima para me levar ao êxtase…

A dada altura já só com fato de chuva poderia continuar. Que pena ter de guardar a maquina fotográfica e embrulhar-me toda num momento em que tudo o que eu queria era ver um pouco mais daquele país lindíssimo…

e foram mais de 200 km de chuva e estrada, sem nem parar para passar a fronteira, sem nem tirar uma foto junto da placa a dizer Irlanda, até entrar em Belfast.

Quando eu amuo com o tempo acontece-me isso, “ai não é para ver nada? Então conduzo sem parar e pronto!”

A minha chegada a Belfast e ao hostel foi o primeiro contacto com uma realidade que eu conhecia mas não imaginava ser “tão possível”! Por entre as coisas que me foram dizendo, recomendações, indicações de atrações e tal, disseram-me onde era o ponto mais perto para comprar bebidas com álcool!

Oh valha-me Deus, então comprar álcool é assim mesmo, um momento extraordinário na vida da gente, que até é referido no meio das atrações e curiosidades da terra?! Estes irlandeses são malucos!

E veio o sol! E eu peguei na moto e fui passear, depois da chuva todo o sol seria de aproveitar! Claro que estava tudo fechado, passava das 6.00h da tarde, mas não importava nada!

St Anne’s Cathedral ou a catedral de Belfast, um edifício do inicio do séc. XX que teria valido a pena visitar mas nada feito! Eu não voltaria ali por isso fiquei-me pelas imagens exteriores!

O que eu procurava era outras coisa em Belfast e ainda bem que a procurei naquele dia, ou não teria tempo de ver mais tarde!

Guiei-me pela St Peter’s Cathedral que eu via ao longe!

Mais uma igreja imponente e extraordinária, a primeira igreja católica a ser construída em Belfast, ao estilo gótico francês, por isso mais uma construção revivalista!

Muito bonita, fica no meio de bairros habitacionais com ar pouco asseado, pensei eu, até perceber que lixo é o que não falta nas ruas da cidade!

A catedral foi projetada pelo padre da paróquia, que tinha estudado arquitetura antes de se tornar sacerdote, e construída num terreno doado por um padeiro local. Uma história simples para uma construção extraordinária!

Ali perto começam os Murais, descrevendo as divisões políticas e religiosas do passado e do presente da região… era isso que eu queria ver!

Diz-se que perto de 2.000 murais foram documentados entre os anos 70 e 2014 e o ‘The Belfast Mural Guide’ diz que mais de 300 estão hoje visíveis pela cidade, em diversos estados de conservação/degradação!

Os murais servem para comemorar, comunicar ideias, mostrar aspetos culturais e históricos de populações, crenças e ideologias de comunidades, eu sei lá! Sei que são fantásticos!

Andava ali eu sozinha a ver tudo em pormenor, quando chegou um grupo de táxis! Eu sabia que as pessoas se organizavam em táxis para visitar aquela zona da cidade, sendo os próprios taxistas guias que contavam as histórias e tal. não sabia é que eles andavam assim aos magotes!

Eu não queria ver todos os murais possíveis, queira ver alguns, estar perto, tocar-lhes, ver como eram pintados, nada mais!

Alguns não são pintados sobre a parede, diretamente, são impressos em grandes painéis e colocados ali, com placas que explicam de onde vêm.

E alguns têm placas informativas e identificativas.

Alguns murais ficaram-me na memória pela mensagem que transmitiam.

Ao lado de tão fantástica arte, outros cartazes se impõem!

Escrevia eu no meu Facebook:

“Curioso, eles proibirem o álcool nas ruas, mas as pessoas devem embebedar-se em casa pois deixam as ruas cheias de lixo! Não seria de proibir o lixo pela calçada então?”

Mas havia outras placas por la que me fizeram sorrir! Tão bom quando tratam bem as motos!

E fiz uma selfie de cima da minha motita, refletidas as duas numa montra!

E fui para casa, pois tinha marcado jantar no hostel, mas não sem por o olho ao que me aparecia na berma da estrada:

“Na margem do rio Lagan, na berma da Queen’s Bridge, fica Beacon of Hope, uma escultura feminina de 15 metros, trabalhada em aço inoxidável e bronze. É tão imponente quanto leve e frágil, como facilmente uma imagem feminina pode parecer. O escultor, Andy Scott, escreveu sobre ela: “Espero que a figura seja adotada pelo povo de Belfast como um símbolo de paz e reconciliação, e como um farol luminoso de modernidade e progresso”. Está ali desde 2007 e é já uma referência, um recanto a visitar, para quem chega a Belfast!”

A menina do hostel tinha referido aquela escultura por isso eu tinha de a ver!

O jantar que me esperava era muito louco, com gente muito maluca, com direito a conversa fiada sobre tudo e em todas as línguas possíveis e eu la fui dando “agua sem caneco” até às tantas, que um serão animado sabe sempre bem!

E foi o fim do 11º dia de viagem!

13. Passeando por caminhos Celtas – o condado de Meath, the Hill of Tara e Trim castle!

7 de agosto de 2014

Continuando um dia feito de história…

Ainda no condado de Meath fica o Hill of Tara – Cnoc na Teamhrach, que quer dizer em irlandês “Colina dos Reis” embora, ao que parece, não tenha vivido ali nenhum rei!

Aquilo seria lindo de ver de helicóptero pois consta de desenhos por saliências no chão relvado, formando círculos concêntricos com efeitos a lembrar a ondulação da água quando cai uma pedra. Por isso eu sabia que do chão pouco veria mas, a sensação de pisar aquele solo era algo que eu não podia perder!

A High Cross está ali no meio de nada, marcando o local da batalha de Hill of Tara, quando rebeldes irlandeses foram derrotados pelos ingleses no final do séc. XIX.…

E as “ondas” são visíveis por vezes de um ponto mais alto!

A Lia Fáil ou Stone of Destiny, a pedra onde, diz a lenda, todos os reis irlandeses formam coroados por muitos séculos.

Há muitas lendas em volta desta pedra, mas o que mais me fascinou foram os seus poderes, que dizem ter reconhecido o verdadeiro rei da irlanda, soltando rugidos de alegria, ou ainda que tinha o poder de rejuvenescer o reio o dar-lhe um longo reinado!

Isto a ser verdade não faltaria quem lá se fosse esfregar a ver se ela lhe ofereceria uma longa vida ou um pouco de juventude, sei lá!

Tara vem do neolítico também, pensa-se por isso que virá de épocas pré-célticas…

O que eu acho curioso é que, nestes milhares de anos todos ninguém lixou aquilo tudo para construir uma porcaria qualquer e tudo se manteve pelos tempos infinitos intacto até hoje! Espantoso!

O centro de visitantes fica na igreja de Sant Patrick e a estátua do santo está ali perto.

“Saint Patrick, o “Apóstolo da Irlanda” foi um missionário do séc. V que é o grande padroeiro da Irlanda! A sua história mistura-se com a lenda e não se sabe mais como foi realmente, mas dizem que foi raptado de sua casa, na Grã-Bretanha, quando era um adolescente e levado para a Irlanda onde viveu até conseguir fugir e voltar para os seus. Quando se tornou padre voltou para a Irlanda percorrendo-a como missionário pelo país. Saint Patrick’s Day é hoje a grande festa da Irlanda, em março, quando toda a gente sai à rua vestida de verde em memória do bonequinho que o representa e que parece um duende! Quando o encontro vestido de bispo não o associo de todo ao boneco irlandês!”

Logo ali na rua ficam vários estabelecimento alguns deles curiosos! Fui dar com um atelier de pintura de um fulano que estava de volta de uma tela que fazia lembrar as mandalas!

Estivemos ali no paleio enquanto ele pintava com uma minucia impressionante!

Parece que tudo o que ele pintava era do mesmo tipo de composição, telas ou suportes quadrados com desenhos caleidoscópicos que leitura a partir dos 4 lados. Muito bonito!

Ainda me fui meter num alfarrabista que me prendeu a atenção por longos minutos, até eu decidir que o inglês não é a língua que eu mais facilmente leio e que não queria massacrar-me a puxar pela cabeça por isso não iria comprar livros e ponto final!

E pus-me a andar na direção da costa até ser surpreendida por uma construção em ruinas! Eu sei que é o que mais há por lá, igrejas em ruinas, mas há algumas a que não consigo resistir, pronto!

E acabei por me divertir um bocado! Estava a chegar um grupo de pessoas que percebi eram as damas de honor e os respetivos moços, mais os noivos, para fazerem fotos no local!

Eu adoro estas coisas e há sempre um ou dois casamentos no percurso de todas as minhas viagens! Faltava um nesta!

As damas de honor eram redondinhas e não sabiam andar de saltos altos, por isso pareciam meio tortinhas, uma acabou por os tirar e seguir descalça pela relva! Eheheh

Os moçoilos vestiam todos de igual, o noivo incluído, não entendi porquê, ainda por cima de calças beges com suspensórios!

A noiva era a mais bonita, a mais magra e a mais elegante! Será que o casamento era um bom pretexto para desencalhar as damas de honor?! Eheheheh

Bem fui saindo dali, para não aparecer uma sombra negra de chapéu no fundo das fotos, e fui ver a abadia.

Era a Bective Abbey, do séc. XII, e descobri que foi palco de filmagem de cenas do filme de Mel Gibson, “Braveheart”. Fantástico, assim se encontra uma celebridade sem saber!

Claro que teria de ver o filme todo outra vez para tentar descobrir onde aparece a abadia!

Independentemente das pessoas do casamento, foi curioso constatar que as pessoas vão para ali passear e fazer picnics!

Havia ali famílias com miúdos a passar a tarde! A verdade é que o relvado é excelente e o dia estava bonito para se estar ali!

Ali ao lado havia também vaquinhas a relaxar!

E os carros dos “modelos” do casamento!

Ainda se ao menos tivessem levado uma cestinha com algo de comer lá da festa de casamento! Mas só havia os carros e mais nada!

Depois tinha de passar em Trim para ver o seu castelo. Ficava no meu caminho e o dia ainda ia alto!

Eu queria vê-lo porque ele é diferente de tudo o que conheço! A planta da torre é cruciforme, o que não é muito comum porque torna-a mais difícil de defender por ter muitas reentrâncias!

É o maior castelo normando da Irlanda e já esteve para ser desmantelado! Acabaram por o proteger e o abrir ao público com guias que conhecem a sua história e, por isso, tornam a visita interessante.

As perspetivas que se vai tendo ao subir a torre são impressionantes e fazem pensar nos diversos andares que ali existiam em tempos áureos!

O topo foi coberto para proteger o interior e em volta a cidade é visível num ângulo de 360º.

Com direito a visitas curiosas!

Uma senhora ofereceu-se para me tirar uma foto!

As pessoas estranham sempre eu andar a tirar fotos a tudo e não as tirar a mim mesma e oferecem-se para me fotografar e eu aceito sempre!

O castelo é imponente e eu fartei-me de o fotografar!

Também fiz um desenho ou dois, mas muito rápidos porque aquilo iria fechar!

A cidade em redor tem pormenores encantadores!

Ao ir para casa vi mais uma torre redonda, era o Donaghmore cementery…

As Round Towers estavam a ter o mesmo efeito sobre mim que as cruzes celtas e eu tive de parar, ok, só um bocadinho, vá lá!

Na Irlanda, como na Inglaterra, usam um pormenor muito curioso nos cemitérios! Há sempre um muro com um portão, que está frequentemente fechado! Ok, a gente percebe que não pode passar ou terá de saltar o muro! Então há uma série de degraus de um lado do muro e outra do outro, para nos facilitar a vida de “saltar o muro”! Não é espantoso?

Por isso é suposto a gente avançar o muro mesmo!

O cemitério era antigo e pequeno, mas com perspetivas encantadoras e uma relva fofinha como uma almofada verde!

E fui para casa, toda encantada com um dia histórico cheio de coisas que se calhar só a mim me encantam, mas encantam muito!

E foi o fim do 10º dia de viagem!

12. Passeando por caminhos Celtas – o condado de Meath e o Brú na Bóinne!

7 de agosto de 2014

Mais um dia feito de história…

O hostel onde fiquei não era nada de especial mas tinha alguns pormenores que me agradaram. Um deles eram as mesas no pátio, onde se juntavam pessoas ao serão, que conversavam em inglês arranhado, entre risotas e petiscos! Junto da maior parte delas o meu inglês até parecia perfeito

Outro era a sala do pequeno-almoço! Um espetáculo!

Sim, era uma capela linda, em que o altar era a cozinha, e a nave, com mesas corridas, fazia lembrar o ambiente da sala de jantar do Harry Potter, mas em muito pequenino!

E ao fundo, pendurada nas grades do coro, estava a bandeira portuguesa! Espetáculo! Lugar de destaque com a bandeira espanhola ao lado!

Do pátio eu vira a capela no dia anterior quando estacionara a moto, mas não tinha percebido que era parte do hostel!

A moto estava logo ali, eu podia vê-la desde o meu quarto ou da sala do pequeno almoço, com direito a parque privado e tudo!

O dia estava lindo e eu decidi dedica-lo a viajar para trás no tempo, muito para trás!

Peguei nas minhas coisas básicas, os meus livrinhos, a máquina fotográfica e fui dar uma volta de dia inteiro pelo condado de Meath, que fica ligeiramente acima do condado de Dublin, e onde a gente cruza com a história a cada passo que se dá …

Brú na Bóinne era o meu principal destino, não só daquele dia mas de toda a viagem! Era um dos motivos que me levaram até aquele país e àquela zona!

E sentia-me particularmente feliz por poder realizar mais um dos meus objetivos, depois de, no dia anterior ter ido ao mosteiro de Clonmacnoise, a minha lista de destinos estava quase realizada… que bom!

O centro de visitantes está bem servido de parques e o espaço para as motos é grande e bem posicionado.

A minha bonequinha ficou muito bem acompanhada por uma prima branca de nacionalidade espanhola!

Não cheguei a ver o dono da branquinha, uma pena, mas aquilo é tão grande que andávamos uns por cada lado e não nos cruzamos! Até que achei piada à moto em branco!

Brú na Bóinne é um complexo neolítico impressionante, composto por 2 zonas visitáveis Newgrange e Knowth. As pessoas ficavam meio desorientadas sobre qual escolher mas eu tinha o tempo todo do mundo, por isso fui visitar os dois! Eu sabia o quanto aquilo era bonito… para mim, pelo menos!

Embora Newgrange seja mais conhecido e procurado pelos turistas, Knowth é, para mim, mais impressionante.

Estas construções espantosas, são anteriores às pirâmides do Egito, por isso dá para imaginar o meu fascínio a caminhar por ali!

Estamos perante construções do neolítico, lá pelos 3000 a 2000 aC, que foram ficando subterradas e que pareceram colinas por muito tempo!

Durante séculos, gerações e civilizações viveram ali, sem saberem que por baixo dos seus pés algo muito mais antigo e extraordinário estava subterrado!

E tudo foi preservado por essa terra que permitiu que nada se estragasse até um dia alguém descobrir e começar a escavar e encontrar…

As pedras gravadas estão perfeitamente intactas, são tantas mais de 100 dizem, só em torno do grande monte… deslumbrantes!

E os alinhamentos não se faziam só com pedras! Eles faziam-nos também com troncos, provavelmente teriam uma cobertura!

E são tantos os montinhos! São 18! Os arqueólogos dizem que eram túmulos!

Se pensarmos que Knowth contém um terço da arte rupestre em toda a Europa Ocidental, podemos entender melhor a importância daquele sítio!

No total são mais de 200 as pedras gravadas que foram encontrados nas escavações de Knowth.

Pode-se entrar numa câmara do grande monte

Mas o fascínio está cá fora mesmo!

De cima do grande monte pode-se ver a redondeza e ao longe Newgrange e o seu grande monte!

Hoje há uma escadaria para subir o monte, em épocas passadas subia-se por um carreiro de terra batida!

Há alinhamentos de pedras com a porta de entrada, o que mostra conhecimentos astronómicos e solares!

E ali em cima viveram populações da era do bronze, medievais e normandas, como se aquilo fosse uma colina, sem imaginarem que era um monte artificial construído por alguém antes deles! Não é fantástico?

Depois da visita a Knowth, voltamos ao centro de visitantes para voltar a apanhar um novo autocarro para ir a Newgrange.

E Newgrange é a estrela do local e, juntamente com Knowth, foi designado como Património Mundial pela Unesco.

“Newgrange foi construído há 5.000 anos (cerca de 3200 aC), sendo por isso mais antigo que o Stonehenge na Inglaterra e a Grande Pirâmide de Gizé, no Egito. Newgrange foi construído durante o Neolítico ou Nova Idade da Pedra por uma comunidade agrícola que prosperou nas ricas terras do vale do rio Boyne.“

A porta está “protegida” por pedras gravadas de uma beleza espantosa… a guia falava e eu ouvia a sua voz ao longe, completamente hipnotizada pelo que via!

Embora se fale em Newgrange como um túmulo, eu não vi aquilo assim e os arqueólogos parece que também já não! Eu vi como um templo que teria outras finalidades que não enterrar gente!

A forma como está construído, as pedras decoradas e o alinhamento do sol aquando do solstício… leva-me para um templo, um lugar de importância astrológica, espiritual, religiosa e cerimonial!

Não se pode fotografar lá dentro, não sei porquê já que não há nada que se estrague!

Uma câmara cruciforme tem todo o ar de templo, como uma igreja ou uma catedral, pequena, debaixo da terra e, num momento único, quando o sol se alinha, o solstício, entra por uma frincha e desenha um rasto de luz no chão, quando o escuro e o frio inverno se vai e se anuncia o início da primavera!

Ora num túmulo esses requintes de refinado conhecimento não teriam qualquer utilidade!

Andei por ali, não havia muito mais para ver ou desenhar mas apetece sempre dar mais uma olhada antes de partir, afinal eu não vou voltar ali amanha!

E lá segui o meu caminho porque havia mais coisas antigas que eu queria ver na zona! Da rua eu ainda podia ver o monte de Newgrange…

(continua)

11. Passeando por caminhos Celtas – atravessando a ilha, de Galway até Dublin

6 de agosto de 2014

De Galway até Dublin são cerca de 200 km que se fazem nas calmas em pouco mais de 2 horas, mas acabei por fazer mais do dobro dos quilómetros e demorar todo o dia a chegar de um lado da ilha até ao outro! Fantástico não é?

Quando confiro as horas em que tirei a primeira foto e a ultima, constato que demorei 16 horas naquele caminho! Depois ao passar os olhos pelas fotos e ao tentar escolher algumas para relembrar todo o dia, a enorme dificuldade na escolha explica bem todo o tempo que demorei naquele caminho… foi um dia lindíssimo!

A primeira foto foi no hostel quando me preparava para tomar um “pequeno-grande-almoço” e decidia o que iria ver.

Há dias assim, em que me apetece ver tudo, fazer tudo, mas tenho consciência de que não pode ser, por isso há que traçar um plano e ir andando e ir vendo!

Ora os meus planos não são sempre cheios de lógica, por isso decidi ir para a costa este antes de me dirigir para costa leste. Logica decisão não é?

A lógica é que seu sabia que ali havia muita coisa bonita para ver e que eu não podia partir sem conferir um pouco, pelo menos!

Quando preparava a minha motita para partir, reparei que aparecíamos refletidas na montra em frente, não resisti em registar o momento! Acho sempre giro, mais tarde, relembrar o aspeto que ambas tínhamos durante a jornada!

Claro que, como sempre, antes de partir dou uma voltinha pelo sítio onde estou. Galway não é a cidade mais espetacular que conheço, mas tem pormenores bonitos. Naquela despedida decidi ver aquela enorme igreja por onde eu passara varias vezes.

A Cathedral of Our Lady Assumed into Heaven and St Nicholas é uma igreja extraordinária!

Tem pouco mais de 50 anos de vida e é um edifício surpreendente. Olha-se para ela de fora, construída em pedra cinzenta, e não se adivinha a luz, o espaço e a beleza interior!

Tem planta cruciforme e o altar fica no ponto onde a nave se cruza com o transepto, o que faz com que haja filas de bancos alinhados em todas as direções e a gente quase perca a noção de que lado entrou!

Por cima do altar fica uma cúpula com mais de 40 metros de altura, com uma luminosidade diferente para o interior e é visível, no exterior, a partir de quase toda a cidade. Uma construção recente cheia de referências e influências do passado, muito interessante!

Logo ali fica o rio Gaol e demasiada confusão para que me apetecesse ir ver a igreja medieval da cidade. Terá de ficar para a próxima vez!

Passeei pelo rio um pouco, seria a última imagem da cidade!

E segui para a costa este, que eu tinha muita vontade de conhecer! Eu sabia que teria estradas lindas junto ao mar para fazer, mas o caminho começou bem antes a maravilhar-me!

Ruínhas desertas, montes e vales, rios e lagos, tudo tão quase irrealmente lindo.

Eu dirigia-me para a “Wild Atlantic Way” e tudo era tão bonito mesmo antes de lá chegar!

Cada paisagem, cada enquadramento parecia ou merecia um desenho! Não, merecia um quadro!

Então eu parava e focava mais a minha atenção e havia casas, lagos, arvores e todo um cenário de encantar! Sim, tive de desenhar de vez em quando!

E no meio do lago havia pequenas ilhotas e um castelinho em ruinas…

Lá em baixo vi o Clifden Castle… a tentação era grande de o ir ver de perto.

mas eu podia ver que o acesso se fazia por um caminho de terra e não me apetecia nada meter por ali a moto ou, pior ainda, caminhar para caramba até lá…

sobretudo sabendo que havia tanta paisagem deslumbrante para ver por ali. Decidi pelas paisagens, se um dia eu voltar ali, não me esquecerei de ir até ao castelo.

A ruínha era tão inspiradora, eu passeava pelo Connemara National Park e a ruínha que fazia tinha um nome muito inspirador: the Skye Road Loop!

A vantagem de fazer uma rua daquelas de moto é que se pode parar a todo o momento, desde que se encosta bem à berma, pois se formos de carro nem pensar, há que ir atento e procurar uma “orelha” próxima para se meterem e permitirem o cruzamento!

Oh, e as vezes que eu parei!

Ao voltar fiz outro caminho, uma rua mais civilizada, sem jardim no meio e tudo! Um pouco mais acima da outa e com uma perspetiva diferente a paisagem.

Mas eu sou um pouco irrequieta e fazer uma rua com um piso tão bom não foi por muito tempo! Havia algo que eu queria ver e lá meti a motita por caminhos menos aconselháveis! Ela não é uma trail mas já está habituada!

Eu sabia que valia a pena ir espreitar lá para baixo!

Voltei a passar em Clifden, mas só vi a cidade “por cima”

porque o Connemara National Park é logo ali e é deslumbrante!

Tudo estava perfeito, o céu azul com nuvens deslumbrantes, os lagos, os montes, parecia artificial!

Houve momentos em que parecia que estava na ilha de Skye, na Escócia!

Oh, as vezes que eu parei e o tempo que fiquei parada de cada vez!

Tudo era tão perfeito que tinha a sensação que fotografia nenhuma, desenho nenhum, conseguiria captar o que os meus olhos viam!

Mas na realidade era a minha grande satisfação que me fazia sentir quase eufórica de prazer e me fazia temer não conseguir guardar o momento para sempre…

E cheguei à Kylemore Abbaye

Na realidade aquilo era um castelo construído só séc. XIX e só se transformou em abadia depois da I Grande Guerra, em 1920, quando freiras beneditinas vinda da Bélgica, o compraram. E as freiras mantiveram a abadia em funcionamento com uma escola para meninas católicas até 2010!

Ali ao lado fica o Pollacapal Loch que quase se liga ao lago maior, o Kylemore loch, que me acompanhara no caminho para ali.

É impossível não tirar um milhão de fotos ao local!

O palácio estava cheio de gente dentro, que não se mexia, apenas estava por ali a conversar e a tirar fotos junto de tudo o que pudesse!

Dei a volta e fui-me embora para os jardins que, sendo maiores, não deviam estar tão cheios paparazzi!

Há ali uma igreja que chamam gótica, mas é neogótica, claro. Até as gárgulas são anjinhos em vez de monstrinhos!

Bonitinha e pequenina, com um teto muito bem conseguido!

A igreja é praticamente da largura do altar-mor! Muito fofa!

Depois há os jardins vitorianos, muito bonitos e coloridos.

O tempo já não estava nada simpático e começava mesmo a chover…

uma pena pois eu queria ver muitas coisas e agora sim, estava um bocado longe do meu destino daquele dia! por isso segui sem parar mais para leste.

No meio do país ficava um dos meus grandes destinos daquele dia e daquela viagem.
The Monastery of Clonmacnoise era um dos sítios históricos que eu queria muito visitar. Espantoso, antigo, impressionante… sagrado! Fundado no séc. VI remonta aos primeiros tempos da cristandade por terras celtas.

Simplesmente espantoso, com o seu cemitério impressionante e as suas cruzes únicas e extraordinárias!

São 3 as grandes cruzes que eu queria ver: North Cross – a Cruz do Norte, lindíssima e a mais antiga das cruzes de Clonmacnoise não é mais uma cruz, é apenas o tronco principal

A South Cross – a Cruz do Sul, gravada com pregos redondos e uma cena da crucificação.

e a Cross of the Scriptures – a Cruz das Escrituras, a mais bonita e a que me apaixonou completamente! 4 metros de cruz!

Eu gosto de tirar fotos sem ninguém por perto, mas ali esperei que as pessoas se chegassem para poder ter um termo de comparação, alguém que fizesse de escala, para se poder ver a dimensão da obra! É grande!

Não resisti, peguei no meu livrinho e pus-me a desenhar. Um senhor que andava por ali, tão maravilhado quanto eu, quis a todo o custo comprar-me um desenho! Mas eu não queria arrancar a folha do livro, então ele foi pedir uma folha de papel ao balcão da receção e eu fiz-lhe um. Tive de aceitar 30£ depois, ou ele não me largava!

Desenhei as 3 mas mostro aqui a que mais gosto!

Estas 3 cruzes e algumas lajes e pedras gravadas, foram movidas para o interior do centro de interpretação e, no seu lugar foram colocadas réplicas perfeitas, para proteger património tão extraordinário.

Tinha voltado um pouco de sol, só para alegrar a minha visita exterior ao cemitério e mosteiro. Perfeito!

Uma pinguita de chuva de vez em quando, mas nada de especial, a menos que acerte na lente!

Lá estava uma das réplicas. Obra espantosa! Depois de ter estado junto da original já nem tinha a certeza se tinha lido bem, pois esta também me parecia original!

Exatamente em frente à porta do mosteiro fica a “minha” cruz das escrituras… linda e perfeita como a original!

O mosteiro tem dentro tumbas e cruzes, como acontece em toda a Irlanda, o que permite enquadramentos curiosos!

As pessoas junto das cruzes pareciam tão pequenas…

“Eu queria muito vê-las… e elas estavam mesmo por todo o lado, as cruzes celtas! Tão belas e misteriosas a levar-me para histórias antigas de fadas e druidas. E a levar-me também para cemitérios e ambientes cheios de significado. Eu sempre apreciei estes climas de intensas sensações e a Irlanda proporcionou-me muito mais do que eu pudera imaginar, em entardeceres que provocaram arrepios de prazer e respeito que percorrerem a minha coluna a cada momento…”

O cemitério que o rodeia é utilizado até hoje e ali se celebram serviços religiosos regulares, por isso há no local uma construção moderna em vidro, que faz lembrar a capela das aparições em Fátima, só que mais modesta e discreta. A sensação de pisar aquele solo foi muito forte e curiosa…

E a chuva voltou de novo e eu fui embora para Dublin toda satisfeita porque tinha conseguido ver o que queria. Dei umas voltas e fui encher-me de comida para um self-service chinês, que a fome já era negra!

A comida era muito boa e muita! Exatamente o que eu precisava!

E fui para casa de naquele dia era em Dublin!

E foi o fim do 9º dia de viagem!

10. Passeando por caminhos Celtas – o condado de Galway

5 de agosto de 2014

Havia tanta coisa que eu queria ver por ali e, de repente, apercebi-me que era tudo cemitérios, ruinas, castelos e mar!

“valha-me Deus, pareço um rato de cemitério a catar tumbas!”

Que se lixe, cada um gosta do que gosta e eu não podia deixar de ver o que tanto me atraia naquele país! Ok, de uma próxima visita verei outras coisas, nesta vou às cruzes!

Pronto, também não vi só ruinas e cemitérios! As casinhas por ali continuavam a fascinar-me, então as de telhado de colmo eram deliciosas! Consegui desenhar umas quantas para juntar à minha coleção de janelas, castelos e cruzes!

E havia-a sofisticadas mas também simples e fofinhas, como casinhas de bonecas!

Dirigia-me a Kinvarra, uma pequena vila piscatória que tem um castelinho muito fofinho à entrada!

O Dunguaire Castle é uma construção do séc. XVI que fascina pela sua beleza simples e pela sua localização encantadora, sobre a baia de Galway!

Há histórias e lendas associadas ao castelo e ao seu lord, uma lenda conta que o rei, King Guaire, era muito generoso e que, mesmo depois da sua morte, o continuou a ser e que um mendigo que ele sempre ajudara visitou o seu tumulo murmurando “King Guaire, even you cannot help me now.” e naquele momento a mão do rei deixou cair algumas moedas aos pés dele, como sempre fizera em vida!

Mas a lenda que me cativou mais foi aquela que diz que, ainda hoje, se uma pessoa fizer uma pergunta junto do portão da frente, ela terá uma resposta no final do dia. Não experimentei… de repente eu não tinha nenhuma pergunta para fazer, como é possível?!

Está aberto no verão, não se paga nada e não tem muito o que ver lá dentro, apenas o pátio e a torre. Mas é bonitinho sim senhor!

Logo a seguir fica a vila e o castelo é visível da berma da estrada por algum tempo!

A gente pára um pouco e tudo é bonitinho por ali!

E a vila é um sossego, com a baía do outro lado da estrada, que inspira para parar e relaxar!

“Quantas vezes parei, quantas vezes fiquei quietinha na berma de uma estrada, de um rio, de um lago, apenas a contemplar? O segredo é não pensar, não me preocupar com o que há mais para fazer para além disso mesmo, contemplar! Porque há momentos únicos, que não se repetirão numa viagem, mesmo que eu volte a passar no mesmo sítio por qualquer motivo. É assim e pronto, o espirito vai-se, a sensação perde-se e a surpresa já não existe. Por isso cada momento deve ser vivido como se nunca mais se voltasse a repetir, porque não se repetirá mesmo!”

Fixando bem, ao longe, do outro lado da água…

Lá estava ele…

Finalmente decidi-me a seguir para algures, claro que sempre escolhendo grandes avenidas com ótimo piso… ao ponto de temer voltar-me de pernas para o ar com a qualidade do alcatrão!

Quando, quilómetros depois, passei por uma placa que falava de um tal Cloonacauneen Castle! “Boa, vou lá vê-lo!” e segui por caminhos e ruínhas estreitinhas, entre campos de cultivo e pequenas localidades, sempre me maravilhando com umas coisas e outras até chegar a ele.

Era tão lindo, bem enquadrado, com a torre forrada a heras, um sonho! Mas era um restaurante, uma espécie de quinta para eventos e eu não podia visita-lo. Que pena! Andei por ali a espreitar por cima dos muros. Um castelo normando do séc. XV simplesmente encantador!

Paciência, não dá para ver de mais perto vê-se de mais longe! Depois não faltam coisinhas lindas para ver, casa por exemplo, que eu adoro!

… e os cemitérios…

São tão frequentes os cemitérios com uma abadia em ruinas no meio que a dada altura eu já não pararia em todos, ou ainda por lá andaria a cata-los! Mas há ali uma atmosfera que me fascina, isso há!

A Annaghdown Cathedral é do séc. XII e só tem as paredes em pé, mas tem uma janela românica espantosa!

Parece que ficou em ruinas há muitos séculos, entre guerras e lutas…

E lá estavam elas, as cruzes, cheias de liquens que as tornavam ainda mais espantosas!

Escrevia eu no meu Facebbok:

“A Cruz Celta sempre me fascinou, tão anterior ao cristianismo e no entanto uma cruz! Podem-se encontrar por todas a zonas celtas, mas a Irlanda está cheia delas, desde as originais até às versões mais recentes. E são lindas! A cruz do sol, dedicada ao deus Odin pode representar os 4 elementos. Hoje está também associada à religião cristã, afinal os celtas também se foram convertendo ao cristianismo. Para mim será sempre a «cruz daqui»!”

E então o perfil do cemitério relvado, com as cruzes incertas, em contraste com o céu cheio de nuvens sugestivas, foi o êxtase total para mim! Sentei-me numa tumba e desenhei, pois então!

Há por ali mais vestígios das construções da abadia a completar o quadro, com uma relva que quase parece almofadas debaixo dos nossos pés, de tão fofa e espessa que é!

Lá voltei às ruelas e ruínhas e segui até ao lago, o Loch Corrib!
A bem dizer eu nunca sabia se o que via era mar ou lago, porque ali há de tudo e por todos os lados! E o lago dali é simplesmente enorme, de perder de vista!

Pus-me a desenhar barcos, pus-me a desenhar tudo! Afinal eu nem queria ir muito longe, apenas queria curtir o estar ali!

E tem um castelinho e tudo! Pelo menos onde eu andava, porque do outro lado deverão haver outros, já que aquilo é tão grande e os antigos sempre gostavam de pôr os seus castelos ou em cima das colinas, ou na berma dos lagos! Dizem que o condado de Galway tem mais de 200 castelos!

Fui procura-lo, queria vê-lo mais de perto!

Mas não dava, era privado e não dava para aproximar, uma pena!
Castelos privados, é o que há mais por ali! Como será ser proprietário de um castelo, só nosso, privado?

Acho que a mim me bastaria ser proprietária de uma pequena casinha encantadora, de telhado de colmo! Grande nau, grande tormenta e sustentar um castelo não há-de ser barato!

Voltei a parar, voltei a desenhar, que coisinha linda!

E sim, logo a seguir havia outro!

Um castelinho branco! Embora à primeira vista possa parecer que terá sido adulterado, isso não é verdade. O castelinho, é do séc. XVI e foi restaurado de acordo com o aspeto que ele teria na época!

Na realidade ele é uma torre/casa fortificada que tinha como finalidade proteger os seus habitantes e não uma população!

E as mansões sucediam-se! Vive-se bem naquele país!

De repente uma ruina por trás das mansões! Cruzes, o que é aquilo, sem qualquer indicação? Se fosse na Inglaterra teria uma dúzia de placas a indicar o monumento, mas ali não tinha nada!

Eu até podia nem descobrir o que era, mas iria até o mais perto que pudesse! Segui por carreiros de cabras enquanto a moto passou, até chegar a um portão. “Ok, mais uma propriedade privada!”

Pousei a moto, avancei a corrente que fazia de porta e fui caminhando pelos campos.

Ao olhar para trás podia ver a minha motita a ficar longe, perdida no meio do verde!

E lá estava ela, uma abadia em ruinas, imponente!

Então, quando estava a chegar perto… havia um riacho que não me deixava ir até ela..

Bolas… amuei, sentei-me por ali, tirei um milhão de fotos iguais umas às outras e fui embora.

Acabei por descobrir depois que se chama Abbey Ross, que pode ser visitada, mas não indo do lado que eu fui. É do séc. XV, é franciscana e é uma das ruinas mais bem conservadas da irlanda, do tempo em que a religião católica era oprimida na irlanda.

Bela bosta, a visitar será de uma outra vez…

Segui pelo mapa acima ainda por alguns quilómetros até Castlebar, sem ver nada de especial para além de ruínhas e ruelas encantadoras.

Parei para fazer um picnic num jardim muito bonito com direito a rio e tudo.

Com gente gira a passear os cachorros!

Então, quando já não pensava em mais nada senão no meu caminho lindo, na música nos meus ouvidos e no prazer de conduzir, uma torre redonda despertou-me do meu piloto automático!

Puxa, uma torre redonda!

O que eu gosto daquelas torres tão típicas por aquelas terras!

As Irish round towers são aquela coisa que eu apenas vira em livros e sites da internet e eu tinha previsto ver algumas, mas não ali, não naquele dia e estava ali uma! Wow!

Em irlandês chamam-se “Cloigthithe” o que quer dizer “torre do sino” e são torres medievais, lá pelos séc. IX e XII, o que as leva para o românico e não se tem muita certeza da sua finalidade, se eram mesmo sineiras, ou refugio protetor ou de vigia contra os Vikings.

Uma coisa é certa, estão sempre junto de igrejas e muitas vezes a sua presença ajuda a descobrir igrejas desaparecidas, basta procurar perto da torre que estarão lá as fundações!

Adorei aquele momento inesperado, voltei a sentar-me numa tumba e apreciei o momento, com a minha motita lá ao fundo na estrada a olhar para mim…

Logo ali à frente fiz amizade com uns meninos muito engraçados!

Gostaram de mim, chegaram-se perto e tudo. Fiquei a saber que gostam de chocolate, era tudo o que eu tinha e dei-lhes um bocadinho!

Cheguei a Ballina sem vontade alguma de visitar cidades ou ver gente! Chovia, as pessoas estavam encolhidas nas entradas das lojas e eu segui com uma ou duas fotos gerais do rio e mais nada!

E fui embora para casa, que naquele dia era em Galway.

E foi o fim do 8º dia de viagem…